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O O Homem do Castelo Alto
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O O Homem do Castelo Alto
E-book410 páginas7 horas

O O Homem do Castelo Alto

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Sobre este e-book

«O escritor de ficção científica mais consistente do mundo.»
[John Brunner]

«Um dos genuínos visionários que a ficção norteamericana produziu.»
 [L.A. Weekly]

«Philip K. Dick vê e abraça as possibilidades aterradoras de que os outros autores fogem.» 
[Paul Williams, Rolling Stone]

América, quinze anos após o final da Segunda Grande Guerra. As potências vencedoras dividiram as suas conquistas: os nazis controlam Nova Iorque e a Califórnia é controlada por Japoneses.
Mas entre estes dois estados confrontados numa guerra fria existe uma zona neutra onde, dizem os rumores, reside o lendário autor Hawthorne Abendsen, que receia pela sua vida, pois escreveu em tempos um livro no qual os aliados venceram a  Segunda Grande Guerra.
IdiomaPortuguês
EditoraRelógio D'Água Editores
Data de lançamento7 de fev. de 2025
ISBN9789897835445
O O Homem do Castelo Alto

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    O O Homem do Castelo Alto - Philip K. Dick

    AGRADECIMENTOS

    A versão do I Ching ou Book of Changes [Livro das Mudanças] usada e citada neste romance é de Richard Wilhelm, traduzida para o inglês por Cary F. Baynes e publicada por Pantheon Books, Série Bollingen XIX, 1950, pela Bollingen Foundation Inc., Nova Iorque.

    O haiku¹ é de Yosa Buson, traduzido por Harold G. Henderson, a partir da Anthology of Japanese Literature [Antologia de Literatura Japonesa], Volume Um, compilada e editada por Donald Keene, Grove Press, 1955, Nova Iorque.

    O waka² é da autoria de Chiyo, traduzido por Daisetz T. Suzuki, a partir de Zen and Japanese Culture [Cultura Zen e Cultura Japonesa], do mesmo Autor, publicada por Pantheon Books, na Série Bollingen LXIV, 1959, da Bollingen Foundation Inc., Nova Iorque.

    Fiz bastante uso de The Rise and Fall of the Third Reich, A History of Nazi Germany [Ascensão e Queda do Terceiro Reich, Uma História da Alemanha Nazi], da autoria de William L. Shirer, Simon & Schuster, 1960, Nova Iorque; Hitler, a Study in Tyranny [Hitler, Um Estudo sobre Tirania], da autoria de Alan Bullock, Harper, 1953, Nova Iorque; The Goebbels Diaries, 1942-1943 [Os Diários de Goebbels, 1942-43], editados e traduzidos por Louis P. Lochner, Doubleday & Company Inc., 1948, Nova Iorque; The Tibetan Book of the Dead [O Livro Tibetano da Morte], compilado e editado por W. Y. Evans-Wentz, Oxford University Press, 1960, Nova Iorque; The Foxes of the Desert [As Raposas do Deserto], da autoria de Paul Carell, E. P. Dutton & Company Inc., 1961, Nova Iorque. E devo agradecimentos pessoais ao eminente escritor ocidental Will Cook, pela sua ajuda em termos de material ligado a artefactos históricos e do Período Fronteiriço dos Estados Unidos.

    1 Pequeno poema japonês típico, de extensão extremamente reduzida.

    2 Outra forma de poema curto, tipicamente japonesa.

    CAPÍTULO I

    Há uma semana que Mr. R. Childan andava a vigiar ansiosamente o correio. Mas a valiosa encomenda dos Estados das Montanhas Rochosas ainda não chegara. Ao abrir o seu estabelecimento na sexta-feira de manhã e vendo apenas cartas no chão, diante da fenda do correio, pensou: O meu cliente vai ficar zangado.

