Origens do pensamento e da política radical na América Latina: Um estudo comparativo entre José Martí, Juan B. Justo e Ricardo Flores Magón
()
Sobre este e-book
Leia mais títulos de Fabio Luis Barbosa Dos Santos
México e os desafios do progressismo tardio Nota: 0 de 5 estrelas0 notasFronteiras da dependência: Uruguai e Paraguai Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAlém do PT: A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana Nota: 0 de 5 estrelas0 notasUma história da onda progressista sul-americana (1998-2016) Nota: 5 de 5 estrelas5/5O médico e o monstro: uma leitura do progressismo latino-americano e seus opostos Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Relacionado a Origens do pensamento e da política radical na América Latina
Ebooks relacionados
Ditadura e Serviço Social: Uma análise do Serviço Social no Brasil pós-64 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRevolucionários & Democratas: Vivências e Representações (1960-1980 Nota: 0 de 5 estrelas0 notas8/1: A rebelião dos manés: ou esquerda e direita nos espelhos de Brasília Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCristãos pelo Socialismo no Governo de Salvador Allende: Chile 1970-1973 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasGramsci e a Geopolítica: Um debate sobre poder e território Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA luta pelo nacional popular na Bolívia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO marxismo ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO racismo na história do Brasil: As ideologias de desigualdades raciais na formação da sociedade brasileira Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCultura e Trabalho: Olhares Múltiplos Sobre a Experiência Social dos Trabalhadores Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA teoria da revolução no jovem Marx Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA América Latina na era do fascismo Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA revolução boliviana Nota: 0 de 5 estrelas0 notasSilva Jardim e a República: A Trajetória de um Propagandista (1860-1891) Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA greve de 1917: os trabalhadores entram em cena Nota: 0 de 5 estrelas0 notasUm país chamado Brasil: A história do Brasil do descobrimento ao século XXI Nota: 5 de 5 estrelas5/5A era Vargas: (1930-1945) - volume 1 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA "ajuda" norte-americana na formação dos trabalhadores brasileiros Nota: 0 de 5 estrelas0 notasFuturo da Esquerda: Reflexões de um ex-militante Nota: 0 de 5 estrelas0 notasJuventudes latino-americanas Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA Unificação Da Itália E Alemanha Nota: 0 de 5 estrelas0 notasGramsci, Marxismo e Revisionismo Nota: 0 de 5 estrelas0 notasBreve história política da Argentina e de seus governantes: do Vice-Reino do Peru à República Nota: 0 de 5 estrelas0 notas1968 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasNem pátria, nem patrão! - 4 edição: Memória operária, cultura e literatura no Brasil Nota: 0 de 5 estrelas0 notasEducação, terra e liberdade: Princípios educacionais do MST em perspectiva histórica Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Ciências Sociais para você
Tudo sobre o amor: novas perspectivas Nota: 5 de 5 estrelas5/5A Prateleira do Amor: Sobre Mulheres, Homens e Relações Nota: 5 de 5 estrelas5/5Metodologia científica: Princípios e fundamentos Nota: 5 de 5 estrelas5/5As seis lições Nota: 4 de 5 estrelas4/5Neurociências E O Cotidiano Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCalibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva Nota: 5 de 5 estrelas5/5Coisas que a Gramática Não Explica Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCoragem é agir com o coração Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA cultura importa: fé e sentimento em um mundo sitiado Nota: 5 de 5 estrelas5/5Apometria: Caminhos para Eficácia Simbólica, Espiritualidade e Saúde Nota: 5 de 5 estrelas5/5Grau do Companheiro e Seus Mistérios: Jorge Adoum Nota: 2 de 5 estrelas2/5Guia Como Aumentar Seu Penis Definitivamente Nota: 5 de 5 estrelas5/5Fisiologia Do Exercicio Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA Bíblia Satânica Moderna Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCrônicas exusíacas e estilhaços pelintras Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPertencimento: uma cultura do lugar Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCurso De Maçonologia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasBizu Do Direito Administrativo Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMedicina Integrativa Nota: 5 de 5 estrelas5/5A perfumaria ancestral: Aromas naturais no universo feminino Nota: 5 de 5 estrelas5/5Grau do Mestre Macom e Seus Mistérios Nota: 4 de 5 estrelas4/5Quero Ser Empreendedor, E Agora? Nota: 5 de 5 estrelas5/5O martelo das feiticeiras Nota: 4 de 5 estrelas4/5Brasil dos humilhados: Uma denúncia da ideologia elitista Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO que é o luto: Como os mitos e as filosofias entendem a morte e a dor da perda Nota: 5 de 5 estrelas5/5O corpo encantado das ruas Nota: 5 de 5 estrelas5/5A mentalidade anticapitalista Nota: 5 de 5 estrelas5/5
Avaliações de Origens do pensamento e da política radical na América Latina
0 avaliação0 avaliação
Pré-visualização do livro
Origens do pensamento e da política radical na América Latina - Fabio Luis Barbosa dos Santos
Fabio Luis Barbosa dos Santos
ORIGENS DO PENSAMENTO E DA POLÍTICA RADICAL NA AMÉRICA LATINA
UM ESTUDO COMPARATIVO ENTRE JOSÉ MARTÍ, JUAN B. JUSTO E RICARDO FLORES MAGÓN
Editora UnicampEste livro é dedicado à memória de meu pai.
