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Berlin Alexanderplatz
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E-book682 páginas10 horas

Berlin Alexanderplatz

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Sobre este e-book

Berlim Alexanderplatz: A história de Franz Biberkopf, de Alfred Döblin, é uma das obras mais marcantes da literatura modernista alemã. Publicado em 1929, o romance acompanha a difícil reintegração de Franz Biberkopf à sociedade após sair da prisão por homicídio. Ambientado em uma Berlim fragmentada e caótica durante a República de Weimar, o livro mistura narração tradicional com colagens de textos jornalísticos, músicas populares e vozes urbanas, refletindo o ritmo frenético e desumanizante da vida moderna.
Döblin constrói uma narrativa densa e inovadora, na qual a cidade não é apenas o cenário, mas quase um personagem onipresente que molda o destino de Franz. A obra trata de temas como a marginalização, a violência, o desemprego e o embate entre livre-arbítrio e fatalismo. O protagonista, confuso e impulsivo, é ao mesmo tempo vítima e agente de seu próprio sofrimento, lutando para manter alguma dignidade em meio ao colapso moral e social ao seu redor.
Desde sua publicação, Berlim Alexanderplatz tem sido reconhecido como uma obra-prima do romance urbano moderno. Sua linguagem fragmentada e seu estilo cinematográfico antecipam técnicas posteriores do século XX, influenciando autores como James Joyce e cineastas como Rainer Werner Fassbinder.
A relevância da obra persiste por sua crítica contundente à alienação no mundo moderno e por sua capacidade de captar, com intensidade e lirismo brutal, a luta de um homem comum contra as engrenagens de uma sociedade indiferente. É um retrato sombrio e visceral da cidade e do ser humano diante do colapso das estruturas tradicionais.
IdiomaPortuguês
EditoraLebooks Editora
Data de lançamento30 de mai. de 2025
ISBN9786558949473
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    Berlin Alexanderplatz - Alfred Döblin

    cover.jpg

    Alfred Döblin

    BERLIM ALEXANDERPLATZ

    A HISTÓRIA DE FRANZ BIBERKOPF

    Título original:

    The Story of Franz Biberkopf

    Primeira edição

    img1.jpg

    Sumario

    APRESENTAÇÃO

    INTRODUÇÃO

    PRIMEIRO LIVRO

    SEGUNDO LIVRO

    TERCEIRO LIVRO

    QUARTO LIVRO

    QUINTO LIVRO

    SEXTO LIVRO

    SÉTIMO LIVRO

    OITAVO LIVRO

    NONO LIVRO

    APRESENTAÇÃO

    img2.jpg

    Alfred Döblin

    1878–1957

    Alfred Döblin foi um escritor e médico alemão, amplamente reconhecido como uma figura central do modernismo literário do século XX. Nascido em Stettin, então parte do Império Alemão (atualmente Szczecin, Polônia), Döblin destacou-se por sua experimentação estilística e pela fusão inovadora de narrativa literária com elementos da vida urbana moderna. Sua obra-prima, Berlin Alexanderplatz (1929), consolidou sua reputação como um dos grandes romancistas da literatura de língua alemã.

    Infância e Formação

    Alfred Döblin nasceu em uma família judaica de classe média. Após a separação dos pais, mudou-se com a mãe para Berlim, cidade que marcaria profundamente sua sensibilidade artística. Estudou medicina na Universidade de Freiburg e em Berlim, especializando-se em psiquiatria. Durante anos, conciliou sua atividade médica com a carreira literária, influenciado tanto por sua prática clínica quanto pelo ambiente urbano em que vivia.

    Carreira e Contribuições

    Döblin é considerado um dos inovadores do romance moderno alemão. Sua escrita, influenciada pelo expressionismo e pelo futurismo, incorpora técnicas cinematográficas, fluxo de consciência e múltiplas perspectivas narrativas. Em Berlin Alexanderplatz, sua obra mais conhecida, ele retrata a vida de Franz Biberkopf, um ex-presidiário tentando se reintegrar à sociedade na Berlim dos anos 1920. O romance mistura linguagem popular, documentos oficiais, letras de música e descrições fragmentadas da cidade, criando uma narrativa caleidoscópica e inovadora.

    Além deste marco literário, Döblin escreveu romances históricos como Wallenstein (1920) e obras de crítica social e espiritual, refletindo suas inquietações com a modernidade, a violência e a identidade humana. Sua obra é marcada por um olhar atento às transformações sociais e políticas de seu tempo, incluindo a ascensão do nazismo, do qual foi crítico veemente.

    Impacto e Legado

    Döblin foi um dos primeiros escritores a capturar a experiência urbana moderna em sua complexidade caótica. Sua obra influenciou profundamente autores como Günter Grass e escritores do Nouveau Roman francês. Ao lado de nomes como Thomas Mann e Franz Kafka, ocupa um lugar de destaque no panteão da literatura de língua alemã.

    O termo döblinesco é por vezes usado para descrever textos que fundem o lírico com o documental, o íntimo com o coletivo. Sua abordagem experimental antecipou várias tendências da literatura pós-moderna e continua sendo objeto de estudos e releituras críticas.

    Perseguido pelo regime nazista por sua origem judaica, Döblin exilou-se na França e depois nos Estados Unidos, onde trabalhou como roteirista em Hollywood. Retornou à Alemanha em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, mas encontrou dificuldades para reintegrar-se à cena literária do pós-guerra. Morreu em 1957, em Emmendingen, no sudoeste da Alemanha.

    Embora por muitos anos tenha sido menos celebrado que seus contemporâneos, o prestígio de Döblin cresceu nas últimas décadas. Hoje, ele é reconhecido como um autor fundamental para a compreensão da literatura moderna, cuja obra desafiadora e visionária continua a inspirar leitores, críticos e artistas em todo o mundo.

    Sobre a obra

    Berlim Alexanderplatz: A história de Franz Biberkopf, de Alfred Döblin, é uma das obras mais marcantes da literatura modernista alemã. Publicado em 1929, o romance acompanha a difícil reintegração de Franz Biberkopf à sociedade após sair da prisão por homicídio. Ambientado em uma Berlim fragmentada e caótica durante a República de Weimar, o livro mistura narração tradicional com colagens de textos jornalísticos, músicas populares e vozes urbanas, refletindo o ritmo frenético e desumanizante da vida moderna.

    Döblin constrói uma narrativa densa e inovadora, na qual a cidade não é apenas o cenário, mas quase um personagem onipresente que molda o destino de Franz. A obra trata de temas como a marginalização, a violência, o desemprego e o embate entre livre-arbítrio e fatalismo. O protagonista, confuso e impulsivo, é ao mesmo tempo vítima e agente de seu próprio sofrimento, lutando para manter alguma dignidade em meio ao colapso moral e social ao seu redor.

    Desde sua publicação, Berlim Alexanderplatz tem sido reconhecido como uma obra-prima do romance urbano moderno. Sua linguagem fragmentada e seu estilo cinematográfico antecipam técnicas posteriores do século XX, influenciando autores como James Joyce e cineastas como Rainer Werner Fassbinder.

    A relevância da obra persiste por sua crítica contundente à alienação no mundo moderno e por sua capacidade de captar, com intensidade e lirismo brutal, a luta de um homem comum contra as engrenagens de uma sociedade indiferente. É um retrato sombrio e visceral da cidade e do ser humano diante do colapso das estruturas tradicionais.

