Fritz Perls e Paul Goodman: Duas Faces da Gestalt-terapia
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Fritz Perls e Paul Goodman - Marcus Cézar Belmino
NOTA SOBRE A
TERCEIRA EDIÇÃO (2024)
10 anos separam a primeira versão desse livro e essa nova edição. Reconheço muitas histórias, muitas transformações, muitas emoções e muitos desafios. Confesso que no processo de revisão, meu ímpeto era alterar muita coisa, revisar muitas partes do texto, mas esse livro marca o início de uma jornada de escritas que sinto que precisa ser preservada. A intuição original desse livro continua viva hoje tanto quanto era há 10 anos, que visa explicitar a diferença que existe entre o movimento gestáltico iniciado por Fritz Perls e o movimento gestáltico iniciado por Paul Goodman. Não se trata nem, exatamente, de focar nas diferenças pessoais desses dois autores, mas, na verdade, apontar que a Gestalt-terapia já nasce dividida, se desdobrando para caminhos éticos, políticos e epistemológicos bem distintos. Hoje, acho interessante ver bem mais disseminado algo que na publicação da primeira edição desse livro era considerado preciosismo, a saber, as diferenças entre as ideias de Fritz Perls e Paul Goodman. Hoje, a obra de Goodman já é (um pouco) mais reconhecida e suas ideias difundidas, além de ser mais explicitas as suas contribuições na construção do livro Gestalt-terapia¹. Apontar a cisão inicial da Gestalt-terapia não se trata de preciosismo histórico, mas de mostrar a gênese da pluralidade de caminhos e possibilidades no contexto gestáltico. Se hoje temos diversas gestalt-terapias
, isso não se faz à toa, isso tem uma gênese muito bem definida de uma abordagem que já nasce constituída por essa pluralidade.
Essa cisão inicial explica a gênese da multiplicidade de movimentos gestálticos, mas não serve para tentar designar quais movimentos atuais derivam de quem. Esse é um equívoco que faço questão de explicitar quando estou falando em conferências ou aulas. A gestalt-terapia brasileira, principalmente, é absolutamente plural e original. Não poderíamos designar no Brasil uma vertente advinda de uma referência puramente perlsiana ou puramente goodmaniana. A Gestalt-terapia brasileira tem seus próprios movimentos, contextos e multiplicidades. Ela bebe das duas fontes, mas, também, constrói seus próprios sistemas. A abordagem gestáltica chega ao Brasil na década de 1970, constituída prioritariamente pelo campo intuitivo, técnico e já trazendo sua forte vertente crítica. A dificuldade de acesso aos textos e livros da abordagem, também dificultava um maior aprofundamento teórico de suas bases originais. Nesse período, em função da plasticidade epistemológica da abordagem, muitas pessoas começam a aproximar o pensamento gestáltico à outras propostas filosóficas ou psicoterapêuticas, como é o caso da Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers.
E, já na década de 1980, começa um movimento cada vez mais rebuscado de aproximação das ideias da Gestalt-terapia e da Abordagem Centrada na Pessoa com as filosofias fenomenológicas-existenciais. Por mais que essa aproximação tenha sido advinda das discussões construídas em solo norte-americano, o modo como no Brasil há a interlocução entre essas abordagens e o pensamento fenomenológico-existencial é bem mais aprofundado e significativo que aquele apontado pelas vertentes advindas dos EUA. Essa fundamentação se torna tão evidente e tão bem constituída, que na década de 1990, muitas pessoas vinculadas inicialmente ao pensamento gestáltico e/ou rogeriano começam a se autodenominar psicoterapeutas de base fenomenológica-existencial, justamente por não compreenderem mais a gestalt-terapia como sua principal referência. Isso possibilitou inúmeros debates sobre o que caracteriza propriamente a gestalt-terapia, e em que momento deixa de ser gestalt-terapia para ser uma prática fenomenológica-existencial (ou uma deriva da Daseinsanálise, por exemplo). Inclusive, os inúmeros debates sobre até que ponto a gestalt-terapia é uma abordagem fenomenológica-existencial não foi ainda fechado, incluindo a sua relação com as psicoterapias sistêmicas, ou as terapias corporais etc. Esse movimento se desdobra durante quase duas décadas, o que levantou vários debates sobre os limites da Gestalt-terapia e o que, de fato, caracteriza alguém que queira trabalhar com essa referência epistemológica e técnica.
