Explore mais de 1,5 milhão de audiolivros e e-books gratuitamente por dias

A partir de $11.99/mês após o período de teste gratuito. Cancele quando quiser.

Estes são os mestres:: Eça &  Graciliano
Estes são os mestres:: Eça &  Graciliano
Estes são os mestres:: Eça &  Graciliano
E-book299 páginas4 horas

Estes são os mestres:: Eça & Graciliano

Nota: 0 de 5 estrelas

()

Ler a amostra

Sobre este e-book

Neste ensaio original, o escritor Miguel Sanches Neto analisa o momento em que a literatura portuguesa do século XIX funciona como um fator de fortalecimento da produção brasileira, corrigindo os excessos do Modernismo.
Pela leitura enquanto apropriação, Graciliano Ramos faz de Eça de Queirós um contemporâneo e muda os rumos de nossa ficção.
IdiomaPortuguês
EditoraEDUEL
Data de lançamento25 de jul. de 2024
ISBN9788578466053
Estes são os mestres:: Eça &  Graciliano

Leia mais títulos de Miguel Sanches Neto

Relacionado a Estes são os mestres:

Ebooks relacionados

Crítica Literária para você

Visualizar mais

Avaliações de Estes são os mestres:

Nota: 0 de 5 estrelas
0 notas

0 avaliação0 avaliação

O que você achou?

Toque para dar uma nota

A avaliação deve ter pelo menos 10 palavras

    Pré-visualização do livro

    Estes são os mestres: - Miguel Sanches Neto

    LENTES ALHEIAS

    1.

    Na década em que a arte brasileira mais defendeu a ruptura (os anos 1920), seria possível procurar uma renovação a partir de modelos ligados a um tempo visto programaticamente como vencido? Eis a pergunta incômoda que a publicação de Caetés (1934), romance de estreia de Graciliano Ramos, veiculado apenas anos depois de sua escrita, nos propõe. Talvez este seja nosso grande romance moderno mais século dezenove, permitindo assim uma compreensão de embates contemporâneos entre modos de modernidade.

    Não seria, portanto, totalmente por acaso a escolha de Graciliano de uma temática indígena para a sua obra. No período, o culto antropofágico ao primitivismo promovia uma adoração festiva (ritualística) de nossos antepassados americanos, numa valorização do que era visto como problemas de identidade, resultando no personagem mais emblemático do período, que doa seu nome ao principal livro de Mário de Andrade. Entre Caetés (concluído em 1928) e Macunaíma (1928) se estabelecem contrapontos de imagens do Brasil. Estas divergências são sociológicas, mas também estéticas e de política de língua.

    Se estes autores estão representados de forma equilibrada no cânone do modernismo brasileiro, em momentos diferentes, há um descompasso de prestígio muito grande entre os dois livros, Caetés figurando como obra constrangida de um autor lembrado por outros títulos.

    Compreender a sua gênese deslocada talvez permita uma avaliação menos injusta da sua importância na construção de uma literatura brasileira vocacionada para a universalidade.

    2.

    Desde as suas primeiras recepções até importantes estudos recentes sobre ele, Caetés foi diretamente relacionado a Eça de Queirós. Esta operação analítica pode vir como ressalva, denunciando-o sutilmente como velharia em um período em que, na famosa frase de Oswald de Andrade, se buscava atualizar a nossa arte. Jornalistas, críticos, professores e escritores não deixam de apontar este fato, seja como demérito seja como mera constatação turística de leitura, criando assim uma abordagem comparativista que em alguns casos não passa de curiosidade. Principalmente dois livros de Eça são convocados, como veremos na sequência, nestas peças de acusação das influências sofridas: O Primo Basílio (2015b) e A Ilustre Casa de Ramires (2015a). Mesmo quando não se declara como marca diminuidora de uma obra obtida por procedimentos narrativos e linguísticos extemporâneos, o que explicaria o valor mais balizador de Caetés na produção de Graciliano, este tipo de aproximação padece de uma visada hierárquica. O autor nordestino, distante dos grandes centros que ditam as modas contemporâneas, se aproxima de um mestre do passado, para usar a expressão consagrada por Mário de Andrade, num papel de discípulo. Estas análises, quando oriundas de estudiosos de Eça, tentam dimensionar o seu largo consumo no Brasil. Se ambas as conclusões não são falsas, elas acabam por entender o romance de Graciliano numa perspectiva epigonal, como se o autor realmente só se fizesse grande a partir do momento em que se afirma como individualidade de linguagem, afastando-se de seu modelo e da cultura europeia.