    Após ter-se servido de uma chávena de chá instantâneo, da máquina de parede de cinco cêntimos, foi buscar uma vassoura e pôs-se a varrer. Em breve tinha a frontaria da American Artistic Handcrafts Inc. preparada para o dia de trabalho, tudo a brilhar, a caixa registadora abastecida de trocos, uma jarra com malmequeres frescos e o rádio a tocar música de fundo. Lá fora, homens de negócios apressavam-se ao longo do passeio, dirigindo-se para os seus escritórios da Montgomery Street. Um carro por cabo passava à distância; Childan deteve-se para o observar com prazer. Mulheres, com os seus longos vestidos de seda coloridos… também as contemplou. Foi então que o telefone tocou. Voltou-se para o atender.

    — Sim — disse uma voz conhecida, ao escutar a sua resposta. O coração de Childan estacou. — Daqui fala Mr. Tagomi. O meu cartaz de recrutamento da Guerra Civil já chegou? Lembre-se, por favor, que mo prometeu para a semana passada. — A voz do homem soava rebuscada, impositiva, dificilmente polida, a custo cumprindo as normas. — Cheguei a entregar-lhe um depósito juntamente com a encomenda, Mr. Childan? Isto destina-se a uma oferta, sabe? Eu expliquei-lho. É para um cliente.

    — As buscas dispendiosas que tive de efetuar à minha custa, Mr. Tagomi, relativamente à encomenda prometida — principiou Childan a justificar-se — as quais, como compreenderá, tiveram de decorrer fora desta região e que, por conseguinte…

    Mas o outro interrompeu-o:

    — Quer isso dizer que ainda não chegou.

    — Pois não, Mr. Tagomi.

    Uma pausa gelada.

    — Não posso esperar mais — disse Tagomi.

    — Com certeza que não, meu caro senhor.

    Olhou morosamente através da montra da loja, para o morno dia brilhante e para os prédios de escritórios de São Francisco.

    — Nesse caso, algo em substituição. Que é que me recomenda, Mr. Childan?

    Tagomi pronunciou deliberadamente mal o nome, insulto dentro das normas que pôs as orelhas de Childan a arder. Ossos do ofício, o penoso martírio da sua situação. As aspirações, receios e tormentos de Robert Childan vieram à superfície, engolfaram-no e travaram-lhe a língua. Balbuciou qualquer coisa, a mão pegajosa a segurar o aparelho. A atmosfera do seu estabelecimento cheirava a malmequeres; a música continuava a tocar, mas ele sentia-se como se estivesse a afundar-se num mar distante.

    — Bem… — conseguiu resmonear. — Um batedor de manteiga. Uma máquina de fazer gelados, mais ou menos de 1900. — A sua mente recusava-se a raciocinar. E fora logo falhar nesse preciso momento, fazer figura de parvo! Tinha trinta e oito anos de idade e conseguia lembrar-se dos dias anteriores à guerra, de outros tempos. Franklin D. Roosevelt e a Feira Mundial, o antigo mundo melhor. — Permite que lhe leve diversos artigos interessantes ao seu local de trabalho? — indagou a custo.

    Foi marcada entrevista para as duas da tarde. Ia ser obrigado a fechar a loja, pensara, ao desligar o telefone. Não lhe restava outra hipótese. Tinha de conservar a boa vontade desse género de clientes; o negócio dependia deles.

    Ali de pé, a tremer, deu-se conta de que alguém, um casal, havia entrado no estabelecimento. Um jovem e uma rapariga, ambos elegantes, bem vestidos. O ideal. Acalmou-se e movi­men­tou-se na direção deles, de um modo profissional e descontraído e todo sorridente. Tinham-se curvado, a escrutinar um expositor do balcão, escolhendo um cinzeiro encantador. Casados, calculou. Moradores na Cidade da Neblina Serpenteante, os novos apartamentos muito exclusivos da Linha do Céu, sobranceiros a Belmont.

    — Bons dias — cumprimentou, sentindo-se logo melhor.

