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Florescer Nas Ruínas - Carlos Schüller
Prefacio:
Em meio às ruínas de um Japão renascente, nasce uma história que irá tocar seu coração.
Ao acompanhar a vida de Katsuko Yamashita, desde a infância até a maturidade, o leitor será convidado a mergulhar num Japão que já não existe mais nas cidades, mas que ainda pulsa em pequenas ilhas do arquipélago japonês, nas vilas e comunidades, nos templos escondidos, e nos corações das pessoas.
Katsuko nasceu quando o Japão ainda caminhava entre ruínas e esperanças.
Era o início da década de 1950, e as cicatrizes da guerra ainda estavam frescas, nos olhos cansados dos sobreviventes, nas paredes destruídas das cidades, nas orações silenciosas dos lares enlutados.
Mas foi também nesse tempo que um novo país começou a renascer.
Em meio à reconstrução de prédios e de sonhos, em uma pequena ilha chamada Shōdoshima, nascia uma menina, não apenas como mais uma entre tantos filhos da esperança, mas como símbolo silencioso da continuidade da vida.
Katsuko era filha de um Japão ferido, sim, mas também de um Japão sábio e resiliente, que soube resguardar sua alma nas coisas simples: no vapor cheiroso do arroz cozinhando, no silêncio de um entardecer observando o pôr do sol, no respeito aos mais velhos e na reverência à terra e ao mar.
Este livro conta a trajetória de Katsuko, desde os primeiros passos em solo sagrado até os grandes momentos de decisões e descobertas.
Mas mais do que seguir sua cronologia, esta obra nos convida a sentir, a caminhar junto dela pelas trilhas da ilha, a ouvir os avós, a entender que crescer, naquela cultura, era um ato espiritual.
Katsuko é o espelho de um tempo em que a humildade não era ensinada em palavras, mas herdada no gesto de servir o chá ou de curvar-se diante das pessoas e do altar.
É testemunha viva de uma civilização que soube atravessar a dor sem perder a ternura.
Ao ler sua história, não encontramos heroísmos retumbantes, mas uma força que sustenta o mundo: a do cuidado diário, da escuta atenta, da presença amorosa.
Porque algumas vidas são como raízes: crescem para dentro, silenciosamente, e sustentam toda a árvore da existência.
Katsuko nasceu na pequena ilha de Shōdoshima, a Ilha do Pequeno Feijão
onde os olivais dançavam onduladamente com o vento e os valores do Japão antigo ainda floresciam entre crianças que corriam descalças e avós que rezavam em silêncio diante de pequenos altares de madeira existentes em cada habitação.
Ali, os combates travados na guerra ficaram distantes.
O povo da ilha sabia que a vida não se media pelas explosões, mas pelos gestos pequenos: continuar cultivando o arroz e as oliveiras, honrar os antepassados, cuidar do silêncio.
Naquela época, tudo na ilha respirava lentidão e interdependência.
Shōdoshima vivia entre o mar e os olivais, sustentando-se de pequenas colheitas, da pesca artesanal e do pouco que os ventos traziam dos portos distantes.
Mais do que uma biografia, é um retrato vivo de uma época que resistiu ao esquecimento.
Por que ler este livro?
- Para mergulhar em uma cultura que valoriza o silêncio e o respeito.
- Para descobrir como a vida simples pode ensinar as maiores lições.
- Para se reconectar com valores que o mundo moderno esqueceu.
"Algumas vidas não fazem barulho. Crescem como raízes. Firmes. Lentas. Necessárias.
Katsuko não é uma heroína no sentido comum. Ela é mais do que isso. Ela é o tipo da força que sustenta o mundo sem jamais pedir aplausos."
Vento entre as folhas
a alma da ilha passa,
silêncio que ensina.
Boa leitura.