    A presença de elementos queirosianos é tão visível em Caetés que seria possível pensar Eça como uma espécie de coautor oculto da obra, tal como ele o foi explicitamente em O mistério da estrada de Sintra, assinado inicialmente com Ramalho Ortigão, embora hoje este romance experimental esteja praticamente sob a chancela literária do autor de Os Maias (2014b). A energia autoral de sua obra a projetou sobre seu parceiro de escrita, tendo ainda se alastrado sobre os autores dos livros que Eça traduziu. Este é um processo próprio das canonizações dos grandes escritores, que vão anexando territórios por eles frequentados.

    Nitidamente, a história de João Valério (Caetés) se formata a partir do contexto narrativo e das tensões que projetaram o autor português, o que não deixa de ter alguma ironia num momento artístico de refundação do nacionalismo brasileiro, de afirmação de uma independência principalmente de linguagem em relação a Portugal. Hoje, quando se fala em uma transpátria unida em torno da língua, esta sobreposição pode ter um outro sentido.

    Assim, a parcela autoral do elemento estrangeiro na estreia de Graciliano não é vista aqui como fator de diminuição de sua originalidade e de sua importância, mas justamente no sentido contrário, como compreensão moderna do literário, para além dos programas de escola.

    Lendo Caetés lemos também, mas não apenas, Eça de Queirós, recontextualizando-o, pois a obra deste funciona como uma teoria romanesca, permitindo que Graciliano erga uma narrativa sertaneja, de matriz urbana, uma espécie de modelo reduzido do Brasil, com total autonomia em relação à voga literária do período, descortinando um país que estava diante dele e produzindo pequenos abalos nas letras nacionais. A obra/linguagem do outro funciona como lente de aumento, que destaca realisticamente a paisagem ao redor. Aqui, portanto, não utilizo o conceito de influência mas de acesso a uma teoria narrativa experimentada na leitura de um autor como instrumento de construção literária.

    3.

    Um escritor serve como amplificador a uma outra individualidade quando há identificação pessoal ou quando se reproduzem situações externas com alguma similitude, ou com o concurso dos dois fatores. A identidade portuguesa continuava e continua atuando no interior da brasileira. Ao representar Portugal, Eça estava também se referindo, tangencialmente, ao Brasil –principalmente ao Norte e Nordeste brasileiros, regiões em que o acréscimo de elementos de outras etnias é bem menor do que no Sudoeste e no Sul. Eça tem, para aquele universo, mas não só para ele, uma função reveladora. É atributo dos autores clássicos esta universalidade, sabe-se. No caso de Eça e do Brasil, no entanto, a sua obra tem uma relação de continuidade explícita, pois ao mesmo tempo em que ele, desenvolvendo um painel ficcional crítico em relação à sua pátria, era lido na ex-colônia como um autor português (reforçando desta forma laços ancestrais), chegava ao Brasil sem as insígnias coloniais, pois não pactuava – da ótica da ideologia linguística – com uma visão imperialista de cultura. Poderíamos arriscar a dizer que ele era lido como o escritor português menos português, o que lhe tirava qualquer sentido colonizador. Eça foi recebido no Brasil como um igual, pois o viés desmitificador de sua narrativa em relação à sociedade portuguesa promove um reencontro entre culturas que, tendo sido uma só, foram aos poucos se distanciando até a grande ruptura programática do Modernismo de 1922.

    Foi nesta chave de irmandade de visão que acabou lido pela segunda geração modernista, que estabiliza modernamente a linguagem literária, reaproximando-a do modelo original (o português), mas sem uma lógica de dependência e sim buscando pontos de contato. A presença deste autor na corrente sanguínea da literatura brasileira é muito mais do que um caso de importação de modismos estéticos ou sociais, pois ele contou com uma cidadania nas letras brasileiras, não apenas por ter publicado vastamente na imprensa local, mas principalmente por ter sido lido com cumplicidade entre nós.

    Para Graciliano, ele não era um escritor morto, com uma obra distanciada. Esta ainda estava em aberto e continuava agindo de maneira transformadora sobre as sensibilidades, o que fazia dele não apenas um autor brasileiro, na medida em que corroía os valores da matriz, mas também contemporâneo. Não nos chegava, pelo menos para os novos autores do segundo modernismo, nem como um peso pesado da cultura lusitana nem como um monstro sagrado do passado. Morto havia mais de duas décadas, vinculado a uma estética tida como superada, Eça ainda fornecia chaves modernas para a leitura do Brasil.

    HISTÓRIA DE UMA ADMIRAÇÃO

    1.

