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Cangaia
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Cangaia

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Sobre este e-book

Uma visão aprofundada e esclarecedora sobre a influência da Igreja Católica e da mineração na formação das cidades brasileiras. As histórias do Arraial do Carmo e dos seus habitantes, os nomes dos primeiros moradores de Coromandel, de Patrocínio, de Estrela do Sul e dos escravos. O testamento de Clara Chaves, o recenseamento do Carmo de 1831, realizado pelo Juiz de Paz daquela época, Capitão Pedro Martins Mundim, as Leis do Império e os registros de terras nas Paróquias.
IdiomaPortuguês
EditoraEditora Dialética
Data de lançamento31 de jul. de 2025
ISBN9786527064381
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    Cangaia - Mario Wilson Pena Costa

    Parte I

    Os Portugueses e a Colônia

    Durante a Inquisição em Portugal, muitos judeus sefarditas foram obrigados a mudar seus nomes para escapar das perseguições religiosas. Frequentemente, essas alterações visavam camuflar suas origens judaicas ou reforçar a conexão com a cultura cristã. As estratégias adotadas eram diversas, mas a principal consistia na escolha de nomes que conferissem uma conotação mais próxima ao catolicismo, reduzindo o risco de perseguição. Para isso, utilizavam palavras relacionadas a árvores, plantas, lugares, animais e ocupações, entre outros. Essa prática era uma forma de sobrevivência e permitia que muitos se integrassem à sociedade cristã sem levantar suspeitas.

    Alguns sobrenomes judeus foram transformados em nomes cristãos, como Bem-Zion, que se tornou Bento ou Simão, e Baruch, que deu origem a Brás. Abravanel virou Branco; Salomão se transformou em Simão; e Isaac originou Sá. Outros passaram a estar associados a nomes de santos ou virtudes, como Jesus, Santos, Cruz, Espírito Santo, Bento, Paixão, Trindade, Assunção, Conceição, Nascimento, Páscoa, Ramos, Aparecida, Reis, Salvador, Rosário, Caridade, Leal, Justo, Amado, Bondade, Boaventura, Esperança, entre outros.

    Além disso, alguns sobrenomes adotaram denominações neutras, inspiradas em elementos da natureza, como árvores, flores e animais. Exemplos incluem Oliveira, Carvalho, Bandeira, Moreira, Carneiro, Cunha, Ramos, Palmeira, Figueira, Codorna, Pena, Pereira, Rosa, Leite, Lima, Flores, Jatobá, Castro (referente a uma montanha ou fortificação), Pinheiro, Lobo, Coelho, Leitão, Galo, Machado, Pinto e Leão. Outros evocavam características geográficas ou locais de origem, como Lisboa, Braga, Guimarães, Porto, Montes, Rocha, Matos, Rios, Castelo Branco, Navarro, Ribeiro e Serra. Sobrenomes como da Costa indicavam uma origem litorânea, enquanto Silva podia remeter a uma família proveniente de áreas de mata ou floresta em Portugal.

    Na época medieval, devido à extensa costa portuguesa e à forte tradição pesqueira, os portugueses desenvolveram um espírito voltado para a aventura e o comércio marítimo. Nos séculos XIV e XV, o país enfrentava crises intensas, agravadas por inúmeras batalhas e epidemias, que resultavam em altas taxas de mortalidade. A fome assolava a Europa, enquanto as águas potáveis tornavam-se cada vez mais contaminadas por ratos, chuvas intensas e a falta de saneamento, ainda inexistente na maior parte dos países europeus.

    As pestes eram frequentemente interpretadas como castigos divinos, levando os cristãos a buscarem proteção por meio de estampas e relíquias de santos da Igreja Católica, já que a medicina da época não oferecia explicações racionais nem soluções eficazes. Muitos sábios se recusavam a atender os doentes, enquanto outros, mais corajosos, prestavam algum conforto à beira de seus leitos. Nos casos mais graves, recomendava-se limpar o corpo dos enfermos com vinagre, embora o contato direto com eles favorecesse a disseminação da doença. A fome e as revoltas populares decorrentes desses eventos agravavam ainda mais a crise e a miséria.

    Com o tempo, verificou-se o repovoamento do litoral português e a intensificação da pesca no país. A ascensão da dinastia de Avis (1383–1580) unificou Portugal, tornando-o o primeiro reino consolidado da Europa e impulsionando o surgimento de uma burguesia que investia maciçamente na navegação, visando o comércio com diferentes partes do mundo. Para facilitar a travessia dos oceanos, os portugueses evoluíram da nau e da galé para a fabricação de caravelas, embarcações mais leves e velozes.

