Anais do Xi Fórum Mineiro de Psicanálise: O Sujeito na Massa de Eus
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Sobre este e-book
Fragmentos da entrevista concedida por Thereza Bruzzi sobre a realização do Primeiro Fórum Mineiro de Psicanálise (1994/1996), exibida durante o XI Fórum Mineiro de Psicanálise, em 2022.
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Anais do Xi Fórum Mineiro de Psicanálise - Roberta Ecleide de Oliveira Gomes Kelly
INTRODUÇÃO
PRA COMEÇO DE CONVERSA…
É com imensa alegria que apresentamos este livro, produto do XI Fórum Mineiro de Psicanálise (FMP), ocorrido no ano de 2022. O Fórum Mineiro de Psicanálise é um evento regular, mas com variedade de intervalo temporal, que tem o intuito de reunir escolas e movimentos psicanalíticos, além de psicanalistas e interessados na Psicanálise em diversas cidades das Minas Gerais. Existente há mais de duas décadas, o Fórum Mineiro de Psicanálise tem como objetivo promover e celebrar as Psicanálises do interior de nosso estado.
A palavra fórum é de origem latina e, na antiga Roma, referia-se ao local onde se concentravam prédios em que se resolviam e se debatiam assuntos administrativos e jurídicos. Fórum, enquanto evento, diz respeito a uma reunião ou um local de reunião desenvolvido em torno de um tema específico ou com o intuito de se fazer um debate público. O que há em comum é a proposta do debate. Com o Fórum Mineiro de Psicanálise não é diferente; a cada ocasião desse evento, propõe-se um tema para ser debatido, com o objetivo de caminharmos para além de uma mera reprodução ou de simples revelações de novos achados.
Também são escolhidos os eixos-temáticos dentro dos quais se encontrarão os trabalhos a serem apresentados no evento. O tema também ilumina os pré-fóruns que são encontros preparatórios para o grande fórum. Discutem-se conceitos, propostas, ideias e o saber-fazer psicanalítico de nosso tempo. Com isso, mantém-se a orientação de questionar e instigar a transmissão, a interlocução e a manutenção da teoria psicanalítica em solo mineiro.
O nosso querido Riobaldo, de Guimarães Rosa (1956, p. 15), dá-nos o direcionamento para os percursos da constituição do sujeito no mundo: O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo mundo… Ele almou? Nós desigualamos. E sozinhozinho não estou, há-de-o
. O pequeno humano vem ao mundo quase como todo ser, mas se subjetiva, particulariza-se. Eis a sua radical diferença.
Pelo Outro e com os outros, um organismo se humaniza, tornando-se sujeito. Contudo, cada época traz algo novo para esses percursos. Esta, de modo especial, traz a marca de uma certa uniformização dos sujeitos pelo discurso. A trama do capitalismo enodada ao cientificismo enquadra os sujeitos em uma massa de eus. As massas, como bem descreve Freud, não distinguem cada um de seus membros; ela homogeneíza e ainda guarda um modo de funcionar acéfalo. Como isso ocorre? Como escapar? Há saídas? Como estar fora sem isolar?
No ano de 2021, o texto Psicologia das Massas e Análise do Eu
, de Sigmund Freud, completou 100 anos. Um texto que, apesar de um século de existência, faz-se tão atual e por isso mesmo precisava ser homenageado, relembrado e reestudado. Sendo assim, tomamos esse texto como norte para a construção do XI Fórum Mineiro de Psicanálise. O tema proposto a partir desse texto foi O Sujeito Na Massa De Eus
.
Porém, a décima primeira edição, prevista para 2021, foi surpreendida pela pandemia de covid-19. Assim, o que estava programado para ocorrer de modo presencial na cidade de Pouso Alegre precisou ser adiado para 2022 e forçosamente deslocou-se para o modo virtual. O XI FMP, portanto, foi uma experiência nova para todos, de muito trabalho para se adaptar ao novo mundo
, mas muito enriquecedora.
Estimulados por questões como essas, completamos 15 pré-fóruns até alcançar o XI FMP. Esses eventos, que ocorreram de modo online, tinham a intenção de fomentar e aquecer a discussão junto aos participantes do evento maior.
