Explore mais de 1,5 milhão de audiolivros e e-books gratuitamente por dias

A partir de $11.99/mês após o período de teste gratuito. Cancele quando quiser.

Porque Sim
Porque Sim
Porque Sim
E-book147 páginas1 hora

Porque Sim

Nota: 0 de 5 estrelas

()

Ler a amostra

Sobre este e-book

Família. Escola. Política. Porquê? Porque sim. Pois, como diz o autor, «continuo a acreditar que vale a pena participar e que o caminho estará na atenção aos sentimentos do outro e à possibilidade de nos reconectarmos a todos os níveis. Num momento em que se privilegia a socialização à distância pela Internet, nunca é demais salientar a importância de criar proximidade com quem está ao alcance do nosso olhar, num movimento renovado de criação de laços afectivos tanto quanto possível duradouros».
IdiomaPortuguês
EditoraCaminho
Data de lançamento30 de set. de 2010
ISBN9789722123228
Porque Sim

Leia mais títulos de Daniel Sampaio

Autores relacionados

Relacionado a Porque Sim

Ebooks relacionados

Relacionamentos para você

Visualizar mais

Categorias relacionadas

Avaliações de Porque Sim

Nota: 0 de 5 estrelas
0 notas

0 avaliação0 avaliação

O que você achou?

Toque para dar uma nota

A avaliação deve ter pelo menos 10 palavras

    Pré-visualização do livro

    Porque Sim - Daniel Sampaio

    Ficha Técnica

    PORQUE SIM

    Autor: Daniel Sampaio

    Editora: Caminho

    Design gráfico da capa: Rui Garrido

    Fotografia da capa: António Rosado

    ISBN: 9789722123228

    © Daniel Sampaio e Editorial Caminho — 2009

    Uma editora do grupo Leya

    Editorial Caminho

    Rua Cidade de Córdova, n.º 2

    2610-038 Alfragide – Portugal

    www.caminho.leya.com

    Porque Sim

       O presente volume reúne as crónicas publicadas entre 2007 e 2009 na revista Pública, parte integrante do jornal Público de domingo. Foram transcritas com pequenas alterações, justificadas pela necessidade de actualizar algum texto, mas continuam a ser letras de imprensa tal como as escrevi.

       A sua publicação em livro foi sugerida por numerosos leitores do jornal e incentivada pelo meu editor: todos entenderam ser útil juntar em livro um conjunto de reflexões, às vezes apressadas, mas talvez com alguma coerência. A edição conjunta destes textos teria a vantagem de os tornar mais duradouros do que o papel de jornal e permitiria debater alguns dos meus pontos de vista, de outra forma esquecidos na pressa do quotidiano.

       Resolvemos editar estas crónicas dividindo-as em três capítulos: Família, Escola e Política. Com esta organização os textos não seguem a cronologia da sua publicação, mas tornam-se mais congruentes entre si, permitindo a reflexão do leitor sobre cada tema geral.

       Ficam assim mais perceptíveis as minhas posições sobre a família, ao considerar que o século XXI valorizará cada vez mais o espaço privado e que nunca, como agora, os pais se preocuparam tanto com os filhos, nem o pai (homem) esteve tão perto dos seus filhos bebés. Podendo também compreender-se a minha tese de que a escola actual precisa de se redefinir, pois conserva métodos do passado perante crianças e adolescentes tão diferentes dos de outrora. Compreenderão os leitores algumas das minhas ideias sobre a política, numa perspectiva de participação cívica que este livro deixa perceber.

       Se pretendermos um traço comum destes textos tão dispersos, olhemos para o título deste livro, comum ao da rubrica do jornal: Porque sim. É que eu continuo a acreditar que vale a pena participar e que o caminho estará na atenção aos sentimentos do outro e à possibilidade de nos reconectarmos a todos os níveis. Num momento em que se privilegia a socialização à distância pela Internet, nunca é demais salientar a importância de criar proximidade com quem está ao alcance do nosso olhar, num movimento renovado de criação de laços afectivos tanto quanto possível duradouros.

       Agradeço ao director do Público a possibilidade de escrever no jornal e à equipa da Pública todo o apoio prestado.

    Lisboa, Maio de 2009

    Daniel Sampaio

    Saúde pública

       Completaram-se em 2008 cem anos sobre o nascimento de meu Pai, Arnaldo Sampaio, médico de Saúde Pública. Alguns dos muitos que com ele trabalharam e sobretudo o actual director-geral da Saúde, Francisco H. George, entenderam assinalar a data e homenagear a sua memória. Depois de observar o filme que documenta a sua vida, tive ocasião não só de comentar para os presentes aspectos do muito que aprendi com ele, como também de acentuar o seu exemplo de dedicação à causa pública.

       Como educador, tinha dois postulados essenciais: a coesão da família e a importância do contacto com o exterior. No primeiro caso, sempre nos ensinou a importância da continuidade intrapsíquica da família, aquele sentimento que nos fazia pertencer ao grupo familiar, mesmo quando não nos víamos com frequência. Não éramos só os quatro Sampaios, fazíamos parte de uma rede relacional mais vasta, integrada pelos nossos avós, tios e primos. Para reforçar as malhas dessa teia relacional, não dispensava visitas à sua terra natal (Guimarães), nem jamais esquecia o que tinha aprendido com os seus antepassados, pessoas de trabalho para quem a persistência e a honestidade eram valores fundamentais.

