Dossiê contra o negacionismo da ciência: A importância do conhecimento científico
De Mozahir Salomão Bruck (Editor)
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Sobre este e-book
Para reafirmar a imprescindibilidade da Ciência, da força do conhecimento para a construção de um mundo mais humano, esclarecido e autossustentável, reunimos nesta publicação textos de professores e pesquisadores da PUC Minas e de instituições de ensino superior e de pesquisa que integram a Rede Mineira de Comunicação Científica.
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Dossiê contra o negacionismo da ciência - Mozahir Salomão Bruck
Dossiê contra o negacionismo da ciência
A importância do conhecimento científico
Mozahir Salomão Bruck
Marisa Cardoso
Marcus Vinicius Dos-Santos
Organizadores
Editora PUC Minas
Belo Horizonte
2022
Créditos
© 2022 – Os organizadores
Todos os direitos reservados pela Editora PUC Minas. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida sem a autorização prévia da Editora.
Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Grão-Chanceler: Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Reitor: Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães
Pró-reitor de Pesquisa e de Pós-graduação: Sérgio de Morais Hanriot
Editora PUC Minas
Direção e coordenação editorial: Mariana Teixeira de Carvalho Moura
Comercial: Paulo Vitor de Castro Carvalho
Revisão: Ana Paula Paiva, Thúllio Salgado, Luiza Seidel
Diagramação: Paola Valamiel, Luiza Seidel
Capa: Cláudio Lutkenhaus
Conselho editorial: Conrado Moreira Mendes, Édil Carvalho Guedes Filho, Eliane Scheid Gazire, Ev’Ângela Batista Rodrigues de Barros, Flávio de Jesus Resende, Javier Alberto Vadell, Leonardo César Souza Ramos, Lucas de Alvarenga Gontijo, Luciana Lemos de Azevedo, Márcia Stengel, Meire Chucre Tannure Martins, Pedro Paiva Brito, Rodrigo Coppe Caldeira, Sérgio de Morais Hanriot.
Ficha catalográfica
Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Ficha catalográfica elaborada por Elizângela Ribeiro de Azevedo - CRB 6/3393
Sumário
Créditos
Prefácio
Apresentação
01.
Afinal, o que caracteriza o conhecimento científico?
02.
Sobre as origens, história e consequências do negacionismo científico
03.
Negacionismo científico e suas bases psicopolíticas e socioculturais
04.
Negacionismo destrói as bases da democracia
05.
A negação da História: discursos negacionistas sobre o passado na contemporaneidade
06.
Negacionismos: a negação histórica do Holocausto e a ditadura brasileira de 1964
07.
Por uma sociedade do envolvimento: desenvolvimento, negacionismo e guerras híbridas
08.
O especialista, o cidadão bem-informado e o homem da rua: pensar o negacionismo a partir dos tipos ideais de Alfred Schutz
09.
Atopia e Exotopia: Os lugares da ciência e da opinião na sociedade
10.
Reflexões sobre a comunicação pública da ciência e o negacionismo
11.
Negar as ciências nas redes sociais: controvérsias e falácias em vozes anônimas sobre a Covid-19
12.
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13.
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14.
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16.
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18.
O letramento científico como estratégia de enfrentamento do negacionismo
19.
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20.
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21.
A participação popular nas Ciências Exatas e Informática e seus efeitos no conhecimento científico e tecnológico
22.
a química das relações sociais
Sobre os autores
Organizadores
Prefácio
LUZ EM TEMPO DE SOMBRAS
A Ciência vem oferecendo, ao longo dos séculos, uma inegável e cara contribuição para a humanidade em várias áreas, como as sociais, exatas, humanas e biológicas e da saúde. Têm sido inúmeros e visíveis, no cotidiano de boa parte da sociedade, os avanços resultantes das investigações científicas realizadas no âmbito das universidades e dos institutos de pesquisa e, ainda assim, temos enfrentado um poderoso movimento obscurantista, contrário à razão e ao progresso intelectual, que nega evidências do aquecimento global, da curvatura da terra, dos benefícios da vacina, entre outros.
Em um contexto de pandemia de Covid-19, vivido globalmente desde março de 2020, essa atitude negacionista tornou-se ainda mais nociva, quando colocou em xeque a vacina e medidas protetivas como o uso de máscaras e higienização das mãos. Especialmente no Brasil, não fosse esse negacionismo, aliado à falta de celeridade na aquisição de vacinas, certamente o número de mortes decorrentes da doença provocada pelo novo coronavírus não teria superado esses lamentáveis mais de 600 mil óbitos. Aprendemos, nesse doloroso processo, que negar a ciência é ir de encontro à vida humana.
