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Perseguidores e Mártires - Tito Casini
Tito Casini
PERSEGUIDORES E MÁRTIRES
1a edição
img1.jpgIsbn: 9788583864356
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Prefácio
Prezado Leitor
Perseguição aos cristãos é o nome dado aos maus tratos físicos ou psicológicos, incluindo agressões e assassínios exercidos por não cristãos sobre cristãos, motivados os primeiros pela diferente identidade e manifestação religiosas e étnicas dos segundos.
A obra histórica Perseguidores e Mártires, de Tito Casini, relata as perseguições que foram levadas a cabo na Antiguidade não somente pelos judeus, de cuja religião o cristianismo era visto como uma ramificação, mas também pelos imperadores do Império Romano, que controlavam grande parte das terras onde o Cristianismo primitivo se distribuía, e onde era considerado uma seita. Tal perseguição pelos imperadores teve fim com a legalização da religião cristã por Constantino I, no início do século IV.
As perseguições aos cristãos podem ser denominadas como misocristia, ou seja, o ódio ou horror a Cristo, aos cristãos, ou ao cristianismo. Misócristos estão presente em toda a história da pós-ressurreição de Jesus.
Nos últimos séculos, os cristãos foram perseguidos por outros grupos religiosos, incluindo muçulmanos e hindus, e por todos os estados ateus antirreligiosos Comunistas como a União Soviética e República Popular da China.
Incrivelmente, perseguições aos cristãos vêm ocorrendo até os dias de hoje em dezenas de países, como Arábia Saudita, Afeganistão, Uzbequistão, Maldivas, Sudão,Nigéria, Líbia, Iêmen, Índia, Síria, Paquistão, Somália, Irão e Eritreia, por parte dos governos desses países e parte de fundamentalistas islâmicos. Ocorre também na Coreia do Norte e Cuba.
Perseguidores e Mártires é uma obra que nos conta as atrocidades cometidas contra os cristãos na antiguidade, mas é também um lembrete de que a humanidade continua a carregar dentro de si a semente da intolerância religiosa, que vicejará sempre que o ambiente lhe for propício.
Uma excelente e proveitosa leitura
LeBooks Editora
Eu acredito no Cristianismo como acredito que o sol nasce todo dia. Não apenas porque o vejo, mas porque através dele eu vejo tudo ao meu redor.
C.S. Lewis{i}
Sumário
CAPÍTULO I
CAPÍTULO II
CAPÍTULO III
CAPÍTULO IV
CAPÍTULO V
CAPÍTULO VI
CAPÍTULO VII
CAPÍTULO VIII
CAPÍTULO IX
CAPÍTULO X
CAPÍTULO XI
CAPÍTULO XII
CAPÍTULO XIII
CAPÍTULO XIV
CAPÍTULO XV
CAPÍTULO XVI
CAPÍTULO XVII
CAPÍTULO XVIII
CAPÍTULO XIX
CAPÍTULO XX
CAPÍTULO XXI
CAPÍTULO XXII
CAPÍTULO XXIII
CAPÍTULO XXIV
CAPÍTULO XXV
CAPÍTULO XXVI
CAPÍTULO XXVII
CAPÍTULO XXVIII
CAPÍTULO XXIX
CAPÍTULO XXX
CAPÍTULO XXXI
CAPÍTULO XXXII
CAPÍTULO XXXIII
CAPÍTULO XXXIV
CAPITULO XXXV
CAPÍTULO XXXVT
CAPÍTULO XXXVII
CAPÍTULO XXXVIII
CAPÍTULO XXXIX
CAPÍTULO XL
CAPÍTULO XLI
CAPÍTULO XLII
CAPÍTULO XLIII
CAPITULO XLIV
CAPITULO XLV
CAPÍTULO XLVI
CAPÍTULO XLVIT
CAPÍTULO XLVIII
CAPÍTULO XLIX
CAPÍTULO L
CAPÍTULO LI
CAPÍTULO LII
CAPÍTULO LIII
CAPÍTULO LIV
CAPÍTULO LV
CAPÍTULO LVI
CAPÍTULO LVII
CAPÍTULO LVIII
CAPÍTULO LIX
CAPÍTULO LX
CAPÍTULO LXI
CAPÍTULO LXII
CAPÍTULO LXIII
CAPÍTULO LXIV
CAPÍTULO LXV
CAPÍTULO LXVI
CAPÍTULO LXVII
CAPÍTULO LXVIII
CONCLUSÃO
PERSEGUIDORES E MÁRTIRES
CAPÍTULO I
Abriram-se, desde a aurora, os batentes maciços das portas de "Jerusalém para o grande mercado.
Surgia dos vales do Jordão o sol, que lambia as sessenta torres s rochas de Sião e a colina de Ofel.
A massa imensa do Templo, sobre o Mória, toda recoberta, por fora, de mármores, ofuscava o olhar como uma montanha de neve. A magnificência do Templo, reconstruído por Herodes, o Grande, para cativar os hebreus, com suas agulhas e seus contrafortes, sobrepujava quanto se pode imaginar. Havia em profusão os mármores mais finos, os metais mais preciosos; de cedro eram os tetos, de mosaico e de lavor esquisito os pavimentos; os pórticos, as colunatas, os pátios, uma maravilha de arte. Emparelhava com o Templo, em riqueza, palácio de Herodes, ao pé do Castelo de Davi; mais além, a Torre Antônia, onde, para manter em ordem aquele povo inquieto e agitado os todos os partidos, estacionavam as guarnições romanas. Quatorze outras torres se elevavam no Acre, a cidade baixa, todas repletas de dados de Herodes.
Aquele incipiente mercado de Jerusalém devia ser de grande concorrência e rumoroso.
Ouvia-se, fora das portas, um clamor confuso de vozes humanas o berrar dos animais. Da Porta de ouro, do Monte dos Sepulcros, apelidado agora pelos cristãos Mau Conselho
, pois que nele se decida a morte de Cristo, manadas de ovelhas e cordeirinhos, que balavam, eram tangidas para dentro da soberba metrópole pelos pastores nômades Líbano, de Gad e de Rúben, cingidos seus mantos de azul celeste por uma corda ou tira de couro.
Chegam exaustos e poeirentos os moradores dos grandes vales de Zabulon, Neftali e de Aser, que não temeram afrontar as hordas de samaritanos e suas ameaças, nascidas da edificação do famoso templo de Jerusalém, que queriam sobre o monte Garizim. Os samaritanos eram os únicos que não tomaram parte no mercado, por causa desse templo...
Não faltavam, em compensação, os filhos de Abraão de todas as artes da Judeia. Vêm não só para vender e comprar no mercado, mas para uma visita ao templo de Mória, segundo as santas leis do país. Há-os de todas as doze tribos, dos vales do Jordão e das montanhas mais longínquas e reconhecem-se facilmente por seus dialetos variados como por suas túnicas cinzentas.
Quando, em suas solenidades, vão ao templo, caminham as mulheres frente dos homens, o rosto velado; mas hoje se misturam com os meninos, os maridos e vizinhos, porque hoje é dia de negócio e deixam resmungar os sacerdotes e os velhos fariseus que encontram pelo caminho.
