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Cenas da História, Rastros da Literatura: – Testemunho do Genocídio Indígena em "O Sonho do Celta", de Mário Vargas Llosa
Cenas da História, Rastros da Literatura: – Testemunho do Genocídio Indígena em "O Sonho do Celta", de Mário Vargas Llosa
Cenas da História, Rastros da Literatura: – Testemunho do Genocídio Indígena em "O Sonho do Celta", de Mário Vargas Llosa
E-book229 páginas2 horas

Cenas da História, Rastros da Literatura: – Testemunho do Genocídio Indígena em "O Sonho do Celta", de Mário Vargas Llosa

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Sobre este e-book

A obra visa discutir as atrocidades do colonialismo, sobretudo aquelas praticadas contra os indígenas, que ainda hoje carregam, em suas memórias, uma ferida de difícil cicatrização e resistem, ética, estética e culturalmente ao império cognitivo da homogeneização de suas cosmologias e cosmogonias. Essas questões se apresentam nesta obra já no título/tema: "Cenas da História, Rastros da Literatura – Testemunho do Genocídio Indígena em "O Sonho do Celta", de Mário Vargas Llosa". A obra traz questionamentos como: quais os impactos e as especificidades da exploração indígena dentro dos seringais pan/amazônicos no período áureo do ciclo da borracha? Para tanto, abordam-se assuntos como a exploração do índio no contexto pan/amazônico, o tempo das correrias indígenas, as conexões da ficção com a Antropologia e as atrocidades do colonialismo eurocêntrico. As cenas da história e os rastros da literatura configurados no universo romanesco do Sonho do Celta inscrevem modos, práticas, discursos e mobilidades que questionam a força da letra, olhar e imaginário etnocêntrico. Nesta interpelação da espessura das humanidades, linguagens e culturas da Amazônia e Congo, a memória, alteridade e epistemologia dos indígenas são figuradas na encruzilhada da História, Literatura e Antropologia, relendo e reescrevendo as feridas, os rastos e as cenas de corpos, vozes e saberes em trânsito por fronteiras móveis do pensamento.
IdiomaPortuguês
EditoraEditora Dialética
Data de lançamento28 de abr. de 2025
ISBN9786527051435
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    Cenas da História, Rastros da Literatura - Josileide de Matos Gomes

    CAPÍTULO I: NARRAR UM LEGADO – RELATOS DO GENOCÍDIO INDÍGENA NO CONTEXTO PAN/AMAZÔNICO

    Este capítulo abordará, no primeiro momento, o tema das correrias indígenas e o legado deixado por essa prática sanguinária dentro dos seringais pan/amazônicos. A invasão dos seringais, a captura de índios, a matança impiedosa e a exploração de mulheres e crianças foram algumas das ações cometidas pelo colonizador que passaram historicamente por um longo processo de silenciamento. No segundo momento, versará sobre o genocídio indígena na Amazônia Peruana. A narrativa traz com veemência os horrores praticados contra os índios daquela região.

    Tanto no Acre, como na região de Putumayo, no Peru, eles eram obrigados a realizar um trabalho exorbitante, desumano e cruel para entregar as cotas de peles de borracha exigidas. Era um trabalho além da escravidão. E, quando não conseguiam entregar as cotas exigidas, eram punidos com os castigos mais inimagináveis possíveis, desde chicotadas, mutilações, estupros de suas esposas e filhas, até a morte.

    No romance O sonho do Celta, objeto dessa pesquisa, Vargas Llosa, por meio de uma narrativa biográfica ficcional, põe o leitor em contato com retalhos sombrios de uma história esquecida por muitos séculos, além disso, descortina, através de seu texto literário, o processo de conquista e exploração de terras distantes dos núcleos de poder, liderados pelo imperialismo europeu.

    Desse modo, o autor revela verdades históricas que há muito estavam silenciadas, por meio da trajetória de Roger Casement. O protagonista do romance é um personagem real, um irlandês humanista que se transformou em um ativista engajado na luta pela verdade e justiça, pela libertação de povos que viviam oprimidos pelo sistema imperialista britânico. Sua biografia é recriada literariamente pelo autor, de modo que, ao fazermos a leitura da obra, não conseguimos discernir fielmente o que é real e o que é ficção. Llosa traça uma linha muito tênue entre ambos.

