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Cristianismo e Filosofia
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E-book370 páginas4 horas

Cristianismo e Filosofia

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Sobre este e-book

No começo, o cristianismo confrontou-se com a língua grega – compreendida no Oriente, em Roma e nas grandes cidades do Ocidente europeu – e sua cultura, determinada pela filosofia. Entretanto, o diálogo do cristianismo com a filosofia grega foi o caminho encontrado de uma linguagem comum para anunciar o Evangelho de maneira inteligível ao mundo e dar maior consistência lógica ao seu discurso. Nesse encontro do cristianismo com o helenismo, aos poucos, o cristianismo passou a ser considerado "a verdadeira filosofia", sendo a filosofia absorvida paulatinamente pela teologia cristã até a alta Idade Média. Por outro lado, nos tempos modernos e contemporâneos, a teologia distanciou-se não só das ciências, mas também das filosofias modernas e contemporâneas. Não acompanhando a evolução cultural, o cristianismo tende a tornar-se um corpo estranho na própria cultura ocidental, que cada vez é mais determinada pela tecnociência. Objetivando examinar a relação entre cristianismo e filosofia, entre cristianismo e cultura, Urbano Zilles é de parecer que o maior desafio da Igreja católica no mundo contemporâneo não é a ortodoxia doutrinária, mas encarnar o Evangelho de Cristo na cultura plural, sempre mais determinada pela tecnociência e sua linguagem. Inspirado na Sagrada Escritura e na transmissão de sua mensagem através da História, o autor tenta encontrar lugar para repensar a fé cristã e indicar o caminho para enculturá-la com credibilidade no mundo moderno e pós-moderno, sem identificar cristianismo e cultura.
IdiomaPortuguês
EditoraPaulus Editora
Data de lançamento15 de abr. de 2024
ISBN9788534954020
Cristianismo e Filosofia

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    Cristianismo e Filosofia - Urbano Zilles

    INTRODUÇÃO

    No início do cristianismo, os padres apostólicos (ca. 90-160 d.C.) ocuparam-se quase exclusivamente de questões pastorais, manifestando escasso interesse pelas escolas filosóficas da época. Davam prioridade à pregação e à catequese. Elaboraram e escreveram suas reflexões com o objetivo de instruir o povo, conduzindo as comunidades no caminho da fé. Entre tais escritos, podemos citar Didaqué,¹ Carta de Barnabé, Pastor de Hermas, Carta a Diogneto² e autores como Clemente de Roma, Pápias, Policarpo e Inácio de Antioquia.³

    Em meados do século II, passa a ocorrer o confronto entre a fé cristã e a cultura grega, entre o cristianismo e a filosofia grega. Esse confronto tornou-se inevitável, porque ambos reivindicavam a posse de uma sabedoria para a plena realização humana. Além disso, antes do cristianismo, os filósofos gregos já tinham criado o termo teologia para tratar de Deus(es) e de tudo que a ele(s) se refere como parte da própria filosofia (metafísica), pois a filosofia grega também tratava de religião e de Deus.

    O confronto com a filosofia grega proporcionou ao cristianismo a possibilidade de reivindicar validade universal para sua mensagem com recurso à argumentação racional. O diálogo, de parte dos cristãos, foi conduzido por intelectuais convertidos ao cristianismo – os padres apologistas – que tinham frequentado as escolas pagãs de filosofia. Cedo surgiram diferenças entre pensadores cristãos e pagãos, como também entre os próprios cristãos. Os dois primeiros apologistas – Justino e Taciano – expressam posições opostas quanto à filosofia grega. Clemente de Alexandria demonstrou, na teoria e na prática, como a filosofia pode contribuir para uma compreensão mais profunda e uma articulação racional da verdade revelada. No Ocidente, o motivo da fé em busca da inteligência garantiu à filosofia um papel importante e permanente no desenvolvimento teológico através da formulação dos problemas, na precisão de termos e conceitos emprestados para comunicar o Evangelho de Cristo de maneira inteligível ao povo. Alguns padres chegaram a declarar que a filosofia é preparação para o cristianismo.