    Eles sorriram-lhe sem quaisquer indícios de superioridade, apenas gentileza. A sua exposição, que era de facto a melhor de toda a costa, havia-os deslumbrado um pouco; reparou nisso e sentiu-se gratificado. Eles eram entendidos.

    — Uns artigos realmente excelentes, meu caro senhor — comentou o jovem.

    Childan fez espontaneamente uma vénia.

    Os olhos do casal, calorosos não apenas por uma questão de humanidade, mas por puro entusiasmo perante os objetos de arte que ele vendia, pelos seus gostos e preferências mútuos, permaneciam fixos nele. Estavam a agradecer-lhe por ter coisas como aquelas para eles verem, escolherem e examinarem, manusearem, talvez, sem sequer as adquirirem. Sim, pensou, eles sabem o género de estabelecimento em que entraram. Isto não é lixo para turistas, placas de pau-brasil dizendo: Muir Woods, Marin County, PSA, cartazes cómicos, anéis efeminados ou postais com vistas da ponte. Os olhos da rapariga, em especial, grandes, escuros. Com que facilidade, pensou Childan, eu poderia apaixonar-me por uma rapariga como esta. Que tragédia não seria então a minha vida, como se já não fosse suficientemente má. O cabelo negro bem penteado, as unhas envernizadas, as orelhas furadas para usar os longos brincos de latão pendentes, fabricados à mão.

    — Os seus brincos — murmurou. — Talvez tivessem sido comprados aqui?

    — Não — respondeu ela. — Na minha terra.

    Childan acenou em compreensão. Nada de arte contemporânea americana; apenas o passado podia estar ali representado, num estabelecimento como o seu.

    — Já cá estão há muito tempo? — perguntou. — Na nossa São Francisco?

    — Estou aqui colocado por período indefinido — disse o homem. — Na Comissão de Inquérito para o Planeamento do Padrão de Vida em Áreas Desprivilegiadas.

    O orgulho revelava-se-lhe no rosto. Não era um militar. Nenhum desses rústicos mascadores de pastilha elástica em comissão de serviço, com as suas gordurosas caras de campónios, a vaguear pela Market Street, de boca aberta perante os espetáculos libertinos, os filmes de sexo, as galerias de tiro, os clubes noturnos baratos, com fotografias de loiras de meia-idade, a segurar os mamilos por entre dedos cheios de rugas, com um ar lúbrico… as barulhentas espeluncas de jazz, que cobriam a maior parte da área plana de São Francisco, pardieiros arruinados de lata e madeira, que tinham nascido das ruínas, ainda antes do impacto da última bomba. Não… este homem pertencia à elite. Culto, educado, mesmo mais que Mr. Tagomi, o qual era, afinal, um oficial de elevada patente da Missão Comercial da Costa do Pacífico. Tagomi era um velho. A sua formação vinha dos tempos do Gabinete de Guerra.

    — Desejam objetos de arte étnica tradicional americana para oferecer? — indagou Childan. — Ou talvez para decorar um novo apartamento, destinado à vossa estada nesta cidade?

    A verificar-se a última hipótese… o seu coração já escolhera.

    — Calculou acertadamente — disse a rapariga. — Estamos a iniciar a decoração. Um tanto indecisos. Acha que nos poderia dar informações sobre o assunto?

    — Sim, creio que poderia deslocar-me ao vosso apartamento — anuiu Childan. — Com diversas caixas de objetos, que posso sugerir para vosso prazer. É essa, naturalmente, a nossa especialidade. — Baixou o olhar, no intuito de ocultar as suas esperanças. O negócio poderia envolver milhares de dólares. — Vou arranjar-vos uma mesa da Nova Inglaterra, em carvalho, toda montada por meio de cavilhas de madeira, nada de pregos. Imensa beleza e valor. E um espelho da época da Guerra de 1812. Igualmente exemplares de arte aborígene: um conjunto de tapetes de pelo de cabra com tinta vegetal.

