Sobre este e-book
Nesta trama vamos acompanhar o padre Julian e Nicolas seguirem uma pista do primeiro. Ambos vão para Alemanha, e Nicolas usa seu dom para ver as memórias dos bastidores da Segunda Guerra Mundial. Algo assustador parece ter se aproveitado das crenças antissemitas e influenciado uma geração de monstros que promoveram o Holocausto. Eric trava uma luta interna entre a sanidade e a loucura com um fantasma do médico da peste como seu conselheiro. Assim, presente e passado se cruzam, e as sombras do não tempo começam a tomar forma.
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Crônicas do Não Tempo - Igor L. Frey
A sombra do passado
As imagens eram indefinidas, sem limites. Ele se sentia mergulhado em sombras. Não era como a escuridão da cegueira, pois havia uma textura negra e vaporosa que se movimentava e, por vezes, lembrava as espumas que boiavam num lago plácido, se espalhando por todos os espaços.
Em outros momentos, entrava num ritmo frenético. Quando isso acontecia, Nicolas se lembrava de suas rápidas visões das cavernas de Montségur através das memórias de Otto Rahn, no momento em que uma turba de morcegos cruzou com os caminhos dos exploradores, causando alvoroço. Havia também sons assustadores de uma conversa sibilante em estranha língua, que aparentava às vezes estar longe, outras vezes, perto. Uma voz familiar ressoou ao seu lado.
— Eu em nenhum lugar, circulando em meu próprio centro, anestesiado e sentindo, entrando e saindo…
— Tio Gilbert? — perguntou Nicolas.
— Sorrindo… Sou Deus em todos os aspectos neste segundo eterno.
— Tio Gilbert!
— Meu sangue coloniza todas as terras, e eu nem me cortei…
Nicolas caminhou em direção àquela voz. Ela parecia soar à sua frente, mas ele nada via, a não ser aquela estranha dimensão.
— Eles desistiram de tentar, lá vêm outra vez e de novo — disse a voz de Gilbert.
Nicolas notou medonhas formas, que se desenhavam a certa distância, articularem um som grotesco. Sentiu-se tocado por uma mão e escutou a voz de seu tio Gilbert:
— Você não devia estar aqui! Corra! Saia, saia! Corra!
Aquela mão o puxou com muita força e o atirou em um poço. Ele caiu por tempo indefinido, sem encontrar o fim. Em algum ponto, sentiu seu corpo estremecer e percebeu-se deitado na sua cama. Sua respiração estava acelerada, e, apesar do frio do inverno, ele suava. Apertou o botão do celular ao seu lado, e uma voz programada soou do aparelho.
— São três horas e quinze minutos.
Havia perdido completamente o sono, e ficou sentado na cama, pensativo. Desde que voltara da crise catatônica, não se sentia o mesmo. Emoções outras tomavam conta de seu corpo, e um temor sobrenatural causava um tremenda frieza em seu peito. Por vezes sentia as emoções das memórias dos personagens que visitou: a determinação e a crueldade do caçador de bruxas, e a desolação que sentia o médico da peste negra. Não lembrava o que aconteceu no dia que acordara do seu coma. Não lembrava nem de ter conhecido Patrice, muito menos Tauane. O nome Egon lhe causava ainda alguma familiaridade.
Ele lembrava-se de ver-se acordando de forma súbita dentro do hospital com o Sr. Jean ao seu lado. Soube, então, que havia passado dezessete dias desacordado. Revira seus amigos, que comemoravam numa festa seu retorno. Abraçara Sofia, que pareceu muito feliz ao vê-lo melhor — aproveitou a ocasião e fez as pazes com ela. Mesmo assim, tanto Nicolas quanto a garota tiveram logo que tomar rumos diferentes. A mãe de Nicolas viajara com ele para passar uma temporada na casa de padre Julian, na Itália, para ele ficar sendo acompanhado por seu neurologista, Dr. Donald.
Eric, padre Julian e Nicolas viajaram para uma casa de campo, nas proximidades de Roma. Revezavam o tempo calmo do campo com idas para a cidade, no intuito de concluir os exames médicos. Nicolas conversou bastante com Eric e o padre sobre tudo o que lembrava, e dentro de si não sabia o que fazer. Ficou até então sem usar seu dom, como havia sido alertado pelo padre, pelo menos até estar fora de perigo. A única coisa que fazia era escutar lições diárias de alemão de um curso online, como uma forma de ocupar sua mente, outra sugestão do padre Julian. Mesmo assim sua alma permanecia inquieta com tudo que aconteceu.