    INTRODUÇÃO

    Alfred Dõblin nasceu em Stettin em 1878 e faleceu em 1957 em Freiburg. A sua obra foi proibida pelos nacionais-socialistas em 1933, tendo Dõblin buscado refúgio na Suíça e, logo depois, em França. Com o início da guerra, passaria em 1940 por Portugal, a caminho dos Estados Unidos da América, de onde só regressou à Alemanha após o termo do conflito.

    De entre as suas obras mais importantes destacam-se, para além de Berlim Alexanderplatz, os romances Die drei Sprünge des Wang-lun, Wallenstein e Hamlet oder Die lange Nacht nimmt ein Ende.

    PRIMEIRO LIVRO

    Aqui, no princípio, Franz Biberkopf deixa a prisão de Tegel, onde foi parar pela vida sem sentido que levava.

    É com dificuldade que encontra de novo o seu lugar em Berlim, mas por fim lá consegue, o que o enche de alegria, e faz então a jura de ser um homem decente.

    No 41 Para A Cidade

    Encontrava-se diante das portas da prisão de Tegel e estava livre.  Ainda ontem tinha ancinhado batatas lá para trás nos campos com os outros, em vestimenta de prisioneiro, agora envergava um casaco de Verão amarelo, eles continuavam a ancinhar, lá atrás, ele estava livre. Deixou passar eléctrico atrás de eléctrico, colou as costas ao muro vermelho e não saía dali. O guarda-portão, passeando para cá e para lá, várias vezes se abeirou dele indicando-lhe o carro a tomar, ele dali não saía. Chegara o momento terrível [terrível, Franz, pá, terrível porquê?], tinham expirado os quatro anos. As negras portadas de ferro, que vinha contemplando de há um ano para cá com crescente asco [asco, asco porquê?], tinham-se fechado atrás de si. Punham-no novamente fora. Lá dentro ficavam os outros carpinteirando, envernizando, separando, colando, ainda lhes faltavam dois anos, cinco anos. Estava na paragem.

    Começa agora a pena.

    Sacudiu-se, engoliu em seco. Tropeçou no pé. Então, tomando balanço, entrou no eléctrico e sentou-se. No meio das pessoas. Vá, embora. Ao princípio era como quando se está no dentista e ele agarra numa raiz com o alicate e começa a puxar, a dor vai aumentando, a cabeça parece que vai rebentar. Voltou a cabeça para trás para o muro vermelho, mas o eléctrico disparou com ele veloz pelos carris fora, e já só era a cabeça que continuava apontada à prisão. O carro fez uma curva, árvores e casas apareceram de permeio. Ruas buliçosas emergiram, Seestrabe, uns entravam, outros saíam. Dentro de si um grito de pavor: atenção, atenção, vai arrancar. A ponta do nariz gelou-lhe, por cima da bochecha um sibilar. Jornais 'Zwõlf Uhr Mittagszeitung', 'Die neuste lllustrierte1, 'Die Funkstunde neu', Entrou mais alguém p'ra bilhete? Os tipos da Polícia agora andam com fardas azuis. Sem dar por isso voltou a sair do carro, estava no meio das pessoas. O que é que se passava? Nada. Cabeça erguida, meu suíno escanzelado, domina-te, ainda te esfrego o punho no focinho! Barafunda, que grande barafunda. Como aquilo mexia. Os meus miolos já não devem ter banha nenhuma, hão de estar mais que ressequidos. O que p'ráli vai. Sapatarias, chapelarias, lâmpadas incandescentes, tabernas. É que as pessoas têm que ter sapatos, se andam tanto dum lado p'ró outro, até que nós também lá tínhamos uma sapataria, vamos lá meter isso na cabeça. Uma centena de vidraças polidas, deixas lá brilhar à vontade, descansa que não te vão meter medo, até podes dar cabo delas, o que é que há de especial co'elas, estão é com lustre, mais nada. Estavam a arrancar o pavimento da Rosenthaler Platz, ele seguia no meio dos outros sobre pranchas de madeira. A pessoa mistura-se com os outros, aí tudo se esfuma e então não notas nada, homem. Havia bonecos nas montras com fatos, casacos, saias, meias e sapatos. Do lado de fora tudo se movia, mas... lá para trás... não se passava nada! Aquilo ... não tinha ... vida! Tinha caras alegres, ria, ficava à espera a dois e dois ou a três e três na ilha de peões frente ao Aschinger, fumava cigarros, folheava jornais. Aquilo estava por ali como os lampiões... e... ia ficando cada vez mais hirto. Eram um todo com as casas, tudo branco, tudo madeira.

    O terror entrou por ele adentro quando ia a descer a Rosenthaler StraBe e deu com um homem e uma mulher sentados bem perto da janela num barzinho: emborcavam cerveja em caneca pela boca abaixo, sim, e daí, pronto, estavam a beber, tinham garfos com que se espetavam bocados de carne na boca, depois puxavam os garfos outra vez para fora e não deitavam sangue. Oh, o corpo dobrava-se-lhe numa cãibra, não consigo livrar-me disto, p'ra onde hei de eu ir? Respondeu-lhe aquilo: A pena.

    Não podia voltar para trás, tinha andado tanto de eléctrico até aqui, tinha sido libertado da prisão e tinha que se meter por aqui adentro, mais fundo ainda.

    Isso sei eu, suspirou para si, sei que tenho que me meter nisto e que fui libertado da prisão. Eles tinham mesmo que me libertar, a pena estava no fim, as coisas têm a sua ordem, o burocrata faz o seu dever. Eu também me vou meter nisto, mas não quero, meu Deus, não consigo.

    Deambulou pela Rosenthaler StraBe, passando pelos Armazéns Tietz, virou à direita para a SophienstraBe, mais estreita. Esta rua é mais escura, pensou, onde estiver escuro, há de se estar melhor. Os presos são alojados em regime de isolamento, cadeia celular e celas comuns. No regime de isolamento, o recluso é mantido, dia e noite, continuamente separado dos outros prisioneiros. Em cadeia celular, o recluso está encerrado numa cela, mas no exercício ao ar livre, durante as aulas e para o serviço religioso é trazido para junto dos outros. Os carros continuavam vociferando e tinindo, as fachadas dos prédios passavam velozes pela frente, uma após outra, sem parar. E havia telhados em cima dos prédios, pairavam sobre os prédios, os olhos giravam, errantes, lá para cima: oxalá os telhados não desabem, mas os prédios continuavam de pé, bem direitos. P'ra onde hei-d'eu ir, pobre diabo, arrastava-se encostado a um prédio, aquilo não havia meio de acabar. Sou um idiota chapado, uma pessoa de certeza que ainda há-de poder safar-se daqui, cinco minutos, dez minutos, depois a pessoa bebe um conhaque e senta-se. Ao respectivo toque da sineta há que começar o trabalho imediatamente. Só pode ser interrompido nas horas destinadas às refeições, ao passeio e às aulas. Durante o passeio os reclusos são obrigados a manter os braços esticados e a balouçá-los para a frente e para trás.