    — Pessoalmente, prefiro a arte urbana — disse o homem.

    — Sim — retorquiu avidamente Childan. — Escute, senhor. Tenho um mural do período pós-escritórios WPA, original, fabricado em madeira, com quatro secções, retratando Horace Greeley. Uma peça inestimável de colecionador.

    — Ah! — exclamou o homem, os olhos escuros a faiscar.

    — E um armário Vitrola, de 1920, transformado em bar.

    — Ah!

    — E, escute bem, meu caro senhor: um retrato autografado encaixilhado da Jean Harlow.

    O homem arregalou os olhos para ele.

    — Querem que tome as disposições necessárias? — indagou Childan, aproveitando o momento psicológico correto. Tirou a caneta e o bloco de notas do bolso interior do casaco. — Vou tomar nota dos vossos nomes e endereço, cavalheiro e senhora.

    Posteriormente, quando o casal saiu do estabelecimento, Childan ficou ali de pé, as mãos atrás das costas, a observar a rua. Uma alegria. Se todos os dias de trabalho fossem como aquele… mas tratava-se de mais que negócio, era o sucesso da sua loja. A oportunidade de conhecer socialmente um jovem casal japonês, que o aceitasse como um homem em vez de um yank³ ou, na melhor das hipóteses, um comerciante que vendia objetos de arte. Sim, esta nova gente jovem, esta geração em desenvolvimento que não se recordava dos tempos anteriores à guerra, ou mesmo da guerra propriamente dita… constituía a esperança do mundo. As diferenças geográficas não tinham significado para eles.

    Tudo terminaria, pensava Childan. Um dia. A própria ideia de diferenciação geográfica. Nada de governados e governantes, simplesmente pessoas.

    E, contudo, tremia de medo ao imaginar-se a bater-lhes à porta. Examinou as suas notas. Os Kasouras. Iria ser mandado entrar, sem dúvida lhe ofereceriam chá. Conseguiria comportar-se como devia ser? Ter a noção do ato e linguagem apropriados a cada momento? Ou iria desgraçar-se, como um animal, por cometer algum desapontador faux pas?

    A rapariga chama-se Betty. Tanta compreensão no rosto dela, recordou, nos seus olhos gentis e simpáticos. De certeza que, mesmo no reduzido lapso de tempo passado no estabelecimento, ela se apercebera das suas esperanças e derrotas.

    As suas esperanças… sentiu-se de súbito tonto. Que aspirações, a raiar a loucura ou o suicídio, é que ele alimentava? Mas era conhecido o género de relações existente entre Japoneses e Yanks, ainda que geralmente ocorressem entre um homem japonês e uma mulher yank. Isso… recuou perante a ideia. Ela era casada. Apagou da mente o fausto dos seus pensamentos involuntários e principiou a abrir afanosamente o correio daquela manhã.

    As suas mãos, conforme descobriu, continuavam trémulas. Lembrou-se então da sua entrevista, às duas da tarde, com Mr. Tagomi. Perante esse pensamento, as mãos deixaram de lhe tremer e o seu nervosismo transformou-se em determinação. Tenho de arranjar qualquer coisa que seja aceitável, disse para si mesmo. Onde? Como? O quê? Um telefonema. Fontes. Capacidade negocial. Desencantar um Ford de 1929, inteiramente restaurado, incluindo o tecido da capota (negro). Seria meter uma lança em África, no sentido de conservar para sempre o patrocínio. Embalar um original de avião do correio aéreo, descoberto num celeiro do Alabama, etc. Apresentar a cabeça mumificada de Mr. B. Bill, incluindo o cabelo branco esvoaçante; tratava-se de um sensacional artefacto americano. Difundir a minha reputação nos círculos de conhecedores de todo o Pacífico, sem excluir as Ilhas.

