Aleluia de bala, flecha e facão
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Sobre este e-book
Entre vilas do Nordeste e rios sem fim, a caravana avança enquanto o sertão se fecha em cerco. Há também, Antônio Bueno de Arzão Navarro, paulista forjado em razias e gazuas, cujo ódio aos "bugres" e ao próprio Deus vira combustível de um massacre itinerante. Sua caça tem nome e cicatriz: Caracará, tapuia que engana bandeirantes com fábulas de ouro, e cujo encontro acende a fagulha de uma guerra íntima e sem perdão.
Misturando romance histórico e fantasia – milagres sussurrados, sandálias que não cansam, pragas que fazem reis tombarem – a narrativa percorre o fim do século XVII e o começo do XVIII como um corte de facão: áspera, barroca, desmedida.
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Aleluia de bala, flecha e facão - Carmelo Ribeiro
1ª edição
São Paulo
2025
Equipe técnica:
Editor-chefe:
Rodrigo Barros
Editora assistente:
Meg Mendes
Revisão:
Rodrigo Barros
Capa, diagramação e projeto gráfico:
Rodrigo Barros
Preparação:
Marcela Davino
Ficha técnica:
R484a
Ribeiro, Carmelo
Aleluia de bala, flecha e facão / Carmelo Ribeiro - São Paulo: Publix Livros, 2025.
720kb. ; ePub
ISBN: 978-65-83672-10-0
1. Literatura brasileira. I. Título
CDD: B869.3
CDU: 82-3(81)
A Publix Livros é a editora de autopublicação do grupo Cartola Editora.
Todos os direitos desta edição reservados à Publix Livros. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização por escrito da editora. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei nº 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.
Excertos da história do padre Joaquim Paternostro, de seus doze assassinos e de tudo quanto com ele se passou nas vilas e sertões do continente do Brasil e do Maranhão, encontrados no colégio dos jesuítas da cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, em três versões: a primeira latina, atribuída ao capuchinho Martinho de Módena; a segunda, escrita na língua geral dos índios da costa, atribuída ao padre João de Deus Aquaviva; e a terceira, em mau português, atribuída a Sebastião Rodrigues Braga, que ninguém sabe quem foi, isto no ano da graça do senhor de 1759, em que os padres jesuítas foram banidos do Brasil por ordem do Conde de Oeiras, autorizado pelo então soberano português Dom José I. A cópia manuscrita da história, que se acha incompleta, foi recolhida no ano supracitado pelo noviço Antônio José da Conceição – que acabou casando com uma mulata –, e seguiu na família dele por mais de dois séculos, tendo sido muitas vezes corrigida e aumentada e outras vezes extirpada de parágrafos e capítulos inteiros. No ano de 2013, as muitas partes da história foram adquiridas pelo licenciado Carmelo Ribeiro do Nascimento Filho, ao custo de quinhentos reais e uma porca gorda, na cidade de Macaparana, Estado de Pernambuco. O negócio só foi possível em razão da conversão de Antônio José da Conceição, o sétimo desse nome, ao protestantismo. O licenciado em questão, por ter veleidades literárias e ser devoto de Clio, as coligiu e a fez publicar à custa de sua fazenda, para deleite dos ociosos, recreio dos fabulistas e exasperação dos historiógrafos.
Canzoadas e perrarias do mais infame de todos os paulistas
Deus fez descender todos os homens de um só casal, porém eles degeneraram em castas diversas. Dos filhos de Noé: Jafé deu origem aos cristãos, Sem aos judeus e maometanos e Cam aos cafres que, por sua vez, se abastardaram em miríades de povos.
Porém, desde os dias em que os filhos de Jafé se espalharam pelas terras da cafraria em busca do ouro de Mamon e nós, inacianos, os seguimos para pregar a palavra de Deus, se misturaram com toda a sorte de povos selvagens, do que resultou um abastardamento ainda maior do gênero humano.
