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Servidão Humana - Somerset Maugham
Ficha Técnica
Título original: OF HUMAN BONDAGE
Autor: the Royal Literary Fund
ISBN: 9789892311388
Edições ASA é uma chancela do Grupo LeYa
R. Cidade de Córdova, n.º 2
2160-038 Alfragide – Portugal
Tel.: (+351) 214 272 200
Fax: (+351) 214 272 201 © Copyright by the Royal Literary Fund
Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor
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PREFÁCIO
Sendo este romance já bastante longo, sinto até vergonha de o tornar ainda mais longo acrescentando-lhe um prefácio. O autor é provavelmente a última pessoa capaz de discorrer com objectividade sobre o seu próprio trabalho. O distinto romancista francês Roger Martin du Gard conta, a propósito desta questão, uma história exemplar sobre Marcel Proust. Proust queria que determinado jornal francês publicasse um artigo sobre o seu grande romance e, pensando que ninguém seria capaz de o fazer melhor do que ele, sentou-se à secretária e escreveu-o ele mesmo. Depois pediu a um jovem amigo, também escritor, que o assinasse e entregasse ao director do jornal. O jovem assim fez, mas passados alguns dias o director mandou-o chamar. «Tenho de recusar o seu artigo» disse ele. «Marcel Proust jamais me perdoaria se eu publicasse uma crítica tão superficial e contundente sobre a sua obra.» Embora os autores sejam susceptíveis em relação ao seu trabalho e revelem tendência para reagir mal às críticas desfavoráveis, raramente o que produzem os satisfaz, pois têm consciência da incomensurável distância que separa a ideia original da obra a que dedicaram tanto tempo e esforço e, ao pensarem nisto, ficam muito mais contrariados com a sua incapacidade de expressarem essa ideia na íntegra do que satisfeitos com algumas passagens para que podem olhar com complacência. O seu objectivo é a perfeição e estão dolorosamente conscientes de não a terem atingido.
Assim sendo, nada direi sobre o meu livro propriamente dito, e contentar-me-ei em contar ao leitor destas linhas como surgiu um romance que, para romance, já leva uma vida longa; e, se isso não lhe interessar, peço-lhe que me perdoe. Escrevi a primeira versão quando, com vinte e três anos de idade e tendo acabado de me formar em Medicina ao fim de cinco anos de estudo no hospital de St. Thomas, fui para Sevilha disposto a ganhar a vida como escritor. O manuscrito do livro que então escrevi ainda existe, mas não voltei a olhar para ele desde que corrigi as provas impressas, e não tenho qualquer dúvida de que é muito imaturo. Enviei-o a Fisher Unwin, que tinha publicado o meu primeiro livro (ainda estudante de Medicina, tinha escrito um romance intitulado Liza, a Pecadora, que obteve bastante sucesso), mas ele recusou-se a pagar-me as cem libras que eu pretendia, e nenhum dos outros editores a quem posteriormente enviei o manuscrito achou que valesse essa ou outra soma. Isto incomodou-me bastante na época, mas agora sei que tive muita sorte, pois se algum deles tivesse aceitado o livro (intitulava-se então The Artistic Temperament of Stephen Carey), eu teria desperdiçado um tema que era ainda muito novo para explorar devidamente. Não estava suficientemente distanciado dos acontecimentos que descrevia para deles poder tirar o melhor partido, e ainda não tinha vivido uma série de experiências que mais tarde vieram enriquecer a história que finalmente escrevi. E também ainda não tinha aprendido que é mais fácil escrever sobre o que se conhece do que sobre o que não se conhece. Eu mandava, por exemplo, o meu herói para Rouen (que apenas conhecia de visitas esporádicas), para aprender francês, em vez de o mandar para Heidelberg (onde eu próprio tinha vivido), para aprender alemão.
Sentindo-me rejeitado, pus o manuscrito de lado. Escrevi outros romances, que foram publicados, e escrevi para o teatro. Tornei-me com o tempo um dramaturgo de sucesso e estava decidido a dedicar o resto da minha vida ao teatro, mas, achava eu, sem a necessária força interior, o que tornava vãs as minhas resoluções. Era feliz, era próspero, tinha uma vida plena. A minha cabeça estava repleta de peças que eu queria escrever. Não sei se era por o sucesso não me trazer tudo aquilo com que havia sonhado ou se era a minha reacção natural a esse facto, mas o certo é que ainda mal tinha firmado os meus créditos como o dramaturgo mais popular da época e já estava outra vez obcecado pelas memórias fervilhantes da minha vida passada. Assaltavam-me com tanta persistência durante o sono, passeios, ensaios e reuniões sociais, e tornaram-se um fardo tão insuportável que concluí que só havia uma maneira de me livrar delas, que era passá-las todas para o papel. Depois de me submeter por vários anos às restrições da escrita para teatro, ansiava agora pela ampla liberdade do romance. Sabia que o livro que tinha em mente seria extenso e, como não queria que nada me perturbasse, recusei os contratos que os directores das companhias insistiam em me oferecer e retirei-me temporariamente dos palcos. Tinha então trinta e sete anos.
Quando me tornei escritor de profissão, passei muito tempo a aprender a escrever e a sujeitar-me a um treino laborioso e cansativo, num esforço constante para aperfeiçoar o meu estilo. Abandonei, porém, estes esforços quando as minhas peças começaram a ser produzidas e, quando retomei a escrita, o objectivo já era diferente. Já não procurava uma prosa adornada de textura rica, em vãs tentativas para alcançar aquilo em que antes tinha desperdiçado tanto trabalho; procurava, pelo contrário, a clareza e a simplicidade. Era tanto o que eu queria dizer dentro dos limites do razoável que sentia que não podia dar-me ao luxo de esbanjar palavras e lançava-me agora na escrita com a noção de que devia usar somente as estritamente necessárias para tornar claro o meu discurso. Não tinha espaço para arrebiques. A minha experiência no teatro tinha-me ensinado o valor da concisão. Trabalhei ininterruptamente durante dois anos. Não sabia que título dar ao meu livro e, depois de muito procurar, ocorreu-me Beauty from Ashes (Glória em vez de Cinza), uma citação de Isaías, que me pareceu apropriada; mas tendo conhecimento de que este título tinha sido usado recentemente, vi-me obrigado a procurar outro. Por fim, escolhi o nome de um dos livros da Ética de Espinosa e chamei ao meu romance Servidão Humana. Tenho a sensação de que fui mais uma vez bafejado pela sorte ao descobrir que não podia usar o primeiro título em que tinha pensado.
Servidão Humana é, não uma autobiografia, mas um romance autobiográfico; factos e ficção estão nele indestrinçavelmente ligados; as emoções são minhas, mas nem todos os incidentes são relatados tal como aconteceram e alguns são transferidos para o meu herói, não a partir da minha própria vida, mas da vida de pessoas com quem privei intimamente. O livro deu-me aquilo que eu desejava, e quando foi dado a conhecer ao mundo (um mundo na agonia de uma guerra terrível e demasiado centrado no seu próprio medo e sofrimento para se preocupar com as aventuras de uma personagem de ficção) senti-me liberto das mágoas e das memórias infelizes que me tinham atormentado. As críticas foram muito boas; Theodore Dreiser escreveu uma longa recensão no New Republic em que abordava a obra com a inteligência e a simpatia que marcam todos os seus escritos; todavia, este romance parecia destinado a seguir o caminho da grande maioria dos romances e cair no esquecimento alguns meses após a sua publicação. No entanto, não sei por que obra do acaso, passados alguns anos atraiu a atenção de um conjunto de ilustres escritores dos Estados Unidos e as referências que eles constantemente lhe faziam na imprensa trouxeram novamente o livro à atenção do público. A estes escritores se deve este novo sopro de vida que o romance recebeu e a eles devo agradecer o crescente sucesso que o livro tem continuado a alcançar com o passar dos anos.
