O Roubo do Elefante Branco: e Outras Histórias Exóticas
De Mark Twain
()
Sobre este e-book
Em uma sátira cômica e mordaz, Mark Twain narra a história do desaparecimento de um elefante branco sagrado que estava sendo transportado como presente diplomático do rei do Sião (atual Tailândia) para a rainha da Inglaterra. Durante uma parada nos Estados Unidos, o elefante desaparece misteriosamente, e a Scotland Yard americana entra em ação para investigar o caso.
O que se segue é uma sucessão hilária de equívocos, investigações desastrosas e personagens caricatos que expõem, com ironia, a burocracia, a ineficiência policial e o sensacionalismo da mídia. O conto, curto e inteligente, apresenta um estilo leve e divertido, característico de Twain, com críticas sociais embutidas em situações absurdas.
Autor consagrado: Mark Twain é um dos maiores nomes da literatura mundial, autor de clássicos como As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn.
Leitura rápida e divertida: Ideal para quem busca uma obra leve, inteligente e com forte apelo humorístico.
Crítica social atemporal: Apesar de escrito no século XIX, o texto satiriza instituições de forma ainda relevante e atual.
Versátil para públicos diversos: Pode ser usado em salas de aula, clubes de leitura ou simplesmente como entretenimento literário."
Mark Twain
Mark Twain, who was born Samuel L. Clemens in Missouri in 1835, wrote some of the most enduring works of literature of American fiction, including The Adventures of Tom Sawyer and The Adventures of Huckleberry Finn. He died in 1910.
Relacionado a O Roubo do Elefante Branco
Ebooks relacionados
A Conspiração de Papel Nota: 0 de 5 estrelas0 notasColeção Especial Sherlock Holmes Nota: 0 de 5 estrelas0 notasTriste Fim de Policarpo Quaresma Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAntes e Depois Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO retorno de Arséne Lupin Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO horla, A cabeleira, A mão, O colar Nota: 0 de 5 estrelas0 notasBartleby, o escriturário Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMemórias de Sherlock Holmes Nota: 5 de 5 estrelas5/5Os segredos de Baker Street: Sherlock Holmes e os irregulares de Baker Street Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAs Melhores Histórias de Sherlock Holmes Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA volta de Sherlock Holmes Nota: 0 de 5 estrelas0 notas24 horas na vida de uma mulher Nota: 4 de 5 estrelas4/5Contos estranhos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO vampiro de Sussex e outras histórias Nota: 4 de 5 estrelas4/5Diamante Negro Nota: 0 de 5 estrelas0 notasUm anarquista e outros contos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasBosque Encantado Nota: 0 de 5 estrelas0 notasUm amor em perigo - Historical Dreams 1 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAgência Barnett e associados: As novas aventuras de Arsène Lupin Nota: 0 de 5 estrelas0 notasSherlock Holmes Um Estudo em Vermelho Nota: 0 de 5 estrelas0 notasTriste fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto Nota: 0 de 5 estrelas0 notasOutras aventuras de Arsène Lupin Nota: 0 de 5 estrelas0 notasSherlock Holmes - O Vale do Medo Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO Conde de Monte Cristo II Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMonteiro Lobato: Romance e contos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasElinor Nota: 0 de 5 estrelas0 notasFiódor Dostoiévski - Volume 2 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA velha loja de curiosidades - tomo 2 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCarmilla - A Primeira Vampira Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO Médico e o Monstro Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Clássicos para crianças para você