       No quotidiano da vida familiar, o meu Pai era um pioneiro daquilo que deveriam ser as formas de relacionamento das novas famílias, hoje bem diferentes: ouvia sempre, mesmo quando chegava cansado do trabalho; estimulava a discussão e a crítica construtiva, mas decidia quando a discussão se eternizava. Lembro-me dele perante famílias de agora, sempre a queixarem-se de falta de tempo e de exaustão, em que pais e filhos comem a horas diferentes frente à televisão ou ao computador; não há ocasião para uma escuta atenta, nem as pessoas se podem confrontar sem se afrontarem: nos jantares com o meu Pai não havia lugar para silêncios nem distracções, todos respeitávamos o ponto de vista alheio, numa pedagogia do reconhecimento do outro, um dos mais importantes valores que nos transmitiu.

       Desde cedo despertou nos dois filhos uma consciência cívica que norteou a nossa vida: para ele não fazia sentido faltar, chegar atrasado, adiar um exame, atraiçoar um colega ou fazer de conta que não se via uma pessoa a pedir ajuda. Entendia que era essencial conhecer novas terras e novas gentes, por isso nos anos 40 e 50 foi estudar para os EUA e para Inglaterra, numa altura em que não estava em voga a especialização no estrangeiro, nem os médicos dispunham dos apoios avultados da indústria farmacêutica, uma regra nos dias de hoje. Graças a esses conhecimentos, teve uma influência decisiva na organização do Plano Nacional de Vacinação e foi capaz de liderar a luta contra as epidemias de cólera dos anos 70, para além de ter sido pioneiro, com Gonçalves Ferreira e Baltazar Rebelo de Sousa, da criação dos Centros de Saúde, um conceito na altura muito inovador e que ainda hoje se procura desenvolver.

       Como médico de Saúde Pública, defendia que «os serviços têm de ser criados e mantidos pelo esforço colectivo da comunidade para alcançar o bem-estar físico e moral, isto é, a Saúde» e que era necessário «dignificar uma carreira de médicos de Saúde Pública, habilitados a tratar os complexos problemas médico-sociais». Neste momento, as suas palavras conservam toda a actualidade: os médicos de Saúde Pública perdem influência e a sua carreira está comprometida, com o deslocamento das suas actividades para tarefas burocráticas.

       Ao contrário do que propôs Arnaldo Sampaio, os Centros de Saúde têm escassas ou desorganizadas acções de promoção da saúde e de prevenção da doença e, mesmo na função de Medicina Curativa, revelam muitas lacunas. Como é sabido, muitos portugueses continuam sem médico de família, há consultas a que só se tem acesso depois de horas de espera e a articulação com a Medicina hospitalar continua a fazer-se com dificuldade.

       Arnaldo Sampaio escrevia em 1960: «Os Centros de Saúde têm por função a promoção da saúde, a prevenção e o tratamento dos doentes da sua área que não necessitem de cuidados altamente especializados. Estes deveriam ser endereçados ao hospital e, logo que o seu estado o permitisse, remetidos ao Centro de Saúde para continuação do tratamento e vigilância.» Mais de quarenta anos depois, vemos que esta circulação se faz com problemas; e que as elogiadas Unidades de Saúde Familiar, além de escassas em número, abandonaram qualquer acção preventiva e de promoção da saúde.

       Falta a verdadeira reforma dos cuidados primários, um dos sonhos do meu Pai que tarda em se realizar.

    A morte do Pato Donald

       O artigo «Os 25 mitos da Pediatria», publicado em 2008 no Expresso, dava conta de «conhecimentos inéditos sobre o desenvolvimento biológico» que «estariam a revolucionar os cuidados aos mais pequenos». Resultante de perguntas a pelo menos cinco pediatras experientes, o texto continha informações importantes para pais e educadores.

       Algumas informações não eram grandes novidades: a importância do leite materno, a não necessidade de esperar pelo fim da refeição para poder dar banho e o não entrar em pânico perante uma febre de apenas três dias, são hoje prática comum da maioria dos pais. São mais relevantes e inovadoras a recomendação de deitar o bebé de barriga para cima até aos seis meses, a informação de que limpeza exagerada a mudar a fralda é inimiga da pele ou o esclarecimento de que a tosse é um meio normal do corpo eliminar secreções, pelo que o xarope se torna desnecessário.

       O que o artigo não desenvolve é a mudança profunda das crianças ocorrida nos últimos quarenta anos. Os conhecimentos sobre o desenvolvimento neurobiológico do bebé foram decisivos para o considerar um ser diferenciado da mãe desde as primeiras semanas (embora com necessidade, característica da espécie humana, de vinculação precoce a um adulto) e a investigação demonstrou como uma relação estável e segura com um familiar é crucial para o futuro dos mais novos. Se somarmos a estes dados as mudanças ocorridas na família na segunda metade do século XX (com o casamento por amor e a sua fragmentação frequente pelo divórcio), vemos como tudo se alterou: as crianças de hoje nascem com direitos, a sua voz é ouvida e os pais cada vez se preocupam mais com os filhos, mesmo que possam estar inseguros sobre

    Está gostando da amostra?
    Página 1 de 1