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Escravo da maldade
Escravo da maldade
Escravo da maldade
E-book429 páginas3 horas

Escravo da maldade

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Sobre este e-book

No início do século XX, a próspera família Amaro de Freitas constrói um império entre fazendas, comércios e influência no interior do Brasil. O patriarca Agnelo deixa como herança ao filho Aristides riqueza, poder, relações e segredos. Durante décadas, a família parece intocável, respeitada, admirada e temida.

Com o passar dos anos, essa herança atravessa gerações e chega às mãos de Tidinho, neto de Aristides. É a partir dele que o passado, cuidadosamente encoberto, começa a emergir. Mortes mal explicadas, alianças obscuras, crimes silenciados e personagens ambíguos revelam que por trás da tradição e do prestígio existe uma teia de corrupção, violência e manipulação.

Enquanto a cidade cresce e novas figuras surgem (policiais, políticos, empresários, criminosos e inocentes arrastados pelo sistema), Tidinho se vê cercado por forças que não compreende totalmente. Preso entre o legado da família e a própria consciência, ele passa a investigar acontecimentos que muitos fariam de tudo para manter enterrados.

Um romance de ficção marcado por drama, suspense e crítica social, que percorre décadas da história brasileira para mostrar como o mal pode ser cultivado, herdado e naturalizado. Uma narrativa intensa sobre poder, culpa, escolhas e o preço que se paga quando se vive à sombra de um passado que se recusa a morrer.
IdiomaPortuguês
EditoraLiterare Books
Data de lançamento30 de jan. de 2026
ISBN9788594555878
Escravo da maldade

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    Escravo da maldade - Ewaldo Jossant

    Copyright © 2026 by Literare Books International

    Todos os direitos desta edição são reservados à Literare Books International.

    Presidente do conselho: Maurício Sita

    Presidente: Alessandra Ksenhuck

    Diretor de negócios: Jorge Takeda

    Diretor de relações institucionais: Marcel Spadoto

    Diretora de projetos: Gleide Santos

    Gerente editorial: Anselmo Vasconcelos

    Editor: Fernando Curti

    Assistente editorial: Hellen Souza

    Design de capa, projeto gráfico e diagramação: Gabriel Uchima

    Imagem de capa: Freepik

    Revisão: Leonardo Firmino e Luiz Henrique Soares

    Impressão: Printi

    Literare Books International Ltda.

    Alameda dos Guatás, 754 – Moema – São Paulo, SP.

    CEP: 04081-004

    Fone: +55 (0**11) 2659-0968

    site: www.literarebooks.com.br

    e-mail: literare@literarebooks.com.br

    APRESENTAÇÃO DOS PERSONAGENS

    EM ORDEM ALFABÉTICA

    Agnelo Amaro de Freitas: fazendeiro e empresário influente.

    Agente: funcionário da delegacia local.

    Alonso: integrante da quadrilha de Fala Mansa.

    Amélia Amaro de Freitas: filha de Aristides.

    Anastácia Corrêa de Freitas: patroa severa e tradicional.

    Aristides Amaro de Freitas: fazendeiro e empresário próspero.

    Aristides Amaro de Freitas Neto (Tidinho): Herdeiro e protagonista.

    Arnaldo: Agente carcerário rígido.

    Bacana: intermediário de negócios ilícitos (pessoa secreta).

    Célia Bastos de Souza: operadora de caixa dedicada.

    Célio: mecânico de automóveis simples.

    Cleide Alves de Souza: funcionária de prefeitura local.

    Clementina Nogueira de Freitas: patroa e esposa de Aristides.

    Dirceu: policial civil experiente.

    Edevan: vereador ambicioso e corrupto.

    Ewerton: agente de vendas ferroviário.

    Fala Mansa (Júnior): chefe de quadrilha disfarçado.

    Jeremias Bastos de Souza: capataz de fazenda leal.

    Joana: diretora de faculdade respeitada.

    Jorge Ferreira dos Santos: pedreiro e carpinteiro trabalhador.

    Júnior: identidade falsa usada por Fala Mansa.

    Karolina Ferreira dos Santos: dona de casa dedicada.

    Kátia Ferreira dos Santos: babá e empregada doméstica.