    Havia ali um prédio, ele desviou o olhar do pavimento, entrou num prédio empurrando a porta e do peito saiu-lhe, num lamuriar, um triste oh, oh. Enrolou os braços um no outro, pronto, rapaz, aqui já não gelas. A porta do pátio abriu-se, um homem passou por ele arrastando os pés, foi pôr-se atrás dele. Começou a gemer, fazia-lhe bem gemer. Da primeira vez, na solitária, tinha gemido sempre desta maneira e ficava contente por ouvir a sua voz, é que assim sempre se tem alguma coisa, ainda não se foi tudo. Era o que muitos faziam nas celas, alguns ao princípio, outros mais tarde, quando se sentiam sós. Então começavam a fazer isso, ainda era qualquer coisa de humano, consolava-os. O homem estava, pois, no átrio do prédio, não ouvia o terrível barulho da rua, os prédios delirantes não estavam ali. Resmungava de lábios afunilados e tentava dar-se ânimo, de punhos cerrados nas algibeiras. Por baixo do paletó de Verão amarelo os ombros encolhiam-se numa atitude de defesa.

    Um estranho viera postar-se ao lado do preso libertado, e fixava-o. Perguntou: Tendes alguma coisa, não estais bem, tendes dores?, até que o outro reparou nele e deixou imediatamente de resmungar. Senti-vos mal, morais aqui no prédio? Era um judeu de barba farta, ruiva, um homem baixo, de casacão, chapéu preto de veludo, bengala na mão. Não, não mor'aqui. Tinha de sair do átrio, vá lá que o átrio já não tinha sido mau. E agora lá começava a rua outra vez, as fachadas dos prédios, as montras, as figuras apressadas com calças ou meias claras, todas tão rápidas, tão desembaraçadas, a cada instante uma nova. E como estava decidido, voltou a entrar no átrio dum prédio, mas estavam a escancarar os portões para deixar entrar uma zorra. Correu então veloz para o prédio vizinho, enfiando por um átrio estreito junto às escadas. Ali não podia entrar nenhuma zorra. Agarrou-se com firmeza ao poste do corrimão. E enquanto o agarrava, percebeu que queria escapar à pena [o Franz, o que é que vais fazer, não vais conseguir], claro que o ia fazer, já sabia onde encontrar uma saída. E, de mansinho, recomeçou a sua música, o resmonear e o lamuriar, e p'rá rua é que eu não volto. O judeu ruivo entrou novamente no prédio, sem descortinar o outro, à primeira vista, junto do corrimão. Ouviu-o sussurrar: Mas dizei lá, que estais aqui a fazer? Não vos sentis bem? Ele soltou-se do corrimão, dirigiu-se ao pátio. Ao agarrar na portada, viu que era o judeu do outro prédio. Saia-me daqui! O qu'é que quer dum tipo como eu? Calma, calma. Nada. É que vós gemeis e suspirais de tal forma que deve ser permitido perguntar o que é que tendes, não? E além, por entre a fresta da porta, outra vez os prédios horríveis, as pessoas como formigas, os telhados vacilantes. O preso libertado abriu a porta do pátio, o judeu atrás dele: Bem, bem, o qu'é que pode acontecer, não há de ser assim tão mau. Sossegue que não se apodrece assim. Berlim é grande. Onde vivem mil, vive mais um.

    Havia ali um pátio alto e sombrio. Ele estava junto do caixote do lixo. E, de repente, desatou a cantar retumbantemente, a cantar para as paredes. Tirou o chapéu da cabeça como um tocador de realejo. As paredes devolviam o som. Sabia bem. A sua voz enchia-lhe os ouvidos. Cantava em voz tão alta como nunca teria tido licença para cantar na prisão. E que cantava ele, que as paredes repercutiam? Ruge um clamor, qual trovoada. Marcial e duro, enérgico. E depois: Tralarilalalari, do meio duma canção. Ninguém lhe ligava. O judeu recebeu-o ao portão: Haveis cantado muito bem. Verdade que haveis cantado muito bem. Podíeis ganhar bom dinheiro com a voz que tendes. O judeu seguiu-o até à rua, pegou-lhe pelo braço e arrastou-o consigo por entre uma interminável conversa, até que cortaram para a GormannstraBe, o judeu e o indivíduo alto e ossudo de paletó de Verão que comprimia os lábios como se quisesse cuspir bílis.

    Continua a não estar ali.

    Conduziu-o a um quarto onde havia uma salamandra acesa, e sentou-o no sofá: Pronto, eis-vos chegado. Sentai-vos então em paz. Podeis ficar com o chapéu ou pô-lo aqui ao lado, como quiserdes. Vou só buscar uma pessoa que vos vai agradar. É que eu próprio não moro aqui. Sou apenas visita, como vós. Bem, e o que se passa é que uma visita traz a outra, é só a sala estar aquecida.

    O libertado ficou no sofá, sozinho. Ruge um clamor qual trovoada, qual tinir de sabre, refrega de vaga. Estava andando no eléctrico, virou a cabeça para olhar para fora, os muros vermelhos distinguiam-se por entre as árvores, chovia uma folhagem colorida. Tinha os muros diante dos olhos, contemplava-os do sofá, contemplava-os sem parar. É uma grande sorte viver dentro destes muros, sabe-se como o dia começa e como vai continuar. [O Franz, é claro que não vais querer esconder-te, já estiveste escondido estes quatro anos, coragem, olha à tua volta, alguma vez o esconder-se há de ter o seu fim.] Tudo quanto seja cantar, assobiar, fazer barulho é proibido. De manhã os reclusos têm de se pôr de pé imediatamente ao sinal de levantar, arrumar a camarata, lavar-se, pentear-se, limpar as roupas e vestir-se. Há sabão para distribuir em quantidade suficiente. Dlão, um toque da sineta, levantar, dlão cinco e meia, dlão seis e meia, desaferrolhar, dlão dlão, altura de sair, distribuição do comer da manhã, período de trabalho, recreio, dlão dlão dlão meio-dia, rapaz, não ponhas essas ventas mal-humoradas, não estás aqui pr'á engorda, os cantores que se apresentem, entrada em cena dos cantores às cinco e quarenta, dou parte de rouco e falto, às seis fechar portas, boa-noite, pronto, conseguimos. Uma grande sorte, viver dentro destes muros, a mim atiraram-me pr'á lama, por pouco não matei, está certo, mas foi só homicídio, lesões corporais graves com resultado agravado de morte, não foi assim tão grave, um grande patife era no que eu me tinha tornado, um sacripanta, pouco falta para marginal. Um judeu alto, velho, de cabelos compridos, barretinho preto acima da nuca, estava há já bastante tempo sentado diante dele.

    Na cidade de Susa havia em tempos um homem chamado Mardoqueu, esse homem educou a Ester, filha de seu tio, mas a rapariga era bela de figura e bela na aparência. O velho desviou os olhos do homem, rodou a cabeça para trás, para o ruivo: Onde é que o fostes desencantar? Andava numa correria de casa em casa. Enfiou-se num pátio e começou a cantar. A cantar? Canções marciais. Há de estar gelado. É possível. O velho fixava-o. Os judeus não manusearão cadáveres no primeiro dia das festas, tampouco os israelitas, no segundo dia das festas, e isto aplica-se inclusivamente aos dois dias de Ano Novo. E quem é o autor do seguinte ensinamento dos Rabanitas: Aquele que comer da carcaça de um pássaro puro não é impuro; será, no entanto, impuro o que comer do intestino ou do papo? Tateando com a mão comprida e amarelada, o velho procurou a mão do libertado, pousada sobre o casaco: Olhai, não quereis tirar o casaco? Está calor aqui. Nós aqui somos gente velha, passamos frio o ano inteiro, para vós há de ser demais.

