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DANTE ALIGHIERI: O poeta, o místico e o enamorado
DANTE ALIGHIERI: O poeta, o místico e o enamorado
DANTE ALIGHIERI: O poeta, o místico e o enamorado
E-book460 páginas4 horas

DANTE ALIGHIERI: O poeta, o místico e o enamorado

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Sobre este e-book

Como um prisma, este livro sobre a obra de Dante Alighieri pode ser apreendido de diferentes perspectivas: é sobre literatura, sobre leitura e crítica, sobre paixão e generosidade, sobre resistência e força de um cânone e seu o potencial interpretativo. Há mais de 700 anos o poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), ao ser exilado de Florença atravessou o pequeno vilarejo de San Benedetto in Alpe, na Itália, onde se encontra a famosa cascata de Acquacheta, descrita na Divina Comédia, no Canto XVI (94-105) do Inferno. Há 100 anos, neste mesmo lugar, San Benedetto in Alpe, na única casa da Via Dante Alighieri, nascia Egidio Turchi. Ao unir tempos e lugares, cursos ministrados na Universidade Federal de Goiás por professores arrebatados pela obra de Dante, deram origem aos ensaios do livro que foi juntando companheiros de viagem, professores, críticos, parceiros dialéticos e outras vozes que se somaram, numa trama compartilhada e coletiva. Os organizadores, guiados pela Profa. Suzana Canovas, generosamente, o dedicam ao Prof. Egidio Turchi, para quem o poeta italiano é parte integrante de sua herança afetiva e cultural.Este livro – Dante Alighieri: o poeta, o místico e o enamorado – amplia e aprofunda o mapa da sensibilidade. Mostra que a Divina Comédia, ou mais precisamente a Comédia, e toda a obra de Dante podem ser iluminadas por novas interpretações numa multiplicidade de encontros linguísticos e transnacionais. Instiga os leitores a uma viagem pelo mundo de Dante, o que contribui para aprofundar as modulações da poeisis desse poeta genial que, no dizer do crítico George Steiner, é capaz de harmonizar o aspecto teológico, o filosófico e o poético da criação, por isso é nosso meridiano.

Maria Zaira Turchi
IdiomaPortuguês
EditoraEditora Kelps
Data de lançamento18 de jan. de 2021
ISBN9786558591535
DANTE ALIGHIERI: O poeta, o místico e o enamorado

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    DANTE ALIGHIERI - Suzana Yolanda Machado Cánovas

    A DIVINA COMÉDIA:

    DA FALA VULGAR À LINGUAGEM POÉTICA

    Egidio Turchi

    I’ mi son un che, quando Amor mi spira, noto, e a quel modo ch’e’ ditta dentro vo significando.

    (Dante Alighieri[1])

    Introdução

    Este ensaio nasceu de um compromisso assumido com os meus alunos do Curso de Letras, após uma conferência do poeta Ferreira Gullar. O conferencista estava chegando de Recife, onde travara uma discussão com alguns alunos daquela Universidade, que não haviam concordado com as críticas que ele fizera à Divina Comédia. Ferreira Gullar estranhava, em tom jocoso, ter encontrado, fora da Itália, defensores tão ardorosos de Dante Alighieri. De modo resumido, repetiu o ataque que desfechara em Recife contra o poema em geral e contra o roteiro de uma viagem ao reino dos mortos, fruto de uma crendice pueril e dogmas sem sentido. Tornava a condenar, em Goiânia, não o poeta, mas o assunto escolhido, como se alguém rejeitasse Os Lusíadas por não considerar a viagem de Vasco da Gama às Índias uma empresa heroica, mas apenas uma viagem de comerciantes de especiarias à procura de riqueza.