Clássicos de todos os tempos Nota: 5 de 5 estrelas5/5Alice no País das Maravilhas Nota: 4 de 5 estrelas4/5O Castelo Nota: 5 de 5 estrelas5/5Senhora Nota: 5 de 5 estrelas5/5Anne de Green Gables Nota: 4 de 5 estrelas4/5A teia de Charlotte Nota: 4 de 5 estrelas4/5Moby Dick Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO Cortiço: Versão adaptada para neoleitores Nota: 4 de 5 estrelas4/5Seleção de sermões de padre Antônio Vieira Nota: 5 de 5 estrelas5/5Peter Pan Nota: 5 de 5 estrelas5/5O Alienista: Versão adaptada para neoleitores Nota: 5 de 5 estrelas5/525 contos de Machado de Assis Nota: 5 de 5 estrelas5/5Contos Nota: 5 de 5 estrelas5/5Coleção Especial Anne de Green Gables Nota: 5 de 5 estrelas5/5Alice no País das Maravilhas Nota: 4 de 5 estrelas4/5Pollyanna Nota: 5 de 5 estrelas5/5Anne de Ingleside Nota: 5 de 5 estrelas5/5Triste fim de Policarpo Quaresma: Versão adaptada para neoleitores Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDom Quixote: Versão adaptada para neoleitores Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO Bolinho Nota: 5 de 5 estrelas5/5Romeu e Julieta: Versão adaptada para neoleitores Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAnne da Ilha Nota: 4 de 5 estrelas4/5O cisne e o trompete Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCinco semanas em um balão: Texto adaptado Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAnne de Avonlea Nota: 5 de 5 estrelas5/5A Odisseia de Homero: As Aventuras de Ulisses, Herói da Grécia Antiga Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMemórias de um burro Nota: 5 de 5 estrelas5/5Dom Quixote - cordel Nota: 0 de 5 estrelas0 notasOs Lusíadas de Luís Vaz de Camões Contados às Crianças e Lembrados ao Povo Nota: 4 de 5 estrelas4/5Anne e a Casa dos Sonhos Nota: 5 de 5 estrelas5/5
Avaliações de O Roubo do Elefante Branco
0 avaliação0 avaliação
Pré-visualização do livro
O Roubo do Elefante Branco - Mark Twain
Titulo original: The Stolen White Elephant
Copyright © Editora Lafonte Ltda. 2025
Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte desse livro pode ser reproduzida por quaisquer meios existentes sem autorização por escrito dos editores.
Direção Editorial
Ethel Santaella
Realização
GrandeUrsa Comunicação
Direção
Denise Gianoglio
Tradução
Otavio Albano
Revisão
Ana Elisa Camasmie
Capa, projeto gráfico e diagramação
Idée Arte e Comunicação
Editora Lafonte
Av Profª Ida Kolb, 551, Casa Verde, CEP 02518-000, São Paulo - SP, Brasil - Tel.: (+55) 11 3855-2100
Atendimento ao leitor (+55) 11 3855-2216/11 3855-2213 - atendimento@editoralafonte.com.br
Venda de livros no atacado (+55) 11 3855-2275 - atacado@escala.com.br
O Roubo do Elefante Branco
1
A história seguinte foi-me relatada por alguém que conheci por acaso em um trem. Era um cavalheiro com mais de 70 anos. Seu rosto completamente bondoso e gentil e seus modos austeros e sinceros imprimiam a distinta marca da verdade em cada declaração que saía de seus lábios. Disse ele:
— Você sabe bem como o povo do Sião reverencia o elefante branco real de seu país. Também deve saber que se trata de um animal sagrado para os reis e que apenas monarcas podem possuí-lo, sendo ele, na verdade – em certa medida – superior até mesmo aos reis, já que recebe não apenas honrarias, mas também adoração. Muito bem; cinco anos atrás, quando eclodiram as questões relativas à fronteira entre a Grã-Bretanha e o Sião, não demorou a ficar evidente que o Sião estava errado. Em decorrência disso, trataram rapidamente de fazer todo tipo de reparação, e o representante britânico declarou então que estava satisfeito e que o passado deveria ser deixado para trás. O rei do Sião ficou muito aliviado com tal declaração e, em parte, como mostra de gratidão – mas, em parte também, possivelmente, para acabar com qualquer leve indício restante de desagrado que a Inglaterra pudesse sentir em relação à sua pessoa –, manifestou o desejo de enviar um presente à rainha – a única maneira segura de apaziguar um inimigo, de acordo com o ideário oriental. E esse presente não deveria ser apenas suntuoso, mas suntuoso de um modo transcendental. Assim, que oferenda seria mais adequada do que a de um elefante branco? Por conta de minha posição no serviço civil indiano, fui considerado particularmente digno da honra de transmitir tal presente à Sua Majestade. Equiparam, então, um navio para mim e meus criados, para os oficiais e também para os serviçais do elefante, e, no devido tempo, cheguei ao porto de Nova York e transferi minha carga real para formidáveis aposentos em Jersey City. Era necessário permanecer em terra por algum tempo antes de retomarmos a viagem, até que o animal recobrasse sua saúde.
