Guattari/Kogawa: Rádio live. autonomia. japão
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Sobre este e-book
Entre a Autonomia, a Psicanálise, as Rádios Livres, o pensamento de Antonio Negri e outros temas políticos relevantes, as afinidades eletivas dos dois pensadores tecem uma trama de diversos nós. Expressam-se aqui dois confidentes que trocam memórias de vidas à luz de um sol de promessas.
Encontro que fez emergir potentes centelhas de dois pensadores autônomos genuínos que trocam mistérios sobre temáticas que os traspassaram ao longo de suas vidas e que, graças à ebulição dos encontros, foram capazes de se materializar, agora, neste livro.
O livro também reúne uma entrevista, realizada pelos tradutores, Anderson Santos e Álan Belém, com Tetsuo Kogawa, "Rádioarte, esquizoanálise e Japão", materializada em diversas ondas que ecoam na forma de palavras-projéteis, perfurando a história: para que espiemos, através de seus furos, o pensamento insurgente daqui ao outro lado do mundo.
A obra também reúne traduções, inéditas em português, de textos do filósofo japonês, Tetsuo Kogawa, são eles: "Tóquio, a orgulhosa"; "Rádios Livres Populares"; "Manifesto por uma Rádioarte"; "Da rádio livre à terapia social, uma história japonesa"; "Rádio e mini-FM"; "Patologias sociais e terapias alternativas"; "Pensando com as mãos: uma outra arte da rádio"; Rádioarte; "Devir-artista"; "Uma filosofia do acontecimento".
Os textos trazidos aqui se espalham em uma miríade de dobras e evocam uma filosofia em constante devir.
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Guattari/Kogawa - Félix Guattari
Apresentação
O presente livro resulta de um acontecimento. Foi o acaso que nos levou ao encontro do site Anarchy¹, espaço translocal e polimorfo em que as pulsações políticas do desejo do filósofo e rádioartista Tetsuo Kogawa pululam desde 1995, ano em que criou o próprio servidor, iniciando a circulação de seus artigos e a comunicação com uma multidão em outros territórios pelo mundo. Agenciamentos
é o nome que damos a estas conexões que aumentam em multiplicidades incontáveis; e isto diz respeito ao rizoma fazendo fluxos percorrerem corpos múltiplos por estas terras, sentindo a vida mais viva. É todo um universo imenso de afetos que nos transpassa como ondas do mar, do ar, ondas de um amar. Dito isto, percebemos que não existem mais pontos como em uma estrutura, nem mesmo raiz, mas linhas e forças.
Em entrevista a François Dosse², Hidenobu Suzuki, antigo aluno de Gilles Deleuze e responsável pelo registro³ de todos os seminários do filósofo entre 1979 e 1987, diz que, segundo Félix Guattari, as duas cidades que mais lhe interessavam eram São Paulo (Brasil) e Tóquio (Japão). Dois laboratórios imensos a céu aberto, assim como o pensamento de Guattari e Deleuze. O duplo. A dupla. Um militante-multidão cujo pensamento ecoa cada vez mais em territórios através do mundo. Evidentemente, tudo isto ressoa em nós, como uma ferramenta que faz a máquina de guerra funcionar. A fábrica se torna cada vez mais potente, aliada a Guattari e a tantas outras pessoas que viveram em sua companhia, contribuindo para a produção de vida.
De início encontram-se neste livro a transcrição e tradução de três entrevistas de Kogawa com Guattari em Tóquio. Afinal, como Guattari chegou ao Japão naquela época? É difícil datar com precisão algumas de suas visitas⁴. Entretanto, com a contribuição de Kogawa – que buscou com seus colegas a informação mais precisa da chegada de Guattari ao Japão – descobrimos que seu pouso neste território aconteceu em 11 de outubro de 1980, por meio do programa de intercâmbio de intelectuais franceses, sob a curadoria do Instituto Franco-Japonês de Tóquio, juntamente a Alain Jouffroy⁵, permanecendo no país até 25 de outubro daquele ano. No programa do Instituto Franco-Japonês, Guattari ministrou duas palestras⁶ (na capital e em Kyoto), participou de um simpósio de psicanalistas (não filósofos, nem acadêmicos literários) e abriu diálogos com o psicanalista Kimio Moriyama, que integrava um círculo de aliados políticos e militantes. Moriyama se interessou pelo trabalho de Guattari como o de um ativista e psicanalista que se movimentava de maneira semelhante e, chegou, também, a convidar Guattari para retornar ao Japão. De acordo com Kogawa, Moriyama relatou ter ficado muito surpreso e impressionado antes mesmo de seu primeiro encontro com Guattari, uma vez que foi visitar o prédio Akarenga da ala médica da Universidade de Tóquio, sob controle autônomo desde 1968, local que ele visitaria novamente, provavelmente em 1985.