Em outra área distinta, mas não menos importante, o descaso com a questão climática e a negação do aquecimento global, contra todas as comprovações apontadas pela Ciência, vêm provocando catástrofes em nível mundial.
Como se não bastasse o negacionismo, enfrentamos no Brasil, já há alguns anos, o corte sistemático de recursos para a pesquisa. O orçamento para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão de incentivo à pesquisa no Brasil, é cerca de metade daquele de 2020 e o menor do século 21. Também se reduziram os orçamentos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). E não há possibilidade de se realizar pesquisa sem investimentos. Corte de recursos aliado à desqualificação da ciência, como vem sendo propagada por negacionistas, é, sem dúvida, a receita certa para o atraso de uma nação.
Para reafirmar a imprescindibilidade da Ciência, da força do conhecimento para a construção de um mundo mais humano, esclarecido e autossustentável, reunimos nesta publicação artigos e ensaios de professores e pesquisadores da PUC Minas e de instituições de ensino superior e de pesquisa que integram a Rede Mineira de Comunicação Científica. Publicada pela Editora PUC Minas, vinculada à Pró-reitoria de Pesquisa e de Pós-graduação da Universidade, a obra reúne textos que examinam as raízes do negacionismo em várias áreas do conhecimento, refletindo sobre as distorções disseminadas por defensores do obscurantismo, que negam, por conveniência ou ignorância, os avanços e benefícios da investigação científica. Os textos jogam luz neste tempo de sombras e apontam a importância do conhecimento, provando que, sem a Ciência, a escuridão é completa.
Prof. Dr. Sérgio de Morais Hanriot
Pró-reitor de Pesquisa e de Pós-graduação da PUC Minas
Apresentação
Negacionismo: tanto se fala desse fenômeno, mas seu significado nem sempre é claramente compreendido. Um dos artigos deste e-book propõe defini-lo como escolha voluntária de se recusar o consenso científico amplamente corroborado por resultados independentes
, a partir da avaliação por pares e pelo princípio da repetibilidade. Apesar de não ser um evento novo, o termo tem estado em evidência nestes anos recentes no Brasil e em algumas localidades do mundo. E seu resultado tem se mostrado devastador, especialmente neste período de pandemia de Covid-19, que assolou o mundo nestes anos de 2020 e 2021, avançando nos primeiros meses de 2022.
Foi por negar a ciência que governantes negligenciaram a aquisição de imunizantes no devido tempo. Soma-se a isso o fato de que, também de modo inconsequente, uma parcela expressiva da população mundial deixou de se vacinar contra a Covid-19 e ignorou os protocolos sanitários recomendados, contribuindo para a maior disseminação do novo coronavírus. E esse perfil parece ter sido o principal componente do aumento do número de doentes pela variante Ômicron, além de lamentáveis mortes.
Mas nem só de pessoas antivacina são formados os grupos de negacionistas. Eles perpassam todas as áreas, com discursos e práticas que colocam em xeque não somente a Ciência, mas também as conquistas civilizatórias da humanidade. Na política e na história, estrategicamente tenta-se minimizar ou apagar da memória coletiva fatos que não poderão nunca ser esquecidos, como o Holocausto, a ditadura brasileira, ou desqualificando a existência de outros episódios relevantes com o objetivo claro de provocar uma corrosão das instituições democráticas. Assim também com relação a outras questões, como a climática, quando se rejeita a ocorrência do aquecimento global, até chegar-se ao absurdo da negação da curvatura da Terra, teoria defendida pelos inacreditáveis terraplanistas.