    Nada acompanhou de forma mais recorrente a carreira crítica de Caetés do que a cobrança ou apenas o anúncio de uma dívida estética que não se podia ocultar. Em muitas de suas páginas a gente percebe que Eça deixou nelas marcas fundas, diz Valdemar Cavalcanti (1933). Logo depois, o crítico menciona uma tendência para a caricatura, idêntica restrição feita ao ficcionista português. O artigo, altamente positivo, destaca todas as qualidades do romance que se passa na cidade real de Palmeira dos Índios, uma latitude emblemática que dá ao tema a autenticidade geográfica que não havia nas obras da primeira geração modernista, muito presas aos mitos indígenas e a uma gramática alegórica.

    Desde o lançamento de Caetés, não se tem dúvida quanto à qualidade da obra e o seu sentido revolucionário, mas o nome de Eça acaba se ligando ao de Graciliano, o que cria o mencionado efeito de coautoria. Será quase um estribilho crítico a comparação.

    Em 1934, Aurélio Buarque de Holanda também insiste nestes empréstimos estéticos: "A construção de certas frases, certos achados de expressão, mesmo certas palavras características do estilo de Eça de Queirós, traem a influência deste escritor sobre o romancista de Caetés". Embora o verbo trair tenha um fundo negativo, o que denunciaria um desejo de esconder o modelo, o que de resto é impossível, o crítico logo explica que influência para ele não é a mesma coisa que dependência. Ler a obra do estreante como subserviente a um ícone português seria torná-la inválida num momento de afirmação de autonomia moderna de nossas artes. Aurélio é cuidadoso ao fazer tal distinção. A contaminação do alheio seria fruto de uma longa infiltração, através de uma leitura apurada e contínua. E dá como exemplo uma construção característica de Eça, o punha tons. "Fialho de Almeida apontava [esta] como uma das marcas mais vivas do homem de Os Maias em muitos escritores portugueses, lá está no Caetés, neste período muito à Eça: ‘E mostrou a mesa, onde as flores punham nos vidros uns tons rosados’". Há um conjunto de recursos narrativos que mostram como a obra do mestre penetrou na do brasileiro.

    Cada crítico vai aprofundando níveis desta influência, até mesmo para inocentar Graciliano, como faz Álvaro Lins, em 1947, em Romances, novelas e contos: visão em bloco de uma obra de ficcionista¹. Neste texto fundamental da consagração do novo mestre do romance de língua portuguesa, quando já haviam sido editados alguns de seus grandes títulos, Lins tenta minimizar as transferências literárias: "Costuma-se dizer que este primeiro romance do Sr. Graciliano Ramos foi muito influenciado por Eça de Queirós. Ora, a não ser em algumas pilhérias, e na página final, que realmente parece ter sido inspirada nas últimas páginas de A Ilustre Casa de Ramires, não vejo nitidamente as linhas dessa ligação". A mecânica consagradora leva a uma acusação que serve de defesa. Há, sim, influência, superficial e irrelevante, tal como o tom ramiriano de algumas passagens. Com isso, um livro de Eça é nomeado e passa a servir como um contraponto a estas análises.

    Outras leituras esmiuçarão as relações entre os autores, quase sempre em uma fronteira instável entre o reconhecimento da alta qualidade do romance e as suas filiações incômodas. Na comemoração do cinquentenário da publicação do livro, por exemplo, o poeta Lêdo Ivo, em seu estilo desabusado, a um passo da ofensa, não se retrai ao afirmar o cunho lusitano do romance, declarando mesmo que não há nada de inovação literária nele. Sem meias palavras, reduz a narrativa a uma cópia da língua do Rocio e do Chiado, o que denunciaria uma inadequação quanto ao universo retratado de uma cidadezinha perdida no sertão nordestino. O poeta entende esta presença não só de Eça – mas também de Machado – como fruto inconsciente de reminiscências de leituras, que o levaria a macaquear o vocabulário e a sintaxe – para me valer de um verso modernista de Manuel Bandeira –, num receio de render-se aos elementos da oralidade.

    E contabiliza brevemente: "Logo no segundo parágrafo do romance, um lusitanismo de primeira água – a palavra cachaço, que corresponde a nuca ou parte posterior do pescoço – intriga o leitor. No decorrer da leitura, novas surpresas nos estão reservadas. Graciliano recorre a numerosos outros portuguesismos, como alho (astuto), desasado (desastrado ou negligente), carapetões (petas ou mentiras), ajoujado (preso ou emparelhado), grulhada (vozerio ou gritaria)" (Ivo, 1984, p. 38).