Homens do Lago trazem às costas cestas cobertas com folhas de figo e não é mister que o anunciem porque deixam perceber o cheiro dos peixes, pescados à noite.
Da viridente estrada de Belém, vêm burricos carregados de verduras colhidas nos jardins ou nos hortos da Galileia; cestos e jacás de favas, de romãs e de cebolas se amontoam aqui e ali e seu modesto dono, envolto em simples saio grosseiro, apertado à cintura por uma tira de couro de cabra, começa com voz estrídula a anunciar sua mercadoria. Mais adiante, perto dos pórticos, um forasteiro que, pelo colo desnudado, samarra sem mangas, que cai solta, até os joelhos, se reconhece ser egípcio, segura seu camelo magro e ossudo. Oprimido por enorme carga de caixas cheias de azeitonas, tâmaras e uvas das famosas vinhas e vergéis de Heliópolis, o animal dobra, debaixo do ventre, as longas pernas e pousa o peito em terra. Daquela banca postiça se começa a venda; de quando em quando o animal sacode os cachos híspidos dos raros pelos do pescoço e mostra as duas filas de grandes dentes, mas o egípcio cuida apenas de apanhar as primeiras moedas de prata que começam a correr sobre os bancos, os sestércios e as onças romanas. Desde quando os romanos se imiscuíram nos negócios judaicos, estas moedas invadiram a Síria, mas os hebreus as consideravam uma profanação e ofensa a Moisés e ao Templo; agora, porém, mudavam-se os tempos e até em Jerusalém tudo se romanizava.
Com o acentuar-se da loura luz matinal, o mercado se toma barulhento, os ciclos de ouro e as moedas romanas correm pelas bancas; o povo, atento aos próprios negócios, atropela-se, choca-se; os vendedores de patinhos, de pombas, de rouxinóis, joalheiros ambulantes vestidos de mantilhos escarlates, anéis de ouro ao nariz e nos dedos, aros e braceletes nos braços, para darem ideia da riqueza de seu tráfico; especuladores de bálsamos, de resinas de Galaad, de cácia, e de mirra destilada; mercadores de toalhas de pano Tiro, com calçados recamados de ouro, mantos de tresponto, faixas traspassadas ao peito, de vestes e véus femininos, mesclam-se aos pequenos campônios, aos vendedores de ovelhas e vitelas e aos mercadores de cavalos e jumentos, amedrontando com suas vozes estentóreas aqueles animais pacíficos. É uma mescla de todos os costumes e por toda a parte um ir-e-vir de mulheres, meninos, sacerdotes e soldados.
Jerusalém parecia ter perdido a melancolia que a invadira depois do Deicídio, retomando o aspecto da antiga metrópole.
—Pelos deuses do Capitólio! — exclamava saindo daquele aperto um hercúleo legionário romano, recoberto de malha e de elmo de cobre, — é barulhenta esta cidade dos judeus, é animada, é grandiosa, mas é insuportável.
—Ó Martiniano, Roma domá-la e retomaremos às nossas casas, respondia um seu camarada.
—Não voltaremos tão depressa, ó Processo.
—Por que, pois, não se acalmará mais este populacho de circuncisos com suas insurreições perpétuas, suas lutas religiosas, suas novelas de Moisés, de Abraão ou de Cristo?… Há quatro anos mataram esse profeta e ainda ...
—Agora, exatamente, seus ódios se acendem cada vez mais contra ele! Novas lutas se inflamam por toda parte.
—Morrerei feliz no dia em que não me aparecer à frente mais nenhum!
Ao encontro dos dois, que desaparecem rumo à Torre Antônia, onde se aquartela a guarnição romana, aparece um novo ser. Está vestido mal; no rosto e nas espáduas caem-lhe longos cachos de cabelos: caminha só, caminha majestoso, não olha em face a ninguém. Quem o encontra, ri daqueles cabelos, daquela barba arruivada, como também daquela roupa que o cobre; ele, porém, nem sequer pensa nisso.
É imundo, mas fez voto de andar assim e não faltará, deveras, a seu voto. Não bebe vinho nem Sícera. É um dos nazarenos.
Alvo de maior atenção é este outro que desce o caminho que vem do monte Garizim. Os olhos de todos se fixam nele; é um chefe samaritano. Se o tocar, contaminar-se-á o hebreu; afugentam-no por isso: mas ele ri de quem lhe tolhe, com tanta sofreguidão, o caminho. Elegante seu vestir. Amarrado com cordõezinhos de seda amarela, sobre a cabeça seu rico manto, que lhe descai em largas dobras sobre os ombros, cândidos como neve, e rica faixa, franjada de ouro, evolve-lhe em tomo do peito. Mostra profundo desprezo por aqueles hebreus soberbos, que têm por excomungados os samaritanos.
Da porta do Templo, a passos lentos, descem os soberbos degraus e os Pórticos, nos quais pregaram Jesus, outros personagens, gente de grandes negócios. Descem dois a dois; seus lábios murmuram as orações matinais e, de quando em vez, com grande fervor, erguem os braços ao céu. O limbo de seus mantos, decorados de franjas cor de jacinto, como prescreve a Lei; têm os rostos abatidos para mostrar que jejuam e, se uma mulher do povo ou um pobre tocar suas roupas repelem-nos prontamente para não se contaminarem.
Este ar de santidade perfumada incutia respeito e reverência ao povo, mas após as prédicas que lhes fizera Jesus, face a face, perderam muito de sua reputação e agora respeitavam-nos porque poderosos e vingativos. A Jesus, crucificaram-no! Eram os bandos dos escribas e dos fariseus, que agora dominavam a plebe judaica.
Chegam os ricos hebreus seguidos de longo séquito de servos, do Egito, de Tiro, de Sidon, e mercadejam os produtos do Nilo e da Ásia. Ouvem-se todos os dialetos da Ásia.
Entre eles, com ar senhorial e de arrogância, homens de grande estatura e amplo tórax, vestidos de túnicas de lã, abertas ao peito e sem mangas, fazem ostentação dos terríveis músculos de seus braços. Estes seres prepotentes e idiotas são os gladiadores, os corredores, os pugilistas, profissões desconhecidas na Judeia antes da vinda dos romanos, homens bestiais e sem piedade, que, ao convite do rei Herodes, mais grego que hebreu, em grande número desceram das Gálias e das tribos do Danúbio. Todos são considerados pelos hebreus como uma provocação, um escândalo. Especialmente pelos sacerdotes do Templo, que passam com seus levitas e lhes atiram olhares de ódio profundo. Nenhum, porém, ousa molestá-los de medo daqueles músculos de Hércules, que exibem.
—Pobre cidade dos Profetas! Exclamam velhos fariseus que descem do Templo. Infeliz cidade dos Profetas, quantos inimigos cal eram por entre teus muros! No lugar santo está a desolação!
—Estai em paz, respondeu-lhe o samaritano que lhe perpassa ao lado: o lugar santo não é aqui; o Senhor está sobre o monte Garizim!
—Cala, pecador! Só há um templo de Deus na terra.