    Kleber: pai de Olavo; racional.

    Kledir: delegado de polícia local.

    Locutor: voz de rádio reveladora.

    Luiz Bastos de Souza: gerente de loja alimentícia.

    Marcos: amigo de Odair; jogador amador.

    Odair: poceiro humilde e sonhador.

    Odilon: integrante secundário da quadrilha.

    Olavo Alves de Souza: estudante e investigador amador.

    Perez: gerente de banco financeiro.

    Recepcionista: funcionaria de câmara municipal.

    Rita: dona de casa carinhosa.

    Roberto Alcântara de Albuquerque: professorde medicina (vítima).

    Rômulo: delegado de polícia veterano.

    Salmo: mensageiro e intermediário fiel.

    Samuel: mestre de obra e líder.

    Sandro Bastos de Souza: capataz de fazenda disciplinado.

    Torrão: preso influente e enigmático.

    Valdir: agente carcerário auxiliar.

    Estado do Rio de Janeiro, domingo,

    19 de janeiro de 1913.

    Está acontecendo uma festa na casa do empresário Agnelo Amaro de Freitas, numa chácara urbana na cidade de Angra dos Reis (RJ). Trata-se da festa de casamento de Aristides Amaro de Freitas (filho do empresário) com Clementina Soares de Freitas, filha de um compatriota do empresário (que passa a ter o sobrenome Freitas, a partir do casamento).

    O evento é realizado no interior do Rio de Janeiro, mas a família italiana mora na Cidade Maravilhosa.

    Uma das famílias mais ricas do estado fluminense, o casal de italianos, senhor Agnelo Amaro de Freitas, a esposa Anastácia Corrêa de Freitas e o único filho, Aristides, na época com dois anos de idade, chegaram ao Brasil no ano de 1893.

    De família tradicional e, por ser filho único, Agnelo herdara toda a riqueza dos pais após as mortes naturais de ambos (em épocas distintas). Alguns anos depois, decidiu mudar-se para o Brasil, mantendo a tradição.

    Após a venda de um supermercado (de secos e molhados) e de uma fazenda de café e gado de corte, o italiano mudou-se do seu país de origem. Algumas semanas depois, já morando no Brasil, embora com dificuldade, entre outras coisas, de aprender a falar o idioma, Agnelo conseguiu o que desejava – não exatamente como havia planejado – e, no final de tudo, ficou maravilhado.

    O armazém, no centro da cidade do Rio de Janeiro, não fora difícil de adquirir, mas a fazenda pretendida só foi possível no interior paulista, mais precisamente entre as cidades de Birigui e Araçatuba, ao lado de uma linha férrea e a poucos quilômetros das duas estações, o que o fez se sentir um privilegiado, apesar de haver outros fazendeiros (antigos) nessa localidade.

    Nessa época, o escoamento de produtos encaminhados para os grandes centros comerciais, em geral, era feito sobre trilhos. E o deslocamento da origem dos produtos até as estações utilizava carros de tração animal. Já o gado de corte era conduzido por peões tropeiros.

    A princípio, não havia estrada nessa região que ligasse as duas cidades. Com o passar dos anos, mediante a utilização dos trechos entre os locais de saída dos produtos e as estações, foi se abrindo um trilho e, poucos anos depois, a pedido dos fazendeiros da época ao governo, construiu-se uma estrada de livre acesso, favorecendo a todos.

    Além dos requisitos que o italiano pretendia, havia, nessa fazenda, vacas leiteiras, cavalos, várias casas e um carro de tração animal. E, para a felicidade maior do novo proprietário, o café estava prestes a iniciar a colheita.

    Feliz com a sorte nesse negócio, Agnelo manteve os mesmos funcionários, entre os quais Jeremias, o capataz, homem de confiança do fazendeiro anterior que, sendo-o notificado a Agnelo, permaneceu exercendo a mesma função. O empresário ficou no comando da loja de alimentos na cidade do Rio de Janeiro, porém, sem deixar de marcar presença na fazenda, pelo menos uma vez por mês, deixando Anastácia, sua esposa, à frente dos negócios na capital fluminense.