Para o evento, foi projetada uma logo. Optou-se por um desenho que carregasse insígnias da essência dos fóruns, isto é, a mineiridade e a diversidade de perspectivas. Para isso, tomou-se como inspiração o prédio do antigo Fórum Orvieto Bulti de Pouso Alegre, construído em 1923, que atualmente é o Centro Cultural Cleonice Bonillo Fernandes, onde se encontra a Biblioteca Pública Municipal Priciliana Duarte de Almeida. Na imagem, o prédio aparece carregado de conjuntos de traços faciais, representando as massas repletas de indivíduos indistintos. Uma face se destaca da multidão, representando o sujeito que se particulariza, ganhando contornos próprios.
Também, foram criados eixos temáticos para compor os argumentos do XI FMP. Foram cinco eixos: 1. Psicanálise e massas: a horda primitiva, o pai primevo, o ideal do eu; 2. Psicanálise: política e poder; 3. Identidade: identificações e segregação; 4. Psicanálise e arte; 5. Psicanálise: clínica e instituições. Dentro desses eixos, foram agrupados trabalhos submetidos à Comissão Científica para apreciação e aceitação. Os trabalhos aceitos foram apresentados no dia do evento e, agora, serão publicados por meio deste livro.
Vamos então à leitura! Mineiro gosta de apresentar, fala demais. Mas, uai, vamo começá, né? Que a curiosidade de saber como foi esse trem já está apertando. E vai ligeiro, porque o próximo Fórum Mineiro de Psicanálise já é logo ali. Boa leitura!
REFERÊNCIAS
ROSA, J. G. [1956]. Grande Sertão: veredas. 15ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982.Jacqueline Danielle Pereira
Júlia Roberta de Oliveira Carvalho Caetano
(Comissão de Publicação)
ABERTURA DO XI FÓRUM MINEIRO DE PSICANÁLISE
Bom dia a todos os participantes do XI Fórum Mineiro de Psicanálise!
Sejam todos bem-vindos!
Sou Marcilena Toledo, psicanalista membro da ATO escola de psicanálise, junta à colega Roberta Ecleide, do Nepe Lugar de psicanálise, estamos à frente da Organização Geral deste evento, que pela primeira vez está sediado na cidade de Pouso Alegre.
Faz três anos que este evento vem sendo preparado com muito empenho, com muitas mãos. Por isso, hoje é dia de fazer os nossos agradecimentos.
Vamos aos agradecimentos!
Antes de tudo, quero agradecer aos 294 inscritos, comtemplando 21 estados brasileiros, e dizer que é uma enorme alegria dar-lhes as boas-vindas!!!! E desejo que hoje e os próximos dois dias sejam muito proveitosos e ricos de conhecimentos e que a transmissão da psicanálise seja o compromisso ético de todos aqui presentes. Sejam todos bem-vindos, mesmo que virtualmente. Sintam-se abraçados e acolhidos à moda mineira, com um cafezinho coado na hora e um pastel de farinha de milho bem quentinho!!!
Em nome da Organização do Fórum Mineiro de Psicanálise, nossos agradecimentos à UNA Pouso Alegre, por meio da querida coordenadora da graduação de Psicologia, pós-doutora Paula Suzanna Prado Rocha, que nos acolheu prontamente desde 2020 e abraçou nossa causa com o apoio logístico, apoio técnico e o ambiente virtual para a realização do evento.
Agradeço aos colegas das 14 escolas e movimentos psicanalíticos que compõem a Comissão Organizadora do XI Fórum Mineiro de Psicanálise. Para nós, marinheiros de primeira viagem, foi um desafio e tanto criar um evento dessa magnitude em ambiente virtual. Mas a criação, a partir da falta de cada um de nós, faz parte do nosso ofício. Criamos formas de sustentar o desejo de analista e nossa implicação para com a transmissão da Psicanálise. Cada um oferecendo aquilo que tem, alguns aquilo que não têm: tempo, presença, saúde.
Também nossos mais sinceros agradecimentos aos psicanalistas conferencistas que aceitaram nosso convite e nos impulsionam mais e mais pela busca constante de um saber ainda não sabido.