    Ali estava sentado no sofá, baixou o olhar de través sobre a mão, tinha andado de pátio em pátio pelas ruas fora, uma pessoa tinha que abrir os olhos e ver onde é que se podia encontrar qualquer coisa neste mundo. E quis levantar-se, sair por aquela porta, os olhos tentavam encontrar a porta na sala escura. Nessa altura o velho puxou-o atrás, obrigou-o a sentar-se outra vez no sofá: Mas deixai-vos ficar, o que é que quereis, afinal? Queria sair lá para fora. Mas o velho tinha-o seguro pelo pulso, e fazia força, muita força: Vamos lá a ver quem é mais forte, vós ou eu. É para ficar mesmo sentado, se sou eu que vos digo. O velho gritava: Descansai, que haveis mesmo de ficar aqui sentado. Haveis mesmo de ouvir o que eu tenho pr'a dizer, meu sangue jovem. Dominai-vos, malvado. E para o ruivo, que agarrava o homem pelos ombros: E vós, ide vos embora, embora daqui. Como s'eu vos tivesse chamado. Eu cá me hei de haver com ele.

    O que é que esta gente queria dele. O que ele queria era ir dali para fora, fez menção de se erguer, num impulso, mas o velho empurrou-o para baixo. Então gritou: O que é que estão a fazer comigo? Vociferai à vontade, que ainda haveis de vociferar mais. Larguem-me, já disse. Tenho que sair daqui pr'a fora. Para o meio da rua, não, para os pátios, talvez?

    E, levantando-se da cadeira, o velho pôs-se a andar pelo quarto dum lado para o outro, rumorejando: Deixa-o gritar tanto quanto ele quiser. Deixa-o fazer e voltar a fazer o que lhe apetecer. Mas em minha casa, não. Abre-lhe a porta. Qual é o problema, assim com'assim há sempre gritaria em vossa casa. Não me tragais aqui pr'a casa gente que faça barulho. As crianças da filha estão doentes, estão de cama ali para trás, já tenho barulho que chegue. Pronto, pronto, mas que desgraça, eu não sabia, tereis que me perdoar. O ruivo agarrou o homem pelas mãos. Vinde comigo. O rabino tem a casa cheia. Os netos estão doentes. Vamos andando mais para diante. Mas o outro não se queria levantar. Vinde. Teve de se levantar. Então segredou-lhe: Não me puxe. Deixe-me lá ficar aqui. É que ele tem a casa cheia, ouvistes muito bem. Deixe-me lá ficar aqui.

    De olhos faiscantes, o velho fixava aquele estranho que lhe suplicava. Assim falou Jeremias, vamos salvar a Babilônia, mas a Babilônia não se deixou salvar. Abandonai-a, havemos de conduzir cada um à sua terra. Que a espada se abata sobre os caldeus, sobre os habitantes da Babilônia. Se ele estiver sossegado, pode ficar convosco. Se não estiver sossegado, terá que se ir embora. Está bem, está bem, nós não fazemos barulho. Eu sento-me aqui ao pé dele, podeis confiar em mim. Sem dizer palavra, o velho saiu do quarto, a rumorejar.

    Ensinamento a partir do exemplo de Zannowich.

    Lá estava o preso libertado, com o seu paletó amarelo, de novo sentado no sofá. Suspirando, abanando a cabeça, o ruivo percorria o quarto de um lado para o outro: Bem, não fiqueis zangado pl'o velho se ter enfurecido tanto. Sois recém-chegado aqui à cidade? Sou, sou, estive... Os muros vermelhos, belos muros, celas, não podia deixar de olhá-los com saudade, estava colado pelas costas ao muro vermelho, era esperto, o homem que o construiu, não se ia embora dali. E, como um boneco, o homem escorregou pelo sofá abaixo até ao tapete, desviando a mesa para o lado, ao tombar. O que é que se passa?, gritou o ruivo. O libertado torcia-se sobre o tapete, o chapéu rolou-lhe junto às mãos, parecia querer perfurar o chão com a cabeça, disse suspirando: Pl'o chão adentro, pl'a terra adentro, que é onde está escuro. O ruivo deu-lhe um puxão: Por amor de Deus. Estais em casa de estranhos. Se o velho aqui entra. Levantai-vos. Ele, porém, não se deixava içar, não se deslargava do tapete, gemia, gemia. Acalmai-vos, por amor de Deus, que o velho ainda ouve. Havemos de acabar por nos entender. A mim ninguém me há de tirar daqui. Como uma toupeira.

    E não conseguindo levantá-lo, o ruivo pôs-se a cofiar os caracóis das fontes, fechou a porta e, com ar resoluto, foi sentar-se no chão, junto ao homem. Dobrou os joelhos e fixou os olhos nas pernas da mesa diante de si: Pronto, seja. Deixai-vos ficar aí à vontade. Também me vou sentar aqui. Lá cômodo não é, mas porque não. Não quereis deitar cá pr'a fora o que se passa convosco, pois vou eu então contar-vos uma coisa. O libertado lamuriava, cabeça sobre o tapete. [Mas porque é que ele está pr'áli a gemer e a lamuriar? Há uma decisão a tomar, há um caminho a percorrer –– mas tu não sabes de nenhum, Franz, pá. O velho esterco não o queres, e na cela também não fazias senão gemer, e esconder-te, não pensavas, não pensavas, Franz, pá.]

    Disse o ruivo, irritado: Uma pessoa não se deve ter em tão boa conta. Deve-se abrir os ouvidos aos outros. Quem vos diz a vós que há assim tanto problema convosco. É que Deus não deixa cair ninguém assim da mão, mas sempre há mais pessoas por aí. Não lestes o que Noé meteu na arca, no barco dele, quando veio o grande Dilúvio? Um parzinho de cada. Deus não se esqueceu de nenhum deles. Nem sequer dos piolhos da cabeça ele se esqueceu. Todos lhe eram queridos, preciosos. O outro vagia em baixo. [Vagir é de graça, vagir até um rato doente consegue.]