    Após alguns anos, Aristides na fase da adolescência, nos períodos de férias da escola, fazia companhia ao pai.

    Com o passar do tempo, em 1911, Aristides, aos 20 anos de idade, tornou-se noivo de Clementina. Com o casamento marcado para o mês de janeiro de 1913, Agnelo aprontou uma proeza: no decorrer desse período, conhecendo a cidade de Birigui e percebendo que havia poucas lojas alimentícias no município, preparou uma surpresa para o filho, contratando alguns homens para a construção de um salão para um futuro supermercado de secos e molhados, nomeando Jorge, um carpinteiro e pedreiro bem-sucedido e de muita fama na região, como encarregado da obra.

    Cena 1: O Presente do Pai

    Domingo, 19 de janeiro de 1913.

    Agnelo (um homem branco, olhos azuis, cabelos grisalhos, 1,67 m, entre 75 e 80 quilos, no momento em que o sanfoneiro encerra uma música, chamando a atenção de todos, em pé sobre uma cadeira próxima a uma parede, diz, com o sotaque italiano misturado com o português).

    — Oi, gente! Buona notte a tudos.

    Todos (ainda que desorganizados no salão, correspondem).

    — Boa noite.

    Agnelo

    Io quero chiamare la atençon de tudos vocês, per ringraziare per la presenza de tudos. Entre outras cosas, io quero dire che oggi é uno de dias mas felici della mia vita. Sono molto orguglioso di questo mio figlio. Figlio que solo mi deu alegria ad oggi.

    O pessoal, agora formando um círculo ao redor do chefe da casa, o interrompe com aplausos. Entre as pessoas mais próximas à sua frente estão os noivos, de mãos dadas. Ao ouvir as palavras do pai dando-lhe referência, sem fazer qualquer comentário, Aristides, um jovem branco, olhos azuis, cabelos castanho-claros, 21 anos de idade, 1,78 m, entre 65 e 70 quilos, abre um leve sorriso.

    Agnelo (descendo da cadeira e se dirigindo alguns passos adiante, chamando o rapaz, diz, com a mão direita no bolso direito da calça).

    Per favore, figlio mio. Aproxime-se.

    (Aristides solta a mão da noiva).

    Agnelo

    No! Per favore! I due!

    (Pegando a mão da jovem, o casal se aproxima).

    Agnelo (tirando uma chave do bolso, diz, entregando-a).

    Questo qui é tuo primeiro presente de casamento.

    Aristides (sem entender, pergunta, pegando-a).

    — Chave de uma casa?

    Agnelo

    Non, esattamente. Ma la chiave del supermercato nella città di Birigui.

    Aristides (surpreso, exclama, abraçando-o).

    — Oh! Pai! Que surpresa maravilhosa! Um supermercado na cidade de Birigui?

    (Todos batem palmas).

    Agnelo

    Questo é o que mio padre fez per me, quando me casei. Ma calma!Ainda non acabou.

    Aristides

    — Como assim, pai?

    Agnelo (enfiando a mão esquerda no bolso esquerdo da calça, diz, tirando e mostrando outra chave).

    — Porque questo é la chiave do secondo presente.

    Aristides (admirado, exclama e, em seguida, se pergunta, cheio de felicidade, com o olhar direcionado ao povo).

    — Oh! Pai! Mas o que será agora, hein!?

    (Todos ficam na expectativa).

    Agnelo

    Questa chiave é do cancello da fazenda, che ora é il vostro.

    Aristides

    — Minha!? O senhor está me dando também a fazenda!?

    Agnelo

    — Isso mesmo, figlio mio. Spero che ti goste.

    Aristides

    — É claro que gostei, pai! Eu adorei! Mas não precisava tanto! A fazenda é o setor principal da renda da família.

    Agnelo

    So! Io sei. Ma agora sará la fonte di reddito della sua famiglia.

    Aristides (abraçando-o, agradece).

    — Obrigado, pai. Sei que o senhor sabe o que está fazendo.

    Agnelo (correspondendo ao abraço, diz).

    — Tu é mio figlio e sempre sará. (Em seguida, apontando o dedo indicador ao casal, exige.) Mas quero che me prometti una cosa: cuidar uno do outro até o fim della vita.