Obrigada, Andrea Assunção Ferreira da Silveira, pelo seu profissionalismo resistindo esses três anos junto conosco. Ao Luiz Guilherme Muniz Barbos, pela criação das mídias que tornam este ambiente virtual um evento mais aconchegante. Ao Lúcio Faria e sua equipe: Vinicius e Matheus das TIs, pelo profissionalismo e o carinho que nos atenderam.
Enfim, agradeço às parcerias das Editora Aller, a Appris Editora, Scriptum Livraria e Editora e a Livraria do Psicólogo, que nos acompanham nesta jornada com descontos exclusivos para os inscritos no Fórum. As instruções para compras estão disponíveis logo após a programação do dia que todos receberam e receberão a cada período das atividades.
Comunico a todos que está aberta a inscrição das escolas e instituições psicanalíticas que estiverem interessadas em sediar o XII Fórum Mineiro de Psicanálise em 2024. Os interessados poderão se manifestar por meio do e-mail forummineirodepsicanalise@gmail.com. O resultado será dado pela comissão organizadora, no encerramento deste fórum, no dia 23/07/22.
Algumas instruções para o bom andamento dos trabalhos.
Solicitamos a todos que façam seu logim com o nome correspondente ao da sua inscrição no Even3.
Todos já receberam a programação completa do Fórum que também está disponível no site oficial. Os participantes poderão entrar nas plenárias para as conferências e nas salas de apresentação de trabalho por três vias: pela plataforma Even3, pelo e-mail cadastrado e pelo grupo de WhatsApp, onde encontrarão os links.
Entre uma atividade e outra, teremos um lugar de transição que chamamos Momento Cultural
. Por meio do chat, os participantes poderão se manifestar e tirar suas dúvidas com a equipe de suporte.
Durante todo o evento, nossa comunicação será via chat e os microfones deverão permanecer fechados. As câmeras podem ficar abertas a critério de cada um.
Nas salas de apresentação de trabalhos da tarde, após o almoço, os participantes irão direto para as salas escolhidas. Ao finalizar, retornem ao link do Momento Cultural
como ponto de passagem para a próxima atividade.
Os certificados serão enviados por meio da plataforma Even3 após a finalização do evento.
Desejo a todos um excelente Fórum Mineiro de Psicanálise.Marcilena Assis Toledo
20 de julho de 2022, Pouso Alegre
EIXO 1.
PSICANÁLISE E MASSAS: A HORDA PRIMITIVA, O PAI PRIMEVO, O IDEAL DO EU
AMÓDIO NAS MASSAS
Área temática
1. Psicanálise e massas: a horda primitiva, o pai primevo, o ideal do eu
Autores
Denise Sousa Lira Bertoche
Palavras-chave
Amor; ódio; massas.
Resumo
Este trabalho pretende examinar o amor e o ódio como suposição notável da atividade de representação psíquica concernente aos investimentos afetivos que os membros de um grupo dispõem nas relações sociais com configuração de massa. No relevo do discernimento freudiano, a cultura humana é feixe para a análise especulativa que atravessa tanto o campo individual como o social. Tal qual o investimento que faculta qualidade de objeto às massas revela os modos das atuações afetivas e a manifestação desses conteúdos (Freud, [1921] 2011): Eros-manifestação do desejo de unificação e Tânatos- expressão do desejo de destruição (Freud, [1920] 2011). Acompanhando Freud ([1895] 1996), Piera Aulagnier (1979) descreveu o desejo como um tipo de montagem das direções que a psique pode tomar, na qual os objetos podem atuar como representantes, encarnando tais representações. Visto que o mundo não oferece garantias de satisfação, o ódio é vivenciado nos conflitos e cisões experimentados pelo aparelho psíquico, embora seja digno de nota que a psique possa, na tentativa de organizar a própria falta, realizar possíveis rearranjos até a sua remontagem rumo ao amor. Inaugurando um exercício refinado que admite a diferença, uma separação que permite que a psique testemunhe a própria precariedade diante da onipotência do desejo. No que tange ao circuito dos afetos em direção aos objetos, a palavra massa (Ferreira, 2002) designa um conjunto especificado por um agrupamento de pessoas que compartilham um mesmo