Para contribuir com o aprofundamento deste debate, convidamos pesquisadores da PUC Minas e de instituições vinculadas à Rede Mineira de Comunicação Científica (RMCC), que escreveram artigos e ensaios sobre as suas respectivas áreas do conhecimento. O resultado são mais de 20 textos, produzidos em 2021, que tratam do negacionismo na política, na saúde, na história, na física, na química, na religião, no meio ambiente, na educação, entre outros. São análises que buscam possíveis causas para o recrudescimento do fenômeno e tentam entender a influência de fatores socioculturais, ideologias e crenças que comprometem a edificação de uma postura crítica diante do conhecimento científico e que são agravados em contextos de crise. Diante disso, os autores convergem para um indicativo fundamental no combate ao negacionismo que é a promoção da cultura científica como proposta para capacitar as pessoas para a percepção do fenômeno e das fake news, ou notícias falsas. E mais que isso: como aponta um dos textos, o letramento científico promovido de forma dialógica e contextualizada às realidades distintas, em espaços formais e não formais de aprendizagem, pode ser uma estratégia para o exercício da cidadania, com a percepção da ciência na cultura e suas implicações no cotidiano e nas políticas públicas
.
O objetivo é fomentar esse debate. Esperamos que você possa se valer desse conhecimento, que será democratizado gratuitamente, como missão das instituições que integram essa publicação. Além do mais, viva a Ciência!
Prof. Dr. Mozahir Salomão Bruck
Jornalista Marcus Vinicius Dos-Santos
Jornalista Marisa Cardoso
Organizadores
01.
Afinal, o que caracteriza o conhecimento científico?
After all, what is scientific knowledge?
Paulo Sérgio Lacerda Beirão
Presidente da Fapemig
RESUMO
Qualquer conhecimento somente será considerado científico após ter sido testado e confirmado por observações e/ou experimentações. Mais importante ainda, ele tem de estar aberto a críticas e questionamentos que venham de observações e/ou experimentações. É exatamente dessa característica que resulta a robustez e a confiabilidade do conhecimento científico. Isso é bem o contrário do que ocorre com o negacionismo existente, que se baseia em informações vagas e não comprovadas, muitas das quais não resistem a qualquer reflexão ou simples verificação. A falta de uma educação mais crítica no Ensino Básico torna a opinião pública vulnerável à manipulação por parte de pessoas mal-intencionadas agindo em benefício próprio ou de grupos.
Palavras-chave: Conhecimento científico. Negacionismo. Experimentações. Informação consciente. Pandemia de Covid-19.
ABSTRACT
Any knowledge to be considered scientific must have been submitted to tests and confirmed by observation and/or experimentation. Furthermore, it must be open to scrutiny by verification and questioning from other observations and/ or experimentations. This is what makes the scientific knowledge robust and reliable. Conversely, widespread science denialism is based in flimsy and non-demonstrated information, many of which would not sustain if confronted with the reality. The absence of a better education makes the public opinion susceptible to manipulation, with forged allegations produced by malicious people who actin on their own benefit.
Keywords: Scientific knowledge. Denialism. Experimentations. Conscious Information. Covid-19 Pandemic.
Introdução
Temos assistido, perplexos, a uma onda de manifestações que ferem o bom senso e o conhecimento que a humanidade acumulou ao longo de séculos, e que chamamos conhecimento científico
. De que se trata esse conhecimento?
O conhecimento científico é o que se origina do método científico, consolidado a partir do século XVII. Diferentemente do conhecimento até então acumulado – e devemos reconhecer que há conhecimentos importantes gerados antes da Revolução Científica do século XVII –, o conhecimento científico se assenta sobre uma premissa básica: tem de ser verificado, comprovado! Não existe conhecimento que se possa chamar de científico que se exima da verificação e da crítica. Uma distinção ilustrativa que podemos fazer é com dogmas. Enquanto o dogma exige uma aceitação sem questionamento, o conhecimento científico se aperfeiçoa exatamente com a dúvida, com o questionamento. Qual a contribuição do questionamento? Ao se enfrentar o questionamento com experimentações ou novas observações, caso este seja refutado, o conhecimento se fortalece – fica mais robusto. Caso contrário, se tiver sido constatada a veracidade do questionamento, o conhecimento tem que ser corrigido e é assim aperfeiçoado ou é substituído por um melhor. É importante qualificar esse questionamento – não me refiro a meras opiniões ou palpites, mas a crítica acompanhada de dados ou observações sólidas e consistentes. Portanto, o conhecimento de que o planeta Terra é esférico não se configura como uma opinião. É uma constatação verificada e comprovada de inúmeras maneiras, desde a Antiguidade, e até mesmo com a observação visual (até filmada!) de astronautas. Não cabe ouvir o outro lado
, como se fosse uma questão de opinião. Qual o argumento dos terraplanistas
, além de acreditarem (mera opinião!) em um complô de cientistas e astronautas visando enganar a população?