    O ruivo deixou-o vagir, afagou as faces: Ele há muita coisa nesta terra, pode se contar muita coisa quando se é novo e quando se é velho. Pois eu agora vou contar-vos a história de Zannowich, Stefan Zannowich. Não a deveis ter ouvido ainda. Quando vos sentirdes melhor, levantai-vos um pedacinho. O sangue sobe à cabeça duma pessoa, não é saudável. O meu pai que Deus tem contava-nos sempre muitas histórias, viajou muito por esse mundo fora como a gente do nosso povo, ainda chegou aos setenta, faleceu depois da minha saudosa mãe, sabia muito, um homem esperto. Éramos sete bocas esfomeadas e, quando não havia nada para comer, contava-nos histórias. Não enche o estômago mas ajuda a esquecer. Aquele gemer abafado por baixo continuava. [Gemer até um camelo doente consegue.] "Bem, bem, sabemos que neste mundo não há só ouro, beleza e alegrias. Quem era afinal este Zannowich, quem era o pai dele, quem eram os pais dele? Pedintes, como a maior parte de nós, pequenos comerciantes, vendedores, negociantes. Vinha da Albânia, o velho Zannowich, e foi para Veneza. Ele lá sabia porque é que foi para Veneza. Uns vão da cidade para o campo, outros do campo para a cidade. No campo há mais sossego, as pessoas volvem e revolvem as coisas, uma a uma, podeis ficar horas a fio a falar, que, se tiverdes sorte, tereis ganho meia dúzia de pfennigs. Agora, na cidade também é difícil, só que as pessoas estão é mais chegadas umas às outras, e não têm tempo nenhum. Se não é uma, é a outra. Não s'anda com bois, o que se tem são cavalos velozes com coches. Perde se e ganha-se. Isso bem o sabia o velho Zannowich. Primeiro vendeu o que trazia consigo, e depois meteu-se nas cartas e pôs-se a jogar com as pessoas. Não era um homem honrado. Fez negócio co'a coisa, com isso das pessoas na cidade não terem tempo e quererem que as distraiam. Ele distraía as pessoas. Custou-lhes bom dinheiro. Um vigarista, um batoteiro, é o que era o velho Zannowich, mas lá cabeça tinha ele. Os camponeses tinham-lhe dificultado as coisas, aqui vivia muito mais à vontade. As coisas correram-lhe bem. Até que um dia, de repente, um sujeito qualquer lá achou que lhe tinha sido feita qualquer injustiça. Pois bem, com essa é que o velho Zannowich não tinha contado. Houve pancadaria, meteu polícia, e o velho Zannowich acabou por ter que se pôr a mexer mais os filhos. O tribunal de Veneza andava atrás dele, com o tribunal, pensou o velhote, o melhor era não entrar em conversas, eles não me entendem, e eles tampouco o conseguiram apanhar. Tinha cavalos e dinheiro consigo e estabeleceu-se outra vez na Albânia e comprou uma propriedade, uma aldeia inteira, e os filhos, esses, mandou-os para colégios bons. Quando já estava muito velhinho morreu em paz e respeitado. Foi esta a vida do velho Zannowich. Os camponeses choraram-no, mas ele não os podia suportar porque não deixava de pensar no tempo em que se postava diante deles com a sua quinquilharia, anéis, braceletes, colares de coral, e eles viravam-nos e reviravam-nos, apalpavam-nos à vontade, e acabavam por ir-se embora, viravam-lhe as costas.

    Sabeis como é, s'o pai é uma plantinha, quer logo qu'o filho seja árvore. S'o pai é uma pedra, o filho tem que ser uma montanha. O velho Zannowich disse aos filhos: Não fui ninguém aqui na Albânia enquanto andei a vender p'las ruas, vinte anos, e porque não? Porque não encaminhei a minha cabeça pr'a onde era o lugar dela. Mando-vos para o colégio grande, pr'a Pádua, levem cavalos e Arruagem e, 'quando tiverem acabado os estudos, pensem em mim, que tantas aflições tive co'a vossa mãe e vocês', e que de noite dormi com vocês na floresta que nem um javali: eu próprio é que tive a culpa. Os camponeses tinham-me sugado até à última gota como um ano magro, quase que dei cabo de mim, mas misturei-me com as pessoas e por isso não morri."

    O ruivo riu-se para si, abanou a cabeça, baloiçou o tronco. Estavam sentados no chão em cima do tapete: "Se alguém entra agora, vai achar-vos pírulas, a pessoa tem um sofá e senta-se no chão diante dele.

    Ora, é a cada um conforme a sua vontade, porque não, se lhe apetece. O jovem Zannowich Stefan era um grande orador já em novo, aos vinte anos. Sabia fazer vénias e cortesias, tornar-se popular, namoriscar co'as mulheres e armar-se em fino co'os homens. Em Pádua os aristocratas aprendem co'os professores, o Stefan aprendeu co'os aristocratas. Todos foram bons pr'a ele. E ao voltar a casa, na Albânia, o pai ainda vivia, ficou todo contente co'ele e também gostava dele e disse: 'Vejam-me só este, é mesmo um homem pr'á vida, não há de ser como eu, que andei vinte anos a fazer negócio co'os camponeses, este adiantou-se vinte anos em relação ao pai'. E o rapazinho afagou as mangas de seda, levantou os belos caracóis da testa e beijou o velho, ditoso pai: 'Mas vós, pai, poupastes-me esses vinte anos de infortúnio.' 'Que sejam os melhores da tua vida', respondeu o velho, enquanto acariciava e afagava o seu rapazinho.

    Então a vida correu ao jovem Zannowich como um milagre, sem no entanto ser milagre. Por todo o lado as pessoas voavam ao seu encontro. Tinha a chave de todos os corações. Foi a Montenegro, num passeio, na qualidade de cavaleiro com coches, cavalos e criados, o pai ficou todo contente por ver o filho crescido, o pai uma plantinha, o filho uma árvore, e em Montenegro tratavam-no por conde e príncipe. Não se teria acreditado nele, tivesse ele dito: o meu pai chama-se Zannowich, moramos em Pastrowich numa aldeia que é o orgulho do meu pai! Não se teria acreditado nele, é que tinha o porte de um aristocrata de Pádua, e parecia-o, aliás conhecia-os a todos. Disse o Stefan a rir: pois vão ter o que é da vossa vontade. E fez-se passar junto das pessoas por um polaco rico, coisa por que o tomaram, por um tal Barão Warta, e assim ficaram satisfeitos, e ele satisfeito ficou."

    O preso libertado sentara-se num arranque repentino. Estava acocorado sobre os joelhos, espreitando o outro mais de cima. Nisto disse com ar gelado: Macaco. O ruivo retorquiu-lhe em tom de desprezo: 'Tá bem, sou macaco. Mas então o macaco sabe mais do que muita gente. E já o outro era de novo obrigado a sentar-se no chão. [Arrepender-te, é o que tens que fazer; reconhecer o que aconteceu; reconhecer o que faz falta!]

    "Portanto pode se continuar a falar. Ainda há muito a aprender de outras pessoas. O jovem Zannowich estava neste caminho e as coisas continuaram assim. Eu nunca o conheci, e o meu pai nunca o conheceu, mas é possível imaginá-lo. Se vos perguntar, a vós que me chamais macaco –– não se deve desprezar nenhum animai nesta terra de Deus, eles dão-nos a carne deles, e de resto prestam-nos também muitos e bons serviços, pensai num cavalo, num cão, nas aves de canto, macacos só conheço de feira, têm que fazer habilidades presos à corrente, triste sorte essa, pr'a nenhum homem é tão triste -, mas sempre vos quero perguntar, não vos posso chamar p'lo nome, porque não me quereis dizer o vosso nome: como é que o Zannowich conseguiu subir, o jovem e o velho. Achais que tiveram miolos, que foram espertos. Também outros foram espertos e com oitenta anos não tinham ido tão longe como o Stefan aos vinte. Mas a coisa principal no homem são os olhos e os pés. É preciso ser capaz de ver o mundo e ir ter com ele.