interesse. Todavia, seguimos Freud ([1921] 2011), quando formula que a composição das massas provém dos laços afetivos, servindo-se do termo grego Eros para descrever o desejo de unificação capaz de manter a massa unida. Freud mantém o valor dessa afirmação, quando traça o amor no que concerne à capacidade de investimento, compreendendo-o como uma atividade psíquica de um estado interno de almejo pelo objeto. Nesses termos, o amor passa a equivaler à exigência orgânica como via de satisfação das necessidades, dado que o que o indivíduo investe libidinalmente é deslocado dos interesses narcísicos (Freud, 1914), aquele que ama deseja ser amado. Ao investir na massa, o amor-próprio encontra restrições, esse tipo de desdobramento libidinal pode compor fenômenos de dependência (Freud, [1914] 1996). No auge do apaixonamento pelo objeto, a fronteira entre o eu e o objeto ameaça a desaparecer
(Freud, [1930] 2010, p. 16), culminando imperiosamente na diminuição do julgamento crítico. É notável que os membros reajam harmoniosamente ao grupo, diferentemente do que fariam desacompanhados ou fora do agregamento. Tais vínculos caracterizados por sujeição estiveram presentes na história da constituição da sociedade, em que o indivíduo, empreendendo superinvestimento no objeto amado, ainda que intentado pelo desejo de unificação, pode valer-se da acriticidade na busca por proteção e fortalecimento que o agrupamento pode proporcionar. Uma espécie de servidão enamorada
(Freud, [1921] 2011, p. 73), as massas podem influir sobre a vida psíquica, tornando nula a concepção do impossível na qual o ódio deriva da palavra desencontrada, axioma da diferença. Enquanto o amor realiza a expressão de pertence, o ódio é enunciação do que desagrega, daí a destruição ou a criação de um outro grupo como função do ódio, traço do heterogêneo e, portanto, resquício da própria constituição, visto que o objeto encarna o representante desse desencontro, uma espécie de portador da representação desagregadora e desconcertante do encontro individual com o mundo dos objetos. A força de investimento do grupo devotado numa mesma comunhão pode ser capaz de afinar os afetos, incidindo inclusive na conduta ética, contemplando-a ou exaurindo-a com a mesma intensidade. Incorrendo no desejo de pertencimento e fusão, é tangível o intolerável remeter àquele que escapa ao tal-qualmente. Na dimensão social, tal apontamento comporta a indagação acerca do racismo, autoritarismo, fascismo, sexismo, homofobia, transfobia, xenofobia, intolerância religiosa. E, por que não, o fenômeno em vigência no Brasil, o bolsonarismo, tendo por líder o animador do ódio
(Sloterdijk, 2016), em que há o entrelaçamento de algumas pessoas pela via do autoengendramento ideológico, desde que restem outras pessoas fora do grupo para assegurar exteriorizar hostilidade ao não simétrico (Freud, [1921] 2011). Esse contorno permite abordar a questão colocada, em que a massa alcança estatuto de objeto de investimento. Sob a égide da psicanálise, a gênese psíquica está a título da insurgência do objeto. Ainda que essas representações sejam rudimentares, a necessidade aparece sob forma de altos níveis de excitabilidade atrelados ao desprazer como ponto de clivagem, o rastro do objeto que lhe é faltante vincula-se à dimensão odiosa como ranhura do ter que desejar
que a precariedade do corpo produz como falta (Aulagnier, 1979, p. 66). Freud ([1920] 2010) já havia revelado a inclinação conservadora da pulsão, oriunda do desejo de não querer desejar (Aulagnier, 1979). O ódio atribui a seu representante uma roupagem da diferença, pois tal objeto denuncia a modelagem do próprio corpo como destacado do mundo, na medida em que há o heterogêneo, o incorporável e o irrepresentável passíveis de serem decifrados como traço odioso. Seja no amor ou no ódio, o objeto é superinvestido. Como o laço na massa, o exercício identificatório mantém esse investimento preservando seus pontos de certeza