Carlos Schüller
Índice:
Capítulos
1- A ilha de Shōdoshima e a vida e os costumes do Japão
2 - A família Yamashita
3 – A família Mizuhara
4 - O nascimento de Katsuko
5 - A Infância entre quatro avós
6 - A Escola e os primeiros saberes de Katsuko
7 – O Primeiro festival
8- A Despedida do avô
9 – O tio que não voltou
10 - Juventude e despertar
11 - A Primeira viagem à ilha vizinha
12 - A Feira das três ilhas
13 - A Partida para os estudos em Takamatsu
14 - A Vida de estudos em Takamatsu
15 - O primeiro desafio pessoal
16 - Saudades de casa
17 - O primeiro projeto autoral
18 - Reconhecimento e escolhas
19 - A oficina na ilha
20 - O convite para Tóquio
21 - A decisão: ficar ou voltar?
22 – Um novo começo em solo conhecido
23 – A visita da mãe e das avós
24 – Isamu Matsumoto
25 - O pedido e a lua cheia
26 - O noivado
27 - Os preparativos para o casamento
28 - O casamento
29 - A viagem de núpcias
30 – A mudança para a casa dos Matsumoto
31 - Brotos novos
32 - Shigueru
33 - Entre o céu e o colo
34 – A última reverência
35 - O peso do leme
36- Mar revolto, coração firme
37 - O barco maior
38 - Shigueru - o menino que escutava o invisível
39 - Vozes do vento
40 - A filha do mar
41 - A concha e o céu
42 - Filhos da travessia
43 - O crescimento de Shigueru
44 – A evolução de Umiko
45 – Shigueru e Akemi
46 – Umiko o Haruto
47 – Epílogo
48 – Locações
Capítulo 1 – A ilha de Shōdoshima e a vida e os costumes do Japão:
A ilha
Shōdoshima era uma ilha tranquila, cercada por um mar calmo e brilhante, onde o tempo parecia andar mais devagar.
O seu nome significa Ilha do Pequeno Feijão
, localiza-se no Mar Interior de Seto e, na década de 1950, era um lugar tranquilo para se morar e viver.
O nome está relacionado a uma antiga tradição agrícola.
Na época clássica do Japão, a ilha era conhecida pela produção dos pequenos feijões vermelhos (azuki), que eram importantes tanto na alimentação quanto em rituais religiosos como por exemplo nas oferendas a templos budistas e xintoístas.
É uma ilha de encostas suaves, com campos de arroz em terraços, florestas de pinheiros, dezenas de milhares de oliveiras balançando ao vento, e vilarejos que pareciam escondidos entre as montanhas e mar.
Era ali, entre as vilas de Ikeda e Kusakabe, nas colinas baixas que se estendem em direção à Kanakakei Gorge (desfiladeiro), que vivia a família Yamashita.
Essa região era conhecida pelas montanhas, vales e florestas.
Kanakakei Gorge, em especial, é um desfiladeiro famoso pela beleza natural e pela presença de templos.
A ilha possui aproximadamente:
- 153 km² de área total.
- Uma extensão de cerca de 20 km de leste a oeste e 13 km de norte a sul em seus pontos mais largos.
- O perímetro costeiro da ilha tem aproximadamente 126 km.
Na década de 1950, a ilha tinha uma população estimada em 45 mil habitantes.
Ela é a segunda maior ilha do Mar Interior de Seto (depois de Awaji-shima) e tem um relevo montanhoso com picos como o Hoshigajo-san (817 m).
A proximidade com as vilas de Ikeda e Kusakabe permitiu que Katsuko participasse ativamente de festivais (como o matsuri), feiras e frequentasse, a pé, a escola local.
Essa região era também excelente para cultivo seja de arroz, legumes e, principalmente de oliveiras.
Não era uma ilha famosa, nem cheia de novidades. Mas era rica de outro jeito: rica de paz, de tradições, de laços entre as pessoas e de respeito pela natureza.
Lá, os dias passavam como páginas de um livro escrito com muito cuidado, com muitos detalhes.
As pessoas da ilha conheciam o valor do silêncio, da terra e das estações do ano.
Cada som, do vento, da chuva, dos pássaros tinha algo a dizer era só prestar atenção.
As casas
As casas da ilha de Shōdoshima eram reflexos vivos da harmonia entre o ser humano e a natureza. Construídas com madeira escura envelhecida pelo vento e pelo sal do mar, elas se integravam ao ambiente como se fossem extensões naturais das montanhas e dos campos.