Teria sido melhor que praticassem o pecado de Onã, pois o mundo estaria livre dos mestiços, que aqui neste continente do Brasil chamam-se mamelucos, o mesmo vocábulo que os califas abássidas empregavam para denominar uma casta de refinados assassinos recrutados entre turcos e circassianos para protegê-los, porém, entre os mamelucos daqui há uma raça ainda mais medonha, nascida da violência de um jafético de má cepa contra as bestas mansas que chamamos índias ou bugras, origem de todos os paulistas.
Um paulista é a forma mais abjeta de vida que o Deus de Abraão permitiu que andasse sobre a terra.
Não, não é isto, eu me equivoco.
Um paulista não é um homem, é um paulista.
Que quer dizer abominação.
Se fosse possível a Deus pecar, esse pecado seria um paulista.
Se a natureza acaso errasse, esse erro seria um paulista.
Mas Deus não erra.
Portanto, os paulistas são como os reis tiranos e cruéis, instrumentos de Deus para castigar os pecadores. São a mais terrível praga que assola esta terra de Santa Cruz; piores que os mosquitos, as cobras e o calor.
Pois, mais selvagens que as onças, mais peçonhentos que as cascavéis, mais traiçoeiros que as raposas, são capazes de qualquer tipo de perfídia e bestialidade.
Assim que saem de casa, de Piratininga, que nós fundamos e eles tomaram para si, andam descalços e nus e, como são mais selvagens do que os bugres dos quais descendem, são o mais eficiente remédio para as ousadias deles; e, como são mais boçais que os mais boçais dos negros da Guiné, são os soldados ideais para castigar os filhos de Cam e arrasar seus ajuntamentos.
Se não fossem tão cobiçosos e prepotentes, se não tivessem tanta tara por ouro, quiçá dominariam o mundo.
Mas não dominarão nunca porque Deus não erra; por isso, não há nada mais estúpido que um paulista quando se trata de ouro, e é assim que começa esta história.
Começa enquanto reconstruíamos o mundo no aldeamento de Nossa Senhora das Serras, embora o Padre Joaquim Paternostro não gostasse dessa palavra reconstruir
, pois o que ele queria era refundar o mundo. Para o santo homem, a descoberta das novas Índias foi uma oportunidade dada por Deus aos cristãos para purificar, para renovar a humanidade e refundá-la, seguindo as indicações do evangelho de Nosso Senhor.
Porém, não partilhávamos do entusiasmo dele, não inteiramente, não o obedecíamos em tudo, mesmo porque ele não tinha autoridade sobre nós, entretanto, quando esta história começa, o Padre Joaquim Paternostro não estava conosco, estava no sertão mais profundo, à cata de almas para o novo paraíso, ao qual os carnoió começavam a se afeiçoar, até que um troço de paulistas nos achou, porém, graças ao bom Deus, logo partiram para realizar alguma razia.
Fizeram pouco estrago.
Mas nos deixaram um regalo, o regalo atendia pelo nome de Antônio Bueno de Arzão Navarro e estava enfermo.
Em razão dos nossos cuidados, logo ficou são e tornou-se a mosca que infecta o azeite, o tentador do nosso paraíso, o sedutor do nosso rebanho, até que Caracará, o mais esperto e menos virtuoso daqueles bugres, talvez por não ser carnoió e ter convivido com brancos, descobriu a fraqueza dele e soube se aproveitar dela.
Não o censuramos.
Aconteceu assim: o paulista falava uma história de pedras amarelas e brilhantes e Caracará disse saber de um lugar onde havia muitas delas, o paulista perguntou onde.
Ele deu informações imprecisas, o que aumentou a cobiça de Antônio Bueno – fazia parte do engodo – e não falou mais nada.
Porém, quando o paulista conseguiu fazer vinho de palmito e o convidou para beber, os dois sentaram para conversar, e Caracará contou uma história comprida e inverossímil e, quanto mais inverossímil, mais o paulista cria.
Contou que, descendo aquela serra, onde estava encravado o nosso aldeamento, seguindo em direção a oeste, ele encontraria um rio, que deveria acompanhar até uma floresta e depois seguir, até que a floresta se tornasse como um campo não lavrado, com árvores nanicas e esparsas, para finalmente encontrar outro rio, um que não dava peixe.