    Para se inspirar, acendeu um cigarro de marijuana, da excelente marca Land-O-Smiles.

    *

    No seu quarto da Hayes Street, Frank Frink estava estendido na cama, a interrogar-se como havia de se pôr a pé. O sol brilhava através da persiana, sobre o monte de roupas que haviam caído ao chão. Os seus óculos também. Iria pisá-los? Tenta alcançar a casa de banho por outra rota, recomendou a si mesmo. Arrasta-te ou rola. Doía-lhe a cabeça, mas não se sentia triste. Nunca olhes para trás, decidiu. As horas? O relógio está em cima da cómoda. Onze e trinta! Que chatice! Mas continuou, mesmo assim, deitado.

    Fui despedido, concluiu.

    Portara-se mal na fábrica, no dia anterior. Saíra-se com uma conversa que não convinha, para Mr. Wyndam-Matson, o qual possuía uma cara em formato de prato e nariz tipo Sócrates, bem como um anel de diamantes e fecho de correr dourado. Por outras palavras, um potentado. Um trono. Os pensamentos de Frink erravam como os de um ébrio.

    Sim, dizia para si mesmo, ele agora vai incluir-me na lista negra; a minha capacidade não serve de nada… estou sem trabalho. Quinze anos de experiência. Desfeitos.

    E iria ver-se obrigado a comparecer perante a Comissão de Justificação Laboral, para se submeter a uma revisão da sua categoria profissional. Uma vez que nunca fora capaz de entender o relacionamento de Wyndam-Matson com os paus-mandados (o Governo-Fantoche de brancos, instalado em Sacramento) não lhe era possível avaliar as possibilidades que o seu ex-patrão teria de influenciar as autênticas autoridades, os Japoneses. A C. J. L. também era terreno dos paus-mandados. Enfrentaria quatro ou cinco caras rechonchudas de brancos, às ordens de Wyndam-Matson. Se não conseguisse justi­ficar-se perante eles, dirigir-se-ia a uma das Missões Comerciais de Import-Export que operavam fora de Tóquio e tinham escritórios abertos por toda a Califórnia, Oregon, Washington e partes do Nevada incluídas nos Estados Americanos do Pacífico. Mas, se também aí não conseguisse ter êxito…

    Passavam-lhe planos pela cabeça, enquanto se conservava estendido na cama, a fixar a antiquada tomada de iluminação existente no teto. Poderia, por exemplo, esgueirar-se para os Estados das Montanhas Rochosas. Mas esses estavam muito ligados aos E. A. P. e talvez o extraditassem. E o Sul? O corpo encolheu-se-lhe. Hum. Isso não. Na sua qualidade de homem branco, haveria muitos lugares para onde ir, na verdade mais do que tivera ali, nos E. A. P. Só que… não desejava esse género de colocações.

    O que era pior, o Sul possuía uma grande rede de laços económicos, ideológicos e só Deus sabia que mais, com o Reich. E Frank era judeu.

    O seu nome verdadeiro era Frank Frink. Nascera na Costa Leste, em Nova Iorque e, em 1941, fora recrutado para o Exército dos Estados Unidos da América, logo a seguir ao colapso da Rússia. Fora enviado para a Costa Ocidental, depois de os Japoneses terem tomado o Havai. Era onde se encontrava quando a guerra terminara, do lado japonês da linha de divisão acordada. E aí se conservava ainda hoje em dia, quinze anos mais tarde.