Ele passou a madrugada revisitando o passado, e sentiu o sol nascer naquele dia frio de fevereiro.
— Nicolas, bom dia! É bom se agasalhar. Está frio lá fora — disse Eric.
— Bom dia, Eric.
— Teve outro pesadelo? — perguntou Eric.
— Sim, tive.
— Você lembrou de mais alguma coisa?
— Não, só de sombras e sons assustadores. A última lembrança clara de usar minha habilidade foi no jogo Origem, e lembrei daquela garota que também podia fazer o mesmo que eu — disse Nicolas.
— Tauane, Nicolas. Ela é Tauane.
— Você disse que eu namorava com ela — afirmou Nicolas.
— Sim, você conviveu com ela nos últimos três meses. Isso foi antes da virada do ano, que você passou conosco, pois havia acabado de acordar desse coma — disse Eric.
— Outras coisas que recordo devem ser, talvez, memórias de outras vidas. Algo na França, em Versalhes. Elas estão mais nítidas agora. O conde de Saint Germain era uma pessoa conhecida na corte. Mas não me lembro de tudo.
— Ah! O conde de Saint Germain… Você pesquisou sobre ele? — perguntou Eric.
— Sim, eu acho que sim. Não me lembro através de que, mas me lembro de algumas ocasiões em que ele estava presente. Ele conversava com o Rei Luís XV sobre algumas terras, e era um joalheiro.
— Interessante, Atman promoveu uma palestra sobre o conde há algum tempo. Atman é o homem que financiava a Escola de Estudos Biopsicofísicos — afirmou Eric.
— Arf! Eu estou tentando me lembrar dessa namorada, porém só me lembro da confusão com Sofia. Quando a encontrei no apartamento de minha mãe, parecia que nada tinha acontecido. Ela me abraçou tanto… E você me diz que eu tinha uma namorada que tinha os mesmos dons que eu. Por que não posso falar com ela? — perguntou Nicolas.
— Ela e o outro menino estão diferentes, parecem ter sofrido uma espécie de lavagem cerebral. Eu tentei chegar com cautela, mas estavam estranhos. Falei rapidamente com os pais dela, e eles parecem não ter percebido nada. Assim também falei com os pais de Egon e, no entanto, é como se eles desconversassem. Acho que algo aconteceu, só que logo viemos para cá ver o Dr. Donald.
Alguns passos na escada denunciavam a aproximação de outro personagem indo em direção à sala.
— Mãe, você acordou — disse Nicolas, reconhecendo a cadência e o ritmo dos passos.
— Sim, meu filho. Tudo bem com você? — perguntou Celine.
— Sim! Lembrei de mais algumas coisas, mas não de tudo.
— Vá com calma, ainda faz 3 meses. Aos poucos você vai lembrar de tudo, com fé em Deus — disse Celine, um pouco incerta.
— O padre vem restabelecendo sua fé, certo Celine? — perguntou Eric.
— Ora, sim! Depois de um susto desses… O senhor Camil falou que vieram algumas pessoas procurando notícias de Nicolas e de mim lá no prédio onde eu moro. Eu quero é distância desses homens. Ainda assim, eu tenho que voltar para a França, O meu trabalho já foi flexível demais com meu problema, e agora não posso mais adiar a volta. Porém, para segurança de Nicolas, prefiro que ele fique mais um pouco com o padre.
— Caso continuem te importunando, é só me dizer — disse Eric. — E fale que Nicolas está na Índia, na casa de parentes.
— Bom, o pior já passou, Nicolas. Espero que logo você esteja melhor. Eu queria tirar satisfação com esse louco da Escola de Estudos Biopsicofísicos. Tenho certeza de que fizeram você beber alguma substância química para justificar um experimento paranormal — disse Celine.
— Celine, lembre-se de que é melhor não chamar atenção dessas pessoas por enquanto. Há algo muito esquisito aí. Aqui Nicolas está bem acompanhado. Não se preocupe, logo ele irá falar como os italianos — disse Eric.
— Eu estou há dois meses estudando alemão por recomendação do padre. Não sei nada de italiano, não consigo comprar uma fruta na feira se eu sair na cidade — disse Nicolas.
— Bom, é para trabalhar a memória, as novas conexões. Nada melhor que uma nova língua para ativar várias áreas do nosso cérebro ao mesmo tempo, já que associamos o velho com o novo — disse Eric.
