O pensamento político de Wanderley Guilherme dos Santos
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O pensamento político de Wanderley Guilherme dos Santos - Marcelo Sevaybricker Moreira
COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO CIÊNCIAS SOCIAIS
Para Helena, Tomás e Marina. Por tudo.
AGRADECIMENTOS
Devo reconhecer que este livro não teria sido escrito sem a orientação de Juarez Rocha Guimarães, no Programa de Pós-Graduação do Departamento de Ciência Política (DCP) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por quase uma década, tempo formativo para mim.
Agradeço também a Christian Edward Cyrill Lynch, cientista político com o qual mantive permanente diálogo, desde a sua participação na minha defesa de doutorado, em 2013, e que insistiu para que essa obra viesse à lume, salientando o seu potencial histórico.
A leitura das primeiras versões do manuscrito por esses dois especialistas no pensamento político brasileiro foi de inestimável ajuda. Os eventuais erros deste livro, naturalmente, são de responsabilidade exclusiva de quem o escreve.
Em relação àquele que é indissociável do meu objeto de estudo
, o próprio Wanderley Guilherme dos Santos (chamado, doravante, por questão de parcimônia, de WGS), expresso minha dívida e gratidão pelas entrevistas e pela sua disposição em me ajudar na pesquisa. Quis o acaso (ou destino?) que ele não pudesse ver o resultado concreto dessa pesquisa. Uma pena, ao menos, para mim, que esperava poder enviar a ele um exemplar e conversar sobre o livro publicado. Como esta obra não buscou ser uma apologia, mas sim uma análise paciente e crítica de seus escritos (ainda que bastante limitada pelas minhas próprias capacidades), espero que sirva como um modo adequado de destacar a importância de seu legado ao país e às ciências sociais.
Torno público também meu reconhecimento à UFMG, onde me formei e cuja editora, gentilmente, me concedeu o direito de publicar a primeira entrevista que fiz com o autor por mim estudado. Ali, fiz não apenas colegas, mas amigos que ainda me são caros: Alessandra Nogueira, Alexandre Reis, André Drumond, Cristiano Lara, Francisco Guerra, Francisco Mata Machado, Henrique Segall, Levindo Pereira Jr., Patrícia Azevedo, Ronaldo Teodoro e Thiago Neuenschwander.
Deixo aqui registrado meus agradecimentos à Universidade Federal de Lavras (UFLA), instituição na qual tenho trabalhado nos últimos anos, e a muitos colegas de lá – discentes, docentes e técnicos – que têm garantido que esse seja um espaço de companheirismo e crescimento.
Por fim, um agradecimento sem limites à minha família, em especial Vera, Hamilton (in memoriam), Leo, Ju, Tuza, Gláucia e Edmir.
Já está em marcha o golpe contra o povo; que se ponha em marcha,
então, o povo contra o golpe, no Brasil
(Wanderley Guilherme dos Santos, Quem dará o golpe no Brasil
, 1962a, p. 51).
Contemporaneamente, encontra-se o Brasil como durante a alvorada de 1945. Conquistamos uma base eleitoral de elevada densidade democrática. Falta-nos fundamentalmente um contrato social que seja a expressão efetiva dos valores com os quais desejamos estar comprometidos. E falta-nos decidir se já alcançamos o ponto em que os custos da tolerância são inferiores aos custos da coação. Isso pode aprender-se através do bom combate político. Ou à antiga, pela força. Os neo-oligarcas optaram pelos atentados institucionais. Por mim, voto pela boa competição política. Esta é a minha apologia democrática
(Wanderley Guilherme dos Santos, Décadas de espanto e uma apologia democrática, 1998b, p. 192).
