A história do conceito de bonapartismo: Uma análise semântica aplicada aos séculos XIX e XX
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Sobre este e-book
Esse Líder carismático instala seu regime através de um golpe de Estado e afirma expressar diretamente a indivisível soberania do povo, usando de plebiscitos para legitimar excepcionalmente algumas medidas tomadas.
A análise histórica do conceito de bonapartismo e das diversas apropriações e usos que o conceito teve nas tradições francesa, alemã e brasileira comprova o risco das instituições representativas existente em períodos de crise, em que o uso da palavra democracia pode estar muito próximo ao da ditadura.
Observando a semântica histórica dos conceitos, o presente livro demonstrará que o conceito de bonapartismo é construído por relações sociais e políticas, ao mesmo tempo que constrói relações políticas e sociais.
O bonapartismo surge em meio a um processo de emancipação e "des-emancipação", de afirmação e seguinte negação do sufrágio universal no meio social.
Neste sentido, tanto os liberais que estipularam cláusulas de exclusão e limitação à participação popular, quanto os conservadores que negaram a necessidade de um parlamento, como instrumento fundamental à deliberação política em uma sociedade pluralista, esvaziaram o sentido do termo democracia e abriram campo ao surgimento do bonapartismo e de seus elementos.
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A história do conceito de bonapartismo - Adamo Dias Alves
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A HISTÓRIA DOS CONCEITOS COMO METODOLOGIA DA HISTÓRIA APLICADA AO DIREITO
A história como objeto de estudo comporta várias perspectivas de investigações.
A primeira é a perspectiva da história tradicional, que entende ser a história marcada por continuidades, pelos grandes acontecimentos e suas datas, pelo culto aos heróis e às grandes personalidades.
A segunda perspectiva, própria da nova historiografia, rechaça a postura da primeira e busca demarcar que a história não é caracterizada por uma ideia de progresso constante, não é linear, nem mesmo contínua. A história é factual, complexa, contingente, expressa relações de poder que se manifestam inclusive na forma de se interpretar a história. Deve-se evitar a leitura romântica da história, é preciso desmistificar tanto os ídolos como a ideia da existência de um passado glorioso que encobre as estruturas subjacentes aos eventos.
Este estudo opta pela segunda perspectiva, que compreende que a história só é história na medida em que não consente nem no discurso absoluto, nem na singularidade absoluta, na medida em que o seu sentido se mantém plural e aberto. Essa perspectiva de analisar a história desconfia dela mesma, critica-a, pois reconhece no discurso o resultado de relações de poder que se manifestam na forma como são usadas as palavras, os termos e os conceitos para recontar uma experiência ocorrida no passado.
Entre as metodologias da história, a história dos conceitos – Begriffsgeschichte – insere-se nesta nova historiografia que analisa a semântica histórica dos conceitos. Partindo da afirmação de que o sentido das palavras e dos termos encontra-se envolto em culturas e altera-se constantemente, a história dos conceitos mostra como uma determinada palavra vem sendo associada a diferentes sentidos ao longo da história.
Tem como um de seus fundadores e principal teórico Reinhart Koselleck, um dos mais importantes historiadores alemães do pós-guerra.
Koselleck¹ compreende que a história dos conceitos é um método especializado da crítica de fontes que atenta para o emprego de termos relevantes do ponto de vista social e político e que analisa com particular empenho expressões fundamentais de conteúdo social e político. A análise desses conceitos deve remeter não só à história da língua, mas também a dados da história social, pois toda semântica se relaciona a conteúdos que ultrapassam a dimensão linguística (KOSELLECK, 2006a, p. 103).
Nenhum conceito é exatamente a sua ocorrência total e perfeita apreendida no tempo porque toda história é algo diferente do que sua articulação linguística consegue nos transmitir.
Os acontecimentos históricos não ocorrem sem atos de linguagem, e as experiências que adquirimos a partir deles não podem ser transmitidas sem uma linguagem. Contudo, nem os acontecimentos nem as experiências se reduzem à sua articulação linguística, pois em cada acontecimento influem inúmeros fatores que nada têm a ver com a linguagem, e existem estratos da experiência que se subtraem a toda comprovação linguística. Assim estruturas pré-linguísticas e a comunicação linguística, história e linguagem estão entrelaçadas, dependem uma da outra, mas nunca coincidem inteiramente (KOSELLECK, 2006a, p. 267).
Gadamer (1900-2002) exerceu grande influência no pensamento de Koselleck. Foi mestre de Koselleck em Heidelberg, mas no tocante à interpretação da história divergiram consideravelmente, pois para Koselleck a história não se reduz à linguagem, não é uma simples filologia visando extrair a verdade dos textos, mas se aproxima de uma realidade passada, de uma experiência que se situa além dos textos e que pode conter uma estrutura de longo prazo não identificada linguisticamente. Linguagem e História permanecem analiticamente separadas apesar de história e linguagem se condicionarem mutuamente. A história não seria um subcaso do compreender existencial da hermenêutica.
Se existem tais pressupostos (condições pré- ou extralingüísticas) da história que não se esgotam na linguagem nem são remetidos a textos, então a história deveria ter, do ponto de vista epistemológico, um status que a impede de ser tratada como um subcaso da hermenêutica. Esta é a tese que quero fundamentar.² (KOSELLECK, 1997, p.69). (Tradução nossa).
Diferentemente dos anseios de Gadamer de que a história dos conceitos fosse aplicada, sobretudo, para a história antiga; Koselleck direciona sua investigação para a modernidade.