— Bom, Nicolas. Então, depois do almoço, alguém vai me levar a Roma, e vou pegar o primeiro voo para Paris — disse Celine.
— Tá bom, mãe.
— Logo, logo será seu aniversário. Espero que até lá você esteja totalmente recuperado.
A porta da sala foi aberta de forma inesperada. Correu um vento frio dentro da casa, contrastando com o clima artificial criado pelos aquecedores. O padre Julian, agasalhado, entra com duas garrafas de vidro cheias de leite.
— Bom dia a todos! Vejo que estão acordando cedo. Trouxe aqui um pouco de leite fresco.
O leite foi fervido, e Celine e o padre prepararam um farto café da manhã. Eric havia trazido alguns queijos diversos da França. Padre Julian se ateve a comidas doces, como biscoitos e torradas recheadas com geleia, e um café com leite. Eric insistiu para ele experimentar o queijo pela manhã, mas ele se recusou, dizendo que não combinava. Nicolas experimentou todas as opções à mesa. Celine compartilhou com Eric a tradição francesa.
Após concluírem o café da manhã, Nicolas saiu para o campo acompanhado de padre Julian e Eric, enquanto Celine foi providenciar sua passagem aérea pela internet. Eles estavam numa fazenda e caminharam até um celeiro, onde havia uma espécie de depósito. Havia várias coisas espalhadas em caixas e distribuídas em mesas: pedaços de cerâmicas, moedas de distintas épocas, papiros e entulhos. Essa informação espacial traduzia-se para Nicolas como uma hesitação de caminhar por desconhecer os obstáculos que o abafado armazém causava a sua percepção. Ele passou a ser mais cauteloso com sua bengala, tateando a sua frente. Havia algumas cadeiras espalhadas; Eric acomodou Nicolas em uma delas e logo depois se sentou.
— O que são essas fotos, padre? — perguntou Eric, observando fotos em preto e branco sobre a mesa do religioso. Em algumas, via-se um grupo de soldados usando a cruz suástica. Em outra, homens de ternos sorriam ao lado de uma pessoa ilustre.
— Este foi Juan Perón, presidente da Argentina. Ele recebeu muitos fugitivos nazistas após a Segunda Guerra Mundial. São algumas pesquisas minhas sobre o tempo — disse o padre, que olhou para Nicolas e continuou: — Bom, Nicolas, segundo o Dr. Donald, os seus exames estão normais. Como Eric já havia mencionado a você, eu também possuo desde a adolescência esta mesma habilidade de viajar pelas memórias, e há muito tempo faço isso em minhas pesquisas.
— Eric me contou. Isso que você diz significa que eu já posso usar minha habilidade?
— Sim! Só que sob supervisão, Nicolas. Talvez de forma semelhante à que você fazia na Escola de Estudos Biopsicofísicos. Sei que você não lembra claramente. É possível que você se recorde com o passar do tempo.
— Eu estou entediado com tudo isso. Realmente minha memória ficou bastante confusa, nem consegui me despedir direito de Sofia, Heron e Felipe. Estava atordoado. Eu já posso falar com eles?
— Sim, garoto, pode. Tome seu celular. Precisávamos desaparecer. Agora que sua mãe voltará para lá, não é mais necessário — disse Eric. — Sobre as pessoas que fizeram isso com seu tio, elas fizeram também algo com seus amigos e tentaram fazer algo com você. O padre Julian tem uma suspeita e está fazendo uma investigação sobre o que se trata tudo isso. Precisamos conhecer nossos inimigos para conseguirmos nos defender deles. E por isso gostaríamos de sua ajuda, Nicolas.
— Meu filho, o tempo foi-me muito favorável com meu dom. Eu o utilizei bastante, mas com os anos, agora é muito difícil para mim focar numa época especifica. Talvez seja a idade, talvez os excessos de viagens às memórias do passado, porém durante cinquenta anos elas não falharam. Meu dom se aproxima do que o seu tio podia fazer, e muito provavelmente o que você pode fazer. Eu gostaria que, se você pudesse, nos ajudasse a terminar essa pesquisa — disse o padre.
— Eu gostaria de estar menos confuso. Não consigo me lembrar de tudo o que houve — disse Nicolas.
— Eu acredito que ao exercitar você logo se lembrará de tudo. Apesar dos procedimentos utilizados por esses homens serem desconhecidos, seu cérebro está sem lesão alguma — disse o padre.
