Economia e inteligência artificial: Desafios à sociedade e à religião
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Economia e inteligência artificial - Cléia Peretti
Prefácio
Clélia Peretti¹
À medida que embarcamos na jornada para a era da Inteligência Artificial (IA), somos confrontados com um cenário em constante mudança, em que a evolução social e o progresso humano são impulsionados por duas forças poderosas: a economia e a IA. Embora distintas, essas forças estão entrelaçadas, criando ondas de impacto que reverberam em todos os aspectos da vida, desde a economia até a espiritualidade.
A Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter) nos convida a refletir profundamente sobre os aspectos multidisciplinares e interdisciplinares da religião e da economia, enquanto a IA reformula os modelos econômicos tradicionais.
O livro aborda vários temas relacionados à inteligência artificial e suas implicações na sociedade, economia, ética e religião. Explora a ideia do transumanismo, no qual a tecnologia, especialmente a IA, é usada para ultrapassar os limites biológicos humanos. Discute os mitos e realidades da imortalidade digital. Ao mesmo tempo, examina os desafios que a IA apresenta para as religiões, especialmente em relação ao direito à vida e à coexistência humana. A obra questiona qual modelo de ser humano deveríamos aspirar na era da IA e as implicações éticas do transumanismo e da IA. Também destaca as possíveis ameaças que a IA pode representar para a economia e a democracia, e discute como ela pode ser usada para criar uma comunicação mais humanizada e construir o bem comum. Além disso, o livro explora o papel da IA nas ciências da religião, especialmente em relação à paz e à justiça, e discute a suposta inteligência artificial no regime de transição, destacando seus benefícios e desafios. Por fim, oferece uma abordagem bioética para entender as oportunidades e ameaças apresentadas pela IA.
A incorporação da IA em nosso cotidiano suscita reflexões sobre a nossa crescente dependência tecnológica, a potencial perda de nossa essência humana e a possível supremacia das máquinas. Estamos diante do desafio de encontrar um equilíbrio entre eficiência e compaixão, dignidade e ética, e investigando como as tradições religiosas interpretam a IA. Se conseguirmos equilibrar esses aspectos, acredito que podemos trilhar um caminho rumo a um futuro de prosperidade econômica e crescimento espiritual. Embora navegar por esse caminho possa ser complexo, se lograrmos nos unir em torno desse objetivo comum, acredito que não apenas sobreviveremos na era da IA, mas também conseguiremos respeitar a nossa própria dignidade
, conforme nossa posição na harmonia do todo.
Embora tenhamos feito avanços notáveis na área de aprendizado de máquina, a verdade é que ainda estamos longe de criar dispositivos de IA que possam vivenciar emoções. Uma máquina não possui a habilidade de evoluir emocionalmente ou entender o valor inerente de amar e servir ao próximo. As diversas manifestações de IA devem estar a serviço da fraternidade e da paz. Dessa forma, o avanço da ciência e da tecnologia, na medida em que contribui para uma organização mais eficiente da sociedade humana e para o aumento da liberdade e da fraternidade, conduz ao aprimoramento do ser humano e à transformação do mundo.
A partir das ideias de Kai-Fu Lee, um renomado cientista da computação e empresário, entendemos que a IA não tem a capacidade de substituir o amor humano. Assim, é fundamental criar uma nova interação entre a IA e a natureza humana, explorando maneiras de usar a futura riqueza material, gerada pela IA, para fomentar o amor e a compaixão em nossas sociedades. Nesse contexto, o enorme crescimento tecnológico deve ser acompanhado por uma formação adequada em responsabilidade pelo seu progresso. A liberdade e a convivência harmoniosa são postas em risco quando os seres humanos sucumbem à tentação do egoísmo, do interesse pessoal, do desejo de lucro e da busca pelo poder.
Esperamos que este livro não apenas inspire diálogo e desafie suposições, mas também nos guie para um futuro em que a IA seja utilizada para o bem comum. Que a leitura deste livro seja orientada pela sabedoria das tradições religiosas e pela responsabilidade ética compartilhada. Que o uso da IA possa auxiliar na promoção do desenvolvimento humano integral, introduzindo inovações em diversos setores da sociedade, incluindo educação e cultura. Que possa melhorar o padrão de vida de nações e povos inteiros, promovendo o crescimento da fraternidade humana e da amizade social. Que a maneira como empregamos a IA ajude a incluir aqueles que são mais vulneráveis e necessitados, pois esta é a verdadeira medida da nossa humanidade.
