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Dom Casmurro
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E-book494 páginas4 horas

Dom Casmurro

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Sobre este e-book

Dom Casmurro, obra-prima de Machado de Assis, apresenta a trajetória de Bento Santiago, um homem marcado por suas memórias da infância na Rua de Matacavalos e pelo amor profundo e tumultuado que sente por Capitu. A narrativa, carregada de nuances psicológicas, mergulha no universo do ciúme e da insegurança, revelando a complexidade emocional do protagonista. Com seu olhar perspicaz, Bento nos conduz por um labirinto de lembranças, onde a dúvida sobre a fidelidade de Capitu, com seus olhos de ressaca, permeia cada página. A ambiguidade da história instiga discussões sobre verdade e interpretação, tornando este romance um dos pilares da literatura brasileira e um convite à reflexão sobre as relações humanas e suas intricadas teias.
IdiomaPortuguês
EditoraPrincipis
Data de lançamento24 de jun. de 2025
ISBN9786550971984
Autor

Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) is widely regarded as among the greatest Brazilian writers of all time. The grandson of freed slaves, he was born to a poor family in Rio de Janeiro and, with little formal education, took work as a typographer's apprentice and began to write and publish at age 15. Machado went on to a successful career as a government bureaucrat and writer of romantic fiction. From the late 1870s his style became more complex and ironic, and he went onto write the ground-breaking stories and novels that would permanently charge the course of Brazilian letters, among them Don Casmurro, The Posthumous Memoirs of Brás Cubas and 'The Alienist'.

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    Dom Casmurro - Machado de Assis

    Capa de Dom Casmurro de Machado de Assis

    Esta é uma publicação Principis, selo exclusivo da Ciranda Cultural

    © 2024 Ciranda Cultural Editora e Distribuidora Ltda.

    Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD

    Elaborado por Lucio Feitosa - CRB-8/8803

    Índice para catálogo sistemático:

    1. Literatura brasileira 869.8992

    2. Literatura brasileira 821.134.3(81)-34

    2ª edição publicada em 2024

    www.cirandacultural.com.br

    Todos os direitos reservados.

    Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, arquivada em sistema de busca ou transmitida por qualquer meio, seja ele eletrônico, fotocópia, gravação ou outros, sem prévia autorização do detentor dos direitos, e não pode circular encadernada ou encapada de maneira distinta daquela em que foi publicada, ou sem que as mesmas condições sejam impostas aos compradores subsequentes.

    Esta obra reproduz costumes e comportamentos da época em que foi escrita.

    Sumário

    Capítulo 1. Do título

    Capítulo 2. Do livro

    Capítulo 3. A denúncia

    Capítulo 4. Um dever amaríssimo!

    Capítulo 5. O agregado

    Capítulo 6. Tio cosme

    Capítulo 7. D. Glória

    Capítulo 8. É tempo

    Capítulo 9. A ópera

    Capítulo 10. Aceito a teoria

    Capítulo 11. A promessa

    Capítulo 12. Na varanda

    Capítulo 13. Capitu

    Capítulo 14. A inscrição

    Capítulo 15. Outra voz repentina

    Capítulo 16. O administrador interino

    Capítulo 17. Os vermes

    Capítulo 18. Um plano

    Capítulo 19. Sem falta

    Capítulo 20. Mil padre-nossos e mil ave-marias

    Capítulo 21. Prima justina

    Capítulo 22. Sensações alheias

    Capítulo 23. Prazo dado

    Capítulo 24. De mãe e de servo

    Capítulo 25. No passeio público

    Capítulo 26. As leis são belas

    Capítulo 27. Ao portão

    Capítulo 28. Na rua

    Capítulo 29. O imperador

    Capítulo 30. O santíssimo

    Capítulo 31. As curiosidades de capitu

    Capítulo 32. Olhos de ressaca

    Capítulo 33. O penteado

    Capítulo 34. Sou homem!

    Capítulo 35. O protonotário apostólico

    Capítulo 36. Ideia sem pernas e ideia sem braços

    Capítulo 37. A alma é cheia de mistérios

    Capítulo 38. Que susto, meu deus!

    Capítulo 39. A vocação

    Capítulo 40. Uma égua

    Capítulo 41. A audiência secreta

    Capítulo 42. Capitu refletindo

    Capítulo 43. Você tem medo?

    Capítulo 44. O primeiro filho

    Capítulo 45. Abane a cabeça, leitor

    Capítulo 46. As pazes

    Capítulo 47. A senhora saiu

    Capítulo 48. Juramento do poço

    Capítulo 49. Uma vela aos sábados

    Capítulo 50. Um meio-termo

    Capítulo 51. Entre luz e fusco

    Capítulo 52. O velho pádua

    Capítulo 53. A caminho!

