Sobre este e-book
Cartas Persas é um dos clássicos mais provocadores da literatura mundial. Com humor refinado e crítica afiada, Montesquieu dá voz a dois nobres persas — Usbek e Rica — que viajam pela Europa e escrevem cartas relatando tudo o que veem. O olhar estrangeiro revela, com espanto e ironia, os costumes, a política e os absurdos da sociedade francesa do século XVIII.
No Volume I, os personagens observam com curiosidade e sarcasmo o comportamento dos europeus, desde a moda e os hábitos sociais até os abusos do poder religioso e político. Cada carta é uma lente crítica que convida o leitor a refletir: o que é mesmo civilizado?
O Volume II mergulha mais fundo nos dilemas morais e pessoais de Usbek, que, mesmo longe de casa, tenta controlar seu harém no Oriente. Enquanto descobre ideias como liberdade e tolerância na Europa, ele enfrenta o colapso de sua autoridade pessoal — um contraste forte e revelador.
Com uma escrita envolvente e acessível, Cartas Persas continua atual, divertido e surpreendente. Ideal para quem busca uma leitura inteligente, rápida e cheia de insights sobre poder, cultura e comportamento humano.
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CARTAS PERSAS - MONTESQUIEU
CARTAS PERSAS
MONTESQUIEU
CONTEÚDO
VOLUME I 6
CARTA I - USBEK PARA SEU AMIGO RUSTAN. 7
CARTA II - USBEK AO PRIMEIRO EUNUCO NEGRO. 8
CARTA III - ZACHI PARA USBEK. 9
CARTA IV - ZEPHIS PARA USBEK. 10
CARTA V - RUSTAN A USBEK 11
CARTA VI - USBEK PARA SEU AMIGO NESSIR. 12
CARTA VII - FATMÉ EM USBEK. 13
CARTA VIII - USBEK PARA SEU AMIGO RUSTAN. 14
CARTA IX - O PRIMEIRO EUNUCO EM IBBI. 15
CARTA X - MIRZA PARA SEU AMIGO USBEK. 17
CARTA XI - USBEK PARA MIRZA. 18
CARTA XII - USBEK PARA O MESMO. 20
CARTA XIII - USBEK PARA O MESMO. 21
CARTA XIV - USBEK PARA O MESMO. 22
CARTA XV - O PRIMEIRO EUNUCO DE JARON, 23
CARTA XVI - USBAK PARA MOLLAK MÉHÉMET ALI, 24
CARTA XVII - USBEK PARA O MESMO. 25
CARTA XVIII - MEHEMET ALI, SERVO DOS PROFETAS, 26
CARTA XIX - USBEK PARA SEU AMIGO RUSTAN. 27
CARTA XX - USBEK PARA ZACHI, SUA ESPOSA. 28
CARTA XXI - USBEK AO PRIMEIRO EUNUCO BRANCO. 29
CARTA XXII - JARON AO PRIMEIRO EUNUCO. 30
CARTA XXIII - USBEK PARA SEU AMIGO IBBEN. 31
CARTA XXIV - RICA PARA IBBEN. 32
CARTA XXV - USBEK PARA IBBEN. 34
CARTA XXVI - USBEK PARA ROXANE. 35
CARTA XXVII - USBEK PARA NESSIR. 37
CARTA XXVIII - RICA A ***. 38
CARTA XXIX - RICCA PARA IBBEN. 39
CARTA XXX - RICA PARA O MESMO. 40
CARTA XXXI - RHÉDI PARA USBEK. 41
CARTA XXXII - RICA PARA ***. 42
CARTA XXXIII - USBEK PARA RHEDI. 43
CARTA XXXIV - USBEK PARA IBBEN. 44
CARTA XXXV - USBEK PARA GEMCHID, SEU PRIMO, 45
