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Cabral - João Morgado
João Morgado
A grande e original investigação sobre a vida desconhecida de Pedro Álvares Cabral.
© João Morgado
www.joaomorgado.net
Título original (Portugal)
Vera Cruz (edição original © 2015)
Autor: João Morgado
Medalha do Mérito Literário da Ordem Internacional de Cabral
instituída pela Sociedade Brasileira de Heráldica e Humanística, fundada a 13.03.1959 e oficializada através do Decreto 49.579 de 7 de maio de 1968 pelo Governo do Estado de São Paulo, Brasil.
Título (Edição Brasileira):
(© 2024)
Autor: João Morgado
A edição brasileira cortou alguns capítulos do original Vera Cruz
.
Design, Produção e Edição:
Reservados todos os direitos. Esta publicação não pode ser reproduzida, nem transmitida, no todo ou em parte, por qualquer processo electrónico, mecânico, fotocópia, gravação ou outros meios, sem prévia autorização escrita do autor © João Morgado
Por vontade expressa do autor, esta obra não segue as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990.
Sumário
Prólogo
I Parte - Calecute - A perfídia das Índias
1 - Calecute
2 - Vasco da Gama e o samorim de Calecute
II Parte - A decisão do rei
1 - A figura d’el-rei D. Manuel
2 - D. Manuel sucede ao Príncipe Perfeito
3 - Constantinopla e a derrota das Índias
4 - A contestação a Gama
III Parte - Cabral: De Belmonte para África
1 - O jovem Pedro
2 - Dos escravos ao amor
3 - Quem era Isabel de Castro?
4 - A caminho de África
IV Parte - Em terras de África
1 - O inimigo e a doença em Tânger
2 - Herói de Tânger e Graciosa
3 - O retorno a Lisboa
4 - Lisboa e o reencontro com Isabel
5 - As partilhas e os bens dos Cabrais
6 - Ao serviço pessoal d’el-rei
7 - A morte do Príncipe Perfeito
8 - A herança d’el-rei
9 - A Ordem de Cristo
10 - O convite para as Índias
11 - A contestação de Isabel
12 - A raiva de Vasco da Gama
13 - A preparação da armada
14 - As instruções de Gama
15 - Cabral desaparecido e as Cruzes de Cristo
16 - Vésperas da partida
17 - Cerimónia de partida
V Parte - Na rota da Índia
1 - A partida
2 - A nau perdida
3 - A Páscoa e a terra
4 - Terra à vista
5 - As novas gentes
6 - Terra da Vera Cruz
7 - O cometa
8 - A vida nas naus
9 - As rixas e as doenças
10 - O tormentoso
11 - Maldição
12 - A falta de comida
13 - O reencontro em Sofala
14 - A resistência em Quíloa
15 - O porto amigo de Melinde
16 - A paragem na ilha de Angediva
17 - Chegada a Calecute
18 - Os mercadores árabes
19 - Indianos em terra, mouros no mar
20 - Cabral visita Calecute
21 - A conquista da nau moura
22 - Os usos de tal gente
23 - O enfado dos portugueses
24 - A vingança de Cabral
25 - O massacre de Calecute
26 - Cabral deixa Calecute
27 - O funeral no mar
28 - O mau-olhado de Cabral
29 - Da dor ao riso
30 - A caminho de Cochim
31 - Amigos em Cananor
32 - Os demónios interiores
VI Parte - O regresso ao reino
1 - A torna-viagem
2 - A tourada a caminho de Bezeguiche
3 - Chegada a Bezeguiche
4 - O passado encontra-se com o futuro
5 - O Novo Mundo
6 - Saída para Lisboa
7 - A chegada a Lisboa
8 - Os olhos cor de azeitona
9 - As recompensas
VII Parte - As memórias do navegador
1 - O casamento
2 - Albuquerque e a ingratidão de um rei
3 - Remição de um rei
4 - A tença tardia
5 - A secreta chamada
6 - As misteriosas terras
7 - O propósito de um reino
8 - O desígnio da Ordem
9 - O reino de Preste João e os Descobrimentos
10 - Isabel e a decisão
11 - As recordações do Paraíso168
12 - As novas terras
13 - O regresso e o reencontro com Isabel
14 - Divide et regna
15 - A Armada da Vingança
16 - As naus mal prontas
17 - Fim da aventura
18 - Brasil após Cabral
PARTE DA BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA DO AUTOR
BARRA CRONOLÓGICA
NOTA FINAL
Aos meus pais que (foram e) são o meu chão
e à minha filha que é o meu céu.
O cavaleiro é o representante de uma liberdade absoluta que se entrega a uma causa.
Código da Cavalaria Medieval
O passado é a coisa mais imprevisível do mundo, não para de se transformar.