PREFÁCIO
Um pensador da democracia: Wanderley Guilherme dos Santos -1935-2019
Wanderley Guilherme dos Santos entrou definitivamente para a história como o principal fundador e figura de proa da moderna Ciência Política brasileira. Até recentemente essa área não se percebia com um passado e não dava importância à própria história; além disso, é preciso lembrar que o próprio Wanderley se opôs à ideia de celebrar seus feitos passados. Ele associava os rituais de consagração acadêmica ao reconhecimento implícito do público de que o homenageado já estava obsoleto. Além disso, Wanderley tinha horror à ideia de fazer escola
, à maneira francesa, que ao seu juízo não passava de uma tentativa de medalhões, quase sempre medíocres, de podar a criatividade das novas gerações, a fim de fazer dos alunos uma legião de epígonos. Em outras palavras, a confissão de velhice física e mental embutida na consagração acadêmica não conduzia com sua personalidade enérgica e até certo ponto individualista, que amava os prazeres da vida e sempre a viveu intensamente. Daí a cultura institucional de horizontalidade por ele criada no antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), atual Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), rara na academia brasileira. Liderança intelectual, para Wanderley, nada tinha a ver com ser chefe de escola
: a liderança se mantinha pela criatividade e pela visão estratégica, e só poderia ser mantida em um regime de competição com os colegas marcado pela liberdade e pela igualdade de condições. Por isso, Wanderley sempre fez questão de apresentar-se diante dos colegas como um igual ou, na pior das hipóteses, como um primus inter paris, posição na qual ele conseguiu se manter ao longo de toda a carreira pela busca incessante de pesquisas pautadas por grandes e inovadores temas. Não por acaso, a morte o surpreendeu proferindo conferências sobre o futuro das ciências sociais e ministrando um curso intitulado Introdução ao século XXI
. A consagração implicava fazer exames retrospectivos, fazer balanços de uma vida intelectual já finda, e da morte, era coisa que Wanderley não queria saber. Certa vez confessou a um amigo como queria sua lápide, caso viesse um dia morrer: Aqui jaz Wanderley Guilherme, sob protesto
.
Nos últimos dez anos, porém, o reconhecimento público começou a chegar. A proximidade da efeméride dos cinquenta anos de fundação dos primeiros programas de pós-graduação em ciência política levou a área a se debruçar sobre sua história. Ao mesmo tempo, surgiu uma nova geração de pesquisadores formados na década de 2000, que, ao contrário da geração intermediária, não tivera qualquer contato com a geração pioneira. Esta última, aliás, nunca tivera de refletir sobre a própria trajetória. O distanciamento passou a exigir a produção de conhecimento objetivo do passado, para além do memorialismo e das histórias de corredor. Isso ficou evidente por volta de 2010, quando da passagem dos programas de pós-graduação do antigo IUPERJ para o âmbito do IESP, da UERJ. Os questionamentos generalizados sobre a identidade da instituição por ocasião da transferência de mantenedor, seguidos pela mudança do nome do instituto, suscita logo a necessidade de proceder a reflexão sobre as origens que sempre lhe faltara. Por fim, houve a reabilitação do papel intelectual exercido pelo antigo Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), de que Wanderley Guilherme havia sido o último expoente, contra os velhos críticos uspianos que nas décadas de 1960 e 1970 verberavam acusavam-na de populismo
. Assim, a despeito de seus esforços em evitá-la, a partir de 2013 começou a consagração formal do politólogo carioca, quando ele recebeu o prêmio Gildo Marçal Brandão de excelência acadêmica, então concedido pela primeira vez pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS). Surgiram os primeiros estudos dedicados às suas obras, como a coletânea organizada por Octavio Dulci denominada Leituras críticas sobre Wanderley Guilherme dos Santos (2013); o volume Encontros: Wanderley Guilherme dos Santos, organizado por Amélia Cohn (2015); bem como artigos dedicados a estudar aspectos mais específicos relativos à sua pesquisa sobre o pensamento político brasileiro e à discussão da questão democrática na sua obra. Em 2015 teve lugar no IESP-UERJ o seminário Homenagem a Wanderley Guilherme dos Santos, comemorativo de seu octogésimo aniversário; quatro anos depois, ele já era a personagem principal da comemoração do cinquentenário da fundação dos seus programas de pós-graduação. Pode-se assim dizer que Wanderley faleceu justamente quando se deu a consagração que ele tentou evitar até o último minuto. Quando lhe inauguraram a estátua, por assim dizer.