CARTA XXXVI - USBEK PARA RHEDI. 46
CARTA XXXVII - USBEK PARA IBBEN. 47
CARTA XXXVIII - RICA PARA IBBEN. 48
CARTA XXXIX - HAGI IBBI AO JUDEU BEN JOSHUA, 49
CARTA XL - USBEK PARA IBBEN. 50
CARTA XLI - O PRIMEIRO EUNUCO NEGRO EM USBEK. 51
CARTA XLII - FARAN A USBEK, SEU SENHOR SOBERANO. 52
CARTA XLIII - USBEK PARA PHARAN. 53
CARTA XLIV - USBEK PARA RHEDI. 54
CARTA XLV - RICA PARA USBEK. 55
CARTA XLVI - USBEK PARA RHEDI. 56
CARTA XLVII - ZACHI PARA USBEK. 57
CARTA XLVIII - USBEK PARA RHEDI. 58
CARTA XLIX - RICA PARA USBEK. 61
CARTA L - RICA A ***. 62
CARTA LI - NARGUM, INVEJA PERSA EM MOSCOVO, PARA USBEK. 63
CARTA LII - RICA PARA USBEK. 65
CARTA LIII - ZELIS PARA USBEK. 66
CARTA VIVA - RICA PARA USBEK. 67
CARTA LV - RICA PARA IBBEN. 68
CARTA LVI - USBEK PARA IBBEN. 69
CARTA LVII - USBEK PARA RHEDI. 70
CARTA LVIII - RICA A RHEDI. 71
CARTA LIX - RICA PARA USBEK. 72
CARTA LX - USBEK PARA IBBEN. 73
CARTA LXI - USBEK PARA RHEDI. 74
CARTA LXII - ZELIS PARA USBEK. 75
CARTA LXIII - RICA PARA USBEK. 76
CARTA LXIV - O CHEFE DOS EUNUCOS NEGROS EM USBEK. 77
CARTA LXV - USBEK PARA SUAS MULHERES. 79
CARTA LXVI - RICA A ***. 80
CARTA LXVII - IBBEN PARA USBEK. 81
HISTÓRIA 82
CARTA LXVIII - RICA PARA USBEK. 86
CARTA LXIX - USBEK PARA RHEDI. 87
CARTA LXX - ZELIS PARA USBEK. 89
CARTA LXXI - USBEK PARA ZÉLIS. 90
CARTA LXXII - RICA PARA USBEK. 91
CARTA LXXIII - RICA A ***. 92
CARTA LXXIV - RICA PARA USBEK. 93
CARTA LXXV - USBEK PARA RHEDI. 94
CARTA LXXVI - USBEK PARA SEU AMIGO IBBEN. 95
CARTA LXXVII - IBBEN PARA USBEK. 96
CARTA LXXVIII - RICA PARA USBEK. 97
CARTA LXXIX - USBEK PARA RHEDI. 99
CARTA LXXX - O GRANDE EUNUCO DE USBEK. 100
CARTA LXXXI - USBEK PARA RHEDI. 101
CARTA LXXXII - NARGUM, INVEJA PERSA EM MOSCOVO, PARA USBEK. 102
CARTA LXXXIII - RICA PARA IBBEN. 103
CARTA LXXXIV - USBEK PARA RHEDI. 104
CARTA LXXXV - RICA A ***. 105
CARTA LXXXVI - USBEK PARA MIRZA. 106
CARTA LXXXVII - RICA A ***. 108
CARTA LXXXVIII - RICA A ***. 109
VOLUME II 111
CARTA LXXXIX - USBEK PARA RHEDI. 112
CARTA XC - USBEK PARA IBBEN. 113
CARTA XCI - USBEK PARA O MESMO. 114
CARTA XCII - USBEK PARA RUSTAN. 115
CARTA XCIII - USBEK PARA RHEDI. 116
CARTA XIV - USBEK AO SEU IRMÃO, SANTON, NO MOSTEIRO CASBIN. 117
CARTA XCV - USBEK PARA RHEDI. 118
CARTA XCVI - USBEK PARA O MESMO. 119
CARTA XCVII - O PRIMEIRO EUNUCO EM USBEK. 121
CARTA XCVIII - USBEK EM HASSEIN, DERVIS DA MONTANHA JARON. 122
CARTA XCIX - USBEK PARA IBBEN. 123
CARTA C - RICA A RHEDI. 124
CARTA CI - RICA PARA O MESMO. 125
CARTA CII - USBEK A ***. 126
CARTA CIII - USBEK PARA IBBEN. 127
CARTA CIVIL - USBEK PARA O MESMO. 128
CARTA DE CV - USBEK PARA O MESMO. 129