Tudo correu bem durante 15 dias – meus infortúnios começaram depois disso. O elefante branco foi roubado! Fui chamado em plena madrugada e informado dessa terrível desgraça. Por alguns instantes, vi-me dominado pelo terror e pela ansiedade; fiquei completamente desamparado. Então, consegui me acalmar e recuperei minhas faculdades mentais. E, em pouco tempo, encontrei meu rumo – pois, de fato, para um homem inteligente, havia apenas um rumo a seguir. Mesmo tarde da noite, parti imediatamente para Nova York e consegui que um guarda me levasse até o quartel-general da polícia. Felizmente, cheguei a tempo, mesmo que o chefe da força, o célebre inspetor Blunt, estivesse prestes a sair para sua casa. Era um homem atarracado, de altura mediana, com um jeito concentrado de franzir as sobrancelhas e bater com o dedo na testa ao refletir profundamente que nos impressionava de imediato, dando-nos a convicção de estarmos diante de alguém bastante excepcional. Apenas ver a sua figura renovou minha confiança e me encheu de esperanças. Declarei o motivo de minha presença. E, ao me ouvir, ele não demonstrou agitação alguma; não se viu nenhum efeito sobre seu férreo autocontrole, como se eu tivesse acabado de lhe dizer que haviam roubado meu cachorro. Fez-me um sinal para que eu me sentasse e disse, com toda a calma:
— Deixe-me refletir por um instante, por favor.
Assim dizendo, sentou-se à sua escrivaninha e apoiou a cabeça na mão. Vários funcionários trabalhavam na outra ponta da sala – durante os seis ou sete minutos seguintes, o único som que ouvi foi o arranhar de suas canetas. Enquanto isso, o inspetor permaneceu ali, sentado, imerso em seus pensamentos. Por fim, ele ergueu a cabeça, e havia algo nas linhas firmes de seu rosto que me mostrava que o cérebro havia executado seu trabalho e elaborado seu plano. Disse ele – e sua voz soou grave e impressionante:
— Este não é um caso comum. Devemos ser cautelosos; devemos ter segurança de cada passo dado antes de arriscarmos o seguinte. E devemos manter tudo em sigilo – um sigilo profundo e absoluto. Não fale com ninguém sobre esse assunto, nem mesmo com os repórteres. Cuidarei deles; farei com que fiquem sabendo apenas o que for conveniente aos meus propósitos.
Tocou, então, uma sineta, e um jovem rapaz apareceu.
— Alaric, diga aos repórteres que aguardem mais um pouco. – O garoto saiu.
— Agora, vamos prosseguir com nosso caso – de maneira sistemática. Nada pode ser realizado nessa minha profissão sem um método implacável e minucioso.
Tomou uma caneta e um pedaço de papel.
— Agora… qual o sobrenome do elefante?
— Hassan Ben Ali Ben Selim Abdallah Mohammed Moisé Al hammal Jamsetjejeebhoy Dhuleep Sultan Ebu Bhudpoor.
— Muito bem. Prenome?
— Jumbo.
— Muito bem. Local de nascimento?
— A capital do Sião.
— Pais vivos?
— Não, mortos.
— Tiveram algum outro descendente?
— Não, ele era filho único.
— Muito bem. Tais questões bastam para esse quesito. Agora, por favor, descreva o elefante, e não deixe de fora nenhum detalhe, por mais insignificante que seja – quero dizer, insignificante na sua opinião. Para os sujeitos na minha profissão, não há detalhes insignificantes; eles simplesmente não existem.
Eu descrevia – ele escrevia. Quando terminei, ele disse:
— Agora, escute bem. Se eu cometi algum erro, trate de me corrigir.
