Expiação
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Sobre este e-book
– Wout Bisschop, Philosophia Reformata
* * * *
Expiação – Culpa, perdão e o sacrifício de Cristo apresenta uma contribuição atual
e preciosa para a compreensão da doutrina da expiação.
Doutrina essencial do cristianismo, a remissão de nossos pecados suscitou diferentes
interpretações ao longo dos séculos. Em EXPIAÇÃO, Eleonore Stump considera a
doutrina com cuidado filosófico e teológico e, acrescenta, seja qual for a abordagem,
ela deve incluir uma solução para os problemas da condição humana, especialmente
da culpa e da vergonha.
Para a autora, a obra expiatória de Cristo desarma a resistência humana ao amor de
Deus. Stump explora uma interpretação da doutrina que seja coerente, moralmente
aceitável e consistente — tanto com outras doutrinas teológicas como com textos
bíblicos relevantes.
EXPIAÇÃO oferece também um rico debate sobre amor, união, retribuição, punição,
atenção compartilhada, leitura de mentes, empatia entre outras questões em
psicologia moral e ética.
* * * *
Expiação é uma conquista monumental na teologia filosófica analítica. Uma
contribuição duradoura para o trabalho filosófico e teológico sobre a expiação nos
próximos anos.
— Joshua Thurow e Jada Twedt Strabbing, Faith and Philosophy
Recomendo fortemente Expiação a todo interessado — especialista ou entusiasta —
em uma interpretação da expiação consistente com um Deus amoroso.
— J. Spencer Atkins, Theological Studies
Uma obra magistral sobre a ideia cristã de expiação. Aborda uma série de questões
filosóficas, como a metodologia da teologia filosófica e a filosofia de Deus, e também
reflexões sobre amor, pecado, culpa, vergonha, perdão, arrependimento, punição,
leitura da mente, psicologia moral, natureza humana e vontade.
– Paul Reasoner, Religious Studies Review
Expiação é uma obra impressionante sobre uma doutrina cristã central. Vale a pena
ser lida por teólogos e filósofos.
– Wout Bisschop, Philosophia Reformata
Expiação é uma obra muito significativa dentro da tradição da teologia filosófica
analítica, na qual a integridade e a humanidade brilham.
– Rolfe King, University of Aberdeen, Notre Dame Philosophical Review
Criativa e bem trabalhada Expiação é uma obra rica em insights filosóficos sobre
vários conceitos teológicos, como justificação, santificação, estar em Cristo e a
habitação do Espírito Santo.
– R. P. Hoogenboom, Theologia Reformata
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Expiação - Eleonore Stump
Para John
ut ardeat cor meum
in amando Christum Deum
(Stabat Mater)
*
Minha vida flui numa canção sem fim
Acima das lamentações terrenas.
Eu ouço o hino – real, mesmo distante,
Que saúda uma nova criação.
Além do tumulto e dos conflitos,
Eu ouço sua melodia tocar.
Ela acha eco em minha alma –
Como eu poderia deixar de cantar?
Ainda que tempestades soem com estrondo,
Eu conheço a verdade: sei que ela vive.
Ainda que a escuridão se acerque de mim,
Canções noite adentro ela me dá a escutar.
Tempestade nenhuma abala minha paz,
Se permaneço agarrado àquela rocha.
Enquanto o amor é senhor da terra e do céu,
Como eu poderia deixar de cantar?
Quando tiranos estremecem de medo
Ouvindo dobrar os sinos de sua morte,
Quando amigos celebram, estejam longe ou perto,
Como eu poderia deixar de cantar?
Na cela de uma prisão ou na masmorra mais vil,
Nossos corações vão até eles, voando.
Se amigos não têm de que se envergonhar,
Como eu poderia deixar de cantar?*
* Literalmente, que arda meu coração / de amor por Cristo Deus
. Na tradução mais utilizada no Brasil, e com rimas: [Faze] arder meu coração / do Cristo Deus na paixão
. O Stabat Mater (Estava a Mãe
) é um hino cristão datado do século 13. (N.T.) ↩︎
** Tradução livre do hino How can I keep from singing?
(Como eu poderia deixar de cantar?
) – originalmente composto por Doris Plenn e Robert Lowry, em meados do século 19, e citado pela autora com base na versão de John Foley e John Kavanaugh, quase idêntica à de Eva Cassidy (que, por sua vez, faz mudanças sutis na mais célebre das versões: a de Pete Seeger, gravada em 1964). John Foley é, como se lerá no Prefácio, o John
a quem o livro é dedicado. A canção aqui transcrita é livremente inspirada no Salmo 145. (N.T). ↩︎
Esta publicação foi possível graças ao apoio da John Templeton Foundation. As opiniões aqui expressas são dos autores somente e não necessariamente refletem a visão da JTF.
SUMÁRIO
Filosofia e Fé Cristã
Apresentação à edição brasileira
Apresentação à edição norte-americana
Prefácio
Agradecimentos
PARTE UM: O que se quer, o que é preciso
para ter o que se quer, e o que não vai resolver
1. Metodologia, problemas e desideratos
2. Culpa, vergonha e satisfação
3. A interpretação anselmiana da expiação:
amor, bondade, justiça e perdão
PARTE DOIS: O que se quer: O que não é e o que é
4. União: onipresença e habitação divina
5. A habitação mútua e o grito de abandono na cruz
6. Desejar o que deus deseja:
7. A vida sob a graça
PARTE TRÊS: O que é preciso para ter o que se quer e a expiação de Cristo
8. As tentações de cristo e outras histórias
9. Perseverança: eucaristia e sofrimento
PARTE QUATRO: Os desideratos para uma interpretação da doutrina da expiação
10. A expiação e a solução para os problemas da culpa e da vergonha
11. Conclusão: os desideratos restantes e uma reflexão final
Notas
Bibliografia selecionada
Índice geral
Índice de livros bíblicos citados
filoPOR QUE EXISTEM O MAL E O SOFRIMENTO? Por que orar se Deus já sabe tudo o que irá acontecer? Será que podemos influenciar as ações de Deus? Como funcionou a expiação dos nossos pecados por meio do sacrifício de Jesus? Nós temos almas ou somos apenas corpos?
Perguntas como essas aparecem vez ou outra na cabeça de muitos de nós. É comum que as crianças as formulem. Mas frequentemente tememos as dúvidas e incertezas que podem surgir dessas questões e fingimos que elas não existem.
Mas elas não são proibidas nem precisam ser encaradas como ameaças à nossa fé. Na verdade, existem pesquisadores em universidades ao redor do mundo avaliando e investigando tais perguntas – e tentando responder a elas.
A série Filosofia e Fé Cristã chegou não apenas para tirar de debaixo do tapete essas temidas questões, mas também, principalmente, para tornar conhecidos livros e autores que se propõem a investigar de forma honesta essas grandes questões da fé. Os livros são da tradição analítica da filosofia da religião e da teologia filosófica (chamada, mais recentemente, de teologia analítica), que preza pela clareza de expressão e pelo rigor argumentativo.
Aos que se angustiam diante dessas questões, que os livros da série Filosofia e Fé Cristã sejam um alento. Aos temerosos que desconfiam da validade de tais perguntas, que o conhecimento do modo analítico de lidar com elas possa renovar-lhes a perspectiva, e que avaliem com mais cuidado se questionar sempre enfraquece a fé ou se pode, como cremos, fortalecê-la. Aos curiosos e entusiasmados com a investigação teológica, que estes livros sejam úteis para o crescimento no conhecimento, bem como um incentivo ao estudo profundo de teologia e filosofia, e, quem sabe, a busca de uma carreira em filosofia da religião ou teologia filosófica.
Algumas observações se fazem necessárias. Primeiramente, não somos demasiadamente otimistas sobre a capacidade racional humana para pensar sobre Deus. As palavras do Senhor a Jó continuam diante de nós: Onde você estava, quando eu lancei os fundamentos da terra? Responda, se você tem entendimento
(Jó 38.4, NAA). Da mesma forma, o Senhor diz por meio do registro do profeta Isaias: Assim como os céus são mais altos do que a terra, assim […] os meus pensamentos são mais altos do que os pensamentos de vocês
(Is 55.9, NAA). Será, então, que faz sentido questionarmos os pensamentos do Senhor? Podemos nós tentar perscrutar os mistérios de Deus? A primeira tentação não foi justamente a sede pelo conhecimento (Gn 3.5)?