    Ouvi, pois, o que o Stefan Zannowich fez, ele que observava os homens e que sabia o pouco que temos a recear dos homens. Vede só como nos aplainam os caminhos, como quase mostram o caminho ao cego. Quiseram dele: És o Barão Warta. 'Tá bem, disse ele, sou o Barão Warta. Mais tarde isto não lhe bastou, ou não lhes bastou a eles. Já que é barão, porque não há de ser mais. Há pr'a lá uma celebridade, na Albânia, tinha morrido há muito tempo, mas eles festejam-na, como o povo festeja os seus heróis, chamava-se Skanderbeg. Tivesse o Zannowich podido, e teria dito: é ele próprio o Skanderbeg. Mas como o Skanderbeg estava morto, ele disse, sou descendente do Skanderbeg, e resolveu dar-se ares, intitulou-se Príncipe Castriota da Albânia, há de restituir a grandeza à Albânia, aguardam-no os seus seguidores. Deram-lhe dinheiro para ele poder viver, viver com'um descendente do Skanderbeg. Fez bem às pessoas. Vão ao teatro e ouvem coisas inventadas que lhes caem bem. Pagam pr'a isso. E tam'ém podem pagar quand'as coisas que caem bem lhes acontecem à tarde ou de manhã e quand'elas próprias podem entrar no jogo."

    E de novo o homem de paletó de Verão amarelo se levantou, tinha o semblante carregado, cheio de rugas, olhou de cima para o ruivo, tossicou, a voz estava alterada: Diga-me lá, ó seu homenzinho, você não regula, ou quê? Deve estar meio avariado, não? Não regulo, quem sabe. Umas vezes sou macaco, outras pírulas. Diga-me lá, ande, o qu'é que está aqui a fazer sentado, a impingir-me esse palavreado? Mas quem é que está sentado no chão e não se quer levantar? Eu? Quando tenho um sofá atrás de mim? Pois se vos incomoda, acabo já de falar.

    Então o outro, que entretanto dera uma volta pelo quarto, puxou as pernas para a frente e sentou-se de costas contra o sofá, as mãos apoiadas no tapete. Assim já ficais sentado mais cômodo. Então agora o senhor já pode acabar calmamente co'os seus disparates. Se é assim que quereis. Eu já contei a história muitas vezes, não tenho qualquer interesse nisso. Se também não vos interessa... Mas após uma pausa o outro virou de novo a cabeça para ele: Continue lá a sua história à vontade. Pois é, as pessoas contam histórias e falam umas co'as outras, e assim o tempo não custa tanto a passar. E que eu só vos queria abrir os olhos. Pois o Stefan Zannowich, que já conheceis, recebeu dinheiro, tanto, que pôde pagar a viagem p'rá Alemanha. Não o desmascararam, em Montenegro. Há a aprender com o Zannowich Stefan, que ele sabia de si e dos homens. Mas nisto ele era inocente como uma avezinha chilreante. E vede como teve tão pouco medo do mundo: os grandes homens, os mais poderosos que havia, os mais temíveis, eram amigos dele: o Príncipe Eleitor da Saxónia, o Príncipe Herdeiro da Prússia, que veio a ser um grande herói da guerra e perante quem a austríaca, a Imperatriz Therese, tremia no seu trono. Pois diante dele o Zannowich não tremia. E quando o Stefan veio uma vez a Viena e foi parar às mãos de gente que o andava a espiar, então foi a própria imperatriz a levantar a mão e a dizer: deixem o fedelho em paz!

    Completamento da história de maneira inesperada e fortalecimento, por este meio, do recluso libertado

    O outro desatou a rir, dava gargalhadas no sofá: Sois um ponto. Onde devíeis estar era no circo, a fazer de palhaço. O ruivo ajudava à risota: "Pois aqui tendes. Mas baixinho, olhai os netos do velho.

    Se calhar é melhor sentarmo-nos no sofá, o que é que achais. O outro não parava de rir, ia-se desenrolando e acabou por se sentar num canto do sofá, o ruivo no outro. Aqui é mais fofo, não se amachuca tanto o casaco. O de casaco de Verão olhava fixamente o ruivo do seu canto: Há muito tempo que não me aparecia uma prenda como vós. Calmamente o ruivo: Talvez não tenhais visto bem, aind'ós há. Haveis sujado o casaco, aqui não se limpam os sapatos. O libertado, homem de trinta e poucos anos, tinha olhos vivos, o rosto estava mais animado: Olhe lá, diga-me cá, mas o senhor afinal em que é que negocia? Vive na Lua, não? Bem, essa é boa, então agora vamos falar da Lua."

    À porta estava, desde há uns cinco minutos, um homem de barba castanha encrespada. Aproximou-se da mesa, sentou-se numa cadeira. Era novo, trazia um chapéu de veludo preto, tal como o outro. Descreveu um arco no ar com a mão, soltou a voz estridente: Quem é aquele? O qu'é que estás a fazer com aquele? E que estás tu aqui a fazer, Eliser? Não o conheço, ele não quer dizer o nome. Estiveste-lha contar histórias. Ora, o que tens tu com isso. O barba-castanha para o recluso: Esteve pr'ái a contar-vos histórias, aquele ali? Ele não fala. Anda por aí a cantar p'los pátios. Então deix'ó andar. O que eu faço não é da tua conta. "Mas eu é que estive a escutar atrás da porta o que se estava a passar. Contaste-lhe do Zannowich.

    O qu'é que hás de fazer senão contar histórias e mais histórias. Resmungou o estranho, que vinha fixando o barba-castanha: Mas afinal quem é o senhor, como'é qu'afinal veio aqui parar? O qu'é que tem que se estar a meter nas coisas deste? Ele contou-vos a história do Zannowich ou não? Contou-vos, sim. O meu cunhado Nachum anda por todo o lado a contar histórias e mais histórias, e não é capaz de tomar conta dele mesmo. Mas eu ainda não te pedi que focupasses de mim. Não vês que ele não está bem, homem ruim. E se não estiver bem? Deus não t'encomendou o recado, não querem lá ver, Deus esperou que ele viesse. Sozinho é que Deus não conseguiu ajudar. Homem cruel. Afastai-vos dele, aviso-vos. Há de vos ter contado como o Zannowich e sei lá quem mais se saíram tão bem neste mundo. E se te fosses embora rápido? Está uma pessoa pr'áqui a ouvir este aldrabão, este bonzinho. Quer conversar comigo. Isto é a casa dele? Mas o que é qu'andaste outra vez a contar do teu Zannowich e das coisas que se podem aprender com ele? Devias ter sido rabino aqui. Ainda por cima tínhamos-te alimentado à farta. Eu não preciso da vossa caridade. O barba-castanha voltou a gritar: E nós não precisamos de parasitas pendurados às nossas saias. Será que ele também vos contou o que se passou com o Zannowich dele nos últimos tempos, no fim? Patife, és mesmo pessoa ruim. Contou-vos isso, contou? Com ar cansado, o preso fitava, pisco, o ruivo, que brandia o punho enquanto se dirigia para a porta e ia resmoneando atrás do ruivo: O senhor, não se vá embora assim, não se exalte, deixe-o lá com os disparates dele."