    No encontro do cristianismo com o helenismo, aos poucos, o cristianismo até passou a ser considerado a verdadeira filosofia, sendo a filosofia absorvida paulatinamente pela teologia cristã até a alta Idade Média. Entrementes, sempre houve exceções, pois grandes pensadores, como Agostinho, Anselmo de Cantuária e Tomás de Aquino, distinguiram claramente entre filosofia e teologia cristã, pois a filosofia tem sua fonte na razão, e a teologia, na fé e na revelação. Nos tempos modernos e contemporâneos, a teologia distanciou-se não só das ciências, rejeitando, durante longo tempo, o heliocentrismo de Galileu Galilei e o evolucionismo biológico de Charles Darwin, mas também das filosofias modernas e contemporâneas.

    Depois do Concílio de Trento (1545-1563), nos cursos de filosofia das faculdades e dos seminários, estudam-se muito os pensadores antigos e medievais, mas há uma lacuna muito grande para um diálogo efetivo com os pensadores modernos e contemporâneos. Enquanto os antigos padres estudavam nas escolas pagãs, depois do Concílio de Trento, a formação do clero passou para a clausura dos seminários. É mais fácil repetir pensamentos pensados em outras circunstâncias culturais, com outra visão de mundo, na clausura dos seminários, que elaborar pensamentos pensantes no confronto com os problemas reais do mundo no qual estamos inseridos. A teologia cristã tradicional distanciou-se cada vez mais da cultura e da vida contemporânea, acumulando ideias abstratas e tentando identificar o mundo com elas, sem maior compromisso com a realidade em permanente e célere transformação.

    No passado, o cristianismo foi criativo. O apóstolo Paulo ousou enfrentar problemas concretos de seu tempo dentro da cultura da época, saindo da sinagoga para a praça de Atenas. Onde há espaço para a necessária liberdade, certamente não faltam criatividade e ação. Problemas científicos ou filosóficos não se resolvem com proibições, censuras e excomunhões, pois a missão da Igreja é orientar o mundo para a salvação e não o condenar pelo dinamismo que o próprio Criador nele colocou. Seria uma contradição o cristão dizer sim ao Criador e não à sua obra. Cabe-lhe anunciar a Boa-nova da Palavra de Deus ao mundo de hoje, na linguagem e na cosmovisão atuais, buscando respostas novas para os problemas novos à luz da fé e da revelação. Por outro lado, sobram respostas para perguntas hoje não mais feitas.

    Desde o Renascimento e o Humanismo, na transição do medievo para a modernidade, também surgiu um distanciamento entre pensadores católicos e não católicos, entre filosofia e teologia, entre teologia e ciências modernas. Na viragem do século XIX para o século XX, houve relevantes tentativas para reconectar a Igreja católica ao desenvolvimento cultural, filosófico e científico, mas essas tentativas, muitas vezes, foram recusadas ou condenadas ao silêncio. Na Igreja católica, somente após a Segunda Guerra Mundial, a resistência das autoridades eclesiásticas tornou-se mais frágil, graças a teólogos, como Karl Rahner, Hans Küng, Hans Urs von Balthasar, Yves Congar, Henri de Lubac, Joseph Ratzinger e muitos outros, que deram sua contribuição corajosa dentro da grande herança cristã e, paulatinamente, quebraram a rejeição global das mudanças. Por outro lado, os estudos de filósofos, como o francês Maurice Blondel e o belga Joseph Maréchal, estimularam homens, como J. B. Lotz, J. de Finance, A. Marc, E. Coreth, B. J. F. Lonergan, a abrir novos caminhos, levando a filosofia e a teologia das escolas ao encontro do pensamento moderno num diálogo com a crítica kantiana, com o idealismo e com as filosofias contemporâneas.