Citando Thomas McCall, um dos autores da série, o objetivo da teologia analítica não é (ou, pelo menos, não precisa ser) eliminar todo o mistério da teologia. Pelo contrário, filósofos analíticos da religião há muito já tem plena consciência do lugar do mistério na teologia. E pode ser que, em alguns assuntos, um papel importante do teólogo seja clarificar onde realmente está o mistério
(McCall, Thomas. Teologia Analítica: A teologia em diálogo com a filosofia. Viçosa: Ultimato, 2022, p. 24). Nós não temos a intenção de explicar Deus, ou explicar seus pensamentos e ações. Nós não pretendemos ofender a Deus ou desrespeitar sua soberania. Não queremos nos colocar no lugar que não nos é cabido.
O que queremos é pensar sobre Deus, com maravilhamento, com temor e tremor. Queremos povoar nossa mente com possíveis explicações, com teorias e modelos que nos ajudem, em nossas limitações, a ter um vislumbre maior sobre Deus, a crescer no conhecimento e na adoração a ele. A reflexão teológica que propomos à Igreja é uma reflexão doxológica, isto é, uma reflexão que nos conduz e parte da adoração ao Senhor Deus, Criador dos Céus e da Terra, ao Senhor Jesus Cristo, seu Único Filho, e ao Espirito Santo, o nosso Consolador e Capacitador. Não encaramos as questões teológicas como um cientista disseca um sapo, e não queremos que ninguém o faça.
Dito isto, o projeto também não pretende restringir-se ao público protestante e evangélico. Demais cristãos, demais teístas e até mesmo não teístas são convidados a ler os livros e a se engajar na reflexão filosófica sobre a religião. Qualquer pessoa interessada em religião e filosofia, encaradas de forma séria e mais acadêmica, é nossa convidada para conhecer a série Filosofia e Fé Cristã.
Em segundo lugar, nem todos os autores da série partem de uma mesma perspectiva teológica ou metateológica – isto é, sobre quais métodos devemos empregar na teologia e sobre qual o lugar do mistério na teologia. Trazemos uma pluralidade de autores, todos especialistas e grandes conhecedores da literatura sobre essas grandes questões, mesmo que alguns deles não cultivem o maravilhamento e a postura de adoração de forma tão explícita. Alguns são especialmente polêmicos. Isso, contudo, não deve fazer com que deixemos de lado a nossa postura como adoradores ao ler suas obras. A pouca ortodoxia de certos autores não deve ser empecilho para que conheçamos seus argumentos.
Em terceiro lugar, a verdade apologética mais fundamental é que todo ser humano, independente de suas crenças, possui limitações no conhecimento, e toda teoria possui fraquezas. Assim, como cristãos, podemos aceitar que há, sim, problemas que vão além de nossas explicações atuais e que sempre haverá dificuldades e aporias para explicarmos nossa fé. Mas isso não a desqualifica, pois nenhum ser humano possui uma filosofia e uma teoria da realidade sem fraquezas e sem problemas. É possível que ninguém tenha uma visão da realidade completamente sem paradoxos (o próprio paradoxo do mentiroso permanece um problema filosófico para todos, independente de credo e religião). Não precisamos, portanto, nos desesperar com a irracionalidade de alguns aspectos dos nossos pensamentos: isso revela, primeiramente, nossas limitações como seres humanos, e não as limitações de nossa religião, de nossa moralidade ou de nossa filosofia. Ninguém é irracional ou ignorante por não ter solucionado todos os problemas filosóficos – podemos conviver com os problemas e nos aventurar, vez ou outra, em teorias e modelos que se proponham a solucioná-los.
Em quarto lugar, cremos que pensar e refletir sobre Deus é uma atividade com valor intrínseco, não sendo a filosofia da religião e a teologia filosófica ferramentas exclusivamente apologéticas. Ainda que todo ser humano no universo fosse cristão firme e verdadeiro, ainda que não houvesse ceticismo, secularismo e tantas outras supostas ameaças à fé, ainda que vivêssemos em perfeita paz e harmonia – ainda assim refletir e pensar sobre Deus seria algo legítimo e precioso, uma atividade com valor e legitimidade próprios. A filosofia não é útil apenas como escudo para a fé, mas, como as artes, é preciosa e inevitável ao ser humano. Somos seres pensantes, e podemos pensar para a glória de Deus e amá-lo com todo o nosso entendimento.
Por fim, em quinto lugar, é importante que o estudo e o conhecimento sejam acompanhados de humildade. Desejamos profundamente que todos os leitores da série avancem progressivamente e vejam quão complicados e profundos os debates podem se tornar, aventurando-se no pensamento dos gigantes intelectuais que os precederam. Com isto, não queremos colocar os antecessores em um pedestal, como se fossem heróis do passado. Queremos apenas ressaltar a importância da humildade para um envolvimento saudável com a filosofia (sem, é claro, desmerecer o valor da ousadia e da coragem).
ἡ χάρις μεθ’ ὑμῶν,
A graça seja convosco,
Davi Bastos
Editor da série Filosofia e Fé Cristã
APRESENTAÇÃO
À EDIÇÃO BRASILEIRA
UM TERMO ESPECÍFICO, em face da importância que assume na argumentação de Eleonore Stump, merece ter a tradução clarificada já de partida para a leitora ou o leitor. Trata-se da grafia adotada durante o primeiro capítulo para o nome da doutrina teológica aqui posta sob exame (e que, assim, fornece o título à obra), expiação
.
Em inglês, embora igualmente exista a palavra expiation
, o vocábulo prioritário é, já há séculos, atonement
. Sabe-se que sua etimologia consiste na junção da partícula at (em
) ao termo onement (unificação
). Registros indicam, ademais, que, enquanto consistiu num neologismo, a expressão comunicou com eficácia um sentido pessoal ou relacional. Mas, com o tempo, o termo onement
deixou de ser identificável pelos falantes da língua como um dos componentes da palavra. Atonement
, hoje, assume a mesma conotação que expiation
(e que o nosso único equivalente em português, expiação
), isto é, a de um sofrimento que se inflige com o fim de pagar uma dívida, de indenizar uma parte ofendida, de serem acertadas as contas.
Todo o propósito da exposição de Stump é recusar este significado, e recuperar aquele que originalmente at onement
buscava enfatizar. Assim, para fixar em quem a lê a acepção verdadeiramente pretendida, ela adota ao longo do primeiro capítulo não o termo dicionarizado (atonement
), mas aquela grafia com espaço, indicativa da etimologia. Por sinal, a autora chegou a cogitar empregá-la no próprio título do livro, contudo isso não se concretizou.
Como termo cunhado especificamente pela língua inglesa, atonement
não possui equivalente nos demais idiomas – em que predominam os cognatos de expiação
ou expiation
, que compartilham uma origem latina. Não dispomos, portanto, de uma palavra cuja etimologia baste para indicar o sentido pretendido pela presente interpretação da doutrina. Por outro lado, exatamente em razão da falta de correspondência, manter sem tradução as ocorrências de "at onement" faria esta edição gerar um ponto de ininteligibilidade justo onde o texto busca ser esclarecedor (e didaticamente preparatório ao argumento que desenvolverá).
A simples tradução do termo pelo seu sentido – algo como unificação
–, abdicando do vínculo vocabular com a doutrina de que aqui se trata – expiação –, faria o texto desastrosamente induzir um desvio deslegitimador do próprio projeto do livro: afinal, este se presta a indicar o sentido de unificação que a ideia de expiação almeja, e não a insinuar que a ideia de expiação nada acrescente à de unificação (tematizada já por outras teses teológicas, como a da unio mystica).
