África no Mundo Livre das Imposturas Identitárias
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Sobre este e-book
necessária ao desenvolvimento e inserção justa no mundo. Externamente, é atribuído um papel a África que também inviabiliza esse desenvolvimento e inserção, enquanto africanos e seus descendentes em outros
continentes sofrem discriminações e negação de direitos de cidadania. As políticas identitárias são inimigas da cidadania e as sociedades africanas têm de sair das lamentações e partir para lutas criadoras de força própria capaz de derrubar as imposturas locais ou globais.
Jonuel Gonçalves
Participou nas lutas pela independência e democratiza_x0002_ção de Angola, tendo estudado em universi_x0002_dades e escolas superiores do Senegal, França, África do Sul e Brasil, onde se douto_x0002_rou. Foi membro de entidades africanas de ciências sociais e de coordenação económica. Atualmente, conduz um projeto de pesquisa sobre países do Atlântico Sul, baseado em centros académicos de Portugal, Brasil e Angola. Publicou livros e artigos em vários países, dos quais «A Ilha de Martim Vaz», «Franco-atiradores» e «E Se Angola Tivesse Proclamado a Independência em 1959?» pela Guerra e Paz.
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África no Mundo Livre das Imposturas Identitárias - Jonuel Gonçalves
ÁFRICA NO MUNDO
Título: África no Mundo – Livre das Imposturas Identitárias
Autor: Jonuel Gonçalves
© Autor e Guerra e Paz, Editores, S. A., 2020
Reservados todos os direitos
A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico.
Revisão: Marília Laranjeira
Design: Ilídio J.B. Vasco
Isbn: 978-989-702-660-7
Guerra e Paz, Editores, Lda
R. Conde de Redondo, 8–5.º Esq.
1150-105 Lisboa
Tel.: 213 144 488 / Fax: 213 144 489
E-mail: guerraepaz@guerraepaz.pt
www.guerraepaz.pt
Índice
Introdução
O discurso da separação
As armadilhas
A constante migratória
Cidadanias e migrações nos membros da CPLP
Comunidade e cidadania
Valores-mundo
A mecânica do disfarce
Linhas de base
Bibliografia
INTRODUÇÃO
1.
Este texto estava em fase de revisão quando uma pandemia fechou quase metade da humanidade em casa, paralisou grande parte das atividades económicas e desencadeou uma vaga planetária de medo com efeitos para muito tempo. Em geral, nos tempos mais recentes, os vírus mais ameaçadores têm surgido no continente africano, de tal forma que foram construídos em alguns pontos do globo estereótipos segundo os quais esses vírus e consequente caos são características de África.
Desta vez, todos os continentes sofreram um ataque de enorme envergadura, e esse tipo de estereótipo caiu.
Do ponto de vista socioeconómico, África sofreu como os outros e, como é mais vulnerável porque mais atrasada, o seu esforço de recuperação terá de ser mais intenso e profundo, senão ficará ainda mais para trás.
A pandemia acrescentou cifras e percentagens aos problemas do continente, mas não alterou o fundo de nenhum dos problemas anteriores. Assim, com umas breves atualizações, o texto resistiu à pandemia.
Para resistir ao vírus, África defendeu-se com o mesmo tipo de precauções dos demais, dentro dos seus meios. Todo o mundo adotou formas de defesa semelhantes, todos os países estiveram muito atentos ao que se passava com os demais, embora sob prismas opostos: o da solidariedade global e o da rejeição xenófoba. Em todos os continentes ambos os prismas estão, aliás, sempre presentes, África incluída. É impossível avaliar qual dos dois é mais forte na humanidade atual, mas a saída da crise coloca com mais urgência o imperativo de grandes articulações, acordos, trocas de dados e pesquisas.
O choque, já manifesto no período pré-pandémico, entre o isolacionismo – sob designações como soberania ou identidade – e a real inserção mundial, estará no centro do relacionamento global e da respetiva luta de hegemonias. Ficar fora deste choque é impossível e, para continentes como África, optar pelo isolacionismo é suicídio. Ainda assim, não faltam setores em África que o proponham de facto.
Aqui trata-se de debater vias de pensamento e ação para África se inserir no mundo sem subalternidades. Nem em relação aos grandes centros mundiais nem em relação a formas de poder interno que igualmente condenam os povos à subalternidade.
É um debate iniciado duas vezes: durante a luta pelas independências e nas tentativas de transições democráticas. Para quem esteve em alguma da duas (ou em ambas), é de novo uma situação que, a nossos olhos, exclui «qualquer compromisso, qualquer escapatória. É o tudo ou nada. Nada de acomodação, meias-medidas, jogo duplo» (Vernant: 2009).
Salvo muito raras exceções, das duas vezes fomos traídos por pequenas cliques que tomaram e fecharam os espaços políticos, económicos e de difusão do pensamento. Dominaram-nos por culpa nossa. Deixamos andar; na luta pela sobrevivência, esquecemos a vida e o mundo; na busca de refúgios, isolamo-nos e, no cansaço de tudo isso, ficamos encostados aos imbondeiros, elogiando a beleza da paisagem.
Os criadores das subalternidades, locais ou mundiais, mantinham sobre nós um olhar vigilante, paternalmente dizendo que estávamos certos ao apreciar a paisagem e que, além disso, éramos especiais, caso à parte no mundo, a ponto de não se aplicarem a nós valores aplicáveis aos demais no mundo.
2.
Em algumas ciências sociais, a expressão «identidades» tem sido apresentada como teoria científica. Falso. Trata-se de ideologias amplamente fundadas em estereótipos e empenhadas na atribuição de centralidade às fronteiras (geográficas, raciais ou mentais, nacionais ou locais, às vezes até de simples bairros) que, no caso africano, têm a particularidade de terem sido fixadas ou induzidas pelo maior inimigo histórico do continente: o colonialismo. Estas ideologias geram afastamentos com base na premissa «cada um dentro do seu espaço» – espaço em que os identitários criam «perfis» que mudam, no mínimo, a cada geração. Um perfil que se altera a cada geração tem, naturalmente, como desenho principal a mudança e não as heranças, cuja presença é apenas um dos vários elementos históricos, e não único, nem mesmo o principal. Estas noções ideológicas decorrem de um «determinismo histórico» copiado de outras ideologias, que tem como objetivo diminuir o papel do ser humano na construção das correlações de forças e seus resultados transformadores em todos os espaços habitados.
Grande parte das formulações identitárias concorda que os indicadores de que se servem estão sujeitos a mudanças e a diversificação. Amartya Sen nota, com muita lucidez, que a mesma pessoa «pode, por exemplo, ser um cidadão