    Após sete séculos de existência e de leitura de A Divina Comédia, seria puerilidade pretender que houvesse unanimidade de elogios, aprovação entusiástica e total, interpretação uniforme do todo e das partes, sem nenhuma voz discordante de críticos e leitores. Por isso, pessoalmente, não me surpreendeu o incisivo comentário depreciativo de Ferreira Gullar. Conhecemos frases, teses, livros inteiros escritos na tentativa de destruir o mito Dante. É a sina comum das grandes obras e dos grandes homens – as críticas são tão importantes quanto os elogios; a sombra não destrói a luz, antes a realça.

    Célebre e muito repetido é o juízo de Voltaire sobre dois poetas: Shakespeare foi um bárbaro que compôs monstruosas farsas e tragédias, Dante foi um louco e sua obra era uma monstruosidade. Teve muitos comentadores e, por isso, não pode ser compreendido. Sua reputação irá crescendo porque ninguém mais o lê [2]. Nietzsche definiu Dante a hiena que faz poesia entre os túmulos (NIETZCHE apud PAPINI, 1957, p. 752). Lamartine, entre os 14.251 versos do poema, salva apenas uma centena. Na Itália, onde A Divina Comédia é posta quase em pé de igualdade com a Bíblia e Dante é considerado o pai espiritual da pátria, houve e há numerosas vozes discordantes, entre elas, a voz autorizada do filósofo e crítico literário Benedetto Croce. Para ele, só há poesia quando o poema é expressão pura, sem finalidade outra que não seja a artística, o poema de Dante é doutrina cristã para a salvação dos homens, não pode, portanto, haver poesia onde há engajamento – finalidade não artística.

    Nada mais natural que também o poeta e crítico Ferreira Gullar não simpatize com o argumento do poema de Dante e queira desmitificá-lo. Os dois poetas, embora distantes no tempo e na cultura e sem a mínima afinidade religiosa, irmanam-se no engajamento político – arautos de justiça social –, ambos mereceram o exílio e souberam: "come sa di sale lo pane altrui, e come è duro calle lo scendere ‘l salir per l’altrui scale[3] (Par., XVII, 58-60).

    Com certeza, Ferreira Gullar não quis condenar todas as faces do poema, mas apenas seu relevante aspecto teológico e dogmático. De fato, é inegável que Dante é poeta cristão, tanto que Vico, o filósofo da Ciência Nova, impôs-lhe o apelido clássico de Homero do Cristianismo[4]. Homero soube enfeixar em seu poema todos os mitos da Grécia e esses mitos são apreciados por Ferreira Gullar. Dante fez de seu poema o invólucro harmonioso dos dogmas cristãos e estes dogmas desagradam ao poema maranhense.

    O ataque desferido naquela manhã, diante dos alunos do Curso de Letras, surtiu um efeito inesperado − despertou interesse e muitos alunos, após a palestra, pediram esclarecimentos e manifestaram o desejo de conhecer A Divina Comédia. Este ensaio é o resumo de um curso sobre Dante, na Semana de Estudos Complementares, em outubro de 1990, e deve ser considerado uma aula sobre o poema de Dante, para os não iniciados.

    1. Dante e sua época

    Não é possível entender A Divina Comédia sem saber que Dante Alighieri foi um homem plenamente identificado com as ideias religiosas, políticas e culturais da Idade Média. E quando se diz Idade Média, entende-se a época da fé cristã não contestada publicamente, o tempo do valor absoluto da tradição que, não raras vezes, misturava a fé com a superstição, o tempo do apogeu do poder absoluto (religioso e político) dos papas, acima do poder civil.

    A palavra Idade Média traz à mente, quase sempre, a ideia de obscurantismo e, à imaginação, os pitorescos castelos encravados no alto das montanhas. No tempo de Dante, porém, já haviam sido criadas as primeiras universidades – Universitas studiorum –, isto é, a reunião de todos os estudos. É bem verdade que nelas se dava importância absoluta ao estudo da teologia e da filosofia, relegando as outras ciências a um papel muito secundário. Prevalecia o argumento da autoridade, o célebre "magister dixit"[5] – e o mestre dos mestres – "il maestro di color che sanno" (Inf., IV, 131)[6], no dizer de Dante, era Aristóteles.

