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Pré-visualização do livro
Cale-se para sempre - Thais Bergmann
PORMENOR, 2024
Autora: Thaís Bergmann
Revisor: Vinícius Rizzato
Arte de capa: Vitor Castrillo
Diagramação: Carol Dias
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD
B499c
Bergmann, Thais
Cale-se para sempre [recurso eletrônico] / Thais Bergmann. - Guaratinguetá : Editora Pormenor, 2024.
ePUB.
Inclui índice.
ISBN: 978-65-6057-616-2 (Ebook)
1. Literatura brasileira. 2. Romance. I. Título.
CDD 869.89923
2024-876
CDU 821.134.3(81)-31
Elaborado por Vagner Rodolfo da Silva - CRB-8/9410
Índice para catálogo sistemático:
1. Literatura brasileira : Romance 869.89923
2. Literatura brasileira : Romance 821.134.3(81)-31
Sumário
Início
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Epílogo
Sobre a Pormenor
Capítulo 1
O ladrão de calcinhas é esperto!
— Não, não, não — resmungo enquanto vasculho a pilha de roupas que acabei de tirar da máquina. — De novo, não!
Reviro ainda mais as peças, sem me preocupar se as estou amassando ou derrubando no chão. Mas não importa o quanto eu procure, não consigo encontrar uma única calcinha. Nenhuma das oito calcinhas que coloquei lá dentro saíram da máquina.
— Eu vou matar esse pervertido! — grito entredentes, mesmo que não tenha mais ninguém na lavanderia para me ouvir.
Coloco tudo dentro do cesto e marcho com tanta raiva até a portaria que minha visão fica turva por um momento. Quando volta ao normal, encontro um Jorge com o cenho franzido e uma careta, me encarando.
— De novo? — O porteiro rouba um olhar em direção à pilha de roupas, a careta se intensificando ainda mais.
— De novo! — Sei que a culpa não é dele, mas não consigo conter o rugido de frustração que sobe pela minha garganta.
— Pode ficar à vontade. — Ele dá um passo para o lado e abre espaço para que eu entre na casinha da portaria.
O cômodo é minúsculo, não faço ideia de como Jorge e os outros porteiros conseguem passar o dia ou a noite toda aqui sem ter uma crise de claustrofobia. Mas é o que se pode esperar de um prédio onde tudo é tão pequeno que os apartamentos sequer têm área de serviço e os moradores precisam recorrer a uma lavanderia comunitária.
Largo o cesto no chão e me sento na cadeira, tão impaciente que quase derrubo a caneca cheia de café em cima da mesa.
— É melhor eu tirar isso daqui. — Jorge se estica por cima de mim para salvar a bebida e seu celular.
— Desculpa. — Me encolho, envergonhada pelo meu comportamento.
Mas não consigo me conter. Posso sentir a raiva borbulhando pelo meu corpo até meus dedos, que tremem enquanto procuro a gravação.
É um arquivo único porque o condomínio não tinha dinheiro suficiente para um sistema de vigilância que armazenasse vídeos por mais de 24 horas. E é por isso que tenho que correr: oito horas da manhã ele é apagado automaticamente.
Espio o relógio: 07:32.
Tenho vinte e oito minutos, o que deve ser tempo suficiente para encontrar o ladrão de calcinhas. Meu maior problema é que meu trabalho começa às oito e meia; vou ter que correr muito se não quiser me atrasar.
Acelero a gravação até às nove da noite, o horário em que coloquei as roupas para lavar. Depois disso, alguns moradores entram e saem, mas ninguém toca na nossa máquina até às onze, quando Estela, minha colega de apartamento, aparece para tirá-las da máquina de lavar e colocá-las na de secar.
Ela não confere se as calcinhas continuam lá, mas sei que sim, porque ninguém além dela mexeu ali.
Olho de novo para o relógio: 07:39.
Preciso acelerar um pouco se quiser descobrir algo antes das oito.
