Formação de Professores/as no Brasil: Das Escolas Normais à Pós-graduação.
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Formação de Professores/as no Brasil - Fabiana da Silva Viana
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FORMAÇÃO DE PROFESSORES/AS NO CONTEXTO DO PROJETO CIVILIZATÓRIO DA MODERNIDADE
JOÃO VALDIR ALVES DE SOUZA
INTRODUÇÃO
Um olhar minimante atento ao debate sobre educação escolar na atualidade constatará, inevitavelmente, que vivemos um paradoxo e uma impropriedade. O paradoxo é que quanto mais falamos sobre a importância da educação escolar – e, efetivamente, testemunhamos a universalização da escola – maior é a sensação de que ela está em crise.⁵ A impropriedade é debitar essa crise na conta dos professores e em sua formação. Se é verdade que é preciso aprimorar sempre os processos de formação e desenvolvimento profissional docente, é pelo menos questionável assentar a primazia do trabalho docente na tão desejada reconstrução social por meio da educação.
Hoje, qualquer discussão sobre formação de professores, inclusive para compreender essa crise na educação, precisa necessariamente considerar a constituição do mundo moderno, a consolidação da escola como uma de suas instituições centrais e o papel reservado aos professores como seus principais personagens, seus intelectuais orgânicos
, para usar um conceito do filósofo italiano Antonio Gramsci.⁶ Por isso mesmo é preciso entender quais são os eixos estruturadores do mundo moderno e em que consistia o projeto civilizatório da modernidade. Por extensão, é preciso compreender como a escola constituiu-se como elemento importante desse projeto, qual era a sua promessa e que implicações isso teve na formação dos trabalhadores da educação.
Na tentativa de trazer alguns elementos para a reflexão a esse respeito, este texto tem o propósito de responder o mais didaticamente possível a quatro questões: 1) O que é o mundo moderno?; 2) Em que consistia o projeto civilizatório da modernidade?; 3) Qual era a tarefa esperada da educação e como a escola se constituiu numa instituição central na modernidade?; 4) O que significa formar professores para atuar nessa instituição?
1.1 O MUNDO MODERNO
Desde quando ingressamos na escola, começamos a familiarizarmo-nos com uma terminologia recorrente nos livros de História que consiste em dividir o tempo, numa dimensão linear, em Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. A despeito de revisões recentes, que consistiram em questionar uma datação precisa na demarcação entre uma época e outra, é inegável que ainda é recorrente a ideia de que a Idade Moderna é o período histórico que se situa entre os séculos XV e XVIII.
Mas o que é esse mundo moderno, que não pode ser confundido com a Idade Moderna? Dada a vastíssima bibliografia a esse respeito e reconhecido o amplo leque de análises possíveis,⁷ vou limitar-me ao apontamento de duas chaves de leitura, uma que se refere a recortes temporais e outra que se refere a categorias de análise. Qualquer que for o ponto de partida para a análise da modernidade, contudo, é preciso considerar pelo menos três dos seus elementos constitutivos: 1) sua incessante dimensão inovadora, com elevado poder de influenciar a vida das pessoas; 2) o prolongamento dessa novidade no tempo; 3) a capacidade de expandir-se para além do local de origem da inovação. Visto por essa perspectiva, tanto podemos incluir no mundo moderno os dois séculos subsequentes, conforme Marshall Berman,⁸ quanto retroceder até o século XIII, como fez Henrique de Lima Vaz,⁹ ao aportar as origens da modernidade nas tensões características do nascimento da instituição universitária.
Primeiramente, vejamos como Berman tratou da questão, em livro que exerceu forte influência nas análises recentes sobre a modernidade. A despeito de a palavra moderno
, como sinônimo de novidade, ter aparecido no nosso vocabulário nos primórdios do cristianismo,¹⁰ somente a partir do século XV essa novidade foi significativa a ponto de caracterizar uma Era. E foi, de fato, o conjunto das transformações ocorridas na Europa nos séculos seguintes (Renascimento, Reforma, Racionalismo, Cientificismo, Expansionismo, Colonialismo, Revoluções Burguesas, Iluminismo) que levou historiadores a identificarem o período que vai do século XV ao XVIII como Idade Moderna. Para dizer o mínimo, trata-se de uma época em que se realizou a transição do modo de produção feudal para o modo de produção capitalista, o que não é pouca coisa.