Até o presente momento, porém, conforme acima referido, os estudos sobre sua imensa e original obra ainda se limitavam a examinar aspectos parciais: teoria política, pensamento político brasileiro, desenvolvimento político, instituições e partidos, cidadania e justiça, análise de conjuntura, interpretação do Brasil. Esse cenário começa a mudar graças ao presente livro do professor Marcelo Sevaybricker Moreira, que o leitor tem nas mãos. O autor busca compreender sua obra pela ótica dos estudos da área temática do Pensamento Político Brasileiro, entendida como uma história intelectual da ciência política no Brasil de caráter compreensivo. Neste sentido, a obra de Wanderley é estudada do mesmo modo que aquelas deixadas por autores de igual importância teórica para a compreensão da vida política brasileira, como Joaquim Nabuco, Oliveira Vianna, Guerreiro Ramos, Raymundo Faoro e tantos outros. Trata-se de uma abordagem cuja maior qualidade reside talvez na sua capacidade de desvelar os eventuais (melhor: inevitáveis) compromissos ideológicos dos próprios cientistas políticos, ainda que empíricos
. Mas ela também oferece subsídios à compreensão da cultura política brasileira, entendida a partir da grade de ideologias nela presentes, e que, sem necessariamente determinar completamente os atores, impactam diretamente o seu comportamento político, por meio de suas visões de mundo, com suas narrativas, seus valores, seus compromissos. Nesse sentido, o professor Marcelo Sevaybricker critica duramente os colegas para os quais as ideias não importam, a pretexto de que a realidade cientificamente aquilatada poderia dela discrepar completamente. A perspectiva do autor é a de que a cultura se funde à realidade política ‘material’ precisamente através da linguagem, que é elemento indissociável da vida política. Desse ponto de vista, da indissociabilidade das dimensões objetiva e subjetiva da política, a disputa entre linguagens e discursos políticos deixa de ser compreendida como mera querela de eruditos e passa a ser considerada, ao mesmo tempo, como índice e como parte componente das disputas que dividem concretamente o corpo político
. Esta é também a posição do autor deste prefácio, para quem tanto o cidadão comum quanto o cientista mais puro
estão envolvidos intelectualmente em uma teia ideológica de preferências. O reconhecimento deste fato não deve levar o cientista, obviamente, a abandonar seus comprometimentos com a objetividade; ao contrário, a consciência de suas limitações axiológicas deve levá-lo a aprimorá-los em vez de enfraquecê-los.
Depois de discorrer sobre a natureza e aos métodos da Ciência Política, o presente livro tenta compreender a posição simultânea de intelectual público e cientista político ocupada por Wanderley Guilherme. A chave de compreensão é, aqui, o fato de ter ele conjugado ao longo de sua carreira tanto o perfil do antigo
cientista político, mais ativista ou intelectual público, com aquele do politólogo moderno
, entendido como um profissional dedicado produção de conhecimento técnico. A hipótese é pertinente, na medida em que Wanderley já tinha desde o seu tempo e ISEB a cabeça formada acerca do valor da democracia e dos desafios de sua instalação e construção no Brasil. Sua pós-graduação nos Estados Unidos só lhe teria conferido maiores e melhores ferramentas para perseguir os mesmos objetivos dos antigos
cientistas políticos, como Oliveira Vianna e Victor Nunes Leal, que era o de oferecer novas e mais acuradas interpretações sobre a natureza e as possibilidades da vida política o país. Este não foi, aliás, um movimento isolado de conversão
formal dos antigos intelectuais públicos às novas técnicas da ciência social de origem norte-americana. Tentaram seguir o mesmo caminho, com resultados desiguais, alguns membros da geração anterior, que também haviam pertencido ao ISEB, entre os quais Guerreiro Ramos, Hélio Jaguaribe e Cândido Mendes. Apenas Wanderley, todavia, logrou uma espécie de conversão completa ao novo paradigma científico própria da nova
ciência política, sem renunciar às grandes questões e à abertura de espírito que eram marcas da velha
. Foi, assim, ao mesmo tempo, o último dos primeiros, e primeiro dos últimos. É mérito do prof. Marcelo Sevaybricker tratar do assunto com delicadeza dos bons analistas, matizando e evitando constantemente generalizações. São ainda dignas de destaque nesta primeira parte do livro duas hipóteses a meu ver procedentes. A primeira é a de que a profusão de obras deixadas por Wanderley, a despeito de sua grande variedade de assuntos, é dominada por um mesmo questão, que é a das condições de possibilidade de instauração e consolidação da democracia no Brasil. Em segundo lugar, destaca-se a preocupação permanente com as questões teóricas, que preponderam sobre as de natureza metodológica quantitativa. A despeito de sua condição de pioneiro da análise rigorosa das instituições políticas pelo método de mensuração quantitativa, a verdade é que Wanderley era um crítico impiedoso da metodolatria, entendida como a obsessão pelos métodos quando desacompanhada de boas hipóteses. Feita essa introdução geral, na segunda parte do livro Marcelo mergulha na obra de seu autor, dividindo-a basicamente em três fases.