Desprovidos da via etimológica, entretanto, podemos preservar a intenção do texto repetindo o seu procedimento morfológico. Ou seja, empregando alguma palavra (necessariamente, sinônima a expiação
) que, ao dividir-se em subtermos, se atribua do sentido pessoal ou relacional que at onement comunica. Por sorte, este é o caso do sinônimo preferencial de expiação
, apresentado como primeiro equivalente na maioria dos dicionários, e assim frequentemente empregado no vocabulário teológico: reparação
. (Aliás, no principal caso recente de desafio tradutório neste mesmo campo semântico, o livro Atonement de Ian McEwan [2001] foi traduzido por Paulo Henriques Britto como Reparação [Companhia das Letras, 2002], e sua adaptação cinematográfica [Atonement, dir. Joe Wright, 2007] foi distribuída no Brasil com o título Desejo e Reparação.)
O uso de "at onement ao longo do primeiro capítulo do livro, assim sendo, está aqui traduzido como
re-par ação": tal como Stump recorre a uma pequena intervenção fonética e gráfica para lembrar que a doutrina da expiação (atonement) não designa um sofrimento destinado a pagar uma dívida, mas designa uma unificação, recorremos a uma pequena intervenção fonética e gráfica para lembrar que a doutrina da expiação (ou reparação) não designa um sofrimento destinado a acertar contas, mas designa a ação de restabelecer um par, de unificar.
Primeirissimamente, é preciso ter claro que o neologismo em português não recupera uma etimologia como se recupera em inglês. Do procedimento original reproduzimos apenas o recurso a uma intervenção morfológica que destaque o sentido almejado – um dispositivo didática e argumentativamente importante a ponto de justificar a tentativa. (De resto, e felizmente, a própria autora esclarece o procedimento antes de introduzi-lo; nessas primeiras ocorrências, assim como em outras cruciais para a exposição, os termos originais foram mantidos entre colchetes, com o fim de que o público brasileiro perceba tanto as equivalências como as diferenças entre o correspondente que esta edição sugere em português e a formulação original em inglês.)
Reconheça-se em segundo lugar que, como equivalente de expiação
, reparação
não deixa de implicar problemas. Igualmente em inglês reparation
é por vezes presumido como sinônimo de atonement
, mas tanto nessa língua como na nossa o substituto reforça a conotação específica de acerto de contas
(como contraparte do fato de enfraquecer a conotação de sofrimento
). Além disso, re-par ação
traz um prefixo, re
, que indica a restauração de algo anteriormente vigente, que se perdeu – sentido que não está contemplado na expressão "at onement. Por fim, o termo
par não denota uma unidade tão intensa quanto a de
onement, literalmente
fazer um com" algo ou alguém.
Quanto à conotação específica de reparação
, ela não exercerá aqui grande efeito, afinal atonement
nunca é traduzido por reparação
(no máximo, às vezes, por expiação ou reparação
, para reforçar o vínculo entre o neologismo proposto e o nome da doutrina estudada), de modo que nunca se deixa de lembrar que a re-par ação aqui sugerida diz respeito à doutrina a que se chama expiação. Reparação
, sozinha, apenas aparece no texto em português nas pouquíssimas vezes (e nenhuma durante o primeiro capítulo) em que Stump de fato emprega reparation
, ou repair
, ou algum outro termo que indique a restauração de algo que foi danificado.
Quanto ao sentido do prefixo re
, embora não idêntico ao da partícula "at", ele preserva deste a ideia da unidade com Deus como algo de que no momento não se frui: algo a que se deve chegar, ou que se deve mirar. Concebê-la, em todo caso, como algo que já se teve porém se perdeu é compatível à doutrina cristã da queda, que a autora subscreve.
Quanto, enfim, à diferença entre fazer um com
e ser um par com
, ela deve ser atenuada, pela leitora ou pelo leitor, conferindo-se ao termo par
uma conotação robusta de intimidade. Seja como for, a ideia de que esta união se dá como uma relação, cujos dois polos permanecem distinguíveis, converge à ênfase concedida por Stump ao fato de que o resultado da obra expiatória é uma relação interpessoal – na qual se está para com Deus como se está para com uma segunda pessoa.
Somente a título de adendo, mas como que reiterando cada um destes três pontos, o uso teórico do vocábulo reparação
fica avalizado pelo corpo teórico que o transformou em termo técnico: a psicanálise de Melanie Klein (nisto posteriormente desdobrada pela psicanálise de Donald Winnicott). De acordo com ela, o ego infantil, depois de ressentir-se contra o corpo materno e simbolicamente desejar destruí-lo, procura repará-lo, sendo este um ato central para que ele próprio se constitua, assim como para que constitua a relação que terá com o mundo.
Feitos todos os esclarecimentos, reitere-se que estas foram intervenções requeridas apenas no primeiro capítulo, único momento do livro em que se recorre à grafia "at onement. A fim de não perder o efeito didático aí obtido, em algumas (pouquíssimas) passagens do restante do livro, em especial no início ou no fim dos capítulos, é lembrada em português a equivalência
doutrina da expiação ou reparação". Do começo ao fim do livro, porém, mantém-se o protagonismo da palavra-título, com que se nomeia a doutrina teológica a ser aqui filosoficamente interpretada: expiação.
O tradutor e o editor agradecem à autora, Eleonore Stump, que solicitamente discutiu em pessoa as possibilidades para a tradução do termo, assim como avaliou e endossou esta nota à edição brasileira. E agradecem também a Gesiel Borges da Silva, que viabilizou a interlocução.
André Gomes Quirino
APRESENTAÇÃO
À EDIÇÃO NORTE-AMERICANA
PARA RECOMENDAR esta nova obra de Eleonore Stump, sobre o conceito de expiação, penso que será útil apresentar uma parábola, cuja conclusão resume o extraordinário feito da autora.
No conto A Rainha da Neve, de Hans Christian Andersen, um garoto chamado Kai tem estilhaços nos olhos e no coração. Esses cacos distorcem sua percepção e seus desejos de um modo que o faz admirar apenas a perfeição matemática e se gabar de seu conhecimento racional. Ele é levado com esse humor ruim pela Rainha da Neve até o palácio. Então é deixado sozinho em um lago congelado, tentando formar a palavra eternidade
com blocos de gelo – sem a qual ele nunca mais poderia ir embora dali.
Quaisquer que sejam as demais interpretações possíveis, a armadilha em que Kai é posto em A Rainha da Neve serve como um alerta sobre o cuidado necessário ao se aplicarem métodos analíticos para alcançar verdades eternas. O alerta é que análises claras e precisas de conceitos que foram separados das realidades vivas das quais foram extraídos correm o risco de gerar representações petrificadas – incapazes de abarcar aquelas realidades –, e de esfriar a mente e o coração.
O perigo a que A Rainha da Neve chama atenção foi especialmente grave, durante a história do cristianismo, no entendimento da expiação – ou da reparação de pecados –, isto é, do que Stump chama no capítulo 1 a re-par ação: o ser posto novamente em par
com Deus,* alcançado por meio da paixão e da morte de Cristo. Com base em outras afirmações cristãs sobre Deus, notadamente que Deus é amor (1Jo 4.8) e deseja que todas as pessoas sejam salvas (1Tm 2.4), a expiação é ou deve ser um ato de amor supremo, tal que o amor seja seu meio e seu fim. Contudo, sem grande cuidado, a ideia de uma quitação de dívida, talvez a metáfora mais influente para o conceito de expiação, congela ou petrifica o amor. Numa visão desse tipo, Cristo, ao assumir a natureza humana, suportou a pena ou pagou o preço com seu sofrimento, que de outro modo precisaria ser cobrado de todos os seres humanos pecadores para equilibrar a balança da justiça divina.
Alguns dos problemas com essa abordagem têm sido reconhecidos já de longa data, mas Stump os realça com notável saliência. Em particular, ela argumenta que essa interpretação anselmiana
, com sua implícita metáfora mecânica de equilibrar uma balança, na verdade não resolve o problema da separação de Deus. Explicações que se baseiam nesses princípios só tornam este problema pior, do ponto de vista da re-par ação. Em lugar do amor divino, a imagem que se passa a ter de Deus corre ainda o risco de ser a de um cobrador de dívidas implacável, impiedoso ou mesmo sádico. Como Kai na história de A Rainha da Neve, a doutrina da expiação torna-se assim fria, sendo que para muitas pessoas seu efeito insensibilizador tende a permear a recepção da revelação cristã como um todo.