(Aulagnier, 1985, p. 23), acentuando essa dimensão aprisionante. Oportuno, Lacan ([1955] 1998) aproxima o amor e o ódio ao saber, equalizando a ignorância como pavimento de um não querer saber da falta, tão consubstancial quanto o desejo. Comportar o saber é supor um não saber. Destacando a coalizão do grupo, a massa faculta a discussão que desvela a cifra da ignorância, quando tenta rechaçar o traço destoante das próprias convicções. A ignorância demarca o intolerável, deslocando para o campo do outro o inarticulável da própria falta que, delineada pela agressividade, reveste a intolerância e o radicalismo. Aludindo à dinâmica do amor e do ódio, Lacan ([1972-1973] 2008) propõe que, no amor, o indivíduo imputa o saber no objeto amado, como o amor idealizado por uma ideologia, correlativo do que ocorre no ódio cultivado pela massa aos grupos de fora. Amostra disso foi o cristianismo, que em sua trajetória histórica realizou extermínio àqueles que se opuseram ou negaram à crença por eles imposta. Quiçá o conceito de raça inventado pelo discurso colonial (Mignolo, 2017) seja como testemunho da radicalidade do que Lacan ([1972-1973] 2008) nomeia como paixão pela ignorância, na qual só há lugar para o eu e o objeto identificado, ou quando se efetua desejo de destruir o traço do outro. Efeito da dominação econômica do discurso eurocêntrico, a colonização, ao fabricar a concepção do termo raça, trouxe como consequência uma das maiores tragédias da humanidade, a escravidão e o genocídio dos povos africanos e povos indígenas das Américas, do Sul, Central e Norte. É notável que Freud ([1905] 1996) tenha destacado que a pulsão alcança certa satisfação quando há um estado de não desejo, revelando o apego da psique em se preservar na condição apaziguada, longe dos riscos que o amar proporciona, uma vez que, investir amor num objeto, é admitir a própria falta, falta de saber. Argumentando, Lacan ([1972-1973] 2008) grifa que não reconhecer o ódio é também não conhecer de modo algum o amor. No entanto, há o malogro nessa dinâmica, no amor ou no ódio, não haverá completude, o desamparo humano não pode ser resolvido por absoluto. É nisso, antes de tudo, que os deuses fracassam
(Freud, [1927] 2014, p. 250).
REFERÊNCIAS:
AULAGNIER, P. A violência da interpretação: do pictograma ao enunciado. Rio de Janeiro: Imago, 1979.
AULAGNIER, P. Os destinos do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1985.
FERREIRA, A. B. de H. O minidicionário da língua portuguesa. 4. ed. Edição revista e ampliada do minidicionário Aurélio. 7. impr. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.
FREUD, S. [1895]. Projeto para uma psicologia científica. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. [1905]. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. [1914]. Sobre o narcisismo: uma introdução. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. [1915]. Os Instintos e suas vicissitudes. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. [1920]. Além do princípio do prazer. São Paulo: Companhia das letras, 2010.
FREUD, S. [1921]. Psicologia das massas e análise do Eu. São Paulo: Companhia das letras, 2011.
FREUD, S. [1923]. O Eu e o Id. São Paulo: Companhia das letras, 2010.
FREUD, S. [1926-1929]. Inibição, sintoma e angústia, o futuro de uma ilusão e outros textos. São Paulo: Companhia das letras, 2014.
FREUD, S. [1930-1936]. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos. 1. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2010.
LACAN, J. [1972-1973]. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
LACAN, J. [1955]. Escritos/Jacques Lacan – Variantes do tratamento padrão. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
MIGNOLO, W. Colonialidade: o lado mais escuro da modernidade. RBCS, v. 32, n. 94, [S. l.], jun. 2017.
SLOTERDIJK, Peter. O desprezo das massas: ensaio sobre lutas culturais na sociedade moderna. Tradução de Claudia Cavalcanti. 2.ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2016.
MAL-ESTAR NO EU
Área temática
1. Psicanálise e massas: a horda primitiva, o pai primevo, o ideal do eu
Autores
Ana Maria Fabrino Favato
Palavras-chave
Ideal do eu; supereu; masoquismo moral.