George Orwell
Prólogo
Cabral é o homem mais conhecido dos brasileiros e, também, o mais desconhecido. Quem era o homem, o que fez antes e depois de 1500? Poucos sabem. É dele que trata este livro.
É um romance e como tal deve ser lido. Trata-se de uma biografia romanceada de Pedro Álvares Cabral e procura dar algum entendimento a pontos menos claros da vida desta personalidade marcante. Não sendo um ensaio histórico, está assente numa investigação de dois anos, preserva os dados históricos conhecidos e procura apresentá-los de uma forma aliciante para quem gosta de narrativas históricas – ver nota final.
A casta dos Cabrais foi sempre gente de palavra — estavam mesmo isentos do juramento de fidelidade ao rei. Pedro Álvares Cabral honrou essa tradição, serviu em lealdade, combateu com bravura, honrou os seus preceitos, até que um dia virou as costas ao rei e nunca mais levantou a espada ao seu serviço. Porquê? Esta é uma das muitas perguntas que rodeiam a vida deste nobre guerreiro nascido em Belmonte, no coração das serranias, e fez nome nas lonjuras do mar. É forçoso perguntar que força o ergueu junto d’el-rei D. Manuel I e o levou a substituir Vasco da Gama na armada para as Índias. E se terá chegado às terras de Vera Cruz por ordem do rei ou, pelo contrário, ancorou no Novo Mundo à sua revelia.
Em pleno Renascimento, quando a luz irrompia nas trevas para maior lucidez dos homens, olhando para um reino frágil, doente, desgastado em guerras lá nos fins do mundo, talvez Cabral tenha olhado para o seu percurso e colocado a si próprio muitas questões. E talvez tenha questionado o seu serviço a um Deus e a um rei, em nome dos quais ele fora apenas um instrumento de morte. Talvez se tenha questionado sobre o papel de Portugal no mundo. No Norte de África.
Pedro Álvares Cabral talvez não tenha gostado das respostas às suas próprias perguntas. Talvez não tenha gostado de ver a índole de homens a quem servia, talvez não tenha gostado do que ele acreditava ser o futuro pouco promissor do seu reino despovoado, pobre e perdido em guerras além-mar. Talvez por isso tenha virado as costas à vã glória dos homens para se reencontrar consigo mesmo e com o verdadeiro Deus. É preciso entrar neste livro e seguir os seus passos, só assim se compreendem as suas lealdades, as suas batalhas, os seus pesares, os seus amores e o seu destino de desprendimento.
Segundo George Orwell, o passado é a coisa mais imprevisível do mundo, não para de se transformar.
É que revisitar o tempo passado dá sempre azo a novas questões e novas respostas. Assim, a nossa visão da história depende da coragem das nossas perguntas. E quando alguém se pergunta porque repousa em campa rasa um herói nacional como Pedro Álvares Cabral, é forçoso recapitular a sua vida, as suas relações com os poderes da época — é preciso mergulhar nas sombras da história.
Os livros académicos quase sempre nos passaram uma visão higiénica da história e dos seus heróis — um repertório de datas e nomes, e uma sinopse cheia de convicções ideológicas. Mas, mais do que nomes e datas, importa observar pessoas e contextos. O passado tem as virtudes e os defeitos dos homens que lhe deram corpo, e isso não pode ser ignorado. Olhar para os Descobrimentos portugueses é perceber o olhar mais-além de D. João II, a humilde inteligência de Bartolomeu Dias, a ganância alucinada de
D. Manuel I, a ambição mal-educada de Vasco da Gama, os primores de honra de Pedro Álvares Cabral. Se deixarmos de olhar a floresta e lançarmos um olhar atento a cada árvore de per se, veremos que nem todos os heróis foram perfeitos, e por isso, muita da nossa história nacional é feita de enganos. Um bom incentivo para ler novos ângulos de abordagem ao nosso passado.
I Parte - Calecute - A perfídia das Índias
1 - Calecute
Quando a sua mão descia num gesto brusco morriam homens e mulheres. E a sua mão desceu uma e outra vez e a cada gesto respondiam com estrondo as peças de artilharia envoltas em fumo, vomitando pelouros — esferas de pedra ou ferro forjado — que rasgavam os ares e estilhaçavam Calecute, a mais rica cidade portuária das costas malabares, nos mares das Índias¹. Era o poder divino de tirar a vida a milhares de infiéis; um poder de quem servia a Deus, mas de quem obedecia igualmente ao poder terreno de um homem, el-rei de Portugal, D. Manuel I. Pedro Álvares Gouveia nascera em Belmonte e forjara o seu carácter no granito duro da Serra da Estrela, em terras do interior, já bem cerca da raia castelhana. Era o segundo filho varão de Fernão Cabral e Isabel de Gouveia. Segundo os costumes da época, por não ser primogénito, usava o apelido da mãe e não o do pai. Apesar de tudo, era conhecido como O Cabral, pois apresentava uma complexão física muito similar à de seu pai, o conhecido Gigante da Beira. O seu irmão mais velho, João Cabral, companheiro de todas as horas, nome cimeiro da linhagem, concedeu--lhe mais tarde a prerrogativa de usar o nome da família e o brasão dos Cabrais. Pedro tudo faria para dignificar a honra recebida e deixar o nome nos anais da história de Portugal.