Os telhados eram de telhas cinzentas (kawara), feitas para suportar os ventos suaves e o período de chuvas moderadas (tsuyu).
Quando o vento batia nos beirais, os sinos de vento (fūrin) pendurados, tocavam melodias suaves, como se fossem orações para o céu.
As paredes laterais tinham painéis deslizantes de papel (shōji) emoldurados em madeira, permitindo que o sopro do mar e a luz do sol atravessassem a casa de maneira sutil. Era como se as casas respirassem junto com a ilha.
No interior, o chão era forrado com tatames, grossas esteiras de palha trançada que exalavam um aroma fresco, principalmente após as chuvas.
Sobre eles, as famílias sentavam-se para as refeições simples, meditavam ou apenas permaneciam em silêncio, vivendo a espiritualidade do cotidiano.
Em algumas manhãs, uma leve névoa cobria as montanhas e fazia tudo parecer um sonho.
A vida cotidiana
Os moradores da ilha viviam de maneira simples.
Quase tudo era feito com as mãos, plantar, colher, cozinhar, arrumar e costurar.
Era comum ver as famílias trabalhando juntas, pais e filhos cuidando da terra, avós ensinando receitas e histórias antigas.
As crianças corriam pelos campos, subiam em árvores, pescavam com varas de bambu e brincavam com pedras, folhas e conchas.
As brincadeiras eram simples, mas repletas de imaginação e movimento.
Sem a presença de brinquedos industrializados, os pequenos improvisavam com o que a natureza e a vida cotidiana lhes ofereciam.
Corridas eram comuns, entre árvores, ao redor das casas ou nas trilhas de terra batida.
Brincavam de esconde-esconde, utilizando muros, arbustos e pedras como esconderijos secretos.
Jogos de corda e bambu eram também muito populares: pulavam corda em grupos.
Treinavam habilidades de equilíbrio andando sobre caules robustos de bambu.
As meninas se reuniam para brincadeiras de ohajiki
, pequenos discos de vidro colorido que deslizavam sobre o chão, enquanto os meninos se entregavam às batalhas de menko
, um jogo de cartas grossas onde o objetivo era virar a carta do adversário com um golpe certeiro.
Construíam arcos com galhos de bambu, lançavam flechas improvisadas com folhas secas, e disputavam quem acertava mais longe, sempre rindo, sempre gritando alegres.
Além disso, era comum ver crianças fabricando seus próprios brinquedos, pipas coloridas feitas de papel de arroz e varetas, piões entalhados em madeira, ou bonecas de pano e palha.
No verão, corriam para os riachos para caçar peixinhos ou pegar libélulas, rindo e se molhando sob o calor do sol.
No outono, recolhiam galhos, grandes folhas secas e outros materiais necessários para criarem pequenos barcos que eram postos para navegar nos riachos.
Essas brincadeiras, simples e conectadas à natureza, moldavam não apenas a infância, mas também o espírito de comunidade e criatividade das gerações que cresciam nesse ambiente harmonioso e sereno.
Já as meninas, com roupas de algodão e tranças bem-feitas pelas mães, reuniam-se nos quintais floridos para brincar de bonecas de pano ou de palha, cuidadosamente costuradas pelas avós.
Cada boneca tinha nome, história e até pequenas roupas feitas com retalhos.
Inventavam casamentos, cerimônias do chá e visitas entre famílias
imaginárias, com uma seriedade comovente.
Também gostavam de brincar com pedrinhas lisas, jogando-as ao ar e pegando-as com destreza na palma da mão, uma brincadeira chamada ohajiki.
Mas havia momentos em que todos se misturavam: meninos e meninas, juntos na praia, construindo castelos de areia ou correndo atrás de pequenos caranguejos.
Jogavam bola de pano trançado, caçavam vagalumes à noite, e se escondiam atrás das ameixeiras floridas nas brincadeiras de esconde-esconde.
O tempo passava devagar, como um barco de remo, e cada pôr do sol parecia o final de uma história que recomeçaria no dia seguinte.
E assim, entre o riso e o silêncio, cresciam os meninos e meninas de Shōdoshima, com o coração leve como papel de pipa e os sonhos ancorados no chão sagrado da ilha.