    A vida, no século XIII e começo do século XIV, época de Dante, já não se concentrava ao redor dos castelos feudais, mas nas cidades dos comerciantes, industriais e banqueiros, que iam surgindo à beira dos rios, nos vales e nas planícies. A mais rica, mais democrática e mais turbulenta dessas cidades, na Itália, foi Florença, marcada pelas facções rivais dos guelfos (partidários do Papa) e dos gibelinos (partidários do Imperador). Lá, em 1265, nasceu Dante Alighieri, mas só depois que, aos nove anos, encontra Beatriz é que começa sua verdadeira história.

    Em seu primeiro livro, Vita Nova, escrito em língua popular de Florença e não em Latim, como era costume naquele tempo, conta-nos esse primeiro encontro. A poesia amorosa tinha nascido nos castelos da Provença, por obra dos trovadores e chegava agora às cidades italianas, graças aos poetas que deram a si próprios o apelido de "stilnovisti, isto é, escritores do dolce stil nuovo (o doce estilo novo"), que Dante define tão bem nos versos que serviram de epígrafe, no início do trabalho. Vita Nova é a história deste amor desde o momento em que nasce no coração do menino, um amor em que a carne não tem parte, puro encantamento e devoção, êxtase e bem-aventurança, um amor sem episódios externos e onde tudo se passa no interior da alma.

    Beatriz Portinari, entretanto, casou-se com outro e faleceu aos 24 anos de idade, permanecendo, porém, viva para o seu cantor apaixonado. No entanto, como era comum entre os poetas que divinizavam seus amores, Dante não a seguiu com sua poesia no voo angelical, procurou distrair-se com outros amores e, em seguida, mergulhou na política até 1302, quando seu partido foi derrotado, banido e, ele próprio, exilado com o confisco de todos os bens. Também, por vários anos, sua mente esteve ocupada em sentimentos de vingança e de esperança, tramando sempre sua volta a Florença, ainda que fosse com a ajuda das armas do partido oposto.

    Somente em 1307 a visão de Beatriz voltou a empolgar-lhe a alma e, então, percebeu que suas amarguras não haviam começado com o decreto de expulsão de Florença, em 1302, mas com a morte da mulher amada, exatamente como apregoavam os cânones da poesia amorosa dos trovadores.

    Dante sentiu-se novamente arrebatado pela chama do antigo amor e saiu do mundo para unir-se poeticamente a Beatriz – assim nasceu o poema. Saindo do mundo e unindo-se novamente a Beatriz, o poeta não se tornaria estranho à realidade empírica, ainda poderia sentir-se participante de todos os acontecimentos passados e presentes e estaria acima deles para poder julgá-los. Do Além, ele poderia colocar no fogo eterno aqueles que o haviam exilado e condenado ao fogo temporal, premiar com a glória celeste os que comungavam com ele dos mesmos ideais.

    Estava aberto o caminho para um juízo universal antecipado e, sobretudo, para uma grande vingança contra seus desafetos, vingança que a potência de sua arte tornaria imortal. Se o amor de Beatriz o arrebatou para o céu, a morte do imperador Henrique VIII, em 1313, em quem Dante havia depositado todas as suas esperanças políticas, aniquilou o poeta, mergulhando-o em profunda tristeza. E então, retraiu-se todo em si mesmo, levando seu amor profundo e sua suprema amargura, de corte em corte, inteiramente absorto na criação de seu poema que terminou alguns meses antes de morrer em Ravena, em 1321, aos 56 anos de idade.

