Dom Casmurro
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Machado de Assis
Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) is widely regarded as among the greatest Brazilian writers of all time. The grandson of freed slaves, he was born to a poor family in Rio de Janeiro and, with little formal education, took work as a typographer's apprentice and began to write and publish at age 15. Machado went on to a successful career as a government bureaucrat and writer of romantic fiction. From the late 1870s his style became more complex and ironic, and he went onto write the ground-breaking stories and novels that would permanently charge the course of Brazilian letters, among them Don Casmurro, The Posthumous Memoirs of Brás Cubas and 'The Alienist'.
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Dom Casmurro - Machado de Assis
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1. Literatura brasileira 869.8992
2. Literatura brasileira 821.134.3(81)-34
2ª edição publicada em 2024
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Esta obra reproduz costumes e comportamentos da época em que foi escrita.
Sumário
Capítulo 1. Do título
Capítulo 2. Do livro
Capítulo 3. A denúncia
Capítulo 4. Um dever amaríssimo!
Capítulo 5. O agregado
Capítulo 6. Tio cosme
Capítulo 7. D. Glória
Capítulo 8. É tempo
Capítulo 9. A ópera
Capítulo 10. Aceito a teoria
Capítulo 11. A promessa
Capítulo 12. Na varanda
Capítulo 13. Capitu
Capítulo 14. A inscrição
Capítulo 15. Outra voz repentina
Capítulo 16. O administrador interino
Capítulo 17. Os vermes
Capítulo 18. Um plano
Capítulo 19. Sem falta
Capítulo 20. Mil padre-nossos e mil ave-marias
Capítulo 21. Prima justina
Capítulo 22. Sensações alheias
Capítulo 23. Prazo dado
Capítulo 24. De mãe e de servo
Capítulo 25. No passeio público
Capítulo 26. As leis são belas
Capítulo 27. Ao portão
Capítulo 28. Na rua
Capítulo 29. O imperador
Capítulo 30. O santíssimo
Capítulo 31. As curiosidades de capitu
Capítulo 32. Olhos de ressaca
Capítulo 33. O penteado
Capítulo 34. Sou homem!
Capítulo 35. O protonotário apostólico
Capítulo 36. Ideia sem pernas e ideia sem braços
Capítulo 37. A alma é cheia de mistérios
Capítulo 38. Que susto, meu deus!
Capítulo 39. A vocação
Capítulo 40. Uma égua
Capítulo 41. A audiência secreta
Capítulo 42. Capitu refletindo
Capítulo 43. Você tem medo?
Capítulo 44. O primeiro filho
Capítulo 45. Abane a cabeça, leitor
Capítulo 46. As pazes
Capítulo 47. A senhora saiu
Capítulo 48. Juramento do poço
Capítulo 49. Uma vela aos sábados
Capítulo 50. Um meio-termo
Capítulo 51. Entre luz e fusco
Capítulo 52. O velho pádua
Capítulo 53. A caminho!
Capítulo 54. Panegírico de santa mônica
Capítulo 55. Um soneto
Capítulo 56. Um seminarista
Capítulo 57. De preparação
Capítulo 58. O tratado
Capítulo 59. Convivas de boa memória
Capítulo 60. Querido opúsculo
Capítulo 61. A vaca de homero
Capítulo 62. Uma ponta de iago
Capítulo 63. Metades de um sonho
Capítulo 64. Uma ideia e um escrúpulo
Capítulo 65. A dissimulação
Capítulo 66. Intimidade
Capítulo 67. Um pecado
Capítulo 68. Adiemos a virtude
Capítulo 69. A missa
Capítulo 70. Depois da missa
Capítulo 71. Visita de escobar
Capítulo 72. Uma reforma dramática
Capítulo 73. O contrarregra
Capítulo 74. A presilha
Capítulo 75. O desespero
Capítulo 76. Explicação
Capítulo 77. Prazer das dores velhas
Capítulo 78. Segredo por segredo
Capítulo 79. Vamos ao capítulo
Capítulo 80. Venhamos ao capítulo
Capítulo 81. Uma palavra
Capítulo 82. O canapé
Capítulo 83. O retrato
Capítulo 84. Chamado
Capítulo 85. O defunto
Capítulo 86. Amai, rapazes!