    O autor recriou seu protagonista como um homem aguerrido e coerente com seus valores. Porém, ao mesmo tempo demonstrou o lado conturbado de Roger, um homem acabrunhado por questões religiosas e morais, dotado de ambiguidades e certos temores, sobretudo ligados à sua vida sexual, visto que mantinha relações amorosas com outros homens, muitas vezes em lugares desertos e sujos.

    Em suas falas sobre a obra, Vargas Llosa sempre enfatiza que partiu de acontecimentos históricos para escrever, todavia, não construiu um relato histórico, mas um romance. Por isso, há muitos fatos recriados em torno de Casement, já que as informações sobre ele são limitadas. A obra é narrada em terceira pessoa, contudo, em determinados momentos da narrativa, parece ao leitor, que o próprio protagonista é quem conta seus tormentos e aflições.

    1.1 OS RELATOS DE CORRERIAS INDÍGENAS NA AMAZÔNIA ACREANA

    Uma imagem contendo Gráfico Descrição gerada automaticamente

    Índios, caucheiros e seringueiros (Acre 1942/1983) Fonte: Docplayer.com.br

    Que não haja mais correrias, nem sequestro de indígenas, que os chefes e capatazes não estuprem, nem roubem as mulheres e as filhas dos indígenas.

    Mário Vargas Llosa

    Terry Vale de Aquino¹, no livro intitulado Por uma educação indígena diferenciada, no capítulo Os índios do Acre, escreve o artigo Breve história do contato, em que afirma:

    Com a chegada dos seringalistas e dos caucheiros, os índios deixaram de viver sossegados. Começaram a andar de um lado para outro, escapando das correrias. Morreu muito índio nesse tempo. Alguns povos se acabaram. Outros povos foram expulsos de suas terras e correram para as cabeceiras dos principais rios da região: Acre, laco, Purus, Envira, Muru, Tarauacá e Juruá. Muitos índios foram pegos e obrigados a trabalhar no cativeiro dos seringais. O patrão entregava índia nova para seringueiro cariú construir família. Nesse tempo, chegaram também muitas doenças que os índios não conheciam. Morreu muita gente de gripe, coqueluche, tuberculose, pneumonia e sarampo. Essas doenças estão fazendo a gente sofrer até os dias de hoje. (AQUINO, 1987, p. 36)

    Aqui o autor faz um breve relato, desse encontro entre colonizador e colonizado, no tempo dos seringais. Os indígenas, que viviam em suas aldeias de acordo com sua própria organização, de repente foram obrigados a se embrenhar nas matas para fugir do domínio dos seringalistas que desejavam escravizá-los, obrigá-los a trabalhar na corte da seringa, dentro das terras amazônicas, uma das regiões mais cobiçadas do planeta.

    Terra de constituição única e detentora de um verde desafiador, a Amazônia tornou-se, desde séculos atrás, desejada mundialmente. Durante muito tempo, a região foi descrita sob a ótica dos colonizadores, que aqui aportaram na ânsia de desvendar os mistérios do grande vale e lhes cominaram visões que vão do inferno ao paraíso de acordo com os interesses que lhes convinham.

    João Carlos de Carvalho, em seu livro A Amazônia Revisitada, de Carvajal a Márcio Souza, escreve:

    A Questão temática que envolve a selva e seu poder de sedução foi sempre um prato bem saboreado pelos paladares mais sedentos de aventuras [...]. Mas do paraíso ao inferno, teríamos também o fruto amargo como consequência das frustrações de realização dos sonhos de riqueza [...] o que seduz é também o que vai repelir. Cada imaginário se preenche com os limites de sua própria ansiedade. Ao tentar conquistar o desconhecido compreende-se uma oportunidade de domar o seu próprio imaginário. (CARVALHO, 2005, p. 67)

    Esse interesse na temática amazônica sobrevive até os dias atuais. São muitos os discursos que ainda se pode ouvir na ânsia de se compreender e explorar, mesmo que discursivamente, essa imensidão verde chamada Amazônia. Nesse sentido, João Carlos de Carvalho, em seu livro intitulado Amazônia Revisitada: de Carvajal a Márcio Souza, escreve: A Amazônia é hoje ainda um dos últimos redutos a ser alcançado por essa ânsia de compreensão, apesar de tudo que já se escreveu sobre ela. (CARVALHO, 2005). É um universo encantador e inesgotável de possibilidades discursivas.