    2. Seu credo religioso e político

    A Divina Comédia é um poema totalmente cristão. Que são, de fato, o Inferno, o Purgatório e o Paraíso senão dogmas solenes do cristianismo? Evidentemente de um cristianismo unificado sob o poder da Igreja Romana, porque a Europa Ocidental teria que esperar ainda mais de 200 anos para ouvir o grito de contestação de Lutero. Dante não especula, nem debate problemas religiosos, mas afirma e enaltece dogmas sentidos, amados e vividos. Sua fé que "come stella in cielo in me scintilla"[7] (Par., XXIV, 147), é consubstanciada neste terceto conciso e perfeito: "Avete il novo e ‘l vecchio Testamento, e ‘l pastor de la Chiesa che vi guida; questo vi basti a vostro salvamento"[8] (Par., V, 76-78).

    O cristianismo de Dante está em consonância perfeita com os escolásticos e, principalmente, com o Doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino, cujo estudo e método dominava as recém-fundadas Universidades da Europa. Mas sua fé não tem apenas esse cunho solene e dogmático da estrutura teológica, senão também extravasa em fé simples como é a devoção popular à Virgem Maria: Il nome del bel fior che io sempre invoco/ e mane e sera[9] (Par., XXIII,88-89).

    Não obstante sua irritação política contra os papas de seu tempo – basta lembrar que Bonifácio VIII, responsável pelo seu exílio, embora vivo, já tem seu lugar certo entre os condenados do Inferno –, Dante possui a convicção profunda da missão divina do papado: "la reverenza de le somme chiavi"[10] (Inf., XIX, 101). Dante não podia conceber a redenção da humanidade apenas através da fé e da graça de Deus sem a ajuda externa e temporal. Deus, segundo a doutrina do poeta, exposta em seu livro De Monarchia, em Latim, dispôs para a salvação dois guias, dois sóis – o papa e o imperador. E é este o pensamento político que domina do começo ao fim A Divina Comédia. O papa tem o poder sobre a parte espiritual, o imperador, sobre a política. A Cruz, símbolo da Igreja, e a Águia, símbolo do Império, não podem ficar disjuntos. Cruz e Águia, em Dante, são dois símbolos que se integram para ajudar a humanidade que não terá paz nem felicidade, enquanto não for reunida numa só Igreja e num único Império.

    O poema nasceu, portanto, e amadureceu na mente de Dante não apenas como sublimação de seu amor por Beatriz e vingança contra seus desafetos, mas também como roteiro de salvação religiosa e manual de ação política.

    Qual das duas paixões é mais forte na alma do poeta – a religiosa ou a política? Dante se considera um cristão e, mais do que isto, um místico a quem Deus quis animar de sua graça, um eleito para revelar aos homens sua infalível vontade, um profeta de Israel que Deus consagrou como seu mensageiro diante do povo, acima do rei e até dos sacerdotes. Seu misticismo, porém, embora relevante, é apenas o pano de fundo da Comédia porque o homem Dante, de profeta se transformou em juiz, levando para o poema toda a realidade e a experiência da Terra, suas paixões, seus amores, seus ódios, suas lembranças e suas esperanças. O poema é, de fato, a história da conversão do pecador a Deus, não só da conversão do indivíduo que, do mundo, se refugia em Deus, mas de todos os homens (motivo religioso), entretanto, ele luta para que aqui na Terra haja uma transformação da Igreja corrupta, e profetiza uma próxima intervenção divina ou humana para trazer de volta as virtudes cristãs e civis e, acima de tudo, a justiça (motivo político). Agora, feito um apanhado de sua vida e de suas ideias, podemos passar ao estudo de A Divina Comédia.

    3. Por que o nome Comédia?

    Para a estilística da Idade Média, os termos tragédia e comédia não se referiam somente ao conteúdo dramático da obra, mas também ao estilo usado pelo autor. No De vulgari eloquentia (A fala vulgar), outro tratado em Latim sobre os dialetos da Itália, o próprio Dante explica qual a diferença: a tragédia trata de matéria elevada em estilo elevado, a comédia de matéria simples em estilo humilde (ALIGHIERI apud PORENA, 1958, p. 38). A comédia é, portanto, apelativo de modéstia, dado pelo autor ao seu poema; quanto ao estilo e quanto ao assunto, por se tratar de uma narrativa escrita na língua do povo – uma aventura que começa mal e acaba bem – é uma novela com final feliz.