A primeira etapa (1962-1964) coincide om o período em que Wanderley ocupou a chefia do departamento de Filosofia do ISEB. Ainda na moldura da velha
ciência política, dedicada principalmente ao tema do desenvolvimento, o jovem intelectual fazia análises militantes de conjuntura nos quais chamava atenção para os perigos corridos pelo movimento democrático brasileiro. Com o intuito de demarcar território junto à intelectualidade da esquerda e influenciar os rumos do movimento popular, Wanderley Guilherme produziu, então, na linguagem do marxismo nacionalista difundida depois da Revolução Cubana, obras de sabor verdadeiramente leninista (um grande líder do povo
, conforme ele reconheceria num desses escritos). Em Quem dará o golpe no Brasil (SANTOS, 1962); Reforma contra Reforma (SANTOS, 1963a) e Introdução ao estudo das contradições sociais no Brasil (1963b), Wanderley sustentava que o impasse político enfrentado no Brasil durante a primeira metade da década de 1960 radicava na incapacidade do sistema político de absorver o conjunto de mobilizações e reivindicações surgidos no contexto da democracia limitada inaugurada depois do Estado Novo. Ele acreditava, ou queria fazer crer, que a acelerada expansão capitalista criara as condições objetivas para a superação daqueles impasses, por meio a supressão do imperialismo e do latifúndio por parte das forças populares
. Seu compromisso radical com o ideário democrático socialista o levava a criticar duramente a ideologia nacional-desenvolvimentista dos primeiros tempos do ISEB. Parecia-lhe inverossímil que a burguesia nacional aceitasse a nacionalização da economia e a reforma agrária, que solapariam a estabilidade do regime de democracia restrita que a favorecia em detrimento da maior parte da população, que o percebia como uma ditadura de fato. Mas as possibilidades da luta popular
eram contra-arrestadas pela possibilidade do golpe de Estado, já tramado por setores da minoria dominante para reprimir os movimentos populares. O arauto por excelência da minoria era Carlos Lacerda, governador da Guanabara e figura de proa da União Democrática Nacional (UDN), com sua estranha tradição liberal golpista. Lacerda pregava a instauração de um governo forte
, a pretexto de afastar a ameaça de tomada do poder pelos comunistas, e resolver pelo alto os impasses que ameaçavam a sociedade brasileira. A despeito do aspecto assumidamente panfletário
dessas obras, nelas já se acham presentes as questões que o acompanharão pelo resto da vida, como a natureza limitada da democracia brasileira e a necessidade de expandi-la, contra as resistências oligárquicas ocultas sob um discurso liberal elitista, bem como os riscos da polarização da política e a ameaça do golpe como recurso último de preservação do poder.