Nesse rio, nas margens e no leito, abundavam pedras amarelas e brilhantes, como as estrelas no céu.
O paulista acreditou na fábula e tanto acreditou que tentou de todas as maneiras convencer Caracará a acompanhá-lo, pois havia decidido que chegaria a este rio ou morreria tentando.
Caracará recusou o convite e lembrou-lhe que ele mesmo não conhecia o tal rio e que isso era tudo história muito antiga, que bem poderia não ser verdade, mas, como um homem só vê o que quer… Antônio Bueno não demorou muito a partir em busca do ouro do bugre.
Partiu sozinho e foi atrás do bando de rapinantes do qual fazia parte. Alcançou-os e convenceu alguns deles a tentar encontrar o tesouro, mas fracassou da forma mais espetacular que podia fracassar: perdeu inteiramente o controle sobre o bando, matou o irmão que havia arrastado consigo e por quem nutria uma afeição sincera, contraiu uma febre maligna e, quando estava para morrer, devorado por formigas, em um capinzal, com o corpo repleto de chagas e já tendo de há muito encaminhado a alma ao Criador, foi encontrado pelo padre Joaquim Paternostro e uma casta de bugres que ele não conhecia.
Recuperado, mais parecia um homem que voltou do inferno e, ao comentar que nunca vira tal casta de índios, o padre lhe contou que eles, prudentemente, se escondiam dos brancos ou, quando não era possível, os engodavam com histórias sobre pedras amarelas e brilhantes, pois eram gentios da costa e haviam tido comércio com portugueses, batavos e franceses e falavam a língua geral.
O paulista, que na ocasião comia, parou de comer e foi acometido por uma forte comoção. Seus olhos cresceram de modo desmesurado, a boca abriu em uma expressão de abandono, depois o rosto todo se tornou uma máscara de fúria. O padre, é mais que óbvio, notou a mudança, mas como era exímio conhecedor dos homens, fingiu não perceber, pois sabia que seria perigoso tecer qualquer comentário sobre a calamidade.
Joaquim Paternostro já havia visto aquilo algumas vezes, o exato instante em que um homem se transforma em demônio, e era exatamente isto que acontecia, pois naquele instante Antônio Bueno de Arzão Navarro achou que Deus não o matara no capinzal por que fosse generoso e tivesse piedade de sua alma, mas por que era ruim e queria rir dele e se era assim, se Deus não se importava com ele, o mundo inteiro seria alvo e mesmo assim não seria suficiente para sua vingança.
No outro dia, o paulista sumiu das vistas do padre e voltou para o formoso aldeamento de Nossa Senhora das Serras, mas, quando lá chegou, tão roto que quase estava despido, não encontrou ninguém, pois o nosso pequeno paraíso havia se tornado caminho de roçado, ou melhor, caminho de guerra, para os troços de paulistas, que mais e mais infestavam os sertões, razão pela qual migramos para muito longe daqueles demônios e de toda gente.
Até mesmo o padre Joaquim Paternostro perdeu, por muito tempo, o nosso rastro e demorou a encontrar nosso paradeiro.
Mas Antônio Bueno, que se tornou o maior carniceiro desses sertões, não nos esqueceu e nos buscou com a diligência com que qualquer demônio tenta as almas puras.
Entretanto, estávamos bem escondidos.
Tão bem escondidos que ele percorreu, mais que qualquer índio de corso, cada palmo desses sertões de Cristo Afora, sem achar a mais mínima notícia de nós.
Andou pelos sertões e ribeiras do São Francisco, do Pajeú, do Moxotó, do Piranhas, do Açu, do Jaguaribe e até do Parnaíba, sempre metido em gazuas, razias e crueldades.