Quem tava no volante do planeta que o meu continente capotou
Chico Buarque, Almanaque
, 1981
Sumário
Prefácio – Confrontos latino-americanos
Jorge Grespan
Introdução
Referências bibliográficas para a análise de Martí, Justo e Magón
1. O dilema da formação nacional na América Latina
1. O sentido da formação
2. Vias da emancipação
3. Vias da revolução burguesa
2. José Martí e a independência cubana
1. A formação cubana
a) A marca da colônia
b) Cuba e a crise do antigo sistema colonial
c) Inserção cubana no mercado mundial
d) Cuba e o imperialismo
2. José Martí e a revolução nacional
a) Visão de Martí sobre a formação cubana
1) Autoctonia
2) Hombre natural
3) Modernidade alternativa e nação
4) Outra história
5) Equilibrio del mundo
b) Martí e o caminho para a formação cubana
1) Leitura da história
2) Partido
3) Programa
c) Desfecho
d) Balanço
3. Juan B. Justo e a reforma argentina
1. A formação argentina
a) A marca da colônia
b) Emancipação argentina
c) Inserção argentina no mercado mundial
d) A Argentina e o imperialismo
2. Juan B. Justo e a reforma socialista
a) Visão de Justo sobre a formação argentina
1) Enquadramento científico
2) Movimento da história
b) Caminho socialista para a formação argentina
1) Luta de classes
2) Via ao socialismo
3) Plataforma socialista
4) A hipótese de Justo
c) Desfecho
d) Balanço
4. Ricardo Flores Magón e a Revolução Mexicana
1. A formação mexicana
a) A marca da colônia
b) Emancipação mexicana
c) Inserção mexicana no mercado mundial e reforma liberal
d) Porfiriato e imperialismo
2. Flores Magón e a Revolução Mexicana
a) Visão de Magón sobre a formação mexicana
1) Enquadramento ideológico
2) Programa do PLM de 1906
3) Sensibilidade histórica
4) Derecho de vivir
b) Caminho magonista para a formação mexicana
1) Junta Liberal no exílio
2) Fontes da radicalização liberal
c) Desfecho
d) Balanço
Conclusão – Comparações
1. Visões da formação
a) Fundamento comum: Indiferenciação ideológica
1) Natureza humana e história
2) Formação e totalidade
b) Especificidade: Origens do pensamento radical
1) Morfologia da formação
2) Horizonte civilizatório
3) Legado
2. Caminhos para a formação nacional
a) Especificidade: Estratégia
b) Fundamento comum: Padrão de luta de classes
1) Contenção democrática
2) Caráter da burguesia
3) Autonomia da classe trabalhadora
Referências bibliográficas
Índice remissivo
Notas
Prefácio
Confrontos latino-americanos
Jorge Grespan
É célebre entre os historiadores a defesa do método comparativo feita por Marc Bloch. No entanto, poucos são os que de fato ousam fazer face ao desafio de realizar um estudo desse tipo. Os perigos são tantos, os riscos tão grandes, que o pesquisador prefere a segurança do trabalho especializado, cauteloso e dirigido a uma única situação histórica. Ele acredita encontrar, assim, a garantia da sua qualidade. De fato, a concentração permite esmiuçar fontes e detalhar aspectos do tema em um nível dificilmente alcançado por um estudo de caráter abrangente. Mas também ficam perdidos, com isso, os benefícios apenas possíveis à visão geral. Ela abarca condições diversas e as relaciona entre si como casos particulares de um todo, cuja compreensão oferece a chave privilegiada para decifrar o sentido de cada caso particular.