    O professor Milton Chamarelli Filho, no prefácio do livro de João Carlos de Carvalho, já citado, escreve:

    A paisagem histórica que se desenha à observação dos vários relatos sobre a Amazônia, situa a fundação dos muitos discursos e a atualidade de tantos outros que pelos primeiros já se podia ouvir. Entre o ameaçador e o ignoto exótico, entre o explorável e o economicamente viável, entre o paraíso neo-romântico e o preservacionismo autossustentável, delineiam-se imagens e discursos não menos sinuosos que as margens de um rio e de um espaço sem fronteiras que separam a imaginação dos visitantes desses longínquos rincões. (CARVALHO, 2005, p. 15).

    Nessa conjuntura selvática, se desenvolve o período da borracha. Este representa, para a literatura de expressão amazônica, muito mais que uma era econômica ou histórica e ultrapassa a simples reprodução da elevação e queda desse eldorado amazônico. O ciclo da borracha perpassa os horizontes da ficção, para um resgate de memórias sobre a vida dos seringueiros, das pessoas que viviam nas colocações cercadas por matas verdes e mistérios que, ao mesmo tempo que fascinavam, também repeliam o olhar de fora.

    Dentro desse universo verde, tem um pedacinho de chão chamado Acre. Situado ao noroeste do Brasil, fazendo fronteira com o Peru e a Bolívia, portador de uma história construída a suor e sangue, detentor de uma biodiversidade exuberante, sobretudo com muita seringueira, principal responsável pela vinda do colonizador. Como afirma Marcelo Manuel Piedrafita Iglesias, em sua tese de doutorado intitulada Os Kaxinawá de Felizardo: Correrias, Trabalho e Civilização no Alto Juruá:

    No caso do Território Federal do Acre, nas primeiras duas décadas do século XX, o seringal foi o principal empreendimento a determinar as formas de apropriação territorial e de utilização econômica dos recursos naturais e de organização das relações de trabalho e de comércio pelos patrões. (IGLESIAS, 2008, p. 13)

    Essas árvores das quais se extraia o látex – depois de passar por determinado processo, se transformava em peles de borracha e era exportada internacionalmente – foram alvos dos mais interesseiros e ambiciosos olhares. Desse modo, foi praticamente impossível deter o progresso capitalístico sobre a região amazônica, que se configurou de forma selvagem, quase indomesticável.

    A imensa floresta amazônica, com sua selva exoticamente bela e ao mesmo tempo delicada, refugiou uma grande diversidade de povos, ao longo da história, no interior de suas matas. De acordo com Ernesto Martinez Rodriguez,

    Muitos e diferentes povos indígenas já habitavam as terras do Acre, antes mesmo da chegada dos europeus ao Brasil. No século XIX existia no acre mais de 40 tribos indígenas. Independentes e autossuficientes tinham sua própria história, seus modos de vida, sua cultura e tradições, sua religiosidade e sabedoria e também suas intrigas e guerras. Os povos indígenas em questão, que apresentamos como sendo povos indígenas do Acre, divididos ainda em dois troncos diferentes de família linguística: Pano, que habitava a região do rio Juruá e Aruák, que dominavam a bacia do rio Purus são os seguintes: Pano: Poyanawa, Nukini, Jaminawa, Kaxinawá, Katukina, Shancnawa, Yawanawa, Jaminawa Arara, Nawa, Kontanawa, Kaxarari, Aruak, Kulima, Arawa, Ashaninka, Apurinã, Mãxineri. (RODRIGUEZ, 2016, p. 40)

    Todos esses povos indígenas, sofreram com o processo civilizacional, que teve início no então Estado do Acre por volta de 1840. A chegada do elemento novo colonizador, com sua cultura, seus anseios gananciosos, sua visão mercantilista, sua invasão desmedida causou o desaparecimento de muitas dessas tribos. Contido por doenças trazidas pelos brancos e por atos de extrema violência, o indígena viu sua vida e sua cultura se esvair. Eles foram banidos, encalçados, massacrados e dizimados em nome de um ideal de conquista e lucros sem precedentes.

    O encontro entre colonizador e colonizado, não só na Amazônia, mas em toda a América, sempre foi permeado pelos mais diversos tipos de conflito, todos com um único objetivo: dominar as raças consideradas inferiores, como índios e negros, avaliados como povos sem cultura, percalços para o ideal de progresso pregado pela cultura dominante.