    Em 1947, no Dia da Rendição, quase dera em doido. Detestando os Japoneses como detestava, tinha jurado vingança. Enterrara o seu armamento pessoal numa cave, sob dez pés de terra, bem embrulhado e oleado, para o dia em que ele e os seus companheiros se revoltassem. O tempo era, porém, um grande remédio, facto que não tomara então em consideração. Ao voltar agora a pensar nessa sua ideia, no grande banho de sangue, na purga dos paus-mandados e seus patrões, era como se estivesse a reler um desses livros de curso, já manchados, dos seus tempos de escola, tendo-se-lhe deparado um relato das suas aspirações de rapaz. Frank Peixinho-Dourado Frink vai dedicar-se à Paleontologia e tenciona casar com Norma Prout. Era a schönes Mädchen do curso, e ele tencionara de facto desposá-la. Isso passara-se há uma quantidade de tempo, na época em que se ouvia Fred Allen, ou se viam filmes de W. C. Fields. Desde 1947 que já vira ou falara com uns seis mil japoneses, e os seus desejos de violência para com alguns ou todos eles nunca se haviam pura e simplesmente materializado, após os primeiros meses. Haviam meramente deixado de ser relevantes.

    Mas espera aí. Havia um deles, um tal Mr. Omuro, que adquirira o controlo de uma extensa área de imóveis para arrendamento, no centro de São Francisco, e que, durante uns tempos, fora senhorio de Frank. Aí estava uma maçã podre, refletiu. Um tubarão que nunca fizera reparações, que construíra paredes em quartos a fim de os tornar cada vez mais pequenos, que elevara as rendas… Omuro explorara os pobres, em especial os ex-militares, quase incapacitados de arranjar emprego durante o período de depressão do início dos anos cinquenta. No entanto, fora uma das Missões Comerciais japonesas que lhe cortara as pernas, por especulação. E, atualmente, semelhante violação do severo, rígido, mas justo código civil japonês seria inaudita. Isso constituía um crédito para a incorruptibilidade dos oficiais de ocupação deles, especialmente os que tinham vindo para ali depois da queda do Gabinete de Guerra.

    Recordando-se da inflexível e estoica honestidade das Missões Comerciais, Frink sentiu-se mais tranquilo. Até Wyndam-Matson seria sacudido como uma mosca barulhenta, fosse ou não o dono da W.-M. Corporation. Pelo menos, ele assim o esperava. Acho que tenho mesmo fé nessas tretas da Aliança do Pacífico para a Prosperidade Mútua, disse para si mesmo. Era estranho. Pôs-se a rememorar os primeiros tempos… parecera-lhe, nessa altura, uma aldrabice tão óbvia. Propaganda oca. Mas atualmente…

    Levantou-se da cama e abriu caminho, cambaleando, para a casa de banho. Enquanto se lavava e barbeava, escutou na rádio o noti­ciário do meio-dia.

    Não ridicularizemos este esforço, estava a rádio a dizer, quando ele fechou momentaneamente a torneira da água quente.

    Não, não o faremos, pensou amargamente Frink. Sabia a que esforço em particular se estavam a referir. No entanto, havia afinal algo de humorístico naquilo, na imagem de estólidos e mal-humorados alemães a caminharem em Marte, sobre as areias vermelhas, onde nunca os seres humanos tinham anteriormente posto o pé. Enquanto ensaboava a cara, começou a entoar para si próprio uma canção satírica. Gott, Herr Kreisleiter. Ist dies vielleicht der Ort wo man das Konzentrationslager bilden kann? Das Wetter ist so schön. Heiss, aber doch schön…

    A rádio dizia: A Civilização da Prosperidade Mútua devia fazer uma pausa para refletir se, nos nossos esforços para proporcionar uma equidade equilibrada por deveres e responsabilidades mútuas, aliados a remunerações… Paleio típico da hierarquia governante, reparou ele.… nós não teremos deixado de nos aperceber do futuro palco, no qual os assuntos do Homem serão encenados, quer estejam em causa os Nórdicos, os Japoneses, os Negroides… E assim sucessivamente.