Conforme Stump explica, a principal linha alternativa, na tradição cristã, tem sido tratar o obstáculo central à união com Deus como sendo algo que falta aos seres humanos e a falta disso os inabilita a estar unidos em amizade com Deus. Essa interpretação tomista
foca no saneamento das desordens humanas por meio da infusão e do cultivo das virtudes e dos dons do Espírito Santo em uma vida sob a graça. A metáfora implícita aqui é orgânica, em vez de mecânica, e, de muitos modos, essa abordagem é mais promissora do que a interpretação anselmiana. Mas a solução não explica totalmente como esses dons divinos sanam todos os impedimentos à relação com Deus que foi rompida. E, se Deus pode dar o Espírito Santo a alguém, por que é que a paixão e a morte de Cristo foram necessárias? A conexão com o Espírito Santo é afirmada na Escritura (Jo 16.7), mas, sem que se construa alguma explicação, a paixão e a morte de Cristo podem parecer gratuitas.
Stump apresenta uma alternativa radical, cuja metáfora-raiz não é nem mecânica nem orgânica, mas adota como tema central a relação entre pessoas. Mais precisamente, a metáfora-raiz é a relação com uma segunda pessoa, instância que eu
assumo para você
e você
assume para mim
, e que é irredutível a um mundo impessoal de objetos, ou mesmo de coisas que vivem e crescem isoladas. A fruição da relação com uma segunda pessoa é o amor, que Stump descreve como dois desejos interconectados, os quais são bloqueados pelas consequências do pecado: o desejo pelo bem da pessoa amada, que é bloqueado pela culpa; e o desejo pela união com a pessoa amada, que é bloqueado pela vergonha. Uma vez que o objetivo da expiação é a divina amizade com Deus, que começa nesta vida e é glorificada na eternidade, qualquer teoria plausível da expiação precisa responder a duas questões-chave. Como lidamos com a culpa humana? E como lidamos com a vergonha humana?
As respostas oferecidas aqui extraem achados de uma rica diversidade de fontes, informada por estudos desenvolvidos durante uma vida inteira. Ninguém pode explicar a obra de Stump melhor do que Stump, mas arrisco esboçar uns poucos temas gerais de seus argumentos, a fim de encorajar a leitura do que vem a seguir.
O primeiro passo crucial foca a noção de uma habitação mútua entre pessoas em virtude da qual nós recebemos vida de Cristo e ele recebe em si mesmo um tipo de simulacro da mancha mortal do pecado. Essa contaminação gera o efeito de inibir a atenção compartilhada com Deus, resultado que é manifesto no Grito de Abandono do Calvário.* Aqui o sofrimento de Cristo torna possível a união com uma humanidade pecadora, abrindo assim a porta para a salvação.
O segundo passo é que deixemos de resistir à união-em-segunda-pessoa com Deus, sem a qual não tem início a obra de reintegrar a psique humana na vida da graça. Mas essa passividade é um assunto delicado, já que a vontade não pode ser violada ou obliterada. Assim, o drama da salvação pode em certos casos se impor a alguém como a rendição (ainda que não a submissão) da vontade humana, ao modo de uma imensa pirâmide equilibrada sobre a ponta de um alfinete. Essa rendição é facilitada aos seres humanos pelo sofrimento de Cristo, mas também por sua própria experiência de sofrimento. Este passo, portanto, vincula à expiação a teodiceia (assunto do livro anterior de Stump, Wandering in Darkness [Vagando na escuridão]).
O terceiro passo é a superação da vergonha e da culpa. A vergonha de ser membro de uma raça caída é anulada pela honra de que essa vergonha tenha sido compartilhada com a Deidade, especialmente na paixão e na morte de Cristo. A anulação das várias formas de vergonha individual é o efeito de que uma pessoa alie seu eu mais verdadeiro ou mais profundo ao Deus que livremente se junta na cruz a todos os seres humanos partícipes do estado pós-Queda. O que supera a culpa é certa satisfação – não, porém, em sentido contábil, como o exercício de um livro-caixa: trata-se, antes, de uma generosa autodoação, que inclinará ainda o pecador a compensar as vítimas de seus malfeitos. Essa compensação é oportuna, mas insuficiente para aqueles que um malfeitor feriu ou tratou com injustiça. Mas aqui também Stump oferece um caminho para seguir, a saber, que Cristo faz pelo malfeitor o que o malfeitor deveria, mas é incapaz de fazer pelas vítimas de seu malfeito moral. Mesmo o aguilhão da memória termina por ser removido – não no sentido de uma reescrita do passado, mas no sentido de entrelaçá-lo numa história que progride em glória.
Apresento este resumo apenas para aguçar em quem me lê o apetite de estudar minuciosamente este livro. Aqueles que investirem seu tempo em fazê-lo serão não apenas providos de uma nova e radical perspectiva sobre a expiação, mas também beneficiados por esclarecimentos sobre uma rica tapeçaria de outros grandes temas da revelação, interconectados àquele. Esses temas incluem a Eucaristia, a noção de ofício de amor
, uma abordagem (em termos da relação com uma segunda pessoa) à ideia de deificação em graus, os motivos para a encarnação, a diferença entre rendição e submissão, a quiescência da vontade, a justificação e a santificação, as tentações de Cristo, o significado do sacrifício e os erros na teoria de Mestre Eckhart sobre a santificação. O tratamento que Stump dá a estes temas oferece muitos novos achados, e não poucas vezes ajuda a superar impasses que vinham já se perpetuando. Sobre alguns tópicos abordados em seus escritos anteriores, os leitores serão ainda beneficiados por uma explicação profundamente amadurecida, que agora os integra a outras problemáticas e os apresenta de maneira extremamente legível.
Para aqueles que estiverem dispostos a estudar esta obra com atenção, algumas recomendações poderão ser úteis. Como Stump explica com certo detalhe no começo do livro, esta é uma obra de teologia filosófica. Sendo assim, a autora testa a coerência de afirmações doutrinárias, cogita explicações, desvela conexões com outras proposições doutrinárias, e assim por diante. Seu propósito não exige que ela teste ou valide as premissas teológicas elas próprias, e os argumentos não requerem que essas premissas sejam verdadeiras. Portanto, o conteúdo é ou deve ser de interesse para o maior número imaginável de leitores, incluindo aqueles que compartilham pouco ou nada da fé no conteúdo da revelação que é assunto deste estudo. Além disso, muito do que é apresentado aqui sob contexto teológico pode ser transposto para quadros de reflexão mais seculares. Afinal, os ateus também têm de encontrar caminhos para lidar com os problemas da culpa, da vergonha e da fragmentação social.
Os leitores que forem teólogos talvez notem, ainda, que o livro teve de omitir muitos tópicos conectados ao da expiação. Em parte, esta é uma mera questão prática: fazer um apanhado completo das implicações para a teologia moral e a teologia sacramental requereria muitos volumes. Além do mais, os vários grupos eclesiais e igrejas cristãs divergiriam quanto aos detalhes. Stump se impôs neste livro uma tarefa mais fundamental: identificar, explicar e justificar os princípios primeiros do conceito de expiação. Uma vez que esses princípios tenham sido compreendidos, comentadores futuros serão capazes de explorar as implicações – assim como Aristóteles afirma que qualquer um é capaz de desdobrar e articular o que já tenha sido bem esboçado (Ética a Nicômaco I 7, 1098a22-23).
No que diz respeito ao estilo, Stump argumenta sistemática e cuidadosamente, mas este livro não é um frio exercício de lógica. Ao contrário, o estilo é profundamente humano, e a autora entrelaça experiências e dramas humanos concretos à medida que apresenta seus argumentos. Esse recurso reiterado a metáforas e a cenas narrativas, especialmente às permutações no relacionamento entre suas personagens hipotéticas, Jerônimo e Paula, facilita o entendimento e ajuda a afastar o risco das abstrações frias.