Resumo:
Freud assevera que se sentir feliz não pode ser considerado um propósito divino da Criação. Isso nos indica que a possibilidade de felicidade está limitada à nossa constituição, é de estrutura. Diante do mal-estar, não há uma regra de ouro que se aplique a todos e cada um terá que descobrir por si mesmo a maneira específica de se salvar. Há um resto que sobrevive como traço indestrutível do próprio mal-estar no sujeito, dividido em si mesmo entre a herança moral que civiliza o gozo e o sentimento de culpa ou desejo de punição que bestifica o gozo. Freud não deixou de ver, na função econômica do masoquismo e no mal-estar na cultura, a estrutura da constituição subjetiva, mesmo com a presença de uma satisfação que leva ao pior. Começo com um sonho de uma paciente que conta estar jogando vôlei numa quadra recebendo todas a bolas e errando todas. Recebia e errava todas. Mudou de posição no jogo e continuou a receber todas as bolas e a errar todas. Resolveu ir para o saque e continuou errando. Veio o treinador conversar com ela e chorava sem parar. Comenta, após o sonho, que vai ter que encontrar uma posição sem o marido de quem acaba de se separar. Nossa clínica é permeada de casos de não satisfação, de não realização do desejo, indicando, como Freud assevera, que a intenção de que o homem seja ‘feliz’ não se acha incluída no plano da ‘Criação’
(Freud, [1930] 1974, p. 95). Nossas possibilidades de felicidade estão limitadas à nossa constituição, são de estrutura. Satisfazemos episodicamente, de forma tênue e a partir de contrastes. Nada é mais difícil de suportar que uma sucessão de dias belos
(Freud, [1930] 1974, p. 95). Diante do mal-estar, não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo
(Freud, [1930] 1974, p. 103). Não há sujeito sem sintoma, cuja função é fixar o modo de gozo privilegiado de cada um. Depois de experimentar uma sucessão de dias belos, essa mesma paciente do sonho diz que está em sobressalto, pois há sempre uma pendência, alguma coisa de errado para acontecer, uma assombração que a qualquer momento vai aparecer para assustá-la. Freud nos lembra que, mesmo em tempos de calma e sossego, com o desfrute das maravilhas da cultura, vozes de advertência surgem como um resto que perturba a fruição da civilização (Freud, [1915] 1974). É um resto que sobrevive como traço indestrutível do próprio mal-estar no sujeito, dividido em si mesmo entre a herança moral que civiliza o gozo e o sentimento de culpa ou desejo de punição que bestifica o gozo. Não há progresso na civilização, isso é uma ilusão. Há um conflito entre o Todo da renúncia ao gozo, que supõe regular as pulsões a partir das normas do universo
, e o Não todo de uma vontade de gozo ilimitada, tecida de pulsão de morte. São formas de agir do supereu. A partir do ideal do eu, o supereu é essa consciência moral advertida e atenta a nos vigiar com vozes de advertência. Além de vigiar, ele exerce o papel judicativo, que julga o eu, julga os outros, confere o tamanho do eu e de seu ideal. Na sua função de punição, é implacável no sadismo em direção ao eu, ditando o modo de gozo masoquista, expressão direta do sentimento de culpa. Quanto mais proibição e restrição, mais o eu é punido. Quanto mais se controla a agressividade para fora, mais severo e agressivo se torna em seu ideal do eu. Freud chega a afirmar que a gravidade de uma neurose é determinada pela atitude do supereu. Resume que pode-se dizer do isso, que ele é totalmente amoral; do eu, que se esforça por ser moral; e do supereu, que pode ser supermoral e tornar-se tão cruel quanto somente o isso pode ser