Serviu a quem lhe pagasse mais, ou melhor, serviu a quem o permitisse matar em maior número. Assim, serviu ao governador-geral do Brasil e ao governador-geral do Maranhão e Grão-Pará; serviu ao general de Pernambuco e aos capitães-governadores do Rio Grande, do Ceará e da Paraíba; e comerciou com piratas franceses. Mas preferia mesmo estar entre os seus, os paulistas; portanto, seguiu Domingos Jorge Velho, Antero Paes Barreto, Antônio de Moraes Navarro e caterva. E serviu também à Casa da Torre, aos sertanistas baianos e pernambucanos e destacou-se na terrível mesnada de Sebastião Gama e Casco.
E matou índios de todas as castas; inimigos e, quando pode, aliados também, índios da costa e do sertão, tupis e tapuias, índios de corso e aldeados. De suas armas não escaparam tabajaras, potiguaras, caetés, janduis, panatis, icós, guegues, manguezas, icozinhos, coremas, canidés, xucurus, paiacus, carnoios e muitos de que não se soube nem a língua nem o nome.
Ele foi também o responsável pelo suplício do padre Ambrósio de Soveral que, assim como o jesuíta Joaquim Paternostro, andava pelos sertões à procura de almas para levar para o céu e acabou martirizado por ter ajudado os poucos remanescentes de um grande massacre, promovido por Gama e Casco.
Capturado, não negou que auxiliara os bugres, o que irritou enormemente o mestre de campo, que o entregou a Antônio Bueno e outros malvados. O bando levou um dia preparando-lhe o suplício.
Inventaram mil coisas e de mil coisas desistiram, até que o paulista viu uma grande colmeia pendente de uma árvore, que crescia em meio à chapada, e teve, mal comparando, um estalo de Padre Vieira.
Mandou despir o Padre Ambrósio e o amarrou à árvore, como se ele fosse um São Sebastião do Novo Mundo, mas não o flecharam; flecharam a colmeia, que não era de abelhas, mas de vespas.
Os insetos assanhados e furiosos pela perda do ninho
fustigaram o pobre homem indefeso, que foi picado em todas as partes do corpo, e logo, em decorrência do veneno das picadas, inchou de tal maneira que, depois de poucos minutos, já não parecia mais um homem; parecia um sapo, um pedaço grande de bofe.
Morreu após uma lenta agonia, embora, antes de entregar a alma de vez, Antônio Bueno o arcabuzou sorrindo.
Contudo, o paulista desistiu de nos buscar quando soube que um índio tarairiu, de nação Janduí ou Canindé – o informante não sabia ao certo –, estava entre os cabeças de um levante de bugres que assolavam o Açu, com atrevimento e soberba de castelhanos. O tal índio, de nome Caracará, ainda blasonava que gostava muito de matar paulista, na guerra ou com histórias de ouro, como fizera com um tolo chamado Arzão.
O paulista soube que metade da história era mentira, era broma, pois, como tentou arrebanhar muitos companheiros para encontrar as minas, a notícia do espetacular fracasso da empreitada se espalhou e ele não ignorava que era alvo de remoque; por isso, matava quem lhe perguntava sobre o rio sem peixe, para que a maledicência não mais chegasse aos seus ouvidos.
Porém, o homem que contou a história, paulista como ele, o salvara da morte mais de uma vez e, por isso, não recebeu uma punhalada no ventre.
O homem sabia que Antônio Bueno não lhe faria mal, não seria capaz de tamanha temeridade se não estivesse seguro de que não passaria, pelas mãos do amigo, ao reino do Vai, mas não torna.
O provocador era Manuel Crispim Bejarano, de apodo o arganaz
, e, de fato, viu Caracará; afinal de contas quem poderia esquecer um índio com um rosto talhado a machado e o corpo também.
O corpo forte e atarracado era o que se chamava nesses sertões sem Deus de aparado no grosso, feição comum aos tapuias, e para completar o debuxo, o cabelo liso e o olhar de assassino; porém o que o singularizava era um grande talho na face, que descia da venta e acabava na tábua do queixo.
Mas Caracará, quando Antônio Bueno chegou ao Açu, já havia partido, o que quase mata o paulista de raiva.
Mal sabia ele que a presa estava perto, no Ceará Grande, para onde logo seguiu, acompanhando Sebastião Gama e Casco, comissionado pelo capitão-governador para castigar índios de corso que promoviam razias cada vez mais audaciosas nos arredores de Aracati.