    Salvaguardando o verdadeiro conteúdo da revelação, o Concílio Vaticano II indicou pistas importantes para mediar entre a verdadeira tradição e a percepção dos novos sinais dos tempos. Infelizmente, a Igreja católica vive polarizada entre os pioneiros de uma Igreja aberta ao mundo e os guardiães da verdadeira doutrina cristã. As mudanças numa cultura são permanentes e cada vez em ritmo mais acelerado. Nesta nova situação, é preciso tomar consciência de que a teologia cristã, até meados do século XX, nunca refletiu seriamente a historicidade do pensamento. O próprio discurso da Igreja sobre a Palavra de Deus transmite, concomitantemente, concepções do homem e do mundo que necessitam de um vigilante exame crítico: como é possível mediar, de maneira racionalmente plausível, a fé no Deus uno e trino que se manifesta a si mesmo a nós de tal modo que nosso discurso se torne inteligível e relevante?

    Nosso conceito atual do mundo e do homem não é o mesmo que o dos antigos gregos nem o do medievo. Nosso conceito de filosofia e de ciência também não mais é o do início dos tempos modernos. Ciências separaram-se da filosofia, desenvolveram metodologias e procedimentos próprios e, de alguma forma, limitaram a abrangência e as perspectivas da mãe filosofia. A própria filosofia fragmentou-se num conjunto numeroso de disciplinas e métodos de proceder. Há estudiosos que tendem a seguir o modelo das ciências, especializando-se em algum autor ou em determinada corrente ou disciplina: kantianos, hegelianos, fenomenólogos, marxistas etc. Os especialistas de algumas áreas formam, cada qual, sua associação. Além disso, a metafísica neoescolástica entrou numa crise profunda.

    A teologia cristã parece não ter levado suficientemente a sério essa fragmentação e a autonomia dos saberes nos tempos modernos da cultura pluralista. Com isso, distanciou-se não só das filosofias modernas e contemporâneas, mas também das ciências, desvinculando-se da complexa experiência da vida humana em nossos dias, pairando num mundo abstrato de ideias doutrinárias abstratas, desvinculadas do mundo da vida.

    Neste trabalho, selecionamos alguns tópicos históricos relevantes, indicando que o anúncio da Palavra de Deus deve transmitir a verdade da Tradição, sem deixar de perscrutar os novos sinais dos tempos. A linguagem sempre tem um índice local e temporal, e a fé cristã se concretiza e realiza no espaço e no tempo. As formulações teológicas são históricas. O mistério de Deus sempre permanecerá mistério que podemos aceitar ou rejeitar, sem, todavia, conhecê-lo plenamente no sentido atual do termo. Nenhuma filosofia ou teologia o esgotará.

    Considerando a História uma maneira eficaz de conhecer e apresentar a identidade de uma pessoa ou instituição, selecionamos alguns momentos mais importantes e críticos da longa história de mais de dois mil anos do cristianismo. No decurso dessa longa história, mudaram muitas coisas não só na filosofia, mas também no cristianismo. É preciso estudar essa história para compreender e interpretar a experiência de fé da comunidade cristã e estabelecer sua identidade através das mudanças.

    Primeiro o cristianismo separou-se do judaísmo, mantendo o monoteísmo, o código de ética (os Dez Mandamentos), o espírito de comunidade e a Bíblia judaica e acrescentando, todavia, o Novo Testamento. Saiu da sinagoga para conquistar o mundo pagão para o Evangelho e se impôs a esse mundo e ao poder adverso do Império Romano. Cedo enfrentou controvérsias internas, como o gnosticismo, o marcionismo e o montanismo. Nessa história, coube um papel decisivo à filosofia nascida na Grécia Antiga, pois as diferentes culturas no Império Romano estavam determinadas pela filosofia, e, na Idade Média, pela teologia cristã. Entretanto, nos tempos modernos, a cultura humana passa a ser determinada cada vez mais pela tecnociência.