Para Kogawa, é estranho que Guattari nunca tenha escrito sobre Moriyama enquanto escreveu sobre Keiichi Tahara, Tanaka Min, Shin Takamatsu, entre outros, que pertenciam à cultura tradicional.
As teses de Guattari e Deleuze começaram a circular em território japonês somente após 1977, ano em que o pesquisador e tradutor da literatura francesa, Koichi Yoyosaki (1935-1989), realizou a tradução de Rizoma para o idioma. Posteriormente, um erudito literário traduziria Kafka: Por Uma Literatura Menor, em 1978, apresentando, entretanto, diversos erros de tradução. A primeira publicação de O Anti-Édipo no Japão ocorreria somente nos anos 80. Cabe ressaltar que, nos anos 1979/80, inexistia qualquer tradução da produção intelectual de Guattari para o japonês que não estivesse ligada ao nome de Deleuze. Somente a partir dos anos 80, por meio de Masaki Sugimura e seus trabalhos como tradutor das obras A Revolução Molecular⁷, As Três Ecologias⁸ e Psicanálise e Transversalidade⁹, as ideias guattarianas seriam multiplicadas no idioma. Engajado em sua militância contra o sistema do Imperador e incomodado pela situação política no Japão, Sugimura contribuiu para as lutas com essa importante caixa de ferramentas para uma revolução molecular. Na sequência, os tradutores Sugim, Kan Miyabayashi e Akihiro Ozawa, publicariam Os Anos de Inverno¹⁰ e Caosmose¹¹. Não podemos esquecer de mencionar a importante publicação das obras O Inconsciente Maquínico¹² e Cartografias Esquizoanalíticas¹³.
O que há em comum em Guattari/Kogawa? Agenciamentos, multiplicidades, rizomas, militâncias, pesquisas e produções entre cinema, literatura (Kafka!), tecnologia, mídia, rádios livres, etc. Porém, persiste sobre Guattari/Kogawa ainda uma certa invisibilidade em determinados espaços de produção do saber.
Não sabemos por qual motivo o encontro com Kogawa e seus contatos para além de Suzuki e Uno (este último, filósofo e um dos tradutores de O Anti-Édipo¹⁴ e Mil Platôs¹⁵ para o japonês), permaneceram ausentes no livro Gilles Deleuze & Félix Guattari: biografia cruzada.. Nos anos 80 Uno também convidou Guattari para ir ao Japão, onde chegou a apresentar uma conferência sobre a esquizoanálise na universidade de Kyoto¹⁶, onde visitou hospitais psiquiátricos e conheceu militantes de Okinawa.
O encontro entre Guattari e Kogawa aconteceu através da mediação de Naoyuki Takashima¹⁷, editor do jornal radical Nippon Dokusho Shinbun ao qual o filósofo japonês estava associado como colunista¹⁸. Em 1979, Kogawa causara agitação entre os movimentos de esquerda radical no Japão¹⁹ após a publicação de seu artigo sobre a Autonomia italiana. Deste modo, reconhecido pelo seu trabalho, foi convidado para realizar a entrevista com Guattari – naquela época, durante suas viagens para Nova York, sua pesquisa e leitura já percorria os trabalhos de Guattari e Deleuze, principalmente pelos movimentos na França e Itália pós maio de 68.
O primeiro encontro com Kogawa, em 18 de outubro de 1980, se deu em uma das salas da Casa Franco-Japonesa²⁰, localizada em Tóquio. Por meio dos áudios, é possível perceber a presença de terceiros: fotógrafo, tradutor e o próprio editor, Takashima. Inicialmente a comunicação se realizaria de maneira indireta, mas isto causou certo incômodo em Kogawa, que tomou a atitude de solicitar a permissão de Guattari para que a conversa pudesse ser diretamente em inglês, e o mesmo concordou. Assim, os diálogos circularam entre o inglês e francês, em alguns pequenos momentos com a contribuição do tradutor.