Posterior ao golpe de 1964 e ao fechamento do ISEB pelo regime militar, a segunda fase da obra de Wanderley Guilherme (1965-1990) corresponde àquela de sua reinvenção como cientista político em estilo norte-americano e sua afirmação como líder do antigo IUPERJ. Datam dessa época Ordem burguesa e liberalismo político (1978a); Poder e política: crônica do autoritarismo brasileiro (1979); Cidadania e Justiça (1979); Kantianas Brasileiras: a dual ética da razão política nacional (1984); Crise e castigo: generais e partidos na política brasileira (1987); e Paradoxos do liberalismo (1988) – obras dedicadas a estudar as causas do colapso político e as condições de possibilidade da democracia como regime de governo. Refinando em sua tese de doutorado defendida em Stanford, suas antigas hipóteses relativas ao impasse
gerado pelas contradições
conforme os parâmetros da nova
ciência política, Wanderley passou a explicar o golpe de 1964 a partir do contexto de intensa polarização que o precedera e resultara em uma situação de paralisia decisória das instituições políticas. Primeiro grande clássico da nova ciência política
, a tese foi publicada inicialmente com o título de Sessenta e quatro: anatomia da crise (1986) e, depois de revista e ampliada, como O cálculo do conflito: estabilidade e crise na política brasileira (2003). Longe de buscarem explicar a totalidade da explicação causal nos fatores exclusivamente políticos, as obras de Wanderley chamavam atenção geral para a importância das instituições políticas no funcionamento do regime democrático, que já não poderiam ser consideradas mero epifenômeno do socioeconômico. O estudo da natureza e das engrenagens do regime militar o convenceram de que a democracia como opção dependia das preferências de atores políticos, cuja ação coletiva se travava dos cálculos de cada um sobre os custos e os benefícios de obedecerem ao jogo da competição partidária ou de deflagrarem a violência política. Entretanto, a exemplo de Guillermo O’Donnell, os estudos sobre autoritarismo e democracia de Wanderley passaram ao largo da literatura hegemônica da época na ciência política, identificada com a transitologia
do espanhol Juan Linz. Ao seu juízo, tratava-se de um comparatismo etnocêntrico, que confundia características específicas do modelo liberal anglo-saxão como essenciais da própria democracia e as apresentava como exemplares para todos os países. Ignorava assim as circunstâncias de cada país e, em especial, as estratégias modernizadoras adotadas por suas elites. Elas tornavam mais complexas e ambíguas na periferia as relações entre autoritarismo e liberalismo que, no modelo e Linz, apresentavam-se em simples contraposição.
A terceira e última fase (1990-2019) da obra de Wanderley Guilherme dos Santos foi produzida no curso de consolidação da Nova República e foi marcada por uma discussão mais metódica acerca da teoria da democracia, de sua dinâmica de desenvolvimento e funcionamento, mas também das ameaças de retorno oligárquico que a rondavam. Pertencem a este período livros como Razões da desordem (1993a); Regresso: máscaras institucionais do liberalismo oligárquico (1994); Horizonte do desejo: instabilidade, fracasso coletivo e inércia social (2006b); O ex-Leviatã brasileiro: do voto disperso ao clientelismo concentrado (2006c); O paradoxo de Rousseau: uma interpretação democrática da vontade geral (2007a); Governabilidade e democracia natural (2007a) e O sistema oligárquico representativo da Primeira República (2013). Em diálogo crítico com Robert Dahl, Wanderley faz nesses livros a defesa de instituições representativas consagradas pela Constituição de 1988: da democracia como o regime que mais bem exprimiria a clivagem de opinião contra o autoritarismo; do sistema presidencialista contra as propostas de introdução do parlamentarismo, atrás do qual se esconderia a cabala oligárquica
do elitismo liberal; do sistema eleitoral proporcional contra o majoritário; do sistema partidário livre de limitações e contra a introdução da cláusula de barreira, em nome da garantia de um máximo de competição política. O principal problema da democracia brasileira contemporânea radicava menos no excesso de participação do que na apatia da população e sua aversão às instituições. No quadro de uma cultura civicamente deficiente, o desenho poliárquico das instituições parecia incapaz de organizar a ordem social brasileira, que permanecia em uma espécie de estado de natureza. Daí sua defesa da constitucionalização de todo o território nacional
, isto é, pela efetividade social das instituições no conjunto do território nacional e de todos os estratos da população. Escritas durante a agonia da Nova República, suas últimas obras – À margem do abismo: conflitos na política brasileira (2015a) e A democracia impedida: o Brasil no século XXI (2017) – foram marcadas pelo retorno aos temas da polarização e do golpe que haviam marcado suas primeiras reflexões. Nem por isso ele deixou de lado suas reflexões mais amplas sobre a contemporaneidade. Seu último artigo, O epílogo da conciliação: a supremacia do eu
sobre o nós
(2017), foi um ensaio sobre a sociedade em gestação na era pós-industrial: a sociedade intransitiva
, marcada pelo fim do ideal de solidariedade. A preocupação subjacente de Wanderley era com as possibilidades de sobrevivência da democracia nesse sombrio novo mundo, que lhe pareciam escassas. Foi nesse ponto que a morte o colheu, em plena atividade, a 26 de outubro de 2019.
