Sobre este e-book
Escrita e encenada na década de 1950, A cidade assassinada transporta o público para o Brasil de 1500 em três atos, junto de personagens históricos e lendários, como João Ramalho e padre José de Anchieta.
Com um texto riquíssimo, recheado de camadas históricas e de intertextualidades, Callado apresenta em A cidade assassinada, suas preocupações políticas – que aparecerão em obras posteriores, como no seu romance Quarup –, como a condição indígena, a colonização religiosa, a formação do povo brasileiro e a imposição de uma lógica de progresso, que vinha a todo vapor no Brasil de Juscelino Kubitschek.
Na peça, a cidade de Santo André da Borda do Campo está ameaçada pelos desejos do governo-geral em transferir o pelourinho (símbolo da presença civilizatória) para a vila de São Paulo. Junto a isso, um conflito de interesses relação ao trato dos indígenas da região se desenha entre a violência física dos primeiros bandeirantes e a violência simbólica dos jesuítas. A guerra entre os homens se aproxima, mas não sem antes considerar a ação decisiva de Rosa Bernarda, mulher e mameluca – personagem feminina forte, como é marca no teatro de Callado.
Ao mesclar memória histórica e ficção, textos clássicos como Auto de Anchieta, Iracema e Cantares de Salomão, o autor, imortal da Academia Brasileira de Letras, é capaz de fazer emergir a própria identidade brasileira. Na peça são apresentados conflitos políticos, que mesmo representados nos interesses entre colônia e metrópole são até hoje perceptíveis, e conflitos amorosos, incluindo a batalha ética entre amor e dever. São discutidas também a própria condição e missão da arte e a busca pela liberdade — temas particulares e gerais, que são capazes de transpor A cidade assassinada para o rol das grandes obras de alcance universal.
Leia mais títulos de Antonio Callado
A Madona de cedro Nota: 0 de 5 estrelas0 notasReflexos do baile Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMemórias de Aldenham House Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPedro Mico Nota: 0 de 5 estrelas0 notasQuarup Nota: 0 de 5 estrelas0 notasSempreviva Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA expedição Montaigne Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRoteiros de radioteatro durante e depois da Segunda Grande Guerra (1943 a 1947) Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAssunção de Salviano Nota: 0 de 5 estrelas0 notasConcerto carioca Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA revolta da cachaça Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Relacionado a A cidade assassinada
Ebooks relacionados
Contos Gauchescos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAquela Família Tipos, caricaturas e episódios provincianos Nota: 5 de 5 estrelas5/5Theatro de João d'Andrade Corvo - I O Alliciador - O Astrologo Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA Tempestade Nota: 4 de 5 estrelas4/5Brás, Bexiga e Barra funda - Laranja da China Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCarancho Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA Tragédia De Romeo E Julieta Nota: 0 de 5 estrelas0 notasSurpreza Entre-acto original Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO anel misterioso - Cenas da guerra peninsular Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAssunção de Salviano Nota: 0 de 5 estrelas0 notasEsaú e Jacó Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA Pele Do Lobo Por Arthur Azevedo Nota: 0 de 5 estrelas0 notasQuincas Borba Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRomancistas Essenciais - Visconde de Taunay Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPara passar no vestibular Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCanudos: Santos e guerreiros em luta no sertão Nota: 0 de 5 estrelas0 notasContos Phantasticos segunda edição correcta e ampliada Nota: 0 de 5 estrelas0 notasContos gauchescos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasTerras Dos Homens Perdidos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasEntre camponeses Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAfonso o Conquistador Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPeças regionalistas Nota: 0 de 5 estrelas0 notasNegrinha e outros contos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasTriste fim de Policarpo Quaresma Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO fundador Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMemórias Póstumas de Brás Cubas Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRomancistas Essenciais - Paulo Setúbal Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO CAPITÃO VENENO - Alarcón Nota: 0 de 5 estrelas0 notas7 melhores contos - Horror I Nota: 0 de 5 estrelas0 notasmemórias póstumas de brás cubas: Coleção Grandes Escritores Brasileiros Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Artes Cênicas para você