CARTA CVI - RHÉDI PARA USBEK. 130
CARTA CVII - USBEK PARA RHEDI. 131
CARTA CVIII - RICA PARA IBBEN. 133
CARTA CIX - USBEK A ***. 134
CARTA CX - RICA A ***. 135
CARTA CXI - RICA A ***. 136
CARTA CXII - USBEK A ***. 137
CARTA CXIII - RHÉDI PARA USBEK. 138
CARTA CXIV - USBEK PARA RHEDI. 140
CARTA CXV - USBEK PARA O MESMO. 141
CARTA CXVI - USBEK PARA O MESMO. 142
CARTA CXVII - USBEK PARA O MESMO. 143
CARTA CXVIII - USBEK PARA O MESMO. 144
CARTA CXIX - USBEK PARA O MESMO. 146
CARTA CXX - USBEK PARA O MESMO. 147
CARTA CXXI - USBEK PARA O MESMO. 148
CARTA CXXII - USBEK PARA O MESMO. 149
CARTA CXXIII - USBEK PARA O MESMO. 151
CARTA CXXIV - USBEK PARA MOLLAK MÉHÉMET ALI, 152
CARTA CXXV - USBEK PARA RHEDI. 153
CARTA CXXVI - RICA A ***. 154
CARTA CXXVII - RICA PARA USBEK. 155
CARTA CXXVIII - RICA PARA IBBEN. 156
CARTA CXXIX - RICA PARA USBEK. 157
CARTA CXXX - RICA A ***. 159
CARTA CXXXI - RHEDI PARA RICA. 161
CARTA CXXXII - RICA A ***. 163
CARTA CXXXIII - RICA A ***. 164
CARTA CXXXIV - RICA PARA O MESMO. 165
CARTA CXXXV - RICA PARA O MESMO. 166
CARTA CXXXVI - RICA PARA O MESMO. 167
CARTA CXXXVII - RICA PARA O MESMO. 168
CARTA CXXXVIII - RICA PARA IBBEN. 169
CARTA CXL - RICA PARA USBEK. 171
CARTA CXLI - RICA PARA O MESMO. 172
CARTA CXLII - RICA PARA USBEK. 176
CARTA CXLIII - RICA PARA NATHANAEL LEVI, MÉDICO JUDEU. 178
CARTA CXLIV - USBEK NA RICA. 181
CARTA CXLV - USBEK A ***. 182
CARTA CXLVI - USBEK PARA RHEDI. 184
CARTA CXLVII - O GRANDE EUNUCO DE USBEK. 185
CARTA CXLVIII - USBEK AO PRIMEIRO EUNUCO. 186
CARTA CXLIX - NARSIT PARA USBEK. 187
CARTA CL - USBEK PARA NARSIT. 188
CARTA CLI - SOLIM A USBEK. 189
CARTA CLII - NARSIT PARA USBEK. 190
CARTA CLIIII - USBEK PARA SOLIM. 191
CARTA CLIV - USBEK PARA SUAS MULHERES. 192
CARTA CLV - USBEK PARA NESSIR. 193
CARTA CLVI - ROXANE PARA USBEK. 194
CARTA CLVII - ZACHI PARA USBEK. 195
CARTA CLVIII - ZELIS PARA USBEK. 196
CARTA CLIX - SOLIM A USBEK. 197
CARTA CLX - SOLIM A USBEK. 198
CARTA CLXI - ROXANE PARA USBEK. 199
VOLUME I
CARTA I - USBEK PARA SEU AMIGO RUSTAN.
Em Isfahan.
Ficamos apenas um dia em Com. Depois de fazermos nossas orações no túmulo da virgem que deu à luz doze profetas, partimos novamente e, ontem, no vigésimo quinto dia desde nossa partida de Isfahan, chegamos a Táuris.
Rica e eu somos talvez os primeiros entre os persas a terem sido expulsos de seu país pelo desejo de conhecimento e a terem renunciado aos prazeres de uma vida tranquila para buscar laboriosamente a sabedoria.
Nascemos em um reino florescente; mas não acreditávamos que seus limites fossem os do nosso conhecimento e que somente a luz oriental deveria nos iluminar.