Koselleck caracteriza a modernidade pela constante aceleração temporal que pode ser vislumbrada ao se relacionar as experiências do passado e as expectativas com relação a um futuro que tende cada vez mais a se desprender dos limites possíveis dados pela experimentação.
Para a compreensão da relação entre passado e futuro, ele utiliza duas categorias meta-históricas: espaço de experiência e horizonte de expectativa.
A experiência é o passado atual, aquele no qual acontecimentos foram incorporados e podem ser lembrados, fundindo-se tanto a elaboração racional como as formas inconscientes de comportamento. A experiência é transmitida de geração por geração, sempre está contida e é conservada por uma experiência alheia. A história é, portanto, concebida como conhecimento das expressões alheias, várias ocorrências justapostas de histórias ocorrendo simultaneamente.
A expectativa também é ligada ao interpessoal, é atual pois se realiza no hoje, é o futuro presente, o previsto, o ainda-não. A expectativa pode ser composta por desejo, vontade, medo, esperança, curiosidade, análise racional, etc. (KOSELLECK, 2006a, p. 310).
Não são termos complementares apesar de se relacionarem e possuírem formas de ser diferentes. Jamais coincidem e funcionam como um alerta para o historiador: uma expectativa jamais pode ser deduzida exclusivamente da experiência. As expectativas podem ser revistas; as experiências recolhidas. Como afirma Koselleck, uma experiência feita, está completa na medida em que suas causas são passadas, ao passo que a experiência futura, antecipada como expectativa, se decompõe em uma infinidade de momentos temporais
(KOSELLECK, 2006a, p. 310).
A história dos conceitos surgiu como uma crítica à tradução contextualizada de expressões cronologicamente relacionadas ao campo semântico do direito constitucional, em seguida essa especialização pretendeu realizar uma crítica à história das ideias, compreendida por Koselleck como "conjunto de grandezas constantes, capazes de se articular em diferentes formas históricas sem qualquer alteração essencial". A partir desses empreendimentos, a metodologia da história dos conceitos passou a perceber que, paralelamente à investigação de um conceito, poder-se-ia investigar também o espaço de experiência e o horizonte de expectativa associados a determinado período, ao mesmo tempo em que se investigava também a função social e política deste conceito (KOSELLECK, 2006a, p. 104).
A metodologia da história dos conceitos busca traduzir sentidos lexicais em uso no passado – como o bonapartismo – para a nossa compreensão atual, pois, em um primeiro momento, a ação investigativa se processa pela análise sincrônica do passado, que, ao ser redefinida, é completada de forma diacrônica. Operacionalizada ao longo das épocas, acaba por se transformar, também no que diz respeito ao conteúdo, em uma história do respectivo conceito ali abordado. Em uma segunda etapa da investigação, os conceitos são separados de seu contexto situacional e seus significados lexicais investigados ao longo de uma sequência temporal, para serem depois ordenados uns em relação com os outros, de modo que as análises históricas de cada conceito isolado agregam-se a uma história do conceito. Neste estágio da investigação, o método histórico-filológico se sobressai por seu caráter histórico conceitual.
A análise da história dos conceitos acaba por aumentar o rendimento social e histórico da investigação. Pode-se perceber por quanto tempo permaneceu inalterado o conteúdo de um conceito, o quanto e de que modo este foi alterado ao longo do tempo. Somente pela análise diacrônica do emprego de um conceito em determinado tempo histórico é possível avaliar o impacto social ou político, assim como suas respectivas estruturas.
A história dos conceitos possibilita perceber a partir de quando determinados conceitos são resultados de processos de teorização. Esses processos de teorização são percebidos empiricamente a partir da contraposição entre determinados usos conceituais em um meio social determinado realizado após um cuidadoso trabalho de fontes históricas de naturezas diversas sobre esse período.
Koselleck defende a hipótese de que todo conceito é concomitantemente fato (Faktor) e indicador (Indikator). Todo conceito é não apenas efetivo enquanto fenômeno linguístico; ele é também imediatamente indicativo de algo que se situa para além da língua (KOSELLECK, 1992, p. 3). Daí a importância de o historiador ter em mente que todo conceito articula-se a certo contexto sobre o qual também pode atuar, tornando-o compreensível.
No tocante aos tipos de conceitos, Koselleck os classifica em três grupos: no primeiro grupo encontram-se os conceitos tradicionais da doutrina constitucional aristótelica, cujos sentidos lexicais permaneceram em parte e cuja exigência pode também ser resgatada empiricamente nos tempos de hoje. Por outro lado, há conceitos cujo conteúdo se alterou de maneira tão substancial que, a despeito da mesma constituição linguística, são dificilmente comparáveis; seu sentido só pode ser recuperado historicamente. Por fim, têm-se os neologismos, que surgem em certos momentos e que reagem a determinadas situações sociais e políticas cujo ineditismo eles procuram registrar ou até mesmo provocar; como exemplo tem-se o comunismo, o fascismo, e o bonapartismo (KOSELLECK, 2006a, p. 106).
Por se desenvolver nesta pesquisa a história de um conceito de movimento,³ o bonapartismo, é necessário explicar as peculiaridades desse tipo de conceito.
Os conceitos históricos, sobretudo os políticos e sociais, foram cunhados para apreender os elementos e as forças da história, como, por exemplo, democracia, ditadura, politeia, etc. O neologismo pode ser uma reação a uma situação nova não vislumbrada no espaço de experiência ou a busca por gerar uma nova relação social e política empreendida por determinado estrato social. Os conceitos são decorrentes de relações sociais e políticas, mas é importante salientar que os conceitos podem também gerar essas mesmas