    Hoje, o cristianismo certamente deverá prender-se menos à linguagem da abstrata e estática metafísica grega e medieval e encarnar-se em formas modernas e contemporâneas para enfrentar problemas novos, como os existenciais e hermenêuticos, a formulação da doutrina da fé e da revelação em nova linguagem, na cosmovisão atual pluralista, como o tentou fazer com sucesso o Concílio Vaticano II, sem renunciar à identidade cristã. Essa é a tese que, a nosso ver, desafia seriamente o catolicismo atual para evitar que, no futuro, papas tenham de continuar pedindo desculpa ao mundo por erros do passado. Afinal, quem somos nós para condenar as transformações culturais resultantes do cumprimento da missão dada pelo próprio Criador ao homem de administrar sua obra com liberdade e responsabilidade?

    Neste estudo, inspiramo-nos na leitura da Einführung in die Fundamentaltheologie⁴ (Introdução à teologia fundamental) de Hansjürgen Verweyen, um dos professores de teologia mais conhecidos e respeitados na atualidade, tendo exercido a docência nos USA (University of Notre Dame, Indiana) e na Alemanha (Freiburg i. Br.), hoje emérito. Aqui tentamos expor e comentar alguns aspectos para o leitor brasileiro. Com Verweyen compartilhamos a ideia de que a teologia fundamental deve oferecer aos estudiosos o acesso às questões mais relevantes que, na atualidade, desafiam a plausibilidade racional e a prática da fé cristã no diálogo interdisciplinar com a filosofia e com as ciências como disciplinas autônomas. As verdades da fé não se identificam com determinada cultura ou expressões de uma época, mas nela devem expressar-se para serem inteligíveis.

    No tempo atual, surgem perguntas novas, como: o cristianismo ainda se expressa de maneira inteligível na cultura sempre mais determinada pela tecnociência? Será capaz de anunciar sua mensagem de maneira convincente ao mundo da cultura pluralista pós-moderna?

    Em nossa exposição, selecionamos alguns tópicos, autores e problemas referentes à relação entre cristianismo e filosofia no decurso da História:

    1) Panorama histórico;

    2) Na Antiguidade cristã;

    3) Na Idade Média;

    4) Iluminismo moderno e tradicionalismo;

    5) Modernismo e antimodernismo;

    6) Filosofia e fé na contemporaneidade.

    1

    PANORAMA HISTÓRICO

    A filosofia nasceu como saber rigoroso na Grécia Antiga com a ambição à totalidade e às causas primeiras de todo o ser e de todo o conhecimento. Atribui-se a criação do termo filosofia a Pitágoras, que se teria justificado perante o público, dizendo que a sabedoria plena está reservada aos deuses, que os homens apenas podem ser amigos da sabedoria (filô do verbo filein: ser amigo; sofia: sabedoria). Na Grécia Antiga, aqueles que se dedicavam à sabedoria eram chamados sofistas (sábios).

    Quando teriam perguntado a Pitágoras a profissão que exercia, não teria quisto chamar-se de sábio, porque lhe parecia presunção. Respondeu que era filósofo, ou seja, amigo da sabedoria. Assim a filosofia adquire o sentido de tendência humana para uma forma suprema do saber à luz da inteligência e da razão em busca da perfeição. Com Platão, a palavra filosofia (amor pela sabedoria) adquiriu vida autônoma e conquistou uma dignidade nunca antes imaginada. Platão acrescentou-lhe o sentido de ciência da ignorância. A pluralidade e diversidade dos sistemas depende do interesse filosófico que pode incidir mais num ou noutro aspecto, terminologia usada e método seguido.

    Segundo Platão, o filósofo ocupa um lugar intermediário entre Deus, que tudo sabe, e o ignorante, que nada sabe. Entendida como um bem reservado aos deuses, a sabedoria não deixa de ser um objeto de desejo legítimo para todos os que a prezam acima de tudo e com amor e perseverança a procuram. Platão afirma que filósofo é aquele que prontamente deseja provar de todas as ciências e se entrega ao estudo com prazer e de forma insaciável: Mas àquele que deseja prontamente provar de todas as ciências e se atira ao estudo com prazer e sem se saciar, a esse chamaremos com justiça filósofo (República V, 475 c).