1. O termo Índia
era ainda vago – abrangia um vasto território de vários reinos e vários soberanos. Esta pluralidade levava à expressão Índias
. Só após a exploração e delimitação do território se passou a utilizar o termo Índia
para designar a península indiana mais alguns territórios e ilhas.
Fogo
, bradou o capitão. Fogo
, gritava já rouco, uma e outra vez do alto do chapitéu, varejado de raiva, entre a névoa de fumo e o cheiro seco da pólvora que empestava a Capitânea, a nau-capitã, cabeça de toda a armada. Fogo
, repetia incansavelmente num grito de batalha. E os canhões de bronze com as armas d’el-rei praguejavam aos céus com estrondo, cuspindo bolas de ferro fundido que destruíam impiedosamente as construções da cidade. Cabral vingava assim a morte de mais de cinquenta dos seus homens, vítimas duma cobarde traição de Glafer, o samorim², senhor daquelas terras. Entre eles, Vaz de Caminha, que, mais que um devoto companheiro, fora seu amigo pessoal. Vivia-se o triste dia de 17 de Dezembro do ano do Senhor de 1500.
2. O rajá de Calecute era conhecido como Malayalam Samuttiri – Senhor dos Mares —, tendo os navegadores aportuguesado o termo para samorim
.
Meses antes, o samorim tinha autorizado a instauração de uma feitoria comercial no porto de Calecute, mas tal licença tinha gerado desde logo um forte mal-estar entre os usuais mercadores hindus e, sobretudo, entre os islamitas que controlavam o comércio daqueles mares. O descontentamento fora de tal monta que, sentindo-se coagido, o todo-poderoso daquelas terras entendera por bem virar o seu rosto divino para o lado, deixando que uma horda de sujeitos a soldo matasse os portugueses presentes na feitoria. Sabia que a represália dos portugueses seria inevitável, mas também sabia que a armada não tinha homens suficientes para virem a terra pedir meças com os seus guerreiros, tanto mais que tinha a mourama do seu lado. O que não contava era com o alcance e ferocidade dos canhões da armada, um poder de fogo nunca visto por aquelas paragens.
Logo no primeiro dia de bombardeio, uma parte dos muros de suporte da povoação caíram por terra. Imensas habitações desmoronaram sobre as gentes que ficaram soterradas nos pedregulhos. Pedras, madeiras, barro, metais, confundiram-se nos destroços com o sangue escuro dos que tinham sucumbido à avalanche. Os corpos ficaram esmagados, com a carne rasgada e as vísceras a servir de repasto aos animais pestilentos que saíam dos buracos infectos e sombrios para conquistar o seu naco de carne morta. As armas caíram por terra, os estandartes tombaram, sem orgulho, junto aos soldados mortos. Calecute não tinha muralhas, era uma terra de comércio aberta ao mar. Dos barcos avistava-se todo o casario e podia-se ver como os pelouros impiedosos continuavam a vergastar a cidade, derrubando casas, soterrando as numerosas e amedrontadas famílias que pereciam entre rezas aos seus deuses. As suas vidas acabavam ali. Estonteados, não gritavam. Sem entenderem porque o mundo lhes desabava na cabeça, limitavam-se a procurar esconderijo nos lugarejos mais sombrios para que a morte não os enxergasse nos olhos. Apenas se perguntavam porque estavam zangados os céus, porque discutiam os deuses. E as esferas de ferro entravam enraivecidas paredes dentro, retalhando as casas, derribando-as, transformando-as em tumbas onde a morte sorria. Os canhões não estancavam o seu fogo. Fundeadas ao largo da povoação, com a Cruz de Cristo nas velas, quatro das cinco embarcações da armada portuguesa disparavam os seus canhões alternadamente, empenhadas que estavam em aniquilar aquela terra de pagãos assassinos.