Wanderley não esteve imune às acusações de desvio ideológico oriundas de todos os quadrantes políticos: foi acusado pela direita de ser esquerdista; pelos liberais de ser autoritário; pela esquerda de ser liberal. Noves fora o caráter superficial dessas adjetivações, elas demonstram de modo involuntário o lugar em que o cientista político nascido em Vila Isabel efetivamente estava: aquele da defesa de uma democracia de massas, dotada de sólidas instituições representativas e garantidoras da competição eleitoral, completada por um Estado socialmente atuante, capaz de promover a redução das desigualdades sociais. Não seria possível, neste pobre prefácio que já vai demasiado longo, dar conta da variedade de temas e da complexidade da obra do politólogo carioca recém-desparecido. Seria preciso pelo menos um livro para dar conta de semelhante tarefa, e esse é o objetivo de O pensamento político de Wanderley Guilherme dos Santos, que o leitor tem nas mãos. Sem ter a pretensão de dizer as últimas palavras sobre sua obra, o professor Marcelo Sevaybricker Moreira conseguiu o mérito de dizer as primeiras. Seu livro servirá doravante de referência para todos os estudos futuros sobre o assunto, cujos estudiosos lhe discutirão as hipóteses, aprofundando-as ou contrariando, como convém ao bom estudo acadêmico. Não é pouca coisa em tempos como os atuais, em que a democracia liberal pela qual Wanderley se bateu ao longo de toda a sua vida parece novamente ameaçada de reversão, seja de modo aberto ou velado.
Christian Edward Cyril Lynch
Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Veiga de Almeida (UVA). Pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB).
APRESENTAÇÃO
Um clássico da formação da democracia brasileira
O livro O pensamento político de Wanderley Guilherme dos Santos, de Marcelo Sevaybricker, permite e nos propõe um salto qualitativo na leitura da obra deste que é considerado, por todas as razões, um dos pilares fundadores e centrais da ciência política brasileira. Trata-se, em síntese, de conferir a esta obra o estatuto de ser um clássico incontornável da interpretação do Brasil, do processo de formação e dos impasses contemporâneos de sua democracia.
Em primeiro lugar, a sistematização do pensamento de Wanderley Guilherme dos Santos, formada na larga temporalidade de seis décadas, com sua acumulação originária, sua continuidade de fôlego, suas atualizações de agenda e de análise empírica, suas flutuações e indeterminações, nos permite identificar nela uma narrativa de sentido. Isto é, pode-se pensá-la como a obra que, a partir do impasse de 1964, elabora para trás uma larga temporalidade de pensamento político que constrói o Estado nacional moderno e projeta para frente um campo analítico-normativo em contato de fronteira com as experiências democráticas em formação do povo brasileiro.
É da natureza de um pensamento clássico centralizar-se em uma problemática, de sentido totalizante, inscrevê-la em uma larga temporalidade e abrir-se à indeterminação do futuro. Na obra de Wanderley Guilherme dos Santos é a própria condição agônica da democracia brasileira, em sua potência e sua falta, que ocupa o centro da cena: a passagem de um sistema liberal-oligárquico para uma democracia liberal de massas. Nenhum dos grandes clássicos de formação – de Gilberto Freyre a Caio Prado Júnior, de Celso Furtado a Antonio Candido – nos havia fornecido uma reflexão tão centralizada e politicamente reflexiva, em seus próprios termos, da história da democracia entre nós.