Diga-me o que está sendo dito sobre nossa jornada; não me bajule: não conto com um grande número de aprovações. Enderece sua carta a Erzeron, onde ficarei por algum tempo. Adeus, meu caro Rustan. Tenha certeza de que, onde quer que eu esteja no mundo, você tem um amigo fiel.
De Touro, dia 15 da lua de Safar, 1711.
CARTA II - USBEK AO PRIMEIRO EUNUCO NEGRO.
Em seu serralho em Isfahan.
Tu és o fiel guardião das mais belas mulheres da Pérsia; confiei-te o que me é mais caro no mundo: tu tens em tuas mãos as chaves destas portas fatais, que se abrem apenas para mim. Enquanto tu velas por este precioso depósito do meu coração, ele repousa e goza de completa segurança. Tu vigias no silêncio da noite, como no tumulto do dia. Teu cuidado incansável sustenta a virtude quando ela vacila. Se as mulheres que tu guardas quisessem desviar-se do seu dever, tu as farias perder a esperança. Tu és o flagelo do vício e o pilar da fidelidade.
Você os comanda e obedece. Você realiza cegamente todos os seus desejos e os obriga a executar as leis do serralho da mesma forma; você encontra glória em prestar-lhes os serviços mais vis; você se submete com respeito e temor às suas ordens legítimas; você os serve como escravo dos seus escravos. Mas, por um retorno do império, você comanda como um mestre como eu, quando teme o relaxamento das leis da modéstia e da decência.
Lembra-te sempre do nada de onde te tirei, quando eras o último dos meus escravos, para te colocar neste lugar e confiar-te as delícias do meu coração: mantém-te numa profunda humilhação perto daqueles que partilham o meu amor; mas, ao mesmo tempo, faze-os sentir a sua extrema dependência. Proporciona-lhes todos os prazeres que podem ser inocentes; engana as suas preocupações; diverte-os com música, danças, bebidas deliciosas; convence-os a encontrarem-se frequentemente. Se quiserem ir para o campo, podes levá-los para lá; mas manda prender todos os homens que se apresentarem diante deles. Exorta-os à limpeza, que é a imagem da limpeza da alma; fala-lhes de mim às vezes. Gostaria de os ver novamente neste lugar encantador que eles embelezam. Adeus.
De Touro, dia 18 da lua de Safar, 1711.
CARTA III - ZACHI PARA USBEK.
Em Touro.
Ordenamos ao chefe eunuco que nos levasse para o campo: ele lhe dirá que não nos aconteceu nenhum acidente. Quando tivemos que atravessar o rio e deixar nossas liteiras, nos acomodamos, como de costume, em caixas: dois escravos nos carregaram nos ombros, e escapamos de todos os olhares.
Como eu poderia ter vivido, querido Usbek, em seu serralho de Isfahan; nestes lugares que, constantemente me lembrando de meus prazeres passados, irritavam meus desejos a cada dia com uma nova violência? Eu vagava de apartamento em apartamento, sempre procurando você e nunca te encontrando, mas encontrando em todos os lugares uma lembrança cruel da minha felicidade passada. Às vezes eu me via neste lugar onde, pela primeira vez na minha vida, eu a recebi em meus braços; às vezes naquele onde você decidiu esta famosa briga entre suas esposas. Cada uma de nós afirmava ser superior às outras em beleza. Nós nos apresentamos diante de você, depois de termos esgotado tudo o que a imaginação pode fornecer em enfeites e ornamentos: você viu com prazer os milagres de nossa arte; você admirou até onde o ardor de agradar você nos levou. Mas você logo fez esses encantos emprestados darem lugar a graças mais naturais; você destruiu todo o nosso trabalho: tivemos que nos despir desses ornamentos que se tornaram inconvenientes para você; tivemos que aparecer aos seus olhos na simplicidade da natureza. Eu não considerei a modéstia como nada, pensei apenas na minha glória. Feliz Usbek, quantos encantos se descortinaram diante dos teus olhos! Vimo-te vaguear durante muito tempo de encanto em encanto: a tua alma incerta permaneceu durante muito tempo sem se acomodar, cada nova graça exigia-te um tributo, num instante estávamos todos cobertos pelos