É claro que, enquanto está sendo gerado, o conhecimento científico está sendo checado e confrontado, e enquanto isso ocorre podem existir incertezas no meio científico. Isso pode trazer a impressão de fragilidade da ciência para a população leiga, geralmente ávida por certezas absolutas, o que a deixa refém de vendedores de ilusões.
A pandemia de Covid-19 nos permitiu acompanhar esse processo, uma vez que, por se tratar de uma doença até então completamente desconhecida, todo o conhecimento sobre ela é e será novo. A doença teve começo na China como uma pneumonia peculiar, caracterizada por uma Síndrome Respiratória Aguda Grave. Em poucas semanas se identificou o vírus responsável pela patologia, um coronavírus diferente dos já conhecidos, que foi sequenciado e teve sua composição caracterizada. Todos esses conhecimentos foram publicados e, dada a relevância do assunto, foram rapidamente verificados e confirmados em vários laboratórios do mundo, inclusive do Brasil, se consolidando como conhecimento científico. Mas havia (e ainda há) várias dúvidas a serem esclarecidas e muito conhecimento a ser adquirido ou comprovado. Por isso, os verdadeiros especialistas muitas vezes respondem a perguntas dizendo: isso não sabemos
(diferentemente das certezas
dos embusteiros). Mas desde o início da pandemia, em dezembro de 2019, muito se descobriu em relação ao modo de transmissão (o que permitiu gerar orientações sobre como evitar a contaminação e sobre a circulação do vírus), ao diagnóstico, ao tratamento (neste caso ainda há muito o que avançar) e à produção de vacinas eficazes (onde, apesar de resultados admiráveis, ainda muito se espera avançar).
Por ser um caso emblemático, vou rememorar como a ciência cuidou da questão do tratamento contra o coronavírus, em especial do possível tratamento com hidroxicloroquina.
Primeiramente é bom lembrar que normalmente a certificação de novos medicamentos é um processo caro e demorado, porque precisa passar por várias etapas rigorosas, com ensaios inicialmente em animais (pré-clínicos) e em seguida em humanos, quando continuamente se verifica a sua segurança (é tóxico? Traz riscos à saúde?) e efetividade. Com a urgência exigida pelas circunstâncias da pandemia, vários laboratórios do mundo procuraram identificar possíveis efeitos positivos com medicamentos já existentes (e, portando, que já tinham sua segurança comprovada). Foram testados vários antivirais, sem bons resultados, bem como outros medicamentos sem correlação com a natureza da infecção. Entre eles, a cloroquina e a hidroxicloroquina. Esses compostos, usados no tratamento da malária e de algumas doenças autoimunes, foram testados inicialmente em preparações de células em cultura (células VERO, originadas de rim de macaco). Nestes testes a cloroquina e a hidroxicloroquina inibiram a entrada do coronavírus na célula e, consequentemente, sua multiplicação. Estes resultados foram muito animadores, embora sujeitos a críticas importantes: trata-se de uma preparação in vitro
, o que não garante sua efetividade in vivo
, e estas células não correspondem aos tipos mais afetados no desenvolvimento da doença - as células do trato respiratório humano. Além disso, essa inibição por cloroquina já tinha sido verificada na mesma preparação com outros vírus, como da dengue, e ela não se mostrou eficaz no tratamento dessa doença. Conforme mencionado anteriormente, questionamentos fazem parte do método científico e essas críticas não significam uma má vontade em relação ao possível tratamento com hidroxicloroquina, mas sim fazem parte de uma etapa importante para consolidá-lo, ou não, como um tratamento cientificamente válido.
Em Marselha (França), o grupo do Dr. Didier Raoult investigou se medicação feita com hidroxicloroquina, administrada com ou sem azitromicina, seria capaz de tratar pacientes acometidos de Covid-19. Os resultados foram publicados em um artigo que saiu na revista International Journal of Antimicrobial Agents. Nesse artigo¹, os autores concluíram, apesar do pequeno número de pacientes (26), que esse tratamento reduz a carga viral após seis dias de uso. Não houve grupo controle. Eles excluíram da análise pacientes aos quais não tiveram acesso no sexto dia por terem sido internados em UTI (3 pacientes), abandonado o tratamento (2 pacientes), e um paciente que morreu com Covid-19. Se incluídos, a gravidade e a letalidade entre os pacientes tratados não seriam significativamente diferentes daquelas observadas em populações não tratadas.