    Enquanto se vestia, debitava prazenteiramente a sua sátira. O tempo está schön, tão schön. Só que não temos nada para respirar…

    Contudo, era um facto. O Pacífico nada fizera no sentido da colonização de outros planetas. Estava envolvido (ou melhor, submerso) na América do Sul. Enquanto os Alemães andavam atarefados a manobrar enormes sistemas de construção robotizados através do espaço, os Japoneses ainda se dedicavam a queimar as selvas do interior do Brasil, a construir em barro prédios de apartamentos de oito andares, destinados aos ex-caçadores de cabeças. Na altura em que eles fizessem elevar do solo a sua primeira nave espacial, já os Alemães teriam todo o sistema solar na mão. Reportando-se aos velhos e fantásticos tempos, descritos nos livros de história, os Alemães haviam ficado para trás, enquanto o resto da Europa dava os retoques finais nos seus impérios coloniais. Porém, refletiu Frink, não iriam desta vez classificar-se em último lugar; tinham aprendido a lição.

    E lembrou-se então de África e das experiências nazis lá efetuadas. O sangue parou-lhe nas veias, hesitou e acabou por prosseguir o seu curso.

    Essa enorme ruína vazia.

    A rádio dizia:… temos, contudo, de tomar orgulhosamente em consideração a ênfase que pusemos nas necessidades físicas fundamentais das pessoas de todas as áreas, nas suas aspirações subespirituais, que devem ser…

    Frink desligou o aparelho. Depois, mais calmo, voltou a ligá-lo.

    Santo Cristo!, exclamou mentalmente. A África. Para os fantasmas das tribos mortas. Varridas, a fim de se construir um país de… de quê? Quem o poderia saber? Talvez até os mestres arquitetos de Berlim o ignorassem. Uma caterva de autómatos, a construírem, a labutarem. A construírem? A derrubarem. Ogres saídos de uma exposição paleontológica, no ato de fazerem uma malga de uma caveira do inimigo, tendo-lhe a família inteira raspado primeiro o con­teúdo, o cérebro cru, para depois o comerem. A seguir, utensílios fabricados de ossos de pernas humanas. Era económico, isso de terem pensado não só em comer as pessoas de quem não gostavam, como também em comê-las nos seus próprios crânios. Os primeiros tecnicistas! O homem pré-histórico, vestindo uma estéril bata branca, num qualquer laboratório de uma universidade em Berlim, procedendo a experiências quanto ao uso a dar aos crânios, pele, orelhas, gordura de outras pessoas. Ja, Herr Doktor. Uma nova utilidade para o dedo grande do pé. Vê, pode adaptar-se a articulação para servir de mecanismo de ativação rápida de um isqueiro. Agora, se Herr Krupp os puder produzir em quantidade…

    Sentiu-se horrorizado ao ocorrer-lhe aquela ideia. O antigo gigante quase homem a florescer na atualidade, governando mais uma vez o mundo. Passámos uns milhões de anos a fugir-lhe, pensou, mas eis que está de volta. E não meramente como adversário… antes como mestre.

    podemos deplorar, estava a dizer a rádio, a voz dos barriguinhas amarelas de Tóquio. Meu Deus, pensou Frink, e chamávamos-lhes nós macacos, a esses camarões civilizados de pernas tortas, tão capazes de montar fogões a gás, como de derreter as suas esposas para as transformar em lacre!… e temos deplorado, com frequência no passado, o pavoroso desperdício de seres humanos, nesses fanáticos esforços, que colocam a mais ampla massa de homens totalmente fora da comunidade legal. Eles, os Japoneses, estavam tão enganados em termos de lei… Para citar um santo ocidental de todos conhecido: «Que lucra um homem, se ganhar o mundo inteiro, mas, nesse empreendimento, perder a sua alma?» A rádio fez uma pausa. Frink, que estava a fazer o nó da gravata, também se deteve. Era a ablução da manhã.

    Tenho de estabelecer o meu pacto com eles, compreendeu. Incluí­do ou não na lista negra. Seria a morte para mim, no caso de abandonar o território controlado pelos Japoneses e aparecer no Sul ou na Europa… em qualquer parte do Reich.