—O próprio Josué levou sobre o monte santo a Arca e o Altar!
—Nosso grande profeta Davi visitou, acaso, vossas terras?
—Visitou-as o Messias. Deteve-se no poço de Siquém.
—Cala, cala! … Esse, crucificamo-lo. Ninguém fala mais dele.
—Ah! ah! Replicou, rindo, o samaritano. Ninguém, é verdade, fala mais, depois que o crucificastes! Seus apóstolos estão quietos! ah! ah! Vós o crucificastes e dele ninguém fala mais…
—Se houver quem fale, fá-lo-emos calar.
—Decerto, muitos defeitos os descobrem; é mister fazê-los calar. Mas, ouvi, ouvi, continuava o terrível samaritano, há alguém, aqui, entre os Pórticos, que fala muito alto. Se não me engano, ouvi-lo, vos constrangerá um pouco! Uh!… Seria preciso fazê-lo calar. É preciso crucificá-la, à gente que nos aborrece…
O velho fariseu, cheio de grande cólera, voltou-se, de fato, para o grande Pórtico.
CAPÍTULO II
Era um dos novos e magníficos pórticos construídos por Herodes, o Grande, e tomara o nome de Pórtico de Salomão, porque se erguia no grande terraço por ele construído a quatrocentos côvados do fundo do vale. Este tríplice pórtico era guarnecido de quatro colunas, em todo seu comprimento, e as colunas eram tais q; seriam precisos três homens para abraçar-lhes o fuste. Os capitéis, estilo coríntio, do mais belo acabamento. O teto, adornado de esculturas, de alto-relevo, em madeira, com pâmpanos de videira, de orno, que se entrelaçavam na cornija e pinturas, cuja fiel descrição nos dá José.
O grande Pórtico, todo adornado com esplendor incrível, elevado a tal altura a dar vertigens, unia-se, por uma ponte, à grande praça que se estendia do despenhadeiro ao cimo do monte Sião.
Como acenara o samaritano, um belo jovem, vestido de maneira singular falava.
Sob a ampla arcada, até a Especiosa, onde Pedro e João haviam curado o estropiado, uma multidão extraordinária, composta de soldados, mulheres, forasteiros, acotovelava-se em derredor dele.
Inflamava-se lhe o rosto; sua palavra quente, apaixonada, comovia visivelmente seus ouvintes. Choravam alguns, outros se ascendiam com o mesmo ardor.
O povo conhecia bem aquele jovem grego. Era o diácono Estêvão, da escola de Gamaliel, escola famosa daquele tempo, em Jerusalém; Gamaliel, o mais douto e o mais estimado fariseu da cidade.
—Que escândalo é este? Exclamou o velho fariseu a dois de sua seita, postados a uma coluna do Pórtico. Vai calar-se este Estêvão.
—Não nos comprometas com estas turbas fanáticas, ó Rufo! Espera um momento ainda, eis que se avizinham os gladiadores.
—Que faz Jônatas, quando este grego fala tão mal de nós?
—Tudo está combinado com o Sumo Pontífice: este grego deve ajustar as contas com os gladiadores. Aproximam-se dele; estão pagos para prendê-lo hoje mesmo.
Ouviu-se uma risadinha sardônica atrás da coluna. Era o samaritano inexorável. — É preciso fazê-la calar-se, repetiu, é preciso crucificá-la, esta gente que nos aborrece!…
Inflamados de ira voltam-se os três fariseus para aquele excomungado, mas, ao mesmo tempo, tempestuoso tumulto se levantou entre a multidão que estava atenta em ouvir explicar as Escrituras. Fogem gritando, as mulheres e crianças seminuas, atropelando a multidão; oito ou dez gladiadores das tribos do Danúbio se arrojam sobre o ardoroso pregador do Nazareno.
—Que é isto? Perguntavam os forasteiros.
—É um subversor, um fanático! Diziam os fariseus.
—Não, não, é inveja, é vosso ódio, replicavam as mulheres.
De fato, dentro em pouco as Sinagogas de Jerusalém fremiam contra ele, porque falava mal da hipocrisia deles.
Era pontífice, agora, Jônatas, filho de Anás, sogro daquele Caifás que condenara à morte Jesus. Anás, desde a noite em que lhe levaram em casa o inocente, não serenara o rosto e morrera amaldiçoando aquela horrível noite. Caifás, também destituído do pontificado, perseguido dia e noite pela sombra daquele inocente, desaparecera, velho iníquo, e ninguém o chorou.
Quanto ao Pontífice de agora, estava pronto a deixar apodrecer nas torres do Templo, agora que o Templo era seu, pelas moedas desembolsadas para Vitélio, não só o diácono Estêvão, mas a quantos cristãos se opusessem às suas intenções ambiciosas. Uma dezena de estirpes sacerdotais apresentou-se, pois, ao Palácio daquele filho de Anás e lhe disse: —Aquele homem não cessa de gritar contra nós e nossa gente; que faremos dele?
—Não temos uma lei? Respondeu Jônatas.
—É necessário para honra nossa e de Moisés, nosso pai, suprimi-lo.
—Acusai-o ao tribunal do Sumo Pontífice e eu…
—Mas o povo lhe corre atrás…
—Que importa? Procurai testemunhas e acusai-o.
Jônatas fez um ato de impaciência. — Esta seita, prosseguiu, é toda nossa inimiga, inimiga da Sinagoga e do Templo. Que aproveita ter crucificado o Chefe se a estes todos deixamos livres?
A trama sortia bem: o dia do grande mercado era propício para levantar-se um tumulto indescritível.
O santo jovem, tomado pelos braços musculosos daqueles eslavos ferozes, foi arrastado no tumulto, pelos degraus do templo abaixo, à grande sala do Sumo Pontífice.
Por este nosso primeiro herói começaram as Cenas
de nossa narração, cenas que terminarão com o triunfo da Igreja, mas depois de ter sido banhada com rios de sangue!
Aqueles que deviam fazer parte dos acusadores, apresentaram-se perante o Pontífice, juiz supremo de tudo quanto se referia à religião. No meio de grande pompa, Jônatas se assentava em alto trono, de três degraus, vestido de longa túnica de linho, que lhe chegava aos pés. Por cima desta, uma segunda, cor de jacinto, guarnecida de pequenos chocalhos de ouro e figuras de granada, recortadas em púrpura e jacinto.
Magnífico cinto o apertava à cintura.
À cabeça uma tiara de bisso, amarrada, em derredor, por um laço também de jacinto e a fronte uma placa de ouro em que estava escrito: Santidade e Propriedade do Senhor
. Tinha o peito todo recoberto de rico tecido de ouro e púrpura, unido nas espáduas por duas fivelas de ouro "o efod sagrado" de que pendiam, à direita e à esquerda, duas pedras de ônix, com os nomes gravados das doze tribos de Israel.
Durante o tempo em que esperava, vestira-se com grande pompa. Seus sacerdotes, também em roupagens solenes, sentavam-se à direita e à esquerda.
—Este homem, disseram-lhe avançando-se os acusadores, não cessa de maldizer Moisés e o Lugar Santo; conduzimo-lo a ti…
—São mesmo assim estes fatos? Perguntou com ar aflito ao acusado o Pontífice.