    A filosofia anterior ao cristianismo inclui o aspecto de uma teologia filosófica, de um conhecimento das coisas divinas e humanas, pois a filosofia grega era teológica desde Tales, Anaximandro e Heráclito. Permaneceu teológica até o neoplatonismo de Plotino e Proclo. O próprio termo teologia, por sua vez, é uma criação do gênio dos pensadores da Grécia Antiga. Somente na Idade Média, a filosofia tornou-se ofício quase exclusivo dos teólogos judeus, cristãos e muçulmanos. Enquanto a teologia dos gregos foi o ofício exclusivo dos filósofos, a filosofia medieval foi o ofício dos teólogos que costumavam ser também filósofos. Na verdade, houve uma passagem da teologia dos filósofos para a filosofia dos teólogos.

    Costuma-se caracterizar o caminho da filosofia, na Grécia Antiga, como caminho "do mito ao logos". O logos é a força que tudo revela, até as parcelas de verdade ocultas na tradição originária do mito, na linguagem expressiva e metafórica. De Heráclito a Platão, realiza-se, pois, uma desmitificação para as pessoas entenderem a profundeza da alma e de seu logos. Na língua grega, logos significa fundamento, palavra, razão. Com Heráclito (535-475 a.C.), logos tornou-se um termo técnico na filosofia ocidental, usado como princípio de ordem que habita a natureza, o homem, o cosmos, os deuses ou astros dando-lhes forma. Aristóteles o emprega para designar o discurso fundamentado racionalmente. O Evangelho segundo João identifica o Logos encarnado com Jesus Cristo, comumente traduzido por Verbo ou Palavra.

    Desde o começo, na Grécia Antiga, desenvolveu-se um conflito em torno do conceito de teologia entre o poético-religioso e o conceitual filosófico, entre mitologia e metafísica. Os pensadores gregos não queriam eliminar o mito, mas interpretá-lo racionalmente, unindo o anúncio mitológico do divino no universo com a questão da causa última ou primeira do fundamento permanente de todo o ser e vir-a-ser e a questão do Ser e do Bem. Assim o termo teologia assumiu um sentido triplo: a) mitológico: discurso sobre os deuses; b) cultual-público: o que se diz dos deuses no culto público; c) filosófico-cosmológico: a partir de Aristóteles, equivalente à filosofia primeira. Platão e Aristóteles distanciam-se dos mitos da religião dos poetas gregos para inaugurar um enfoque verdadeiramente racional na questão de Deus ou dos deuses e do que a ele(s) se relaciona.

    No Império Romano, o cristianismo – como religião monoteísta – teve de justificar-se mais perante a filosofia e menos perante a religião politeísta. Através da História, a relação entre teologia cristã e filosofia oscila de um a outro extremo, desde a identificação de ambas até a rejeição mútua. O termo teologia, etimologicamente, evoca o discurso sobre Deus ou deuses e sobre tudo que a Ele(s) se refere. Portanto, o termo não é de uso exclusivo da religião cristã.

    Aristóteles concedeu um lugar fundamental à teologia filosófica. Na Idade Média, quando os seguidores cristãos e muçulmanos de Aristóteles acrescentaram elementos de seus respectivos livros sagrados, Tomás de Aquino estabeleceu uma definição, distinguindo entre teologia natural (filosófica) e teologia revelada.

    A origem do termo teologia, inicialmente, motivou forte resistência ao uso por parte dos cristãos, porque está ausente na Bíblia, nos escritos dos primeiros cristãos e estava associada ao paganismo. Só aos poucos, o conceito de teologia foi aceito por Justino, Clemente e Orígenes de Alexandria, tornando-se de uso corrente para designar a doutrina acerca do Deus Uno e Trino. Na Idade Média, passou a ter o significado de explicação racional da revelação, significado que mantém até hoje, servindo-se da filosofia como mediação. Portanto, a teologia cristã nasce da necessidade de anunciar a mensagem da revelação de Deus aos homens de diferentes tempos e culturas em busca das razões para a fé. Ouvir a Palavra de Deus implica, naturalmente, uma certa atividade da razão, pois o ser humano, que acolhe a revelação, é um ser racional.