O mar de Shōdoshima
O mar em Shōdoshima não era apenas paisagem, era presença.
Silencioso, antigo, paciente, ele circundava a ilha com um abraço amistoso que nunca se desfazia.
Suas águas pertenciam ao Mar Interior de Seto, onde não há ondas bravias nem marés impiedosas.
Nos primeiros raios da manhã, sua superfície se tornava um espelho translúcido que refletia o céu e os barcos pesqueiros que partiam devagar.
O som dos remos na água era quase uma oração, o diálogo entre o homem e a natureza.
Os mais velhos sabiam: aquele mar era sagrado. Ele dava e ensinava. Era alimento que sustentava os corpos, caminho que levava e trazia esperanças, espelho de sonhos silenciosos e mistério insondável onde moravam os segredos da vida.
Era abrigo dos ancestrais, escola dos humildes e altar aberto onde o tempo e a alma se encontravam em prece invisível.
Em dias de brisa suave, o mar parecia adormecido, pontilhado por barcos e jangadas de madeira que boiavam entre as algas.
Em noites de lua cheia, tornava-se prata líquida, e as luzes das vilas distantes pareciam estrelas caídas.
Ao longo das estações, mudava de cor como um camaleão espiritual: verde-pálido na primavera, azul profundo no outono, acinzentado nas manhãs frias de janeiro.
As mulheres da ilha diziam que o mar de Shōdoshima ensinava a esperar.
Ele ensinava que tudo volta, tudo se renova, como as marés, como a vida.
Era o mar que levava os filhos para estudar em outras ilhas.
Era o mar que trazia os navios com mercadorias, novidades, peixe, cartas e saudades.
A vila
Na vila onde vivia a família Yamashita, todos se conheciam.
Sempre que alguém passava, cumprimentava fazendo uma leve reverência com a cabeça.
Era um gesto pequeno, mas transmitia respeito e tradição.
Os mais velhos eram muito respeitados e suas opiniões eram sempre ouvidas com muita atenção.
As pessoas se ajudavam, sem precisar pedir: trocavam legumes, ajudavam nas colheitas, cuidavam das crianças umas das outras.
Nas casas havia sempre um aroma gostoso no ar: de arroz recém-cozido, chá verde, madeira seca queimando no irori, o fogão e a lareira no chão da casa.
O irori era o centro da casa.
- Aquecia a casa nos meses frios.
- Servia para o cozimento de alimentos e fervura de água para o chá ou para o preparo de refeições simples.
- Secava roupas ou utensílios pendurados acima do fogo.
- Era e centro de convivência, onde a família se reunia para comer, conversar e contar histórias.
Trabalho e sustento
Agricultura
Como era praticada a agricultura em Shōdoshima:
Tipo de Agricultura: Tradicional, manual e familiar
A agricultura era de subsistência, ou seja, o que se produzia era, em grande parte, para consumo próprio e troca comunitária.
As famílias inteiras trabalhavam na terra: avôs, pais, mães e crianças, cada um com funções específicas.
O trabalho era feito à mão ou com ferramentas simples, o uso de máquinas agrícolas (tratores, motores) era quase inexistente antes dos anos 1960.
Principais Culturas
- Arroz:
Cultivado em arrozais em terraços (tanada), construídos nas encostas das colinas.
Sistema de irrigação engenhoso, usando canais de bambu que conduziam a água.
- Oliveiras:
Introduzidas em Shōdoshima no início do século XX (por volta de 1908), adaptaram-se muito bem ao clima mediterrâneo da ilha.
Nos anos 50, já tinha uma produção significativa, importante para a identidade da ilha.
- Soja, cevada e trigo:
Alternados com arroz nos campos para manter a fertilidade do solo (rotação de culturas).
- Legumes sazonais: Rabanetes (daikon), berinjelas, pepinos, abóboras, cebolas.
- Árvores frutíferas: Ameixeiras (ume), caquizeiros (kaki), figueiras e alguns citros.
Ferramentas e Técnicas
- Enxadas (kuwa) e foices (kama): usadas para arar, capinar e colher.
- Arados de madeira puxados à mão ou por boi (muito comum em terrenos planos).