—Ouvimo-lo pregar que aquele Jesus Nazareno destruirá este lugar e abolirá as tradições que nos foram legadas por Moisés.
—É verdade? … queria prosseguir o Pontífice, mas perdeu a palavra. Tomara-se tão luminoso o rosto do jovem acusado que não era possível fixá-lo de face!
O Espírito Santo o inflamara.
Ereto como um profeta, no meio da assembleia, começou a falar. Retomando desde Abraão e Moisés, recordou todas as misericórdias de Deus para com o povo e as virtudes e o zelo dos Patriarcas para conservá-lo fiel ao Redentor prometido. O Antigo Testamento inteiro falava de Jesus. José foi vendido pelos irmãos, Isaac sacrificado sobre o monte, Moisés que liberta o povo, foram as figuras mais belas dele. Deus não mora em templos manufaturados, nem necessita dos bezerros imolados. Abraão se santificou pela fé e não pelo templo.
Jônatas, os libertinos, os Sacerdotes, fecharam os ouvidos, horrorizados. Era ele pior do que os próprios samaritanos? Mas, com o rosto radiante, prosseguia: Não, Deus não habita em templos de mármore; seu trono é o céu; a terra o escabelo de seus pés; que casa edificareis digna do Senhor? A lei que Moisés deu ã vossos Pais devia ser aperfeiçoada por este Salvador prometido de geração em geração, mas não quisestes receber este Salvador e o crucificastes
.
—Era um malfeitor, um blasfemador!
—"Duros de cerviz e incircuncisos de coração, surdos a toda admoestação e a todo conselho! Sempre resistentes ao Espírito Santo. Como foram pérfidos vossos Pais, que traíram sua fé para seguir Moloc e o culto de Renfam, assim sois vós. A qual dos Profetas não guerrearam vossos Pais? Mataram os que pregaram a vinda do Justo, e vós fostes os traidores e assassinos dele. Recebestes a lei das mãos dos Anjos e a não guardastes, traístes o Justo, o Inocente, entregando-o a Pôncio Pilatos…"
Invadiu aquela assembleia de malvados verdadeiro furor. Os chefes da Sinagoga rangiam os dentes contra ele e a turba comprada levantava as mãos gritando: à morte, à morte. Apedrejamento, apedrejamento! Aquele ódio furioso e aquela ira bestial tiraram ao Sumo Sacerdote a última hipocrisia: de rasgar as vestes e proferir as palavras rituais: ouvistes suas blasfêmias; que vos parece?
As leis romanas não concediam mais ao Pontífice o direito de matar alguém, mas Jônatas, no início de seu Pontificado, dera ao Procurador, sucessor de Pôncio Pilatos, cem belíssimas libras de ouro, pelo que se entendia muitíssimo bem com o Governador.
CAPÍTULO III
Jerusalém continuava rumorosamente seu mercado.
Um efeminado comediante da Acaia, com uma coroa de mirto em redor da cabeça e uma túnica, escarlate que, sob um cinto de búfalo lhe cai até os joelhos:
— Eh! Simônides, diz, batendo as mãos aos ombros de um vendedor de gulodices, que nos dás de bom hoje?
—Fruta do Pélion, tortas e pastéis, doces como maná.
—Eis, para ti, vermelhas moedas de Chipre; dá-me tortas de fígado de ganso e tâmaras…
—Não quererias também figos da Acaia, azeitonas cheirosas de Getsêmani?
—Oh! Mésimo ilustre, prosseguiu, inclinando-se, de repente para os dois recém-chegados o efeminado comediante; oh! Ilustre filho de Icônio, os deuses te conservem feliz como os vales da divina Tessália! Saúde a ti também Saulo!…, mas deixa por um pouco as tristezas dos gramáticos de tua Tarso, alegra-te, Saulo e sorri-me. Como pode haver tristeza nas praias encantadoras de teu Cidno, amor de todos os deuses?
E o volúvel ateniense, abandonando a banca de Simônides, pôs-se a seguir seus dois compatriotas, que por acaso ali passaram.
—Para onde dirigis vossos passos? Continua ele; os deuses da Grécia vos sejam propícios.
—Não creio em teus deuses, Catulo, sou hebreu, respondeu Saulo, conhecidíssimo jovem fariseu.
—Não me agradam. Vênus e Diana te teriam aceito de boa mente, mas a escola de Gamaliel te fez abominar os sorrisos de nossas belas deusas. Oh! Gozamos a vida enquanto podemos, não é Mésimo? Que faz tua bela Tecla, a rosa mais bela dos jardins de Icônio?
—Ah! Respondia Mésimo sorrindo; Tecla está preparando o flameou e o rícino ...
—Bem, por todos os deuses do Olimpo! Assim seja. E o esposo afortunado?
—Tamíride de Eutolemo.
—Ótimo! Virei de propósito de Atenas para lhes cantar o epitalâmico. Viva a felicidade! Vivam os prazeres! Deixa, Saulo, a melancolia de tuas leis mosaicas e teu Gamaliel. Crê em mim: um só deus é verdadeiro, o prazer! oh! Santo padre Epicuro, foste o maior dos homens porque somente pensaste em beber e comer!
—Cala, replicou Mésimo, cala, ó Catulo, não é esta a cidade para semelhante filosofia. Os hebreus, teocráticos por essência, acabaram por entregar-se ao culto mais incômodo, mais inverossímil, o. culto de um Deus crucificado!
—Não falais de hebreus, ó Mésimo, falais de uma seita de hebreus. Os hebreus não dobraram nunca a cabeça ao culto da cruz. Só têm as tradições de Moisés. Por estas combateremos todos até a morte, respondia Saulo animando-se.
—Entretanto, aquele Crucificado faz prosélitos entre vós!
—É um escândalo!
—Escândalo, sim, mas por pouco tempo. Logo tudo cairá no silêncio.
—Mas eles teimam que o Crucificado era o enviado de Deus, era o Messias!
— Pelos deuses; onde se ouviu falar em um Deus crucificado?
—Aquela seita de fanáticos chega até a isso, mas terão que pensar muito no que dizem. Estão enamorados dessa delícia e lhe faremos experimentar, dizia Saulo. Mas, atenção, as trombetas dos sacerdotes chamam as tribos a recolher. Que é? Perguntou um levita que passava.
—O apedrejamento de um blasfemo.
—Um blasfemo? E quem é?
—Um sequaz do Nazareno, Estêvão, o primeiro dos diáconos.
—Estêvão? Exclamou Saulo golpeado por aquela notícia; Estêvão, meu velho companheiro de escola! Que dirá Gamaliel?
Jerusalém, nessa época, pela influência dos pagãos, tornara-se famosa pelos maus costumes, não menos talvez do que Roma. Muitos riam, tanto das crenças judaicas como das cristãs. Saulo, porém, constituía exceção entre todos. Provinha de Tarso, da Cilicia, província que gozava da cidadania romana, mas, sua juventude passara-a em Jerusalém, frequentando, como ouvimos, a escola de Gamaliel, único que honrava nesse tempo a seita dos fariseus…Frequentando essa escola travara amizade com outros dois gregos seus condiscípulos, José de Chipre e esse mesmo Estêvão de quem se divulgava agora aquela desgraçada sentença. Mas a antiga amizade acabara entre os três, desde o dia em que vindo Jesus a pregar, os dois se puseram entre seus discípulos.