Ele leu então o que segue:
— Altura, 5 metros e 80; comprimento do alto da testa até o início da cauda, 8 metros; comprimento do tronco, 4 metros e 90; comprimento da cauda, 1 metro e 80; comprimento total, incluindo tronco e cauda, 14 metros e 60; comprimento das presas, 2 metros e 90, e orelhas mais ou menos com as mesmas dimensões; sua pegada se parece com as marcas deixadas por um barril virado na neve; cor, um branco opaco; conta em cada orelha com um buraco do tamanho de um prato para a inserção de joias e tem o singularíssimo hábito de esguichar água nos espectadores e de maltratar com sua tromba não apenas aqueles que conhece, mas também as pessoas estranhas; manca ligeiramente com a pata traseira direita e tem uma pequena cicatriz na axila esquerda, causada por um furúnculo já cicatrizado; quando foi roubado, usava um arreio com assentos para 15 pessoas e uma manta de tecido dourado do tamanho de um tapete comum.
Tudo correto. O inspetor tocou a sineta, entregou a descrição a Alaric e disse:
— Mande imprimir 50 mil cópias disto imediatamente e envie-as para cada agência de detetives e casa de penhor do continente. – Alaric retirou-se.
— Pronto… até agora, tudo bem. Em seguida, preciso de uma fotografia da propriedade.
Dei-lhe uma. Ele a examinou minuciosamente e disse:
— Esta deve servir, já que não temos nada melhor, mas ele está com a tromba enrolada e enfiada na boca. Isso é lamentável, feito de propósito para nos despistar, porque é óbvio que ela não fica normalmente nessa posição. – Ele tocou novamente sua sineta.
— Alaric, mande fazer 50 mil cópias desta fotografia logo pela manhã e envie-as junto com as descrições.
Alaric retirou-se para executar suas ordens. O inspetor continuou:
— Será necessário oferecer uma recompensa, é claro. E então, qual será a quantia?
— Que quantia sugere?
— Para começar, eu diria… bom, 25 mil dólares. Trata-se de uma questão complexa e difícil; há incontáveis vias de fuga e riscos de ocultação. Esses ladrões têm amigos e camaradas em todo canto…
— Por Deus, você sabe quem o roubou?
O rosto cauteloso, acostumado a dissimular os pensamentos e emoções íntimos, não emitiu nenhum sinal, tampouco suas palavras em resposta, proferidas muito calmamente:
— Não se preocupe com isso. Talvez eu saiba, talvez não. Em geral, temos uma ideia bastante precisa de quem é o nosso homem pela maneira como ele trabalha e pelo montante que busca ganhar com seu delito. Não estamos lidando com um reles batedor de carteiras ou um gatuno comum, pode ter certeza disso. Tal propriedade não foi surrupiada
por um novato. Mas, como estava dizendo, levando-se em consideração o deslocamento que haverão de fazer, e todo o esforço que os ladrões terão para cobrir seu rastro à medida que se locomovem, 25 mil dólares pode ser uma quantia bastante pequena a oferecer, mas acho que vale a pena começar por aí.
Então, determinamos que tal quantia seria um bom começo. Em seguida, o homem – a quem nada daquilo que tivesse qualquer possibilidade de servir como pista escapava – disse:
— Na história dos casos de detetives, há exemplos de criminosos que foram encontrados por conta de certas peculiaridades em seu apetite. Assim sendo, que tipo de comida esse elefante come e em que quantidade?
— Bom, quanto ao que ele come… ele come qualquer coisa. Come um homem, come uma Bíblia… e come qualquer coisa entre um homem e uma Bíblia.
— Bom… muito bom, na verdade. Mas generalizado demais. Detalhes são necessários – os detalhes são as únicas coisas valiosas em nosso negócio. Muito bem… falando de homens… em uma refeição ou, se preferir, durante um dia inteiro, quantos homens ele há de comer, em se tratando de carne fresca?
— Para ele, pouco importa se a carne é fresca ou não; em uma única refeição, ele seria capaz de comer cinco homens comuns.
— Muito bom; cinco homens; tratemos de anotar isso. Quais nacionalidades ele prefere?
— Ele é indiferente quanto às nacionalidades. Prefere homens conhecidos, mas não tem preconceito contra estranhos.
— Muito bem. Falemos agora de Bíblias. Quantas Bíblias ele comeria em uma refeição?
— Ele comeria uma edição inteira.
— Essa informação não é suficientemente concisa. Você quer dizer uma edição comum ou uma Bíblia ilustrada tamanho grande?
