Uma Experiência no País das Histórias: um encontro com a palavramundo
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Sobre este e-book
Utilizamos a metodologia narrativa como um diário encantado, registrando vivências e emoções das contações de histórias. Ao lado das crianças, nos perdemos e nos encontramos no país das histórias, onde o tempo e o espaço se moldam à pronúncia das palavras. Alice, a intrépida exploradora de Carroll, foi nossa companheira e musa, guiando-nos com sua curiosidade e espírito de aventura.
Inspirados por gigantes como Freire, Manguel e Abramovich, nossa narrativa é um caleidoscópio de influências e aprendizagens. Cada autor contribui com cores e formas, enriquecendo nosso caminho com novas perspectivas. Juntos, construímos um percurso literário que vai além da leitura, mergulhando na compreensão crítica e interpretação do mundo.
Esta obra não é apenas um livro; é um convite para se perder e se encontrar no mundo das histórias, ajustando os tempos e os espaços na dança das palavras. Venha conosco nesta aventura literária, onde cada página é um portal para um universo de descobertas e encantos.
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Uma Experiência no País das Histórias - Ana Luísa Barros Cunha
1.
UMA AVENTURA ATRÁS DO COELHO BRANCO
Alice estava começando a ficar muito cansada de estar sentada ao lado de sua irmã e não ter nada para fazer: uma vez ou duas ela dava uma olhadinha no livro que a irmã lia, mas não havia figuras ou diálogos nele e para que serve um livro
, pensou Alice, sem figuras nem diálogos?
(CARROLL, 2010, p. 2).
Nesta obra, percorro um caminho onde os rios são coloridos, as pedras têm sabor, o sol sorri, a chuva faz cócegas... Ursos enormes falam e tentam me assustar. Em vão. Seu olhar me lança para um longo e demorado abraço. As fadas madrinhas passeiam voando em um constante vaivém. Gatos, com seu modo dengoso, sorriem para os que se achegam.
Os leões? Morrem de medo do homem que se veste de lata. Mundo extraordinário! Fantasioso! Encantado! Lugar onde o real se veste de luz e de pura magia. Adentre. Fique à vontade. Eis meu mundo mágico: mundo da contação de histórias!
Sou como Alice, personagem do conto fantástico Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, curiosa, atenta, sobretudo, corajosa. Assim como Alice, me arrisco a correr atrás do coelho trajado com colete e possuidor de um enorme relógio e... TUMMMM!!!
: estou no mundo do faz de conta; entretanto, diferente de Alice, convivo com personagens corriqueiros da vida real.
Alice, embora esteja no país das maravilhas, se depara com personagens que representam muito os comportamentos comuns do cotidiano. Pode ser que, ao longo desta narrativa, esses personagens despontem por aqui, saltitando, acenando, ou, quem sabe, apenas sorrindo para você. Homens e mulheres passam por experiências que, quando silenciadas, são esquecidas, mas que, se forem despertadas, poderão iluminar e facilitar o caminho para novos viajantes (MORAIS, 2002).
Não posso silenciar esta experiência em alguma gaveta dentro de mim. Preciso narrá-la para que ela não se apague no processo de esquecimento. Quero que minha experiência sirva de inspiração, acenda outras histórias, deixe marcas. Por isso a escrevo. Larrosa (2016) lembra que é importante nomear o que realizamos em educação ou na vida em geral como uma espécie de técnica aplicada, práxis reflexiva. Correlacionamos vivências e palavras. Nomeamos para dar sentido ao que sentimos, ao que somos, a como vivemos e à maneira como vimos os fatos.
Registro o caminho dos meus afetos pela contação de histórias, visito minhas memórias de criança e sonhos repletos de entusiasmo que deram força para trilhar o caminho até o buraco mágico e o mundo das maravilhas. Foi inusitado! Essencial para chegar a esta escrita. Com o sabor de infância, prossigo meus primeiros passos como professora, meu encontro marcante com a literatura e com as crianças.
Iniciei minha pesquisa de campo com a minha primeira turma como docente no ano de 2018 e continuei a mesma investigação com minha segunda, também como professora regente, no ano de 2019 em uma escola da rede privada de Santo Antônio de Pádua, localizada no estado do Rio de Janeiro, com o Pré-I, crianças de 4 a 5 anos.
Por esses percursos, encontrei os objetivos que movem a pesquisa: desvelar os caminhos trilhados dessa prática que está sendo gerada, dando visibilidade às histórias ouvidas por mim e criadas pelas crianças; enfatizar a importância da leitura, não como decodificação da palavra e da escrita, mas como processo crítico da compreensão da leitura do mundo
(FREIRE, 1986).
No cotidiano da sala aula, entre uma contação e outra, encontrei o não visto das histórias pessoais desses pequenos autores. Narram sua relação com a palavramundo
, mesmo sem decodificar a palavra escrita; narram através de histórias criadas e contadas por eles mesmos.