- Plantio manual: As mudas de arroz eram transplantadas manualmente, uma a uma, nos campos alagados.
Adubação:
Usava-se estrume animal (principalmente de galinhas e porcos) e compostagem feita com restos vegetais e resíduos humanos (hishio).
Ciclo agrícola anual
- Primavera (haru) Plantio de arroz e legumes.
- Verão (natsu) Manutenção dos campos de arroz; controle de pragas manualmente.
- Outono (aki) Colheita do arroz, cevada, legumes, azeitonas e frutas. Preparação para o inverno.
- Inverno (fuyu) Reparos nas ferramentas, descanso relativo. Plantio de alguns vegetais de inverno.
Aspecto espiritual da agricultura
Cada plantio e cada colheita eram acompanhados de rituais religiosos:
Antes de plantar o arroz, ofereciam-se preces aos kami da terra (espíritos da natureza).
O festival da colheita (matsuri) era um grande evento anual para agradecer às divindades pela fartura.
A agricultura era vista como um ato sagrado, não apenas trabalho:
Trabalhar a terra era uma forma de respeitar os ancestrais e garantir a continuidade da vida.
Desperdiçar alimentos era considerado desrespeito ao ciclo espiritual da natureza.
O dia a dia de uma família na agricultura:
- Acordar antes do nascer do sol.
- Comer uma refeição leve (arroz, missô e chá).
- Homens e mulheres iam para o campo juntos.
- Crianças ajudavam em tarefas leves (plantar, espantar pássaros, carregar água).
- Trabalho sob o sol, parando para refeições simples no campo.
- Retorno para casa ao entardecer, banho no ofurô e jantar.
A pesca
Como era praticada a pesca em Shōdoshima
Natureza da pesca: Artesanal
A pesca era artesanal, feita em barcos pequenos (sabani ou botes a remo) ou jangadas de madeira.
Era uma atividade diária, profundamente conectada às marés, às fases da lua e às estações do ano.
Muitas famílias (como os Yamashita) dependiam tanto da pesca quanto da agricultura para seu sustento.
A pesca era praticada próxima à costa, no Mar Interior de Seto, que tem águas calmas e rasas.
Tipos de peixes e frutos do mar pescados
- Sardinhas (iwashi), carapaus (aji), pescadas (karei).
- Polvos (tako) e lulas (ika).
- Mexilhões, ostras e outros pequenos moluscos nas áreas rochosas.
- Peixes de fundo, como linguados e pequenos robalos.
Cada estação favorecia espécies diferentes. Os pescadores experientes sabiam, observando o céu e a direção do vento, qual seria o cardápio
do dia.
Métodos de pesca usados
- Pesca com linhas e anzóis (tsuri). Era o método mais utilizado.
Homens saíam ao amanhecer com linhas de pesca de mão (sem vara), feitas de fibras naturais ou linhas de algodão embebidas em óleo.
Anzóis artesanais eram usados, feitos em ferro.
- Pesca com redes (ami)
Redes trançadas manualmente com o uso de fibras vegetais, muito usadas para:
Arrastar peixes de cardume (rede de cerco).
- Redes fixas (kakari-ami) montadas entre estacas na água rasa. Lançar e recolher redes exigia trabalho conjunto: geralmente dois ou três pescadores por embarcação.
- Armadilhas e cestos (takotsubo e yanagi-ami)
Cestos de bambu colocados no fundo do mar para capturar polvos e pequenos peixes.
Simples e eficaz: o polvo, atraído pela isca, se escondia dentro do cesto e era retirado facilmente.
Barcos usados
Barcos de madeira (pequenos, geralmente de 3 a 6 metros), movidos a remo ou com pequenas velas.
Alguns poucos usavam motores pequenos (gasolina), mas isso era muito raro em 1950 em Shōdoshima.
Barcos não tinham cabine: eram apenas plataformas abertas.
Rotina de pesca
- Saída antes do amanhecer (por volta das 4h ou 5h da manhã)
- Observação do mar e da direção dos ventos
- Padrão das ondas
- Movimento das aves marinhas (indicam presença de cardumes).
- Cheiro da água (pescadores experientes sabiam sentir o tipo de peixe pelo odor da brisa!).