Saulo, tenacíssimo em tudo quanto se relacionava com sua religião, não podia tolerar aquele que se dizia o Messias; que, a seu ver, não respeitava bastante Moisés, e, devemos dizê-lo em seu desfavor, foi com muita satisfação sua que afinal o suprimiram.
Estêvão!
Era um velho amigo seu; penalizava-o. Mas era necessário um exemplo!
O cortejo funéreo apontou na praça do Templo. À frente, precedia um servidor, que levava um chuço em cuja ponta flutuava uma bandeira cor de jacinto. Seguiam as testemunhas, uma pedra cada uma, à mão. Tinham o direito de ser os primeiros a apedrejar o culpado. Após eles, os chefes das casas de Israel.
Se se apresentasse um defensor para falar pelo condenado, deveria ser ouvido, por lei; mas não se apresentou ninguém. Para cumprir a lei, o Sumo Sacerdote, em tom ritual, exortava o condenado a confessar sua falta, eis que o arrependimento podia assegurar-lhe a vida futura e depois o entregava aos soldados, que, adiantando-se, o circundavam.
Por detrás deles, um tumulto endiabrado da turba do povo; ele, porém, vinha com o rosto luminoso e radiante. O ódio daqueles miseráveis não parecia perturbá-lo.
Ao passar em frente a Saulo, reconheceu-o, quis deter-se e pareceu querer-lhe dizer uma última palavra. Devemos dizê-lo com amargor que Saulo olhou-o turvo e aos gritos do povo juntou o seu; — caminha, blasfemo!…mas uma mão amiga lhe tocou os ombros: — jovem fariseu, ouvi-o falar, não insultes um inocente!
Saulo voltou-se surpreso. —Mestre!…murmurou confuso.
Era Gamaliel que passava e com ele José de Chipre, chamado agora Barnabé, desde quando cristão.
Saulo ficou confuso. Lançaram-no no mais profundo estupor aquelas palavras. Não era ele, Gamaliel, o fariseu mais fervoroso na observância da Lei?…como podia dizer-se inocente seu desprezador?
Cessaria toda sua maravilha se soubesse que o grande Doutor, humilhando-se, poucos dias antes, ante Pedro, ouvira-lhe as palavras inspiradas e entregando-se a estudar melhor a vida e os milagres de Jesus Cristo, se batizara também e fizera-se cristão.
Mas Saulo se refez logo daquele estupor e tornou-se o zelador incansável de suas tradições, pelo que, saudado o Mestre, alcançou e se reuniu aos acusadores do condenado.
—Não tens, Saulo, pedra? perguntou-lhe um destes.
—Não me é lícito, não tenho idade legal.
—Não faz mal, teu braço lhe fará sentir igualmente.
—Mas a Lei não o proíbe?
—Oh! A lei! Nunca viste elefante embaraçado em teia de aranha?
A Lei somos nós.
Saulo ficou escandalizado.
—A Lei não me permite, repetiu, e não atirarei uma pedra, nunca!
—Atirá-la-emos nós, responderam rindo aqueles acusadores, tu nos guardarás os mantos, rapaz.
—Fá-lo-ei, replicou irritado.
O lugar dos apedrejamentos era fora da Porta do Rebanho
além da torrente de Cedron. O povo se detinha para contemplar as pedras, que a montões, daqui e dali, cobriam um parricida ou um profanador do Sábado e um adúltero e se afastava de lá com arrepios amaldiçoando aqueles sepulcros de pecadores! Os meninos não frequentavam nunca aquele campo, medonho para seus folguedos!
Arrastado para lá, o condenado foi obrigado a descer um pequeno fosso escavado e deixado só. Os acusadores tiraram o manto e deram o sinal, atirando os primeiros, suas pedras sobre o condenado. Retirados eles, à parte, uma saraivada de pedras, de todo lado, veio cair sobre ele. O pobre moribundo pensou em seu Divino Mestre, reviu àquela hora medonha quando se obscureceu, sobre aquele monte, o sol! Também em torno dele havia trevas; talvez estivera presente à escuridão pavorosa do monte! Aquelas trevas voltavam, não enxergava mais…ajoelhado, olhava o céu, diante de si. Abatido pelas pedras, dobrou, como a flor, sob a saraivada e banhado o corpo todo em sangue, acomodou-se sobre as pedras que agora lhe amontoavam ao redor, e morrendo, com voz imperceptível exclamou: — Senhor, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem! Senhor, recebei em paz o meu espírito! E os céus se avizinharam; Jesus se assentava lá em sua glória. Um último raio luminoso se lhe difundiu pelo rosto e depois tudo se apagou.
À maldade dos homens nada se podia acrescer!
Quando voltaram à cidade, soldados e povo, aquela cena foi assunto de grandes comentários. Gregos, árabes, romanos, que tanto desprezavam Jesus de Nazaré, como o seu velho Júpiter, riam daquele povo original que matava um homem, porque blasfemara.
Embora tão perturbado por aquele tumulto, terminara o grande mercado.
O sol tristonho como se levantara do Jordão, submergia-se no mar longínquo, lançando às praias de Gaza e Jope os últimos raios melancólicos. Os camponeses e os vendedores de ovelhas e hortaliças haviam transposto as portas; os mercadores árabes, gregos e das afastadas cidades da Judeia e da Síria apressavam sossegadamente seus camelos. O Grão-sacerdote acendia a lâmpada do Senhor do Templo, porque acabara o dia.
Naquela hora de retiro, viram-se passar ao longo do caminho do Cedron, duas sombras envoltas em seus amplos mantos, e parar junto ao montão de pedras que cobria o pobre apedrejado.
Eram dois cristãos, o mestre e o colega do morto. Gamaliel e José de Chipre. Com o auxílio de seus servos, aquele corpo venerável foi tirado e levado a Casergamala.
Rogamos aos leitores perdoar-nos pequenos episódios em nossa história.
As desventuras que a seguir, sob os romanos, desolaram a Judeia. Destruíram Casergamala, e, debaixo de suas ruínas, também os ossos desse Santo se dispersaram.
No tempo de Teodósio, o jovem, Casergamala ressurgiu de seus escombros. A pequena aldeia voltou a ser habitada e surgiu entre suas alvas e pequenas casas um oratório cristão. Era oficiado por Luciano, padre de Jerusalém, e aqui se reuniram os cristãos da aldeia.
Enquanto o padre, uma sexta-feira, à noite, velava em sua igrejinha silenciosa meditando sobre os mistérios do Calvário, que surgia à frente, viu aparecer-lhe um velho venerando, todo vestido de branco.
—Conheces-me, Luciano? Disse-lhe.
—Não me recordo haver-te visto, oh! Homem de Deus.
—Sou Gamaliel, que dorme junto à tua igreja.
—Que me pedes?