    O ponto de partida da teologia cristã é a revelação que Deus fez de si mesmo através dos patriarcas e profetas ao longo da história de Israel, culminando em Jesus Cristo. A revelação judaico-cristã, testemunhada na Bíblia, não é um corpo de verdades doutrinais, mas narra a automanifestação de Deus na história da salvação, consumada em Jesus Cristo. Portanto, a Bíblia não foi escrita nem deve ser lida como um manual de ciência moderna. Seu objetivo é ensinar o caminho da salvação aos homens. A revelação, enquanto Palavra de Deus no testemunho da palavra humana, é transmitida na fé e na teologia vivas, pois a linguagem da revelação já é um meio interpretativo baseado no diálogo vivo com Deus.

    A teologia não só constitui uma exigência da revelação, mas também está potencialmente na fé de todo crente, pois, para o cristão, é o esforço de compreender e interpretar a experiência de fé da comunidade. A fé cristã, como sim dado à Palavra de Deus (Logos), não se reduz à pura obediência nem à pura confiança na veracidade de Deus. Ela também é conhecimento de acordo com as exigências próprias do espírito humano historicamente condicionado. Dessa maneira, a própria fé tende para uma inteligência cada vez mais perfeita da palavra de Deus. Sendo a fé histórica, a teologia lhe deve ser contemporânea na medida em que se expressa necessariamente numa cultura dada. O ser humano fala e age sempre num horizonte de experiência histórica e linguisticamente condicionada.

    O que, afinal, Jesus Cristo revelou? Ele não apresentou um ensinamento com o caráter de uma nova filosofia ou ciência moderna para aceitar sua mensagem por seu valor de demonstração racional. Jesus ensinou como mestre, anunciando uma mensagem divina a ser acolhida na fé, como uma religião única, verdadeira, universal para todos os seres humanos de todos os tempos. Não pregou um sistema filosófico ou científico, mas um caminho de salvação a todos e a cada ser humano. Sua mensagem, sem dúvida, significou um enriquecimento positivo do pensamento humano e não poderia deixar de influenciar na filosofia a partir do momento em que ambos – cristianismo e filosofia – entraram em contato. O cristianismo apareceu num momento de crise ou esgotamento do pensamento filosófico na Grécia. Roma conquistou o mundo, mas foi incapaz de compreender e assimilar o ideal científico grego. Por isso, nas perseguições do Império Romano, os cristãos também foram questionados por filósofos.

    O cristianismo apresentou-se, pois, como religião fundada numa revelação divina, testemunhada na Sagrada Escritura e na tradição viva, fora do alcance da pura razão filosófica, para dentro de um mundo no qual dominavam os ensinamentos das escolas de filosofias díspares, com seus programas de educação. Saindo da Palestina, foram inevitáveis o encontro e a confrontação do cristianismo com filosofias que já contavam séculos de existência.

    Nesse mundo, o cristianismo apareceu como uma doutrina nova. No momento de crise das filosofias, as religiões pagãs estavam bastante desacreditadas entre seus seguidores, embora contassem com o poderoso apoio oficial do Império. No entanto, o conflito não ocorreu, propriamente, entre cristianismo e religião politeísta, mas entre cristianismo e filosofia, entre revelação e filosofia, entre fé e razão.

    Embora a primeira carta de S. Pedro afirme que o cristão deve saber dar as razões de sua esperança (fé) a quem as solicitar (1Pd 3,15), no começo também houve resistência ao uso da palavra filosofia entre os cristãos. As palavras philosophia e philosophus somente aparecem duas vezes no Novo Testamento: em Cl 2,8, a nota caraterística da filosofia é enganar por estar ligada aos elementos deste mundo, ou seja, às forças mitológicas do paganismo. Em At 17,18, os filósofos – epicureus e estoicos – entram em cena e provocam o discurso apologético de Paulo. O Logos cristão, segundo o apóstolo Paulo, a loucura divina, opõe-se à sabedoria humana, à racionalidade pagã. A causa de Deus é a do crucificado, e não a da sabedoria humana.