Mais recentemente, mais precisamente na última década (por mais que o início desses debates tenha começado bem antes), um novo movimento tem ganhado força dentro do contexto brasileiro de pensar e praticar a gestalt-terapia. Ganhando mais um passo no desenvolvimento da maturidade na abordagem, muitas pessoas tem procurado articular a Gestalt-terapia com perspectivas críticas e pós-críticas, buscando produzir interlocuções do pensamento gestáltico com autores e autoras como Michel Foucault, Giorgio Agamben, Judith Butler, Frantz Fanon, Byung-Chul-Han, Achille Mbembe, Deleuze e Guatarri e tantas outras figuras que trazem referências sobre as formas que operam os jogos de poder e o alcance das formas institucionais e estruturais de violência. E mais recentemente ainda, a inclusão de debates tendo como referência importantes figuras do debate sobre a política, a cultura e as formas de violência racial, de gênero e contra a população indígena no Brasil, tal como Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Carolina Maria de Jesus, Silvio Almeida, Ailton Krenak dentre outras importantes figuras.
Sem dúvida todo esse debate e essas novas referências tem enriquecido muito o trabalho gestáltico (inclusive, muitas dessas referências procuro usar em meus textos de debates mais contemporâneos na abordagem gestáltica). Mas esse debate reacendeu algo que ainda não era precisamente novo, mas, tal como qualquer gestalt inacabada, retorna, a saber, o debate sobre: o que caracteriza propriamente a gestalt-terapia? Até onde podemos dizer que tal compreensão é gestáltica ou já poderíamos começar a chamar de esquizoanálise ou outras perspectivas que se desdobram dessas teorias? Essa pergunta, também não está respondida. Também não sei ao certo até que ponto é possível de fato responder essas perguntas sem produzir uma certa violência epistemológica de tentar impedir a expansão do pensamento gestáltico. Afinal, é próprio de qualquer teoria coerente, revisitar suas próprias bases e atualizar seus discursos produzindo novas interpretações de seus conceitos ou até a substituição deles, para que não se caia em uma posição dogmática.
Essas questões, são próprias de uma preocupação de pesquisa epistemológica. Se hoje em dia, no campo da epistemologia gestáltica, estamos às voltas com isso, logo torna-se necessário sempre revistar de onde tudo começou. É nesse sentido que proponho uma nova edição desse livro. Retomar o debate de como a abordagem gestáltica já nasce cindida, nos permite aquecer ainda mais a referência sobre o que de fato caracteriza o pensamento gestáltico. Nesse sentido, por mais que eu tenha procurado atualizar o texto aqui produzido trazendo informações históricas mais precisas e corrigir algumas questões mais pontuais, procurei manter a intuição da pesquisa inicial que produziu esse texto. Meu objetivo aqui é retomar essa questão: se já começamos cindidos, o que caracterizou a gênese do pensamento gestáltico?
Marcus Cézar Belmino
Juazeiro do Norte, julho de 2024
NOTA SOBRE A
SEGUNDA EDIÇÃO (2018)
Esse livro foi fruto de um trabalho exaustivo de pesquisa, organização, sistematização e, principalmente, reflexão. Algumas ideias aqui foram escritas e jogadas fora dezenas de vezes antes de tomar uma forma final. Na verdade, essa pesquisa foi gerada a partir de inquietações, aulas, questões e indagações em torno da Gestalt-terapia. As pesquisas geraram fragmentos, desde pequenos textos, artigos até aulas em formato power point, todas separadas em várias pastas no computador. Mas também, ela foi formada a partir das leituras e conversas com vários amigos(as/es), professores(as/us) e alunos(as/es) (e é fantástico o quanto essas três categorias se misturam), e, com isso, pude colecionar vários cadernos com rascunhos de ideias e problematizações. Porém, o momento em que decidi transformar essas pesquisas em um livro fez com que eu trabalhasse incessantemente durante dois meses. Cheguei a escrever de seis a oito horas por dia com uma sede enorme de ver esse material pronto. A verdade é que eu tinha sido desafiado. Em uma mesa de restaurante, uma certa vez, cheguei a me queixar sobre a dificuldade de publicar um livro, e um querido amigo me indagou: O livro está pronto? Porque me parece que você nem tentou ainda publicar...
.