—Procura meus ossos. Três outros justos dormem comigo e entre eles o corpo do homem grande
, do homem santo
.
—Obedecerei logo, exclamou Luciano.
E o velho desapareceu.
No dia seguinte, Luciano se dedicou a escavar aquela terra e apareceram os esquifes dos Santos.
A grande descoberta atraiu para lá os cristãos de toda a Judeia.
De Dióspolis, onde se celebrava o Concílio de Bispos, para condenação das doutrinas do herético Pelágio, chegaram o Patriarca de Jerusalém, o Bispo de Jerico, o de Sebaste e grande número de Padres. O Patriarca mandou extrair da fossa os esquifes e abriu-os com suas mãos.
Perfume misterioso, naquele instante, espalhou-se ao redor, pelo ar, e sessenta e três doentes sararam repentinamente. Uma festa, um tripudio imenso, em torno àquelas relíquias.
Era vinte e seis de dezembro do ano 415. Os corpos de Gamaliel, de Abibas e de Nicodemos, com o concurso imenso de cristãos de todas as partes da Ásia, foram levados à Igreja de Luciano, onde este santo padre os guardou e onde viveu em paz, a orar, até a morte; mas o corpo de Estêvão, o homem grande
, o homem santo
, foi levado em triunfo a Jerusalém. Naquele dia, uma chuva, esperada em vão há um ano, caiu sobre todos os cantos requeimados. Sião ressoou com cantos e exultações.
Agostinho, então Bispo de Hipona, na África, obtendo, por favor, algumas relíquias do grande Mártir, dedicou-lhe uma igreja naquela cidade. Aí, uma senhora cega levou flores, depositou-as sobre as relíquias, tocou com elas os olhos fechados e eles se abriram. Um pagão, Marcial, próximo à morte, recusava obstinadamente o batismo. Postas sobre sua cabeça, por suas filhas, algumas flores do altar do Santo, converteu-se imediatamente e morreu repetindo as palavras com que aquele falecera: Senhor, Senhor, recebei em paz meu espírito! Um morto, ungido com o óleo de suas lâmpadas ressuscitou. Dois jovens, atingidos de mal misterioso, que os tornava paralíticos, e que, como Caim, percorreram a terra sem achar paz, foram trazidos ante aquelas relíquias. Na Grécia, haviam batido na sua mãe e está, em acesso de ira, os amaldiçoara em nome de Deus e Deus a ouvira! As convulsões daqueles amaldiçoados, as lágrimas da mãe arrependida, moveram à piedade todo o povo! Caiu o povo em pranto e oração.
Para logo os jovens infelizes soltarem um grito de alegria. Estavam curados!
Agostinho, cheio de ardor, à vista destes prodígios, tomava consigo sobre o púlpito os curados e fazia-os narrar ao povo a graça obtida e tudo terminava entre gritos e soluços.
Estêvão tornava-se o Santo dos grandes prodígios.
Na Espanha, onde um padre, amigo de Luciano, levara alguns ossos seus, deram-se tantos milagres e curas imprevistas, que quinhentos hebreus reconheceram a sem-razão de seus pais para com o glorioso compatriota e se converteram.
Belos tempos, belos triunfos após tantas batalhas!
Mas sobrevoamos muitos anos!...é mister retomarmos.
CAPÍTULO IV
Habituado como estás, leitor meu, ao aspeto festivo de tuas colinas e planícies, à bela serenidade de teu céu e de teu sol, não chegaste, jamais, a fazer uma ideia dos lugares selvagens e das florestas horrendas onde não filtra raio de luz entre recessos impenetráveis, onde se não descobre indício do homem. Aí, a vegetação se desenvolve aos calores vivos e ardentes, se agiganta; as árvores se erguem, entrelaçam-se, confundem-se, arremessando ao céu, depois de mil contorções, como braços de enormes gigantes, suas copas. Velhos troncos, com séculos de existência, prostrando-se para a terra, sob o peso de cem ramos, nascidos uns sobre outros, transformavam-se em cavernas, abrigos de serpentes; mas, em derredor deles, mil outros troncos ressurgem; os mesmos ramos, mergulhando na terra as copas, metem raízes e crescem, árvores novas. É uma urdidura, uma rede, um labirinto de galhos, que descem e sobem, de troncos que se esgalham por todos os lados, de lianas que serpenteiam, que grimpam, que se atiram de árvore a árvore, ligando estreitamente imensas tribos vegetais, subindo em festões e em cascatas, tapando o sol, ao passo que, entre líquenes e musgos gigantes, caminham insetos venenosos, rojam serpentes de olhos reluzentes e espirais verdes; as feras se agridem, com rugidos espantosos e a serpente se insinua por debaixo deles e os enlaça em seus nós, tenazes como o aço. Quando lá dentro penetram os ventos do meio-dia então todas se abalam, se subvertem, se perturbam aquelas solidões imensas, e o rumor do barulho, dos estrondos e dos uivos das feras à procura de suas cavernas, produzem um desconcerto misterioso e terrível, que parece, a natureza treme e se espanta de sua própria forca. Que horror!
Desta maneira se achava, ao princípio de nossa narração, asselvajada a terra!
Os antigos povos primitivos, que conheceram seu Criador e sabiam a própria origem, passaram todos e nada mais se sabia da Criação do homem, do paraíso Terrestre, do pecado de Adão.
A maior ignorância obscurecia a terra toda! Perdida a ideia de um Deus criador e conservador de todas as coisas, caiu-se na idolatria universal. Às divindades criadas atribuíram-se todas as paixões humanas e do céu veio sobre a terra a escola de todo vício, a teologia pagã se tomou escandalosa e os povos perderam toda ideia de virtude, de pureza, de justiça e de caridade.
Veremos em cada página de nossa história, atribuírem-se honras divinas aos imperadores e aos cúmplices de sua luxúria; veremos adorados nos templos, bezerros, cães, serpentes; veremos na própria Roma, centro da maior civilização pagã, adorada, até a nojenta e fétida Cloaca
Máxima, que recolhia e descarregava no Tibre as imundícies asquerosas da grande Cidade!
Grande coisa um Deus! Escrevia Horácio satírico. A um esfaimado fabricante de cadeiras, lhe vem à mão um tronco seco de figueira. Que farei deste pedaço de madeira?…um armário ou um deus! Agarra o machado e fábrica um desajeitado Priapo e leva-o ao horto para que o guarde dos ladrões. Os pássaros vão fazer sobre ele suas sujeiras, mas ele não se desgasta, é um deus e, se necessário, sacrifica-se um limãozinho prematuro ou uma abóbora e, pelos ricos, até mesmo um asno.
Este desconhecimento de Deus levara ao total embrutecimento da infeliz humanidade e à perda de toda virtude moral.
Arruinava-se a sociedade com a ruína de todo ideal. Os filósofos se preocupavam com esta decadência. Sêneca escrevia em suas Epístolas: É preciso sanear toda a sociedade…mas, pobre sociedade, se devesse ser saneada por seus ensinamentos!