    Tenho de chegar a um acordo com o velho Wyndam-Matson.

    Sentado na cama, com uma chávena de chá morno a seu lado, abriu o seu exemplar do I Ching. Tirou do tubo de couro os quarenta e nove pauzinhos de milefólio. Pôs-se a meditar, até ter os seus pensamentos devidamente sob controlo e as suas questões formuladas.

    Em voz alta, disse:

    — Como é que devo abordar o Wyndam-Matson, no sentido de me pôr de bem com ele?

    Escreveu a pergunta no quadro e começou depois a passar os pauzinhos de uma mão para a outra, até ter a primeira linha, o princípio. Um Oito. Metade dos sessenta e quatro hexagramas já eliminados. Dividiu os pauzinhos e obteve a segunda linha. Em breve, sendo tão habilidoso como era, já estava de posse de todas as seis linhas; o hexagrama estendia-se diante de si, e não necessitou de o identificar pela carta. Reconhecia-o como sendo o hexagrama Quinze. Ch’ien. Modéstia. Ah! Os baixos elevar-se-ão, os altos serão rebaixados, as famílias poderosas serão humilhadas; não precisou de se reportar ao texto… sabia-o de cor. Um bom presságio. O oráculo dera-lhe uma previsão favorável.

    E, no entanto, continuava um tanto desapontado. Havia algo de fátuo no hexagrama Quinze. Excessivamente bonzinho. Naturalmente, ele devia ser modesto. Mas talvez houvesse nisso algum conteúdo. Afinal, ele não detinha quaisquer poderes sobre o velho W.-M. Não o podia forçar a admiti-lo de novo. Tudo o que lhe restava era adotar o ponto de vista do hexagrama Quinze; tratava-se do género de momento em que uma pessoa tinha de implorar, ter esperança e aguardar com fé. O Céu em devido tempo o elevaria ao seu antigo emprego, ou talvez a algo de melhor ainda.

    Não tinha um texto para ler, nem Noves ou Seis; era uma situação estática. O que queria dizer que tinha terminado. Não dava acesso a um segundo hexagrama.

    Pois então, nova pergunta. Concentrando-se, proferiu em voz alta:

    — Algum dia voltarei a ver a Juliana?

    Era a sua esposa. Ou antes, a ex-esposa. Divorciara-se dele há um ano, e há meses que a não via. Na realidade, nem sequer sabia onde é que morava. Era evidente que saíra de São Francisco. Talvez até mesmo dos E. A. P. Ou os amigos mútuos não tinham tido notícias dela, ou então não lhe queriam dizer nada.

    Manobrou afanosamente os pauzinhos de milefólio, com os olhos fixos nas marcas. Quantas vezes não fizera uma ou outra pergunta sobre Juliana? Lá estava o hexagrama, determinado pela mudança passiva e ocasional de posicionamento das hastas vegetais. Ao acaso, mas baseada porém no momento que vivia, momento esse em que a sua vida estava vinculada a todas as outras vidas e partículas do Universo. Surgiu o necessário hexagrama, configurando ou não, no seu padrão de linhas quebradas, a situação. Ele, Juliana, a fábrica da Gough Street, as Missões Comerciais que mandavam, a exploração dos planetas, os milhares de destroços químicos de África, que nem cadáveres eram já, as aspirações de milhares de pessoas que o rodeavam, instaladas nos viveiros de barracas de São Francisco, as loucas criaturas de Berlim, com os seus rostos calmos e planos maniqueístas… tudo interligado naquele momento do lançamento dos pauzinhos de milefólio, para selecionar a exata pérola de sabedoria aplicável, num livro iniciado no século xxx a. C. Uma obra criada pelos sábios da China, no decorrer de um período de cinco mil anos, que joeirava, aperfeiçoava essa soberba cosmologia (e ciência), codificada ainda antes que a Europa aprendesse a fazer contas de dividir das

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