Porém, o paulista não o encontrou entre os rebelados, mas entre índios tupis, talvez algum resto de potiguaras, que padeciam pelos crimes dos paiacus.
Encontraram-no enquanto matavam sem piedade alguma: homens, mulheres e crianças. O trabalho estava quase feito. Iam já pôr fogo nas grandes malocas daquele gentio, quando Crispim Bejarano entrou em uma delas e encontrou um homem enfermo de febres ruins; o homem era Caracará.
O arganaz foi logo em busca de Antônio Bueno:
— Achei ouro, Arzão, ouro.
— Paciência tem limites — rosnou o paulista.
— Pena que ele só sirva pra ti.
— Não estou entendendo.
— Vem comigo se queres encontrar a felicidade.
Ele foi, e outros paulistas o acompanharam.
Em poucos minutos, meia dúzia de homens rodearam a esteira onde se encontrava Caracará que, ao reconhecer Antônio Bueno, conheceu que chegara a sua hora, mas não tinha forças para reagir, pois ainda encontrava-se muito debilitado. Os paulistas escarneceram:
— Como irás matá-lo, Arzão?
— Eu o queimaria vivo, como fizemos com aqueles tapuias do Pajeú.
— Eu picaria ele. Cada dia cortava um pedaço. Começando pela trolha.
— Eu faria dele isca para os porcos do mato.
Bejarano disse:
— Eu acabaria logo com isso, estraçalharia a cabeça desse animal. Agora.
— Calem-se todos. Eu vou cuidar dele.
Disse Antônio Bueno e, olhando para Caracará, prosseguiu:
— Ouviu, defunto? Vou cuidar de ti, tu serás meu menino…
Todos sorriram e o paulista continuou:
— Quando estiveres recuperado, desejarás não ter nascido.
E assim foi feito, pois naquela aldeia o troço se desfez, quer dizer, Antônio Bueno e Crispim Bejarano tiveram licença para exemplar o tapuia, pois a vingança é sagrada para um paulista, enquanto o resto da mesnada se dividiu, uma parte seguiria para Santa Cruz do Aracati e outra para o Arraial Novo dos Icós, para três meses depois, se reunirem no Forte Real de São Francisco Xavier da Ribeira do Jaguaribe.
Quando ficou sozinho com Crispim Bejarano e Antônio Bueno, Caracará quis que a doença continuasse indefinidamente, mas a doença não persistiu por muito tempo. Porém, enquanto durou, foi intensa e providencial, pois ele, não raro, delirava de febre, e no delírio falava sobre minas de ouro e, quando desperto, jurava ao paulista que poderia levá-lo ao lugar exato das minas.
Nessas ocasiões, Bejarano o espancava e Antônio Bueno calava-se, até que, longe dos ouvidos e das vistas de Caracará, o paulista confessou ao amigo:
— Que achas? Pode mesmo haver minas?
— Acho que és o mais tolo ou o mais cobiçoso homem da Terra.
— Mas o bugre, enquanto delirava de febre, falou das minas. Não escutaste?
— Um homem, quando percebe que vai morrer, agarra-se a qualquer coisa. Não só um homem, um bicho também.
— Não sei, e se houver as minas?
— Não há mina alguma, ouro algum, ele quer continuar vivo.
— Vamos pedir que ele nos leve até lá. Se não encontrar o caminho, o matamos.
— Tu és um grandessíssimo tolo, mas eu irei tão somente para ver a tua cara.
— Caso seja outra peta, o inferno será um lugar de pouco sofrimento para ele.
E assim, quando Caracará se recuperou, os três partiram para o oeste em busca do rio das pedras douradas, não sem antes Antônio Bueno praticar uma perraria com o bugre.
Traçou na cara dele outro talho, que o fez indelével, aplicando cinza quente.
O talho ia de debaixo do olho direito até o queixo.
Depois do talho pronto o paulista disse:
— Ficaste bonito, muito bonito. O que achas, Bejarano?
— Eu teria feito um talho maior, mas o animal é teu.