Sem receio de aceitar esse desafio e de enfrentar os perigos daí decorrentes, a tese de Fabio Luis Barbosa dos Santos, transformada agora em livro, propõe-se a comparar três situações nacionais e individuais bem diferentes, cada uma das quais mereceria a justo título ser objeto de estudos especializados. Trata-se da Argentina de Juan B. Justo (1865-1928), da Cuba de José Martí (1853-1895) e do México de Ricardo Flores Magón (1874-1922). São mundos à parte, ricos na singularidade que os distingue dos demais: a Argentina, que começava a se industrializar e, com isso, podia já pensar em um socialismo de base operária; Cuba, que nem sequer alcançara a sua independência política da Espanha, missão na qual sucumbiu Martí; e o México, onde a expansão da grande propriedade rural esmagava um campesinato ainda forte o suficiente para reagir e pôr em curso uma das mais importantes revoluções contemporâneas. Casos muito diferentes, mas todos eles definidos por uma condição semelhante de subordinação a interesses e poderes externos, condição que, inclusive, os unificava sob a rubrica de América Latina
na situação mundial típica do capitalismo do fim do século XIX.
Daí o grande interesse na leitura do livro. Para começar, ele não pressupõe a existência da América Latina
, mas reconstitui parte importante do processo pelo qual ela se forjou, aproximando contextos distantes e distintos. Apesar dos milhares de quilômetros que separam os três países, nos três operavam idênticas forças externas do capital europeu e norte-americano, associadas a diferentes forças internas de grupos sociais e políticos que da associação derivavam o seu poder. A diferença das forças internas em cada caso é crucial para determinar a diferença da sua configuração histórica. Ela não é um detalhe a ser deixado de lado na apreensão do todo formado pelas forças externas do capitalismo industrial. Mas ela também não pode ser o aspecto preponderante, que faz perder de vista a inserção comum nos mecanismos mundiais de acumulação de capital. Uma dimensão complementa a outra, contrapondo-se a ela: é da diferença das situações que o todo da acumulação mundial se nutre, para daí levar a uma especialização ainda mais intensa das sociedades de cada país, determinando o seu mercado produtor e consumidor. Descrever esse mecanismo complexo é a tarefa do presente livro.
Para tanto, depois de um capítulo introdutório do problema geral, ele vem dividido em três capítulos centrais, cada qual dedicado a um dos contextos e autores já mencionados. O leitor observará que, fiel à proposta do estudo comparativo, esses três capítulos obedecem rigorosamente a uma mesma divisão de itens. Primeiro, vem sempre uma discussão do contexto histórico – de Cuba, da Argentina e do México, respectivamente –, que o livro chama de formação
, no quadro da questão da formação nacional, clássica dos debates brasileiros. Ela abrange um tópico sobre o traço deixado pela condição colonial e outro sobre o processo de emancipação política, que em Cuba foi tardio, já inserido no bojo do imperialismo do fim do século XIX, tratado nos dois tópicos seguintes. No segundo item, cada tópico apresenta um dos autores estudados – José Martí, Juan B. Justo, Ricardo Flores Magón, respectivamente – depois da discussão do seu contexto nacional. Ao diagnóstico que cada um fez desse contexto, segue uma análise da proposta de transformação social que ele julgou necessária para seu país superar o impasse surgido da emancipação política defeituosa. Por fim, conclui-se com uma explicação dos motivos que teriam levado tais propostas ao fracasso.
É essa sequência que organiza, de fato, a cronologia do livro. Ele não avança da Cuba de Martí até o México de Magón apenas porque quer começar com o que veio antes e continuar conforme a ordem dos acontecimentos no tempo. Mais importante é a radicalidade crescente do projeto político dos autores estudados. Desde a luta de Martí pela genuína independência do seu país, passando pela reforma social profunda, mas realizada por meios institucionais, defendida por Justo na Argentina, até o engajamento de Magón nas linhas camponesas da Revolução de 1910 do México, percebe-se uma evolução. É como se o fracasso da experiência anterior, mais moderada, obrigasse a propor algo mais intenso, no que diz respeito tanto ao diagnóstico quanto à terapêutica dos males nacionais.