As embarcações árabes que estavam junto do porto foram igualmente abalroadas, por temor que estas tivessem recolhido soldados durante a noite. Algumas ripostaram, mas a armada que já se posicionara estrategicamente para ter o domínio da baía, disparou com tal intensidade, tão certeira na sua mira, que mesmo antes de nascer o sol já todos os barcos daquele porto tinham sucumbido sem honra de combate digno desse nome. Uma embarcação de maior porte, semelhante a uma nau portuguesa, ainda esboçou um ataque à nau Capitânea, mas Nicolau Coelho, capitão da caravela São Pedro, atento a tudo o que se agitava em seu redor, disparou uma descarga de artilharia a curtíssima distância, deixando-a tolhida, com o casco fendido e a meter água. A danação dos portugueses era de tal monta que o capitão acabou por ceder aos urros dos seus homens e ordenar uma abordagem. Indisciplinados, com os olhos raiados de sangue, lançaram os cabos de abordagem e saltaram a bordo ainda a arder na febre da vingança, procurando uma luta corpo a corpo, esgrimindo espadas e talhando a carne dos que ainda ofereciam peleja digna desse nome. Os mais fortes levavam machados pesados que decepavam cabeças e abriam peitos. Era tanto o sangue, que o convés se tornava escorregadio sob as botas dos oficiais ou sob os pés descalços da marinhagem. Alguns levavam garrafas cheias de pólvora e chumbo, com o pavio pendente — chegavam-lhes fogo e atiravam o vasilhame mortal para o meio das hostes inimigas. As explosões chacinavam tudo à sua volta indiscriminadamente, os homens tombavam no chão como pássaros mortos, desfigurados, esquartejados; as espadas aliviavam os que sofriam, trespassando-os, aligeirando-lhes a morte.
Muitos dos homens saltaram para o mar sem dignidade, temerosos da carga animalesca que lhes invadira a embarcação. Os outros, apanhados na fuga, eram simplesmente esventrados pelo metal frio das espadas e depois degolados. Alguns foram agrilhoados num poste e atormentados até à morte. Vamos enforcar o samorim, com as tripas do último perro índio
, gritavam os soldados em histeria. As embarcações, ou a parca amostra que delas restava, estavam a ser saqueadas e incendiadas. Dez navios islâmicos que tinham lançado âncora no porto foram também arrestados, tendo-lhes sido confiscada a mercadoria e acabada a tripulação sem piedade. Alguns dos prisioneiros a quem reconheciam a arte das armas, foram capados e os sexos mutilados metidos bocas adentro antes de serem jugulados. As cabeças decepadas, algumas com as vergonhas ainda embutidas entre os dentes, a escorrerem sangue, foram recolhidas em cestos e colocadas numa pequena embarcação, para que pudessem dar a terra num claro aviso aos traidores de Portugal
. Foram centenas de cabeças desprendidas dos corpos.
Muitas das embarcações de maior porte que se encontravam ao largo altearam as velas e embalaram a favor do vento para mar largo. Pequenas barcas a remos arranhavam nervosas as águas salgadas, esgueirando-se por entre corpos inanimados e peixes empolgados pelo sangue, por entre os restos de cordame, velas rasgadas, mercadorias naufragadas, alguns pendões bordados, restos de madeira dos paraus e zambucos — as pequenas embarcações indianas. Havia mastros e antenas a boiar com o lume ainda nas entranhas e uma quantidade enorme de ratos que procuravam nadar até terra. Ao cheiro da pólvora, juntava-se o cheiro do fogo: de madeira ardida e corpos abrasados. A carne destes porcos malparidos empesta os ares!
, gritavam os soldados. Só o cheiro das especiarias que carregavam lhes animava de novo o olfacto e lhes despertava um sorriso no meio daquele tormento.
Pedro Álvares mandou que se aproximassem de terra para ajustar a mira ao palácio do samorim e repetiu: Fogo!
Jesus Belomonte, o seu fiel escudeiro, olhava-o incrédulo: de tão transfigurado, mal o reconhecia. Altivo no seu porte, de rosto afogueado, faltava-lhe já a voz de tanto gritar por entre as névoas de fumaça e o ar irrespirável da pólvora queimada pelos canhões. Tinha atirado já com o elmo debruado de penas para a coberta suja do navio e retirado a armadura do peito. O sol rompia, o calor e a humidade sufocavam-no. Gotas de suor desabavam-lhe pela testa, pelo rosto, ensopavam-lhe a barba farta. Um homem gritava ao longe, esbracejava, mas o capitão-mor não o ouvia. Não ouvia ninguém. Não ouvia sequer a sua consciência. Os seus olhos estavam raiados de sangue, cegos pelo mal da ira. Meu senhor
, interrompeu Belomonte tocando-lhe no braço. Meu senhor, perdoai-me, diz o bombardeiro que os homens estão encegueirados, que não divisam terra. Que lhes é impossível descortinar o palácio nesta correnteza de ventos fumados.
Cabral parou. Não disse uma palavra. Os homens ficaram suspensos dos seus gestos enquanto escarravam para o chão e rangiam os dentes. Outros passavam as palmas da mão pelas testas limpando a sudação quente e salgada. Uma das bombardas de proa tinha mesmo rebentado causando a morte de um dos matalotes, um daqueles tantos marinheiros sem qualificação que estava encarregue de limpar as bocas dos canhões com o escovilhão comprido. As restantes peças de fogo ferviam pela explosão da pólvora e o arremesso constante. Repousavam agora. Era o primeiro minuto de silêncio naquela nau desde que se dera início à surriada contra os árabes e hindus.