1
O dia raiou cinzento e tristonho. As nuvens adensavam-se, carregadas, e pairava no ar um frio agreste, prenúncio de neve. Uma criada entrou num quarto onde dormia uma criança e correu as cortinas. Olhou mecanicamente para a casa em frente, de estuque branco com um pórtico, e abeirou-se da cama.
— Vamos, Philip, acorde — disse ela.
Puxando os cobertores para trás, pegou-lhe ao colo e desceu as escadas com o menino ainda semiadormecido.
— A sua mãe quer vê-lo.
Abriu a porta de um quarto no andar de baixo e levou-o até uma cama onde estava deitada uma mulher. A mãe dele. A mulher estendeu os braços e o menino aconchegou-se ao seu lado sem perguntar porque tinham ido acordá-lo. A mulher beijou-lhe os olhos; com mãos magras e delicadas, sentiu-lhe o calor do corpo através da camisa de dormir de flanela branca e apertou-o mais contra si.
— Estás com soninho, meu querido? — perguntou ela.
A voz era tão débil que parecia vir de muito longe. O menino não respondeu, mas sorriu feliz. Era tão bom estar na cama grande e quente, com aqueles braços macios a aconchegá-lo. Tentando fazer-se ainda mais pequenino, aninhado ao lado da mãe, deu-lhe um beijo ensonado e, num instante, fechou os olhos e adormeceu profundamente. O médico aproximou-se e parou junto da cama.
— Oh, não o leve ainda — pediu a mulher num gemido.
Sem responder, o médico fitou-a muito sério. Sabendo que não iam deixá-la ficar com o menino por muito mais tempo, a mulher beijou-o novamente e, com a mão, acariciou-lhe o corpinho até aos pés; em seguida agarrou-lhe o pé direito, acariciou os cinco dedinhos e, lentamente, fez-lhe uma festa no pé esquerdo. Depois soltou um suspiro.
— O que foi? — disse o médico. — Sente-se cansada?
Ela abanou a cabeça, sem conseguir falar, e as lágrimas rolaram-lhe pelas faces. O médico inclinou-se sobre ela.
— Deixe-me levá-lo.
Demasiado fraca para resistir, ela deu-lhe o menino e o médico entregou-o por sua vez à ama.
— É melhor ir deitá-lo outra vez na cama dele.
— Sim, senhor doutor.
A criança foi levada, ainda adormecida, deixando a mãe a soluçar, inconsolável.
— O que vai ser dele, pobrezinho?
A enfermeira tentou acalmá-la e, por fim, o choro cedeu à exaustão. O médico aproximou-se de uma mesa, do outro lado do quarto, onde, debaixo de uma toalha, jazia o corpo de um nado-morto. Levantou a toalha e olhou para ele. Estava escondido da cama por um biombo, mas a mulher percebeu o que ele estava a fazer.
— Era menina ou menino? — perguntou ela baixinho à enfermeira.
— Outro menino.
A mulher não respondeu. Pouco depois a ama voltou a entrar no quarto e aproximou-se da cama.
— O menino Philip não acordou — disse ela.
Houve uma pausa e depois o médico tomou novamente o pulso à paciente.
— Penso que por agora não há mais nada que eu possa fazer — disse ele. — Volto depois do pequeno-almoço.
— Eu acompanho-o à porta, senhor doutor — disse a ama. Desceram as escadas em silêncio. Ao chegar ao vestíbulo o médico parou.
— Mandou chamar o cunhado de Mrs. Carey, não é verdade?
— Sim, senhor doutor.
— Sabe a que horas chega?
— Não, senhor, estou à espera de um telegrama.
— E o pequeno? Acho melhor que não esteja por aqui.
— Miss Watkin disse que o levava.
— Quem?
— A madrinha dele. O senhor doutor acha que Mrs. Carey vai recuperar?
O médico abanou a cabeça.
2
Tinha passado uma semana. Philip estava sentado no chão, na sala de Miss Watkin, em Onslow Gardens. Era filho único, estava habituado a brincar sozinho. A sala estava repleta de móveis pesados e havia três almofadas grandes em cima de cada um dos sofás. E ainda uma almofada em cada poltrona. Ele tinha-as tirado todas e, com a ajuda das cadeiras de talha dourada, leves e fáceis de transportar, tinha feito uma gruta elaborada onde se podia esconder dos índios emboscados atrás dos cortinados. De ouvido colado ao chão, escutava a manada de búfalos à desfilada pela pradaria. Ou vindo a porta abrir-se, susteve a respiração para não ser descoberto, mas uma mão arredou com violência uma das cadeiras e as almofadas caíram.
— Mas que menino endiabrado, Miss Watkin vai ficar muito zangada consigo.
— Olá, Emma! — disse ele.
A ama baixou-se e deu-lhe um beijo, começando a sacudir as almofadas e a pô-las no lugar.
— Vou voltar para casa? — perguntou ele.
— Sim, vim buscá-lo.
— Trazes um vestido novo.
Corria o ano de 1885 e o vestido era de anquinhas: veludo preto, com mangas justas e ombros descaídos, e saia com três largos folhos. O chapelinho de aba era preto com fitas de veludo. A ama hesitou. A pergunta que esperava não tinha sido feita e, assim, não podia dar a resposta que já trazia preparada.
— Não vai perguntar como está a sua mãe? — disse ela por fim.
— Ah, esqueci-me. Como está a mamã?
Agora sim, estava preparada.
— A sua mãe está muito bem e muito feliz.
— Que bom.
— A sua mãe foi-se embora e o menino não vai voltar a vê-la. Philip não estava a entender.
— Porquê?
— A sua mãe está no Céu.
Emma começou a chorar e Philip, mesmo sem perceber muito bem porquê, imitou-a. Emma era uma mulher alta e robusta, de cabelo loiro e traços grossos. Era oriunda do Devonshire e, apesar dos muitos anos passados em Londres a servir, nunca tinha perdido o sotaque. As lágrimas exacerbaram-lhe a emoção e apertou o menino contra o peito. Sentia algum dó daquela criança, privada do único amor no mundo que não é egoísta, e horrorizava-a pensar que teria de ser entregue aos cuidados de estranhos. Mas num instante se recompôs.
— O seu tio William está lá em casa à sua espera — disse ela. — Vá dizer adeus a Miss Watkin, para nos irmos embora.
— Eu não quero ir dizer adeus — retorquiu ele, numa ânsia instintiva de esconder as lágrimas.
— Muito bem, então vá lá acima buscar o seu chapéu.
Ele assim fez e, quando voltou, Emma já estava à espera no vestíbulo. Philip ouviu o som de vozes no escritório por trás da sala de jantar. Parou. Sabia que Miss Watkin e a irmã estavam a conversar com amigas e achava (tinha nove anos) que, se entrasse, elas iam ficar com pena dele.
— Acho que vou dizer adeus a Miss Watkin.
— Acho melhor — disse Emma.
— Vai dizer-lhes que eu vou lá — disse ele.
Queria tirar o máximo partido desta oportunidade. Emma bateu à porta e entrou. Ele ouviu-a falar.
— O menino quer vir despedir-se, Miss Watkin.
