Francisco de Assis e Charles de Foucauld: enamorados do Deus humanado
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Sobre este e-book
Neste livro, o bispo franciscano da diocese de Juazeiro (Bahia), dom Beto Breis, à luz dos escritos de Francisco de Assis e Charles de Foucauld, mostra como ambos têm muito a dizer aos homens e mulheres do nosso tempo, sedentos das fontes genuínas do Evangelho e daquele encontro decisivo e vital que, como afirmou o Papa Francisco, "enche o coração e a vida inteira".
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Francisco de Assis e Charles de Foucauld - Dom Beto Breis ofm
SIGLAS E ABREVIAÇÕES
SÃO FRANCISCO DE ASSIS – DOS SEUS ESCRITOS
CHARLES DE FOUCAULD – DOS SEUS ESCRITOS
INTRODUÇÃO
São Francisco de Assis (1181\1182-1226) e o Bem-aventurado Charles de Foucauld (1858-1916) são duas grandes figuras da história da espiritualidade ocidental. Dois homens de tempos tão distantes entre si, mas que se aproximam de modo extraordinário no fascínio pelo mistério da Encarnação e no modo apaixonado e terno de seguir os passos daquele que, sendo Deus, assumiu nossa humana fragilidade. Com corações abertos e cheios de alegria, testemunharam a novidade sempre surpreendente que anuncia a fé cristã, fazendo da Kenosis do Cristo mais do que uma afirmação ortodoxa a ser professada e celebrada, um programa de vida, um ideal a ser perseguido com empenho e radicalidades incansáveis.
Não são poucos os autores que, ao se debruçarem para conhecer mais de perto a figura de Charles de Foucauld e sua espiritualidade, reconhecem estar diante de um homem com intuições e vivência evangélicas que remetem espontaneamente a Francisco de Assis. Já seu primeiro biógrafo, René Bazin, ao aludir ao jovem oficial De Foucauld, ainda dominado pelas paixões transitórias, constata que este, por um milagre da alma
, transformar-se-à no esplendor dos olhos e na caridade celeste do sorriso, quase similar àquela de Francisco de Assis
,[1] podendo-se estabelecer essa relação de modo quase imediato. Jean François Six é mais enfático ao afirmar que Charles de Foucauld é um Francisco de Assis para os nossos tempos
,[2] para, em seguida, elencar traços comuns aos dois. No seu sugestivo artigo escrito em 1947, Camillo Deleaux, por sua vez, apresenta uma série de elementos paralelos tanto nos perfis biográficos como nos caracteres espirituais dos dois.[3] É curioso observar que até contemporâneos e conhecidos de Charles, ao estarem diante daquele homem radicalmente humilde e pobre, o associavam ao Poverello. Um dos monges do mosteiro trapista de Notre-Dame-des-Neiges, onde viveu como noviço durante cinco meses, chegou a afirmar, conforme testemunho dado pessoalmente a Renè Bazin, que, por suas virtudes, o então Irmão Marie-Albéric era belo como um segundo São Francisco de Assis
.[4] A propósito, parece-nos que o próprio Charles reconhecia-se como um seguidor radical de Jesus na esteira do Poverello, o que atestam as tantas referências em seus escritos a Francisco e à sua vida evangélica admirável e exemplar, como poderemos constatar a seguir.
Como frade franciscano, sempre me cativou o modo terno e afável de Francisco celebrar a Encarnação. O mistério de um Deus que, sendo forte e grande, fez-se frágil e pequeno por amor, para dar-se inteiramente a nós, sempre ocupou um lugar de destaque no meu coração, desde os encontros de formação no noviciado. De outra parte, fiquei vivamente impressionado com a figura de Charles de Foucauld, ao ler, poucos meses antes da sua beatificação, ocorrida em novembro de 2005, a biografia escrita por Renè Bazin. Pude rapidamente identificar no Eremita do Saara alguém com aquela devoção e ternura centradas no mistério da Encarnação e suas consequências práticas que sempre admirei no Poverello de Assis. Daí nasceu a ideia de tomar como tema da minha dissertação para o Curso de Mestrado em Teologia Espiritual junto à Universidade Antonianum, de Roma, um confronto entre esses dois grandes místicos
cristãos, tendo como ponto focal o mistério da Encarnação, do qual foram enamorados e originais testemunhas. Este livro é fruto desse trabalho que me foi bastante edificante!
No primeiro capítulo, iremos apresentar traços da compreensão que Charles tinha de Francisco de Assis, apoiados, sobretudo, nos fatores que mais influenciaram o encontro
entre dois homens de períodos históricos tão distantes e na literatura franciscana que Foucauld teve à sua disposição. Esforçar-nos-emos, ainda, em destacar alguns elementos de sua espiritualidade que se afinam com a franciscana, ou seja, os pontos de contato entre os dois enamorados do Verbo Encarnado, que possibilitam um confronto e um diálogo bastante significativo e fecundo. Por último, neste capítulo inicial, trataremos de elementos específicos da espiritualidade e do itinerário humano-espiritual de cada um. Se o encantamento e o fascínio pelo mistério da Encarnação os aproximam e os identificam, o aspecto da vida de Jesus de Nazaré que cada um procurará enfatizar e observar com radicalidade tem traços muito próprios e originais. Não faltam ainda aqueles elementos peculiares que foram condicionados pelos respectivos ambientes vitais e contextos históricos.