    Nisto o barba-castanha pôs-se a gritar com ele furiosamente, agitando as mãos, deslizando para lá e para cá, entre estalidos de língua e sacudidelas de cabeça, a cada momento nova expressão, ora para o estranho, ora para o ruivo: Este põe as pessoas pírulas. Ele que vos conte que fim é que levou o Zannowich Stefan dele. Isso não conta ele, porqu'é que não conta, porquê, pergunto eu. Porqu'és um homem ruim, Eliser. Sempre sou melhor do que tu. Expulsaram [o barba-castanha ergueu horrorizado as mãos, mostrando uns olhos terrivelmente esbugalhados] o Zannowich dele de Florença, com'um ladrão. Porquê? Porque o reconheceram. O ruivo colocou-se com ar ameaçador diante dele, o barba-castanha afastou-o: Agora falo eu. Escreveu cartas a príncipes, um príncipe recebe muitas cartas, não se pode ver pela letra o qu'é que uma pessoa é. Ele então ficou todo inchado, foi para Bruxelas como Príncipe da Albânia e meteu-se na alta política. Foi o anjo mau dele quem Iho disse. Vai ter com o governo, imaginem-me o Zannowich Stefan, o fedelho, e promete-lhes, para uma guerra, sei lá com quem, cem mil homens ou duzentos mil, não é isso que interessa, o governo escreve uma cartinha, muito obrigadinho, não vai meter-se em negócios inseguros. Aí o anjo mau ainda disse ao Stefan: pega na carta e mostra-a para que te emprestem dinheiro. Não recebeste uma carta do ministro com a morada: A Sua Excelência o Príncipe da Albânia, Ilustríssimo, Alteza. Emprestaram-lhe dinheiro e isso foi o fim do intrujão. Até que idade viveu ele? Trint'anos, mas não apanhou como pena pelos seus delitos. Não pôde pagar a dívida, denunciaram-no em Bruxelas, e aí soube-se tudo. O teu herói, Nachum! Contaste-lhe do fim negro dele na prisão, onde acabou cortando as veias? E quando já estava morto –– que rica vida, que rico fim, tem que se contar –– depois veio o carrasco, o algoz com uma carroça para os cães, os cavalos e os gatos mortos, carregou-o lá para cima, ao Stefan Zannowich, fora de portas atirou-o pr'a junto da forca e despejou lixo da cidade pr'a cima dele.

    Ao homem do paletó de Verão caíram-lhe os queixos: A sério? [Gemer até um rato doente consegue]. O ruivo contara, uma a uma, as palavras que o cunhado gritara para o ar. De indicador levantado diante da cara do barba-castanha, estava à espera como que de uma deixa, tocou-lhe ao de leve no peito e cuspiu para o chão à frente dele, pfe, pfe: Toma lá pr'a ti. Por seres desta laia. Meu cunhado. O barba-castanha desandou em passo incerto para a janela: Bem, e agora fala tu e diz lá que não é verdade.

    Os muros já não estavam ali. Uma saleta com um candeeiro pendurado, dois judeus a andar dum lado para o outro, um moreno e um ruivo, tinham chapéus de veludo preto, brigavam um com o outro. Foi atrás do amigo, do ruivo: Olhe, ouça lá, é verdade o que aquele contou do homem que foi parar atrás das grades e eles o mataram? Mataram, eu disse mataram? Ele matou-se sozinho. O ruivo: Deve ter-se mesmo matado. O libertado: E os outros, o que é que fizeram nessa altura? O ruivo: Quem, quem? Bem, ele há de ter havido outros como ele, como o Stefan. Nem todos hão de ter sido ministros e carrascos e banqueiros. O ruivo e o barba-castanha entreolharam-se. O ruivo: Sim, o qu'é qu'eles haviam de fazer? Deixaram-se ficar a olhar."

    O preso libertado, de paletó de Verão amarelo, o indivíduo alto, veio para diante do sofá, pegou no chapéu, tirou-lhe o pó, pô-lo em cima da mesa, depois tirou o casaco, tudo sem dizer palavra, e desabotoou o colete: "Vá, olhe pr'áqui, pr'ás minhas calças. Eu era tão gordo como isto, veja o espaço que há agora, cabem aqui dois punhos grandes um em cima do outro, é da fominha que se passa. Tudo sumiu.

    A pança inteira pr'ó diabo. Assim se arruína uma pessoa, porque não se foi sempre como se devia ser. Não acho qu'os outros sejam muito melhores. Não, nessa não acredito eu. Querem é pôr uma pessoa doida."

    O barba-castanha cochichou para o ruivo: Toma, pr'a que saibas. Saiba o quê? Qu'é um condenado, é o que é. E daí. O libertado: Depois é assim: foste libertado e estás outra vez dentro, no meio do esterco, e continua a ser o mesmo esterco dantes. Não há razão nenhuma pr'a rir. Voltou a abotoar o colete: Veja bem o qu'eles fizeram. Vão buscar o homem morto ao buraco, o patife com a carroça dos cães aparece por ali e atira lá pr'a cima o homem morto, que se matou, cabrão maldito, porqu'é que não o mataram logo, pecar desta maneira contra um ser humano, e seja ele qual for. O ruivo, cabisbaixo: O qu'é que s'há de dizer. Sim, será que não somos nada porque uma vez fizemos uma coisa mal feita? Todos os que estiveram dentro podem endireitar-se outra vez, seja o que for que tenham feito. [Arrepender-se, qual quê! Uma pessoa precisa de ar pr'a respirar! É desatar à pancada! Assim deita-se tudo pr'a trás das costas, tudo passa, o medo e tudo.] Eu só vos queria mostrar uma coisa: não deveis dar atenção a tudo o qu'o meu cunhado vos conta. Muitas vezes não se consegue tudo o que se queria, muitas vezes as coisas correm de outra maneira. Isto não é justiça nenhuma, arremessar co'uma pessoa pr'ó esterco que nem um cão vadio e ainda por cima despejar-lhe lixo pr'a cima, e é esta a justiça pr'a com um homem morto. Diabos os carreguem. Mas agora quero despedir-me de si. Aperte-me cá esses ossos. O senhor está cheio de boas intenções e o senhor também [apertou a mão ao ruivo.] Chamo-me Biberkopf, Franz. Foi um gesto bonito, vocês terem-me acolhido. O meu passarinho já cantou no pátio. Pois então, à saúde do homem novo, isto há de passar. Os dois judeus apertaram-lhe a mão, sorrindo. O ruivo reteve-lhe a mão demoradamente, estava radiante: Sentis-vos mesmo bem? Será um prazer, quando tiverdes tempo, passai por cá. Obrigadinho, há de se fazer os possíveis, tempo é fácil de arranjar, o pior é o dinheiro. E deem cumprimentos ao senhor idoso de há bocado. Aquilo é que é força de mãos, apre, aposto que dantes já foi carniceiro, não? Ah, é verdade, ainda vamos num instante compor o tapete que saiu todo do sítio. Mas não, vamos nós fazer tudo, e a mesa também, pronto, já está. Estava atarefado no chão, e riu de trás para o ruivo: Estivemos sentados aqui em baixo a contar histórias um ao outro. Desculpe lá, mas é um assento bem catita.

    Acompanharam-no à porta, o ruivo estava preocupado: Estareis em condições de ir sozinho? O barba-castanha fez-lhe sinal com o cotovelo: Não vás atrás da conversa dele. O preso libertado, caminhando direito, abanou a cabeça, afastou o ar de si com os dois braços [Uma pessoa precisa de ar pr'a respirar, ar, ar e mais nada]: Não s'apoquentem. Podem-me deixar ir à vontade. Foram vocês que contaram a história dos pés e dos olhos, não foram. Pois eu aind‘ós tenho. A mim ninguém mos tirou. Bons dias, meus senhores.

