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Os estandartes de Átila - Sílvio Fiorani
SÍLVIO FIORANI
OS ESTANDARTES DE
ÁTILA
Para Aurora, minha mãe, in memoriam.
NOTA DO AUTOR
Amaior parte dos contos que aqui estão foram escritos no final dos anos 1970 e inícios dos anos 1980. Trata-se de meu segundo livro publicado. Muitos desses textos já haviam sido publicados em jornais, revistas e coletâneas. Essa abertura de mídia era um poderoso estímulo aos escritores que estavam então surgindo. Havia um interesse muito particular pela narrativa curta. Nas páginas da chamada imprensa alternativa confundiam-se as paixões literárias e a resistência à ditadura. Por essa via, os autores jovens tiveram o necessário espaço, o que estimulou o debate e novas produções literárias. Movido por aquela efervescência toda, continuei tomado pelo ímpeto de seguir escrevendo contos contemporaneamente à edição de Os estandartes de Átila . Ainda que a quase totalidade das histórias da primeira edição aqui esteja, algumas histórias escritas logo depois também estão presentes.
A distância no tempo me permite examinar com outros olhos o que escrevi durante aquele período. Quando os temas das histórias começaram a convergir para um só ponto, para as recorrências, para personagens em primeira pessoa mais insistentes, acabei rendendo-me à constatação de que não eram mais contos o que eu estava escrevendo, mas pedaços de um novo romance. Eu já sabia então que as histórias que um escritor cria em toda a sua vida compõem sempre uma unidade indissolúvel, cada uma justificando a que virá a seguir. Trata-se da manifestação do poderoso mecanismo da causalidade; e, se imaginarmos o alcance desse mecanismo, vamos ver que a origem de tudo é anterior até mesmo à primeira linha de ficção que tenhamos escrito. Num recuo ao tempo anterior a essa linha inicial, vamos encontrar os autores que nos encantaram ou nos mostraram que os caminhos da ficção são múltiplos; mais que isso, que a maneira de escrever é algo tão pessoal quanto as nossas impressões digitais. O estilo é inimitável porque está relacionado com as vozes interiores do escritor. Não existe, a rigor, plágio quando uma história é apropriada; mas sim quando uma frase é repetida em sua complexidade. Assim, a vida de um escritor é feita da procura dessas vozes e do exercício incessante para convertê-las em linguagem literária. Este livro é o registro, em certo período, dessa busca.
Nas páginas finais de Investigação sobre Ariel, meu último romance, um dos personagens-narradores, Francisco Rovelli, diz: Fiz um grande esforço para ser literário quando Dédalo me fez a fatal pergunta: por que eu escrevia. Então, veio-me uma frase que, naquele momento, não achei má: Escrevo na vã tentativa de um dia poder afinal silenciar-me. Francisco cultivava, então, a ideia equivocada de que, se um dia esgotasse tudo o que tinha a dizer, poderia então viver verdadeiramente sua própria vida, deixando assim de passar o tempo a inventar outras vidas ou transformar vidas ou dar um melhor arranjo a elas, para desfrutar apenas do almejado prazer de reler seus mestres. Mais tarde, Dédalo, que é um de seus interlocutores no livro, lhe traz um recorte de jornal contendo a formulação de um escritor muito jovem e desconhecido: Aquele que me habita e escreve vive em algum lugar numa espécie de treva. Quase nada sabe da sua própria escrita. Menos ainda falar sobre ela. Tratava-se de uma observação profunda, mas perdida num texto que, de resto, não me chamara a atenção. E assim, refazendo a frase criada a partir de seu esforço para ser literário
e acrescentando a ela um novo significado, Francisco diz, por fim: Escrevo na vã tentativa de um dia poder silenciar afinal aquele que me habita e escreve e que vivia, antes que tudo isto acontecesse, numa espécie de treva. A luz, no caso, poderia constituir-se na desgraça de nunca mais escrever.