Apresentação
Edward Guimarães²
Maria Jeane dos Santos Alves³
Clélia Peretti
A Sociedade de Teologia e Ciências da Religião – Soter oferece aos seus membros e à sociedade como um todo a organização de seu 36o Congresso Internacional, cujo tema, mais que mera curiosidade coetânea, revela a imediatidade de um dos maiores desafios da contemporaneidade: Economia e Inteligência Artificial – IA: desafios à sociedade e à religião
, e reúne, neste livro, a pesquisa e a reflexão aprofundada de alguns dentre os maiores pesquisadores e pesquisadoras desse assunto. Em torno dos dois grandes eixos temáticos, economia
e inteligência artificial
, entrelaçam-se muitas das ineludíveis urgências contemporâneas.
Há bastante tempo, já constatamos que a atual concepção econômica, mundialmente hegemônica, com seu dinamismo estrutural avassalador, revela a força preponderante e, simultaneamente, a desfaçatez do sistema capitalista neoliberal, que vem entrando paulatinamente na sua era do capital improdutivo
,⁴ como muito bem a caracteriza o professor Ladislau Dowbor, economista que já esteve abrilhantando, com reflexões profundas e pertinentes, um de nossos Congressos recentes. A voracidade do extrativismo predador desse sistema capitalista fragiliza a sustentabilidade e coexistência dos biomas e ecossistemas que formam, garantem e embelezam a preciosa diversidade da teia da vida,⁵ e ameaça o futuro da vida hospedada em nossa casa comum. Ela é centrada na figura mítica e proximamente poderosa da vida de cada um de nós, o mercado. Este, com as suas mãos invisíveis, funciona com potentes e quase indestrutíveis mecanismos subliminares: sedutores cantos de sereia e aliciantes promessas de felicidade a cada culto ao consumo. No entanto, a sua lógica de concentração infinita e de acumulação crescente e insaciável de capital financeiro, da propriedade privada da terra e do poder e controle sociopolítico fica nas mãos de uma minoria, que vive na abastança e num mar de mordomias e privilégios. Minoria que forja uma economia que mata
⁶ e que condena, de forma fria e insensível, parcela significativa de pessoas humanas a uma situação social abjeta, de massa sobrante descartável. Uma outra parcela numerosa é explorada, de forma ignóbil, como carne sacrificada para o funcionamento de suas engrenagens. E outra, ainda, alienada como massa de manobra, que, apesar de tudo, sai em defesa dessa minoria. Esta economia cria uma poderosa cultura neoliberal meritocrática.
Ninguém fica indiferente ou ileso, pois tal cultura engendra, de forma criativa, as ideologias dominantes, atualiza a dialética hegeliana do senhor e do escravo e, desse modo, controla e domina, por influentes meios de comunicação, as mentalidades da grande maioria da população. Muitos, inclusive, consideram não haver qualquer alternativa viável ao capitalismo neoliberal de mercado, e agora, cada vez mais, especulativo e improdutivo, que aposta decisivamente na inteligência artificial.
O advento da sociedade urbana, tecnológica e internética, com seu intensivo processo de automação em escala industrial e com seus habitantes sempre conectados aos sedutores e viciantes smartphones nas mãos, transformou, em curto período de tempo, a nossa relação com o tempo e o espaço, com o corpo e a saúde, com o trabalho e a educação, com o tempo livre e o lazer, com a política e a religião, com o eu penso
e a ética... Em seu estágio atual, esse acelerado processo histórico, marcado pela chegada e rápida penetração da IA em nossa vida, dá o que pensar, tanto por seus inúmeros encantos e possibilidades caleidoscópicas quanto por suas já perceptíveis ameaças. A ambivalência do poder tecnológico, ao que parece, potencializa e faz emergir o que o ser humano tem de melhor e mais criativo, mas simultaneamente o que tem de pior e mais nefasto. Diante das impactantes transformações em ritmo acelerado, sem o necessário tempo de pesquisa, estudo, análise, debate, aprofundamento etc., muitos são os alertas sobre a importância do que aqui nos propomos.