    A palavra comédia, para nós modernos, sugere risos e, às vezes, palhaçadas, sentido muito distante do argumento tratado no poema, onde o riso e os fatos pitorescos são apenas pequenos episódios no conjunto da obra. Isto foi notado ainda no Renascimento, de tal sorte que à palavra "Commedia" foi acrescentado o adjetivo "Divina". Foi em 1555, numa edição composta em Veneza por Ludovico Dolce, portanto, 234 anos após a morte do poeta, a Commedia apareceu com o título de La Divina Commedia. O adjetivo divina não se refere à matéria religiosa, mas à excelência artística do poema. O apelativo está tão intimamente ligado à obra que não podemos pensar em aboli-lo, tanto mais que o que pode soar falso no substantivo – comédia – é compensado pela verdade do adjetivo – divina.

    Numa carta, que a crítica moderna não considera autêntica[11], a seu amigo e benfeitor Can Grande della Scala, senhor de Verona, Dante chama seu poema de "Commedia". Somente duas vezes e, precisamente no verso 128 do canto XVI, e no verso 2 do canto XXI, ambos do cântico do Inferno, o poeta chama sua obra de "Commedia". Nos cânticos do Purgatório e do Paraíso já não se encontra mais esse termo, ao elevar-se a sumas alturas de conteúdo e de estilo, seu poema é definido por ele como Sacrato poema (Par., XXIII, 62): "poema sacro al quale ha posto mano e cielo e terra" [12] (Par., XXV, 1 e 2).

    Dante tem certeza da excelência de sua obra e espera e sonha, inutilmente, porém, a vida inteira, merecer ser coroado poeta em Florença, na mesma igreja onde foi batizado – "nel mio bel San Giovanni (Inf., XIX,17). Essa esperança de um supremo reconhecimento do valor da sua poesia na própria cidade que lhe é hostil não se concilia com a denominação tão humilde dada ao poema. A solução talvez seja a seguinte: as duas vezes em que Dante usa o termo commedia se refere somente à primeira parte, ao Inferno, que chegou às mãos dos leitores muito antes das outras duas e circulou, manuscrito, com o nome de Commedia" de Dante.

    Comédia ou tragédia, drama ou epopéia? Responderei com as palavras que Dom Aquino Correia, arcebispo de Cuiabá, pronunciou por ocasião do sexto centenário da morte do poeta:

    É tudo isto e mais ainda – poema onde se passa do tom cômico das situações vulgares para a vibração dramática ou trágica dos episódios, que se sucedem, até a ressonância épica do sublime, poema onde a lírica desfere puros gorjeios e ala-se à ode em altura que Píndaro nunca sonhara; poema sagrado no qual, como bem diz o Poeta, colaboram o céu e a terra, isto é, a revelação e a razão, a fé e a ciência, os anjos e os homens, a luz dos intermúndios infinitos e a treva eterna da geena. (CORREIA, 1944, p.77)

    4. Estrutura do poema e seu resumo literal e alegórico

    A ideia de vestir o ensinamento com a visão do Além já se encontra nas Sagradas Escrituras – São Paulo descreve sua elevação ao Céu e São João nos atordoa com sua visão apocalíptica.

    Na Idade Média, as visões dos monges constituem um material abundante, embora ordinário e confuso, porque foram escritas para atemorizar as almas com as penas do Inferno. Foi, com certeza, de uma fonte pagã, que Dante tomou a inspiração de dar a seu poema, além do conteúdo religioso, também o humano e político: o canto sexto da Eneida, onde Virgílio descreve a descida de Eneias ao Inferno. Mas a Commedia, na sua estrutura, nada deve a São Paulo, São João, nem mesmo a Virgílio e muito menos às piedosas e terrificantes visões dos pregadores medievais.