    Aristides (abraçando a noiva, responde).

    — Com certeza, pai! Nunca vou me esquecer disso que o senhor me disse.

    Clementina (uma jovem de 18 anos, branca, cabelos castanhos lisos e olhos castanho-claros, 1,63 m, entre 60 e 65 quilos).

    — Será para sempre, seu Agnelo. Amo muito seu filho.

    Agnelo

    — Nós também, ti amo cosí tanto, tesoro. Ah, stavo esquecendo uma cosa. (Ao chamar uma pessoa entre a multidão, diz.) Jeremias! Aproxime-se per favore.

    (Saindo, dentre a multidão, um homem negro, forte, com aproximadamente 40 anos de idade, 1,82 m, cabelos crespos e olhos pretos, entre 95 e 100 quilos, se aproxima).

    Agnelo (de perfil com Jeremias, diz, dirigindo a palavra aos convidados).

    — Pessoal! Presento uno delle mie capataz della azienda agrícola, este é Jeremias. É o mais antigo, tanto na idade quanto no tempo de servizio. (Virando-se para Jeremias, diz.) Estou entregando la chiave a mio figlio,ma tu continua sendo responsabile per azienda agrícola.La entrega della chiave a mio figlio era solo simbólica. (Pedindo a chave a Aristides e passando-a ao capataz, o agradece, saudando.) Grazie per quello che fez até agora.

    Jeremias (pegando-a, diz).

    — Não há de quê, doutor. Sinto-me muitíssimo honrado. Sempre foi um prazer e sempre será.

    Agnelo (dando tapinhas nas costas do capataz, o agradece novamente).

    — O prazer é tutto mio. (Dirigindo a palavra ao povo, diz.) Grazie a tutti vocês também. No mais, é tutto, pessoal. Fim de papo. Ora quero ver todo mundo dançando. (Dirigindo a palavra ao sanfoneiro, diz.) É com tu, agora, sanfoneiro!

    (E a festa prossegue noite adentro).

    Cena 2: Lua de Mel em Movimento

    Dois dias depois, 21 de janeiro de 1913.

    Com o predomínio do transporte ferroviário no país, os recém-casados viajaram por aproximadamente 11 horas, da Cidade Maravilhosa à capital paulista, onde ficaram por dois dias, visitando e conhecendo lugares famosos e importantes como a Praça da Sé, museus, entre outros.

    Cena 3: Sob a Chuva de luz

    Quinta-feira, 23 de janeiro de 1913;

    oito horas da manhã.

    Na Estação da Luz, os passageiros, à espera – entre eles, Aristides e a esposa –, embarcam no trem que, tão logo, dá início à partida. Alguns quilômetros depois, cai uma forte chuva.

    Algumas horas se passam.

    Cena 4: Portas da Fazenda

    Estação Ferroviária de Araçatuba (SP).

    Ao desembarcar e dirigir-se ao portão de saída, no saguão, Aristides olha para um relógio na parede, que marca 16h17. Nesse momento, no estacionamento do outro lado, Jeremias os aguarda ao lado de uma carruagem puxada por quatro cavalos, entre várias outras. Ao ver o casal se aproximando do portão, o capataz se aproxima, porém, para alguns metros antes, devido ao grande fluxo de pessoas.

    Jeremias (pouco depois, ao chegar o casal ao seu lado, pegando a única mala da mão de Aristides, os saúda).

    — Olá, patrão! Oi, patroa. Boa tarde. Como foram de viagem?

    Aristides

    — Boa tarde, Jeremias.

    Clementina

    — Boa tarde, Jeremias.

    Aristides

    — Fizemos uma boa viagem. Só parecia que nunca íamos chegar de São Paulo pra cá!

    Jeremias (dirigindo-se ao carro, diz, num leve sorriso).

    — É! É um longo trecho mesmo. Mas o senhor já o conhece bem, não é mesmo? Já está acostumado.

    Aristides (ligeiramente atrás, diz também num leve sorriso).

    — É. Tem razão. Mas já faz alguns anos que eu não venho pra estas bandas.

    Jeremias

    — É! E se não me falha a memória, já tem uns quatro anos desde a última vez!