A conversa foi subitamente interrompida e Philip entrou a coxear. Henrietta Watkin era uma mulher robusta, de faces coradas e cabelo pintado. Naquela época pintar o cabelo suscitava comentários e, em casa, Philip tinha ouvido críticas à madrinha quando ela mudara a cor do cabelo. Henrietta vivia com uma irmã mais velha que se tinha resignado alegremente à chegada da velhice. Na sala estavam mais duas senhoras, que tinham vindo fazer uma visita e que Philip não conhecia, que o olharam com curiosidade.
— Pobre criança — disse Miss Watkin, abrindo os braços.
Nisto começou a chorar e só então Philip compreendeu a razão de ela não ter almoçado em casa e estar vestida de preto. Ela não conseguia falar.
— Tenho de voltar para casa — disse Philip por fim.
Libertou-se do abraço de Miss Watkin, que lhe deu mais um beijo. Em seguida dirigiu-se à irmã dela e despediu-se também. Uma das senhoras desconhecidas perguntou se podia dar-lhe um beijinho e ele, muito sério, disse que sim. Apesar das lágrimas, agradava-lhe sobremaneira ser o centro das atenções e de bom grado teria ficado mais um pouco para se deixar acarinhar, mas percebeu que elas queriam que ele se fosse embora e então disse que Emma estava à espera. Saiu da sala, mas como Emma tinha ido à cave falar com uma amiga, ficou à espera dela no vestíbulo. Ouviu a voz de Henrietta.
— A mãe dele era a minha melhor amiga. Não suporto pensar que está morta.
— Não devias ter ido ao funeral, Henrietta — disse-lhe a irmã. — Eu sabia que te ia fazer mal.
Nisto, uma das desconhecidas disse:
— Pobre menino, é terrível imaginá-lo completamente só no mundo. Vi que coxeia.
— Sim, tem pé boto. A mãe tinha um desgosto tão grande. Emma voltou. Chamaram um cabriolé e ela deu a morada ao cocheiro.
3
Quando chegaram à casa onde Mrs. Carey tinha falecido, numa rua austera e respeitável entre Notting Hill Gate e a High Street, Kensington, Emma levou Philip para a sala. O tio estava a escrever cartas a agradecer as coroas de flores que tinham sido enviadas. Uma delas, que tinha chegado demasiado tarde para o funeral, jazia na sua caixa de cartão em cima da mesa do vestíbulo.
— Aqui está o menino Philip — disse Emma.
Mr. Carey levantou-se vagarosamente e cumprimentou o me nino com um aperto de mão. Depois, pensando melhor, baixou-se e deu-lhe um beijo na testa. Era um homem mais baixo do que o normal, com propensão para a obesidade e o cabelo, que deixara crescer, penteado sobre o couro cabeludo de modo a dissimular a calvície. A cara, barbeada, tinha feições correctas e via-se que em novo devia ter sido bem-parecido. Uma cruz de ouro pendia da corrente do relógio.
— Agora vais ficar a viver comigo, Philip — disse Mr. Carey. — Achas que vais gostar?
Dois anos antes Philip tinha passado duas semanas no vicariato na sequência de um ataque de varicela mas, mais do que a lembrança dos tios, era a imagem de um sótão e de um grande jardim que guardava na memória.
— Sim.
— Deves considerar-nos, a mim e à tua tia Louisa como teu pai e tua mãe.
O menino corou, com o lábio a tremer ligeiramente, mas não respondeu.
— A tua querida mãe deixou-te ao meu cuidado.
Mr. Carey não se expressava com facilidade. Quando recebeu a notícia de que a cunhada estava a morrer, partira imediatamente para Londres, mas durante a viagem só pensava no transtorno que seria se, por morte dela, se visse obrigado a tomar conta do sobrinho. Já tinha ultrapassado há muito os cinquenta, e a mulher, com quem estava casado há trinta anos, não tinha filhos. Não via, por isso, com grande agrado a presença de uma criança que bem poderia ser barulhenta e truculenta. Além disso, nunca tinha gostado muito da cunhada.
— Vou levar-te amanhã para Blackstable — disse.
— Com a Emma?
O menino deu a mão à ama e ela apertou-lha.
— Infelizmente a Emma tem de se ir embora — disse Mr. Carey.
— Mas eu quero que a Emma venha comigo.
Philip começou a chorar e a ama também não conseguiu reprimir as lágrimas. Mr. Carey olhou-os com desalento.
— Acho melhor deixar-me a sós com o Philip por um momento.
— Com certeza, Mr. Carey.
Emma libertou suavemente a mão que Philip continuava a agarrar e Mr. Carey sentou o menino sobre os joelhos e colocou um braço à volta dele.
— Não deves chorar. Já estás muito crescido para teres uma ama. Temos de começar a pensar em mandar-te para um colégio.
— Eu quero que a Emma venha comigo — repetia o menino.
— Isso sai muito caro, Philip. O teu pai não deixou muito dinheiro e não sei onde foi parar. Tens de contar cada moedinha que gastares.
Na véspera Mr. Carey tinha ido falar com o solicitador da família. O pai de Philip tinha sido um cirurgião famoso, como o demonstrava a lista de pacientes do hospital, pelo que foi com surpresa que o irmão descobriu, após a sua morte súbita por envenenamento de sangue, que ele tinha deixado à viúva pouco mais do que o seguro de vida e o que lhe oferecessem pelo arrendamento da casa de Bruton Street. Isto tinha-se passado há seis meses. Mrs. Carey, já então com a saúde debilitada, e grávida, tinha perdido a cabeça e aceitado a primeira oferta que lhe haviam feito para alugar a casa; tinha guardado os móveis todos na arrecadação e, por uma renda que o pastor considerava escandalosa, tinha alugado uma casa mobilada por um ano para não ter quaisquer preocupações até ao nascimento do bebé. Porém, sem prática de gerir o dinheiro, fora incapaz de adaptar os gastos às novas circunstâncias. O pouco que tinha escapou-se-lhe por entre os dedos nisto e naquilo, e agora, depois de ter pago todas as despesas, restavam-lhe pouco mais de duas mil libras para criar o filho até ele ter idade para ganhar a vida.
Porém, era impossível explicar tudo isto a Philip, que continuava a soluçar.
— É melhor ires para o pé da Emma — disse Mr. Carey, sentindo que ela podia, melhor do que ninguém, consolá-lo.
Sem uma palavra, Philip escorregou do joelho do tio, mas este agarrou-o.
— Temos de partir amanhã, porque no sábado tenho de preparar o meu sermão, e tens de dizer à Emma para ter as tuas coisas prontas ainda hoje. Podes levar todos os teus brinquedos e, se quiseres também alguma recordação dos teus pais, podes levar uma de cada um deles. O resto vai ser tudo vendido.
O menino esgueirou-se da sala. Mr. Carey, pouco habituado a trabalhar, começou, contrariado, a abrir a correspondência. Num dos lados da secretária estava um monte de contas que o deixaram irritadíssimo. Uma delas em especial parecia um absurdo. Aquando da morte de Mrs. Carey, Emma tinha encomendado na florista dúzias de flores brancas para decorar o quarto onde a defunta jazia. Um verdadeiro desperdício de dinheiro. Emma tinha demasiada autonomia. Mesmo sem problemas financeiros, ele tê-la-ia despedido.