    O Inferno foi iniciado, como já vimos, em 1307, e foi o primeiro a circular entre os leitores; em 1315 estava terminado também o Purgatório; somente pouco antes de morrer Dante completou o Paraíso, que foi publicado depois de sua morte. Mas não se deve confundir essa cronologia real com a cronologia imaginária da viagem descrita no poema. Sua comédia, isto é, sua aventura, começa na tarde do dia 4 de abril do ano 1300, segunda-feira, e acaba no dia 10, domingo de Páscoa, do mesmo mês.[13] Sua duração é de 7 dias, exatamente os 7 dias da Semana Santa do ano centenário e do primeiro jubileu – perdão geral para os que, arrependidos dos pecados, fossem visitar Roma.

    O número três é um número místico dominante na construção do poema, que se divide em três partes ou cânticos: Inferno, Purgatório e Paraíso. Cada cântico tem 33 cantos num total de 99, mas, como o primeiro é a introdução a todo o poema, o número total dos cantos é 100 – considerado também na simbologia danteana como número perfeito. Nove, múltiplo de três, são os círculos infernais; nove, as rampas do Purgatório; nove, os céus que giram ao redor da Terra.

    Cada estrofe é composta de três versos – terceto – com rimas encadeadas que, ao longo dos 100 cantos, dão ao poema unidade e continuidade sonora. Exata como a cronologia da viagem e a construção numérica do poema é sua topografia ou geografia ao Além.

    O Inferno consiste num profundo báratro em forma de cone que se abre debaixo de Jerusalém e desce por 9 círculos até terminar com o vértice no centro da Terra. O Purgatório é exatamente o contrário do Inferno, isto é, uma colina que se levanta no meio do oceano, no hemisfério sul, antípoda de Jerusalém, com nove imensos degraus. O Paraíso é formado por nove céus, segundo os princípios astronômicos de Ptolomeu, que imaginara esferas transparentes rodando ao redor da Terra – centro do Universo.

    Além daquelas esferas se encontra o Empíreo, céu fixo, onde mora, imóvel, Aquele "che move il sole e l’altre stelle" [14] (Par., XXXIII, 145), último verso de A Divina Comédia. A concepção do poema já foi comparada a uma catedral gótica com sua lógica harmoniosa e seu arrebatamento místico (VICINELLI, 1952, p. 46). É hora de seguir Dante através dos três reinos.

    "Nel mezzo del cammin di nostra vita" [15] (Inf., I, 1), assim começa o poema. O poeta se encontra perdido numa "selva selvaggia da qual deseja sair, mas não consegue porque três feras lhe embargam os passos. Neste momento lhe aparece Virgílio, que propõe tirá-lo da floresta por um caminho totalmente diferente, fazendo-o passar pelo báratro do Inferno, pela montanha do Purgatório e, por fim, entregando-o a Beatriz que o levará ao Paraíso – uma aventura iniciada numa floresta espantosa que terminará na presença de Deus. Nesta caminhada, os dois poetas varam a Terra lado a lado, entrando pelo portão do Inferno, onde se leem as palavras: Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate" [16] (Inf., III, 9).

    Percorrem os nove círculos infernais, que se afunilam em báratro imenso até o centro da Terra, onde, eternamente sepulto, jaz Lúcifer, "vermo reo che ‘l mondo fóra" [17] (Inf., XXXIV, 108). Do centro da Terra, agarrando-se às costas de Satã e dando uma reviravolta completa, sobem por um meato subterrâneo até desembocar no hemisfério austral: "E quindi uscimmo a riveder le stelle"[18] (Inf., XXXIV, 139).

