Aos Olhos De Deus
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Aos Olhos De Deus - José Manuel Saraiva
Ficha Técnica
Título: Aos olhos de Deus
Autor: José Manuel Saraiva
Revisão: Henrique Tavares e Castro
Capa: Neusa Dias / Oficina do Livro
Imagem de capa: © Gettimages / Bridgeman Art Library
ISBN: 9789895556588
OFICINA DO LIVRO
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2008, José Manuel Saraiva
e Oficina do Livro – Sociedade Editorial, Lda.
Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor
E-mail: info@oficinadolivro.leya.com
www.oficinadolivro.leya.com
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Para os amigos, por todas as horas.
Para as mulheres, pelas horas melhores.
I
Naquela manhã de Novembro de mil quinhentos e treze, cinzenta e fria, o rei D. Manuel I mandou chamar aos Paços da Casa da Mina um dos mais distintos fidalgos da sua corte: D. Diogo Pacheco. Queria informá-lo de que decidira incluí-lo na embaixada que dentro de algumas semanas iria enviar ao Papa Leão X e, ao mesmo tempo, pedir-lhe para que fosse ele a proferir na Santa Sé a oração de obediência, sempre devida ao Sumo Pontífice. D. Manuel reconhecia que Diogo Pacheco, além de gozar de boa aparência e compostura, tinha a fama e o benefício de ser um notável jurisconsulto e latinista, pelo que na ideia incontestada do soberano não havia ninguém no reino português com tantas virtudes quanto aquele homem para desempenhar um papel de tão grande responsabilidade junto de Sua Santidade.
Mas não foram apenas as qualidades intelectuais e o aspecto físico do fidalgo que presidiram à escolha do seu nome. A circunstância de o rei decidir nomeá-lo para se dirigir ao Papa, na cúria de Roma – em representação de Sua Alteza o Rei de Portugal e dos Algarves de Aquém e de Além Mar, Senhor da Conquista, da Navegação e do Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia –, ficou igualmente a dever-se ao facto de o soberano cultivar por D. Diogo Pacheco, desde os primeiros anos da juventude, um desajustado – e por vezes enigmático – sentimento de estima pessoal.
Aliás, a nobreza e o clero, porventura até mais o clero do que a nobreza, não se cansavam de censurar, naquela dissimulada cobardia que lhes era própria, a relação demasiado íntima entre os dois homens. Uns garantiam que o rei e o súbdito tinham o hábito de se encontrar a sós num discreto aposento da sede da coroa, instalada, havia poucos anos, num palácio com galerias de inspiração renascentista, de frente para o Tejo; outros asseveravam que tais encontros incluíam a participação de donzelas de fina linhagem mas de duvidosa conduta. Verdade ou mentira, certo é que nunca ninguém ousou pronunciar na rua uma palavra sobre o assunto, muito menos levantar suspeitas públicas, por mais ténues que se revelassem, acerca do comportamento alegadamente desviante de Sua Alteza Real. Só no conforto da privança dos eclesiásticos em igrejas e nos mosteiros de Lisboa, ou nas festas de bebedeira e luxúria que os nobres organizavam nas suas residências, se comentava, mas sempre com a máxima cautela e total discrição, que o rei e o fidalgo mantinham uma afinidade de contornos imprecisos. E até se dizia, como forma de provocação ou em jeito de graça, que D. Manuel decidira abandonar os medievos e desaconchegados paços da Alcáçova do castelo para se instalar nos antigos armazéns da Casa da Mina, em cujo interior, entretanto recuperado e transformado num palácio para acolher a sede da monarquia, persistia o perfume lúbrico da canela e o aroma estimulante da pimenta... Mas isso acontecia porque tinha sido ali, quando o novo lar da coroa era ainda um entreposto, que se haviam guardado as especiarias provenientes das terras da Guiné, da Índia e do Brasil, bem como outros produtos de luxo, designadamente o algodão e o marfim.
De qualquer modo, por ódio ou maledicência, com razão ou sem ela, as dúvidas sobre o estilo de convivência entre o monarca e o fidalgo tinham-se instalado na cidade. É claro que ambos contribuíam, e muito, para o falatório de clérigos e nobres. Em certas ocasiões, em público ou em privado, D. Manuel e Diogo Pacheco raramente evitavam um cumprimento de exagerado afecto. Às vezes davam as mãos, mantinham-nas apertadas por alguns instantes, segredavam qualquer coisa e só depois viravam costas. Noutros encontros, observados com frequência por membros da corte, D. Diogo chegava mesmo a aconchegar a aljuba ao rei, aproveitando a circunstância para lhe massajar os ombros com a ponta dos dedos, ao jeito de quem pretende sacudir das vestes um indesejável cisco.