Mas Philip correu para ela e escondeu o rosto no seu peito, chorando como se sentisse o coração prestes a explodir. Ela, que o considerava quase como um filho, pois tinha começado a cuidar dele com um mês, consolou-o com palavras meigas. Prometeu ir visitá-lo de vez em quando e que jamais o esqueceria; e falou-lhe da região para onde ele ia viver e também da casa dela no Devonshire, onde o pai tinha terras com portagem na estrada de Exeter, com porcos e uma vaca que tinha acabado de dar à luz uma vitelinha, até Philip enxugar as lágrimas, entusiasmado com a viagem que se aproximava. Por fim, pousou-o no chão, pois havia muito para fazer, e ele ajudou-a a dispor as roupas dele em cima da cama. Ela mandou-o ir buscar os brinquedos ao quarto e pouco depois ele brincava contente.
Eventualmente, acabou por se cansar de estar sozinho e voltou para o quarto, onde Emma estava agora a arrumar as coisas dele numa grande arca; nesse momento lembrou-se de que o tio lhe tinha dito que podia levar uma recordação do pai e outra da mãe e perguntou a Emma o que havia de ser.
— O melhor é ir à sala procurar alguma coisa de que goste.
— O tio William está lá.
— Isso não faz mal. Agora as coisas são suas.
Philip desceu a escada muito devagar e encontrou a porta da sala aberta. Mr. Carey já tinha saído. Começou a dar lentamente a volta à sala. Tinham vivido ali tão pouco tempo que poucas coisas lhe interessavam. Era uma sala desconhecida e Philip não viu nada que lhe agradasse. Sabia, porém, quais eram as coisas da mãe e quais as do senhorio, e acabou por se fixar num pequeno relógio que um dia tinha ouvido a mãe dizer que gostava, voltando com ele desconsoladamente para o andar de cima. Ao passar à porta do quarto da mãe, parou e pôs-se à escuta. Embora nunca ninguém lhe tivesse dito para não entrar, sentia que não devia fazê-lo. Estava com medo e sentia o coração a bater descompassado, mas, ao mesmo tempo, algo o impelia a rodar a maçaneta. Fê-la girar muito devagarinho, dir-se-ia que para evitar que alguém lá dentro o ou visse, e empurrou a porta devagar, parando por instantes no limiar a ganhar coragem para entrar. Já não sentia medo, mas a sensação era estranha. Entrou e fechou a porta. As persianas estavam corridas e o quarto encontrava-se mergulhado na penumbra fria daquela tarde de Janeiro. Em cima do toucador alinhavam-se as escovas e o espelho de Mrs. Carey e, num cestinho, os ganchos do cabelo. Havia um retrato dele sobre a lareira e também um do pai. Tinha entrado muitas vezes no quarto sem a mãe lá estar, mas desta vez era diferente. Havia algo de peculiar nas cadeiras. A cama estava feita como se nessa noite alguém fosse dormir nela e havia até uma camisa de dormir metida num saquinho sobre a almofada.
Philip abriu um grande roupeiro repleto de vestidos e, entrando nele, agarrou tantos quantos pôde nos seus braços e enterrou neles a cara. Cheiravam ao perfume que a mãe usava. Em seguida abriu as gavetas, cheias de coisas da mãe, e quedou-se a olhar: havia saquinhos de lavanda entre a roupa e o cheiro era fresco e bom. A estranheza do quarto desapareceu e parecia-lhe agora que a mãe tinha apenas saído para ir dar um passeio e não tardaria a voltar para tomar chá com ele no quarto dos brinquedos. Pareceu-lhe sentir também o beijo dela nos seus lábios.
Não era verdade que não ia voltar a vê-la. Não era verdade porque, simplesmente, era impossível. Trepou para cima da cama e deitou a cabeça na almofada, ficando ali deitado, muito quieto.
4
Philip separou-se de Emma lavado em lágrimas, mas divertiu-se na viagem para Blackstable e, quando chegaram, estava resignado e contente. Blackstable ficava a pouco mais de noventa quilómetros de Londres. Mr. Carey entregou a bagagem a um carregador e percorreram os dois a pé a distância até ao vicariato; o trajecto demorou pouco mais de cinco minutos e, quando chegaram, Philip lembrou-se de repente do portão. Era vermelho, com cinco barras de ferro e dobradiças dóceis, e abria para os dois lados, o que lhe permitia, embora tal fosse proibido, balouçar-se nele para a frente e para trás. Atravessaram o jardim em direcção à porta principal, que era usada apenas pelas visitas, aos domingos e em ocasiões especiais, como quando o vigário ia ou voltava de Londres. A restante serventia da casa fazia-se por uma porta lateral, e havia ainda a porta das traseiras, para o jardineiro, os pedintes e os vagabundos. Era uma casa bastante grande de tijolo amarelo e telhado vermelho, ao estilo eclesiástico, construída há cerca de vinte e cinco anos. A porta principal lembrava o pórtico de uma igreja e as janelas da sala de visitas eram góticas.
Sabendo em que comboio eles chegavam, Mrs. Carey estava à espera na sala, atenta ao bater do portão, e foi abrir a porta assim que o ouviu.
— Olha a tia Louisa — disse Mr. Carey, mal a viu. — Corre, vai dar-lhe um beijo.
Philip começou a correr desajeitadamente, a arrastar o pé boto, e de repente parou. Mrs. Carey era uma mulher baixinha e mirrada, mais ou menos da idade do marido, com o rosto profundamente sulcado por rugas e olhos azul-claros. O cabelo grisalho estava penteado em canudos, como se usava quando era nova, e trazia um vestido preto, tendo como único ornamento um fio de ouro com uma cruz. Os seus modos eram tímidos e a voz suave.
— Vieste a pé, William? — disse ela, quase em tom de censura, dando um beijo ao marido.
— Nem me lembrei — disse ele, olhando de relance para o sobrinho.
— Não te custou vir a pé, Philip, pois não? — perguntou ela.
— Não. Eu ando sempre a pé.
Philip achou um pouco estranha esta conversa. A tia Louisa disse-lhe para entrar para o vestíbulo. O chão era de azulejos vermelhos e amarelos e neles alternavam uma Cruz Grega e o Cordeiro de Deus. Do vestíbulo partia uma escada imponente de pinho envernizado, com o seu odor característico, que só existia porque, felizmente, quando foram feitos novos bancos para a igreja, sobrou madeira suficiente. As balaustradas estavam decoradas com os emblemas dos quatro evangelistas.
— Acendi o fogão, a pensar que podiam ter frio depois da viagem — disse Mrs. Carey.
Era um grande fogão preto, que estava no vestíbulo e que só era aceso quando fazia muito mau tempo e o vigário apanhava uma constipação. Mas nunca era aceso quando era Mrs. Carey a ter uma constipação. O carvão era caro. Além disso, Mary Ann, a criada, não gostava de fogões acesos por todo o lado. Se quisessem tantos fogões acesos tinham de contratar outra criada. Durante o Inverno Mr. e Mrs. Carey passavam o tempo na sala de jantar, pelo que uma lareira chegava bem, e, no Verão, os hábitos não mudavam; a sala era usada apenas por Mr. Carey aos domingos à tarde para fazer a sua sesta. Mas ao sábado o lume estava sempre aceso no escritório, para ele escrever o sermão.
A tia Louisa levou Philip para cima, para um quartinho minúsculo que dava para o acesso à casa. Em frente à janela havia uma grande árvore de que Philip agora se lembrava, pois os ramos eram tão baixos que se podia trepar até muito alto.
— Um quarto pequeno para um menino pequeno — disse Mrs. Carey. — Não vais ter medo de dormir sozinho?
— Não.
Na primeira visita ao vicariato tinha vindo com a ama e pouco tinha convivido com Mrs. Carey, que o olhava agora algo hesitante.
— Sabes lavar as mãos sozinho ou queres que te ajude?