    A conexão direta com Eça se dá, para ele, por meio da repetição não apenas do triângulo amoroso de O Primo Basílio, mas do próprio nome das duas esposas adúlteras: Luísa. Além de acrescentar outro título à história das dívidas romanescas de Graciliano, Lêdo Ivo destaca o grau de dependência às claras, que vai muito além das reminiscências linguísticas. Os tipos ecianos cruzam o oceano e se instalam num romance muitas décadas depois.

    E então Graciliano se chamou Eça de Queirós.

    A impressão que fica, depois da leitura deste ensaio é a de que Caetés não passa de uma máquina antiga, extraviada de seu tempo e de sua pátria, esquecida no sertão nordestino. Haveria uma completa inadequação em seu surgimento, e não caberia a ela a modificação do padrão literário já desgastado do modernismo da década de 20, cujo marco, para o poeta, seria a publicação de Menino do engenho, de José Lins do Rego (1932). Lêdo Ivo morde e assopra, pois faz elogios ao livro, separando-o, no entanto, da produção posterior do autor.

    Avesso a esta corrente um tanto simplificadora, outro poeta, José Paulo Paes, retoma as teses propostas e mostra que não se pode estabelecer uma relação direta entre o livro escrito pelo fidalgo português, no interior de A Ilustre Casa de Ramires, e os manuscritos abandonados de João Valério em Caetés. Reconhecendo a recolha de recursos e um desejo de representar o país nos dois livros, Paes identifica em João Valério o personagem-chave da produção posterior de Graciliano, e muito comum na literatura dos anos 1930 (o pobre-diabo, o fracassado), evitando assim o corte brusco entre dois Gracilianos, o de Caetés e o dos romances com maior densidade psicológica, tese implícita na análise de Lêdo Ivo.

    Esta listagem da chave eciana de leitura da obra de estreia de Graciliano poderia ser aumentada, mas a partir daqui teríamos apenas uma ampliação das áreas de contato com A Ilustre Casa de Ramires e O Primo Basílio. Não há outras novidades sobre esta influência, que fica documentada em artigos, ensaios e trabalhos acadêmicos, permitindo que se aceite, sem margem para dúvidas, tal filiação. Eça resta colado definitivamente a Caetés, como uma presença literária fantasmagórica.

    Como defesa, Graciliano se calou sobre esta sobreposição autoral. Não tentou também apagá-la, reescrevendo o romance, o que aproximaria o seu procedimento ao de Eça, sempre obcecado pela contemporaneidade dos livros publicados em outras épocas. O seu romance é uma construção orgulhosamente antiquada. Lêdo Ivo o compara a um soneto parnasiano, que o autor faz cruzar o século a que ele, esteticamente, pertence, quase como uma provocação para os futurismos da escola paulista, as fragmentações, os simultaneísmos da cidade moderna, a alegorização carnavalesca da identidade nacional. Duro, gramatical e altivamente correto, com sotaque lusitano e de uma monotonia amarga, Caetés é um motor narrativo em funcionamento lento nascido em um tempo de culto da velocidade. Verdadeira provocação.

    2.

    Em vários aspectos, a produção literária de Graciliano Ramos ocupa um espaço simetricamente oposto ao do primeiro modernismo, como se sua obra, tanto a de estreia quanto a depois sedimentada, revisasse as crenças da geração de 1922. Um exemplo disso é a sua percepção da infância, seja em livros de ficção em que há personagens crianças, como Vidas Secas e A Terra dos Meninos Pelados, seja em seu texto autobiográfico sobre o período – Infância (1984a). No modernismo de 20 havia uma infantilização da linguagem, uma valorização das figuras travessas e da diversão, tanto na vida literária quanto nas obras, como forma de buscar uma narrativa ou uma poesia em estado infantil – é tal projeto que move os livros Pau Brasil, Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade, de Oswald, Macunaíma, o menino-home, de Mário de Andrade, e Cobra Norato, de Raul Bopp –, obras em que se enaltecia, por meio de um culto aos estágios primitivos da humanidade e do homem em particular, o novo, o que não estava ainda contaminado pela civilização.

    Em suas reminiscências, Graciliano vai dar corpo a uma criança sofrida, subjugada pelos adultos, desamparada num mundo de grandes brutalidades. É a solidão de ser menino que move suas memórias, em que ele busca entender como a criança solitária, sem diálogo com a família, vivendo num universo carente de informações, de escola e de amor, consegue se formar e chega a ser escritor. Esta trajetória improvável é a marca dessas suas ruminações memorialísticas, em que não há o mínimo de nostalgia, em que se encontra ao contrário um rancor em relação àquele universo tão sem alegria. De menino com problemas de aprendizagem a escritor, Infância traça a trajetória do futuro romancista. É um dos mais pungentes relatos autobiográficos da literatura brasileira. Nele, cada pequena cena da formação do intelectual é valorizada, para dar a dimensão do meio e do material a que ele teve acesso.