Este livro, portanto, é resultado da preparação do Congresso Internacional da Soter, em julho de 2024, na PUC Minas. Ele oferece aos leitores/as nove textos produzidos pelos que apresentarão conferências e comporão as mesas de debate desse Congresso.
O primeiro texto, Para além da vida biológica: transumanismo e mitos na era da imortalidade digital
, é assinado pela pesquisadora Adelaide de Faria Pimenta, que, atualmente, é doutoranda no Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da PUC Minas. Segundo ela, o transumanismo ainda é pouco discutido no Brasil, mas vem experimentando crescimento global, com a busca do melhoramento por meio da transferência da consciência para computadores ou avatares, de congelamento humano visando à futura restauração, interfaces computador-cérebro, inteligência artificial e engenharia genética, arquivos biológicos e mentais, como alguns dos caminhos para alcançar tanto a longevidade quanto a imortalidade digital. Ele tem gerado, por tudo isso, muitas controvérsias nos âmbitos científico e acadêmico, abrangendo aspectos biológicos, jurídicos, éticos, políticos e religiosos. Adelaide ressalta que, dada a natureza dinâmica desse processo em evolução, respostas definitivas sobre seus desdobramentos ainda não se solidificaram. Vale a pena ler o provocante texto desta pesquisadora.
O segundo texto, O direito à vida e a coexistência humana ante as novas modalidades de inteligência artificial: desafios às religiões
, tem como autora Magali Cunha, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião – ISER. Segundo ela, no curso da terceira década deste século, deparamo-nos com avanços tecnológicos que amplificam os sentimentos de euforia, perplexidade e desorientação: as novas modalidades de inteligência artificial (IA). Robôs, androides, máquinas autônomas, figuras que, desde meados do século XX, para além da imaginação de obras de ficção, tornaram-se cada vez mais uma realidade presente e dinamizadora em várias áreas da vida. E, se, por um lado, as novas modalidades de IA oferecem avanços significativos não só para o conhecimento – como a informática, a medicina, a economia, a educação, por exemplo –, mas também para o cotidiano – na comunicação interpessoal e grupal, nos transportes, na cultura, no trabalho em várias frentes de produção –, por outro, importa compreender os pontos fortes dessa transformação, ou seja, elencar os ganhos e as perdas com a recente intensificação da interação humana com as novas e crescentes modalidades de IA e dedicar atenção às dimensões significativas do direito à vida e da coexistência humana. Esses são elementos centrais na ética, que interliga as religiões, desafiando-as, por exemplo, pela face intolerante do trabalho com algoritmos e a interferência nociva em temas de interesse público – elementos aderentes ao estudo e ao ativismo no campo das religiões. Vale a pena conferirmos.
O terceiro texto, ‘Reformar’ o ser humano: mas segundo qual modelo? Inteligência artificial, transumanismo e (bio)ética
, tem como autor Jelson Oliveira, o pesquisador do Programa de Pós-graduação em Filosofia da PUC PR. Segundo ele, a ideia de reformar o ser humano é uma das mais correntes nos meios tecnológicos, estando no centro da pauta do movimento transumanista. E, no meio científico, existem várias técnicas de melhoramento que incluem inúmeros processos e promessas, entre as quais as que prometem curas milagrosas
, prolongamento indefinido da vida, controle do comportamento e, sobretudo, manipulação genética. Nesse sentido, questiona sobre o que essas técnicas escondem: Quais as consequências no que diz respeito ao futuro da humanidade? Quais os problemas éticos nelas incluídos? Neste texto, o autor discute algumas dessas questões sob o olhar da (bio)ética – por exemplo, questões éticas e preocupações sobre segurança e regulação, diante da utilização de poderes tecnológicos para sobrepujar a natureza humana na direção de um novo ser. Uma reflexão que, certamente, a todos nós interessa. Confiram!