    O desejo pelo lucro foi o grande motor do comércio marítimo global, e os mercadores da época formavam um grupo suficientemente influente para estabelecer uma bolsa de mercadorias vindas do Mar do Norte. Nesse período, os portugueses enfrentavam constantes ataques de navios piratas em seu litoral, o que os levava a reconstruir e modernizar continuamente sua frota. A navegação estava no sangue dos portugueses e espanhóis, que, habituados ao mar, sentiam-se tão confortáveis em seus barcos quanto em terra firme. Enquanto a pesca exigia somente navegação costeira, o comércio com regiões distantes demandava embarcações maiores, mais bem equipadas e dotadas de técnicas de navegação mais avançadas.

    Esse desenvolvimento permitiu que Portugal aprimorasse sua frota mercante, equipada com instrumentos sofisticados, possibilitando a travessia do temido Cabo das Tormentas em direção às Índias e ao Oceano Atlântico, expandindo suas descobertas. Assim, com a Espanha, o pequeno reino tornou-se uma referência mundial em navegação. Aproveitando seus portos estratégicos, Portugal ampliou o comércio marítimo e criou a Escola de Sagres, dedicada aos estudos náuticos, sob o comando do astuto navegador D. Henrique. Embora os propósitos dessa instituição sejam debatidos até hoje, é inegável o papel de seu fundador no patrocínio de expedições ao longo da costa africana em busca de um caminho para as Índias.

    Com o tempo, o comércio português intensificou-se, envolvendo holandeses, franceses, castelhanos, aragoneses e italianos, até ser limitado pelo domínio genovês no fechado Mar Mediterrâneo. Diante dessa barreira, Portugal tornou-se o primeiro país a lançar-se no projeto das grandes navegações, culminando na descoberta de terras além do Oceano Atlântico.

    Existem diversas teorias sobre quem pisou primeiro no solo brasileiro. Alguns sustentam que o espanhol Vicente Yáñez Pinzón desembarcou no litoral de Pernambuco antes de Pedro Álvares Cabral, enquanto outros afirmam que ele foi o descobridor do rio Amazonas, ao qual deu o nome de Santa Maria de la Mar Dulce, antes de seguir rumo às Guianas. Há também quem defenda que, vinte dias após a partida de Pinzón, em 1499, seu primo Diego de Lepe zarpou do porto de Palos, na Espanha, e chegou ao Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, em fevereiro de 1500, também precedendo Cabral.

    Muitos historiadores afirmam que Cabral partiu da foz do rio Tejo com um destino certo: o grande continente do outro lado do Oceano Atlântico, que mais tarde seria chamado de Brasil. Inicialmente, acreditava-se que o navegador português deveria seguir a mesma rota de Vasco da Gama, cruzando o Cabo da Boa Esperança (ou Cabo das Tormentas) rumo à Índia. No entanto, há quem diga que ventos adversos afastaram a frota de Cabral da costa africana, fazendo com que suas caravelas ancorassem na chamada Terra da Vera Cruz — posteriormente renomeada Terra de Santa Cruz pelo rei D. Manuel I e, mais tarde, Brasil.

    Contudo, na frota de Cabral havia navegadores experientes, incluindo um tripulante da expedição de Vasco da Gama, que aparentemente conhecia bem o percurso. O escrivão da frota, Pero Vaz de Caminha, registrou a viagem com precisão, exceto no que diz respeito à denominação dos territórios descobertos, referindo-se a eles tanto como Ilha quanto como Terra da Vera Cruz. Curiosamente, seu relato não menciona ventos fortes ou contrários durante a travessia, levando muitos a acreditar que a Coroa portuguesa já conhecia essas terras e a rota para o novo continente, mantendo-as em segredo para evitar a cobiça de outras potências concorrentes da época.

    A divulgação das novas terras descobertas ocorreu de forma discreta e somente ganhou maior atenção após a assinatura do Tratado de Tordesilhas, em 7 de junho de 1494. O acordo dividiu o mundo em duas partes: as terras descobertas e a descobrir a leste do meridiano estabelecido ficariam sob domínio de Portugal, enquanto as regiões a oeste pertenceriam à Espanha, com o compromisso de difundir o cristianismo no Novo Mundo.