Por fim, o capitão levantou a mão para suspender o troar dos canhões. O escudeiro levantou a bandeira e fez sinal às restantes naus para que também suspendessem o fogo. A mensagem foi passando entre as naus e os tiros aquietando. "Belomonte, ordena ao despenseiro que seja ligeiro na repartição de uma canada³ de água e biscoitos por todos os homens. O jovem curvou a cabeça em consentimento e saiu para cumprir as ordens. Os clérigos que se tinham recolhido assomavam agora nas vigias com as contas do rosário entre os dedos. As águas agitadas faziam ondular a nau. Ouvia-se por todo o lado o clamor sofrido de alguns homens. Uns queixavam-se dos ouvidos, pelo estrondo das explosões, outros tossiam tentando libertar-se da pólvora que lhes ressequira as gargantas. A água e os biscoitos souberam como uma iguaria de nobres.
O físico que cuide dos feridos", ordenou o capitão-mor que permanecia firme no seu posto altaneiro.
3. Antiga medida portuguesa igual a 1litro e 4 decilitros.
2 - Vasco da Gama e o samorim de Calecute
Quando a armada acalmou as suas bocas-de-fogo, as paredes do palácio pararam de tremer. O samorim ainda aguardou uns minutos a certificar-se de que a ira dos portugueses tinha acalmado. Depois, bem depois, ainda trémulo, a vacilar, abeirou-se da janela estreita e olhou o mar. Ficou boquiaberto. Ao largo, viu os barcos alquebrados sobre as águas, envoltos em chamas e fumo negro. Só as embarcações portuguesas estavam intactas, imponentes. Três naus e uma caravela perto da costa, e uma outra mais longínqua que, de vez em quando, ainda disparava sobre pequenas barcas fugidias. O porto estava arrasado, sobravam apenas destroços, como se a terra tivesse tremido. A cidade estava esfacelada de um lado, com uma grande área semidestruída e em chamas, de onde se ouviam clamores de angústia. As suas gentes começavam a sair dos refúgios, a ver o volume dos destroços, a contar os mortos entre os seus, a lançar gritos de desespero aos céus. O pânico tinha-se instalado e todos começavam a correr em debandada para o outro lado da cidade, deixando os seus pertences, esquecendo os cadáveres e os feridos, largando as crianças assustadas e sujas pelas ruas, sufocadas em choro. Corriam pela vida, sentindo-se esquecidos pelos deuses e pelo seu senhor, que era deus em terra de homens, e que sempre os tinha protegido dos invasores. Mas o samorim teve a mesma sensação de abandono e impotência. Um calafrio lambeu-lhe a espinha e suores frios caíram-lhe pelo rosto. Estava em pânico. Ao longe, só os amontoados de cabanas de colmo dos sem casta pareciam ter sido poupados. Toda a parte nobre da cidade estava ferida de morte e até uma parte do sumptuoso palácio tinha sido atingida. Algumas torres ornamentadas estavam derribadas sobre os jardins. Apenas alguns pórticos resistiam. Havia já colunas de pórfiro tombadas pelo chão, deixando os zimbórios meio arruinados, tombados de esguelha sobre os fendidos terraços de mármore branco, por onde se viam os nobres brâmanes e serviçais sudras a fugir lado a lado sobre os escombros, esquecendo a hierarquia das castas. As flores tinham perdido o viço e os lagos artificiais vazavam águas prenhes de peixes mortos. As flores não tinham cor, como não tinham cor os peixes nem as faces atemorizadas do samorim. Foi então que vários guerreiros entraram nos seus aposentos. Dois barcos militares com portugueses dirigem-se a terra
, informaram os homens, sem as usuais mesuras perante a presença do Príncipe dos Mares. Glafer compreendeu que podia estar eminente um ataque por terra à sua residência e que a sua própria vida corria perigo. Entendeu por isso que melhor seria fugir, ou antes, retirar-se estrategicamente para um lugar mais seguro, o seu palácio oficial, no interior do principado, junto às montanhas. Partiu resguardado na força dos homens, mas rezando pela protecção divina. Na sua boca cabiam em simultâneo as palavras sagradas com que exultava os deuses e as palavras rudes com que amaldiçoava os portugueses e a hora em que os ventos os tinham levado a aportar nas suas terras, dois anos antes, ainda no governo de seu tio…
… corria o dia 17 de Maio do ano do Senhor de 1498, quando três velas de grande porte chegaram com o vento sul e riscaram o horizonte límpido do mar de Calecute. Estavam capitaneadas por um barbudo infernal, Vasco da Gama — ele a bordo da nau São Gabriel, seu irmão Paulo da Gama, ao leme da nau São Rafael, e o conhecido capitão dos mares, Nicolau Coelho, à frente da caravela Bérrio. Há dias que marcam a história dos povos e este era um desses. O sol fingia ser igual ao de tantos outros dias, porque as sortes das gentes mudam de repente sem que os céus enviem um sinal. Dezassete de Maio, as costas malabares nunca mais seriam as mesmas; nem mesmo o reino de Portugal.