A Bíblia Satânica Moderna Nota: 0 de 5 estrelas0 notas? Os 1000 Passos Antes De Mim – Ancestrais Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAprenda A Dominar O Poder Da Magia Nota: 0 de 5 estrelas0 notas5 Lições de Storyelling: O Best-seller Nota: 5 de 5 estrelas5/5O Esplendor Da Liturgia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasFeitiços Na Cabala De Exu E Pombo-gira Nota: 5 de 5 estrelas5/5Banhos De Ervas De Cada Orixá Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO Reino Dos Exus: Rituais, Magias, Banhos Nota: 0 de 5 estrelas0 notascartas De Cristo - A Voz De Deus Versão Expandida Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDa criação ao roteiro: Teoria e prática Nota: 5 de 5 estrelas5/5Obi Abatá Nota: 4 de 5 estrelas4/5Ori E Obori Nota: 5 de 5 estrelas5/5Como falar no rádio: Prática de locução AM e FM Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA arte da técnica vocal: caderno 1 Nota: 4 de 5 estrelas4/5Comidas - Padê De Exu E Pomba Gira Nota: 0 de 5 estrelas0 notasÈṣù O Onipresente Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA Solução Carrero - Recomeçando: Série O Carrero - Livro 3, #3 Nota: 5 de 5 estrelas5/5A construção da personagem Nota: 5 de 5 estrelas5/5Fazendo Meu Terreiro De Umbanda Nota: 5 de 5 estrelas5/5Assentamentos De Exu Nota: 4 de 5 estrelas4/5O Grimório Do Mago Branco Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMissa: celebração do mistério pascal de Jesus Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA Magia Da Manifestação Nota: 0 de 5 estrelas0 notas10 Serial Killers Mais Famosos Da História Nota: 0 de 5 estrelas0 notasFeitiços Do Amor Na Lei Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMetatron Revelado Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCorpo-Voz: Revisitando temas, revisando conceitos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasUm Conto de Duas Cidades Nota: 5 de 5 estrelas5/5Pontos Riscados Na Quimbanda E Umbanda - Significados Nota: 4 de 5 estrelas4/5Ọ̀rúnmìlà Ifá Nota: 2 de 5 estrelas2/5
Avaliações de A cidade assassinada
0 avaliação0 avaliação
Pré-visualização do livro
A cidade assassinada - Antonio Callado
Copyright © Teresa Carla Watson Callado e Paulo Crisóstomo Watson Callado
Capa: Carolina Vaz
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
Callado, Antonio, 1917-1997
C16c
A cidade assassinada [recurso eletrônico] / Antonio Callado ; prefácio de João Cezar de Castro Rocha ; posfácio de Zé Celso Martinez Corrêa. - 1. ed. - Rio de Janeiro : José Olympio, 2021.
recurso digital
Formato: epub
Requisitos do sistema: adobe digital editions
Modo de acesso: world wide web
ISBN 978-65-5847-057-1 (recurso eletrônico)
1. Teatro brasileiro (Literatura). 2. Livros eletrônicos. I. Rocha, João Cezar de Castro. II. Corrêa, Zé Celso Martinez. III. Título.
21-73543
CDD: 869.2
CDU: 82-2(81)
Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária - CRB-7/6439
Este livro foi revisado segundo o Novo Acordo da Língua Portuguesa.
Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, o armazenamento ou a transmissão de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia autorização por escrito.
Direitos exclusivos desta edição reservados pela
EDITORA JOSÉ OLYMPIO LTDA.
Rua Argentina, 171 – 3º andar – São Cristóvão
20921-380 – Rio de Janeiro, RJ
Tel.: (21) 2585-2000.
Seja um leitor preferencial Record.
Cadastre-se em www.record.com.br
e receba informações sobre nossos
lançamentos e nossas promoções.
Atendimento e venda direta ao leitor:
sac@record.com.br
ISBN 978-65-5847-057-1
Produzido no Brasil
2021
Para minha mulher, minha primeira leitora.
SUMÁRIO
O vaivém como método: o teatro de Antonio Callado
Personagens
Ato Primeiro
Cena I
Cena II
Cena III
Ato Segundo
Cena I
Cena II
Ato Terceiro
Cena I
Cena II
Antonio Callado y a criação do Teat(r)o da Tragédia Colonial Brazyleira em A cidade assassinada
Perfil do autor
O VAIVÉM COMO MÉTODO:
O TEATRO DE ANTONIO CALLADO
João Cezar de Castro Rocha
A produção teatral de Antonio Callado ocorre num período de tempo relativamente curto, porém muito intenso.
De fato, sua primeira peça a ser encenada, A cidade assassinada, teve como tema os 400 anos da cidade de São Paulo, celebrados em 1954. O título se refere à transferência da população, do pelourinho — afinal, como ordenar uma povoação sem instrumentos de punição? — e dos foros da cidade de Santo André para São Paulo. Nesse processo, destacaram-se as figuras de João Ramalho e de José de Anchieta, prenunciando o embate entre modelos adversários de colonização, especialmente no tocante à sorte dos grupos indígenas. Recorde-se a fala sintomática de João Ramalho logo no início da ação: Índio precisa é de enxada na mão e relho no lombo! Esses padres só se metem para atrapalhar.