Com os olhos semicerrados de concentração, vou pulando de dez em dez segundos. Demora tanto para alguma coisa acontecer que até acho que a imagem travou. Mas eu me recuso a desistir. É hoje que vou descobrir quem é o ladrão de calcinhas!
E então, do nada, ele aparece.
Meu coração acelera, como se eu estivesse em meio a uma investigação policial para desvendar um assassinato.
Volto à gravação, esperando ver pelo menos um vislumbre do seu rosto enquanto entra na lavanderia, mas é impossível. Ele sempre toma cuidado de usar um capuz e entrar com a cabeça abaixada. Ele abre todas as máquinas desligadas e vasculha uma a uma, tirando apenas as calcinhas lá de dentro. O processo todo demora quase dez minutos, mas como foi durante a madrugada, ninguém aparece para pegá-lo no flagra.
O nosso maior problema é que, apesar de estar fazendo isso há anos, o ladrão de calcinhas é esperto. Ele não ataca todos os dias. Na verdade, acho que não ataca nem todos os meses. Então, não adiantaria montar vigília na lavanderia — eu considerei essa possibilidade em mais de uma ocasião. Nós precisamos contar com a sorte ou com algum deslize dele.
Mas não é agora que ele vacila. O ladrão passa por todas as máquinas e se vira, ainda curvado, com uma pilha de calcinhas na mão. Como se não tivesse nada a temer, anda a passos lentos para o corredor.
— Que inferno! — Bato com o mouse na mesa, precisando descontar a frustração em alguma coisa.
— Não foi dessa vez, Kira? — Pela voz grave e baixa, Jorge parece realmente chateado por mim.
— Não foi. — Solto um grunhido e saio da frente do computador.
A única solução seria colocar câmeras em todos os andares para acompanhá-lo até o próprio apartamento. Cheguei a propor isso em uma reunião do condomínio, mas a resposta que me deram foi: é muito mais barato comprar calcinhas novas.
E tudo bem, pode até ser, mas é uma questão de princípios!
Volto para casa com os ombros caídos. A manhã mal começou e já estou tão desanimada que gostaria de voltar para a cama e fingir que nunca me levantei. Mas não posso fazer isso; corro um sério risco de ser demitida se faltar mais algum dia — mesmo que finja estar doente de novo.
O que me lembra de que preciso correr se não quiser me atrasar e levar mais uma advertência.
Largo o cesto em cima da nossa bancada de cozinha, que serve também como mesa de jantar, escrevo um rápido bilhete com precisamos de novas calcinhas
para Estela e me apresso porta afora. Agora que a raiva e a euforia passaram, percebo que não valeu a pena me atrasar por isso.
Corro até o elevador e chamo um Uber em vez de pegar o ônibus como sempre. Mas nem isso é o suficiente para que eu chegue no horário. Bato o ponto exatamente às oito e trinta e nove.
A recepcionista me cumprimenta quando passo por sua mesa, sua boca torcida em um claro sinal de pena, e me avisa que Lúcia, minha chefe, pediu que eu passasse na sala dela mais tarde.
Ela com certeza quer ter mais uma conversa sobre responsabilidades
. Sei que tem razão quando diz que eu deveria me esforçar mais para chegar no horário, mas ela também poderia se esforçar para entender meu lado.
Não é minha culpa o fato de minha vida estar completamente fora dos eixos!
Só comecei a trabalhar na Inova depois que tudo desmoronou. Há dois anos, eu tinha um emprego que adorava na empresa do meu ex-namorado, estava aguardando meu pedido de casamento e fazia planos para as nossas férias juntos. De repente, ele estava me largando pela secretária e eu não tinha mais nada.
Será que Lúcia não consegue compreender que preciso de um tempo para me reerguer? É tão difícil assim passar por cima de um ou outro atraso? Principalmente quando tem um tarado de calcinhas envolvido?!
Sem contar que a Inova também não faz a sua parte. Fui contratada