— Então sim, eu quero fazer parte da sua pesquisa, padre.
— Ótimo, Nicolas. Você deve lembrar como acessar o passado. Com o incentivo certo, você poderá aprender a utilizar o seu dom de forma mais célere. Como sabe, poderá acelerar sua vivência na memória. Assim fazendo, o tempo lá e aqui ficarão bastante diferentes. Você vivenciará muito tempo lá e pouco tempo aqui. O problema dessa prática é que ela é viciante, mas é a melhor maneira de apreender. Apesar de sua imaturidade, você e somente você precisará encontrar o limite disso para não ter problemas cognitivos a curto prazo, devido à aceleração metabólica e à plasticidade neural.
— Ahn? Não entendi — disse Nicolas.
— O cérebro aprende num ritmo e cria conexões sobre determinados eventos, só que você talvez possa vivenciar anos em dias, e isso consome muita energia. Por isso aconselhamos a fazer suas viagens com um soro para lhe ajudar no processo. Mas não se preocupe, não são as substâncias que o senhor Patrice utilizou em você — disse o padre.
— Padre, eu confio em vocês. Vocês me salvaram, não foi? — perguntou Nicolas.
— Nicolas, você entende como o seu dom funciona? — perguntou o padre.
— Eu me lembro que, tocando num objeto, posso acessar os lugares e as cenas em que ele esteve presente e ver coisas do passado e tudo ao redor — disse Nicolas.
— Sim. Contudo, por que ele não funciona com todas as coisas? — perguntou o padre.
— Como assim? — perguntou Nicolas.
— Por exemplo, uma árvore, ou uma pedra?
— É, eu não sei, não me lembro de ter tentado — disse Nicolas.
— Ou mesmo as memórias de uma pessoa… Por que, ao tocar alguém, você não pode ver as memórias dela? — perguntou o padre outra vez.
— Não sei — disse Nicolas.
— No que concerne a coisas vivas, elas estão em constante renovação. A pele e todos os tecidos se renovam no corpo. Mas principalmente as pulsações da vida parecem interferir nos nossos dons. Memórias são fatos passados, e o passado podemos dizer que está morto. Eu acredito que o nosso dom tem a ver com a morte. Acessamos objetos inanimados, de preferência tocados pelo ser humano, porque somos seres humanos e traduzimos a maior parte das coisas que vemos a partir de uma identificação com os sentidos humanos. Um osso, o fóssil de uma múmia, poderia nos dar alguma memória sobre o que ocorria dentro das tumbas antigas, porém nenhuma informação nos traria da vida daquele homem. Uma pedra pode ser testemunha de transformações naturais por séculos até milênios, e tal informação sem o contato humano não pode ser traduzida pela nossa percepção.
O padre continuava a falar:
— Contudo, deixe um homem esculpir a pedra e transformá-la em estatua, e você poderá ver através dela as sociedades em que ela foi testemunha. Nós precisamos de objetos trabalhados pelos homens para vermos através deles, e por mais que eu tenha tentado entender o porquê disso e elaborado inúmeras teorias, o que posso falar de forma mais clara sobre isso é porque, simplesmente, é assim.
— Então nós conseguimos ver através de objetos que o homem trabalhou ou que pertenceram a alguém, mas não através da natureza? — disse Nicolas.
— Isso mesmo. Até hoje não conheci ninguém que fosse além disso — disse o padre.
— Entendo — respondeu Nicolas.
— Poderemos começar nossa pesquisa ainda esta manhã? — perguntou o padre.
— Quando você quiser — respondeu Nicolas, ansioso.
O padre se dirigiu à ampla mesa e pegou uma pequena caixa. Abriu-a e tirou de dentro dela um anel.
— Pois bem, você vem estudando alemão. A imersão é uma maneira mais rápida de aprender a língua. Precisamos voltar no tempo, antes da Segunda Guerra Mundial. É lá que preciso localizar um evento. Mas até lá você precisará estar fluente no alemão. Este anel contém muitas histórias; você irá, a partir dele, voltar no tempo e aprender. Hoje começaremos devagar, e depois, cada vez mais, sua imersão será mais profunda. Acredito que em uma semana você estará bem melhor na língua alemã — disse o padre.
— Eu fui uma vez na Segunda Guerra. Eu vi algumas pessoas desse tempo — disse Nicolas.