    Com a abertura do sol após a chuva ter parado alguns minutos antes, devido à umidade da terra, o mormaço é insuportável.

    Nesse momento, Jeremias abre a porta da carruagem e, após pôr a mala no assoalho, entre dois assentos – um de frente para o outro – o casal entra e senta-se no dianteiro, ficando de costas para Jeremias, com uma divisória entre os ocupantes e o condutor das rédeas.

    Subindo, o capataz toca os cavalos seguindo por uma estrada de terra coberta por uma camada de cascalhos finos. Pouco depois, os animais param diante de uma porteira de madeira. Jeremias desce e, ao aproximar-se, insere a chave na fechadura. Pegando as rédeas, puxa os animais, parando alguns metros adiante, numa trilha larga, ao lado de uma cerca de arame farpado do lado direito. Após amarrar a corda num mourão, o capataz vai à cancela para fechá-la. Em seguida, pegando as rédeas novamente, puxa os animais, parando alguns metros depois, frente a uma casa pequena, com varanda do lado esquerdo, setor oeste da casa. Laçando a rédea no mourão, vai à porta da carruagem.

    Jeremias (abrindo-a, diz, pegando a mala).

    — Pronto, patrão. Chegamos.

    Aristides (descendo, exclama).

    — Nossa...! Mas que calor, hein, Jeremias!

    Jeremias

    — É! Tá demais, patrão! Choveu há poucas horas e, quando o sol abre, é isso.

    Aristides (friccionando o corpo, diz).

    — É. Eu sei. (Pegando a mala.) Obrigado, Jeremias.

    Jeremias

    — Não há de quê, patrão.

    (O casal dirige-se à casa).

    Jeremias

    — Ah, patrão! Eu havia me esquecido de lhe dizer uma coisa: vosso pai mandou avisar que a casa já está mobiliada.

    Aristides (mal-entendido, para e, olhando para trás, pergunta).

    — Não entendi, Jeremias. Como assim?

    Jeremias

    — Está com móveis novos. Aqueles que o senhor conheceu, ele doou para algumas famílias daqui da fazenda.

    Aristides (balançando a cabeça, diz, enquanto se dirige à casa).

    — Ah! Seu Agnelo! Sempre pensando em todo mundo. (Pegando a esposa pela mão, diz, dirigindo-se à casa.) Mas sinto-me muito feliz em saber que ele fez isso.

    Jeremias (pegando a corda do mourão, diz, dirigindo-se ao estribo).

    — Se precisar de alguma ajuda, é só me avisar, patrão.

    Aristides (inserindo a chave na fechadura, diz, virando-se para o funcionário).

    — É... Pensando bem, acho que vamos precisar de alguém para nos preparar uma refeição, Jeremias.

    Jeremias (ao lado do estribo, diz).

    — Pois não! Vou disponibilizar uma das minhas filhas. (Subindo, diz, tocando as rédeas.) Com licença.

    (A casa destinada ao casal contém apenas três cômodos internos: cozinha, sala e um quarto com banheiro.

    Após abrir a porta, Aristides vai direto ao telefone sobre uma escrivaninha).

    Aristides (diz, após discar).

    — Oi, pai! Acabamos de chegar à fazenda. (Pausa.) Sim! Chegamos bem. Ficamos dois dias em São Paulo e aproveitei para mostrar alguns lugares da cidade à Tina.

    (Enquanto Aristides continua falando ao telefone, Clementina se dirige ao quarto e se deita na cama, relaxadamente, de braços abertos, com um sorriso nos lábios e olhos fixos no teto).

    Cena 5: Primeiros Passos do Herdeiro

    Dia seguinte; manhã de sexta-feira,

    24 de janeiro de 1913.

    O casal está sentado à mesa, tomando café.

    Clementina (prosseguindo um assunto, diz).

    — Acho que, por enquanto, não vai precisar não, Tide. Eu posso fazer o serviço da casa.

    Aristides

    — Eu sei que você pode fazer os serviços da casa, Tina. Mas não me casei com você pra fazer de você uma doméstica não. Até porque eu sei que, na casa de seus pais, você não fazia isso. E, depois, eu gostaria de fazer alguma coisa por esse pessoal. Essas pessoas merecem toda a nossa atenção. Acho que poupando você disso, vou poder estar ajudando pessoas aqui.