— Acredito que ele não se importaria com o fato de haver ilustrações; isto é, acho que ele não daria mais valor a uma edição ilustrada em relação a uma edição comum.
— Não, você não entendeu o que quis dizer. Refiro-me ao volume. Uma edição comum da Bíblia pesa pouco mais de 1 quilo, ao passo que uma Bíblia grande com ilustrações chega a 4, a até mais de 5 quilos. Quantas edições de luxo ilustradas por Gustave Doré ele seria capaz de comer em uma refeição?
— Se você conhecesse esse elefante, nem sequer perguntaria tal coisa. Ele comeria tudo que houvesse pela frente.
— Bom, então transforme tudo isso em dólares e centavos. Precisamos chegar a um consenso de alguma forma. Uma Bíblia ilustrada por Doré, com encadernação em couro russo e páginas de cantos chanfrados, custa 100 dólares.
— Ele exigiria cerca de 50 mil dólares… ou, digamos, uma edição com 500 cópias.
— Agora temos um valor mais preciso. Vou anotá-lo. Muito bem; ele gosta de homens e de Bíblias; até agora, tudo bem. O que mais ele come? Quero detalhes.
— Ele é capaz de deixar as Bíblias de lado para comer tijolos, mas preferiria comer garrafas a tijolos, e roupas a garrafas, gatos a roupas, ostras a gatos, presunto a ostras, açúcar a presunto, tortas a açúcar, batatas a tortas, farelo a batatas, feno a farelo, aveia a feno, e arroz a aveia, já que foi criado comendo principalmente arroz. Não há nada que ele não coma, a não ser manteiga europeia, e certamente também a comeria se chegasse a experimentá-la.
— Muito bom. E a quantidade geral por refeição… digamos, cerca de…?
— Bom, entre 250 quilos e meia tonelada.
— E ele bebe…
— Tudo que é líquido. Leite, água, uísque, melaço, óleo de rícino, essência de terebentina, fenol… não é necessário entrar em detalhes; pode anotar qualquer líquido que lhe vier à mente. Ele há de beber qualquer coisa que seja fluida, exceto café europeu.
— Muito bom. E em relação à quantidade?
— Anote entre cinco e 15 barris – a sede dele varia; seus outros apetites, não.
— Esses detalhes são incomuns. Devem fornecer ótimas pistas para localizá-lo.
Ele tocou a sineta.
— Alaric, traga o capitão Burns.
Burns apareceu. O inspetor Blunt apresentou-lhe todo o caso, detalhe por detalhe. Então disse-lhe, no tom claro e decidido de um homem cujos planos estão claramente definidos em sua mente e que está acostumado a comandar:
— Capitão Burns, coloque os detetives Jones, Davis, Halsey, Bates e Hackett para seguir o elefante.
— Sim, senhor.
— Coloque os detetives Moses, Dakin, Murphy, Rogers, Tupper, Higgins e Bartholomew para seguir os ladrões.
— Sim, senhor.
— Envie uma equipe sólida – com 30 homens escolhidos a mão, e mais 30 como reforço – até o local de onde o elefante foi roubado, para manter vigilância rigorosa dia e noite e não permitir que ninguém se aproxime sem minha autorização por escrito – a não ser os repórteres.
— Sim, senhor.
— Coloque detetives à paisana nas linhas de trem, nos navios a vapor e nas balsas, e em todas as estradas que saem de Jersey City, com ordens de revistar qualquer pessoa suspeita.
— Sim, senhor.
— Forneça a todos esses homens uma fotografia e uma descrição do elefante e instrua-os a revistar todos os trens, balsas e outras embarcações que partam da cidade.
— Sim, senhor.
— Se o elefante for encontrado, que ele seja apreendido, e informem-me do ocorrido via telégrafo.
— Sim, senhor.
— Façam com que eu saiba imediatamente caso encontrem alguma pista – pegadas do animal ou algo do tipo.
— Sim, senhor.
— Obtenha um mandado para ordenar que a polícia portuária vigie atentamente todas as frentes.
— Sim, senhor.
— Envie detetives à paisana para todas as ferrovias, até a fronteira com o Canadá ao norte, até o estado de Ohio a oeste e até Washington ao sul.