Admitiam todos que se podiam matar os escravos à vontade do senhor; que o pai tinha o direito de matar seus filhos e, de fato, matavam-se, sem consideração, se nascessem estropiados ou deformados. O próprio César Augusto fizera despedaçar, em uma rocha, o parto de sua filha Júlia, porque fruto de adultério. Aristóteles ensinava que o furto era apenas uma indústria; Sêneca, que o homem infeliz tinha o direito de suicidar-se. Zenon propunha que, para extinguir a luxúria, ninguém devia vestir-se, mas habituar-se a andar nu, desde criança. Epiteto reprovava os mestres muito rígidos que não permitiam desonestidade alguma a seus discípulos. Demóstenes cometia suas torpezas nos Pórticos, apregoando que ninguém deveria preocupar-se com isto, porque coisa natural. Crisipo, Diógenes e até Platão propunham, para que os jovens amassem os velhos e os velhos aos jovens, que os casamentos fossem comuns, de maneira que ninguém soubesse por quem fora gerado! O próprio Crisipo, narrando a vida dos deuses, escrevia deles tais impudicícias que o céu parecia uma região de Sodoma!
Com tais mestres e tais doutrinas dever-se-ia reformar o mundo!
No meio de ensinamentos tão horrorosos e de coisas tão iníquas que compunham o mundo pagão, nosso espírito descansa, decerto, vendo aquele pequeno povo de Israel que conservou firme a crença em seu Criador. Naquele seu templo ao verdadeiro Deus manteve-se elevada, por muito tempo, a dignidade humana; lá, a pequena família de Abraão orou, queimou as espigas de grão e as ovelhas, celebrou suas páscoas em paz. Lá orou Maria, mocinha, tomou-se mãe de Jesus, no meio de suas rolinhas e Jesus mesmo lá pregou…mas como decaiu agora aquele antigo povo de Deus! Está tão celerado, que sua perseguição aos sequazes do Evangelho supera a dos próprios pagãos!
Às honras do pontificado ascenderam homens ímpios, como vimos, e as alcançaram com intrigas e dinheiro. Sob estes chefes iníquos não é de admirar terem-se tornado maus, soberbos, invejosos, o escândalo do povo, até os sacerdotes!
Depois da pestífera invasão do paganismo, acontecida sob o domínio romano, não é maravilha soçobrarem os bons costumes judaicos.
As belas moças de Judá, que com seus sistros e tímpanos alegravam outrora as montanhas de Sião, com seus charmes de Davi, agora perdido o ar virginal, caminham altivas, passos estudados, cabelos arranjados à maneira pagã, com grande exibição de calçados, de perneiras, de muletas, de colares, de gargantilhas, de braceletes, toucados, coroas, correntinhas de ouro, anéis, brincos, gemas nos cabelos, faixa no peito, recamadas de pérolas e rubis, mantilhas, véus transparentes e perfumes odorosos, rebuscadíssimos; não sobem mais ao Templo para as purificações, mas para acompanhar, como passatempo, os soldados romanos.
Tal era o mundo; a terra triste e desolada esperava, os gênios suspiravam, a humanidade chorava!
CAPÍTULO V
Rico de jardins e mármores preciosos surgia em Icônio, na via Antônia, o palácio de Mésimo. O átrio, todo circundado por um pórtico de desenho antigo, sustido por esbeltas colunas de mármore de Lunes, com pavimento adornado de quadros e gregas, terminava no peristilo, em ampla escada do mesmo mármore alvíssimo e dava para a êxedra e as partes superiores da casa.
A êxedra dividida em três naves de duas ordens de colunas de mármore estriado, vindo da Frigia, era de dia, iluminada por amplas janelas que permitiam aos raios do sol refrangerem-se nos objetos de ouro e nos mesmos mármores tersíssimos e de noite, por candelabros de bronze dourado, ricos e abundantes, que jorravam feixes de luz, de cada ângulo da grande sala. O luxo dos móveis e grandes espelhos de prata, os belos cortinados de seda, que pendiam de todos os lados; o odor dos perfumes que ardiam nas trípodes e se esparziam até o átrio, em baixo, embalsamando toda aquela afortunada mansão, deixavam ver que as riquezas do dono não deviam ser escassas.
Com efeito, Mésimo era conhecido em Icônio por sua nobreza, ao menos que por sua prodigalidade em gastá-las.
Sua casa era o ponto de reunião de muitos que, no triclínio esplêndido, achavam sempre fofos leitos de púrpura onde deitar, muitos apetitosos pratos para consumo, bons e generosos vinhos da Grécia e da Itália, com que se inebriarem alegremente. As ceias de Mésimo não invejavam as romanas. Nelas os parasitas, amigos da fortuna, não faltavam para elevar às estreias o nobre anfitrião e para não perderem uma só ocasião de provar os guisados e os molhos de seu arquimagiro. Aí vinham os galantes, chamados em Roma, por escárnio, casquilhos ou janotas, de sandálias apertadíssimas, que machucavam os pés. De modo algum saíam de casa sem que tivessem a toga dez vezes arranjada em belíssimas pregas, por escravas especializadas nesse mister. Nem por amor aos olhos de Júpiter se misturariam à plebe, de receio de que algum esbarro vilão descompusesse sua toilette.
Não escasseavam também os literatos; durante a ceia recitavam versos de Anacreonte, de Horâcio ou de Safo. No meio deles ria e folgava a juventude dourada, pernas e braços nus descarnados e quase esfolados pelos óleos e fricções de escovas, cabelos frisados a ferro, perfumados com os bálsamos mais esquisitos, dedos carregados de anéis de gemas encastoadas e camafeus preciosos, para despertarem a atenção das filhas dos patrícios …
Despreocupados e escarnecedores do vulgo ignóbil, estes seres soberbos comiam, riam e se espojavam nos leitos, à maneira romana, passeavam, disputavam, esgotavam cálices de Falerno e de Chipre, servidos pelos escravos em ânforas gregas; era, em suma, toda a bela vida pagã em todo o seu desafogo, em todo seu fausto, com todos seus vícios.
Lembrei os literatos.
Mésimo, com efeito, para dar vasão à sua riqueza, possuía também uma biblioteca de muitos volumes apreciados na qual, a dizer verdade, nunca pisara, a não ser para exibi-la aos visitantes de sua casa. Nela, porém, passara quase toda a juventude, a ler os poetas gregos e latinos, folheando os volumes de Platão, das escolas de Atenas e Roma, sua filha Tecla que, a despeito dos esforços dos galãs para se fazerem admirar, até àquele dia não admirara senão aquelas leituras, nem se deixara inflamar por outro amor…
E bem que incentivos e ocasiões para amores piores, nunca lhe regateara Mésimo; em lares pagãos tais coisas nunca faltavam. As próprias imagens dos deuses lá estavam somente para excitar as más impressões. Sua conversa era procurada por todos, como é bem de ver-se pelo maior número, não por amor a seu saber, nem por sua sapiência: era a única herdeira de Mésimo e contava dezoito anos de idade!
Arquinta, sua mãe, começava a preocupar-se com esta sua filha original que se perturbava todas as vezes que se falava em achar-lhe um marido.