A conclusão de A Rainha da Neve serve, de maneira similar, para resumir o sentido da conquista de Stump neste livro. Hans Christian Andersen não deixa Kai sozinho no palácio, manipulando blocos de gelo até morrer congelado. Felizmente para Kai, sua amiga de infância Gerda termina por encontrá-lo. As lágrimas dela lavam seus olhos e seu coração, removendo os estilhaços. Ele consegue reconhecê-la; os blocos de gelo formam espontaneamente a palavra eternidade
; e os dois ficam livres para ir embora do palácio. Essa relação com uma segunda pessoa se comprova a chave para desarmar a cilada da Rainha da Neve, assim como neste livro Stump tão frutiferamente aplica o princípio da relação com uma segunda pessoa para desvendar o mistério da expiação.
Uma observação final: muitos dos temas explorados neste livro encontraram paralelo na maneira incomum como se deu a sua composição. Em particular, quem entre nós acompanhou Eleonore nos últimos três anos esteve agudamente consciente das implicações do diagnóstico médico que ela menciona no prefácio. Minha promessa a ela era guardar os originais dos capítulos e acompanhar a publicação do livro caso ela própria não pudesse fazê-lo. Deixa-me imensamente grato o fato de ela ter completado o manuscrito, e de eu poder celebrar com ela esta publicação.
Portanto, em nome de todos os seus leitores e daqueles que serão influenciados por este trabalho de filosofia profundamente humana, tenho ademais a oportunidade de agradecê-la pessoalmente. Eu agradeço, Eleonore, por nos resgatar de nossos frios e estreitos circuitos de pensamento sobre esse aspecto da revelação cristã, a expiação, que mais profundamente toca em nossas esperanças por paz, por alegria e pelo cumprimento dos desejos de nossos corações.
Andrew Pinsent
Faculdade de Teologia e Religião
Universidade de Oxford
Natal de 2017
* Na formulação original, o at onement – o ‘tornar um [making one]’ com Deus
. Para mais sobre essa expressão e sobre o modo como ela está aqui traduzida, ver a Apresentação à Edição Brasileira. (N.T.) ↩︎
* Ou seja, no brado de Jesus na cruz: Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?
(Mt 27.46). (N.T.) ↩︎
PREFÁCIO
TIVE A INTENÇÃO DE ABARCAR em um único livro o problema do sofrimento e a doutrina da expiação, e de examinar os relatos bíblicos mais pertinentes tanto a um tema como ao outro, porque me parecia que esses dois tópicos de teologia filosófica são parte de uma mesma tapeçaria de pensamento mais ampla. Fazer isso, porém, se provou afinal impossível. O exame do problema do sofrimento se expandiu e se tornou um livro que, de tão grande, precisou ser publicado à parte, como Wandering in Darkness: Narrative and the Problem of Suffering [Vagando na escuridão: as narrativas e o problema do sofrimento]; e o exame da doutrina da expiação teve de ser relegado a este outro livro, Expiação. (E no fim me dei conta, infelizmente, de que tampouco aqui eu poderia incluir uma discussão detalhada das narrativas bíblicas sobre a paixão de Cristo; a tarefa, então, precisa ser postergada para algum outro escrito.) A dificuldade de apresentar em duas obras uma mesma longa ideia é que neste livro, Expiação, eu preciso assumir como premissas muitas coisas básicas que foram ditas no livro anterior, Wandering in Darkness [Vagando na escuridão]. Tal como outras pessoas quando postas entre a cruz e a espada, eu me esgueirei como pude: tentei não fazer da leitura do outro volume um requisito para os leitores encararem este novo livro; mas também tentei não repetir aqui tudo o que já foi dito no livro anterior. É difícil achar a solução correta em casos assim, mas fiz o que foi possível. E mesmo nos trechos que consistem predominantemente em uma retomada da obra anterior, há considerável material novo fazendo avançar os argumentos deste livro.
A dificuldade afeta até mesmo este prefácio. Pontos explicados com vagar no prefácio de Wandering se aplicam também a este livro, mas eu ficaria constrangida se os repetisse aqui. A única exceção tem de ser o uso dos nomes Paula
e Jerônimo
como minhas versões para Fulano
e Beltrano
. Dado o foco deste livro nas relações pessoais, eu quis usar, em vez dos genéricos Smith
e Jones
, comuns na prosa filosófica,* nomes de pessoas que tiveram as relações pessoais como parte notável de suas vidas. Paula era uma mulher culta, talentosa, extremamente admirável, que por uma vida inteira fez companhia para Jerônimo, aquele Pai da Igreja grandemente erudito e produtivo cuja tradução da Bíblia, a Vulgata, alterou, ao lado de muitas outras obras suas, o curso da Igreja no Ocidente. Jerônimo podia ser irascível, para não dizer virulento, mas ele amava e honrava Paula como uma companheira em Cristo; e ela o amava e humanizava. Quando ela morreu, ele desmoronou; e ele parece ter se recomposto apenas quando a filha dela, Eustáquia, começou a preencher o lugar de sua mãe na vida dele. (E se acontece de algum historiador cético julgar parte dessa história inverídica, então é a mitologia de Paula e Jerônimo o que conta para os meus propósitos.) Assim, a história de Paula e Jerônimo fez seus nomes parecerem bons para usar neste livro, em lugar de Smith
e Jones
. E, realmente, ajuda muito ter alguns nomes fazendo as vezes de Fulano
, senão a prosa tende a se tornar artificial e feia.
A doutrina da expiação é a doutrina central do cristianismo, e tem sido assunto de um escrutínio intenso, enormemente inteligente e teologicamente sofisticado, já há cerca de dois milênios. Paira por isso uma suspeita de arrogância ou heresia – ou mesmo loucura – sobre uma tentativa de repensar essa doutrina, face a tanta teorização frutífera a respeito dela, e por tantas excelentes mentes, na história da tradição cristã. Essa suspeita foi para mim como que um peso, à medida que este livro progredia. No fim, o que aliviou o peso foi o fato de eu receber o diagnóstico de uma doença com risco potencial à vida. Samuel Johnson dizia que, quando alguém sabe que está para ser enforcado, sua mente se concentra maravilhosamente bem – e posso relatar por experiência própria que um diagnóstico como o que recebi desencadeia o mesmo efeito. Recebido o diagnóstico, deixei de lado toda suspeita autodepreciativa sobre a natureza deste projeto e simplesmente me esforcei para terminar o livro. Mesmo assim, eu me esforcei para confrontar a suspeita, ainda que brevemente, no capítulo 1. Aqui no Prefácio, eu gostaria de acrescentar, em minha defesa, que também Anselmo tentou reelaborar por inteiro a interpretação da doutrina da expiação, mesmo face a um milênio de intensa reflexão prévia sobre ela; e noto que ele parece não ter se deixado afligir por nenhuma suspeita semelhante. Há espaço, portanto, na teologia filosófica, para inovações que não sejam heterodoxas nem perversas. Pelo menos, conforme explico no capítulo 1, Tomás de Aquino e John Henry Newman pensavam assim. Cada um deles argumentou que é possível obter desenvolvimentos teológicos que sejam ortodoxos e sensatos; e os dois são boas autoridades em que se apoiar, numa empreitada deste tipo.
Assim, na tradição de Anselmo, bem como de Tomás e Newman, neste livro eu tentei repensar totalmente a doutrina da expiação. Não obstante, estou igualmente certa de que toda habilidade humana é algo de que só se é investido na comunidade. Consequentemente, embora eu não tenha adotado por inteiro a interpretação fornecida por nenhum dos argutos e eruditos pensadores da história da tradição cristã, busquei aprender com seus escritos, tanto quanto fui capaz.
Tentei também aprender com meus contemporâneos. O manuscrito desta obra se beneficiou dos comentários de muitas pessoas, que cuidadosamente se empenharam nele (ou em partes dele), ou que foram audiências entusiasmadas de apresentações que fiz de determinados trechos.
Grupos de leitura independentes na Universidade Baylor (sob a condução de Trent Dougherty), na Universidade de St. Andrews (sob a condução de Alan Torrance e Andrew Torrance) e na Universidade de York (sob a condução de David Worsley e David Efird) trabalharam cuidadosamente, por meses, em uma versão prévia do manuscrito, e me enviaram exaustivos comentários. Trent Dougherty, em Baylor, e Alan Torrance e Andrew Torrance, em St. Andrews, também organizaram, em cada caso, oficinas de dia inteiro sobre o manuscrito, nas quais contei com o benefício de apresentações profundas e detalhadas, além de perguntas incisivas vindas de numerosas pessoas, notáveis tanto por sua generosidade como por sua aptidão filosófica e teológica. Sou grata, ainda, a Trent Dougherty, Michael Rea e Brandon Warmke por seus úteis e instigantes artigos sobre o manuscrito, lidos em um encontro entre autor e críticos realizado em prol da publicação do livro na Associação Filosófica Americana [APA].