(Freud, [1923] 1976, p. 70). Freud traça a satisfação obtida no circuito pulsional com os modos de gozo sádico e masoquista e assinala que, em princípio, não existe diferença entre uma pulsão voltar-se do objeto para o eu ou do eu para o objeto. O que importa é a defesa que opera aí. O masoquismo, a volta da pulsão ao próprio eu do sujeito, consistiria num retorno a uma fase anterior da história da pulsão, uma regressão (Freud, [1920] 1976). Nesse ponto, a concepção do masoquismo teria algo de inteiramente exclusiva: ser um masoquismo primário. A regressão aqui é uma elaboração precisa de Freud, pois essa defesa provoca uma mudança real no inconsciente e no eu. O recalque é um procedimento psíquico de tornar uma representação consciente em inconsciente. Ele afeta a representação, apaga um desejo da cena, mas mantém ambos inalterados no inconsciente, mesmo não havendo satisfação. A regressão, ao contrário, é um processo orgânico, envolve o corpo, permite o acesso à satisfação e muda o estado de coisas (Freud, [1917] 1976). No masoquismo, portanto, o circuito pulsional retorna ao próprio eu pela via de uma degradação regressiva. O amor pelo pai sucumbe em favor do sentimento de culpa e a fantasia o meu pai me ama
se transforma em o meu pai me bate
(Freud, [1919] 2017). A essência do masoquismo é a excitação libidinal obtida por meio desse substituto regressivo, no qual corpo, necessidade de punição e erotismo se enodam. No texto Bate-se numa criança
, Freud faz uma análise sobre a gênese das perversões. A fantasia de espancamento funciona como um fenômeno residual incomum
, um resto da relação incestuosa no Édipo, um ponto de dessubjetivação, de fixão, em que o sujeito se fez instrumento de gozo do Outro, o pai (Freud, [1919] 2017). Trata-se de um gozo autoerótico que se antecipa na estrutura como um traço primário de père-version, versão do pai. O supereu como herdeiro do complexo de Édipo retém o caráter do pai, e quanto maior for a influência dessa autoridade, mais severa será a dominação do supereu sobre o eu (Freud, [1923] 1976). Por essa condição, o masoquismo é acolhido nos destinos do circuito pulsional, não mais de forma isolada, mas como propriedade permanente do desejo libidinal (Freud, [1919] 2017). Um desejo de gozo que dá satisfação ao que há de mais estranho no familiar e onde o sujeito se reconhece. Encontramos esse estranho-familiar — Unheimlich — na articulação que Freud faz do sentimento de culpa com a angústia. O primeiro nada mais é do que uma variedade da angústia como sinal diante do medo do supereu
ou do medo da perda de amor do supereu (Freud, [1930] 1974). Na ausência do amor, o sujeito busca a segurança da presença e isso o leva ao caminho do fracasso. Freud indica nos arruinados pelo êxito que não só a frustração convoca o gozo superegoico, também o êxito. Certos tipos de pacientes adoecem precisamente quando cumprem um desejo. Pode-se concluir que há sofrimento na ausência e na presença de satisfação. É estar mal quando as coisas vão bem e estar bem quando as coisas vão mal. Com isso se conserva o objeto do desejo sempre a distância (Freud, [1916] 1974). É receber todas as bolas e errar todas. Realizar um desejo provoca uma frustração interna, como se o sujeito dissesse: não tenho direito a essa felicidade, não mereço essa satisfação, bom demais para ser verdade
. A incredulidade escancara a divisão subjetiva, põe a dúvida no processo do pensamento judicativo, que fica entre o prazer e/ou a punição. Isso é bom ou ruim? Isso existe mesmo ou não? Posso ou não posso usufruir do que quero? Freud se assombra, em sua visita à Acrópole, quando ele próprio duvida de sua felicidade diante da maravilha que tem diante dos olhos. "Então tudo isso realmente existe mesmo, tal como aprendemos no colégio! (Freud, [1936], p. 295, grifo do autor). O que construí internamente como sendo a Acrópole está também na realidade? Em seu texto
A negação, encontramos que
não é apenas importante se uma coisa (um objeto de satisfação) (Befriedigungsobjekt) possui a ‘boa’ qualidade, portanto, se merece ser aceita no EU, mas também se ela está no mundo externo, de maneira que se possa apoderar-se dela, segundo a necessidade (Freud, [1925] 2017, p. 308, grifos do autor). O pensar tem a função de buscar na realidade algo outrora percebido, sem que o objeto exterior precise ainda estar presente. Mas a tarefa de