    O versículo Cl 2,8, não raro, é apresentado erroneamente como desfavorável à filosofia. O apóstolo Paulo deixa a sinagoga para pregar na praça pública de Atenas. São as primeiras relações públicas da nova fé com a cultura helênica. Paulo vê o cristianismo afirmar-se entre duas culturas várias vezes seculares: judaísmo e helenismo. Os judeus possuíam a revelação divina, mas estavam prisioneiros da letra da lei escrita, acostumados a uma fé que se impunha pela autoridade de Deus, corroborada pelos milagres, não em virtude de argumentos de tipo puramente racional. Os gregos, por sua vez, eram velhos mestres da dialética, acostumados a submeter doutrinas filosóficas ao tribunal da razão.

    Paulo realiza sua pregação nesse duplo contexto. Tanto os gregos quanto os judeus pedem provas: os judeus pedem milagres; os gregos, argumentos racionais. Paulo lhes anuncia a salvação através de Cristo crucificado e ressuscitado. Para os judeus, isso é um escândalo e, para os gregos, uma insensatez. Paulo não prega uma filosofia, mas uma nova doutrina dada por revelação divina, diante da qual as especulações filosóficas humanas são vãs e falazes. Afirma: Tomai cuidado para que ninguém vos escravize com vãs e enganadoras especulações da filosofia segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo (Cl 2,8).

    Dessa maneira, o cristianismo e a filosofia são colocados em dois planos distintos. O primeiro é uma religião, uma doutrina baseada na autoridade da revelação divina, vivida com espírito de fé; a segunda é um produto da razão humana, com todas as limitações e deficiências inerentes a sua natureza. Nesse contexto, deve ser entendida a afirmação acima citada do apóstolo Paulo.

    Além disso, se compararmos a afirmação de Paulo em Cl 2,8 com seu discurso no areópago de Atenas, ele abre caminho favorável para relações harmoniosas do cristianismo com a filosofia, quando alude ao altar dedicado ao Deus desconhecido (At 17,23). Se isso não bastasse, na Carta aos Romanos (1,18-21), reconhece explicitamente a capacidade da razão humana para chegar ao conhecimento da existência de Deus. Aliás, na mesma carta (Rm 2,14-15) reconhece a validade das especulações dos filósofos, dizendo que os gentios são responsáveis se não guardarem a lei natural impressa por Deus em seus corações. Portanto, de modo algum Paulo declara guerra à filosofia. Considera-a útil para os gentios sem fé, enquanto para os cristãos, aos quais é dado reconhecer a plenitude da revelação divina, as elucubrações filosóficas pouco acrescentam em vista da salvação.

    A exclusão mútua da filosofia e da teologia, contudo, também ocorre mais vezes no decurso da história do cristianismo, mas não é a última palavra, pois os cristãos precisam de um discurso compreensível aos não cristãos para transmitir-lhes a mensagem cristã. Para tanto, cedo tinham de encontrar uma comunidade de linguagem. A partir do fechamento da escola de filosofia de Atenas por Justiniano, em 529, a filosofia passou a ser absorvida pela teologia. Como os cristãos queriam dirigir-se aos pagãos, a questão da racionalidade e da credibilidade da fé não podia limitar-se ao simples recurso às contradições, pois pressupõe uma linguagem comum entre cristãos e pagãos. O cristianismo, então, passa a reivindicar o estatuto de a verdadeira filosofia e a verdadeira sabedoria.

    Desde o século IX, com a querela entre dialéticos e antidialéticos, a filosofia passa a ser percebida como uma técnica ou um saber desvinculado da experiência cristã. Com o passar do tempo, as distinções tornaram-se mais nítidas. A razão filosófica é profana, ignorante nos mistérios da fé. A teologia cristã interessa-se pela filosofia enquanto lhe presta serviços à inteligência da fé, lhe proporciona uma reserva de instrumentos conceituais e termos e, ainda, como disciplina limítrofe da teologia. Surgiu, ao natural,

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