O que Francisco diz é algo que faz parte do que eu chamaria de crenças literárias
. Isso porque o que ele expressa é uma espécie de declaração de fé no poder da literatura. Se não é verdade, é pelo menos belo imaginar estes seres que nos habitam. Eu os reconheço em praticamente tudo o que já publiquei, incluindo aquele contista que, na passagem dos anos de 1970 para os anos 1980, escreveu as histórias que aqui estão.
SUMÁRIO
SETE SINAIS
A mais longa viagem
Morte na família
Retrato em sépia
Cemitério de automóveis
Rex rosnou raivoso
Buenos Aires, Buenos Aires
A semente branca
ANÉIS DE MÖBIUS
Dupla cidadania
No limiar do labirinto
Nunca é tarde, sempre é tarde
No jardim de Dédalo
A mulher dos meus sonhos
Recordar é reviver
Arcanjo Gabriel e a última mulher de Sodoma
ARTES CÊNICAS
Meu tipo inesquecível
Na cidade de Kehl num domingo
Não somos nada
Inês e a máquina
Vida doméstica
QUESTÕES DE FAMÍLIA
De repente no verão
Sempre que vamos jantar
Objetos não identificados
O Sr. Messias Rovelli
Os estandartes de Átila
Posfácio
Sobre o autor
SETE
SINAIS
A MAIS LONGA VIAGEM
Era um sono tranquilo; o que se costumava chamar de o sono dos justos. Quando ainda não se tem sete anos, a vida é uma página quase em branco, e Sandra não tivera, certamente, que clamar uma única vez pelo Cordeiro de Deus. Sim, o sono dos justos, com seus justos sonhos, esse universo paralelo ao qual normalmente não damos a devida atenção. E no sonho de Sandra havia uma cena final em que tia Eunice beijava seu rosto dizendo que partia para uma longa viagem, a mais longa entre todas que fizera. Estava bonita, com um vestido muito leve de ramagens cor de malva, chapéu branco de aba larga, luvas também brancas e ainda a bolsa, assim como que saída de um figurino dos anos cinquenta, um daqueles que a mãe de Sandra guardava desde a juventude. Depois, tia Eunice entrou num carro, um Citroën bege clarinho, com rodas raiadas e faixas brancas nos pneus e um motorista que esteve o tempo todo olhando para frente, como se não quisesse mostrar seu rosto. Quando o carro arrancou, Sandra ainda pôde ver a luva branca acenando e por último o rosto ainda jovem e bonito de tia Eunice. Viu o carro sumindo pela estrada reta ou, talvez fosse mais justo dizer, integrando-se afinal naquela paisagem imensa, uma rigorosa planície verde, um pasto interminável que tocava, no horizonte, um céu azul sem qualquer nuvem. Sandra então acordou. A mãe a chamava e era ainda madrugada e ela lhe dizia que precisavam aprontar-se, que precisavam ir com urgência a Minas. E foi dizendo também, com todo cuidado, que tia Eunice estivera mesmo muito doente, mas que descansara, que Deus sabia o que fazia, que a vida era assim; enfim, o que se dizia sempre em situações semelhantes. Disse afinal que ela partira para uma longa viagem sem retorno.
MORTE NA FAMíLIA
Morte. Muito moço ainda repetiu para si mesmo a palavra. Pronunciou-a, porém, em voz alta. Tinha, fazia tempo, o hábito de falar sozinho, mas nunca mais disse nada para si mesmo a não ser a palavra morte . As pessoas da casa não raro o surpreendiam repetindo-a seguidamente enquanto se entretinha com alguma tarefa. Não deram importância ao fato prontamente, a não ser a mãe, que pressentiu, vitimada pelo seu aguçado sexto sentido, alguma desgraça. E como ao analisar a situação lembrou-se de que as pessoas que falavam sozinhas falavam quase sempre de si para si, desesperou-se ante a iminência de perder o filho predileto ainda tão jovem. Que desgraça , disse, e pensou onde encontraria as lágrimas necessárias para chorar o quanto haveria de chorar dali em diante. Magoada,