    No apogeu do ciclo da borracha no Acre, atraídos por um ideal de riqueza, como em nenhum outro momento na história da região, os colonizadores que aqui aportavam se deparavam com nativos indígenas de diferentes povos e culturas. O contato entre o branco e o índio, nunca ocorreu pacificamente, pelo contrário, são inúmeros os conflitos entre esses povos e o índio sempre foi a raça esmagada pelo processo civilizatório e conquistador. O elemento não indígena tomava posse do território e expulsava ou escravizava os índios. Isso ocorria em toda a região amazônica. Nesse sentido, Márcio Souza, em seu livro A Expressão Amazonense, afirma:

    Evidentemente que a expropriação do índio não foi pacífica e as constantes rebeliões foram sufocadas pela repressão armada. Em 1729, 28.800 índios Muhra foram trucidados por um comando militar português. A resistência do tuxaua Ajuricabana região do Rio Negro, foi tratada com os rigores de uma rebelião e todos os principais cabeças perdera a vida no final. Belchior Mendes de Morais, encarregado de fazer a repressão ao tuxaua Ajuricaba, inaugura a sua tarefa subindo pelo rio Urubu e destruindo aproximadamente trezentas malocas e dizimando a ferro e fogo mais de 15.000 índios, entre homens, mulheres, velhos e crianças. Se de um lado os colonialistas encontravam a adesão pacífica de povos exauridos, outros recusavam esta aliança e mantiveram o colonizador cercado e ameaçado. Quando o remédio do salvacionismo cristão não surtia efeito, a pólvora dos arcabuzes abria uma perspectiva. Os militares portugueses, para enfrentar a resistência nativa, jogavam tribo contra tribo, e as punições genocidas completavam o enfraquecimento indígena em sua rarefeita unidade. (SOUZA, 1977, p. 46)

    Embates como os descritos por Márcio Souza foram constantes na região amazônica. O encontro entre as duas raças foi marcado por atos de violência. O homem branco, subjugou a raça indígena por meio da força bruta, do poder das armas de fogo, da labuta forçosa e das patologias advindas dos trópicos.

    No Acre não foi diferente. A resistência indígena gerava a ira do colonizador e este, decidido a conquistar e explorar, cometia as maiores atrocidades para colonizar e explorar o índio. Os que não se entregavam à exploração ou se insurgiam contra os seringalistas eram vítimas das correrias, processo utilizado como forma de conseguir controlar as áreas que interessavam economicamente o colonizador para o cultivo da borracha.

    De acordo com os dicionários abaixo, o termo correria, traz as seguintes definições:

    Dicionário online de português:

    Substantivo feminino: Ação de correr, de se mover rapidamente de um lugar a outro. Corrida desordenada; pressa, desordem, corre-corre. Desordem ou confusão em local público, com muita movimentação. Abordagem repentina; ataque, assalto. [História] Genocídio indígena que, na região amazônica, foi causado por proprietários rurais, no final do século XIX e início do século XX. Etimologia (origem da palavra correria). Correr + ia.

    Dicionário Infopédia: corrida desordenada, grande pressa, assalto inopinado a um campo inimigo; surtida, roubo ou ataque à mão armada.

    No livro de Pedro Ranzi, Vamos falar o acreanês:²

    CORRERIA. s. Não tem nenhuma relação com o dia estressado das grandes cidades, que o acreano, como bom amazônida, sabe levar a vida num ritmo próprio, ditado de 36 acordo com o tempo, o calor, a chuva, as safras silvestres. Correria era uma espécie de caçada coletiva a índios arredios ou mesmo aculturados, mas que estivessem atrapalhando ou resistindo à exploração de um seringal, à ocupação de suas terras. Coronéis, grandes seringalistas, capatazes, organizavam ataques de surpresa a uma aldeia, chegavam atirando em tudo e em todos, então era aquela correria. Os índios adultos eram dizimados, mulheres e crianças eram levadas, agregadas às famílias brancas como serviçais e até escravizadas. (RANZI, 2017, p. 36 e 37).

    A definição dicionarizada da palavra correria, em ambos os dicionários, se aplica perfeitamente ao contexto das correrias indígenas. Quando os seringalistas aportavam na região, os nativos eram forçados a trabalharem na extração do látex. Era uma realidade totalmente nova, um modelo de vida e de trabalho que em nada se assemelhava aos seus costumes. Ocorria, então, uma ruptura inicial no que se refere à identidade indígena. As correrias foram um genocídio humano, cultural e social e teve como

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