Claro que nenhum destes gestos podia, por si só, garantir a existência de qualquer ligação emocional entre os dois homens, muito menos justificar o aleive de que ambos eram alvo por parte dos eclesiásticos, quase todos perversos, todos sinistros, e de alguns nobres que nunca se haviam acomodado à ideia de o monarca não ter levado tão longe quanto os reis católicos de Castela a perseguição aos judeus. O que não era normal – e disso todos tinham motivo para desconfiar – é que um monarca privasse com um fidalgo, por mais ilustre e dedicado que ele fosse, como D. Manuel o fazia com Diogo Pacheco. Para todos os efeitos, um rei era um rei; um súbdito era um súbdito. Porque se assim não fosse nem Deus no Céu, nem o Papa na Terra, tinham perdido tempo a estabelecer e a regular o princípio inelutável da diferença entre os homens. E entre o soberano e o vassalo mal se notava essa imperativa e sagrada dissemelhança. Por isso, algum mistério havia...
Logo que entrou nos paços reais, Diogo Pacheco foi imediatamente conduzido pelo privado do rei ao salão nobre do palácio.
– Sentai-vos, senhor. Sua Alteza Real não demora – declarou o valido num tom de amável simpatia, antes de se retirar e de fazer um respeitoso gesto, inclinando a cabeça.
O fidalgo não se sentou nem agradeceu a lhaneza. Com as mãos atrás das costas deu meia dúzia de passos sem destino pelo vasto salão que bem conhecia, olhou para o rio acanhado de naus e caravelas, e só depois foi encostar-se a uma das janelas laterais viradas a sul, para daí observar, contemplativo, o movimento dos pedreiros nas obras do mosteiro dos Jerónimos, à beira-Tejo.
Como estava diferente aquele local! D. Diogo mal se lembrava de que antes de ser lançada a primeira pedra para a construção do monumento, a seis de Janeiro de mil quinhentos e dois, dia dos Reis Magos, existira ali uma capela mandada erigir anos antes pelo infante D. Henrique, em honra da Virgem de Belém, e que chegara a servir de aconchego religioso aos freires da Ordem de Cristo até que o Papa Alexandre VI – através da bula Eximiae Devotionis Affectus – decidiu autorizar D. Manuel a converter a ermida e eremitério num mosteiro com igreja, claustros e as oficinas necessárias. Do mesmo modo, sentia um estranho incómodo por já não se recordar exactamente da fisionomia do antigo bairro de marinheiros e pescadores que rodeava a velha igreja, das cores que o pintavam, do seu constante alvoroço, da tradicional desordem entre as suas gentes e que tanta vida dera àquele espaço até à demolição das respectivas casas, por decreto régio de vinte e três de Junho de mil quatrocentos e noventa e seis.
– Em que meditais? Acaso não é do vosso agrado a magnificência da obra que daqui vedes? – perguntou, irónico, o monarca, acabado de entrar silenciosamente no salão.
– É muito bela, meu rei e senhor! – respondeu o fidalgo, surpreendido, antes de os dois homens se enternecerem num apressado gesto de comunhão. – Em cada hora que passa mais grandiosa fica.
Por alguns momentos, D. Manuel e Diogo Pacheco mantiveram-se em silêncio, admirando, lá longe, o movimento dos operários e a arquitectura do mosteiro que, depois de concluído, e se Deus viesse a querer, haveria um dia de funcionar como sede da Ordem de S. Jerónimo, vocacionada para a administração do culto mortuário da dinastia real de Castela. Mas, para o monarca português, mais importante do que instalar ali a ordem religiosa, em obediência a uma promessa antiga que tanto agradara aos reis católicos do país vizinho, talvez fosse o facto de os Jerónimos virem a converter-se no símbolo do seu poder absoluto. E por isso desejava que o mosteiro superasse em grandiosidade obras tão admiráveis quanto as pirâmides do Egipto, os colossos romanos e o próprio templo de Salomão.
Aliás, D. Manuel – cuja subida ao trono ficara a dever-se à morte prematura do sobrinho D. Afonso, em consequência da queda de um cavalo enfurecido – tinha a presunção de ter vindo ao mundo para reinar, servir a Deus e por vontade de Deus. E até se remetera à ideia de que, apesar de ter ocupado o sexto lugar na linha de sucessão dinástica, chegara ao ceptro e à coroa porque ninguém seria capaz de desempenhar melhor e mais eficazmente o combate contra os infiéis, em defesa da libertação dos lugares santos. Era esse o seu desígnio.