Embora com muitas críticas (e sempre é bom relembrar a importância delas para o avanço do conhecimento científico), os resultados davam esperança nesse novo tratamento. Há uma grande diferença entre querer que um tratamento funcione e a constatação se ele realmente funciona. Por isso mesmo, o padrão ouro dessa experimentação requer que haja grupos controle selecionados aleatoriamente, e que nem os responsáveis pela pesquisa (incluindo a enfermagem) e nem os próprios pacientes saibam a que grupo pertencem. Essa é a forma mais segura de sabermos se um tratamento é eficaz. Afinal, um tratamento ineficaz, mesmo que não faça mal, pode gerar uma falsa sensação de segurança e descuido com procedimentos preventivos comprovados, o que pode levar a resultados trágicos. Por isto, esse e outros tratamentos análogos foram experimentados por vários grupos do mundo, inclusive no Brasil, com todos os controles e rigor científico, que concluíram (infelizmente) que são ineficazes². Além disso, experimentos in vitro
não mostraram inibição pela hidroxicloroquina da proliferação do vírus em células respiratórias humanas.
Mas a prevalência da doença e o grande interesse associado fizeram aparecer o lado sombrio da humanidade: aproveitar da credulidade para manipular a opinião pública em prol de interesses escusos. Entre atitudes negacionistas típicas, houve também o aparecimento de supostas publicações científicas que apenas causaram confusão no público não especialista. Artigos tinham suas interpretações distorcidas para provar
o que políticos, jornalistas, influenciadores e até médicos queriam passar como conhecimento científico.
Essas manipulações e fake news frequentemente circulam com mais desenvoltura do que as informações corretas e cientificamente fundamentadas. Registre-se que há também revistas que não prezam pelo rigor científico, conhecidas como revistas predatórias, frequentemente com nomes pomposos em inglês, que publicam trabalhos malfeitos ou francamente falsos. Isso prejudica a credibilidade do conhecimento científico, porque ao grande público nem sempre fica claro o que é ou o que não é uma fonte cientificamente fidedigna.
Mas para além dessas dificuldades, há outro fator ainda mais preocupante: a frágil educação oferecida à população brasileira. Há informações falsas que não resistiriam a um minuto de reflexão crítica (como se exige no método científico), mas que são aceitas e repassadas acriticamente. Para ficar no exemplo mais caricato, fico imaginando como um terraplanista
encara o fato de as olimpíadas de Tóquio serem transmitidas ao vivo e de madrugada para nós. Será que ele pensa que os japoneses, por alguma estranha compulsão, gostam de fazer seus eventos de madrugada? Será que repara que, embora seja de madrugada no Brasil, o sol está iluminando os atletas no Japão? Como explica o fuso horário invertido? Como pode manter a crença em uma terra plana com o sol iluminando apenas uma parte dela? Por outro lado, como essa mesma pessoa é capaz de aceitar a existência de um complô secreto
revelado por um influenciador e divulgado nas redes sociais, e cujo influenciador sequer revela sua fonte de informação (e que, portanto, não pode ser verificada)? Provavelmente aceita sem pensar. Voltando ao método científico, vimos que a maior força dessa forma de gerar conhecimentos confiáveis está exatamente na crítica e na verificação. Se nossa população estivesse mais familiarizada com o método científico ela seria, provavelmente, menos vulnerável à manipulação e, portanto, mais consciente.
Para concluir, se queremos ter uma sociedade assentada nos pilares da informação consciente dos seus cidadãos, temos que oferecer uma educação não dogmática, para que o espírito crítico dos nossos jovens seja estimulado e aperfeiçoado. Isso trará benefícios tanto na sua futura atuação profissional como na sua atuação como cidadão. Naturalmente isso não será do agrado daqueles que se beneficiam hoje do poder por manipular a opinião e os valores das pessoas.
Referências
GAUTRET, P. et al. Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label non-randomized clinical trial. Int J Antimicrob Agents 56(1): 105949, 2020. doi: 10.1016/j.ijantimicag.2020.105949
MARTINS-FILHO, PR et al. Efficacy and safety of hydroxychloroquine as pre-and post-exposure prophylaxis and treatment of COVID-19: A systematic review and meta-analysis of blinded, placebo-controlled, randomized clinical trials Lancet Reg Health Am. 2021 Aug 29;100062. doi: 10.1016/j.lana.2021.100062. Online ahead of print.