- Jornada de 4–6 horas no mar.
- Volta antes do meio-dia, para evitar o calor forte e o mar mais agitado da tarde.
Tratamento do pescado
Peixes eram colocados em cestos de bambu com água salgada, para vender ou trocar:
Vendidos diretamente na praia para vizinhos.
Trocados por arroz, verduras ou serviços.
Parte do pescado era seco ao sol (himono) em esteiras de bambu. Uma forma de conservar o peixe para o inverno.
O lado espiritual da pesca
Antes de sair para o mar, muitos pescadores faziam orações aos kami do oceano.
Pequenos altares existiam nos barcos ou nas margens.
Respeitar o mar era considerado essencial:
Nunca jogar lixo nas águas.
Tratar os peixes e as redes com reverência.
Como era a iluminação das casas
1. Lampião a óleo (andon)
O andon era a forma mais tradicional de iluminação nas casas japonesas.
Consistia em uma pequena estrutura de madeira ou bambu coberta com papel de arroz (washi), dentro da qual havia um pavio embebido em óleo.
O óleo usado era geralmente: Óleo de colza (nanohana-abura, de uma planta chamada nabo-bravo).
E, mais tarde, querosene.
A luz era fraca e amarelada, criando sombras suaves, perfeita para ambientes íntimos, mas insuficiente para iluminar grandes áreas.
Curiosidade:
O andon era transportável. As famílias levavam o andon de um cômodo para outro, principalmente para o irori (lareira central) ou para os quartos à noite.
2. Lanternas de mão (chōchin)
Para sair de casa à noite (ir ao banheiro externo, visitar vizinhos ou andar pelos caminhos, usavam o chōchin:
Estrutura de bambu flexível, coberta de papel de arroz.
Dentro, havia uma vela curta ou um pequeno reservatório de óleo com pavio.
Dobrável, leve, e protegido contra o vento.
Imagem típica:
3. Velas (rōsoku)
As velas também eram usadas dentro de casa:
Feitas de cera de sumagre japonês (haze no ki), mais naturais e mais caras que as velas de cera ocidental.
Costumavam ser usadas em ocasiões especiais:
- Rituais no butsudan (altar budista).
- Cerimônias religiosas.
- Dias festivos.
Curiosidade:
As velas tradicionais japonesas eram mais espessas e com chama mais altas do que as velas ocidentais.
4. Lareira central (irori)
À noite, o próprio irori (a lareira no chão da casa) servia como fonte de luz
As brasas e o fogo iluminavam parcialmente o ambiente.
5. Energia elétrica:
A eletrificação das ilhas japonesas começou no período pós-guerra, mas foi concluída de forma mais abrangente nos anos 60 e 70.
Em Shōdoshima, as principais vilas somente foram conectadas à rede elétrica em 1970, principalmente para iluminação pública, escolas, templos e estabelecimentos comerciais.
Limitações no uso doméstico:
Nas casas rurais tradicionais, mesmo com acesso à eletricidade, o uso era comedido.
Por exemplo:
Uma lâmpada no teto substituía as lamparinas, mas alguns ainda se usavam ambas, especialmente para economizar.
O choque silencioso da modernidade
Na década de 1970, os ventos da modernidade começavam a soprar também sobre as encostas silenciosas de Shōdoshima.
Chegava devagar, trazidos por barcos que vinham das cidades maiores, e com eles, novidades que pareciam pertencer a outro mundo: rádios que falavam e tocavam músicas, geladeiras que não precisavam de gelo, fogões que se acendiam com fósforos, ventiladores que giravam como pequenos furacões presos à parede...
Os jovens da ilha viam tudo aquilo com olhos brilhantes, como se tivessem sido convidados para um viver em um novo tempo.
Mas os mais velhos... ah, para eles, cada uma dessas invenções era um desafio às tradições, uma afronta aos costumes seculares, preservados por gerações.
O rádio, por exemplo, era visto com desconfiança. Como pode um som atravessar o ar e entrar em nossa casa sem ser convidado?
, perguntava um ancião, franzindo a testa ao ouvir uma canção americana.
Para ele, o silêncio da ilha, o canto dos pássaros e os sinos de vento era toda a música que necessitava.