teus beijos; levavas os teus olhares curiosos aos lugares mais secretos; fazias-nos passar num instante por mil situações diferentes; sempre novos mandamentos e uma obediência sempre nova. Confesso-te, Usbek, que uma paixão ainda mais viva que a ambição me fez desejar agradar-te. Vi-me tornar-me insensivelmente a dona do teu coração; tu me levaste, tu me deixaste, tu voltaste para mim, e eu soube deter-te: o triunfo era tudo para mim, e o desespero para os meus rivais. Parecia-nos que estávamos sozinhos no mundo: tudo à nossa volta já não era digno da nossa preocupação. Quem dera os meus rivais tivessem tido a coragem de permanecer testemunhas de todos os sinais de amor que recebi de ti! Se tivessem visto verdadeiramente meus transportes, teriam sentido a diferença entre o meu amor e o deles; teriam visto que, se podiam disputar comigo em encantos, não poderiam disputar em sensibilidade... Mas onde estou? Para onde me leva esta vã história? É uma desgraça não ser amado; mas é uma afronta não ser mais amado. Você nos deixa, Usbek, vagando por climas bárbaros. O quê! Você não considera em nada a vantagem de ser amado? Ai de mim! Você nem sabe o que está perdendo! Solto suspiros que não são ouvidos; minhas lágrimas correm, e você não as aprecia; parece que o amor respira no serralho, e sua insensibilidade constantemente o afasta dele! Ah! meu caro Usbek, se você soubesse ser feliz!
Do serralho de Fatmé, no dia 21 da lua de Maharram, 1711.
CARTA IV - ZEPHIS PARA USBEK.
Em Erzeron.
Finalmente, este monstro negro decidiu levar-me ao desespero. Ele quer a todo o custo levar embora minha escrava Zélide, Zélide que me serve com tanto carinho e cujas mãos hábeis carregam para todos os lados os ornamentos e as graças; não lhe basta que esta separação seja dolorosa, ele também quer que seja desonrosa. O traidor quer considerar criminosas as razões da minha confiança; e porque se sente entediado atrás da porta, para onde sempre o mando de volta, ousa supor que ouviu ou viu coisas que eu nem consigo imaginar. Sou muito infeliz! Nem minha retirada, nem minha virtude podem me proteger de suas suspeitas extravagantes: uma escrava vil vem me atacar até mesmo em seu coração, e é lá que devo me defender! Não, tenho muito respeito por mim mesma para me rebaixar a justificativas: não quero outra garantia para minha conduta além de você mesma, além do seu amor, além do meu e, se devo dizer, querida Usbek, além das minhas lágrimas.
Do serralho de Fatmé, no dia 29 da lua de Maharram, 1711.
CARTA V - RUSTAN A USBEK
Em Erzeron.
Você é o assunto de todas as conversas em Isfahan; elas só falam da sua partida: algumas atribuem isso a uma leveza de espírito, outras a alguma tristeza; somente seus amigos o defendem, e eles não convencem ninguém. É incompreensível que você tenha deixado suas esposas, seus pais, seus amigos, sua terra natal, para ir para climas desconhecidos dos persas. A mãe de Rica está inconsolável; ela lhe pergunta por seu filho, que você, ela diz, tirou dela. Quanto a mim, meu caro Usbek, sinto-me naturalmente inclinado a aprovar tudo o que você faz: mas não posso perdoar sua ausência; e, quaisquer que sejam os motivos que você me dê, meu coração nunca os saboreará. Adeus. Ame-me sempre.
De Isfahan, no dia 28 da lua de Rebiab 1, 1711
CARTA VI - USBEK PARA SEU AMIGO NESSIR.
Em Isfahan.
A um dia de viagem de Erivan, deixamos a Pérsia para entrar nas terras de obediência turca. Doze dias depois, chegamos a Erzeron, onde permanecemos por três ou quatro meses.
Devo confessar-lhe, Nessir: senti uma dor secreta quando perdi a Pérsia de vista e me vi no meio dos pérfidos otomanos. Ao entrar na terra desse povo profano, tive a impressão de que eu próprio estava me tornando profano.
Minha pátria, minha família, meus amigos se apresentaram à minha mente; minha ternura foi despertada; uma certa ansiedade terminou de me perturbar e me fez perceber que, para minha paz, eu havia empreendido demais.