Houve um alarido tremendo na costa e nas águas. A gentiaga acorreu à beira-mar e alguns mais afoitos foram de almadias até às novas embarcações, uns por curiosidade, outros mais arrojados a tentar escambo com os estranhos que pareciam de bolsa farta. Mas aqueles homens de além-mar tinham carrancas barbudas que davam mostras de pouca amizade. Só uns tantos saíram a terra. Degredados de pouca valia, gente ruim por quem ninguém verteria uma lágrima e outros tantos homens de armas. Saiu também Fernão Martins, que era o língua⁴ da armada, um homem de muitos falares. Ficaram deslumbrados com aquele estranho povo, uns escanzelados de barbas brancas e poucas vestes, outros anafados e de bons panos coloridos. Gente muito variada e muitos animais exóticos. Pelos adentros das narinas entrava um cheiro adocicado que indicava as praças de mercadores de especiarias. Os portugueses sorriram, mas por pouco tempo, pois a mourama era belicosa e as escaramuças aumentavam a olhos vistos. Depois de muito cruzar lâminas e injúrias, Fernão Martins lá encontrou um árabe que era mais senhor de falas que de espadas. E arabiando os dois, lá se entenderam e assim convenceram o dito a subir a bordo para falar com o capitão-mor. "Sou Vasco da Gama, dizei ao samorim que quero falar-lhe. Trago uma missiva do meu rei e senhor, D. Manuel I, rei de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África."
4. Língua – o tradutor
O árabe, Moçaide, era homem viajado. Tinha navegado no Mediterrâneo e conhecia a fama dos portugueses. No seu arengar meio--genovês, meio-castelhano, agradeceu as mordomias recebidas e prometeu ser célere em marcar audiência com o soberano daquelas terras. Mas o sultão era homem acautelado e, não sabendo dos intuitos daqueles forasteiros, tinha pegado no seu séquito e partido para um outro palácio, lá no anteparo da floresta, distante dos mares e do poder de fogo de tal gente. Por isso demorou tempo a resposta do soberano e muito tardou também a viagem dos portugueses pelo matagal adentro, sob um sol que matava e uma humidade que fazia gotejar os corpos; as fatiotas tiradas da arca húmida para tão especial ocasião estavam já encharcadas de um suor fétido. Os portugueses seguiram transportados em liteiras, mas sempre nervosos e desconfiados dos beberes e das poucas comidas que lhes eram dados. Só quando chegaram ao seu destino tudo esqueceram e abriram a boca num espanto sem fim — tinham chegado à terra dos seus devaneios. Por certo, nem em sonhos tinham estado num tão luxurioso lugar.
Todo o palácio era uma ilha de tesouros, nunca os portugueses tinham visto tal coisa: o debuxo ornamentado do edifício; os adornos de pedraria; o sem-fim de guerreiros e serviçais; um ror de gente coberta de sedas e pedras preciosas. Caminharam pelo palácio adentro em passo firme, orgulhosos, mas os presentes torciam o rosto e levavam lenços ao nariz. Uns serviçais foram borrifá-los com uns líquidos. Água benta por certo, devem ser cristãos
, comentou Gama, escarrando no chão. Mas na realidade era perfume, pois o odor a esterco e suor estava-lhes apegado ao corpo. Por contraste, o samorim Manavikraman Rajá, homem de muitos anos, estava estirado num dossel bordado a ouro e reclinado em grande soma de almofadas cor de pérola. Convidou Gama a sentar-se e brindou a comitiva com fruta e beberagens frescas. Gama discorreu então sobre o reino de Portugal e seus egrégios antepassados, o seu poderia militar e económico, o seu agigantar nas aventuras do mar tenebroso. Fazia questão que das suas palavras emergisse a grandeza impressionante de um reino que a todos desse o mesmo pensar — melhor o ter por afeiçoado que por desavindo. O samorim ouvia a tradução dos línguas mas não largava o lenço aromatizado sobre o nariz; desesperava com tal gente e mostrava cara de enfado. À sua volta todos franziam igualmente o sobrolho, pouco crentes na grandiosidade de um reino que se fazia representar por um barbudo porco e nauseabundo. Vasco da Gama sentia que o ambiente lhe era adverso, por isso lhe tremiam os termos e as ideias, o que maior desagrado causava entre os presentes — não dizia já coisa com coisa. Aquela era gente perfumada, de corpo depilado e pele tratada, carregada de joias e sedas coloridas. Em toda a volta tudo era primor e riqueza, deslumbre e opulência. Só aquela gente que escarrava no chão parecia saída da imundície. Por isso lhe pediam que falasse com as mãos sobre a boca, para que o hálito não emporcasse mais ainda aquele ambiente luzidio.