— Eu lavo-as sozinho — respondeu ele com voz decidida. — Bem, quero vê-las quando desceres para o chá.
Ela não entendia nada de crianças. Desde que ficara decidido que Philip viria para Blackstable, Mrs. Carey tinha pensado muito em como deveria lidar com ele; estava desejosa de cumprir bem o
seu dever, mas agora que ele tinha chegado sentia-se tão tímida quanto ele. Esperava que ele não fosse truculento nem fizesse muito barulho, pois o marido não gostava de rapazes irrequietos. Mrs. Carey deu uma desculpa para deixar Philip sozinho, mas voltou em seguida, bateu à porta e perguntou, sem entrar, se ele conseguia despejar a água sozinho. Por fim desceu e tocou a campainha a chamá-los para o chá.
A sala de jantar, grande e bem proporcionada, tinha janelas em dois dos lados, com pesados reposteiros de repes vermelho. Ao centro havia uma mesa grande e num dos extremos um imponente aparador de mogno com espelho. A um canto estava um harmónio. O fogão de sala era ladeado por duas cadeiras forradas a couro gravado, com coberturas; uma tinha braços e chamavam-lhe o marido e a outra não tinha braços e era a mulher. Mrs. Carey nunca se sentava na cadeira de braços: dizia que preferia uma cadeira que não fosse muito confortável, pois tinha sempre muito que fazer e, se a cadeira tivesse braços, podia não lhe apetecer sair de lá.
Mr. Carey estava a acender o lume quando Philip entrou, e explicou ao sobrinho que havia dois atiçadores. Um era grande e reluzente, novo em folha, e chamavam-lhe o vigário; o outro, muito mais pequeno e que se via ter já passado por muitos lumes, era o coadjutor.
— De que estamos à espera? — disse Mr. Carey.
— Disse à Mary Ann para te fazer um ovo. Pensei que devias estar com fome depois da viagem.
Para Mrs. Carey, a viagem de Londres a Blackstable era muito cansativa. Ela só muito raramente viajava, pois o rendimento era apenas de trezentas libras por ano. Por isso, quando o marido queria fazer umas férias, ia sempre sozinho. Ele gostava muito de ir a congressos religiosos e geralmente arranjava maneira de ir a Londres uma vez por ano; uma vez tinha ido a Paris, à exposição, e duas ou três vezes à Suíça. Mary Ann trouxe o ovo e sentaram-se à mesa. A cadeira era baixa de mais para Philip e por momentos Mr. e Mrs. Carey pareciam não saber o que fazer.
— Vou pôr-lhe uns livros por baixo — disse Mary Ann.
Tirou a grande Bíblia que estava em cima do harmónio e o livro de orações de onde o vigário costumava ler em voz alta e colocou-os na cadeira de Philip.
— Ó William, ele não se pode sentar em cima da Bíblia — disse Mrs. Carey, escandalizada. — E se fosses buscar uns livros ao teu escritório?
Mr. Carey considerou o assunto por um segundo.
— Acho que só esta vez não faz mal, se puseres o livro de orações por cima, Mary Ann — disse ele. — O livro de orações é obra de gente como nós. Não é de autoria divina.
— Não tinha pensado nisso — disse a tia Louisa.
Philip encarrapitou-se nos livros e, depois de dar graças, o vigário cortou o cocuruto do ovo.
— Toma — disse, dando-o a Philip — podes comer o cocuruto se quiseres.
Philip teria de bom grado comido o ovo inteiro, mas como ninguém lho ofereceu, comeu o que pôde.
— Que tal se portaram as galinhas desde que me fui embora? — perguntou o vigário.
— Ah, muito mal, só puseram um ou dois ovos por dia.
— Então, Philip, gostaste do cocuruto? — perguntou o tio.
— Gostei muito, obrigado.
— No domingo à tarde comes outro.
Mr. Carey comia sempre um ovo cozido com o chá de domingo, para ter forças para as orações da noite.
5
A pouco e pouco Philip foi conhecendo as pessoas com quem ia viver e, por fragmentos de conversas, algumas das quais nem deveria ouvir, ficou a saber muitas coisas, tanto sobre si mesmo como sobre os pais já falecidos. O pai de Philip era muito mais novo do que o vigário de Blackstable e, após uma carreira brilhante no hospital de St. Luke, entrou para os quadros começando logo a ganhar muito dinheiro, que gastava liberalmente. Quando o pastor resolveu restaurar a igreja e pediu um donativo ao irmão, ficou surpreendido ao receber duzentas libras. Mr. Carey, avaro por temperamento e poupado por necessidade, aceitou-as com sentimentos contraditórios; tinha inveja do irmão, por poder dar tanto, sentia-se feliz pela sua igreja e ficou vagamente irritado com esta generosidade quase ostensiva. Entretanto Henry Carey casou com uma paciente, uma rapariga muito bonita, mas sem um tostão, órfã e sem parentes próximos, mas de boas famílias; no casamento estiveram rodeados de amigos elegantes. Nas visitas que lhe fez em Londres, o pastor mantinha-se reservado. Sentia-se tímido ao pé dela e no íntimo recriminava tanta beleza; ela vestia-se mais luxuosamente do que era próprio para a mulher de um esforçado cirurgião, e a sua encantadora mobília, as flores de que se rodeava, mesmo no Inverno, indiciavam uma extravagância, a seu ver deplorável. Ouvia-a falar dos eventos sociais a que contava ir, e, como dizia à mulher quando regressava a casa, era impossível aceitar a hospitalidade sem alguma retribuição. Tinha visto umas uvas na sala de jantar que deviam ter custado pelo menos dezasseis xelins o quilo, e ao almoço tinham-lhe servido espargos dois meses antes de ele os ter na horta do vicariato. E agora, tudo o que tinha previsto estava a acontecer; o vigário sentia a satisfação do profeta que via o fogo e o enxofre consumir a cidade que, teimando em ignorar os seus avisos, se recusara a alterar o comportamento. O pobrezinho do Philip estava quase sem um tostão; e para que lhe serviam agora os amigos elegantes da mãe? Tinha ouvido dizer que a extravagância do pai era verdadeiramente criminosa e que tinha sido uma obra de caridade a divina Providência ter achado por bem levar a sua querida mãe, pois dava tanto valor ao dinheiro como uma criança.
Uma semana depois da chegada de Philip a Blackstable, ocorreu um incidente que deixou o tio muito irritado. Uma manhã encontrou em cima da mesa do pequeno-almoço um pequeno embrulho que tinha sido devolvido da antiga morada da falecida Mrs. Carey em Londres e que lhe era endereçado. Quando o pastor o abriu, encontrou uma dúzia de fotografias de Mrs. Carey. Só a cara e os ombros. O penteado era mais simples do que o habitual, a cair sobre a testa, o que lhe dava um ar diferente do normal; o rosto estava magro e abatido, mas nem a doença conseguira ofuscar a sua beleza, e nos seus grandes olhos negros pairava uma tristeza de que Philip não se recordava. A primeira imagem da falecida cunhada provocou um pequeno choque em Mr. Carey, logo seguido de perplexidade. As fotografias pareciam muito recentes e ele não fazia ideia de quem as poderia ter encomendado.
— Sabes alguma coisa sobre isto, Philip?
— Lembro-me de a mamã dizer que as tinha ido tirar — disse ele. — Miss Watkin até ralhou com ela... Mas ela disse: queria que o Philip ficasse com uma recordação minha quando crescer.
Mr. Carey fixou Philip por um instante. O menino falara com voz clara e cristalina. Lembrava-se das palavras, mas para ele nada significavam.