Muitos jovens ricos da Licaônia, com os mais graciosos sorrisos quando a encontravam e nas visitas amiudadas à casa de Mésimo, tinham tentado seu coração. A moça não mostrava interesse por ninguém, a não ser por seus pais e duas escravas tessálias, boas e honestas, criadas em comum, e que, para vergonha dos hábitos romanos, considerava mais companheiras do que servas e a não ser por sua ama, a quem respeitava como à própria Arquinta.
Em segredo, Arquinta fazia grandes orações aos gênios da casa, porque era preciso decidir-se na escolha de um esposo. Interveio, finalmente, Mésimo, com sua autoridade e foi eleito o esposo como já ouvimos, quando do mercado de Jerusalém.
Que digno esposo os Gênios da casa destinaram à pobre Tecla, vê-lo-emos logo.
Entretanto, puseram-se mãos à festa. No dia dos esponsais, Tamíride recebeu aplausos e augúrios aos milhares, dos amigos; o átrio, a êxedra, a basílica formigava de liteiras, de pálios, de togas pretextas e de mantos matronais.
Quando, tirado por seus fogosos corcéis árabes, Tamíride, com sua futura esposa ao lado, lançava por Icônio, seu carro, todos invejavam a felicidade desse homem.
E Tecla?
Não sabia por quê; no meio, porém, de todas estas manifestações de afeto, de que estava circundada, parecia-lhe sentir algo de vazio, de obscuro, de indefinível, que a amargurava.
Era frieza, era ceticismo, era orgulho de ser sábia? Nada de tudo isso; doutro modo, quem poderia amá-la? Era um vácuo que nem a juventude com seus sorrisos, nem a filosofia souberam preencher. As riquezas, o amor, o estudo, a distraíam, mas não conseguiam curá-la.
Afetuosa, sempre igual e sorridente, exteriormente; por dentro, depois que se dera ao estudo da sabedoria, encontrava-se aturdida e como que tresmalhada. Também a Platão sucedera o mesmo. A filosofia pagã prestara sempre este péssimo serviço a seus amigos. Antepondo-lhes aos olhos um fim eterno, para o qual o homem deve ter sido criado, sem dizer qual, asseverando uma imortalidade da alma, sem afirmar como obtê-la, apenas conseguia lançar no coração distúrbios e desespero!
Muitas vezes acontecia que, enquanto se conversava alegremente em sua casa, sozinha, em sua sacada, fixava o olhar no céu longínquo e pensava; se este meu espírito deve apagar-se como aquele sol que se põe, por que ter sido criada? E se deverá sobreviver e é imortal, como nos diz Platão, que será dele? Tomá-lo-á consigo algum Deus? Onde estás, quem és, ó Deus, criador meu? Deves ser meu amigo, já que pensaste em mim; tu me tiraste do nada. Ó ser bom, ser misterioso que me criaste, ser benéfico, se existes, se me amas, como desejo, faze que te conheça!
E quem o teria pensado? Enquanto se ria em redor dela, enquanto cem corações ardentes pulsavam por seu amor, rica, jovem, invejada, ela chorava!
Depois do seu noivado, ao cair de bela tarde de maio do ano 45 de Jesus Cristo, a família de Mésimo voltava de Listra. Transposta, apenas, a porta de Icônio, renteando o templo de Cástor e Pólux, que Júpiter imortalizara por amor a Leda, sua concubina, ouviram do Pórtico dois retóricos, de sotaque hebraico helenista que, como Sócrates, descidos até o povo, o instruíam.
—Quem são estes dois filósofos? Perguntou Tecla, mandando parar sua liteira.
—Dois retóricos provindos de Antioquia.
—De que falam ao povo?
—De um Deus criador do céu e da terra, de um Deus desconhecido, de um Deus nosso Pai…
—E como chamam a este novo Deus?
—Nem Júpiter, nem Saturno nem outro; é o Criador.
—Quem são eles?
Ninguém sabia. A moça aproximou-se, fixou o olhar no rosto dos dois; fixou-os com um olhar firme, ardente. A calma, a serenidade de seus olhares a surpreenderam. Um Deus novo, repetia consigo, um Deus criador, um Deus nosso Pai! Serás tu, ó Deus desconhecido, serás o que procuro há tanto tempo, o que eu amo? Estática, permanecia lá entre o povo, para saber, para assegurar-se, mas a voz de Arquinta a despertou. Tecla acordou como de um sonho e partiu com rua mãe, mas partiu com o coração atraído por aqueles homens aparecidos de improviso. A ideia daquele Deus desconhecido, daquele Deus criador, daquele Deus Pai de todos, a exaltava.
A noite não pôde dormir. Palpitava-lhe o coração, a alma ardia, não lhe era possível fechar os olhos ao sono. Ante sua imaginação incendida estavam fixos naqueles dois desconhecidos…Arrependia-se de não ter ficado a ouvi-los, de os não ter interrogado, de não os haver convidado a disputar sobre aquele Deus…
Ao lume da lâmpada de alabastro que espalhava, do ábaco de cedro, uma luz frouxa sobre seu leito rico, não podendo conciliar o sono, prostrou-se e rezou.
A quem dirigia sua oração? Não sabia. Certamente que não a seus deuses inertes e sem afeto. Pensava neste Deus novo; seus lábios pronunciavam somente uma palavra: ser misterioso, ser benévolo sem o qual eu não existiria, se existes, se me amas, faze que te conheça, preciso de ti!
A aurora rosava o céu sobre os montes. Tomada de resolução inesperada, Tecla se ergueu; chamou sua ama e com ela, sem dizer palavra, desceu as escadas e se dirigiu ao templo de Cástor e Pólux.
Um vendedor de esteiras estava sentado junto ao pórtico, esperando que os habitantes da cidade se levantassem.
—Sabes, perguntou-lhe, donde são aqueles dois forasteiros que ontem falavam ao povo?
—Queres denunciá-los, talvez, aos hebreus? Respondeu este.
—Não; quero consultá-los sobre sua doutrina.
—Creio, replicou o homem; não tens mau aspeto, vem comigo.
O vendedor de esteiras subiu ao pórtico e se dirigiu a um dos cantos escuros e levantou uma pequena esteira. Os homens estavam no chão…
Como se se achasse perante dois seres superiores, Tecla ficou imóvel.
—Falai-me, exclamou, falai-me de vosso Deus, preciso conhecê-lo, sou a filha de Mésimo!
Levantaram-se os dois homens.
Ninguém imaginará, por certo, quem podiam ser aqueles dois.
Enquanto tentava erguer-se, um ser luminoso lhe gritou do alto: Saulo, Saulo, por que me persegues?
—Quem sois, Senhor? disse-lhe, tremendo.
—Sou Cristo a quem persegues.
—Senhor, que quereis que eu faça?
Pelas orações talvez, de Gamaliel, seu antigo mestre e pelos méritos do sangue de Estêvão, seu amigo, tinha conseguido esta graça. Convertido e instruído por Jesus, juntado aos Apóstolos, com seu fervor natural e com sua sabedoria, convertia à fé inúmeros homens{ii}. Vindo a Jerusalém, para ver Pedro, caminhava meditando tristemente no sangue cristão que