A geladeira causava ainda mais estranheza. Se a comida não respira, morre por dentro
, dizia uma avó, recusando-se pensar em guardar nela o missô e os vegetais frios.
Preferia pendurá-los ao ar livre, envoltos em panos de linho, como aprendera com sua mãe e sua avó antes dela.
A ideia de conservar algo sem o toque do vento ou o calor do sol parecia antinatural.
O fogão a gás era um avanço prático, mas tirava o cheiro da lenha, o estalo do carvão, o tempo sagrado de acender o fogo com paciência.
Os mais velhos diziam que o arroz feito no fogão moderno não tinha alma, não tinha o mesmo sabor. E que o ato de cozinhar não era só sobre calor, era sobre respeito, sobre esperar, sobre transmitir energia às coisas.
Mesmo o relógio de parede moderno, que marcava o tempo com precisão, era desconfortável para aqueles acostumados a medirem-no pela posição do sol.
O tempo, para eles, era algo que se sentia, não que se controlava.
Os mais velhos não rejeitavam por teimosia. Rejeitavam por cuidado.
Tinham medo de que, com tanta modernidade, se esquecesse o essencial.
Temiam que o rádio calasse as histórias contadas à beira do irori.
Que o fogão apagasse os rituais do preparo no irori.
Que o barulho do ventilador abafasse o som do vento.
Que tudo ficasse mais rápido, mas menos verdadeiro.
Ainda assim, sabiam que o tempo não espera.
E assim como as cerejeiras que perdem as flores para gerar frutos, aprendiam a ceder com o tempo.
Aceitavam a mudança, mas à sua maneira: devagar, com silêncio, com prudência e a esperança de que, mesmo entre fios e motores, alguma tradição permanecesse acesa, como a última brasa no fundo do fogão a lenha.
Já os mais jovens aceitavam de bom grado todo modernismo.
Começavam a olhar para o continente com olhos curiosos.
Falavam de trens rápidos, de máquinas, de cidades que não dormiam.
Mas os avós ainda falavam de vagalumes, de ancestrais, de ventos que respondiam às perguntas não ditas.
Havia dor nesse contraste. Mas também havia sabedoria: os mais velhos não proibiam, apenas olhavam com calma e desconfiança.
E quando falavam, suas palavras vinham como chuva mansa:
— Lembre-se, menino: o que é novo brilha. Mas o que é antigo sustenta.
Em muitas casas, inevitavelmente as coisas novas iam chegando.
Vida doméstica
Em vilarejos tradicionais como os de Shōdoshima, era comum várias gerações, e às vezes diferentes ramos da mesma família, viverem sob o mesmo teto.
As casas eram construídas de maneira a acolher essa organização: amplas, feitas de madeira, com paredes de papel de arroz (shōji) que podiam ser abertas ou fechadas conforme a necessidade de espaço e privacidade.
A estrutura interna era fluida, adaptando-se à rotina diária das muitas pessoas que ali conviviam.
No centro da vida doméstica estava a ideia de comunidade familiar.
Normalmente, o patriarca, e, com o passar do tempo também a matriarca, comandava a casa, e seus filhos casados continuavam a viver ali, trazendo suas esposas e filhos para dentro da mesma estrutura.
Cada pequeno núcleo familiar ocupava alguns cômodos, mas os espaços comuns, como a cozinha, o irori, o ofurô (sala de banho) e o jardim, eram compartilhados.
A convivência exigia muita disciplina e respeito mútuo.
Cada pessoa sabia exatamente seu papel.
As mulheres, por exemplo, dividiam as tarefas domésticas: preparar alimentos, lavar roupas, cuidar das crianças mais novas e manter a limpeza da casa.
Os homens, por sua vez, trabalhavam juntos nos campos, na pesca ou nas oficinas, e as decisões importantes sobre o lar eram tomadas em conjunto, com forte respeito às hierarquias dos mais velhos.
As crianças cresciam como parte de um clã, brincavam juntas no pátio, eram educadas pelas mães, tias e avós, e aprendiam desde cedo a colaborar e a respeitar os mais velhos.