– Por este andar, com a ajuda de Deus, o meu mando e o esforço dos pedreiros, o mosteiro ficará pronto antes do tempo – comentou o soberano, interrompendo a abstracção de D. Diogo.
O fidalgo estremeceu ligeiramente, alisou o cabelo com os dedos e comentou:
– Sempre considerei aquele sítio o mais apropriado de todos para a construção do templo, dado que se situa às portas do mar. Mas, pensando melhor, não achais que irá ficar longe da cidade?
– Descansai dos vossos temores, bom amigo, porque a cidade ainda um dia virá a estender-se até aqui – retorquiu o monarca, com indisfarçável soberba.
– Deus vos ouça, Alteza.
– Ad gloriam!
Após trocarem algumas palavras de circunstância sobre o estado do tempo e a boa saúde física de cada qual, os dois homens deslocaram-se de braço dado até outra janela de frente para o Tejo, onde o rei gostava de ver o Sol morrer em cada tarde. De resto, D. Manuel tinha o hábito de passar parte do seu tempo nesse salão, grande e luxuoso, em cujas paredes mandara colocar um número considerável de quadros de autoria de pintores ingleses, florentinos e genoveses, além de tecidos de seda pintados na Índia por artistas de indiscutível talento. O mobiliário, constituído por peças da alta Idade Média e outras de vocação renascentista, assentava quase todo sobre grossas tapeçarias persas, de intensas e diversificadas cores. Pouco ou nada fazia sentido na riquíssima sala, mas era assim, na mais insólita desarmonia e ausência de bom gosto, que o rei adorava viver e praticar o seu augusto mando.
– Quando chegarão as caravelas com os presentes para Sua Santidade? – perguntou subitamente Diogo Pacheco, ao mesmo tempo que olhava enternecido para o rio, onde se espalhavam centenas de naus, galés, batéis e embarcações de pequeno e médio portes.
– Se Deus ajudar os marinheiros, e o vento e as ondas continuarem de feição, iremos tê-las cá no próximo mês. – Achais, meu senhor?
– Tenho a certeza.
O monarca deu uma palmada nas costas do fidalgo para logo de seguida o convidar a ocupar um banco de pinho, enquanto ele, na lentidão que lhe era própria, se foi sentar na sédia que só o rei podia preencher. Depois, já recostado no espaldar coberto por um manto de cetim vermelho, cruzou as pernas, começou a fazer pequenos círculos com o pé desapoiado, entreteceu os dedos das mãos grandes e poderosas e, calmo como as águas do Tejo nesse dia, prosseguiu a conversa.
– Como podeis observar por toda a cidade, o povo aguarda com o maior entusiasmo a chegada das naus. Mas ninguém sabe, nem eu mesmo, que coisas trazem. Sei apenas que vêm carregadas de grandes riquezas e de animais estranhos para então levarmos tudo ao Papa...
– Tudo!? – interrompeu, admirado, Diogo Pacheco.
– ... Bom, tudo não. Quase tudo – corrigiu o rei, apressadamente, antes de continuar: – Quero oferecer a Sua Santidade, ainda que tanto não mereça, presentes que nunca ninguém lhe deu. E como ele é mais dado ao luxo do que a Deus, e mais vigilante da vida material do que da vida espiritual, certamente ficará muito contente. E eu quero deslumbrá-lo, distinto amigo, quero fazê-lo feliz!
O fidalgo deu uma gargalhada, também ele se encostou sem cerimónias à parede do salão e só depois, num tom calmo, comentou que mais importante do que o monarca português promover a felicidade do chefe da cúria de Roma, através de oferendas de indiscutível valor, seria convencê-lo a dar novo rumo à Igreja. Para Diogo Pacheco, tornava-se fundamental chamar ao aprisco romano as ovelhas tresmalhadas e oferecer-lhes um novo alimento espiritual, de modo a impedir a continuação da fuga e o desencanto dos fiéis. Entendia que o Papa Leão X – a que muitos pela Europa fora chamavam desajustadamente princípe da Renascença – era um dos grandes responsáveis pelos desmandos da Igreja e a depravação herética, ao permitir a prática de actos mesquinhos e interesseiros por parte dos mais influentes clérigos da corte pontifícia. Eram eles, de resto, que dominavam o Sacro Colégio; eram eles também que, sob as vestes taladas, promoviam o ódio e a descrença, a defesa das conveniências próprias e dos pecados do vício. E por isso a fé – uma convicção fundada no testemunho – começava a constituir mais uma diversão mental do que um rasgo de alma ou uma constante sede do infinito. Na opinião do fidalgo, a Igreja caminhava assustadoramente para o fim, já quase sem nenhum prestígio, demasiado enfraquecida no seu poder.
