Trajetórias Artísticas e Profissionais de Mulheres Circenses
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Sobre este e-book
Um bom lugar para começar é olhar para todo o processo e me localizar hoje é criar uma linha temporal que envolva uma
trajetória de produção que muitas vezes passa despercebida. É só nesse momento, nesse exato momento, que decidi reconhecer meu corpo ampliado que ocupou muitos lugares de produção. Um corpo artístico que reivindica espaço em todos os lugares que se propôs a desbravar. Este corpo, meu corpo, busca pela equidade descobrindo novos caminhos, fazendo novas escolhas, aceitando novos desafios. A obra Trajetórias artísticas e profissionais de mulheres circenses que apresento versa ora sobre minhas raízes culturais como mulher circense, evidenciando os saberes compartilhados e o processo ao qual levou a pesquisa, ora por mulheres circenses, as quais fazem do circo uma forte influência cultural, criando, assim, um diálogo sobre as conquistas dessas mulheres que, por linhas sinuosas, trazem memorias encantadoras. Contextualiza o engajamento da mulher circense nos diferentes lugares de produção que esse corpo ocupou e ocupa. Discorre sobre o tempo e o espaço representado pelo circo família, que passa pelas escolas de circo e o encontro com a Educação física, fazendo do circo uma forte influência cultural, artística e educacional. Além disso, evidencia momentos históricos
distintos, mas que se conectam com intensa vivência como corpo subjetivo, produzindo arte, cultura e educação em um ambiente sociocultural.
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Trajetórias Artísticas e Profissionais de Mulheres Circenses - Verônica Ester Tapia
Sumário
CAPA
PRIMEIRO ATO
REMEMORAR TRAZ À TONA O PORQUÊ
1.1 UMA EDUCAÇÃO DE CORPO INTEIRO
1.2 ENTRE CORPOS E NARRATIVAS
SEGUNDO ATO
O CIRCO UM LUGAR DE APRENDIZADO
2.1 O CIRCO... ALGUMAS DE MUITAS HISTÓRIAS!
2.2 A ARTE CIRCENSE NA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO SOCIAL
2.3 O CIRCO E A EDUCAÇÃO FÍSICA EM EVIDÊNCIA
TERCEIRO ATO
CAMINHO METODOLÓGICOEU E ELAS
3.1 POR UMA METODOLOGIA MAIS HUMANA
3.2 EU E ELAS: MEMÓRIA E SENSIBILIDADE
3.3 TRANSCENDER DAS NARRATIVAS. ELAS, QUEM SÃO?
3.4 MULHERES CIRCENSES: PRODUÇÃO FEMININA
QUARTO ATO
LEMBRANÇAS E HERANÇAS
4.1 ENTRELAÇANDO MEMÓRIAS: A EXPERIÊNCIA ENCARNADA NA ARTE DE SER CIRCENSE
4.2 PARA ALÉM DA ITINERÂNCIA: A DESCOBERTA DE NOVOS ESPAÇOS DE PRODUÇÃO
QUINTO ATO
REFLETINDO SOBRE AS TRAJETÓRIAS
5.1 TEMAS QUE SE CRUZAM AOS OLHOS DAS PARTICIPANTES
5.2 MULHER CIRCENSE ENGAJAMENTO E RECONHECIMENTO
ESTE ESPETÁCULO CHEGA AO FIM
REFERÊNCIAS
SOBRE AS AUTORAS
CONTRACAPA
Trajetórias artísticas e profissionais de mulheres circenses
Editora Appris Ltda.
1.ª Edição - Copyright© 2023 dos autores
Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda.
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Catalogação na Fonte
Elaborado por: Josefina A. S. Guedes
Bibliotecária CRB 9/870
Livro de acordo com a normalização técnica da ABNT
Editora e Livraria Appris Ltda.
Av. Manoel Ribas, 2265 – Mercês
Curitiba/PR – CEP: 80810-002
Tel. (41) 3156 - 4731
www.editoraappris.com.br
Printed in Brazil
Impresso no Brasil
Verônica Ester Tapia
Bruna Gabriela Marques
Trajetórias artísticas e profissionais de mulheres circenses
À cultura circense e às gerações que me antecedem, por proporcionarem conhecimentos legítimos, herdados com tamanha riqueza.
À memória do meu pai, Sr. Roberto Tapia, que foi meu mestre no mundo do circo e incentivador dos meus sonhos.
Às minhas filhas, na esperança de que possam compreender os momentos de ausência.
Toda essa dedicação aos estudos e ao trabalho é por elas e para elas.
Verônica Tapia
AGRADECIMENTOS
Aos meus progenitores que carinhosamente me apresentaram a cultura circense com tamanha paixão que só pude me apaixonar.
Às mulheres e às mestras circenses incríveis: Ermínia Silva, Ângela Cericola, Zulma Tapia e Maria Lamberti, que concederam seu tempo, compartilhando suas histórias com muita sensibilidade. Sem elas nada seria possível.
Meu nome é mulher
No princípio, eu era Eva
Nascida da costela de Adão
E meu paraíso tornou-se trevas
Quando ousei libertação
Mais tarde, fui Maria
Meu pecado redimiria
Dando à luz a aquele que traria a salvação
Mas isso não bastaria
Para eu encontrar o perdão.