Rascunhos de alguns dos capítulos foram lidos nas Palestras Stanton, em Cambridge (2018). Também apresentei artigos baseados em capítulos específicos para públicos de diferentes lugares, entre eles a Universidade Rutgers, a Universidade Austral (Buenos Aires), a Universidade de Santo Tomás (St. Paul, Minnesota), a Universidade Purdue, a Universidade de Notre Dame, o Trinity College (Dublin), o Instituto Tomista (Harvard), a Universidade Fuller, a Universidade do Sul (Sewanee, Tennessee), a Universidade Stanford, a Universidade Batista de Hong Kong e o encontro da Academia Americana de Religião (2016). Sou grata às audiências de todos esses lugares por seus proveitosos comentários e perguntas.
Ademais, colegas e amigos, tanto próximos como distantes, pacientemente trabalharam em versões prévias do livro, ou de capítulos, e encaminharam a mim comentários bastante úteis. Sou particularmente grata a John Greco e Michael Rea, que, apesar de suas agendas concorridas e exigentes, escreveram para cada capítulo comentários profundos e detalhados. Tenho também uma grande dívida para com Jeffrie Murphy, que leu e releu o material sobre amor e perdão, e me beneficiou com sérias e longas reflexões dele próprio sobre esses tópicos, não apenas me apontando as obras dele e de outros que desafiariam a minha visão como também fazendo muitos comentários instigantes ao longo de nossa correspondência. Yehuda Gellman, Moshe Halbertal, Jon Levenson e David Shatz fizeram a gentileza de passar os olhos sobre meus comentários ao tema do sacrifício e às narrativas relacionadas da Bíblia Hebraica. Ainda outros, como David Jeffrey, Paul Philibert (1936-2016) e Bas van Fraassen, leram partes do manuscrito e me deram conselhos e suporte in ecclesia, pelo que sou muitíssimo grata. Minha filha Monica Green, que é psicóloga clínica, também me proporcionou auxílio inestimável com parte da literatura de psicologia. (Suponho que não seja preciso dizer que o agradecimento a uma filha adulta extremamente talentosa por auxiliar com a literatura profissional não pode deixar de vir acompanhado de uma mistura de orgulho, amor e surpresa por perceber que já vivemos tanto!)
Finalmente, o manuscrito foi assunto de dois dos meus seminários de pós-graduação, e os alunos também compartilharam comentários estimulantes e desafiadores a cada um dos capítulos.
Na seção de agradecimentos a seguir estão listados individualmente os nomes de todas as pessoas que compartilharam comentários ou participaram desses grupos de leitura. Sou muito grata a todas, e ao público das diferentes apresentações, por seus comentários e perguntas.
Meu ex-assistente de pesquisa Matthew Shea também propiciou grande ajuda com as notas ao fim do livro, entre outros trabalhos de preparação de originais. Minha atual assistente de pesquisa Katherine Sweet assumiu do ponto onde Shea parou, e ajudou no processo de deixar o livro pronto para impressão. Minha secretária Barbara Manning, a sine qua non* de meu escritório, foi de grande socorro ao manter sob controle toda a miríade de detalhes do projeto. Eu não poderia fazer o que faço se ela não fosse tão segura naquilo que faz. E tenho uma especial dívida de gratidão para com Andrew Pinsent, que, apesar das muitas outras demandas que ocupam seu tempo, graciosamente aceitou escrever a Apresentação deste livro, e propiciou, também ele, úteis comentários ao manuscrito. Além disso, ele pacientemente me ajudou a manter protegidos os vários rascunhos dos capítulos, à medida que eu os revisava com base nos comentários enviados por amigos e colegas.
Há então a questão da imagem de capa. Stefan Jasieński fugiu da Polônia e partiu rumo à Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial; lá, ele se juntou à resistência polonesa exilada. Em 1943, ele e outros combatentes poloneses foram mandados de volta à Polônia para trabalhar com grupos de resistência. Ele acabou designado, em julho de 1944, para trabalhar com o grupo concentrado em Auschwitz; ele passou a servir como conexão entre a resistência clandestina de Auschwitz e grupos de resistência em outros lugares da Polônia e além. Seus esforços foram fundamentais para evitar uma proposta alemã, que então pairava no ar, de liquidar todo o campo de uma vez. Mas este seu trabalho durou pouco. Em 28 de agosto de 1944 ele foi gravemente ferido, capturado e então encarcerado, ele mesmo, em Auschwitz. Após uma passagem rápida pelo hospital da prisão, ele foi transferido para a cela 21 do famoso bloco da morte
, o Bloco 11, onde acabou morrendo, provavelmente em algum momento da primeira semana de janeiro de 1945. Durante os meses que passou nessa cela, sofrendo e morrendo lentamente, ele de alguma maneira conseguiu, por um dom miraculoso de recursos psíquicos e de engenhosidade material, deixar um registro de sua vida e de seu amor em imagens gravadas com as unhas no cimento da parede da cela.
O que sei sobre Stefan Jasieński, aprendi primeiramente com este livro que adquiri na loja do Museu de Auschwitz: The Lost Art of Auschwitz [A arte perdida de Auschwitz], fotografia e texto de Joseph P. Czarnecki, introdução de Chaim Potok (Nova York: Atheneum, 1989). Mas eu comprei o livro porque havia visto, eu mesma, as imagens de Jasieński, quando, no itinerário da visita a Auschwitz, atravessei o Bloco 11. Essas imagens, como a história do homem que as produziu, são inesquecíveis. Uma delas é uma espantosa representação da crucificação de Cristo, e a história da sua produção é parte do poder dessa imagem. Não consigo imaginar algo que melhor servisse para transmitir iconograficamente a ideia deste livro do que a representação de Jasieński da crucificação de Cristo. E estou honrada por honrar Jasieński, ao usar a sua imagem de Cristo na cruz como a capa deste livro.
Mas eu jamais teria conseguido fazê-lo se não fosse pela intervenção de meu amigo padre Christof Wolf, SJ (Loyola Productions, Munique), um talentoso diretor de filmes que tem contatos no mundo todo. Embora haja fotos da imagem de Jasieński disponíveis tanto impressas como na internet, nenhuma delas é de qualidade suficientemente alta para ser usada como imagem de capa. Wolf contatou o diretor do Museu de Auschwitz, Dr. Piotr M. A. Cywiński, que foi generoso em sua disposição a ajudar. Dr. Cywiński conseguiu que Paweł Sawicki tirasse uma foto da imagem, em alta resolução, e a excelente fotografia de Sawicki fornece agora a capa para este livro. Eu não poderia estar mais grata a Christof Wolf, Piotr Cywiński e Paweł Sawicki por sua ajuda e por seus esforços em providenciar essa foto, e assim tornar possível que a imagem fosse usada para enobrecer este livro.
Para a capa de Wandering in Darkness [Vagando na escuridão], eu pedi ajuda a meu amigo Mike Gale para encontrar alguma imagem, porque confio grandemente em sua criatividade artística e em sua sensibilidade religiosa.¹ Com ajuda de Dan Schutte,² Gale encontrou e trabalhou com a fotografia que agora é a imagem exibida naquele livro. É uma bela imagem, e sou grata aos dois pela ajuda em produzi-la. Assim, quando surgiu o assunto da capa deste livro, Expiação, eu novamente solicitei a Gale que me ajudasse, mas desta vez para elaborar uma maneira sensível para dispor a figura na capa, de modo que a honra devida à imagem de Jasieński fosse realçada e não diminuída pela apresentação da figura e pelos necessários elementos gráficos. A ninguém que conheço eu confiaria esta tarefa a não ser a Gale, e sou grata a ele pelo excelente trabalho, que resultou nessa memorável capa para o livro.