reencontrar" esse objeto na realidade e certificar-se de que ele ainda está presente é impossível. Posso ir à minha dispensa com a certeza de que o que preciso está lá. No entanto, encontro outra coisa, mas não o que buscava. Esse processo psíquico de reencontrar o objeto é um tatear constante no jogo das pulsões primárias de vida e morte, com tentativas de inclusão e expulsão, de atribuição e presentificação. O encontro com essa realidade é, dessa forma, sempre caótico, pois entra a Coisa, Das Ding, o elemento sem qualidades ou atributo, portanto, inassimilável, isolado na cadeia de pensamento. Sobre esse ponto, Lacan acrescenta em seu Seminário 7: a ética da psicanálise
, que desse encontro do interior a um exterior o sujeito terá que discernir as qualidades para a busca de satisfação. É um jogo ético, em que Das Ding, estranho e alheio à cadeia de significantes, orienta todo o encaminhamento do sujeito com relação ao mundo de seus desejos, para o melhor ou o pior (Lacan, [1959-1960] 1997). De nossa posição de sujeito, somos sempre responsáveis. Lacan diz que isso pode ser considerado terrorismo, mas ele não cometerá o erro imperdoável de boa-fé ao excluir a ternura da bela alma (Lacan, [1965] 1998). Freud não deixou de ver, na função econômica do masoquismo e no mal-estar na cultura, a estrutura da constituição subjetiva, mesmo com a presença de uma satisfação que leva ao pior. Ele não recuou diante do gozo masoquista que se oferece na clínica como um sofrimento moral, inclusive com a possibilidade de interrupção do tratamento. A exigência de excitação sexual na dor intrigou o analista. Via de regra, a dor é uma demanda de satisfação endereçada ao outro, mas no masoquismo moral pode se tornar impessoal, com punição gerando punição em si mesma, sem barra e sem endereçamento ao outro. O masoquismo moral é o que conhecemos como o sentimento de culpa inconsciente e nele o que conta é o próprio sofrimento. A libido ou a sexualidade são deixadas de lado e a pulsão de morte, com toda a sua força, volta-se para a própria pessoa (Freud, [1924] 1976). A forma extrema e patológica do masoquismo moral nos indica que a necessidade de punição parte do isso, reino das pulsões, e não do inconsciente, reino das representações, onde a sexualidade circula livremente. O papel sádico e exigente do supereu, como mencionado no início do texto, vem das exigências de seu ideal, no qual o eu tem que seguir como modelo, vem das pulsões e das identificações. Ele é representante tanto do isso como do mundo externo, que, por meio de uma desfusão das pulsões, tornou-se sádico (Freud, [1924] 1976). Freud tem o cuidado de estabelecer a diferença que separa essa extensão inconsciente da moral e o masoquismo moral
(Freud, 1924, p. 299). A primeira é o sadismo do supereu dirigido ao eu, quase sempre consciente; o segundo, inconsciente, é o próprio masoquismo moral. O supereu, assim, tornou-se sádico, e o eu se tornou masoquista. Uma necessidade violenta de castigo se desenvolve no eu, que sexualiza a moral pela via da regressão para se oferecer como vítima do destino. Toda punição é, em última análise, uma castração e como tal, realização da antiga atitude passiva para com o pai
(Freud, [1928] 1974, p. 213). Essa moral sexual só pode levar a uma doença neurótica, em que o sujeito se perde no masoquismo do santo, do criminoso, do arruinado, do espancado, do inútil. O supereu não é um conceito largamente trabalhado na escrita psicanalítica. Lacan mesmo diz não se dedicar muito a ele. No entanto, podemos encontrá-lo em toda a extensão da elaboração do ensino de Lacan e de Freud. Quando Lacan identifica o supereu como o nome do gozo, e Freud conjuga a gravidade da neurose com esse mesmo gozo, a ética da psicanálise nos convoca a não recuar diante da dimensão moral que implica a experiência trágica da vida.
REFERÊNCIAS
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FREUD, S. [1919]. Bate-se numa criança
: contribuição para o estudo da origem das perversões sexuais. In: FREUD, S. Neurose, psicose e perversão. Tradução de Maria Rita Salzano Morais. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. p. 123-156. (Obras incompletas de Sigmund Freud).
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