Assim, de certo modo, o projeto de cada autor representaria o que Lukács chamou de máxima consciência possível
para a situação em que atuou. Outros projetos competiram com o deles e outros mais radicais os sucederam, mas isso tudo compõe um quadro no qual a sua participação é decisiva. O seu fracasso, um dos temas centrais na reflexão realizada por Fabio Barbosa dos Santos, expõe a composição de classe específica de cada caso, revelando o compromisso de parte da burguesia com os interesses do capitalismo mundial, bem como a relativa imaturidade política dos trabalhadores, incapazes de formular e sustentar um projeto alternativo ao burguês. Em linhas gerais, foi isso que caracterizou o fracasso dos três projetos políticos de acordo com o autor. Teria se mostrado impossível para as frações da classe burguesa em Cuba, na Argentina e no México, apesar da eventual aliança com os trabalhadores, derrotar a fração associada às forças imperialistas e promover o que poderia ser considerado uma revolução burguesa, sujeitando o desenvolvimento capitalista aos interesses da sua sociedade nacional.
Para além da especificidade do momento histórico em que os três autores abordados no livro viveram, pensaram e atuaram, aqui se delineia um quadro mais amplo, uma situação recorrente na história latino-americana desde aquela época. É perfeitamente legítimo, então, perguntar se os limites da subordinação da acumulação de capital ao interesse latino-americano, constatados entre o final do século XIX e o começo do XX, não se perpetuaram pela força contínua da divisão de trabalho do capitalismo mundial? Isto é, será que as mudanças que essa divisão sofreu depois da Segunda Grande Guerra, ou ao termo do século XX, poderiam ter alterado algo de substantivo na relação capitalista entre centro e periferia? Ou, enfim, seria possível um projeto nacional que sujeitasse o desenvolvimento capitalista a outros interesses que não os do próprio capital? Ou será que a radicalidade necessária deve passar por caminhos totalmente alternativos?
São questões sabidamente contemporâneas, que transcendem o marco temporal estrito em que se concentra o presente livro, mas que se colocam no horizonte mais amplo em que ele se situa. Por certo, são só algumas das questões que ele instigará no leitor, e que o seu próprio autor tinha em mente ao escrevê-lo, autorizado pela validade dos confrontos e das comparações também entre épocas distintas. É a vantagem do método que o orienta.
Introdução
O objetivo deste trabalho é analisar, em uma perspectiva comparada, como nascem, evoluem e são frustrados três projetos de democratização radical na América Latina, nos primórdios do imperialismo.1
José Martí (1853-1895) em Cuba, Juan B. Justo (1865-1928) na Argentina e Ricardo Flores Magón (1874-1922) no México lideram esforços intelectuais e políticos orientados a superar os constrangimentos à integração nacional legados pela origem colonial, que se expressam em um pensamento que fundamenta a atuação dos partidos que dirigiram. Vivendo no contexto de difusão das relações de produção capitalistas no continente, esses projetos constituem esforços pioneiros de subordinar o desenvolvimento capitalista aos desígnios da sociedade nacional. A incidência que tiveram para o desencadeamento dos processos que objetivaram – a guerra da independência em Cuba, a reforma política na Argentina e a Revolução Mexicana – atesta a sintonia de suas propostas em relação aos dilemas da conjuntura. O malogro do ideário democrático que representavam indica a prevalência de constrangimentos estruturais que obstam a consumação da nação na América Latina, nesse contexto histórico.
O afloramento simultâneo desses projetos está referido às transformações econômicas e sociais decorrentes da dinamização do setor exportador primário no contexto de afirmação do capital monopolista, no último quarto do século XIX, que ensejou a instalação progressiva dos requisitos para a reprodução capitalista no continente. Do ponto de vista social, a difusão do padrão mercantil corresponde a um desenvolvimento embrionário de setores identificados com a nova ordem. De um lado, a emergência incipiente de burguesias propensas a modificar as relações de poder e o Estado, com o intuito de adequá-los às transformações econômicas e sociais em andamento. Configurava-se para esses setores uma oportunidade de encadear a modernização capitalista a um processo de afirmação do poder burguês. Em outras palavras, franqueava-se a possibilidade histórica da revolução burguesa na América Latina.2
Em oposição à emergência burguesa, as mudanças nas relações de trabalho acenavam para um novo patamar de organização e reivindicação popular, sinalizada pela formação de partidos geralmente nucleados nas principais concentrações urbanas, mas capazes de influir nos acontecimentos políticos nacionais. Combinando em diferentes matizes demandas de conteúdo classista e de sentido nacionalista, essas organizações possuem, a despeito das particularidades de cada caso, uma orientação comum: a democratização das sociedades em que estão inseridas. Ao projetar a questão social na cena política, esses atores procuram dotar o processo de mudança social de um sentido democrático, buscando na integração do conjunto da população através do trabalho as condições para a superação do legado colonial e a afirmação da nação. Em outras palavras, a formação nacional é o horizonte comum do pensamento e da ação política das três lideranças políticas que estudamos.