    O tratado ampliou a linha original de demarcação de 100 para 370 léguas a oeste de Cabo Verde, garantindo a Portugal o controle sobre praticamente toda a costa do Brasil - ainda oficialmente desconhecida, mas supostamente já descoberta pelos portugueses.

    Diante das diversas teorias sobre a verdadeira chegada dos europeus ao Brasil, o nome do primeiro descobridor permanecerá uma incógnita. Muitos documentos que poderiam esclarecer esse mistério foram mantidos sob sigilo e, posteriormente, destruídos no terremoto que devastou Lisboa em 1755.

    ***

    Com a divulgação da nova descoberta, os primeiros a questionar foram justamente os principais concorrentes de Portugal e signatários do Tratado de Tordesilhas: os espanhóis. Somente em 1506, os dois países chegaram a um acordo. Sentindo-se traída, a França começou a enviar navios de Dieppe e Le Havre ao novo continente, retornando carregados da primeira riqueza explorada naquelas terras: o pau-brasil.

    Portugal, por sua vez, não dispunha de força militar suficiente para enfrentar essa nova ameaça. Os franceses logo perceberam que poderiam dominar o território recém-descoberto com poucos navios armados. Diante desse risco, os portugueses compreenderam que, se quisessem garantir a posse do Brasil, precisariam povoá-lo. O imenso território exigia mão de obra, e cada novo desembarque incentivava a chegada de mais colonos para ocupar as novas terras.

    Assim, tornou-se urgente a adoção de políticas de migração para o Brasil. Sem alternativas imediatas, Portugal decidiu esvaziar suas prisões, enviando condenados e até mesmo aqueles que aguardavam julgamento. Essa medida não somente reforçava a população da colônia, mas também aliviava o Estado português do custo de sustentar esses indivíduos em seu território.

    A política de deportação já havia sido experimentada com sucesso pelos espanhóis. Para as prostitutas de Lisboa, os judeus recém-batizados - conhecidos como cristãos-novos - e os presidiários, o exílio no Novo Mundo parecia uma opção mais atraente do que as fogueiras da Inquisição, que ainda estavam em pleno vigor na época. No entanto, a colonização das novas terras por esses indivíduos, de tão inexpressiva, quase não deixou marcas na economia do Brasil, resultando em um povoamento superficial e, para muitos, considerado irrisório diante das realizações posteriores dos portugueses na colônia recém-descoberta.

    Na nova terra, além das grandes plantações de cana-de-açúcar nas propriedades dos senhores de engenho, os portugueses também se dedicavam ao corte e embarque do pau-brasil nos navios que começaram a chegar com maior frequência aos portos da região. Gradualmente, formaram-se as primeiras famílias brasileiras, cada vez mais miscigenadas, compostas por brancos, portugueses, índios e africanos.

    Naquela época, era comum ver um sacerdote a bordo de um navio com destino ao Brasil, para verificar a fé dos cristãos embarcados. Durante a viagem, constatavam-se enfermidades, como sífilis, lepra, bexiga preta e outras, levadas pelos europeus ou africanos de várias origens. Porém, na mentalidade da época, o que importava era a saúde espiritual, e não a física. O verdadeiro perigo estava nos hereges, e não nas doenças contagiosas. Se o doente soubesse rezar o Padre-Nosso, a Ave-Maria e fazer o sinal da Santa Cruz, fosse português ou não, ele era bem-vindo à colônia.

    Cada vez mais, também surgiram navios estrangeiros ilegais, em busca do pau-brasil, o que reforçava nos representantes da Coroa no Novo Mundo a necessidade urgente de povoar aquela terra. Em 1530, Martim Afonso de Souza convenceu o rei de Portugal, D. João III, filho mais velho de D. Manuel I, a estimular a iniciativa privada para esse povoamento. Foi então que a colônia foi dividida em doze capitanias, cada uma com direitos hereditários. Essas terras foram doadas a portugueses ilustres, que se comprometiam a desenvolver o solo conforme os interesses do rei. Em um único ato, um oficial que tivesse demonstrado bravura em alguma batalha em nome de Portugal passava a ser proprietário de 1/12 (um doze avos) do Brasil.