— É melhor levares uma das fotografias para o teu quarto — disse Mr. Carey. — Eu guardo as outras.
Enviou uma a Miss Watkin, que lhe escreveu a explicar em que circunstâncias tinham sido tiradas.
Um dia, já Mrs. Carey estava de cama, sentiu-se melhor do que o habitual e de manhã o médico parecera esperançado. Emma tinha levado o menino a passear e as criadas estavam na cave. Então, Mrs. Carey sentiu-se de repente desesperadamente só no mundo, assolada pelo medo terrível de não sobreviver ao parto, que esperava viesse a acontecer dentro de duas semanas. O filho tinha nove anos. Como poderia um dia recordá-la? Não suportava a ideia de ele crescer e acabar por esquecê-la, esquecê-la totalmente, a ela que o tinha amado com tanto fervor por ser fraco e deformado e ser seu filho. Não tirava fotografias desde o dia do casamento, já lá iam dez anos, e queria que o filho soubesse como ela era no fim da vida. Assim, já não poderia esquecê-la, esquecê-la totalmente. Sabia que se chamasse a criada e lhe dissesse que se queria levantar, ela a impediria, talvez até chamasse o médico, e ela não estava com forças para lutar ou discutir. Saiu sozinha da cama e começou a vestir-se. Estava deitada de costas há tanto tempo que as pernas fraquejaram e era tanto o formigueiro nas solas dos pés que mal podia pousá-los no chão. Mas continuou. Como não estava habituada a pentear-se, quando levantou os braços e começou a escovar o cabelo, quase desfaleceu. Nunca seria capaz de o pentear como a criada fazia. Tinha um cabelo bonito, muito fino e de um dourado intenso. As sobrancelhas eram direitas e escuras. Vestiu uma camisa preta, mas escolheu o corpete do vestido de noite de que mais gostava: era de damasco branco, como se usava na época. Mirou-se ao espelho.
Estava muito pálida, mas a sua tez sempre fora clara: nunca tinha tido muita cor, o que sempre havia enfatizado a beleza dos seus lábios rubros. Não conseguiu reprimir um soluço. Todavia, não podia dar-se ao luxo da auto comiseração; já começava a sentir-se terrivelmente cansada e vestiu o casaco de peles que Henry lhe tinha oferecido pelo Natal — que feliz e orgulhosa ela havia ficado então — e esgueirou-se escada abaixo com o coração a bater descompassado. Saiu de casa sem ser vista e foi procurar um fotógrafo, a quem encomendou uma dúzia de fotografias. Enquanto posava viu-se obrigada a pedir um copo de água; o ajudante, vendo como estava doente, sugeriu-lhe que voltasse noutro dia, mas ela insistiu em ficar até ao fim. Por fim, a sessão terminou e ela regressou à casa acanhada e esquálida de Kensington, que odiava com todas as suas forças. Era uma casa horrível para nela morrer.
Encontrou a porta da rua aberta e, quando entrou, a criada e Emma correram escada abaixo ao seu encontro para a ajudarem. Tinham ficado aflitas ao ver o quarto vazio. Primeiro pensaram que devia ter ido para casa de Miss Watkin e mandaram lá a cozinheira. Miss Watkin voltou com ela e estava à espera na sala, ansiosa. Tinha acabado de vir para baixo, toda ela ansiedade e censuras, mas o esforço tinha sido mais do que Mrs. Carey estava em condições de suportar e, como já não havia motivo para se manter firme, soçobrou, caindo pesadamente nos braços de Emma e tendo de ser levada em braços para o quarto. Manteve-se inconsciente por um período que pareceu incrivelmente longo a quem estava a vigiá-la e o médico foi chamado à pressa, mas não apareceu. Só no dia seguinte, quando ela já estava um pouco melhor, é que Miss Watkin conseguiu obter uma explicação. Philip estava a brincar no chão, no quarto da mãe, e nenhuma das duas estava a prestar-lhe atenção. Ele só muito vagamente percebia o que diziam e não sabia porque é que essas palavras lhe tinham ficado gravadas na memória.
— Eu queria que ele ficasse com uma recordação minha, quando crescer.
— Não consigo entender porque é que ela mandou fazer uma dúzia — disse Mr. Carey. — Duas tinham chegado.
6
Os dias passavam iguais no vicariato.
A seguir ao pequeno-almoço Mary Ann trazia o jornal, o The Times. Mr. Carey partilhava-o com dois vizinhos. Ele tinha-o em seu poder das dez à uma, hora a que o jardineiro ia levá-lo a Mr. Ellis, no Limes, na posse de quem ficava até às sete, sendo depois levado a Miss Brooks, na Manor House que, uma vez que o recebia tão tarde, tinha a compensação de ficar com ele. No Verão, quando fazia as suas compotas, Mrs. Carey pedia-lhe muitas vezes um jornal para tapar os boiões. Quando o vigário se sentava a ler o jornal, a mulher punha o chapéu e ia fazer as compras, levando Philip consigo. Blackstable era uma vila piscatória, composta por uma rua principal com várias lojas, o banco, a casa do médico e as casas de dois ou três armadores comerciantes de carvão; ao redor do pequeno porto estendia-se um emaranhado de ruelas sórdidas onde viviam os pescadores e os mais pobres. Mas esses frequentavam as capelas e não contavam. Quando Mrs. Carey avistava na rua os padres dissidentes, atravessava para o outro lado para não se cruzar com eles, mas se não tivesse tempo de o fazer, baixava os olhos para o chão. Era um escândalo a que o vigário jamais se tinha resignado, que houvesse três capelas na High Street. Não conseguia deixar de pensar que as autoridades deviam ter feito alguma coisa para impedir a sua construção. Fazer compras em Blackstable não era tarefa fácil, uma vez que a dissidência, favorecida pelo facto de a igreja paroquial ficar a três quilómetros da cidade, era muito comum, e Mrs. Carey fazia questão de comprar apenas nas lojas dos que frequentavam a igreja. Sabia perfeitamente que os hábitos de consumo do vicariato podiam influenciar profundamente a fé dos comerciantes. Havia dois talhantes que iam à igreja e não percebiam por que razão o vigário não podia ser cliente dos dois ao mesmo tempo; tal como não tinham ficado satisfeitos com a sua proposta de gastar seis meses de um talho e seis meses do outro. O talhante que não fornecia carne ao vicariato estava constantemente a ameaçar o vigário de não voltar a pôr os pés na igreja, e por vezes o vigário via-se forçado a responder com outra ameaça: procedia muito mal em não vir à igreja, mas se ele persistisse nessa iniquidade e começasse a frequentar uma capela, nessa altura, e apesar da indiscutível qualidade da carne que vendia, Mr. Carey não teria outro remédio senão riscá-lo para sempre da sua lista de fornecedores. Mrs. Carey parava muitas vezes no banco para levar recados a Josiah Graves, o gerente, que era também director do coro, tesoureiro e administrador da paróquia. Era um homem alto e magro de rosto macilento, grande nariz e cabelo muito branco e, aos olhos de Philip, já muito velho. Fazia a contabilidade da paróquia e organizava as festas para angariar fundos para o coro e para as escolas. Embora não houvesse órgão na igreja paroquial, o coro que ele dirigia era considerado (em Blackstable) o melhor de todo o condado de Kent, e por ocasião de cerimónias como, por exemplo, a visita do bispo aquando do crisma ou a do decano rural para o sermão de Acção de Graças pelas colheitas, era ele que se ocupava dos preparativos. Contudo, não hesitava em tomar decisões quase sem consultar o vigário, e o vigário, apesar de sempre pronto a deixar que lhe poupassem trabalho, levava muito a mal tanta autonomia. Na verdade, Josiah Graves parecia considerar-se a pessoa mais importante da paróquia. Mr. Carey estava sempre a dizer à mulher que se ele não tomasse cuidado, um dia ainda lhe dava umas boas reguadas; mas Mrs. Carey aconselhava-o a ser tolerante com Josiah Graves, pois ele agia com a melhor das intenções e, se não era um perfeito cavalheiro, a culpa não era dele. O vigário encontrava conforto na prática dessa virtude tão cristã, a paciência, mas depois vingava-se chamando Bismarck ao administrador, pelas costas.