Partindo de um dilema histórico comum, selecionamos conjunturas contrastantes no panorama latino-americano, visando explorar as potencialidades do método comparado: entre um destino francamente neocolonial (Cuba) e a situação de maior integração nacional (o reformismo na Argentina), eclode a primeira revolução social do século (no México), sinalizando os extremos que balizariam a história do continente no século que se abria. Para estabelecer a comparação, analisamos expoentes do pensamento radical em cada conjuntura e sua expressão política substanciada na ação dos partidos que fundaram e dirigiram. Partindo de premissas teóricas e realidades concretas contrastantes, seus projetos revelam visões da nação e estratégias políticas distintas, cujo desfecho análogo enseja a investigação comparada.
José Martí vive em Cuba a superposição entre a dominação colonial espanhola e a penetração econômica do capital estadunidense, em um contexto em que o desenvolvimento da usina açucareira acirra contradições sociais e econômicas que explodem na Guerra dos Dez Anos (1868-1878). Encerrada em um impasse militar, o conflito precipita o fim da escravidão (abolida oficialmente em 1886) sem solucionar os dilemas que a provocaram. Nessa circunstância, o Partido Revolucionário Cubano forjado por José Martí terá como desafio precípuo a emancipação nacional, que está associada a uma estratégia política de unidade latino-americana como forma de prevenir a intervenção dos Estados Unidos nos assuntos do continente, que se anuncia. O desígnio de nuestra América está assentado em uma concepção de modernidade alternativa à ocidental, valorizando a autoctonia como condição para construir um paradigma diverso de relações sociais, fundado em premissas igualitárias e de sentido integrador, que recuse a luta de classes como elemento constitutivo e permita a afirmação de um ideário humanista singular.
A região do Prata vincula-se, por meio da atividade agroexportadora, ao polo mais dinâmico da economia mundial, experimentando um processo ímpar de crescimento impulsionado por uma torrente imigratória que acelera a urbanização do país e pressiona pela superação dos padrões exclusivistas da política prevalente. Nesse contexto, o Partido Socialista, dirigido por Juan B. Justo, focará sua ação na luta pela dilatação da democracia argentina, que se traduz no combate a toda forma de privilégio, do latifúndio à educação superior restrita aos estratos dominantes. Embora sua interpretação do movimento histórico resulte em um eclipse da questão nacional, uma vez que vê no desenvolvimento das forças produtivas uma via que conduz à diluição dos antagonismos de classe e entre os Estados nacionais, o sentido objetivo da sua atuação política esteve sempre orientado à integração do trabalhador como cidadão. Membro ativo da II Internacional, acompanhando os debates e as correntes da crítica social europeia contemporânea, sua liderança reflete no plano ideológico as ligações do continente com o polo modernizador do capitalismo.
O México vive, sob a liderança despótica de Porfirio Díaz, simultaneamente as pressões pela integração nacional, diante da permanente ameaça expansionista dos Estados Unidos, e as consequências de um desenvolvimento capitalista que agudiza as tensões sociais, principalmente no campo, onde subsiste uma longa tradição de levante popular. Nesse contexto o Partido Liberal Mexicano, liderado por Ricardo Flores Magón, expressou a convergência entre as consignas políticas legadas pela Reforma Liberal comandada por Benito Juárez e a ascendente pressão por democratização social, em um programa que avança as bases para uma revolução democrática nacional, integrando em uma plataforma coerente reivindicações populares a propostas nacionalistas nos marcos do capitalismo. Em que pese a posterior inflexão ideológica dos magonistas, o programa liberal de 1906 será a referência fundamental que nucleará a oposição intransigente nos anos finais do Porfiriato (1876-1910) até a eclosão da Revolução Mexicana (1910).