E seguiram-se dias e dias em que os dois paulistas não tiraram os olhos de Caracará e este andava a não mais poder, mas andar por andar, os paulistas também andavam, tão descalços quanto o tapuia, até que, no único momento em que os dois estavam desatentos, Caracará pulou de um barranco.
Antônio Bueno bufou de raiva, mas Crispim Bejarano, depois de um momento de hesitação, não teve piedade do amigo.
— Aposto que ele não se matou.
O paulista continuou calado.
— Aposto que aquele rio – lembra aquele rio que vimos ao subir a serra? Aposto que aquele rio corre aí embaixo do barranco.
Os dois se abeiraram e viram que, de fato, um rio corria lá embaixo e, embora não tenham visto sinal de Caracará, parecia evidente que ele estava vivo e livre.
Os dois não pularam.
Sabiam que, daquela vez, o animal havia escapado e voltaram pelo mesmo caminho.
Antônio Bueno, calado, e Crispim Bejarano, lembrando em boa hora que o amigo matou o próprio irmão, que queria mais bem a ele do que a si, calou-se. Calados ficaram por três dias, até que o paulista falou:
— E dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? Eu sou o homem mais tolo da Terra…
Parou e, depois, prosseguiu:
— Mas sou o mais teimoso também. Quando eu capturar aquele bugre, Bejarano…
— Ele falará de uma mina ou de umas pedras amarelas e….
— Não, não falará.
— Por que não?
— Por que eu vou costurar a boca dele antes. Duvidas?
— Não, não duvido.
— Vou encher de areia a boca daquele animal.
— Poderias pôr nele uma daquelas máscaras que, em Pernambuco, se usam para fechar a boca de escravos beberrões.
— Vou fazê-lo comer os próprios bagos. Não… Vou fazer com que ele coma urtiga-branca. Não vai falar nunca mais.
Porém, um homem obcecado é um homem obcecado, de modo que, no Forte de São Francisco Xavier, Antônio Bueno descobriu que Gaspar de Lemos, sertanista que ele odiava sem esforço e paulista como ele, guardava um roteiro das minas do sertão de Cunhaú, que os batavos tanto tentaram descobrir.
Crispim Bejarano também ouvira os rumores, embora não acreditasse na veracidade deles, mas não se importou de emboscar o desventurado, que atraiu à morte quando Antônio Bueno resolveu que averiguaria a existência do mapa da mina.
Portanto, assim que os índios pimenteiras tentaram atacar o forte que protegia os currais de criação de gado, Gaspar de Lemos morreu e morreram também outros dois paulistas que estavam com ele. Antônio Bueno encontrou, costurado nos trapos do defunto, um mapa e algumas frases escritas em mal português.
Antônio Bueno não sabia ler, muito menos Crispim. Arzão não sabia nem falar português direito, mas achou que os desenhos eram suficientes para encontrar as tão sonhadas minas.
Convidou Crispim para dividir o risco e o ouro, mas Crispim não quis ir, não acreditava mais em roteiros e repetiu o que sempre dizia ao amigo:
— Ouro tem muita tara.
Mas Antônio Bueno desertou assim que pôde e seguiu para a Cidade do Natal, feliz como um menino pobre de bucho cheio.
Lá chegando, fez o que sabia: uniu-se à tropa para sufocar mais uma das incontáveis rebeliões dos potiguaras – os gentios mais insubmissos de toda a costa – e, assim, pôde comprar ou roubar ferramentas e dois burros, seguindo então para o sertão de Cunhaú, que distava poucas léguas da cidade.
Após algumas semanas, convenceu-se de que achara o lugar das minas e começou a minerar, mas, por mais que trabalhasse, a terra só lhe dava terra e gente, pois naquelas solidões, dia sim, dia não, tinha que matar um bugre, um negro fugido, um curioso vindo de Natal ou da Paraíba.
Passou meses assim, até que começou a ouvir a risada de Caracará.