Um dia tinham-se envolvido os dois numa acesa discussão, e Mrs. Carey ainda tremia só de pensar nesse momento. O candidato conservador tinha tornado pública a intenção de fazer uma sessão de esclarecimento em Blackstable e Josiah Graves, tendo combinado que a sessão decorreria no salão paroquial, dissera a Mr. Carey que esperava ouvi-lo proferir algumas palavras. Aparentemente o candidato tinha pedido a Josiah Graves que presidisse à sessão. Ora isto era mais do que Mr. Carey podia suportar. Tinha ideias bem definidas sobre o respeito devido a um membro do clero e era ridículo que um administrador paroquial presidisse a uma sessão em que o vigário estaria presente, e relembrou a Josiah Graves que o pastor era o representante da paróquia. Josiah Graves retorquiu que era o primeiro a reconhecer a dignidade da igreja, mas que o assunto em questão era a política, e relembrou por sua vez ao vigário que o Divino Salvador tinha vindo à terra precisamente para dar a César o que era de César. Ao que Mr. Carey respondeu que o Diabo deturpava as escrituras em seu proveito; que só ele tinha poder de decisão sobre o uso a dar ao salão paroquial e que, se não fosse convidado a presidir, não permitiria o uso do salão para fins políticos. Josiah Graves disse-lhe que fizesse como bem entendesse e que a seu ver a capela wesleyana seria um lugar igualmente adequado. Mr. Carey replicou que, se Josiah Graves pusesse o pé num local que era pouco melhor do que um templo pagão, deixaria de reunir qualidades para ser administrador de uma paróquia cristã. Perante isto, Josiah Graves demitiu-se de todos os seus cargos e nessa mesma noite mandou buscar à igreja a sotaina e a sobrepeliz. Miss Graves, sua irmã e responsável pelo governo da casa, abandonou também o cargo de secretária do Clube de Ajuda à Maternidade, que dava às futuras mães carenciadas o enxoval para o bebé, carvão e cinco xelins. Mr. Carey disse que finalmente era dono e senhor da sua própria casa, mas depressa percebeu que isso o obrigava a tratar de todo o tipo de coisas de que nada entendia, e Josiah Graves, passados os primeiros momentos de irritação, descobriu que tinha perdido o seu principal interesse na vida. Mrs. Carey e Miss Graves, inconsoláveis com esta desavença, encontraram-se após uma discreta troca de correspondência e decidiram remediar a situação: falaram no assunto, uma com o marido e a outra com o irmão, de manhã à noite; e, como estavam a tentar persuadir os dois cavalheiros a fazerem o que no fundo eles mais desejavam, ao fim de três semanas de ansiedade deu-se a reconciliação. Era do interesse dos dois, mas eles atribuíram-na ao seu amor comum pelo Redentor. A sessão de esclarecimento decorreu no salão paroquial. O médico foi convidado a presidir e Mr. Carey e Josiah Graves proferiram cada um o seu discurso.
Depois de resolver com o banqueiro o assunto que ali a trouxera, Mrs. Carey ia geralmente ao andar de cima conversar um pouco com a irmã dele; e enquanto as senhoras falavam de assuntos paroquiais, do coadjutor ou do novo chapéu de Mrs. Wilson —Mr. Wilson era o homem mais rico de Blackstable —, Philip sentava-se muito ajuizado na austera sala, usada apenas para receber as visitas, e entretinha-se a seguir os movimentos irrequietos dos peixes no aquário. As janelas nunca eram abertas excepto para arejar a sala de manhã durante alguns minutos, e havia nela um cheiro abafado que Philip sentia estar misteriosamente associado à actividade bancária.
Nisto, Mrs. Carey lembrava-se de que tinha de ir à mercearia e continuavam a dar as suas voltas. Uma vez feitas as compras, desciam muitas vezes a ruela ladeada de casinhas baixas, quase todas de madeira, onde moravam os pescadores (aqui e ali viam um pescador sentado no degrau da porta a remendar as redes, e havia redes estendidas nas portas a secar), até chegarem a uma pequena praia confinada por armazéns, mas com vista para o mar. Mrs. Carey ficava parada a contemplá-lo por alguns minutos, túrbido e castanho (e quem sabe que pensamentos lhe perpassavam a mente), enquanto Philip ia procurar seixos achatados para atirar, fazendo-os ressaltar pela água fora. Depois voltavam para trás paulatinamente, iam ver as horas certas aos correios, cumprimentavam Mrs. Wigram, a mulher do médico, que estava sentada à janela a costurar, e regressavam a casa.
O almoço era à uma: às segundas, terças e quartas comiam carne de vaca (assada, guisada ou picada) e às quintas, sextas e sábados borrego. Ao domingo comiam uma das galinhas criadas em casa. À tarde Philip estudava as suas lições. Aprendia latim e matemática com o tio, que não sabia nem uma coisa nem outra, e francês e piano com a tia. De francês ela não sabia nada, mas sabia o suficiente de piano para acompanhar as velhas canções que cantava há trinta anos. O tio William costumava contar a Philip que, quando era coadjutor, a mulher tinha aprendido de cor doze canções que podia cantar a qualquer momento sempre que lhe pedissem. E ainda as cantava muitas vezes, quando havia um chá no vicariato. Eram poucas as pessoas que os Carey gostavam de convidar, e as suas festas eram sempre frequentadas pelo coadjutor, Josiah Graves e a irmã, e o Dr. Wigram e a mulher. Depois do chá, Miss Graves tocava uma ou duas das Canções sem palavras de Mendelssohn, e Mrs. Carey cantava When the Swallows Homeward Fly e Trot, Trot, My Pony.
Todavia, os Carey não organizavam muitas festas; os preparativos davam muito trabalho e quando os convidados saíam estavam exaustos. Preferiam tomar chá em família e jogar gamão depois do chá. Mrs. Carey deixava sempre o marido ganhar, pois ele detestava perder. Às oito comiam um jantar frio. Era uma refeição de restos, porque Mary Ann não gostava de fazer mais nada depois do chá e Mrs. Carey ajudava-a até a levantar a mesa. Mrs. Carey raramente comia mais alguma coisa além de pão com manteiga e fruta cozida, mas o vigário comia uma fatia de carne fria. Mal o jantar terminava, Mrs. Carey tocava a campainha para as orações e a seguir Philip ia para a cama. Ficava todo zangado por Mary Ann o despir e acabou por conseguir fazer valer o seu direito a despir-se sozinho. Às nove horas, Mary Ann trazia os ovos e o açafate. Mrs. Carey escrevia a data em cada ovo e apontava a quantidade num caderno. Depois metia o açafate no braço e ia para cima. Mr. Carey continuava a ler um dos seus velhos livros, mas quando o relógio batia as dez levantava-se da cadeira, apagava as luzes e ia também para a cama.