Capítulo 87. A sege
Capítulo 88. Um pretexto honesto
Capítulo 89. A recusa
Capítulo 90. A polêmica
Capítulo 91. Achado que consola
Capítulo 92. O diabo não é tão feio como se pinta
Capítulo 93. Um amigo por um defunto
Capítulo 94. Ideias aritméticas
Capítulo 95. O papa
Capítulo 96. Um substituto
Capítulo 97. A saída
Capítulo 98. Cinco anos
Capítulo 99. O filho é a cara do pai
Capítulo 100. Tu serás feliz, bentinho
Capítulo 101. No céu
Capítulo 102. De casada
Capítulo 103. A felicidade tem boa alma
Capítulo 104. As pirâmides
Capítulo 105. Os braços
Capítulo 106. Dez libras esterlinas
Capítulo 107. Ciúmes do mar
Capítulo 108. Um filho
Capítulo 109. Um filho único
Capítulo 110. Rasgos da infância
Capítulo 111. Contado depressa
Capítulo 112. As imitações de ezequiel
Capítulo 113. Embargos de terceiro
Capítulo 114. Em que se explica o explicado
Capítulo 115. Dúvidas sobre dúvidas
Capítulo 116. Filho do homem
Capítulo 117. Amigos próximos
Capítulo 118. A mão de sancha
Capítulo 119. Não faça isso, querida!
Capítulo 120. Os autos
Capítulo 121. A catástrofe
Capítulo 122. O enterro
Capítulo 123. Olhos de ressaca
Capítulo 124. O discurso
Capítulo 125. Uma comparação
Capítulo 126. Cismando
Capítulo 127. O barbeiro
Capítulo 128. Punhado de sucessos
Capítulo 129. A d. Sancha
Capítulo 130. Um dia…
Capítulo 131. Anterior ao anterior
Capítulo 132. O debuxo e o colorido
Capítulo 133. Uma ideia
Capítulo 134. O dia de sábado
Capítulo 135. Otelo
Capítulo 136. A xícara de café
Capítulo 137. Segundo impulso
Capítulo 138. Capitu que entra
Capítulo 139. A fotografia
Capítulo 140. Volta da igreja
Capítulo 141. A solução
Capítulo 142. Uma santa
Capítulo 143. O último superlativo
Capítulo 144. Uma pergunta tardia
Capítulo 145. O regresso
Capítulo 146. Não houve lepra
Capítulo 147. A exposição retrospectiva
Capítulo 148. É bem, e o resto?
Capítulo 1
Do título
Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos podem ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
– Continue – disse eu, acordando.
– Já acabei – murmurou ele.
– São muito bonitos.
Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: Dom Casmurro, domingo vou jantar com você.
Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixa essa caverna do Engenho Novo e vai lá passar uns quinze dias comigo.
Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama, só não lhe dou moça.
Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.
Capítulo 2
Do livro
Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.
Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto, as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo… Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.
O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não aguenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas creem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal frequência é cansativa.
Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior, é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.
Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos Subúrbios menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas como preliminares, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem; mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras…?
Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo.
Capítulo 3
A denúncia
Ia entrar na sala de visitas quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. A casa era a da Rua de Matacavalos, o mês novembro, o ano é que é um tanto remoto, mas eu não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas; o ano era de 1857.
– D. Glória, a senhora persiste na ideia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que tempo, e já agora pode haver uma dificuldade.
– Que dificuldade?
– Uma grande dificuldade.
Minha mãe quis saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes de concentração, veio ver se havia alguém no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua.
– A gente do Pádua?
– Há algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade, porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los.
– Não acho. Metidos nos cantos?
– É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase que não sai de lá. A pequena é uma desmiolada; o pai faz que não vê, tomara ele que as coisas corressem de maneira que… Compreendo o seu gesto; a senhora não crê em tais cálculos, parece-lhe que todos têm a alma cândida…
– Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez catorze à semana passada; são dois criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez anos, em que a família Pádua perdeu tanta coisa; daí vieram as nossas relações. Pois eu hei de crer…? Mano Cosme, você que acha?
Tio Cosme respondeu com um Ora!
que, traduzido em vulgar, queria dizer: São imaginações do José Dias, os pequenos divertem-se, eu divirto- -me; onde está o gamão?
– Sim, creio que o senhor está enganado.
– Pode ser, minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não falei senão depois de muito examinar…
– Em todo caso, vai sendo tempo – interrompeu minha mãe. – Vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes.