Mas o que mais aflige meu coração são minhas esposas. Não consigo pensar nelas sem ser consumido pela tristeza.
Não é, Nessir, que eu as ame: encontro-me, a esse respeito, numa insensibilidade que não me deixa desejos. Nos numerosos serralhos onde vivi, antecipei o amor e o destruí por si mesmo: mas, da minha própria frieza, surge um ciúme secreto que me devora. Vejo um grupo de mulheres abandonadas quase a si mesmas; só tenho almas covardes que respondem por isso. Teria dificuldade em estar seguro se meus escravos fossem fiéis: o que será, se não forem? Que tristes notícias me podem chegar, nos países distantes que estou prestes a viajar! É um mal para o qual meus amigos não podem trazer remédio: é um lugar cujos tristes segredos eles devem desconhecer; e o que poderiam fazer lá? Não amaria eu mil vezes mais uma obscura impunidade do que uma retumbante correção? Coloco todas as minhas tristezas em seu coração, meu caro Nessir: é o único consolo que me resta no estado em que me encontro.
De Erzeron, no dia 10 da lua de Rebiab 2, 1711.
CARTA VII - FATMÉ EM USBEK.
Em Erzeron.
Já faz dois meses que você partiu, meu caro Usbek; e, no desânimo em que me encontro, ainda não consigo me convencer disso. Corro por todo o serralho, como se você estivesse lá; não estou desiludido. O que você espera que seja de uma mulher que o ama; que estava acostumada a segurá-lo em seus braços; que se ocupava apenas em lhe dar provas de sua ternura; livre pela vantagem de seu nascimento, escravizada pela violência de seu amor?
Quando me casei com você, meus olhos ainda não tinham visto o rosto de um homem: você é a única cuja visão me foi permitida. ; pois não conto entre as fileiras dos homens aqueles terríveis eunucos cuja menor imperfeição é não serem homens. Quando comparo a beleza do teu rosto com a deformidade do deles, não posso deixar de me considerar feliz: a minha imaginação não me fornece ideia mais arrebatadora do que os encantos encantadores da tua pessoa. Juro-te, Usbek, se me fosse permitido deixar este lugar onde estou confinado pela necessidade da minha condição; se eu pudesse escapar à guarda que me cerca; se me fosse permitido escolher entre todos os homens que vivem nesta capital das nações; Usbek, juro-te que escolheria apenas a ti. Não pode haver ninguém no mundo que mereça ser amado.
Não pense que sua ausência me fez negligenciar uma beleza que lhe é cara: embora eu não deva ser vista por ninguém, e os ornamentos com os quais me adorno sejam inúteis à sua felicidade, procuro, no entanto, manter o hábito de agradar; não vou para a cama sem ter me perfumado com as essências mais deliciosas. Lembro-me daquele momento feliz em que você veio para meus braços; um sonho lisonjeiro, que me seduz, me mostra esse querido objeto do meu amor; minha imaginação se perde em seus desejos, como se lisonjeia em suas esperanças: às vezes penso que, desgostoso por uma viagem dolorosa, você retornará a nós: a noite é passada em sonhos que não pertencem nem à vigília nem ao sono; procuro você ao meu lado, e parece-me que você foge de mim; finalmente, o fogo que me devora dissipa esses encantos e chama meu espírito de volta. Eu me encontro tão animado neste momento... Você não acreditaria, Usbek; é impossível viver neste estado; O fogo corre em minhas veias: por que não posso expressar a você o que sinto tão bem? E como sinto tão bem o que não posso expressar a você? Nestes momentos, Usbek, eu daria o império do mundo por um único beijo seu. Como é infeliz uma mulher que tem desejos tão violentos, quando é privada daquele que sozinho pode satisfazê-los; que, abandonada a si mesma, sem nada que possa distraí-la, ela deve viver no hábito de suspiros e na fúria de uma paixão irritada; que, longe de ser feliz, ela nem sequer tem a vantagem de servir à felicidade de outrem: um ornamento inútil de serralho, guardado para a honra e não para a felicidade de seu marido!