    Esses donatários tinham o direito de cunhar sua própria moeda e eram soberanos na área que recebiam, mas, por outro lado, eram responsáveis por produzir e povoar o território. Apenas duas capitanias hereditárias prosperaram com a produção de cana-de-açúcar: São Vicente e Pernambuco. As outras logo caíram em estado de anarquia, seja pela hostilidade dos nativos, pela indiferença de seus proprietários ou pela falta de colonos para explorá-las.

    A partir dos anos 40 do século XVI, a colonização dessas terras ocorreu por meio do cruzamento entre portugueses e índios, portugueses e escravos africanos, ou entre escravos africanos e índios. No seu livro, Gilberto Freyre escreveu:

    O europeu saltava em terra escorregando em índia nua; os próprios padres da Companhia precisavam descer com cuidado, senão atolavam o pé em carne… As mulheres eram as primeiras a se entregarem aos brancos, as mais ardentes indo esfregar-se nas pernas desses que supunham deuses. Davam-se ao europeu por um pente ou um caco de espelho.

    Gilberto Freyre (50ª. Edição 2005 - Casa-Grande & Senzala, p.161)

    Além disso, os colonos se uniam a mulheres órfãs, enviadas de Portugal pelos padres casamenteiros, que participavam ativamente do processo de colonização. Para ser colono ou proprietário de terras no Brasil, a principal exigência da Coroa era que o indivíduo professasse a fé cristã. Somente os cristãos podiam receber terras para habitar a colônia, o que, para Portugal, significava ser católico. No entanto, para ser católico, não era necessário ser português, e muitos estrangeiros eram tolerados nas missões.

    Com o tempo, as capitanias ficaram completamente à mercê dos invasores, até que, em 1549, o rei D. João III atendeu às queixas de seu representante e enviou Tomé de Souza ao Brasil, com a missão de fundar uma capital, a partir da qual o país seria administrado de forma mais uniforme. O local escolhido foi a Bahia, e, nessa data, nasceu a cidade de Salvador.

    Tomé de Souza trouxe consigo seiscentos soldados e quatrocentos degredados, totalizando mil homens, armados e com mangas de camisa, prontos para defender o novo território. No entanto, mais importantes do que eles eram os seis jesuítas enviados para servir como mentores e conselheiros espirituais do novo governador. Com batinas escuras e uma grande espiritualidade, esses homens eram despidos de ambição material e movidos por uma pureza ética e uma energia pensante herdada de sua jovem ordem religiosa. Eles pensavam apenas no bem do país, e não em ganhos pessoais.

    Trouxeram, na bagagem, plantas e animais para cultivar o solo, medicamentos para curar os enfermos, livros e instrumentos para ensinar os incultos. Em resumo, trouxeram a disciplina e a fé que aprenderam com o mestre Inácio de Loyola. Eram considerados os únicos disciplinados de sua época, mas isso era muito pouco diante dos desafios que tinham pela frente. Conscientes da vastidão do território descoberto e da morosidade da missão, sabiam estarem diante de um solo ainda virgem, e que sua tarefa seria como plantar uma semente que, aos poucos, germinaria e se espalharia por todo aquele imenso território.

    Entre os seis jesuítas, estava o padre Manoel da Nóbrega, então com apenas 32 anos. Ele embarcou na missão visando pacificar as cidades ocupadas pelos invasores e com o firme propósito de viajar para o interior do país. Nóbrega era um radical defensor dos nativos. Um de seus companheiros começou a aprender a língua dos índios, que andavam completamente nus e ainda não conheciam o trabalho. Nos relatos de Nóbrega, os índios eram vistos como uma folha em branco, recebendo suavemente os novos ensinamentos. Segundo ele, os nativos os recebiam sem desconfiança e com grande boa vontade. Os padres eram tratados pelos índios como os bons brancos, que os protegiam dos brancos maus.

    Eles sabiam que a mudança de uma cultura não se faria de imediato, mas ao longo de várias gerações. A verdadeira resistência que os jesuítas encontravam não vinha dos nativos ou dos canibais, mas dos próprios europeus, cristãos e colonizadores.

    Aquele paraíso exótico, para os degredados, era uma terra sem leis, sem restrições ou compromissos. Cada um podia fazer o que bem entendesse, sem ser seriamente importunado pela frágil justiça local. Os aventureiros e conquistadores não atravessavam o oceano para trabalhar; muitos deles - a maioria - queriam ser os Senhores. Carregavam as marcas da prisão sobre os ombros e, na Colônia, não se dedicavam ao trabalho, o que os tornava verdadeiros selvagens que escravizavam os nativos, chicoteando-os até que caíssem sem forças no chão.