Os territórios Guattari/Kogawa são construídos bloco por bloco. O alicerce se fixava em outros tempos, talvez desde as experimentações de Kogawa nos EUA e a militância de Guattari na França e Itália. Os diálogos desta primeira entrevista atravessam o campo da macro e micropolítica, fenômenos do capitalismo mundial integrado, microfascismos, colonização das mídias, o Autonomia Operaia, movimento liderado por Antonio Negri, preso no final dos anos 70 pela polícia italiana. Guattari destaca o apoio e as manifestações pela libertação dos militantes das rádios livres e dos movimentos de esquerda, assim como do camarada Negri. Em sua fala, nota-se seu envolvimento de corpo e alma nestas lutas e militâncias juntamente a seus aliados de toda parte do planeta. Kogawa nos relata que chegou a organizar um comitê de apoio a Antonio Negri, para o qual o próprio filósofo italiano contribuíra, enviando uma carta em inglês diretamente da prisão de Rebibbia. Este documento foi lido em reunião através da transmissão pirata da rádio livre japonesa. Kogawa declarou estar preparado para alguma ação policial que pudesse vir a acontecer posteriormente, mas nada ocorreu, talvez em razão de a carta ter sido ouvida numa escala pequena demais.
A conversa continua pelas seguintes questões: como surgiram as rádios livres na França? Quais as críticas de Guattari à rádio enquanto mídia de massa? Guattari nos apresenta a Radio 80, em que circulavam transmissões transversais de comunicação. As rádios livres produziam uma outra forma de circulação da palavra, de afetos, uma outra semiótica. O ilustre entrevistado aponta a importância de ocuparmos os meios de comunicação e não deixar as mídias nas mãos do grande capital. O movimento das rádios livres, nesses termos, se refere também à sua reivindicação social em favor de uma luta revolucionária. No âmbito teórico, Guattari comenta sobre seu deslocamento em relação a Nietzsche e sua aproximação a Maurice Merleau-Ponty. Segundo ele, a filosofia de Merleau-Ponty sofrera um apagamento com a onda do estruturalismo dos anos 1950/60. Não obstante, Guattari enfatiza seu conceito de ritornelo como o cruzamento das pesquisas da etologia com o projeto geral do filósofo.
A entrevista caminha para a criação de conceitos: agenciamento, encontro, segmentaridade, desterritorialização, máquinas desejantes. É sempre bom lembrarmos que os conceitos jamais são categorias universais, porém ferramentas para um campo específico. De passagem, fala-se sobre o encontro entre Guattari e Deleuze: como aconteceu? Respondemos de antemão com alguns acréscimos: pós maio de 1968, mais especificamente em 1969, por intermédio de um colega de trabalho de Guattari, o psicanalista e psiquiatra da clínica La Borde Jean-Pierre Muyard. A partir deste encontro-acontecimento sabemos bem o que houve: uma produção imensa de belíssimas composições transdisciplinares, iniciadas pela obra O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia de 1972, culminando em O Que é a Filosofia?, em 1991. Guattari nos conta quem dos dois começou a trabalhar com Kafka e qual foi o momento para esta produção acerca dos estudos da libido burocrática e perversa nos personagens do autor de Praga. Para o filósofo francês: Kafka é o grande analista de uma mutação fundamental do inconsciente molecular contemporâneo, que nos permite compreender quais foram as mutações libidinais que conduziram ao sistema soviético e ao sistema fascista
.
Somente um trecho desta primeira entrevista foi publicado no jornal Nippon Dokusho Shinbun, em 10 de novembro de 1980. Entretanto, logo após o episódio, Kogawa entrou em contato com Shigeru Hattori, editor do ImageForum, jornal dedicado ao cinema experimental, sobre o recente diálogo com Guattari, e Hattori aproveitou o momento para convidá-los a realizar uma segunda entrevista em conjunto, objetivando saber mais detalhes do pensamento de Guattari acerca das rádios livres na França e Itália.
A segunda entrevista se deu em 24 de outubro de 1980. Neste encontro, o editor levou um intérprete de francês que, no entanto, apresentou dificuldades em traduzir os conceitos de Guattari. Novamente, Kogawa intervém e o entrevista diretamente em inglês. Para ele, o francês ainda era somente uma língua escrita, enquanto o inglês uma língua oral, muito devido às suas viagens a Nova York para realização de suas atividades de pesquisa e alianças com intelectuais norte-americanos. A propósito, o primeiro livro de Kogawa foi uma tradução do livro francês Husserl, de Ludovic Robberechts pela Éditions Universitaires em 1971.
Aqueles que mergulharem na onda sonora desta segunda entrevista se encontrarão com conversas sobre inúmeros tópicos: a situação na Europa no que diz respeito à indústria cultural e às intervenções do Estado, as forças de esquerda enquanto vítimas e cúmplices do sistema, os momentos de enfrentamentos contra o modo de produção capitalista e burocrático em que se confiscam materiais políticos, abrem-se processos judiciais e aprisionam-se militantes; a compreensão de Guattari em relação às rádios livres. Afinal, qual a importância deste movimento para as lutas sociais? Qual a história das rádios livres na França? Qual a diferença em relação a Itália? A Rádio Paris