Desse modo, em seu primeiro texto teatral, Callado começou a articular a visão do mundo característica de sua melhor literatura.
Em primeiro lugar, o espírito celebratório perde terreno para o exame crítico do passado. Repare-se na força do título, evocando menos a fundação de São Paulo do que a decadência de Santo André. Nas origens de uma nova ordem social, portanto, o autor ressalta a violência inerente ao processo histórico brasileiro.
Além disso, o pano de fundo do conflito entre João Ramalho e José de Anchieta remete à origem mesma de uma violência estrutural ainda hoje presente no cotidiano de nossas cidades. Vale dizer, tudo se passa como se a forma desumana e arbitrária com que os índios foram tratados nos primórdios da colonização tivesse moldado a própria história da civilização brasileira: esse conjunto de desmandos e desigualdades, dissecado e exposto na obra do autor de Quarup — e isso no teatro, no jornalismo e na literatura.
No mesmo ano, uma nova peça foi encenada, no Rio de Janeiro, e com elenco irretocável: Paulo Autran, Tônia Carrero e Adolfo Celi.
Não é tudo: o tema de Frankel estabelece um elo surpreendente entre o distante passado colonial e o presente do escritor, marcado pelo elogio ao progresso e pelo esboço da ideologia desenvolvimentista, que em poucos anos seria consagrada, durante a presidência de Juscelino Kubitschek, na construção de Brasília.
A trama se desenrola no Xingu, num posto do Serviço de Proteção aos Índios. Nesse cenário — em tudo oposto à crescente urbanização dos anos de 1950 —, um mistério, na verdade, um assassinato, reúne uma antropóloga, Estela, um jornalista, Mário Mota, um geólogo, Roberto, e o chefe do posto, João Camargo — cujo nome faz reverberar o João Ramalho de A cidade assassinada.
No início da peça, o pesquisador Frankel está morto e o tenso diálogo entre os personagens deve esclarecer as circunstâncias do ocorrido. Surgem, então, revelações que articulam um dos motivos dominantes de entendimento de Callado a respeito da história brasileira: a projeção fantasmática do passado no tempo atual.
Assim, ganha nova dimensão o aspecto sacrificial da morte do pesquisador. Nas palavras de João Camargo: Os índios não estão conflagrados. Eles foram… foram… como se pode dizer? Foram apaziguados com a morte de Frankel.
O malogrado pesquisador teria levado a cabo experiências comportamentais que reduziram os índios ao papel de meras cobaias de laboratório. Ainda nas palavras de Camargo, o clorofórmio era sistematicamente utilizado para adormecer índios e realizar ‘pequenas intervenções psicológicas’, como ele mesmo disse
.
As duas primeiras peças, portanto, esboçam um retrato em preto e branco do dilema que atravessa a experiência histórica brasileira: o desprezo, por vezes vitimário, em relação ao outro outro
— o índio, o preto, o pobre; em suma, todos aqueles distantes dos centros do poder.
A peça seguinte, Pedro Mico, de 1957, inaugurou o teatro negro
de Antonio Callado.
Destaque-se a coerência do gesto.
Ora, se, nos textos iniciais, o índio, embora direta ou indiretamente estivesse em cena, não deixava de estar à margem, agora, o excluído por definição do universo urbano — o preto, favelado e marginal — assume o protagonismo, esboçando o desenho da utopia que marcou a literatura do autor de Tempo de Arraes: a possibilidade de uma revolta organizada, talvez mesmo de uma revolução, a fim de superar as desigualdades estruturadoras da ordem social nos tristes trópicos.
Pedro Mico é um típico malandro carioca, sedutor e bem falante, que, perseguido pela polícia, se encontra escondido num barraco do Morro da Catacumba. Em aparência, o malandro não tem saída. Eis, então, que sua nova amante, a prostituta Aparecida, imagina um paralelo que enobrece o desafio: O Zumbi deve ter sido um crioulo assim como você, bem parecido, despachado. (…) E não fazia nada de araque não. Se arrumou direitinho para poder lutar de verdade.
A história do líder negro inspirou o malandro carioca a inventar um modo astuto de enganar os policiais. Ele fingiu que se havia suicidado; afinal, como ele sussurrou: Zumbi, mas vivo.
Os dois conseguem escapar ao cerco e, já no final da peça, Aparecida dá voz ao desejo nada obscuro de Callado: Você já pensou, Pedro, se a turma de todos os morros combinasse para fazer uma descida dessa no mesmo dia?…
A utopia se esboça, ainda que as contradições insistam em mantê-la no não lugar dos inúmeros Morros da Catacumba que