    Capítulo 54. Panegírico de santa mônica

    Capítulo 55. Um soneto

    Capítulo 56. Um seminarista

    Capítulo 57. De preparação

    Capítulo 58. O tratado

    Capítulo 59. Convivas de boa memória

    Capítulo 60. Querido opúsculo

    Capítulo 61. A vaca de homero

    Capítulo 62. Uma ponta de iago

    Capítulo 63. Metades de um sonho

    Capítulo 64. Uma ideia e um escrúpulo

    Capítulo 65. A dissimulação

    Capítulo 66. Intimidade

    Capítulo 67. Um pecado

    Capítulo 68. Adiemos a virtude

    Capítulo 69. A missa

    Capítulo 70. Depois da missa

    Capítulo 71. Visita de escobar

    Capítulo 72. Uma reforma dramática

    Capítulo 73. O contrarregra

    Capítulo 74. A presilha

    Capítulo 75. O desespero

    Capítulo 76. Explicação

    Capítulo 77. Prazer das dores velhas

    Capítulo 78. Segredo por segredo

    Capítulo 79. Vamos ao capítulo

    Capítulo 80. Venhamos ao capítulo

    Capítulo 81. Uma palavra

    Capítulo 82. O canapé

    Capítulo 83. O retrato

    Capítulo 84. Chamado

    Capítulo 85. O defunto

    Capítulo 86. Amai, rapazes!

    Capítulo 87. A sege

    Capítulo 88. Um pretexto honesto

    Capítulo 89. A recusa

    Capítulo 90. A polêmica

    Capítulo 91. Achado que consola

    Capítulo 92. O diabo não é tão feio como se pinta

    Capítulo 93. Um amigo por um defunto

    Capítulo 94. Ideias aritméticas

    Capítulo 95. O papa

    Capítulo 96. Um substituto

    Capítulo 97. A saída

    Capítulo 98. Cinco anos

    Capítulo 99. O filho é a cara do pai

    Capítulo 100. Tu serás feliz, bentinho

    Capítulo 101. No céu

    Capítulo 102. De casada

    Capítulo 103. A felicidade tem boa alma

    Capítulo 104. As pirâmides

    Capítulo 105. Os braços

    Capítulo 106. Dez libras esterlinas

    Capítulo 107. Ciúmes do mar

    Capítulo 108. Um filho

    Capítulo 109. Um filho único

    Capítulo 110. Rasgos da infância

    Capítulo 111. Contado depressa

    Capítulo 112. As imitações de ezequiel

    Capítulo 113. Embargos de terceiro

    Capítulo 114. Em que se explica o explicado

    Capítulo 115. Dúvidas sobre dúvidas

    Capítulo 116. Filho do homem

    Capítulo 117. Amigos próximos

    Capítulo 118. A mão de sancha

    Capítulo 119. Não faça isso, querida!

    Capítulo 120. Os autos

    Capítulo 121. A catástrofe

    Capítulo 122. O enterro

    Capítulo 123. Olhos de ressaca

    Capítulo 124. O discurso

    Capítulo 125. Uma comparação

    Capítulo 126. Cismando

    Capítulo 127. O barbeiro

    Capítulo 128. Punhado de sucessos

    Capítulo 129. A d. Sancha

    Capítulo 130. Um dia…

    Capítulo 131. Anterior ao anterior

    Capítulo 132. O debuxo e o colorido

    Capítulo 133. Uma ideia

    Capítulo 134. O dia de sábado

    Capítulo 135. Otelo

    Capítulo 136. A xícara de café

    Capítulo 137. Segundo impulso

    Capítulo 138. Capitu que entra

    Capítulo 139. A fotografia

    Capítulo 140. Volta da igreja

    Capítulo 141. A solução

    Capítulo 142. Uma santa

    Capítulo 143. O último superlativo

    Capítulo 144. Uma pergunta tardia

    Capítulo 145. O regresso

    Capítulo 146. Não houve lepra

    Capítulo 147. A exposição retrospectiva

    Capítulo 148. É bem, e o resto?

    Capítulo 1

    Do título

    Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos podem ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

    – Continue – disse eu, acordando.

    – Já acabei – murmurou ele.

    – São muito bonitos.

    Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: Dom Casmurro, domingo vou jantar com você. Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixa essa caverna do Engenho Novo e vai lá passar uns quinze dias comigo. Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama, só não lhe dou moça.

    Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.

    Capítulo 2

    Do livro

    Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.

    Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas ­grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto, as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo… Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.

    O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não aguenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas creem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal frequência é cansativa.

    Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior, é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.

    Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos Subúrbios menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas como preliminares, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem; mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras…?

    Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo.

    Capítulo 3

    A denúncia

    Ia entrar na sala de visitas quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. A casa era a da Rua de Matacavalos, o mês novembro, o ano é que é um tanto remoto, mas eu não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas; o ano era de 1857.

    – D. Glória, a senhora persiste na ideia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que tempo, e já agora pode haver uma dificuldade.

    – Que dificuldade?

    – Uma grande dificuldade.

    Minha mãe quis saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes de concentração, veio ver se havia alguém no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua.

    – A gente do Pádua?

    – Há algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade, porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los.

    – Não acho. Metidos nos cantos?

    – É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase que não sai de lá. A pequena é uma desmiolada; o pai faz que não vê, tomara ele que as coisas corressem de maneira que… Compreendo o seu gesto; a senhora não crê em tais cálculos, parece-lhe que todos têm a alma cândida…

    – Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez catorze à semana passada; são dois criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez anos, em que a família Pádua perdeu tanta coisa; daí vieram as nossas relações. Pois eu hei de crer…? Mano Cosme, você que acha?