— Sim, senhor.
— Coloque especialistas em todas as agências de telégrafo para ouvir qualquer comunicação e faça com que eles exijam a interpretação de todas as mensagens cifradas.
— Sim, senhor.
— E que tudo isso seja feito com o máximo sigilo – ou seja, na mais impenetrável discrição.
— Sim, senhor.
— Apresente-se a mim prontamente à hora habitual.
— Sim, senhor.
— Agora, vá!
— Sim, senhor.
Ele se foi.
Por um instante, o inspetor Blunt ficou em silêncio, pensativo, enquanto o fogo em seus olhos resfriava e desaparecia. Então, virou-se para mim e disse, com uma voz calma:
— Não costumo me gabar, não é um hábito meu, mas… vamos encontrar o elefante.
Apertei-lhe calorosamente a mão e agradeci, sentindo-me realmente grato. Quanto mais eu olhava para aquele homem, mais gostava dele e mais o admirava, maravilhado com os misteriosos encantos da sua profissão. Em seguida, separamo-nos, e eu fui para casa com um coração muito mais feliz do que aquele com que havia entrado em seu escritório.
2
Na manhã seguinte, tudo constava nos jornais, nos mínimos detalhes. Liam-se até certos acréscimos – consistindo nas teorias
do detetive Fulano, do detetive Beltrano e do detetive Sicrano acerca de como o roubo teria sido realizado, quem eram os ladrões e para onde haviam fugido com o seu espólio. Havia 11 teorias ao todo, que cobriam todas as possibilidades – fato esse que mostra como os detetives são pensadores sem amarras. Nenhuma teoria era igual à outra, nem sequer parecida, a não ser em um único detalhe marcante – e, nisso, todas as 11 estavam absolutamente de acordo. Todas diziam que, embora a parede dos fundos do prédio onde eu estava tivesse sido destruída e a única porta permanecesse trancada, o elefante não havia sido removido pelo buraco na parede, mas por alguma outra saída (até então desconhecida). Todos concordavam que os ladrões tinham feito aquele buraco simplesmente para enganar os detetives. Talvez semelhante coisa nunca tivesse ocorrido a mim ou a qualquer outro leigo, mas não enganara os detetives nem por um momento. Assim, o que eu supunha ser a única coisa que não apresentava nenhuma incógnita era, na verdade, justamente aquilo em que eu menos prestara atenção. Todas as 11 teorias nomeavam os supostos ladrões, mas nenhuma delas citava os mesmos nomes; o número total de suspeitos chegava a 37. Os vários relatos jornalísticos eram encerrados com a opinião mais importante de todas – a do inspetor-chefe Blunt. Parte da sua declaração dizia o seguinte:
O chefe sabe quem são os dois principais criminosos, a saber, Duffy Tijolo
e Ruivo
McFadden. Dez dias antes de o roubo ser realizado, ele já sabia que o fariam e, em sigilo, começou a seguir os dois notáveis vilões; mas, infelizmente, na noite em questão, ele perdera seu rastro, e antes que pudesse encontrá-los novamente, o pássaro fugiu – isto é, o elefante.
Duffy e McFadden são os patifes mais ousados da profissão; o chefe tem razões para acreditar que foram eles que roubaram o aquecedor do quartel-general dos detetives em uma gélida noite do inverno passado – por conta disso, o chefe e todos os detetives presentes estavam entregues aos médicos antes do amanhecer, alguns com os pés, outros com os dedos, as orelhas ou outros membros congelados.
Quando li a primeira metade do artigo, fiquei mais surpreso do que nunca com a maravilhosa sagacidade daquele estranho homem. Ele não só via o presente com um olhar cristalino, mas tampouco o futuro poderia ser ocultado de sua vista. Dirigi-me sem demora ao seu escritório e disse-lhe que eu não conseguia deixar de pensar que, se ele tivesse mandado prender aqueles homens antes, teria evitado todos os problemas e a perda que eu tivera, ao que ele me respondeu, de forma simples e incontestável:
— Não faz parte de nossa função prevenir o crime, mas, sim, puni-lo. E não podemos punir um crime até