Seis meses depois dessa provocação o livro estava pronto. Mandei fazer mil cópias em uma pequena editora, e, com uma enorme dificuldade na distribuição, peguei o livro e saí vendendo em congressos, aulas, e cursos que ia ministrando pelo Brasil afora. Jamais poderia imaginar a repercussão positiva que esse livro iria alcançar. Recebi feedbacks dos mais variados tipos (positivos e negativos) e percebi o quanto o livro era provocador. Depois de um tempo, foi emocionante ver que o livro estava sendo utilizado em cursos de graduação em psicologia, mas também em formações e pós-graduações em Gestalt-terapia. Essas cópias acabaram em poucos anos, e agora vi a necessidade de produzir uma segunda edição. Muita coisa mudou nesse tempo relativamente curto, de 2013 (quando o livro foi escrito) para cá. Nesse tempo, conclui meu doutorado em filosofia na Universidade Federal de Santa Catarina, em que foi feita uma pesquisa em torno das ideias de Paul Goodman e seus desdobramentos clínicos, políticos e educacionais. De modo geral, nos últimos anos minhas pesquisas tem se constituído prioritariamente a partir de três eixos: os escritos de Paul Goodman, seus fundamentos e a repercussão dessas ideias para o pensamento gestáltico (principalmente sobre aquilo que procurei nomear de Ontologia Gestáltica); os desdobramentos clínicos da teoria do self descrita no livro Gestalt Therapy de 1951, principalmente os trabalhos de Muller-Granzotto e Muller-Granzotto em torno das clínicas gestálticas, mas, também, tenho me dedicado e me encantado com os trabalhos da Gestalt-terapia europeia, principalmente a francesa e a italiana no que tange também ao campo da teoria do self e o modo radical como eles trabalham a teoria de campo; e, por último, um campo que para mim tem sido muito empolgante são as discussões pós-foucaultianas, principalmente os trabalhos de Giorgio Agamben, Judith Butler, entre tantos outros filósofos contemporâneos que, de uma maneira muito peculiar, tem me aberto novas reflexões sobre o lugar ético e político do pensamento gestáltico, e o quanto que pensar a saúde mental, o sofrimento psíquico, as experiências psicóticas, as situações de extrema aflição, os impactos das redes sociais, o preconceito e as situações de violência, exigem que a Gestalt-terapia se abra para novos paradigmas de entendimento das relações de dominação de nossos corpos e a fragilidade de alguns de seus conceitos perante os imperativos de uma sociedade neoliberal em que os dispositivos biopolíticos tem assumido formas tão perversas.
Dentro desse contexto, foi muito interessante revisitar esse livro. Para produzir a segunda edição, fiz uma revisão do texto original, e percebi que, talvez, existem alguns pontos que não concordo mais tanto. Porém, mantive a maioria dessas ideias, pois não quis tirar do livro o seu caráter introdutório, e, principalmente, seu caráter imparcial. Eu continuo sendo um admirador desses dois autores, mas talvez, hoje em dia (e isso é um problema que tem me levado à reflexão) eu não teria escrito esse trabalho de maneira tão honrosa a cada um desses autores. Minhas pesquisas sobre Goodman tinham me afastado das leituras sobre Fritz Perls, e esse livro me reacendeu a chama de voltar a ler seus escritos e transcrições de palestras e workshops. Tive acesso à novas biografias do Perls, e, também, procurei integrar essas novas leituras aqui. Também tenho repensado muitas das ideias escritas neste livro sobre Paul Goodman, mas entendo que essas novas interpretações sobre sua obra já foram descritas e aprofundadas no Ontologia Gestáltica de Paul Goodman (Belmino, 2017). Nesse sentido, nessa segunda edição procurei melhorar o texto em pontos que entendia que não estavam bem escritos, corrigi alguns erros de datas e reorganizei algumas ideias que me pareciam confusas. Porém, procurei manter as ideias centrais e as orientações de entendimento dos conceitos citados e explorados no decorrer do livro. Preciso ressaltar algo que me fez segurar um tempo a produção dessa segunda edição. Ultimamente tenho buscado conhecer mais a fundo os trabalhos de Laura Perls. Pensei seriamente em incluir uma nova parte sobre ela nesse livro, e, talvez, chamá-lo de Três faces da Gestalt-terapia...