    E lá atravessou o pátio estreito, obstruído, os dois seguiam-no com os olhos, da escada. Levava o chapéu todo enterrado até à cara e não parava de murmurar, até que meteu o pé numa poça de gasolina: Raio de coisa venenosa. Um conhaque é que vinha a calhar. Quem se chegar, leva uma no focinho. Vamos lá ver ond'é que s'arranja um conhaque.

    Tendencialmente pouco animado, mais tarde acentuadas quebras cambiais, Hamburgo em depressão, Londres mais fraco

    Chovia. À esquerda na MünzstraBe cintilavam letreiros que eram cinemas. Não conseguiu passar na esquina, as pessoas estavam na beira de uma vedação, havia ali um buraco fundo, os carris dos eléctricos corriam sobre pranchas atravessando os ares, nesse momento ia a passar um eléctrico lentamente. Olha pr'a isto, estão a construir o metropolitano, deve haver trabalho em Berlim. Mais um cinema ali.

    Proibida a entrada a jovens menores de dezessete anos. No gigantesco cartaz sobressaía a vermelho berrante um senhor em cima duma escada, e uma jovem de assombro abraçava-lhe as pernas, estava sentada na escada enquanto ele lá em cima fazia uma cara marota. Por baixo estava escrito: Sem Pais, Destino duma Criança Órfã em 6 Actos. Pois é isto mesmo que eu vou ver. O orquestrião timbaleava. Entrada sessenta pfennigs.

    Um homem para a rapariga do guiché: Ó menina, não é mais barato para um veterano do Exército Territorial sem barriga? Não senhor, só para crianças menores de cinco meses e com rolha de chuchar. Certo. É a idade da gente. Recém-nascidos a prestações. Bom, então fica em cinquenta, entre lá. Atrás dele um jovem procurava furar, figura esbelta de lenço ao pescoço: Ó menina, eu qu'ria entrar, mas sem pagar. Esta só a mim. São horas d'a mamã te pôr no penico. 'Atão, poss'entrar? Onde? No cinema. Aqui não é nenhum cinema. Essa é boa, não é nenhum cinema aqui. Pela janela do guiché a rapariga chamou o guarda que estava à porta: Ó Max, filho, cheg'áqui. Está aqui um fulano a perguntar s'isto aqui é um cinema. Dinheiro não tem nenhum. Mostra-lhe lá o qu'isto aqui é. O qu'isto aqui é, seu jovem? 'Inda não reparou? Aqui é a Caixa dos Pobres, Secção da MünzstraBe. Afastou o magrizela do guiché e mostrou-lhe o punho: É só quereres e ajustamos já a conta.

    Forçando, Franz entrou. Estava-se precisamente no intervalo. O longo salão abarrotava de gente, noventa por cento dos homens com boina, essa nunca a tiram. Três candeeiros no teto estão cobertos a vermelho. À frente uma pianola amarela com rolos em cima. O orquestrião não para o seu chinfrim. A certa altura faz-se escuro e o filme é passado. Pretende se ensinar uma rapariga meia pateta a ter educação, porquê, não fica muito claro no meio daquilo tudo. Ela limpava o nariz com a mão, coçava o traseiro na escada, era tudo a rir no cinema. Franz sentiu-se invadido por uma sensação maravilhosa, quando desataram a rir à socapa à sua volta. Toda esta gente, pessoas livres, estão a divertir-se, ninguém tem o direito de lhes dizer nada, é mesmo uma maravilha, e eu no meio disto! Depois aquilo continuava. O distinto barão tinha uma amante que, ao deitar-se numa cama de rede, estendia as pernas na vertical. Estava de calças. Isto é que é. Não se percebia o entusiasmo das pessoas com a nojenta daquela palerminha que ainda por cima lambia os pratos. De novo a de perna esbelta aparecia, num lampejo. O barão tinha-a deixado sozinha, agora ela, numa reviravolta, tombava da rede para fora, voando direita à relva, onde se deixou ficar demoradamente. Franz fixava o ecrã de olhar parado, já se via outra imagem, mas ele ainda estava a vê-la tombar da rede e deixar-se ficar no chão. Ia mascando a língua, co'um raio, o que era aquilo. Mas quando um, que afinal era o amante da palerminha, abraçou a distinta dona, uma sensação de calor percorreu-lhe a pele do peito, como se estivesse ele próprio a abraçá-la. Aquilo apoderou-se dele, tirou-lhe as forças.

    Que pedaço de mulher. [Ainda há mais coisas para além das ralações e do medo. Para que tanto disparate? Ar, homem, uma mulher!] Como é que não tinha pensado nisso. Um tipo está à janela da cela a olhar pr'ó pátio por entre as grades. Às vezes passam mulheres, visitas ou crianças ou o serviço de limpeza lá pr'a onde mora o velho. É vê-los por todo o lado à janela, aos presos, e põem-se a olhar, todas as janelas ocupadas, devoram toda e qualquer fêmea. Um guarda recebeu uma vez, por duas semanas, a visita da mulher, de Eberswalde, dantes ia ele vê-la, só de quinze em quinze dias, agora ela aproveitou o tempo a valer, no trabalho tomba-lhe a cabeça a ele de cansaço, mal consegue andar.

    Franz já estava lá fora na rua, à chuva. O qu'é que vamos fazer? Sou um homem livre. Tenho que ter uma mulher. Uma mulher, é o qu'eu tenho que ter. Delicioso prazer, bem agradável, a vida cá fora. Há é que estar de pé bem firme e conseguir andar. As pernas pareciam-lhe molas, não tinha chão debaixo dos pés. Pouco depois, já ali estava uma na esquina da Kaiser-WiIheim-StraBe atrás das carroças da praça, ao pé de quem se foi pôr imediatamente, qualquer uma servia. Co'um raio, donde é que nos vêm de repente estes pés frios. Desandou com ela, mordendo o lábio inferior, tais eram os calafrios, se moras longe não vou contigo. Era só atravessar a Bülowplatz, passando pelas vedações, depois um átrio, chega-se ao pátio, descem-se seis degraus. Ela voltou-se para trás, riu: Ó filho, que ganância essa, ainda me cais pr'a cima. Mal ela tinha fechado a porta, ele agarrou-a. Caramba, deixa-me ao menos poisar o guarda-chuva primeiro. Ele apertava, abraçava, dava-lhe beliscões, esfregava-lhe as mãos pelo casaco, ainda trazia o chapéu, ela deixou cair o guarda-chuva, arreliada: Apre, larga-me, ele gemeu, esboçou um sorriso amarelo e, meio estonteado: Mas o qu'é que se passa? Estás-me a rasgar a farpeia toda. Depois pagas-ma, talvez? Então já vês. A nós também ninguém nos oferece nada. Como ele não a largasse: Não consigo respirar, imbecil. Não deves estar bom da pinha. Era gorda e lenta, baixa, teve de lhe dar primeiro os três marcos, ela pô-los cuidadosamente dentro da cômoda, a chave guardou-a na algibeira. Ele seguindo-a sempre com os olhos: "É

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