Ouvia a maldita risada quando acordava e quando ia dormir, ao meio-dia, a toda hora, e achou que ia enlouquecer, mas só abandonou o Cunhaú quando convenceu a si mesmo que estava embruxado; que só conseguiria achar as minas, achar o veio, o filão, quando matasse Caracará.
Por isso, abandonou tudo, até mesmo o roteiro, que rasgou em mil pedaços, pois já o tinha indelével na cabeça e voltou para o sertão do Jaguaribe.
No caminho, esqueceu metade do roteiro; porém, não se desesperou, pois sabia que, assim que matasse Caracará, lembraria tudo.
Entretanto, como achar um animal em uma selva do tamanho do sertão?
Como achar a folha correta em meio a uma árvore frondosa?
Como achar a pedra que se procura na serra?
O padre Joaquim Paternostro, quando o encontrou mais morto que vivo, dissera uma vez que Deus não gostava de se repetir; não era o caso dele, que vivia cometendo o mesmo erro. Por isso, quase se desesperou, mas depois chegou à conclusão de que, se Deus existisse – coisa que estava começando a duvidar – , não gostava de um homem chamado Antônio Bueno e desesperou-se de vez.
Depois pediu perdão pela dúvida, pois o paulista era um homem de fé.
Não era um bom homem, mas um homem de fé que frequentemente brigava com Deus e, como era metódico para certas coisas, nunca se esquecia de rezar antes de dormir, embora não pronunciasse nenhuma palavra, apenas repetia o Padre Nosso, que sabia de cor, com a força do pensamento. Vez ou outra, agradecia por ter escapado da morte e matado meia dúzia de bugres.
O padre Joaquim Paternostro ficaria surpreso ao saber disso.
Pensando bem, não ficaria surpreso coisa nenhuma, devia saber.
No sertão do Jaguaribe, os índios haviam sossegado momentaneamente; porém, um troço, não de paulistas, mas de gente da Casa da Torre, estava partindo para sertões ainda mais feros que aqueles e, claro, Antônio Bueno os acompanhou.
Seguiram para o oeste e lá encontraram castas de índio que, mesmo ele, velho andejo, nunca vira, até alcançarem uma imensa campina que denominaram Sertões dos Pastos Bons.
Lá alguns se estabeleceram e Antônio Bueno ficou para mostrar aos bugres que as terras em que eles vagavam tinham dono.
Matou muita gente o paulista para aplacar a raiva que tomava conta de si, porém quanto mais matava mais gostava de matar. Matava homens, mulheres, velhos e meninos. Meninos de colo. Gostava de matar criancinhas de colo com cascudos, e gostava de retalhar mulheres pela cona, de cima para baixo. Para isso desenvolveu um engenho cruel. Fazia que os infelizes bugres cortassem duas toras de pau, e, as fincassem no chão, a uma distância de duas braças uma da outra. As toras tinham que ficar firmes o suficiente para suportarem o peso de uma bugra. A escolhida para o suplício era amarrada de cabeça para baixo, uma perna em cada estaca, de modo que o pachocho ficasse aberto.
E era por ali, pelo talho que as mulheres têm entre as pernas, que ele começava a picá-las.
Aos golpes de facão.
Os homens, ele gostava de desventrar para ver os infelizes tentando pôr para dentro as próprias tripas, até que, sem forças, morressem com sede e com aqueles olhos esbugalhados de quem conhece que não demora a morrer.
Gostava, gostava muito daquelas perrarias o paulista, mas não gostava de nós, jesuítas. Porém, cometera tal sorte de tropelias nos Sertões dos Pastos Bons que os curraleiros que se estabeleceram por lá acharam por bem matá-lo, mas temeram que não conseguissem e, se não conseguissem, poderiam encomendar a alma ao Criador; razão pela qual o chamaram para conversar e o enredaram com uma história comprida.
A história não envolvia ouro, mas a nação dos apinajés, índios brancos que muitos viram, mas que ninguém nunca capturou e que ninguém sabia se eram filhos de degredados ou índios mesmos. Os curraleiros juravam que eles tinham sido vistos nas margens do rio Gurupi e, por isso, se comprometeram a financiar uma expedição para que o paulista