Havia um espírito de pertencimento coletivo
: os problemas e as alegrias eram compartilhados, e o sucesso de um era visto como o sucesso de todos.
As refeições eram momentos especiais.
Servidas em tatames, ao redor de baixas mesas (chabudai), todos se reuniam para comer juntos.
O arroz era distribuído em tigelas individuais, mas a maioria dos acompanhamentos (okazu) era compartilhada, em tigelas centrais.
Antes de comer, todos diziam itadakimasu
, uma expressão de gratidão pela comida e pelo trabalho coletivo que a tornou possível.
A casa às vezes se tornava pequena para tantas pessoas, e as tensões inevitáveis surgiam, essa forma de vida criava laços profundos de solidariedade e respeito, que perduravam por toda a vida.
A maioria das casas não tinha água encanada como conhecemos hoje. Em vez disso, as famílias se organizavam para buscar a água necessária para beber, cozinhar, lavar e para o ofurô.
Quando havia um riacho ou nascente próximo, construíam pequenos canais de bambu ou pedra que desviavam parte da água até reservatórios comunitários, chamados de mizuba.
Esses pontos eram comuns nas vilas, como pequenas fontes públicas onde as famílias enchiam baldes de madeira ou de ferro.
Era um trabalho diário, geralmente feito pelas mulheres e pelas crianças mais velhas.
Em casas mais afastadas, ou em lugares onde o acesso a nascentes era difícil, cavavam poços (ido).
O poço era considerado um verdadeiro tesouro da casa.
Sua borda era feita de pedra ou madeira, e se usava um balde preso a uma corda para puxar a água fresca.
Às vezes, havia também um sistema de alavanca para facilitar.
Cuidar do poço — mantê-lo limpo, protegido contra insetos ou folhas caídas — era uma responsabilidade séria.
Em tempos de chuva, muitas famílias também aproveitavam a água que escorria dos telhados de cerâmica ou palha, canalizando-a para grandes barris de madeira.
Essa água da chuva era usada principalmente para lavar roupas, regar plantas, para o banho e, em casos de emergência, para consumo, depois de fervida.
Era uma vida que exigia esforço constante, mas também uma profunda conexão com os ciclos naturais. Cada balde carregado representava não apenas trabalho físico, mas também uma compreensão silenciosa da dádiva que era a água, algo que hoje, com a facilidade das torneiras, muitas vezes esquecemos.
A alimentação
Café da manhã (Asa-gohan)
Simples, nutritivo e baseado no arroz.
Normalmente consistia em:
- Arroz branco ou misturado (shirogohan ou mazegohan), às vezes misturado com cevada (mugi-gohan), para render mais.
- Missoshiru (sopa de missô), com algas (wakame), tofu, e às vezes legumes como nabo (daikon) ou cebolinha.
- Picles (tsukemono), pepino, nabo ou ameixa salgada (umeboshi).
- Chá verde (ryokucha).
Observação: Não era comum comer peixe ou carne pela manhã.
O objetivo era fortalecer o corpo para o trabalho pesado no campo ou no mar, sem sobrecarregar o estômago.
Almoço (Hiru-gohan)
Feito no campo ou trazido em caixas de madeira (bentō rústicos).
Conteúdo típico:
- Bolinho de arroz (onigiri), recheado com umeboshi (ameixa azeda), alga nori ou pequenas lascas de peixe seco.
- Vegetais cozidos (nimono), batata-doce, abóbora, cenoura, cozidos em molho de soja e açúcar.
- Pequena porção de peixe grelhado, apenas em dias especiais ou boa pescaria.
- Bebida: Água de fonte ou chá frio.
Importante: O almoço era prático e portátil para permitir a continuidade do trabalho no campo ou na pesca.
Jantar (Ban-gohan)
A principal refeição do dia, a mais farta.
Normalmente servido em casa, reunindo toda a família ao redor do irori (lareira central).
Composição típica:
- Arroz branco (ou misturado).
- Sopa de missô, muitas vezes mais encorpada que a do café da manhã.
- Peixe grelhado ou assado (sardinha, carapau, polvo).
- Legumes refogados ou em conserva.
- Alga marinha (kombu) cozida com soja.
- Eventualmente, ovo cru