Vasco da Gama sentia que tudo revoluteava à sua volta, como se estivesse ainda no cabo tormentoso onde a morte tinha chamado por ele. E se a água o não tinha tragado, sentia agora que este povinho efeminado e senhoril o queria esmagar com uma vaga de desprezo. Temeu então que se perdesse o encargo que D. Manuel lhe confiara. Não posso malograr esta missão
, repetia de si para si mesmo. O futuro do reino está nas minhas mãos, não posso falhar.
A velha Europa cobiçava as especiarias do Oriente — pimenta, canela, gengibre, cravo, noz-moscada. A nobreza gostava de luxos e de boa mesa, e estas espécies deixavam um gosto exótico nas comidas que, de mal aprovisionadas, nem sempre tinham o melhor dos paladares. Porém, os turcos islamitas tinham criado um tampão entre a Europa e a Ásia. As especiarias tinham de atravessar os desertos e chegavam aos reinos católicos ao mesmo custo que o mel dos deuses.
Descoberta a redondeza do mundo, logo Portugal tentou chegar às Índias torneando a costa africana. Bartolomeu Dias tinha ido lá longe mostrar que o mundo não tinha fim, transpondo o temível Cabo das Tormentas. Cabia agora a Vasco da Gama seguir a mesma rota e arrimar às costas malabares onde poderia carregar os porões de riquezas. Mas se o capitão estava preparado para arrostar o mar bravio, corria agora riscos de naufragar frente a Manavikraman, o senhor de Calecute, Senhor dos Oceanos. E porque as palavras não eram o seu forte, e quanto mais falava mais enfastiados pareciam os indianos, ordenou então aos seus homens que depositassem aos pés do samorim os vários presentes que carregavam, em sinal de apreço e muita admiração
. E ali lhe estenderam para seu bel-prazer, uma caixa de açúcar, duas pipas de azeite e outras tantas de mel. E mais doze panos de lã, alguns espelhos, quatro ramais de corais e doze lambéis. E o soberano a rodar o seu anel de rubi e a olhar para os presentes miseráveis que lhe ofereciam. Vinha aquele barbudo dos confins do mundo ofendê-lo na sua casa com presentes que não eram dignos nem do seu mais reles servo. E ali permanecia ele, incrédulo, com pingentes de pedraria nas orelhas, anéis de ouro e rubis nos dedos das mãos e dos pés. Com grossas argolas de ouro cinzelado nos braços e iguais manilhas nas pernas. Ali permanecia silencioso, no alto do seu fulgor, olhando descrente de que tal ofensa estivesse a acontecer mesmo à sua frente, na sua casa, por um bando de gente grosseira e malcheirosa. Gama avançou ainda com umas pérolas de vidro que muito tinham agradado aos nativos africanos, seis bacias de latão, quatro capuzes de grã e alguns chapéus ornamentados com penas.
Foi nesse instante que a paciência do soberano de Calecute se dissipou. Gritou algo ininteligível aos marinheiros de Portugal, mas a quantidade de soldados que os rodearam de lanças apontadas aos seus canastros não deixavam dúvidas — estavam arrestados.
A cela era esconsa e de uma humidade atroz — uma cave sem luz natural. Estavam habituados a espaços pequenos, mas faltava-lhes a imensidão do mar e o vento. Desesperavam. Mas no último dia de Maio, o samorim deu-lhes voz de liberdade, que mercadejassem e se fizessem ao mar sem muitas delongas. Talvez um gesto magnânimo do soberano, talvez o medo pelo poder de fogo das embarcações que Paulo da Gama dispusera frente ao porto, com os canhões a mostrarem a fronha negra de metal.
Vasco da Gama regressou em liberdade à praia de Calecute mas a custo de muita espada. Cristão, ladrão! Cristão, ladrão!
, gritavam. Teve de ser socorrido por seu irmão, que veio a terra com gente armada e muita sanha para dar que contar aos mouros danados que tinham conspirado contra eles. Ali por ali se ficaram uns tempos, mas não havia vontades políticas nem aberturas comerciais. O melhor era partir com pouco mais que nada, desalentados e de porões leves, leves, leves. Largaram velas.