Vocês, homens, são muito cruéis! Ficam encantados por termos desejos que não podemos satisfazer: tratam-nos como se fôssemos insensíveis, e ficariam muito zangados se fôssemos: acreditam que nossos desejos, há tanto tempo mortificados, ficarão irritados ao vê-los. É difícil se fazer amar; é mais rápido obter do nosso temperamento o que não ousam esperar do seu mérito.
Adeus, meu querido Usbek, adeus. Considera que vivo apenas para te adorar: minha alma está cheia de ti; e a tua ausência, longe de me fazer esquecer-te, animaria o meu amor se este pudesse tornar-se mais violento.
Do serralho de Isfahan, no dia 12 da lua de Rebiab 1, 1711.
CARTA VIII - USBEK PARA SEU AMIGO RUSTAN.
Em Isfahan.
Sua carta me foi entregue em Erzeron, onde estou. Eu suspeitava que minha partida causaria comoção: não me preocupei com isso: o que você quer que eu siga, a prudência dos meus inimigos ou a minha?
Compareci à corte desde a minha mais tenra juventude; posso dizer que meu coração não se corrompeu ali: até formulei um grande desígnio, ousei ser virtuoso ali. Assim que conheci o vício, distanciei-me dele; mas então me aproximei para desmascará-lo. Levei a verdade aos pés do trono: falei ali uma língua até então desconhecida; desconcertei a bajulação e, ao mesmo tempo, espantei os adoradores e o ídolo.
Mas quando vi que minha sinceridade me havia rendido inimigos; que eu havia atraído a inveja dos ministros sem ter o favor do príncipe; que, em uma corte corrupta, eu não era mais sustentado exceto por uma virtude fraca, resolvi deixá-la. Fingi um grande apego às ciências; e, à força de fingir, isso realmente me aconteceu. Não me envolvi mais em nenhum negócio e me retirei para uma casa de campo. Mas mesmo esse caminho tinha suas desvantagens: eu permanecia sempre exposto à malícia dos meus inimigos e quase me privei dos meios de me proteger dela. Um conselho secreto me fez pensar seriamente em mim mesmo: resolvi me exilar do meu país, e meu próprio afastamento da corte me forneceu um pretexto plausível. Fui até o rei; mostrei-lhe o desejo que tinha de me instruir nas ciências do Ocidente; insinuei a ele que ele poderia tirar algum benefício de minhas viagens: encontrei favor aos seus olhos; parti e roubei uma vítima dos meus inimigos.
Este, Rustan, é o verdadeiro motivo da minha jornada. Que Isfahan fale; defenda-me apenas diante daqueles que me amam. Deixe suas interpretações maliciosas para meus inimigos: estou muito feliz que este seja o único mal que eles podem me causar.
Eles estão falando de mim agora: talvez eu seja esquecido demais, e meus amigos... Não, Rustan, não quero me entregar a esse pensamento triste: sempre serei querido por eles; conto com a lealdade deles, assim como com a sua.
De Erzeron, no dia 20 da lua de Gemmadi 2, 1711.
CARTA IX - O PRIMEIRO EUNUCO EM IBBI.
Em Erzeron.
Você segue seu antigo mestre em suas viagens; você viaja por províncias e reinos; as tristezas não podem impressioná-lo; cada momento lhe mostra coisas novas; tudo o que você vê o recria e faz o tempo passar sem que você o sinta.
Não acontece o mesmo comigo, que, encerrado numa prisão terrível, estou sempre cercado pelos mesmos objetos e devorado pelas mesmas tristezas. Gemo, oprimido pelo peso dos cuidados e inquietações de cinquenta anos; e, ao longo de uma longa vida, não posso dizer que tenha tido um dia sereno ou um momento tranquilo.
Quando meu primeiro senhor formulou o cruel plano de confiar suas mulheres a mim e me forçou, por seduções sustentadas por mil ameaças, a me separar para sempre de mim mesmo; cansado de servir nos trabalhos mais penosos, contei com sacrificar minhas paixões à minha paz e à minha fortuna. Infeliz homem que eu era! Minha mente preocupada me fez ver a compensação, e não a perda: eu esperava ser libertado dos ataques do amor pela incapacidade de satisfazê-lo. Ai! O efeito das paixões se extinguiu em mim, sem extinguir a causa; e, longe de me aliviar, me