    Tio Cosme respondeu com um Ora! que, traduzido em vulgar, queria dizer: São imaginações do José Dias, os pequenos divertem-se, eu divirto- -me; onde está o gamão?

    – Sim, creio que o senhor está enganado.

    – Pode ser, minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não falei senão depois de muito examinar…

    – Em todo caso, vai sendo tempo – interrompeu minha mãe. – Vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes.

    – Bem, uma vez que não perdeu a ideia de o fazer padre, tem-se ganho o principal. Bentinho há de satisfazer os desejos de sua mãe e depois a igreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o Padre Feijó governou o Império…

    – Governou como a cara dele! – atalhou tio Cosme, cedendo a antigos rancores políticos.

    – Perdão, doutor, não estou defendendo ninguém, estou citando. O que eu quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.

    – Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão. Quanto ao pequeno, se tem de ser padre, realmente é melhor que não comece a dizer missa atrás das portas. Mas, olhe cá, mana Glória, há mesmo necessidade de fazê-lo padre?

    – É promessa, há de cumprir-se.

    – Sei que você fez promessa… Mas uma promessa assim… Não sei… Creio que, bem pensado… Você que acha, prima Justina?

    – Eu?

    – Verdade é que cada um sabe melhor de si – continuou tio Cosme. – Deus é que sabe de todos. Contudo, uma promessa de tantos anos… Mas, que é isso, mana Glória? Está chorando? Ora esta! Pois isto é coisa de lágrimas?

    Minha mãe assoou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ela. Seguiu-se um alto silêncio, durante o qual estive a pique de entrar na sala, mas outra força maior, outra emoção… Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Prima Justina exortava: Prima Glória! Prima Glória! José Dias desculpava-se: Se soubesse, não teria falado, mas falei pela veneração, pela estima, pelo afeto, para cumprir um dever amargo, um dever amaríssimo…

    Capítulo 4

    Um dever amaríssimo!

    José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às ideias; não as havendo, servia a prolongar as frases. Levantou-se para ir buscar o gamão, que estava no interior da casa. Cosi-me muito à parede, e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas, presilhas, rodaque e gravata de mola. Foi dos últimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto, com um arco de aço por dentro, imobilizava-lhe o pescoço; era então moda. O rodaque de chita, veste caseira e leve, parecia nele uma casaca de cerimônia. Era magro, chupado, com um princípio de calva; teria os seus cinquenta e cinco anos. Levantou-se com o passo vagaroso do costume, não aquele vagar arrastado dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido, um silogismo completo, a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão. Um dever amaríssimo!

    Capítulo 5

    O agregado

    Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido. Também se descompunha em acionados, era muita vez rápido e lépido nos movimentos; tão natural nesta como naquela maneira. Outrossim, ria largo, se era preciso, de um grande riso sem vontade, mas comunicativo, a tal ponto as bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, toda a pessoa, todo o mundo pareciam rir nele. Nos lances graves, gravíssimos.

    Era nosso agregado desde muitos anos; meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí, e eu acabava de nascer. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata; levava um Manual e uma botica. Havia então um andaço de febres; José Dias curou o feitor e uma escrava, e não quis receber nenhuma remuneração. Então meu pai propôs-lhe ficar ali vivendo, com pequeno ordenado. José Dias recusou, dizendo que era justo levar a saúde à casa de sapé do pobre.

    – Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quiser, mas fique morando conosco.

    – Voltarei daqui a três meses.

    Voltou dali a duas semanas, aceitou casa e comida sem outro estipêndio, salvo o que quisessem dar por festas. Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a família, ele veio também, e teve o seu quarto ao fundo da chácara. Um dia, reinando outra vez febres em Itaguaí, disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa escravatura. José Dias deixou-se estar calado, suspirou e acabou confessando que não era médico. Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola e não o fez sem estudar muito e muito; mas a consciência não lhe permitia aceitar mais doentes.

    – Mas, você curou das outras vezes.

    – Creio que sim; o mais acertado, porém, é dizer que foram os remédios indicados nos livros. Eles, sim, eles, abaixo de Deus. Eu era um charlatão… Não negue; os motivos do meu procedimento podiam ser e eram dignos; a homeopatia é a verdade, e, para servir à verdade, menti; mas é tempo de restabelecer tudo.

    Não foi despedido, como pedia então; meu pai já não podia dispensá-lo. Tinha o dom de se fazer aceito e necessário; dava-se por falta dele, como de pessoa da família. Quando meu pai morreu, a dor que o pungiu foi enorme, disseram-me; não me lembra. Minha mãe ficou-lhe muito grata, e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara; ao sétimo dia. Depois da missa, ele foi despedir-se dela.

    – Fique, José Dias.

    – Obedeço, minha senhora.

    Teve um pequeno legado no testamento, uma apólice e quatro palavras de louvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto por cima da cama. Esta é a melhor apólice, dizia ele muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, certa audiência, ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não lhe suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. A

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