Quando Philip chegou tiveram alguma dificuldade em decidir em que noite devia tomar o seu banho. Nunca era muito fácil arranjar água quente em quantidade suficiente, uma vez que a caldeira da cozinha não funcionava, e era impossível duas pessoas tomarem banho no mesmo dia. O único que tinha casa de banho em Black stable era Mr. Wilson, o que era visto como uma ostentação. Mary Ann tomava o seu banho na cozinha à segunda-feira à noite, porque gostava de começar a semana com limpeza. O tio William não podia tomá-lo ao sábado, porque tinha um dia duro pela frente e ficava sempre um pouco cansado depois do banho, tomando-o por isso à sexta. Mrs. Carey tomava o dela à quinta pela mesma razão. Assim, parecia que sábado seria o dia naturalmente indicado para Philip, mas Mary Ann disse que não podia manter o lume aceso ao sábado à noite: é que com os cozinhados de domingo, os bolos e sabia lá o que mais, não lhe apetecia nada ter de dar banho ao rapaz ao sábado à noite; e uma coisa era certa, ele não podia tomar banho sozinho. Mrs. Carey tinha vergonha de dar banho a um rapaz e claro que o vigário tinha o seu sermão para fazer. Mas o vigário deixou bem claro que Philip tinha de estar limpo e bem arranjado para o Dia do Senhor. Mary Ann disse que preferia ir-se embora a ser tratada como uma escrava, que ao fim de dezoito anos não estava à espera que lhe dessem mais trabalho para fazer e que bem podiam mostrar alguma consideração por ela. Por fim, Philip disse que não queria que ninguém lhe desse banho, que podia muito bem tomar banho sozinho, e o assunto ficou resolvido. Mary Ann disse que tinha a certeza de que ele não ia saber lavar-se devidamente e que para ele não ficar sujo — não por ir estar na presença do Senhor, mas porque ela não suportava um rapaz mal lavado — ela ia ficar estafada, mas ia dar-lhe banho, mesmo sendo sábado à noite.
7
O domingo era um dia inteiramente preenchido. Mr. Carey costumava dizer que era o único paroquiano que trabalhava sete dias por semana.
Toda a gente se levantava meia hora mais cedo do que o costume. Um pobre pastor já não podia ficar na cama até tarde no dia de descanso, queixava-se Mr. Carey, quando Mary Ann batia pontualmente à porta do quarto às oito horas. Mrs. Carey demorava mais tempo a vestir-se do que o habitual e descia para o pequeno-almoço às nove, ligeiramente ofegante, segundos antes do marido. As botas de Mr. Carey estavam a aquecer ao pé da lareira. As orações eram mais longas do que era hábito e o pequeno-almoço mais substancial. Em seguida, o vigário cortava o pão em fatias muito finas, para a comunhão, e Philip tinha o privilégio de aparar as côdeas. Depois o tio mandava-o ao escritório buscar um pisa-papéis de mármore com o qual comprimia as fatias até se transformarem numa polpa finíssima, cortando-as em seguida em quadradinhos. A quantidade dependia do estado do tempo. Se o dia estivesse muito mau, poucas pessoas apareceriam na igreja; e, num dia radioso, embora aparecessem muitas, eram poucas as que ficavam até à comunhão. Vinham em maior número quando o tempo estava suficientemente seco para tornar aprazível o passeio até à igreja, mas não tão soalheiro que as pessoas tivessem vontade de se ir embora.
Mrs. Carey ia buscar a bandeja da comunhão, que estava guardada na copa, e o vigário polia-a com uma camurça. Às dez chegava a caleche de aluguer e Mr. Carey calçava as botas. Mrs. Carey levava vários minutos a colocar o chapéu, enquanto o vigário, já com o volumoso capote vestido, esperava no vestíbulo com cara de cristão prestes a entrar na arena. Era extraordinário como ao fim de trinta anos de casamento a mulher continuava a não estar pronta a horas ao domingo de manhã. Por fim, lá vinha ela, vestida de cetim preto; o vigário não gostava de ver as mulheres dos padres vestidas de cores garridas fosse em que circunstâncias fosse, mas ao domingo, em especial, fazia questão de que a sua se vestisse toda de preto; de vez em quando, de conivência com Miss Graves, Mrs. Carey ousava colocar uma pena branca ou uma rosa no chapéu, mas o vigário ordenava-lhe imediatamente que a fizesse desaparecer. Dizia, numa referência ao Apocalipse, que se recusava a entrar na igreja com a mulher de escarlate. Mrs. Carey suspirava, como mulher que era, mas obedecia como esposa. E era precisamente quando estavam a preparar-se para irem para a carruagem que o vigário se lembrava de que ninguém lhe tinha dado o seu ovo. Elas sabiam que ele tinha de comer um ovo para ter boa voz; havia duas mulheres naquela casa e nenhuma tinha a mínima consideração pelo seu bem-estar. Mrs. Carey ralhava com Mary Ann e Mary Ann respingava que não podia pensar em tudo, mas foi a correr buscar um ovo que Mrs. Carey bateu num copo com um pouco de xerez. O vigário bebeu-o de um trago. A bandeja das hóstias foi levada para a carruagem e partiram.
A caleche vinha do The Red Lion e tinha um cheiro intenso a palha recessa. Seguiam com as duas janelas fechadas para o vigário não se constipar. O sacristão estava à espera à porta da igreja para levar a bandeja da comunhão e, enquanto o vigário se encaminhava para a sacristia, Mrs. Carey e Philip iam sentar-se no banco que lhes estava reservado. Mrs. Carey pousava à sua frente a moeda de seis pence que costumava deixar na bandeja e dava uma de três pence a Philip com a mesma finalidade. A pouco e pouco a igreja enchia-se e o serviço começava.
Philip morria de tédio durante o sermão, mas se começava a ficar irrequieto, Mrs. Carey tocava-lhe levemente com a mão no braço e olhava-o com severidade. Philip só voltava a animar quando o último hino era cantado e Mr. Graves dava a volta com a bandeja.
Depois de todos saírem, Mrs. Carey dirigia-se ao banco de Miss Graves para trocar algumas palavras com ela enquanto esperavam pelos cavalheiros, e Philip ia para a sacristia. O tio, o coadjutor e Mr. Graves ainda estavam com as sobrepelizes. Mr. Carey dava-lhe os restos do pão consagrado e dizia-lhe que podia comê-lo. Estava habituado a comê-lo ele próprio, pois parecia-lhe uma blasfémia deitá-lo fora, mas o apetite voraz de Philip libertava-o agora dessa obrigação. A seguir contavam o dinheiro. A maior parte eram moedas de um, três e seis pence. Havia sempre duas moedas de um xelim, uma colocada na bandeja pelo vigário e a outra por Mr. Graves, e às vezes aparecia um florim e Mr. Graves explicava ao vigário de quem era. Era sempre de uma pessoa desconhecida em Blackstable, e Mr. Carey pôs-se a pensar quem seria. Mas Miss Graves tinha presenciado o generoso acto e estava em condições de informar Mrs. Carey de que o desconhecido vinha de Londres e era casado e com filhos. No regresso a casa, Mrs. Carey passou esta informação ao vigário, que decidiu ir procurá-lo para lhe pedir uma contribuição para a Additional Curates Society. Mr. Carey perguntava se Philip se tinha portado bem e Mrs. Carey comentava que Mrs. Wigram trazia uma capa nova, Mr. Cox não tinha ido à igreja e se pensava que Miss Phillips estaria noiva. Quando chegavam ao vicariato todos sentiam que mereciam um almoço substancial.
Quando terminavam, Mrs. Carey ia para o quarto descansar e Mr. Carey deitava-se no sofá da sala a fazer