    Aí começa a subida pelo monte do Purgatório, em cujos socalcos circulares purificam-se as almas antes de subirem ao Céu. No alto da montanha do Purgatório, o poeta colocou o bíblico Paraíso Terrestre, onde termina a missão de Virgílio. É aqui no Éden que, finalmente, lhe aparece Beatriz para levá-lo, num êxtase crescente de luz, amor e gozo, até a rosa cândida do Empíreo. Na visão sublime de Deus, termina a viagem de Dante.

    Este é o roteiro literal, mas não seria um poema escrito na Idade Média se não tivesse também um sentido alegórico. O primeiro canto já se abre com uma infinidade de símbolos – a floresta do mal e a colina da virtude com o sol da graça divina e as três feras – os três pecados capitais da natureza humana – avareza, luxúria e soberba.

    Durante a viagem, Dante terá três guias: Virgílio, símbolo da razão, leva os homens até o Paraíso Terrestre; Beatriz, símbolo da Revelação, transporta os cristãos até o Paraíso, e, finalmente, São Bernardo, símbolo de contemplação, é capaz, por graça especial, de levar os santos à intuição do próprio Deus. O poder da razão não leva até Deus, por isso, Virgílio pode fazer ver a Dante, aos homens, quais sejam as consequências do pecado e dos vícios, isto é, pode ser guia somente no Inferno e no Purgatório. Além, só a teologia que, através dos céus, há de mostrar a Dante a glória e a alegria dos bem-aventurados. Mas nem a teologia pode chegar à visão direta de Deus, só o misticismo pode mergulhar Dante no centro, onde redemoinha o Amor Incriado (BARGUELLINI, 1964, p. 234).

    5. A língua e a linguagem poética

    A estrutura quase perfeita da Commedia, a nobre fantasia de seu roteiro e o preciso significado de seus símbolos não teriam valor se não vivessem, em sua obra, com a paixão de uma autobiografia. As ciências e a filosofia, a teologia e a mitologia, a história antiga e a crônica de seu tempo adquirem valor no poema porque tudo é revivido e transfigurado na comoção lírica da mente apaixonada do poeta.

    A Divina Comédia vive e viverá nos séculos porque seu autor é poeta. Seu poema é por graça da poesia. A doutrina é ensinada com imagens espontâneas, a história é esculpida em figuras soberbas e a prece voa de seus lábios com asas suaves e seguras. Até na alegoria nada há de abstrato. Tudo é vida, os fatos e as alegorias se fundem num só sentimento poético, os protagonistas da crônica e as personagens históricas e até figuras mitológicas e fantásticas se transformam em criaturas viventes e adquirem vigor e sangue. (BARGELLINI, 1960, p.62)

    Dois episódios apenas são suficientes para ilustrar o poder e a força poética de Dante em dar nova vida a suas personagens, sejam elas protagonistas da crônica ou figuras mitológicas. Um simples fato de crônica, comum em todos os tempos, a vingança de um marido traído, constitui o movente do episódio do canto V do Inferno, um dos mais célebres de todo o poema. Gianciotto, sabendo que sua esposa Francesca o traía com seu irmão Paolo, mata os dois com um só golpe de espada.

    Dante encontra Paolo e Francesca no Inferno, abraçados como no momento da morte, e assim ficarão eternamente, açoitados por uma chuva fria e levados em redemoinho pelo vento. O poeta, após saber quem são, não pergunta de quê, por quê e como morreram – à sua época todos conheciam o desenlace da tragédia, até com detalhes – quer saber um segredo que só Francesca e Paolo podiam revelar. Dante, daquela paixão humana, quer conhecer o tímido e comovente início. E a resposta de Francesca, entre soluços, é a mais sublime defesa do amor, a cuja força ninguém resiste. Francesca, vencida pela paixão, e sem culpa porque o "amor, ch’a nullo amato amar perdona"[19] (Inf., V, 103), se transforma de pecadora em vítima. Estava criado o mito de Francesca e Paolo, dois amantes que o amor redime e sublima: "questi, che mai da me non fia diviso, la bocca mi basciò tutto tremante"[20] (Inf., V, 135 - 136).