Mas é claro que o mundo moderno não se confunde com a Idade Moderna. Esse período é efetivamente caracterizado por extraordinária inovação, em todas as esferas da realidade, o que põe o mundo de ponta-cabeça
, para usar a expressão de Christopher Hill, na leitura que fez sobre a Inglaterra de meados do século XVII.¹¹ Segundo Berman, contudo, trata-se de um período que constitui apenas a primeira fase da era moderna.
Na primeira fase, do início do século XVI até o fim do século XVIII, as pessoas estão apenas começando a experimentar a vida moderna; mal fazem ideia do que as atingiu. Elas tateiam, desesperadamente mas em estado de semicegueira, no encalço de um vocabulário adequado; têm pouco ou nenhum senso de um público ou comunidade moderna, dentro da qual seus julgamentos e esperanças pudessem ser compartilhados.¹²
Ao dar voz aos autores que leram, ao seu tempo, essa realidade em transformação, Berman realiza uma exaustiva leitura do Fausto, de Goethe, que expressa e dramatiza o processo pelo qual, no fim do século XVIII e início do seguinte, um sistema mundial especificamente moderno vem à luz
.¹³ Mas a quem ele atribui os créditos por ser a principal pessoa a dar-se conta da dimensão explosiva dessas transformações revolucionárias da primeira fase da modernidade é Jean-Jacques Rousseau, o primeiro, segundo ele, a utilizar a palavra moderniste no sentido em que ela tornou-se corrente nos séculos XIX e XX.
É justamente no século XIX que Berman situa a segunda fase da modernidade. E a modernidade é, para ele, o conjunto das experiências vitais – experiência de tempo e espaço, de si mesmo e dos outros, das possibilidades e perigos da vida
– compartilhadas por homens e mulheres em todo o mundo, hoje. Mesmo que esse hoje
possa ser lido como a época em que Rousseau falou do turbilhão social
, ou de quando Marx escreveu que tudo que é sólido desmancha no ar
, ou de quando Berman escreveu o livro, e que nem todos os autores compartilhem do entendimento da modernidade à maneira de Berman, não há dúvida de que um dos elementos centrais da era moderna, sobretudo no século XIX, é a dimensão da contradição, da ambiguidade, do paradoxo e da angústia. Ela é promessa, projeto e utopia; mas ela é, também, vicissitude, embotamento e entropia, sobretudo quando avançamos para o século XX, a terceira fase da modernidade, segundo Berman. E é nesse contexto que é necessário ler as promessas e os limites da educação e da escola.
Essa segunda fase da modernidade identificada por Berman começa com a onda revolucionária do final do século XVIII e atravessa todo o século seguinte. A Inglaterra, que já havia realizado uma revolução no campo político ao final do século XVII, marcou a história econômica com o conjunto de transformações que ficaram conhecidas como Revolução Industrial. A França, que havia sido o palco da mais conhecida das Revoluções Burguesas, a de 1789-1798, torna-se novamente o cenário de grandes movimentos revolucionários, como em 1830, 1848 e 1871. Nessa segunda fase, em especial a partir da segunda metade do século, a modernidade manifesta-se de modo radicalmente distinto em relação ao que havia caracterizado a primeira fase da era moderna.
Com a Revolução Francesa, e suas reverberações, ganha vida, de maneira abrupta e dramática, um grande e moderno público. Esse público partilha o sentimento de viver em uma era revolucionária, uma era que desencadeia explosivas convulsões em todos os níveis de vida pessoal, social e política. Ao mesmo tempo, o público moderno do século XIX ainda se lembra do que é viver, material e espiritualmente, em um mundo que não chega a ser moderno por inteiro. É dessa profunda dicotomia, dessa sensação de viver em dois mundos simultaneamente, que emerge e se desdobra a ideia de modernismo e
