Psicologia Clínica Africana: teoria e prática
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Psicologia Clínica Africana - Maylla Chaveiro
1. INTRODUÇÃO
Bàbá esà rè wa
Não há nada mais correto para os povos africanos ou pessoas africanas no mundo, do que a nossa própria experiência histórica. Se nós estamos engajados no processo de maturidade, então precisamos estudar a nossa própria cultura, a nossa filosofia, precisamos honrar nossos ancestrais, precisamos respeitar as tradições filosóficas que durante milhares de anos produzimos. Não podemos simplesmente jogar isso fora, mas a experiência da escravidão, escravatura do colonialismo, o idealismo, nos colocaram longe de nós mesmos, ficamos desorientados e, consequentemente, nos tornamos imitações da Europa.
Dr. Molefe Kete Asante
As únicas pessoas que realmente mudaram a história foram as que mudaram o pensamento dos homens a respeito de si mesmos.
Malcom X
A psicologia clínica afrocentrada é um campo fértil para praticar sankofa, retornando ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro. Voltada à potencialização da afro subjetividade de pessoas negras, com base na aplicação de ferramentas da ancestralidade africana, este modelo de psicoterapia, quando realizada por psicólogas afrocentradas e direcionada para pacientes¹ negras, torna-se um espaço de aquilombamento e de fortalecimento ancestral.
A fim de contribuir para a compreensão de como a ancestralidade africana pode emergir e ser acessada no decorrer do processo psicoterapêutico, este texto busca apresentar alguns componentes metodológicos para uma psicologia centrada em África, retomando nosso legado civilizatório na busca pela integração entre saúde mental, física e espiritual do povo negro.
Nesse sentido, a psicologia clínica que propomos é metaforicamente um portal do retorno², oferecendo elementos psicológicos para relembrarmos do nosso passado em perspectiva pré-colonial e nos esquecendo propositalmente do modo de existir nessa estrutura racista. Sobre esse ponto, o filósofo senegalês Cheick Anta Diop reflete sobre a importância de termos consciência histórica acerca de nosso legado civilizatório:
É preciso conhecer a história dos outros, mas é preciso primeiro conhecer a si mesmo. Porque se não um povo que perde a sua memória histórica se torna um povo frágil, um povo sem união. É a consciência histórica que nos permite sermos um povo forte (DIOP, 1974, p. 93).
A partir de tais elementos, o presente livro tem como objetivo contribuir para o campo de estudos da Psicologia Africana na clínica, apresentando ferramentas metodológicas para intervenções em psicoterapia no atendimento de pessoas negras. A metodologia para escrita deste texto envolveu os seguintes procedimentos: 1) pesquisa teórica; 2) vivências nos contextos da psicologia clínica afrocentradas enquanto psicoterapeuta, supervisora e paciente, 3) observação participante em marchas para valorização da estética negra e empoderamento crespo desde o ano de 2015; 4) experiências com saberes ancestrais de terreiros de matriz africana; e 5) minhas próprias escrevivências como mulher negra. Tendo em vista esses aspectos, me situo simultaneamente enquanto pesquisadora-participante no decorrer do desenvolvimento desta investigação.
Este livro se alicerça nas experiências de supervisões clínicas e de atendimentos clínicos online a pessoas negras das regiões nordeste, norte, sul, sudeste e centro-oeste do Brasil, além de países como Cabo Verde, Moçambique, Angola, Egito, Argentina México, Peru, Chile, Portugal, Espanha, Alemanha, Inglaterra, Nova Zelândia, Grécia, Itália, Dubai, Estados Unidos. Para a produção deste conhecimento, o formato online foi fundamental, pois possibilitou que acompanhássemos³ os deslocamentos subjetivos e geográficos dos povos negros e africanos em diáspora.
Desse modo, a psicoterapia online, na abordagem da psicologia africana, contribuiu de modo eficiente nos campos da prevenção, promoção, manutenção e recuperação da saúde das pessoas negras em atendimento. Isto porque, o formato de atendimentos psicoterápicos online facilita a comunicação, pois a psicóloga e a pessoa negra atendida, podiam estar em cidades/países distintos, além de também possibilitar os deslocamentos geográficos. Outro ponto relevante, é que a psicoterapia online permite maior flexibilidade de horários, pois, em função do sistema racista estrutural⁴, muitas pessoas negras têm jornadas de trabalho muito extensas e exaustivas. Assim, os atendimentos virtuais se tornaram um meio mais fluido e dinâmico, facilitando o acesso a pessoas negras.
Além dessas questões, particularmente, eu me sinto mais protegida com os atendimentos online. Isto porque, tenho desenvolvido um intenso trabalho de enfrentamento às violências múltiplas a partir de reflexões que conduzam à consciência crítica sobre as opressões coloniais; e fazer da clínica psicológica um espaço político é perigoso em um país como o Brasil. Em minhas experiências enquanto psicóloga clínica, já recebi algumas ameaças de pessoas que se beneficiavam dos sistemas de opressão, e que não queriam que minhas/meus pacientes estivessem conscientes das dinâmicas do racismo, machismo, lgbtqiapn+fobia, capacitismo. Assim, o formato de atendimentos online permite que psicóloga e pessoas negras em atendimento se sintam em segurança para imaginar novos cenários de vida, e para elaborar estratégias insubordinadas em nosso quilombo clínico. Os contextos sociais e políticos dos últimos anos no Brasil, foram cenário para o aquilombamento na psicoterapia, traçando estratégias engenhosas de transgressão ao modelo colonial de existência, nos tornando sementes.
Este livro também reflete minha pesquisa de doutorado (CHAVEIRO, 2020) com observações participantes realizadas durante o período de 2014 a 2019 em Marchas do Orgulho Crespo, Marchas do Empoderamento Crespo e Encontros de Crespas em nove capitais brasileiras. Buscamos aprender com as crianças negras algumas estratégias de resistência elaborando reflexões acerca da infância em diáspora, vislumbrando novas produções epistemológicas, estéticas e políticas que se distanciem das elaborações subjetivas coloniais. Os saberes e as desobediências epistêmicas de crianças negras se opondo aos procedimentos de alisamento compulsório foram fundamentais para pensar sentidos pluriversais de mundo, prevendo possibilidades futuras de ontologias contracoloniais que rompam com estratégias de controle de corporeidades negras (CHAVEIRO, 2020; 2021, 2023a, 2023c).
Em outros termos, a estética dos cabelos crespos ofereceu condições simbólicas e subjetivas para que se desenvolvam novas perspectivas de resistência aos campos ideológicos do racismo na psicologia clínica, com o protagonismo das crianças negras. Desse modo, mesmo quando não estive atendendo crianças na clínica, o foco era acolher pessoas adultas negras para que recuperassem sua infância, entendida aqui como uma condição existencial contracolonial (NOGUERA, 2019; CHAVEIRO, 2020). Assim, em nosso aquilombamento clínico, fomos ensinando pessoas a imaginarem novos mundos e a desobedecerem, como fazem as crianças, as normas do racismo nesse mundo. Consideramos, em nossa clínica afrocentrada, a potência criadora de crianças na articulação de novos fundamentos epistêmicos, pois tendo menos tempo de vida na sociedade colonial e racista, elas mantêm legado de nossos ancestrais e não reproduzem acriticamente tantos estereótipos.
Após desenvolver esta intensa pesquisa de campo no doutorado, sendo guiada pela própria ancestralidade, pude incorporar tais saberes na prática clínica, elaborando metodologias que potencializassem a ontologia africana em pessoas negras, como: a corporeidade, o cabelo crespo, a espiritualidade,
