Musicoterapia na Reforma Psiquiátrica Brasileira: a história dos Mágicos do Som
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Musicoterapia na Reforma Psiquiátrica Brasileira - Raquel Siqueira
CAPÍTULO I
CARTOGRAFIA DO MÁGICOS DO SOM – UMA COMPOSIÇÃO CONTEMPORÂNEA INACABADA
Para os geógrafos, a cartografia - diferentemente do mapa, representação de um todo estático – é um desenho que acompanha e se faz ao mesmo tempo que os movimentos de transformação da paisagem (ROLNIK, 1989, p.15).
Não há um saber a priori na experimentação cartográfica, os movimentos revelam linhas, umas rígidas, outras mais flexíveis, movimentos, densidades, intensidades e busca, não há um lugar a chegar e nem mesmo pontos de partida. No exercício da cartografia acompanhamos o movimento como numa dança, embalados por uma música desconhecida. Os passos são criados na medida em que somos tocados, sensibilizados, capturados, fluímos mais intensamente quando estamos diretamente envolvidos como actantes³ nas conexões da rede, como grama se alastrando rizomaticamente. Cartografar é um movimento rizomático, e isto parece mais claro quando se resolve pesquisar uma experimentação que tangencia limiares desconhecidos. Na área de saúde mental soa recorrente a segregação ao usuário, mas os movimentos no entre podem produzir derivas totalmente inesperadas.
A cartografia, diferentemente do mapa, é a inteligibilidade da paisagem em seus acidentes, suas mutações: ela acompanha os movimentos invisíveis e imprevisíveis da terra- aqui, movimentos do desejo -, que vão transfigurando, imperceptivelmente, a paisagem vigente (ROLNIK, 1989, p.62).
Coelho refere-se ao musicoterapeuta como um cartógrafo sonoro
que
não se compromete com técnicas de escutas, nem com relações identificáveis. Ele também não tem a ilusão de que pode centrar sua escuta no paciente ou na música, seja por uma intenção clínica ou por um objetivo clínico. Além disso, ele não espera que um conjunto de categorias possa dar um significado para a inexistente escuta. Ele sabe que a escuta não existe, porque ela é sempre inventada, ela é um ato de composição (COELHO apud CRAVEIRO DE SÁ 2003, p. 58).
Cartografar, problematizar as linhas e forças propulsoras, investigar os agenciamentos/conexões na rede ou acompanhar os seus movimentos é um desafio para qualquer profissional ou pesquisador. A proposta deste livro também busca mostrar uma cartografia, uma experimentação de um grupo musical com usuários de serviços de saúde mental e, a partir desta cartografia, pensar um certo modo de funcionar da Musicoterapia. Quanto à experimentação da musicoterapia no espaço asilar da Casa de Saúde Volta Redonda (CSVR), pudemos identificar suas linhas de fuga e capturas. O trabalho musicoterápico realizado encontrou-se com um funcionamento manicomial que constrangia e limitava a liberdade de ação. Era um campo de capturas, em meio a forças propulsoras de fuga. Visualizamos as forças de captura diante de situações de internação. Pessoas eram e ainda são internadas em hospitais psiquiátricos por apresentarem comportamentos não compatíveis com um código culturalmente aceito como normal, segundo padrões compartilhados por comunidades em convivência. No quotidiano da internação, a vida parecia limitada a horários, medicamentos, atendimentos individuais ou em grupos, nos quais se priorizava o modo de expressão verbal. Entretanto, muitas linhas de fuga emergiam neste contexto, era um novelo de linhas de força, entre capturas e fugas. Várias experimentações de escape dessa rotina engessada puderam, contudo, emergir, dentre elas a equipe contratada⁴ pela intervenção, discutindo e reinventando a Reforma Psiquiátrica. A realização de assembleias com a presença de todos os usuários, funcionários e até familiares, nas quais se discutiam as práticas e se pensava em possibilidades que diferissem da lógica de funcionamento manicomial, como a atenção às atividades em terapia ocupacional e a criação dos grupos de musicoterapia. Este movimento, esta ponta de desterritorialização, iria vibrar de novo na experimentação, no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Usina de Sonhos. Craveiro de Sá escreve sobre a escuta musicoterápica como um continuum de fluxos:
Ao tratar da escuta musicoterápica como um continuum de fluxos que convoca tanto forças da escuta musical (tão flutuante) quanto forças da escuta clínica, Coelho (2002, p.7) afirma que ‘a escuta musicoterápica tem um comprometimento com a estética, porque inventa mundos, com a política, porque nas relações, investe em micropolíticas das sensações e com a ética, porque se dá na escuta das diferenças’ (CRAVEIRO DE SÁ, 2003, p.58).