    A terra era dos nativos, diziam os caçadores de índios, mas o que estava sobre ela e abaixo dela - inclusive os animais morenos de duas pernas, caçados por eles - pouco importava, se morressem ou não durante o trabalho.

    Padre Manoel da Nóbrega viajou da Costa de Pernambuco até Santos, mas não encontrou o local ideal para fundar seu principal colégio e atuar na evangelização do país. Mais tarde, sua escolha recaiu sobre Piratininga, que se tornaria a cidade de São Paulo, em 24 de janeiro de 1554. A história confirmou a genialidade de sua decisão. A Companhia de Jesus, criada pelo Padre, aos poucos foi crescendo e formando sacerdotes, brancos e de cor, que seguiam em missões para buscar as tribos nômades e conquistá-las para a fé.

    Na primeira invasão de bandos errantes contra um dos acampamentos criados por Nóbrega, os recém-batizados, comandados pelo chefe Tibiriçá, se encarregaram de repelir os ataques dos invasores. Ali iniciou o grande experimento da colonização nacional, sob orientação religiosa, que mais tarde encontrou sua forma única na República do Paraguai. Aos poucos, a iniciativa de Nóbrega foi conferindo ao país um sentimento de unidade, e começaram a surgir os primeiros resultados de uma Colônia mais organizada.

    Em novembro de 1555, uma pequena frota com a bandeira francesa aportou na baía da Guanabara. Seu comandante era o aventureiro Nicolau Durand de Villegagnon - um pouco pirata e um pouco sábio - influenciado pelo movimento renascentista da França. Lá, o impaciente Villegagnon ergueu sua bandeira, construiu o Forte de Coligny e sonhou com a França Antártica. Mais uma vez, a impotência do Governador-geral Tomé de Sousa se mostrou evidente, devido à falta de um aparato bélico capaz de aprisionar os navios de Villegagnon.

    Em 1557, um novo governador-geral, Mem de Sá, foi enviado à Bahia para substituir Tomé de Sousa. Esse novo governador confiava plenamente no padre Manoel da Nóbrega, que também era seu mentor espiritual. Foi ele, mais uma vez, quem reivindicou uma ação de Portugal contra os franceses antes que fosse tarde demais.

    Enquanto os jesuítas conheciam melhor o país e refletiam sobre seu futuro, os portugueses estavam mais preocupados com os lucros momentâneos da Colônia, gerados pela exploração da madeira e das especiarias. Apesar das constantes cartas enviadas a Portugal por Mem de Sá e Nóbrega pedindo auxílio para o Brasil, somente em 1559 Lisboa atendeu a esses clamores, enviando alguns navios armados a Mem de Sá e planejando uma ação contra os invasores.

    Em 18 de fevereiro de 1560, Nóbrega e o governador atracaram seus navios no Rio de Janeiro. Após arregimentar cento e quarenta nativos recém-batizados para reforçar a fraca força de cento e vinte portugueses, em 15 de março do mesmo ano, com o reforço que chegou de São Vicente, incluindo o padre Anchieta, iniciaram a invasão da fortaleza erguida por Villegagnon, protegida por 74 franceses e alguns escravos. Sem oferecer resistência, os franceses fugiram a tempo para a terra firme, onde estavam os nativos aliados, e se entrincheiraram novamente no morro do Castelo. Sem continuar a perseguição ao inimigo, os portugueses retornaram às suas bases na Bahia e em São Vicente.

    O que, para os portugueses, foi considerado uma vitória, para os outros, foi apenas uma trégua, pois o inimigo continuava no país. Villegagnon permaneceu mais cinco anos no Rio de Janeiro. Após incessantes advertências de Nóbrega, Lisboa enviou Estácio de Sá com tropas preparadas pelos jesuítas para defender a Colônia da invasão francesa. Em março de 1565, ele adentrou a baía do Rio de Janeiro e montou acampamento no pé do morro Pão de Açúcar. Somente em 18 de janeiro de 1566, Estácio de Sá tomou o morro em poucas horas, mas faleceu vítima de um ferimento causado por uma flecha. Nos escombros da fortaleza francesa erguida no morro do Castelo, foi inaugurada a Igreja da futura capital do Brasil, nascendo, àquela época, a cidade do Rio de Janeiro.