Partindo de um dilema comum, esses projetos expressam caminhos diferentes de democratização nacional que partilharam de um destino frustrado: a independência cubana foi bloqueada pela intervenção dos Estados Unidos, em conivência com quadros do próprio Partido Revolucionario Cubano (PRC); a dilatação da democracia argentina foi confinada à dimensão política, na qual o triunfo do radicalismo se consagrou como alternativa socialmente conservadora; no México, sucessivos governos foram derrubados em meio a quase uma década de guerra civil, resultado de persistentes esforços para conter o alcance social da revolução detonada. Tomadas em conjunto, essas experiências revelam a derrota de três tentativas para conciliar desenvolvimento e integração nacional nos marcos do capitalismo no continente, sugerindo constrangimentos estruturais para a formação da nação pela via burguesa nesse contexto histórico.
Nossa proposta não é responder às razões desse desfecho histórico nem apontar falhas nas práticas ou nas ideias. Partimos da premissa de que os autores analisados constituem expoentes do pensamento e da política radical em suas conjunturas, expressão da consciência crítica possível na totalidade histórica em que estão inscritos3
. Nessa perspectiva, os limites e contradições que a análise evidencia estão referidos às determinações gerais que o próprio exercício comparativo contribui para explicitar. Esse enfoque supõe nexos indissociáveis entre as ideias e a realidade histórica que as produz, exigindo que se considerem as formas e modos de condicionamento social e histórico do pensamento abstrato
.4
Entre outros fatores, procuramos identificar as raízes ideológicas que informam a problemática dos autores, o diálogo que entabulam com as tendências políticas contemporâneas e a relação antitética estabelecida entre as práticas correntes e os conceitos herdados com o pensamento e a estratégia política inovadora que avançam. Nessa abordagem, o pensamento revela-se colado à formação histórica em que está inserido, fundamentando respostas políticas ao dilema colocado pela conjuntura, marcadas ao mesmo tempo pela particularidade nacional e por constrangimentos estruturais que remetem à origem colonial comum.
Seguindo essa proposta, as perguntas que orientam a investigação de cada caso são: Qual a visão da nação subjacente ao ideário político do autor? Qual o caminho para a formação projetado por sua estratégia política? O que o seu desfecho revela sobre essa problemática naquele contexto? A essas perguntas endereçadas ao estudo dos casos individuais, somam-se aquelas que guiam o exercício comparativo: Quais os constrangimentos ideológicos e políticos comuns do ponto de vista da formação nacional? O que a diversidade de pensamento e de estratégia revela sobre a problemática na conjuntura? E, por fim, consideramos o legado político e ideológico dos autores do ponto de vista da maturação futura da problemática enunciada. Nossa hipótese é que a aproximação entre os três casos indica as balizas que referenciavam a máxima consciência possível da militância radical no continente naquela conjuntura.
O dilema da formação nacional traduz em vocabulário da ciência social brasileira a disjuntiva sobre o caráter do desenvolvimento na América Latina. No campo democrático, parte-se da premissa de que a perpetuação das determinações fundamentais do legado colonial substanciada na articulação entre dependência e assimetria social, não obstante as notáveis transformações operadas em todas as esferas da existência desde a crise do antigo sistema colonial, inibe a consolidação das bases materiais, sociais, espaciais, políticas e culturais do Estado nacional.5
Ao longo do século XX, constituiu-se uma rica tradição do pensamento latino-americano em torno a essa problemática, que se expressou em uma diversidade de correntes políticas e ideológicas desde a Alianza Popular Revolucinaria Americana (Apra) peruana até a Comisión Económica para América Latina y el Caribe (Cepal), passando pelos partidos comunistas a marxistas heterodoxos, cujo denominador comum são os nexos estabelecidos entre a superação da dependência e a democratização social como horizonte de um projeto nacional. A partir dos anos 1960, a evidenciação dos limites da industrialização substitutiva de importações como estratégia para enfrentar o subdesenvolvimento ensejou reflexões fora desse marco teórico que associava desenvolvimento a integração nacional, consagrado pela Cepal desde Raúl Prebisch. A obra Dependência e desenvolvimento na América Latina, de Enzo Faletto e Fernando Henrique Cardoso, é paradigmática dessa inflexão ideológica que atingiria a própria Cepal nos anos seguintes, quando a hegemonia neoliberal consumaria a dissociação entre crescimento econômico e nação na América Latina.6
Nosso trabalho rechaça esse eclipse da dimensão democrática do problema do desenvolvimento, entendendo que o dilema fundamental colocado para as sociedades latino-americanas na atualidade permanece enquadrado pela superação das determinações históricas legadas pela origem colonial que obstam o controle sobre o próprio destino.