Finalmente, este prefácio estaria incompleto se eu não expressasse gratidão à minha família e à minha comunidade. Sou abençoada com um marido amoroso, com filhos queridos e amáveis (assim como seus cônjuges) e com um grupo crescente de netos inteligentes e adoráveis. Sem todo o seu amor e apoio, estou certa de que este livro não teria sido escrito. Além disso, tenho a sorte de partilhar a vida e o trabalho com maravilhosos e comprometidos amigos e colegas; e eu não poderia estar mais grata à comunidade jesuíta, presente aqui e em outros lugares, e à comunidade dominicana estendida, da qual me professo membra. A amizade dos piedosos padres (tanto os locais como os distantes) que me rodeiam, incluindo particularmente o padre Theodore Vitali, CP, tem sido um apoio enorme. Sou especialmente grata pelos muitos anos de companheirismo com o padre John Foley, SJ, teólogo e músico, compositor de obras litúrgicas que são cantadas por católicos e por protestantes ao redor de todo o mundo. Sua música tem mediado, para mim, o poder da ternura de Cristo, e vem me sustentando nos tempos difíceis. Se há qualquer coisa de melódico em Wandering in Darkness [Vagando na escuridão] e em Expiação, a companhia de Foley foi como que o timbre de violoncelo a soar nesse arranjo. É para ele que eu dedico este livro. No vídeo do YouTube chamado John Kavanaugh, How Can I Keep from Singing, você pode ouvi-lo cantar o hino folk que aparece na dedicatória, junto com seu velho amigo, padre John Kavanaugh, SJ, cuja morte foi uma dor tanto para John Foley como para mim. Caso queira ouvi-lo cantando a música que ele escreveu para a missa em que fui recebida na Igreja Católica, você pode acessar esta página do YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=6dIPzRX2qpQ. (O vídeo foi muito habilmente produzido pela minha atual assistente de pesquisa, Katherine Sweet.)
* Stump tem em vista, é claro, a literatura filosófica de língua inglesa – cujo recurso a exemplos e personagens hipotéticos é frequente. Smith
e Jones
são, além de comuns, sobrenomes em vez de prenomes. (N.T.) ↩︎
* Expressão latina para sem a qual não
, que denota, assim, algo indispensável, imprescindível. (N.T.) ↩︎
AGRADECIMENTOS
SOU GRATA aos seguintes participantes dos grupos de leitura.
O grupo de leitura em St. Andrews: Max Botner, Kimberley Kroll, Christa McKirland, David Moffitt, Ryan Mullins, Kevin Nordby, Stephanie Nordby, John Perry, Jeremy Rios, Sarah Lane Ritchie, Jonathan Rutledge, Taylor Telford, Alan Torrance, Andrew Torrance, Koert Verhagen e N. T. Wright.
O grupo de leitura em York: Joshua Cockayne, David Efird, Spencer Johnston e David Worsley.
E o grupo de leitura em Baylor: Alina Beary, Michael Beaty, Nik Breiner, Kevin Diller (Universidade Taylor), Trent Dougherty, C. Stephen Evans, Sarah Gutierrez, Alex Hoffman, Derek McAllister, Burke Rea e Brandon Rickabaugh.
Estimo ainda a generosa ajuda dos colegas e amigos que leram, em parte ou na íntegra, o manuscrito: Godehard Brüntrup, Donnie Bungum, Lindsay Cleveland, Scott Cleveland, Sarah Coakley, John Cottingham, Claire Crisp, Oliver Crisp, Ingolf Dalferth, Scott Davison, Evan Fales, Chad Flanders, John Foley, Yehuda Gellman, John Greco, Moshe Halbertal, Jonathan Jacobs, David Jeffrey, Jon Levenson, Nicholas Lombardo, Michael McKenna, Robert MacSwain, Peter Martens, David Meconi, Jeffrie Murphy, Timothy O’Connor, Faith Pawl, Timothy Pawl, Paul Philibert, Andrew Pinsent, Michael Rea, David Shatz, Matthew Shea, Richard Swinburne, Kevin Timpe, Bas van Fraassen, Theodore Vitali e Brandon Warmke.
Além deles, sou grata aos participantes dos meus seminários, pela excelente ajuda com o manuscrito: Joel Archer, Peter Berger, Donald Bungum, Justin Claravall, Matthew Cortese, Thomas Croteau, Kevin Cutright, Vincent Davila, K. J. Drake, Laura Estes, Everett Fulmer, Audra Goodnight, Sean Hagerty, Luke Kallberg, Daniel Kennedy, David Kiblinger, James Kintz, Yvonne Angieri Klein, James Lee, Sarah Legett, Peter Martens, Patrick McCaffery, Colleen McCluskey, James McGuire, Michael Mohr, Dane Muckler, Jonathan Nebel, Justin Noia, Carl Joseph Paustian, Luís Pinto de Sá, Alexandra Romanyshyn, James Dominic Rooney, Kathleen Schmitz, Matthew Shea, Hayden Stephan, Katherine Sweet, Luke Townsend, Becky Walker, Anna Williams, John-Paul Witt, Chong Yuan, Yiling Zhou e Patrick Zoll.
Eleonore Stump
Professora honorária, Universidade de Wuhan
Professora honorária, Logos Institute, St. Andrews
Professora colaboradora, Universidade Católica Australiana
Patrona do Aquinas Institute, Blackfriars Hall, Oxford
Professora titular da Cátedra Robert J. Henle, SJ de Filosofia, Universidade
Saint Louis
PARTE UM
O QUE SE QUER,
O QUE É PRECISO
PARA TER O QUE SE QUER,
E O QUE NÃO VAI RESOLVER
infinitoCAPÍTULO 1
METODOLOGIA, PROBLEMAS E DESIDERATOS
INTRODUÇÃO
A doutrina que diz que Cristo salvou os seres humanos de seus pecados – com tudo o que essa salvação implica – é a doutrina distintiva do cristianismo. Ela é poderosamente hábil em provocar os indivíduos, ora com amor enternecido, ora com repúdio e rejeição. Avaliar essas diferentes atitudes, no entanto, requer que em primeiro lugar entendamos a própria doutrina; e entendê-la não é fácil. No decorrer dos muitos séculos de reflexão a seu respeito, compreensões radicalmente diversas foram propostas, das quais muitas igualmente suscitaram em quem as examinou emoções fortes, ora positivas, ora negativas. Neste livro, e no contexto desse histórico de interpretações, pretendo examinar a doutrina teológica da expiação com apuro filosófico.
É importante começar com certas considerações sobre a natureza do projeto deste livro: trata-se, aqui, de um exercício de teologia filosófica.
A teologia natural, que teve seu lugar na filosofia garantido pelo tempo, é a tentativa de entender os fundamentos metafísicos da realidade exclusivamente por meio do uso da razão, sem empregar como evidências elementos contidos em textos considerados divinamente revelados, ou em alguma tradição religiosa que reflita sobre esses textos.¹ Tipicamente, a teologia natural consiste em um exame filosófico de questões sobre a existência e a natureza de Deus, ou de questões sobre atributos divinos tradicionalmente aceitos; e, assim como outras áreas da atividade filosófica, a teologia natural lança mão de distinções, de análise e de argumentos.
Em contraste, a teologia filosófica é a tentativa de usar tais ferramentas (filosóficas) para investigar afirmações (teológicas) feitas por uma religião em específico, particularmente as afirmações apresentadas por essa religião como tendo sido reveladas pela deidade. A teologia filosófica compartilha os métodos da teologia natural em sentido amplo; mas ela suspende a restrição que a teologia natural faz a premissas – aceitando e assumindo afirmações que se suponham reveladas, assim como teses resultantes do que se ponderou sobre as afirmações alegadamente reveladas. Essas teses e afirmações incluem proposições que se supõem inacessíveis (ao menos em princípio) à razão isoladamente tomada. A teologia filosófica testa a coerência de tais teses doutrinárias, arrisca explicações para elas, desvenda suas conexões lógicas com outras proposições doutrinárias, e assim por diante.