– Bem, uma vez que não perdeu a ideia de o fazer padre, tem-se ganho o principal. Bentinho há de satisfazer os desejos de sua mãe e depois a igreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o Padre Feijó governou o Império…
– Governou como a cara dele! – atalhou tio Cosme, cedendo a antigos rancores políticos.
– Perdão, doutor, não estou defendendo ninguém, estou citando. O que eu quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.
– Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão. Quanto ao pequeno, se tem de ser padre, realmente é melhor que não comece a dizer missa atrás das portas. Mas, olhe cá, mana Glória, há mesmo necessidade de fazê-lo padre?
– É promessa, há de cumprir-se.
– Sei que você fez promessa… Mas uma promessa assim… Não sei… Creio que, bem pensado… Você que acha, prima Justina?
– Eu?
– Verdade é que cada um sabe melhor de si – continuou tio Cosme. – Deus é que sabe de todos. Contudo, uma promessa de tantos anos… Mas, que é isso, mana Glória? Está chorando? Ora esta! Pois isto é coisa de lágrimas?
Minha mãe assoou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ela. Seguiu-se um alto silêncio, durante o qual estive a pique de entrar na sala, mas outra força maior, outra emoção… Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Prima Justina exortava: Prima Glória! Prima Glória!
José Dias desculpava-se: Se soubesse, não teria falado, mas falei pela veneração, pela estima, pelo afeto, para cumprir um dever amargo, um dever amaríssimo…
Capítulo 4
Um dever amaríssimo!
José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às ideias; não as havendo, servia a prolongar as frases. Levantou-se para ir buscar o gamão, que estava no interior da casa. Cosi-me muito à parede, e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas, presilhas, rodaque e gravata de mola. Foi dos últimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto, com um arco de aço por dentro, imobilizava-lhe o pescoço; era então moda. O rodaque de chita, veste caseira e leve, parecia nele uma casaca de cerimônia. Era magro, chupado, com um princípio de calva; teria os seus cinquenta e cinco anos. Levantou-se com o passo vagaroso do costume, não aquele vagar arrastado dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido, um silogismo completo, a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão. Um dever amaríssimo!
Capítulo 5
O agregado
Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido. Também se descompunha em acionados, era muita vez rápido e lépido nos movimentos; tão natural nesta como naquela maneira. Outrossim, ria largo, se era preciso, de um grande riso sem vontade, mas comunicativo, a tal ponto as bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, toda a pessoa, todo o mundo pareciam rir nele. Nos lances graves, gravíssimos.
Era nosso agregado desde muitos anos; meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí, e eu acabava de nascer. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata; levava um Manual e uma botica. Havia então um andaço de febres; José Dias curou o feitor e uma escrava, e não quis receber nenhuma remuneração. Então meu pai propôs-lhe ficar ali vivendo, com pequeno ordenado. José Dias recusou, dizendo que era justo levar a saúde à casa de sapé do pobre.
– Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quiser, mas fique morando conosco.
– Voltarei daqui a três meses.
Voltou dali a duas semanas, aceitou casa e comida sem outro estipêndio, salvo o que quisessem dar por festas. Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a família, ele veio também, e teve o seu quarto ao fundo da chácara. Um dia, reinando outra vez febres em Itaguaí, disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa escravatura. José Dias deixou-se estar calado, suspirou e acabou confessando que não era médico. Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola e não o fez sem estudar muito e muito; mas a consciência não lhe permitia aceitar mais doentes.
– Mas, você curou das outras vezes.
– Creio que sim; o mais acertado, porém, é dizer que foram os remédios indicados nos livros. Eles, sim, eles, abaixo de Deus. Eu era um charlatão… Não negue; os motivos do meu procedimento podiam ser e eram dignos; a homeopatia é a verdade, e, para servir à verdade, menti; mas é tempo de restabelecer tudo.
Não foi despedido, como pedia então; meu pai já não podia dispensá-lo. Tinha o dom de se fazer aceito e necessário; dava-se por falta dele, como de pessoa da família. Quando meu pai morreu, a dor que o pungiu foi enorme, disseram-me; não me lembra. Minha mãe ficou-lhe muito grata, e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara; ao sétimo dia. Depois da missa, ele foi despedir-se dela.
– Fique, José Dias.
– Obedeço, minha senhora.
Teve um pequeno legado no testamento, uma apólice e quatro palavras de louvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto por cima da cama. Esta é a melhor apólice
, dizia ele muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, certa audiência, ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não lhe suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. A