    O segundo episódio é tirado da mitologia grega, onde Ulisses é esperto guerreiro na Ilíada e protagonista aventureiro na Odisseia. Homero, no fim da Odisseia, o deixa já velho, mas ainda forte, na pequena ilha de Ítaca, gozando o merecido descanso, após tantas viagens, ao lado da fiel Penépole, que o havia esperado tantos anos.

    Dante o encontra no Inferno, entre os trapaceiros e politiqueiros, castigo certo para o idealizador do cavalo de Troia. O que mais se poderia dizer dele que Homero já não tivesse dito? Dante narra exatamente o que Homero não contou – a morte de Ulisses, numa viagem ao mundo desabitado. Em poucas estrofes, pinta-nos um Ulisses que, mesmo conservando seu caráter homérico, transforma-se no símbolo de toda a humanidade. Dante põe Ulisses novamente num barco com seus fiéis companheiros e os faz navegar além das colunas de Hércules, em pleno Atlântico, e os afoga à vista de uma ilha no Hemisfério Sul: "infin che il mar fu sovra noi richiuso"[21](Inf., XXVI, 142).

    Este fim, para a vida de Ulisses, é algo solene e poético que acrescenta grandeza à figura do herói, morrer em plena atividade, em poucos segundos, fechando sua vida entre duas imensidades – o oceano e o céu. Além disso, as poucas palavras que ele dirige a seus companheiros para incentivá-los a zarpar para o desconhecido são as palavras mais expressivas do espírito pesquisador do homem. O novo Ulisses, que saiu da fantasia do poeta, cria o mito do homem que jamais está satisfeito, pesquisa e se aventura e morre no desejo de ir sempre (Inf., XXVI, 125).

    Dante não é, portanto, a hiena de que falou Nietzsche, a hiena se alimenta de cadáveres e Dante, aos cadáveres, com a força da sua poesia, dá nova vida, vida definitiva. Qual é o segredo da força de sua poesia? Não é fácil identificar o segredo da arte de nenhum poeta, porque é quase impossível saber por que caminhos secretos a inspiração fez jorrar de fontes profundas a linguagem poética. Em geral, a resposta é a mesma para todos os verdadeiros poetas – o segredo está na criação e na imaginação. Todo poeta é atormentado pela angústia de dizer o indizível, eis por que está sempre à procura da palavra única e intensa – o poeta está sempre criando. A maioria dos poetas cria a palavra mágica de halo conotativo mais intenso para transmitir o máximo de carga emocional, mas cria as palavras dentro de um vocabulário existente e definido. Dante foi obrigado, inicialmente, a criar o próprio vocabulário, a sua própria língua. Ao tempo em que ele escrevia, o vernáculo italiano mal ensaiava ainda o voo da poesia nas asas informes dos seus múltiplos e grosseiros dialetos. Em seu tratado, já citado, De vulgari eloquentia, Dante preconiza o nascimento de uma língua italiana, única, que ele chama de áulica, isto é, nobre, semelhante ao provençal literário que era falado nas cortes, constituída pela seleção das palavras existentes nos vários dialetos italianos.

    Entre a teoria e a prática há sempre um abismo e, na hora de escrever seu poema, usou, felizmente, seu natural e imediato dialeto florentino, com simplicidade integral e vigorosa variedade, refinando-o, quando preciso, e enriquecendo-o com inúmeras palavras. Ele as procura e as escolhe do latim clássico e do latim vulgar, do francês e do provençal, dos dialetos de toda a Itália e, em todas, coloca seu carimbo, fazendo-as suas e fixando-lhes um valor inalterável. Recebe-as de baixa liga e as transforma em ouro, encontra-as consumidas ou fora de uso e as faz nítidas e reabilitadas.

    Na criação das palavras há uma alma que repercute e se debate, dando-lhes aquele som e aquele sabor que são de Dante e somente dele.

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