O grupo musicoterápico da CSVR reverberou no CAPS Usina de Sonhos. Este ressurgimento brotou com possibilidades de fazer passar outras linhas de fuga, em tensão com concomitantes forças de captura que também surgiram. Escutar as vozes dos usuários de serviços de saúde mental e criar práticas para desconstruir os manicômios são algumas das propostas do movimento da Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB) que animaram a experiência musicoterápica que vamos acompanhar.
1.1. ACERCA DA LOUCURA: SAÚDE MENTAL E REFORMA PSIQUIÁTRICA
a loucura não é um fato de natureza mas de cultura, e sua história é a das culturas que a dizem loucura e a perseguem (ROUDINESCO, 1994, p.15).
Tomemos a discussão entre razão e loucura. A eleição dessas instâncias, produzidas nos encontros das histórias com as culturas, constroem uma mistura. Esta compõe-se de maneirismos históricos, congruentes ou não, que convergem para a mobilizadora noção de que há uma sanidade a ser preservada. Diante da impossibilidade de se prevenir a loucura ou fazer dela algo aprisionável, torna-se prisionável aquele que dela faz uso, conforme o moderno consenso cultural sobre o que separa o louco do normal
.
A Reforma Psiquiátrica Brasileira iniciou-se com um movimento de trabalhadores em saúde mental em 1978-1980 (AMARANTE, 1995, p. 57). Os programas brasileiros de saúde mental, desde a década de 1980, incluem, além dos atendimentos individuais, os atendimentos grupais, oficinas terapêuticas e outros dispositivos que compartilham o movimento de desconstrução do modelo manicomial. Atuam na perspectiva de reinserção psicossocial, de reinserir o usuário na sociedade. Des-construir; substituir os manicômios para poder extingui-los. A Reforma Psiquiátrica re-forma trazendo outras formas? Antes desta reforma, e mesmo depois de iniciada, as contenções físicas e químicas continuaram a ser utilizadas, com base em critérios que eram e são questionáveis à luz das concepções que guiaram a reforma. As camisas de força ou a eletroconvulsoterapia, usadas sem referência a critérios científicos rigorosos, sufocavam as vozes e os devires dos pacientes. Com a Reforma Psiquiátrica, os pacientes passaram a ser reconhecidos como sujeitos de direitos e cidadãos, os usuários de serviços de saúde mental. Este movimento repercutia, até hoje, os ecos do movimento na Itália, lugar onde amadureceu e se concretizou a ideia de uma Reforma Psiquiátrica que prescindiria totalmente do manicômio como dispositivo de tratamento em saúde mental. No Brasil, o tratamento disciplinar e, muitas vezes perverso, infligido aos usuários de serviços de saúde mental, juntamente com as insatisfatórias condições de trabalho, fez com que os primeiros agentes codificadores desse novo paradigma fossem os profissionais dos serviços de saúde mental. Embrenhados nesta nova seara, acreditando ser este movimento o novo veículo de libertação das clausuras manicomiais, eles põem à prova a liberdade da desrazão. Não bastava acabar com os manicômios, como já se preconizava. Mas o que fazer com os ditos loucos e, além disso, o que fazer da loucura?
?" (Siqueira-Silva et al, 2012). Nem todos os ditos loucos são gênios das artes, sabem ou vão aprender a gerar renda. Há muita dificuldade em realizar atividades da vida diária nos projetos Moradia. Estes projetos, foram desenvolvidos em grandes instituições psiquiátricas, tais como a Colônia Juliano Moreira e o Instituto Municipal Nise da Silveira (antigo Hospital Pedro II), visando re-integrar os usuários à vida quotidiana, após anos de institucionalização. Muitos ainda não conseguem desenvolver atividades da vida diária (AVD) e são estimulados e cuidados por uma equipe interdisciplinar que inclui os cuidadores. Estes são profissionais de nível médio que acompanham e estimulam os usuários nas AVDs. Iniciativas como os projetos Moradia também incentivam atividades de geração de renda e alguns já conseguiram apartamentos fora da instituição psiquiátrica para os usuários, onde estes moram e continuam sendo acompanhados nos CAPS. Os projetos Moradia são importantes para re-inserir a população que está há décadas internada em hospícios, com pouco ou nenhum contato com familiares. Desde a década de 2010, contudo, sistematicamente, estes projetos de reinserção psicossocial vêm sendo enfraquecidos. Mas, apesar das dificuldades e de alguns recuos, o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial (MNLA) continua vivo.