Lançaram ferros na ilha de Angediva para reparar as embarcações, seguiram para Melinde onde puderam comprar mercadorias de segunda escolha mas ainda assim valiosas na velha Europa. A nau S. Rafael foi queimada, já não tinha resistência para aguentar a torna-viagem. Paulo da Gama passou para a S. Gabriel, aos cuidados de seu irmão, pois seguia atormentado por febres violentas — viria a finar-se na ilha Terceira, nos Açores.
O retorno foi penoso. Tempestades muitas, doenças infindas — as gengivas apodreciam e os dentes desabotoavam-se da carne viva, que ficava como um ventre aberto
. Entre tempestades e enfermidades, sobreviveu apenas um terço da tripulação, mas disso ninguém falou. Importante mesmo era que os porões tinham aportado com valiosas mercancias e estava assinalado o caminho marítimo para as Índias. Era um sinal esperançoso
, exclamou el-rei. Por isso, Vasco da Gama foi aclamado como herói aquando da sua chegada a Lisboa e teve um rol de benesses à sua espera: o direito a usar o título de Dom, uma tença⁵ de trezentos mil réis anuais… e ainda o almirantado dos Mares da Arábia, Pérsia, Índia e de todo o Oriente
, determinando el-rei D. Manuel que este deteria a capitania-mor de todas as armadas vindouras que tivessem o fito das Índias.
5. Renda ou pensão.
II Parte - A decisão do rei
1 - A figura d’el-rei D. Manuel
Na corte existiram sempre duas firmezas: nenhuma princesa ficava por desposar e nenhum rei se afigurava de malparecido. Sua Alteza D. Manuel I, era no mínimo, um homem bem-apessoado. Não porque o dizia o espelho. Mas tão-somente porque era rei de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar. É que uma coroa real pode adversar o espelho e fazer um homem parecer mais alto, mais elegante, mais gracioso. E quando se é soberano num reino que parece aconchegar meio mundo, já com laivos de império, então estamos a falar de um bem-aventurado e muito belo rei. Talvez por isso, nunca faltaram amancebadas nem mancebos a el-rei D. Manuel I, homem de peculiares encantos e lubricidades escusas. Era de corpo meão para a média do reino, ou, como dizia o povo pela calada, meio atarracado
. Mas, na verdade, se parecia mais forte, era por andar sempre arrochado em coletes curtos, estofados no peito e ornamentados com pedrarias e botões de ouro. Assim como, pelotes forrados de martas ou fortes tabardos, fendidos e com grandes cavas, o que o tornavam algo volumoso de tronco. Mas, o que mais suscitava comentários, era o seu "pavonear" — tinha grossas coxas, pernas curtas e braços compridos, desmedidos mesmo em relação ao resto do corpo — os dedos das mãos desciam abaixo dos joelhos. Daí o seu andar meio desengonçado, pendular, marcado pelos seus sapatos pontudos, sempre baloiçando o codpiece⁶ com orgulho e meneando as ancas. Para além deste porte — que muito gracejo contido suscitava na corte —, tinha ainda um rosto marcado por uma barba escura, cerrada, que lhe dava um ar rude, apesar da sua tez clara e dos pequenos olhos esverdeados e vivos. Tinha igualmente um cabelo forte castanho e encaracolado, que lhe pendia pelos ombros e em curta franja sobre a testa, onde lhe assentava a coroa real em dias solenes.
6. Codpiece – nome inglês que significa protector de testículos. Era uma peça de vestuário que ressaltava e protegia a zona genital masculina.
Na sociedade nobre da época, as roupas sacrificavam o prático ao exuberante. Vivia-se uma ostentação assumida em que os homens conseguiam ser bem mais extravagantes que as mulheres. E a prova cabal desta vaidade assumida era o próprio rei. Mirai, mirai bem. Gostais do meu novo gibão?
, interpelava sem modéstia, colocando as mãos no peito. É feito com tecido das Índias. Um presente que veio nas arcas de Vasco da Gama
, dizia enquanto se pavoneava no salão onde mandara reunir alguns amigos e conselheiros.
2 - D. Manuel sucede ao Príncipe Perfeito
As Índias são um mundo de riquezas, mas não de somenos importância, um mundo de bom gosto
, afiançava o monarca de dedo no ar. Muito júbilo nos deu Bartolomeu Dias eliminando os fins do mundo, dobrando o Cabo e ligando o Atlântico e o Oceano Índico, mas iguais prazeres nos deu Gama trazendo novas dos reinos das sedas e das especiarias.
Os presentes diziam que sim
. Aliás, sim é a palavra que mais se ouve na sala do trono, quando fala um homem que tem o poder da coroa e da espada. Que sim
, que o gibão era magnífico. Que sim
, que as Índias deviam ser um mundo fantástico. Que sim
, que Bartolomeu Dias fora um destemido navegador. Que sim
, que muito se folgou no reino com a chegada de Vasco da Gama a terras do Sol Nascente.
"É preciso voltar