    Escritas como documento literário, estas páginas apresentam as linhas de força que moldaram o escritor forjado no sertão nordestino, num lugar em que não havia informação, e vigorava retardatariamente um padrão literário romântico, porta de entrada à cultura letrada para o menino, isso por volta de 1904.

    Em conflito com o meio, restava ao jovem Graciliano, que afirma ter tido sempre o caráter enfezado que o distinguirá, se isolar nos livros, após o primeiro encontro com estes. Um inesperado estímulo do pai, que o apresenta uma noite a um romance popular, o levará a encontros acidentais com certos títulos, possibilitados inicialmente pela presença de alguns folhetins na loja paterna. Este material ordinário é que o fará leitor, leitor completamente desamparado. É, assim, no ambiente comercial que nasce sua vocação leitora. Neste mesmo contexto, já como adulto, muitos anos depois, ele escreverá Caetés, aproveitando o tempo da rotina da loja em que não havia clientes.

    Encantado com as criaturas de sonhos, incompletas e misteriosas (Ramos, 1984a, p. 201) que encontra no primeiro livro de ficção lido, ele se desperta para a leitura, mas na escola não consegue encontrar uma orientação, em uma professora que não tinha muito o que lhe ensinar. Surge então um problema.

    Como soletrava precariamente os jornais, sentindo-se distinguido porque fora capaz de ler um romance, assume outra identidade num meio voltado para a vida prática – a de leitor. Um leitor, no entanto, sem livros.

    Cai-lhe nas mãos um folheto mal impresso, que encontra na loja do pai, deixado por algum cliente – O Menino da Mata e o seu Cão Piloto. No texto de recordação, Graciliano não se refere ao autor, Vivaldi Moreira, fixando-se na trajetória da criança abandonada no livro. Era um equivalente de sua própria experiência infantil sem afetos. Ao se deparar com a história de um igual, ele encontra alguma possibilidade de identificação. Mas o livro é proibido pela prima por se tratar de uma obra de protestante. Isso o desorienta, e ele não consegue ignorar o veto e se dedicar ao mundo imaginário que percebe pulsar na história.

    Continuava um neoleitor sem livro. Esta trajetória de busca vai marcar os últimos capítulos de Infância. A pergunta que ele se faz é:

    – Como adquirir livros?

    No sertão, o contato com o mundo se dava pelo correio. O jovem encontra, no final do único romance que lera, um catálogo e pensa encomendar mais alguns títulos, por serem baratos – 6 tostões. Mas um dos funcionários da loja do pai explica que os livros eram editados em Lisboa, e Lisboa ficava longe (Infância, p. 220). O Menino da Mata e o seu Cão Piloto também era uma publicação lusitana. Naquele então, existiam poucas editoras brasileiras. Graciliano começará a comprar livros pedindo-os, um tempo depois, às editoras Garnier e Francisco Alves, no Rio. Mas boa parte da sua ração de leitura virá, na sequência, de editoras lisboetas, como os livros de Émile Zola. Ou seja, a sua formação inicial, majoritariamente em língua portuguesa, se deu à sombra dos catálogos lusitanos, o que explica o tom de seu romance de estreia e a busca de uma linguagem extremamente escorreita, isso em uma época em que Lima Barreto estava revolucionando a literatura brasileira, empurrando-a para uma oralidade dos personagens periféricos, em uma obra que seria publicada pela casa editorial de Monteiro Lobato.

    Mas que livros formaram o menino?

    Sem conseguir, inicialmente montar a sua própria estante, ele resolve o seu problema de leitura aproximando-se de um dos raros possuidores de biblioteca na cidade, o tabelião Jerônimo Barreto. Carente de informação literária, ele entra nesta biblioteca como quem faz a adesão cega a um mundo, a uma linguagem, a uma ideologia. A biblioteca assim herdada é uma roupa alheia, que o leitor veste sem saber que ela não se ajusta ao seu corpo. A tradição que o seu proprietário lhe transmite é estilisticamente extemporânea. Estavam ali os autores românticos do Brasil. O primeiro livro que ele lê é O Guarani, de José

    Está gostando da amostra?
    Página 1 de 1