Sob este aspecto, a teologia filosófica é como a filosofia da física ou a filosofia da biologia. A filosofia da física e a filosofia da biologia tomam como ponto de partida os dados fornecidos por uma ciência e se engajam no exame filosófico de tais dados. O propósito da filosofia da biologia, por exemplo, não é fazer biologia, mas filosofar sobre afirmações que a biologia considera verdadeiras. Para a filosofia da biologia, não importa se as teses biológicas são realmente verdadeiras, desde que elas sejam consideradas verdadeiras pela biologia. Analogamente, não importa para a teologia filosófica se os dados extraídos da teologia são verdadeiros. O que importa é se eles são ortodoxos, isto é, se eles são aceitos como verdadeiros por uma comunidade religiosa particular, sendo de crença obrigatória para ela. Neste ponto, a filosofia da biologia difere da biologia, que depende centralmente da verdade das teses biológicas; e a teologia filosófica difere da teologia, que deseja, sim, saber se as afirmações teológicas tidas por ortodoxas são ou não verdadeiras. É claro que não é sempre fácil especificar com precisão o que deve ser tido por ortodoxo
na teologia; mas, para o projeto da teologia filosófica, é preciso haver ao menos uma caracterização ligeira do que vem a ser teologicamente ortodoxo. Para meus propósitos neste livro, tomarei como ortodoxas, ou seja, como dados a serem assumidos por esta empreitada de teologia filosófica, as afirmações dos credos e dos concílios ecumênicos antigos, bem como as afirmações teológicas que foram geralmente aceitas como verdadeiras e como centrais para a fé pela larga maioria dos pensadores autoritativos na história da tradição cristã.²
Por este livro destinar-se a ser uma obra de teologia filosófica, nada em meu projeto requer que as teses teológicas aceitas como ortodoxas, ou seja, como os pontos de partida deste livro, sejam verdadeiras. (Por outro lado, é claro, nada em meu projeto invalida supormos que elas sejam verdadeiras. Um projeto de filosofia da biologia não requer que as teses biológicas em questão sejam verdadeiras, mas tampouco invalida a veracidade delas.) Por paridade de raciocínio, não pretendo sustentar que as teses em cujo favor eu argumento, ao interpretar neste livro a doutrina da expiação, são verdadeiras. Se elas são ou não verdadeiras é uma questão para a teologia, e não para a teologia filosófica. As teses expostas nesta interpretação da doutrina podem muito bem ser verdadeiras (e penso, com efeito, que elas são); mas neste livro eu não concluo sua veracidade, e nada em meu projeto requer que sustentemos essa conclusão. Por estar praticando teologia filosófica, eu proponho a interpretação desenvolvida neste livro apenas como um modo de entender uma doutrina que a teologia cristã assume ser ortodoxa e verdadeira; o que argumento é que essa interpretação capta melhor o sentido da doutrina do que as outras interpretações o fazem. Em minha visão, tanto aqueles que querem defender a doutrina da expiação como aqueles que querem atacá-la fariam bem em assumir a interpretação desenvolvida neste livro ao invés de interpretações alternativas.
Entendendo assim a metodologia deste projeto, um objetivo da teologia filosófica é ver se as teses teológicas que uma religião particular considera reveladas, ou que são implicadas por tais teses supostamente reveladas, são compreensíveis e defensáveis sob a cosmovisão religiosa em questão. Em geral, o empreendimento da teologia filosófica consiste no emprego das técnicas e das ferramentas da filosofia com o fim de analisar, clarificar, desdobrar e discutir as proposições que uma religião particular supõe terem sido reveladas como um dos pontos de partida da teologia ou assume serem consequências de teses que foram, alegadamente, reveladas. Nem mesmo doutrinas que a tradição cristã designa oficialmente como mistérios são impenetráveis à investigação racional do tipo praticado pela teologia filosófica. No que concerne à doutrina da Trindade, por exemplo, um praticante paradigmático de teologia filosófica, Tomás de Aquino, diz que é impossível chegar por meio da razão natural a uma cognição da Trindade das pessoas divinas
.³ Mas ele diz isso no vigésimo segundo dos setenta e sete artigos de sua Summa theologiae (ST) que são devotados a analisar e argumentar sobre as minúcias da Trindade – em outras palavras, ele o diz em plena abordagem desse mistério, abordagem que emprega métodos da teologia filosófica.
Conforme Tomás explica (no próprio artigo em que descarta a possibilidade de, pela mera razão humana, descobrir que há três pessoas divinas e que elas são o mesmo Deus),
Há duas maneiras de empregar a razão, em qualquer assunto. [...] uma, para fornecer prova suficiente de algum ponto fundamental. [...] outra, para mostrar que efeitos derivados são condizentes ao ponto fundamental já postulado [...]. É da primeira maneira, então, que a razão pode ser empregada para provar que Deus é um, e coisas desse tipo. Mas é da segunda maneira que a razão é empregada na clarificação da Trindade. Pois, tão logo a Trindade é postulada, raciocínios desse tipo podem ser adequados a ela, embora não de modo a fornecer, por meio deles próprios, alguma prova suficiente da Trindade divina.⁴
Entendendo assim a metodologia a que recorro, este livro pretende ser uma obra de teologia filosófica; ele tem como propósito examinar teses teológicas por intermédio da razão, esta mais ou menos tomada como a segunda das duas maneiras tomasianas de aplicar a razão ao exame de teses religiosas.
Neste ponto é preciso reconhecer que, ainda que o projeto deste livro pertença ao campo da teologia filosófica, ele ainda assim se pretende inovador para a teologia. Isto é, ao tentar compreender os dados fornecidos pela teologia cristã, argumento em favor de uma interpretação relativamente nova da doutrina da expiação; tomado em sua inteireza, aquilo em cujo favor argumento não é uma interpretação que tenha estado em muita, ou mesmo alguma, evidência no campo da teologia. E então se impõe a pergunta quanto a se este é um uso apropriado da teologia filosófica, ou se, ao contrário, inovações em teologia obtidas pelo exame filosófico são alarmantes, ou ao menos deveriam ser rejeitadas como inapropriadas.
Essa é uma pergunta que já foi enfrentada por outros na história do pensamento cristão, e com boas razões. Algumas das doutrinas centrais do cristianismo só foram codificadas séculos depois da morte de Cristo, de maneira que tem de ser possível haver, como resultado de reflexão teológica e filosófica, algum desenvolvimento inovador na ortodoxia doutrinária cristã. Nesse sentido, a mesma questão se impõe quanto aos ensinamentos do próprio Cristo. Assim Eusébio, por exemplo, preocupado exatamente com essa questão, argumenta que os ensinos de Cristo a um só tempo são novos e, não obstante, estão em continuidade com a revelação que Deus entregou antes aos judeus e a outros. Diz Eusébio:
Que não se possa supor que os ensinamentos [de Cristo] são novos [...], discutamos brevemente este ponto. [A]inda que nosso grupo claramente seja novo, e que este nome – recente, de fato –, cristãos
, só tenha sido tardiamente conhecido em todas as nações, nossa vida e nosso modo de conduzir-nos em conformidade aos ensinamentos próprios à nossa religião não foram preconizados recentemente por nós, mas foram estabelecidos, por assim dizer, desde a primeira criação do homem, por meio de conceitos naturais dos homens antigos que tinham o favor de Deus. [...] [E]stá claro que a religião recentemente proclamada a todos os gentios por meio do ensino de Cristo deve ser considerada a primeira e a mais antiga de todas [...].⁵
O próprio Tomás sustenta a um só tempo que todo o conhecimento teológico foi dado aos apóstolos e que há uma progressão no entendimento das verdades teológicas à medida que as eras decorrem.⁶ Em sua maneira de conceber a questão, toda a sabedoria teológica foi dada aos apóstolos, mas ao menos em parte essa sabedoria estava em semente. A tarefa das gerações seguintes é contribuir para que essa semente germine.
É claro, mesmo que essa visão de Tomás esteja correta, ainda há o problema dos critérios com que se podem distinguir, de um lado, o desenvolvimento da doutrina e, de outro, a invenção de heresias, ou coisa pior. John Henry Newman, que se preocupava com essa questão, escreveu um livro tentando identificar tais critérios.⁷ Para muitas pessoas, os critérios de Newman não são persuasivos;⁸ mas sua abordagem geral, que enfatiza os requisitos da continuidade com as declarações de fé e da