    Durante 62 anos - de 1578 a 1640 -, Portugal desapareceu da história logo após a batalha de Alcácer-Quibir e a morte de seu rei Dom Sebastião naquele primeiro ano. O país cedeu espaço para o domínio da Coroa Espanhola, a quem passou a pertencer, juntamente com suas colônias. Nesse período, o Brasil voltou a ser alvo de ataques dos inimigos dos espanhóis. Navios franceses retornaram e se estabeleceram temporariamente no Maranhão; piratas ingleses saquearam Santos e incendiaram São Vicente; os holandeses invadiram a Bahia e destruíram a armada espanhola. No entanto, nada disso teve grande importância para o Brasil. O perigo começou quando, na Holanda, foi colocado em prática um plano bem elaborado, visando não apenas saquear os portos, mas conquistar todo o país do açúcar. Para isso, ao contrário dos franceses, os holandeses começaram a preparar uma verdadeira frota de guerra com um exército bem treinado.

    Enquanto Villegagnon desembarcou com três ou quatro navios e as batalhas se desenrolavam com 60 a 100 homens mal treinados, os holandeses planejavam uma frota de 26 navios, com 1700 homens treinados e 1600 marinheiros - uma verdadeira frota de guerra para a época. Em 1624, foi desferido o primeiro golpe contra a capital e a Bahia caiu nas mãos dos holandeses, com imensas riquezas. Isso despertou a Espanha. Em conjunto com tropas nativas de Pernambuco, os espanhóis organizaram uma esquadra de 50 navios com 11.000 homens para reconquistar a Bahia. Com os esforços para recuperar o lucrativo negócio do açúcar, as frotas de guerra de ambos os lados se multiplicaram. A companhia holandesa foi forçada a abandonar a Bahia enquanto se preparava para um novo ataque contra os espanhóis.

    A partir de 1635, e pelos próximos 23 anos, os holandeses ocuparam todo o nordeste brasileiro, à exceção da Bahia. Os avanços na atividade colonizadora nesse período superaram em muito tudo o que fora feito pelos portugueses em mais de um século. Os holandeses possuíam ideias claras sobre a organização da Colônia. Maurício de Nassau, encarregado de administrar a parte holandesa como governador da Coroa, além de ter sangue real, era também um homem generoso e tolerante. Com ele, vieram vários especialistas, engenheiros, botânicos e sábios para europeizar a Colônia. Como humanista, Maurício de Nassau marcou o período do domínio holandês no Brasil, tendo os portugueses conservados seus direitos e os nativos, sua liberdade. De certa forma, no seu espírito de humanidade, ele concretizou o mesmo ideal da colonização pacífica que os jesuítas almejavam realizar em bases religiosas.

    Em 1640, Portugal se libertou da Espanha, reconquistando sua Coroa sob o domínio do rei D. João IV. Enquanto Portugal negociava com a Holanda a retomada do seu território, antes que chegasse a frota portuguesa como suporte, os habitantes da Colônia agiam por conta própria. Aos poucos, os holandeses foram forçados a recuar, e Maurício de Nassau deixou definitivamente o país no dia 6 de janeiro de 1654, ficando preservadas a unidade, a língua e os costumes portugueses no Brasil. Criava-se, naquele momento, um verdadeiro sentimento nacionalista no país. De norte a sul, a Colônia se sentia unida e, a partir dali, surgia a figura inquestionável do brasileiro. Aos poucos, foi sendo forjado o povo típico de cada Província, com a inevitável miscigenação em toda a Colônia, com os cruzamentos entre brancos e negros, brancos e índios, negros e índios, e outros, surgindo a cara do brasileiro com as características de cada região.

    Em São Paulo, surgiram os bandeirantes - um movimento de homens brancos descendentes dos portugueses, de sangue irrequieto e dispostos a explorar o interior do país. Eles pensavam que com lavoura e pecuária ninguém enriquecia, a menos que essa atividade fosse exercida em grande escala, com centenas de escravos. Imaginavam enriquecer como conquistadores e de uma só vez. Como o tráfico de escravos vindos da África estava praticamente interrompido, devido às dificuldades geradas pelos franceses e holandeses, era necessário substituir essa mão de obra gratuita no interior do país com o trabalho dos nativos. Assim, esses colonos de São Paulo se reuniam diversas vezes por ano, acompanhados por seus criados e escravos, e adentravam o país a cavalo ou a pé, à maneira de salteadores, mas não antes de terem benzido suas bandeiras na Igreja local.