Passei a ser Amelia
Uma mulher de verdade
Para a sociedade não tinha menor vaidade
Mas sonhava com a igualdade.
Muito tempo depois, decidi:
Não dá mais!
Quero minha dignidade
Tenho os meus ideais!
Hoje, não sou só esposa ou filha
Sou pai, sou mãe, arrimo de família
Sou caminhoneira, taxista, piloto de avião
Policial feminina, operaria em construção.
Ao mundo peço licença
Para atuar onde eu quiser
Meu sobrenome é competência
Meu nome é mulher!
(Fatima Aparecida Santos de Souza – Perola Negra)
PRIMEIRO ATO
REMEMORAR TRAZ À TONA O PORQUÊ
Fonte: acervo pessoal da autora - Zulma e Roberto Tapia (1988)
1.1 UMA EDUCAÇÃO DE CORPO INTEIRO
Antes mesmo de apresentar este livro, vou revisitar intencionalmente as minhas memórias, as quais são um fio condutor de todo o processo de construção de conhecimento que vivenciei na cultura circense que vem desde a itinerância, passando por projetos socioeducativos, ministrando aulas na educação básica, onde pude envolver as práticas corporais circenses nas aulas de Educação Física e na universidade como docente. Essas experiências desencadearam novos olhares para o circo e as possibilidades múltiplas de intervenção pedagógica, formativa e afetiva.
Revisitar todos os lugares que meu corpo atuou levando o circo como eixo estruturante fortalece a minha escolha de disseminar essa cultura tão rica em histórias, costumes, valores, tradições que se renovam a cada ciclo, apresentando transformações significativas. A cultura circense faz parte da minha origem, sou de família itinerante que compartilha seus ensinamentos de pai para filho, perpetuando o patrimônio cultural para que não seja dilapidado ao longo do tempo. Família composta de trapezistas, acrobatas, cômicos, contorcionistas, tais perfis artísticos interagem com a teatralidade múltipla que a arte circense propicia, essa tradição trouxe muito conhecimento de vida, conhecimentos corporais particulares das modalidades circenses e na bagagem muitas histórias interessantes e vivências inesquecíveis de família, cultura, educação, arte, superação e acima de tudo resistência.
Durante toda a minha infância e juventude, tive múltiplos estímulos que garantiram uma aprendizagem significativa. Cool (1996) afirma que a significativa da aprendizagem está muito ligada à possibilidade de utilizar efetivamente os conhecimentos aprendidos, quanto mais significativa for a aprendizagem, maior será a interiorização e sua funcionalidade. O circo propicia essas aprendizagens nas mais simples ações que fazem parte da sua dinâmica, o levantar dos mastros¹, o apertar das catracas, a pintura das tabuletas, a montagem dos equipamentos, o abrir e fechar das cortinas, a construção dos figurinos e a oportunidade de observar os mais experientes no picadeiro, cada performance é apaixonante com habilidades corporais esteticamente notáveis na busca da perfeição. O circo é esse corpo representado, são movimentos aperfeiçoados dia a dia, são técnicas especiais constituídas por uma série de avanços testados ao longo do tempo pelas famílias e posteriormente pelos aprendizes.
Ser circense é uma arte constante, aprendemos com nossos antecessores a conhecer o nosso corpo durante a evolução dos truques, esperar novos desafios e, acima de tudo, a vontade de fazer parte de um todo Que é representar a família
. Esses saberes nos deram a oportunidade de conhecer realidades distintas e traçar novas possibilidades para além da itinerância. Assim, aconteceu o meu encontro com os projetos sociais.
Entre o final da década de 80 e início de 90, foi implantado na cidade de São Paulo o Programa Enturmando, que tinha como objetivo principal levar linguagens artísticas para comunidades em alto risco de vulnerabilidade social com espaços culturais que ofereciam o circo de lona como uma grande sala de aula. Foi nesse exato momento que a cultura circense itinerante, tão preciosa e única das gerações que me antecederam, começou a ser compartilhada com crianças e jovens da zona sul de São Paulo. Meus pais e meus avós migraram da vida de artista circense itinerante para serem educadores no programa Enturmando Jardim Guacuri. Além da convivência com (toda) uma geração de artistas, tive uma orientação pedagógica educacional em arte-educação compartilhada de pai para filha.
Durante a minha adolescência no circo escola, ocorreram efetivamente orientações artísticas, culturais e esportivas a todo instante, principalmente porque a lona do circo era uma imensa sala de aula. Aprendíamos dia a dia todo o mecanismo de sustentação e segurança daquela grande tenda com meu pai, que, além de educador, era o capataz². Morávamos em um trailer³ que ficava dentro do projeto Enturmando. Meus amigos conheciam e praticavam a arte circense no quintal de casa. Afirmo que na década de 90, na Vila Guacuri, o circo família existia em um espaço socioeducativo e acolhia novos atores: os educandos da comunidade. Foi através dos olhos dos meus pais que, ao se depararem com uma nova realidade de vida e de profissão, apaixonaram-se por ela, assim aprendi a amar o circo social. Para a Família Tapia, aquelas crianças e jovens foram e são a continuidade da arte circense.
Garanto que fui absorvida pelos projetos sociais — considerados educação em espaço não escolar. Tive experiências riquíssimas com linguagens artísticas como dança, teatro, artes plásticas, música e foi, então, que, por meio dessas experiências, pude observar a imensidão