Nos dois capítulos seguintes dedicar-nos-emos a aprofundar as expressões e consequências de uma espiritualidade centrada no mistério da Encarnação em cada uma dessas duas grandes testemunhas do Evangelho, começando por Charles de Foucauld (capítulo II). Seguiremos em grandes linhas o mesmo esquema nesses capítulos para assim favorecer e tornar mais explícito o confronto entre dois homens que se encontram em torno de um amor comum, bem como delinear suas respectivas espiritualidades.
Ao desenvolver esse estudo, priorizamos os escritos de Charles e de Francisco mais do que a abundante literatura sobre ambos à disposição. Cremos que é através de suas próprias palavras que poderemos entrar em contato direto com eles – sem filtros de biógrafos – e assim deixar-nos interpelar por suas convicções e proposições. Somente para reforçar e aprofundar algumas afirmações e argumentos nossos, iremos nos referir a algumas fontes hagiográficas/biográficas e estudos. No caso de Foucauld, ativemo-nos especialmente à biografia feita por Renè Bazin, escrita poucos anos após sua morte, e que possibilitou o acesso de tantos a essa figura excepcional. Bazin teve acesso direto a testemunhas e a documentos e os usa largamente, o que confere respaldo e importância consideráveis à sua obra (ainda não à disposição em língua portuguesa). Quanto a Francisco, ativemo-nos particularmente à primeira fonte hagiográfica, escrita por frei Tomás de Celano e redigida entre a data da canonização de Francisco (1228) e a do translado de seu corpo à Basílica construída em sua honra (1230). A Vita Prima do celanense destaca-se, assim, pela proximidade aos fatos narrados e pela riqueza das fontes que possivelmente empregou, desde os testemunhos de Clara de Assis e dos primeiros companheiros até documentos oficiais, como aqueles do seu processo de canonização.
Lendo atentamente os escritos de Charles de Foucauld e de Francisco de Assis, procuramos identificar palavras e ideias-chaves relacionadas ao tema da Encarnação, para, daí, com a ajuda de fichas de leitura, organizá-las conforme os temas e subtemas de cada um dos capítulos. À luz desses textos, abundantes e expressivos, pusemo-nos a desenvolver o confronto entre os dois místicos
, sempre privilegiando um método reflexivo. O contato direto com as fontes foucauldianas e a releitura atenta dos escritos de Francisco, sob a ótica da sua fé na Encarnação, propiciaram-nos momentos prazerosos e, ao mesmo tempo, de árduo empenho.
As citações dos escritos do Irmão Charles de Foucauld, no decorrer do trabalho, serão traduções nossas a partir de textos originais e de edições críticas. Para isso, dispomos de excelentes publicações de boa parte de seus escritos, merecendo destaque a coleção Œuvres Spirituelles du Père Charles de Foucauld, da editora francesa Nouvelle Cité. Já para os escritos do Poverello e suas fontes biográficas primitivas, utilizamos, mesmo que apoiados na edição crítica de Kajetan Esser e na edição Fontes Franciscani, sob a precisa organização de Enrico Menestò e de Stefano Brufani, a mais recente edição brasileira das fontes franciscanas, sob a organização de frei Celso Márcio Teixeira, da qual também extraímos as siglas utilizadas. Quanto às siglas para os opúsculos de Charles de Foucauld, pelo fato de não haver unanimidade entre os estudiosos, estabelecemos siglas e abreviações conforme critérios próprios.
Em algumas ocasiões, para realçar o sentido etimológico de certos termos densos de significado, mas que, devido ao uso constante, podem ter perdido sua força de expressão, separamos os respectivos prefixos com um hífen. É o caso dos vocábulos in-comodar, co-mover, re-cordar e com-paixão, entre tantos outros. Quanto ao nome de Charles de Foucauld, preferimos mantê-lo assim, no original, por achar mais conveniente e porque no Brasil o Eremita do Saara é assim conhecido e não por Carlos de Foucauld, como preferem alguns autores e tradutores da língua lusitana.
Que possamos com esses dois grandes seguidores de Cristo de tempos tão diversos celebrar a fé na Encarnação e como eles colocarmo-nos na mesma disposição de ter a Cristo, nosso Irmão, e sua Boa Notícia no centro de nossos afetos e opções. Somente assim, com uma vida con-forme à sua, poderemos anunciá-lo e testemunhá-lo como o fizeram explendidamente Francisco e Charles.
CAPÍTULO I
CONFRONTO E DIÁLOGO ENTRE AS DUAS ESPIRITUALIDADES
1.1. A compreensão que Charles de Foucauld tinha de Francisco de Assis
Analisando os escritos de Charles de Foucauld e o seu próprio trajeto biográfico, podemos concluir que três fatores foram de vital relevância para o seu acesso a Francisco de Assis e sua espiritualidade, o que emerge explícita e implicitamente em suas meditações escritas e em seu abundante epistolário.
Num primeiro momento, devemos reconhecer o influxo do Padre Henri Huvelin, seu diretor espiritual e grande guia, sobretudo nas primeiras etapas da caminhada após a conversão, plenas de incertezas e oscilações. São Francisco era o Santo mais amado por Huvelin[1] e devemos reconhecer com Andrea Mandonico que foi esse sábio sacerdote quem fez o jovem Charles conhecer o cristocentrismo de São Francisco, do qual era um experiente conhecedor
.[2] A própria via da humildade e pobreza de Nazaré, proposta por ele a Charles de Foucauld e que assinalará definitiva e decisivamente sua espiritualidade, encontram para Huvelin uma inspiração no Poverello: Não se pode viver mais que em Nazaré quando se compreende São Francisco
.[3]
São Francisco era constantemente mencionado nos escritos e sermões de Huvelin e a ele se devem uma