O modelo substitutivo ao manicômio prevê a criação de CAPS, projetos de geração de renda, projetos moradia, centros de convivência. Estes serviços foram criados para a re-inserção psicossocial, para promover misturas, encontros e ultrapassar as barreiras do preconceito, que ainda existe, em relação ao usuário de serviços de saúde mental. Esta complexa rede substitutiva ao modelo asilar se constituiria então em um novo modelo? Para além da possibilidade de criar e promover novos modelos que combinem a territorialização e novas formas de institucionalização sem internação, importa considerar a dinâmica de micro-revoluções que fazem e refazem as relações e ações que tecem as linhas de fuga. Há ainda os atendimentos em saúde mental nas Clínicas da Família, mas se baseiam muito na prática ambulatorial. Pensemos na figura de uma rede de pescador, trazendo uma sereia, na qual a ilusão da loucura invade os olhares e pode até encantar, enquanto sua parte peixe, mais ágil, delata a dicotomia dos discursos em relação às ações. Os livros, textos e periódicos são escritos pelos que estudam sobre a loucura. Mas o discurso do dito louco, seus enunciados, ainda são psicopatologicamente demarcados. Há um entre a poesia acerca do discurso delirante e as inibições medicamentosas, intervencionistas. Isto pode produzir falas ignoradas que servem a uma inibição da desrazão. A doença mental, atualmente chamada de transtorno psíquico ou sofrimento psíquico ganha um portador, que passa a ser identificado por essa condição. Além da ressoante dicotomia entre corpo e mente própria do pensamento moderno, que aqui não iremos retomar, cabe incessantemente a visão crítica sobre as atuais práticas em saúde mental. A quem ou ao quê fazer ver e fazer falar?
Os discursos e enunciados da pessoa que sofre de transtorno psíquico ainda estão sufocados por práticas manicomiais, ainda que a Reforma Psiquiátrica utilize outras palavras? Se o projeto da Reforma for entendido como um processo unificado e com uma direção pré-estabelecida, corre-se o risco de ela se tornar um novo panoptismo; ver os problemas (sem ser visto) e determinar as soluções. Há que rever tanto a enunciação dos problemas como as soluções preconizadas, através de uma escuta de quem recorre aos serviços de saúde mental. Evitar falar em nome dos usuários, convertê-los numa população-alvo de intervenções, excluindo-os da discussão, como se desconstruísse os muros existentes para substituí-los por outros. Tirar pessoas internadas num hospício para as re-inserir na sociedade invocando os princípios e objetivos da Reforma obriga a promover as condições que tornem possíveis novas relações entre a sociedade e os usuários de serviços de saúde mental, tais como a possibilidade de estes gerarem renda com seu trabalho, desde que a renda reverta para os próprios, produzindo uma relação saudável com o trabalho, independentemente da natureza deste, artesanal, artístico ou outro. Mas as visões e os discursos continuam ainda a recorrer a quadros nosológicos. Continuamos, por isso, a questionar nossas práticas antimanicomiais, procurando evitar que o fora do hospício
se converta noutra forma de estar fora da sociedade
. Ainda estamos aprisionados, em boa medida, na segmentação entre loucura e desrazão. Para a loucura, continua a acreditar-se que não há cura, há tratamentos. Esta concepção radica numa crença persistente. No século XVIII, pretendia-se disciplinar a loucura (AMARANTE, 1995, p.26). No século XIX, é construído o olhar científico sobre o fenômeno da loucura e sua transformação em objeto de conhecimento: a doença mental
(AMARANTE, 1995, p. 24). Dois séculos depois, persiste a crença de que a loucura é uma doença que pode ser curada. Os vestígios de que acreditamos na cura estão presentes em vários discursos sobre saúde mental, sobre a sua reforma, sobre os seus saberes e instituições. Mas o que é tantas vezes designado de desrazão, nas suas múltiplas manifestações, ressurge/insurge como o fora da loucura instituída que nunca pode ser capturado ou disciplinado por