É um grande mérito da reflexão de Marcelo Sevaybricker, em segundo lugar, nas pegadas de Cristian Lynch, estabelecer firmemente a raiz do pensamento de Wanderley Guilherme nas tradições do pensamento político brasileiro. Se Lynch em A institucionalização da área do pensamento político brasileiro no âmbito das ciências sociais: revistando a pesquisa de Wanderley Guilherme do Santos (1963-1978) já havia demonstrado o seu caráter pioneiro e formador desta área na ciência política brasileira, faltava conectar este esforço ao próprio sentido analítico-normativo democrático da obra de Wanderley. Ou seja, pensar o Brasil a partir do desafio democrático assim como o ISEB, em seus diferentes campos, pensara o Brasil sob o ponto de vista da construção da Nação. Se para os pensadores do ISEB, em diferentes registros, o desafio era a superação das heranças persistentes do nosso passado colonial, para Wanderley Guilherme o desafio seria sempre o de como formar a democracia brasileira a partir das heranças oligárquicas e assimétricas de sua formação.
Isto é, o estudo do pensamento político brasileiro não é para esta obra sobre a democracia um campo de estudos autonomizado de seu próprio estatuto conceitual. Ele forma o campo conceitual de Wanderley Guilherme dos Santos a partir de um diálogo crítico com as tradições do pensamento político brasileiro. Ao constituir assim o seu pensamento político sobre a democracia, o que Wanderley Guilherme está fazendo é recusar toda exterioridade, conceitual ou normativa, que resolva o impasse democrático brasileiro saltando por sobre a sua formação social e histórica.
Há aí, sem dúvida, uma inscrição no campo minado das contradições que formam e polarizam a vida política e as próprias tradições do pensamento brasileiro. A crítica, a polêmica, as contrarrazões, os argumentos que recusam o curso fácil dos paradigmas estabelecidos formam o nervo da obra democrática de Wanderley Guilherme. O seu partido
é a democracia e tudo o que se instala em seu reverso, como impasse que quer se perenizar ou como antagonismo regressivo, é seu adversário polêmico.
Que esta grande narrativa da formação da democracia brasileira não se encontre reunida em um tomo sistemático, com seus capítulos formalmente ordenados em um todo, é próprio do método e do objeto. A obra analítica de Wanderley Guilherme cobre as décadas do regime militar em que a anima da democracia dos brasileiros se forma e as décadas da democracia que se seguiram à Constituição de 1988 nas quais a experiência democrática se faz em meio a todo tipo de ameaças.
Hoje, sabemos mais do que antes, que a experiência democrática dos brasileiros está ainda longe de ter se sedimentado ou se estabilizado em uma ordem institucional legítima. Mas, a consulta da obra de Wanderley Guilherme – este é o terceiro grande mérito de Marcelo Sevaybricker – permite afirmar que o impasse, a contradição, a instabilidade e o espanto, a ameaça e a indeterminação, nunca deixaram de marcar a experiência da formação democrática dos brasileiros.
Porque a apologia da democracia nesta obra nunca se fez em detrimento da crítica de sua experiência, seria injusto acusá-la de ingênua ou rasamente otimista. E porque a crítica sempre se fez no campo dialógico das razões da democracia seria igualmente inadequado chamá-la de circunstanciada ou pragmática. Há certamente um norte, mas a navegação se faz sempre em mares nunca dantes navegados. Por isso, a aparente não sistematicidade do argumento e o seu inacabamento. Mas a coerência e a linha de continuidade da reflexão se impõem.
O melhor caminho para formar um juízo sobre este clássico da formação da democracia brasileira é continuar seguindo e aprofundando estas três grandes trilhas abertas por Marcelo Sevaybricker.
Ordem burguesa e paradoxo da democracia
A estratégia de aproximar comparativamente a obra de Wanderley Guilherme àquela de Celso Furtado pode servir bem à sua classicização,