O quarto texto, A inteligência artificial: ameaças à economia e à democracia
, tem como autor o professor e pesquisador da Faculdade de Filosofia e Teologia – FAJE, Élio Gasda. Segundo ele, a inteligência artificial, atual fase da revolução digital, é a maior transformação por que passa o mundo desde o final da Segunda Grande Guerra, e a maneira como organizamos a economia, a sociedade e a política está mudando profundamente. Isso porque, na fronteira entre humano e máquina, a IA oferece um modelo explicativo da realidade e da forma como entendemos a nós mesmos. Produção, processamento, análise e armazenamento de dados em grande escala por dispositivos é chamado de big data. As Big Techs extraem esses dados para convertê-los em mercadoria e ganhar dinheiro. Com o avanço da IA, alguns dos homens mais ricos do mundo podem estar decidindo o destino da humanidade. O autor se pergunta: que economia? Que política irrompe na era digital? Que fazer? E procura, então, demonstrar os impactos da IA na economia. Depois, a partir de uma abordagem sistêmica do capitalismo digitalizado, aborda a relação carnal entre Big Tech e sistema financeiro, e suas ameaças no mundo do trabalho: insegurança, desemprego e precariedade, bem como as ameaças à política a partir da relação entre IA e razão política neoliberal: psicopolítica, pós-democracia, fake news/deepfake, pós-verdade. E termina apontando alguns desafios que sugerem outro uso da IA. Confiram!
O quinto texto, Da comunicação humana a uma comunicação humanizada: inteligência artificial e construção do bem comum na ‘casa comum’
, é de Moisés Sbardelotto, pesquisador e professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião e do Mestrado Profissional em Teologia Prática da PUC Minas. Segundo ele, a rápida ascensão da inteligência artificial está remodelando a comunicação contemporânea, trazendo consigo uma série de implicações éticas e sociais. A IA promete (e cumpre) uma revolução na eficiência e na personalização da comunicação, mas sua implementação levanta questões que transcendem as fronteiras da tecnologia, entrelaçando-se com os tecidos da cultura e da vida em geral. O autor enfatiza que, em meio a esse crescente e acelerado avanço tecnológico, muitas vezes não se consegue praticar um olhar de conjunto, dada a fragmentação do saber e a perda do sentido da totalidade, das relações que existem entre as coisas, do horizonte alargado
(Laudato Si’, n. 110), e se propõe refletir sobre os desafios postos à construção do bem comum em meio às inter-relações ecológicas que se estabelecem entre o ser humano, as tecnologias digitais e os processos comunicacionais. Diante da gama extremamente vasta de aplicações da IA em diversos campos, Sbardelotto elege como foco as IAs generativas em processos de comunicação, de modo particular nos campos da geração e do processamento automatizados de conteúdos textuais em linguagem natural humana (como o ChatGPT 2, entre outros), além de sonoros e audiovisuais (como DALL-E e Midjourney 3, entre outros). Aqui, deixar-se provocar faz a diferença. Confiram!
O sexto texto, Ciências da Religião: inteligência artificial, paz e justiça
, tem como autores Carlos André Cavalcanti e o monge, teólogo e biblista Marcelo Barros. Segundo eles, se o termo inteligência artificial (IA) já entrou na linguagem comum e dela se fala nas casas, nas escolas e nos comércios, e cada vez mais os sistemas operacionais executam tarefas como reconhecimento de rosto e de voz e memória seletiva, as rápidas transformações e seus impactos acarretam desafios para a ética, mas também para a teologia e as ciências da religião. Para eles, é um produto do sistema capitalista mais desenvolvido e tem sido usado tanto para aumentar o lucro das empresas mais ricas quanto também, e principalmente, como arma de guerra. Já existem países que usam a IA para localizar criminosos em meio à multidão. Tanto exércitos quanto estados nacionais podem fazer uso perigoso de uma tecnologia como essa. A tecnologia em si pode ser utilizada de maneira humana, mas nada garante isso, como já se tem visto em alguns casos amplamente relatados e noticiados. Segundo os autores, ninguém questionaria o bom uso da IA nos hospitais, por exemplo. Eles propõem-se a explicitar os saberes e fazeres decisivos para as religiões, para a teologia e para as ciências da religião, diante do desafio da cultura de paz e da justiça ecossocial. Confiram!
O sétimo texto, A suposta inteligência artificial no regime de transição: remédios e venenos
, é assinado pelo pesquisador