    Esses grupos podiam chegar a até dois mil homens ou mais, que deixavam cidades e aldeias desertas por alguns meses, em função dessas investidas chamadas bandeiras, cujos nomes dos seus participantes ficaram conhecidos como bandeirantes. A maioria deles era financiada pelos próprios produtores do interior que necessitavam da mão de obra escrava. Eles percorriam os leitos dos rios, subiam e desciam montanhas em caminhos jamais trilhados antes por brancos, carregando à sua frente uma bandeira que tremulava sempre na esperança de encontrar alguma mina de ouro. Essas bandeiras também eram vistas por alguns como uma caça cruel aos nativos, para escravizá-los nas minas encontradas e nas fazendas do interior da Província. Ao mesmo tempo, essa atividade gerava muita riqueza para quem tinha a propriedade dos escravos capturados.

    Muitas vezes, esses nativos eram perseguidos por cães no interior das matas ou apanhados nas colônias, onde os jesuítas os assentavam ordeiramente e lhes ensinavam a trabalhar. O movimento das bandeiras levava pânico às aldeias por onde passavam para saquear e aprisionar homens, mulheres e crianças para o trabalho forçado. Os representantes do Rei de Portugal na Colônia fingiam que não viam esse sistema escravagista dos bandeirantes, que atuavam em nome da ocupação do interior do país. Paradoxalmente, na visão de muitos, enquanto saqueavam e roubavam a população, completavam a obra civilizatória do Brasil, descobrindo minas de ouro e explorando as áreas de fronteira do interior do grande continente, levando para além da linha do Tratado de Tordesilhas a nova fronteira do país.

    Paralelamente a esse movimento, outro, intitulado entradas, agia de forma quase semelhante, porém era financiado e incentivado pela Coroa portuguesa. Foram os paulistas que, em uma dessas entradas e bandeiras, penetraram nos vales montanhosos de Minas Gerais e, no Rio das Velhas, encontraram o primeiro ouro do país. Um dos bandeirantes levou a notícia para a Bahia; outro, para o Rio de Janeiro e, de imediato, de ambas as regiões, começou a fluir uma imensa massa migratória até a região inóspita da mina. Em poucos anos, surgiram muitas cidades na região do ouro, como Vila Rica, Vila Real, Vila Albuquerque e outras. Logo depois, veio a descoberta dos diamantes, e o Brasil se tornou a Colônia mais cobiçada da Coroa portuguesa, a qual passou a garantir para si a quinta parte de todo o ouro encontrado e de todo o diamante com mais de 22 quilates. Esse ciclo durou aproximadamente 50 anos e, com ele, surgiu uma grande parte das cidades da Província de Minas Gerais.

    A proximidade dos dirigentes da Igreja com os Reis e com a população dos três países mais praticantes do catolicismo àquela época - Itália, Espanha e Portugal - era muito evidente. Essa cultura do compadrio foi levada pelos portugueses para a Colônia, que, juntamente com a Igreja, teve um papel fundamental na colonização das novas terras descobertas. Inicialmente, a Coroa Portuguesa incentivou a ida de imigrantes desfavorecidos para o Brasil e prometia dar-lhes terras e uma ajuda para o seu sustento durante o primeiro ano.

    Em meados do século XVIII, a Colônia experimentou uma forte imigração para os garimpos de ouro do sul de Minas Gerais. A maioria dessa migração foi de pessoas originárias do noroeste de Portugal, da região do Minho. Com a notícia da descoberta de minerais preciosos na Colônia, os portugueses abandonavam seus trabalhos em Portugal e partiam para a região mineradora, fazendo com que, em pouco tempo, milhares de pessoas embarcassem em navios em busca das pedras preciosas do Brasil. Eles pensavam na riqueza e no sonho de possuir a sua própria terra na Colônia. A corrida pelo ouro despovoava muitas vilas de Portugal, notadamente da região do Douro e de Trás-os-Montes.

    No decorrer dos primeiros 60 anos daquele período, cerca de 600 mil pessoas migraram para as novas terras. Nunca, na história da Colônia, houve uma migração tão maciça para o Brasil. O intenso surto migratório fez o Governo português pensar que um dia aquela euforia poderia levar meio Portugal para o Brasil. O Minho, que era uma região bastante povoada no norte

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