    Clementina

    — Entendi. Tal pai, tal filho! Tá bom, meu amor. Quer saber? Eu gostei da filha do Jeremias.

    Aristides

    — Eu também. Podemos contratá-la então.

    (Pouco mais tarde).

    Jeremias (prosseguindo um assunto, responde, sentado numa poltrona, na sala de sua casa).

    — Sim! Mas é claro que sim, patrão! Ela também gostou muito de vocês.

    Aristides (sentado no sofá, ao lado de Clementina, diz).

    — Ótimo! Que bom! Mas... ela poderá dormir lá?

    (Clementina olha para o esposo, estranhando).

    Jeremias

    — Como vocês preferirem, patrão. É claro, se não houver incômodo!

    Aristides

    — Não! Claro que não! Vou providenciar mais um cômodo. Até porque ficará mais viável pra ela. Assim, não precisará levantar tão cedo pra sair de casa ou, simplesmente, não precisará sair de casa.

    Jeremias

    — Como o senhor quiser. Por mim, sem problema.

    Aristides

    — Então, combinado. (Após pensar brevemente, sugere.) Ah, aproveitando que estamos falando de serviço, Jeremias, estou pensando em abrir o salão na próxima segunda-feira e quero lhe pedir um favor. Mas, antes, quero conhecer o espaço da loja e gostaria de ver isso hoje.

    Jeremias

    — Sim senhor. É só me falar a que horas o senhor pretende ir, que eu tomarei providência.

    Aristides

    — Pode ser pra já. Mas antes, eu gostaria de lhe adiantar o que quero que faça. Você, que mora aqui há muitos anos, acredito ser uma pessoa bem conhecida na região e creio que conhece muita gente por aqui. Você poderia me indicar algumas pessoas?

    Jeremias

    — De quantas o patrão acha que vai precisar?

    Aristides (coçando a nuca com a ponta do dedo indicador, diz).

    — Bem... Como ainda não sei o tamanho do salão, a princípio, eu diria dois atendentes de balcão e uma para a limpeza.

    Jeremias

    — Entendi. Dois homens e uma mulher. É isso?

    Aristides

    — Sim. Isso mesmo.

    Jeremias

    — Sim senhor. Bom, então, já que vamos à cidade, enquanto o senhor olha o salão, eu posso dar uma volta pelo povoado. Conheço muitas famílias boas por lá.

    Aristides (levantando-se, diz).

    — Ok. Então pode preparar os cavalos.

    Jeremias (levantando-se, diz).

    — Pois não.

    Aristides

    — Ah, um carpinteiro também.

    Jeremias

    — Sim senhor.

    (Pouco mais tarde, na cidade, ao abrir o estabelecimento, Aristides e Clementina se surpreendem ao ver a loja toda montada: balcão e quatro prateleiras com produtos de primeira necessidade, como arroz, feijão, açúcar, café, óleo, entre outros).

    Aristides (dirigindo a palavra à esposa, diz).

    — Olha só, Tina! O velho é mesmo sem limite! É muito antecipado! Não imaginei que ele fosse fazer isso depois de tudo que já fez pra mim. Até porque a reserva que tenho no banco, coisa dele próprio pra mim, daria com muita folga pra eu fazer esse complemento. Ah! Seu Agnelo!

    (Pouco depois, já de volta à casa, na fazenda Aristides [ao telefone], diz).

    — Oi, pai!

    Agnelo (de sua casa, no Rio de Janeiro).

    Hi, figlio! Come vanno le cose là fuori? Già foi ver il magazzino?

    Aristides (em off).

    — Acabei de chegar de lá do mercado, pai. Mas eu não esperava encontrar tudo montado, não.

    Agnelo (após uma gargalhada, pergunta).

    E cosa pensi?

    Aristides (da fazenda, responde).

    — Eu penso que não precisava ter feito isso, pai. O senhor sabe que eu mesmo podia fazer.

    Agnelo (de muito bom humor, diz, em off, após um sorriso).

    Ah, mio figlio! Funziona e deixa di lamentar sulla vita. Il futuro del due di voi, a partir

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