Ao enfocar o problema da formação nacional, nosso estudo apoia-se fundamentalmente em dois autores brasileiros: o historiador Caio Prado Jr. e o sociólogo Florestan Fernandes. Embora o primeiro não tenha escrito sobre a América Latina, a ênfase que atribui à empresa colonial para o sentido da formação brasileira permite a extensão da sua matriz interpretativa aos demais casos analisados neste trabalho, cuja origem remete à colonização do Novo Mundo.7
No plano historiográfico, Fernando Novais encaminha essa ampliação, ao abordar o antigo sistema colonial como engrenagem do processo de acumulação primitiva de capital em curso no continente europeu na época moderna.8
Florestan Fernandes, escrevendo nos anos 1960 e 1970 em um contexto de efervescência social e estimulado pela experiência do exílio, empreendeu alguns esforços sistemáticos de análise do padrão de luta de classes não apenas no continente americano, mas para o conjunto do mundo subdesenvolvido. Em particular, sua interpretação sobre o caráter da afirmação do poder burguês na América Latina oferece uma chave de leitura para os processos em que estão inseridos os projetos políticos enfocados neste trabalho.9
Os autores que tomamos como referência para construir o enquadramento da problemática da nossa pesquisa, Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes, inscrevem-se no marco comum de um esforço intelectual latino-americano por incorporar matrizes referenciais do pensamento social europeu na construção de diagnósticos perceptivos da singularidade da condição periférica. Ao recorrermos a pensadores brasileiros para discutir o movimento da história da América Latina, estamos conscientes de que é preciso cuidado para não projetar visões sobre a realidade brasileira para o conjunto do continente. Atentos à diversidade entre as situações históricas envolvidas neste trabalho, que aliás é proposital, procuramos reter aspectos fundamentais dessas interpretações que, em nossa opinião, oferecem uma chave de leitura para o dilema comum a essas realidades: de Caio Prado Jr., retemos a noção de sentido da formação e o caráter contraditório desse movimento histórico; de Florestan Fernandes, a dupla articulação entre dependência e assimetria social que condiciona a afirmação do poder burguês na América Latina e o seu correspondente padrão de luta de classes. Visto de outro ângulo, ao recorrermos a autores latino-americanos para construir um quadro de referência para abordar a evolução histórica dessa realidade, somamo-nos ao esforço por construir um pensamento radical no continente, na dupla acepção do termo: a intenção de buscar a raiz dos problemas a partir de referenciais próprios.
Os autores que informam nossa chave interpretativa para o problema da formação nacional partem de um enquadramento similar. Referindo a origem das sociedades latino-americanas ao fenômeno da colonização na época moderna, entendem que esses países partilham de um dilema histórico comum: subordinar o tempo e o ritmo da mudança social aos desígnios da coletividade nacional. A proposição subjacente é que o passado colonial legou o seu contrário, ou seja, sociedades organizadas a partir da finalidade precípua de explorar o trabalho e os recursos naturais em benefício de interesses mercantis alheios e, portanto, incapazes de controlar o seu destino histórico. Na visão de Caio Prado Jr., as raízes do problema remetem à própria dinâmica da sociedade colonial que engendrou, através de um movimento contraditório, as condições para a formação da nação: a nação engendrou-se a partir da colônia e, ao mesmo tempo, em oposição a ela. Nessa perspectiva, uma linha de continuidade perpassa a emancipação, perpetuando o caráter contraditório do movimento, em que formação nacional e passado colonial convivem em permanente tensão. Nessa chave, a formação da nação é identificada como um longo processo histórico que tem como ponto de partida a emancipação política e cujo horizonte é a consumação de uma sociedade autorreferida, superando a condição reflexa e complementar característica da condição colonial.
Segundo essa perspectiva, a emancipação colonial não se traduziu imediatamente em nação, mas franqueou aos povos americanos a possibilidade de superar sua condição reflexa original e constituir-se segundo um padrão autodeterminado. Essa via supõe uma inversão na forma de inserção das sociedades periféricas no sistema capitalista mundial, subordinando os fluxos de mudança social