– Pois é para tentarmos convencer o Papa a corrigir os desvios do clero e a dar um novo impulso à cristandade que vos pedi para virdes aqui, para falarmos e vos fazer uma proposta – esclareceu o rei, após ouvir atentamente o discurso do vassalo.
– Falais-me de proposta, meu senhor? Vossa Alteza não propõe nada; Vossa Alteza ordena – retorquiu Diogo Pacheco, com um sorriso de satisfação que lhe enchia o rosto.
Apesar da manifesta confiança entre o monarca e o nobre, em nenhuma circunstância os dois homens excluíam um tratamento de considerável respeito e cerimónia. O rei chamava ao nobre bom amigo ou distinto fidalgo; o nobre dirigia-se ao rei acolhendo-o por meu Senhor ou Vossa Alteza – ou simplesmente Alteza.
– Meu bom amigo – continuou o monarca, descruzando as pernas e endireitando o corpo no cadeirão –, dizeis, e bem, que sou eu quem manda. Pois assim é e assim continuará até que o Altíssimo me leve deste mundo incomplacente. Na verdade, o que tenho para dizer é muito simples: decidi integrar-vos na embaixada a Roma para serdes vós a proferir na cúria romana a oração de obediência a Sua Santidade. Sei que me fazeis falta aqui, na coroa; sei também que vou sentir a vossa ausência, e por isso ainda hesitei na escolha, mas não descubro ninguém tão dotado quanto o distinto fidalgo que tenho à minha frente para explicar à Igreja as preocupações de el-rei de Portugal sobre o mau caminho que ela está a seguir. Só vós, com a qualidade do saber e a excelência da palavra, podereis convencer o Papa e o seu consistório da necessidade de resolverem os problemas que preocupam todos os reinos cristãos e, em especial, o nosso reino.
Emocionado, Diogo Pacheco baixou os olhos, procurou sob o capeirote um refúgio para as mãos trementes e, sem fixar o rosto do monarca, balbuciou:
– É uma honra, Alteza...
– ... Uma honra devida a quem goza da fama e do proveito de bem falar sobre a verdade das Escrituras e a urgência da fé.
– Com a devida vénia, deixai lembrar-vos que sobre tal assunto há em Portugal quem melhor do que eu se possa exprimir adequadamente – atalhou o homem num tom de calculada impostura.
Surprendido, o soberano arregalou os olhos e, elevando os braços, perguntou num tom simultaneamente animoso e tolerante:
– Conheceis as Escrituras?
– Conheço.
– Não tendes fé?
– Tenho.
– Não sabeis interpretar as leis civis e fazer política?, não sabeis falar e escrever latim?, não sabeis do estado do mundo para promoverdes a condenação dos ímpios e a glorificação dos crentes?, não sabeis narrar o feito dos portugueses em terras de além-mar e, perdoai-me a imodéstia, incensar em público este vosso amigo e venturoso rei?
– Alteza...
– Ainda não acabei, ilustre senhor – interrompeu D. Manuel num tom de voz diferente, já quase sumido. – Sei que sois capaz de responder com luzimento ao trabalho que vos peço; que sois capaz de dizer por outras palavras, mais perfeitas até, o que acabastes de expressar. Mas também quero, e por isso vos escolhi sem receio de me arrepender, que saibais brilhar na coroa de Roma como nunca nenhum tribuno alguma vez brilhou. Tenho a certeza de que com a vossa compostura, o vosso bom aspecto e a qualidade do verbo havereis de impressionar não só o Papa e os seus cardeais, mas também os representantes da Europa inteira.
– Sois muito gentil, Alteza.
– Não mais do que vós, preclaro doutor.
Nas horas que se seguiram, D. Manuel e Diogo Pacheco conversaram sobre tudo quanto se relacionava com a embaixada para cuja chefia o rei escolhera, entretanto, Tristão da Cunha – antigo camareiro de D. João II, duque de Viseu, igualmente amigo do monarca, herói dos mares da Índia e distinto cavaleiro. Aliás, este fidalgo estivera prestes a ocupar, em mil quinhentos e seis, o lugar de primeiro