É preciso ter uma compreensão crítica do ato de ler, sem que se esgote na decodificação da palavra ou da linguagem escrita, mas que se estenda e se amplie até a inteligência do mundo, na medida em que a leitura do mundo preceda a leitura da palavra. Desse modo, linguagem e realidade se complementam de forma dinâmica (FREIRE, 1986).
Para explorar a palavramundo
(FREIRE, 1986), todos os dias nos sentávamos em roda e contávamos histórias e também nossas novidades. E se por acaso acontecesse de alguma história nova nascer, a recebíamos com alegria. A prática corriqueira de contar histórias sempre foi geradora, algo sempre acontecia entre mim e as crianças; compartilhamos muitos sorrisos e descobertas nas rodas de todos os dias. Como salienta Morais (2002, p. 85) sobre a prática de contar e ler histórias para crianças desde bem cedo: é cumprindo a sina de todo professor e professora: apaixonar seus alunos e alunas pelo mundo da narrativa
.
Com a intensa paixão que carrego comigo pela narrativa antes de ser professora — as histórias eram minha palavramundo
—, comecei a ver o que estava ao meu redor pelas lentes da narrativa, o que deu sentido a essa experiência que percebo em minha sala de aula, e hoje posso compartilhar com as crianças. Os sujeitos que costuram e perpassam a minha relação com a educação nas linhas deste trabalho possuem voz e têm autêntica fala, fazendo acontecer a escrita.
A descoberta da pesquisa me impulsionou a seguir caminhos únicos. O acontecimento do cotidiano traz as surpresas e as novidades contadas pelos sujeitos, aguçando cada vez mais meu olhar de pesquisadora. Os acontecimentos tomam conta dos pensamentos e dos sentimentos de todos os envolvidos e, às vezes, nos fazem mudar de direção. Mudam-se os planos e as rotas.
O desconhecido me espera. Os passos agora habitam a incerteza da imaginação. Para onde este caminho novo pode me levar? De repente, algo acontece como com Alice ao ver um coelho branco de olhos cor-de-rosa passar na sua frente. Ela não demonstrou espanto ao ouvi-lo dizer a si mesmo que estava atrasado. Entretanto, foi só ele retirar do colete um relógio e consultar as horas que ela se levantou (CARROLL, 2010).
Assim como Alice no país das maravilhas, com sua meninice radiante, curiosidade excessiva, com a cabeça nas nuvens e a imaginação cheia de encanto, desde criança me percebia no mundo. Era uma menina muito questionadora e com um entusiasmo grande para descobrir as palavras e degustar as histórias.
Filha de uma professora contadora de histórias, sempre que podia eu a acompanhava, era um passeio mágico pelas escolas onde lecionava. E mesmo que ficasse no canto desenhando ou brincando enquanto a aula acontecia, sempre ficava atenta a tudo que estava à minha volta.
Nas idas e vindas das escolas, entre uma contação e outra, toda emoção me fez adentrar o mundo da palavra mágica das histórias. Esse mundo é o da contação de histórias e foi descortinado para mim, quando eu ainda era criança, por minha mãe. Ao ouvi-la, me transportava para lá. Lugar colorido e encantado, onde a palavra do faz de conta é a chave dourada que abre todas as portas desse lugar mágico. Estava sempre à espreita das histórias. O meu coelho branco de paletó e relógio, que me instigava a entrar no mundo da fantasia, acredito que foi ela: a professora Audrey. Eu a encontrei, fui tomada pela sede de descobrir o mundo maravilhoso das histórias e, por isso, fui ao seu encontro.
Minha mãe foi meu primeiro mundo em palavras. Antes de ser alfabetizada com as letras, fui alfabetizada pela voz dela. Fui inundada. Desde pequena era uma boa ouvinte, pois quase todo dia ela me apresentava uma nova história. A maleta era o segredo, com muitas fitas cassetes; as rimas as povoavam, os personagens em meio às falas e sussurros cantavam o enredo. Entre elas estavam Rapunzel, Branca de Neve, a Festa no Céu; mas a que eu mais gostava era da menina dos caracóis de ouro. Ligávamos e sentávamos na cama, e ali ficávamos a degustar, a mãe, a história, e eu vivendo a história.
Isso porque o primeiro contato da criança com o texto é oral, ou seja, pela voz da mãe, do pai ou dos avós, que contam com alegria contos de fada, histórias da Bíblia ou, simplesmente, histórias que eles inventam, livros atuais e pequenos, poemas com rimas, entre outros; marcam pelo contato, pelo carinho e, na maioria das vezes, cria-se uma atmosfera de aconchego, à noite, antes de dormir, com beijos e abraços (ABRAMOVICH, 1989).
O que eu mais gostava de ouvir era a voz singular, isto