ou algo assim. A importância de Laura na história da Gestalt-terapia ainda é profundamente negligenciada (principalmente aqui no Brasil) e me culpava por esse livro não fazer justiça a seu importante papel. Mas depois percebi que esse livro trata de um perfil, uma pequena parte dessa história maior que é o pensamento gestáltico. Por isso, mais do que incluir nesse livro as contribuições de Laura Perls (partes do texto foram modificadas para deixar mais claro o impacto das ideias dela na construção da abordagem gestáltica), assumi um compromisso em produzir um material específico sobre a importância dessa incrível autora. Eu e Tássia (minha esposa, que também é Gestalt-terapeuta) temos nos aproximado do pensamento dela, e, por isso, pretendemos transformar esse estudo em algum material concreto em um futuro próximo.²Por último, não poderia deixar de citar o presente que me foi dado nessa nova edição, que é o prefácio escrito por Jorge Ponciano Ribeiro. Sendo ele um dos maiores nomes da Gestalt-terapia brasileira e internacional, foi extasiante ouvir do Prof. Jorge Ponciano os elogios sobre esse livro. De forma muito amorosa ele aceitou o convite em prefaciar esse trabalho, e fico muito feliz e honrado de ter esse registro cravado nesse livro que tem um significado tão importante para mim. Espero que você, leitor/a/e, possa sentir toda essa afetividade que perpassa esse trabalho, e, com isso, lhe desejo uma boa leitura.
Marcus Cézar Belmino
Juazeiro do Norte, 2018
PREFÁCIO
Jorge Ponciano Ribeiro
A pergunta fundamental sobre a natureza humana me persegue e me leva para lugares novos e cheios de enigmas. Não é à toa que busquei uma abordagem que, principalmente aqui no Brasil, é atravessada por dezenas de vozes, por movimentos e compreensões, às vezes, quase opostos (p.27).
Este pensamento, na sua simplicidade, traz, no seu bojo, o como
, o porquê
e o para que
da existência deste livro, enquanto uma expressão vivida pelo autor à busca de compreender a natureza da natureza humana.
Fritz Perls e Paul Goodman: duas faces da Gestalt-terapia retratam exatamente dois homens, duas concepções de natureza humana, que se explicitam pelos caminhos diversos e diferentes que eles percorreram para chegar ao mesmo lugar: ambos queriam dizer o que Gestalt terapia é.
Talvez Fritz e Goodman, que hoje sabemos que nunca se gostaram e seus contatos foram mínimos, não soubessem que ambos tinham muito em comum
(p.18), apesar de ideais bem diferentes, e, às vezes, quase opostas.
Vou relendo a apresentação de Marcus e vou descobrindo nas entrelinhas ou mesmo nas linhas uma caminhada silenciosa seguida pelo autor de, ao mesmo tempo, em que ele quer dizer quem é quem
em um projeto, ele também quer dizer quem disse o quê
no outro projeto: "Fritz era uma figura única. Apesar de muitos dizerem que ele não era propriamente um teórico, ninguém pode negar a genialidade de muitos de seus insights (p.32) e complementa
... e Goodman, mais do que apresentar e editar as ideias de Fritz, teria desenvolvido ideias que já vinha produzindo muito antes de conhecer o trabalho do casal Perls" (p.36)
E para não deixar dúvidas de sua imparcialidade e para deixar claro de que lugar ele escreve o que ele fala, completa:
Porém, este livro também busca apresentar outra perspectiva: a de um imenso respeito a essas duas personalidades, pois, cada qual a seu modo, revolucionaram seus campos de atuação. Por isso, acredito ser de fundamental importância reconhecer as nuances e peculiaridades de cada um. (p.36)
E que nuances e peculiaridades são estas?
Antes de mais nada, reconheço a fidelidade, o rigor científico e acadêmico com qual Marcus lidou com o pensamento desses homens tão diferentes, mas tão iguais na busca do que eles entendiam ser a essência e a natureza da Gestalt terapia.
Marcus não está vendendo um peixe, está, de maneira magistral e isenta, ensinando a pescar, na obra destes homens, a profundidade, e a originalmente que o pensamento de ambos encerra, não obstante, terem, muitas vezes, ideias tão diferentes e, às vezes, em oposição.
Na verdade, as escritas de uma pessoa não nascem do nada, nem mesmo de uma composição de ideias logicamente concatenadas, apenas fruto de uma reflexão criativa ou criadora. Nascem de sua história, de sua experiência de vida, são frutos e partícipes das estradas por onde passaram e viveram. E isto fica claríssimo na Introdução
com o subtítulo: A história da cisão inicial da Gestalt-terapia
(p.53).
Marcus faz uma introdução (p.53 a 81) em que, com agudas reflexões, tenta deixar claro quem é quem e quem disse o quê, para, em