— Agora iremos antes de ela acontecer, precisamente na segunda década do século XX.
Sobre uma cadeira confortável, Nicolas se acomodou. Eric preparou um soro ao lado da cadeira, pendurado por um suporte usado nos hospitais. O garoto deduziu que não era a primeira vez que eles faziam aquele tipo de experiência. O companheiro espetou-lhe a veia, e ele pegou o anel. Iniciou tateando, sentindo sua textura e temperatura, até que logo sentiu algo mais. Foi sendo transportado aos poucos do presente para uma época recuada do século XX.
Nicolas via uma adolescente. Uma bela garota, talvez com seus 16 anos, tinha os cabelos curtos e usava sobre a cabeça uma espécie de chapéu branco, que mais parecia uma touca e cobria parte de sua testa. Era a primeira vez que ele a via, e achou aquele modo comportado de se vestir elegante. Combinava com o vestido branco solto dela, cuja saia terminava na altura dos joelhos. Nos pés, um calçado afivelado deixava parte deles à mostra.
O jovem transloucado continuava a se impressionar com a diferença de vestimentas de todas as épocas que observava. Em sua antiga forma de perceber o mundo, não tinha referência alguma de como isso temperava as relações. Ele sempre se ateve ao essencial, talvez daquela sua maneira fosse mais fácil perceber o que os outros chamam de alma. Contudo, ver as formas e as belezas de como as coisas se apresentavam era maravilhoso e fantástico, sedutor e ilusório, pois alguém com intenções obscuras, como o conde de Roch, vestia-se, portava-se e apresentava-se tal qual um modelo a ser admirado e recebido por todos.
Além daquela garota, o panorama que se estendia ao seu redor impressionava como outro mundo. Ruas espaçadas; carruagens abertas, conduzindo pessoas; carros quadrados, que andavam devagar, vagão que passava mais à frente, conectado por uma haste a cabo; prédios que tinham uns dois ou três andares. Todos pareciam andar de chapéu, boinas ou qualquer coisa sobre a cabeça, fossem homens, mulheres ou crianças. A garota que ele observava esperava alguém, ansiosa, numa posição estática, com os dois pés juntos e as duas mãos segurando o anel na altura do umbigo. Via-se um sorriso revelar seus dentes, que tinham um desvio de alinhamento discreto.
Isso aconteceu no momento em que surgia na esquina um jovem vestindo uma espécie de farda, semelhante às dos escoteiros. Ele usava bermuda, camisa e sapatos escuros com meias. O moço sorriu, e a comprimento, e eram perceptíveis as expressões alegres e contidas que ambos manifestavam no encontro. Ela falou algo em alemão que Nicolas não compreendeu, e o garoto que acabava de chegar estendeu as mãos. Num gesto delicado, ela colocou sobre a mão dele um anel; ele a olhou nos olhos e disse:
— Das werd’ ich immer tragen!
Nicolas conseguira traduzir: Eu usarei para sempre!
.
De forma tímida, ela desviou o olhar para encará-lo outra vez, sorrindo, e o cumprimentou num movimento afirmativo com a cabeça. Havia uma atmosfera mágica um tanto nova para Nicolas. Para ele era como se a felicidade estivesse ao alcance de um estender dos braços. Algo nos olhos daquela garota começava a encantá-lo.
Um grito na rua interrompeu a atenção do garoto. Um jovem um pouco mais velho, com o mesmo uniforme, chamava-o. Ele despediu-se num movimento rápido e foi em direção ao rapaz. Nicolas passou a acompanhar o portador do anel. Os dois garotos se juntaram com um grupo maior e se dirigiram até um campo, onde participaram de jogos e exercícios físicos. Depois conversaram sobre temas que o observador não compreendia completamente.
O dia passava, e naquela imersão, a sensação de simbiose começava a aumentar. Nicolas sentia as nuances de emoções um tanto distintas das suas através daquele anel, que possivelmente pertenciam ao garoto. Uma necessidade de aprovação fazia o garoto obedecer todas as figuras de autoridade a sua frente, escutando-as com atenção. Dentro de si, guardava em algum lugar aquele momento de felicidade vivido. Era algo só seu que os outros não precisavam saber.
No fim do dia, começava a compreender melhor a língua alemã. De fato era uma imersão. Estava gostando de ver os campos, assim como de viver a rotina diária daquele rapaz. À noite o jovem pegou em sua cabeceira um livro. Nicolas lia em sua capa o título Mein Kampf —
