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Ricardo Kotscho: Um contador de histórias
Ricardo Kotscho: Um contador de histórias
Ricardo Kotscho: Um contador de histórias
E-book168 páginas3 horas

Ricardo Kotscho: Um contador de histórias

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Sobre este e-book

A Editora Contracorrente tem o prazer de anunciar o lançamento da coleção "Projeto Memória do Jornalismo Brasileiro Contemporâneo", uma produção do Centro de Memória do IREE – Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa, coordenada pelo jornalista e escritor Lira Neto. O projeto vai contar, por meio de entrevistas, a história dos maiores jornalistas brasileiros. Esta produção, "Um contador de histórias", é uma homenagem a Ricardo Kotcho. A obra recorda uma das mais brilhantes carreiras da imprensa brasileira. Além do Estadão, trabalhou na Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e IstoÉ; migrou, depois, para a televisão, atuando diante das câmeras no Globo Rural e no SBT Repórter, ou nos bastidores, dirigindo redações na CNT/Gazeta e Bandeirantes.
IdiomaPortuguês
EditoraEditora Contracorrente
Data de lançamento27 de ago. de 2024
ISBN9786553962095
Ricardo Kotscho: Um contador de histórias

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    Ricardo Kotscho - Lira Neto

    Ricardo Kotscho

    Um contador

    de histórias

    por LIRA NETO

    Aos 16 anos, estagiário no jornal O Estado de S. Paulo – e chamado de Ricardinho por ser o mais jovem da redação –, ele aprendeu com o então chefe de reportagem, Clóvis Rossi, a primeira lição de jornalismo. Destacado para cobrir uma grande enchente em uma cidade do interior paulista, quis saber, do chefe, como faria para chegar ao local, isolado pelas águas. Pergunta ao guarda, ouviu. Pegasse a estrada e pedisse informação em algum posto rodoviário. Ali compreendeu que a tarefa do repórter é essa: perguntar. Saber ouvir e, também, olhar, completa.

    Treinar os ouvidos e os olhos para descobrir o que não sabe, mas também para identificar situações, cenários e personagens inusitados, capazes de revelar histórias surpreendentes. Algumas tão incríveis quanto a do homem simples e feliz que, certa vez, no interior de Minas Gerais, Ricardo Kotscho viu picando fumo à beira da estrada – encontro que acabou lhe rendendo aquela que considera uma de suas melhores reportagens. Ou o caso do prosaico carrinho de pipoca em frente ao local onde o então ditador, Costa e Silva, estava acamado. Enquanto todos os colegas procuravam a notícia nos boletins médicos, ele escreveu sobre o que conversavam as pessoas em torno do pipoqueiro. "Chamava-se, naquela época, side story, as histórias paralelas".

    Foi observando as tais histórias paralelas, sempre no entorno dos grandes acontecimentos nacionais, que Ricardinho – como até hoje o chamam os colegas – construiu uma das mais brilhantes carreiras da imprensa brasileira. Além do Estadão, trabalhou na Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e IstoÉ; migrou depois para a televisão, atuando diante das câmeras no Globo Rural e no SBT Repórter, ou nos bastidores, dirigindo redações na CNT-Gazeta e Bandeirantes. Mas, acima de tudo, o que ele gosta mesmo de fazer é apurar e escrever. Por isso, ficou surpreso – e hesitou – quando recebeu o convite para trabalhar como assessor de imprensa na primeira campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, em 1989. Você nunca foi assessor e eu nunca fui candidato a presidente, brincou Lula, para convencê-lo.

    Depois disso, acompanharia todas as campanhas presidenciais de Lula, até a jornada eleitoral vitoriosa de 2002. No papel de assessor do candidato, enfrentou resistências iniciais de parte da cúpula do Partido dos Trabalhadores (PT), idealizou as Caravanas da Cidadania e teve de se colocar, pela primeira vez, do outro lado do balcão, administrando insatisfações e cobranças dos colegas. No poder, também encarou situações embaraçosas, quando foi surpreendido pela nota oficial do governo – redigida sem seu conhecimento – ameaçando, de expulsão do país, o jornalista norte-americano Larry Rohter, que havia escrito matéria depreciativa contra o presidente brasileiro no The New York Times.

    Durante os quatro encontros combinados para esta entrevista, a conversa com Kotscho se estendeu por um total de seis horas. Tempo que foi pequeno para ele narrar suas inúmeras aventuras, sempre com muito bom-humor, rindo de si próprio. Dono de memória prodigiosa, basta a mínima deixa para que desfie lembranças, reconstitua episódios, descreva com singular colorido as muitas peripécias que viveu e testemunhou em sessenta anos de profissão.

    Este filho de pai romeno e mãe tcheca, neto de russos, contou como aquele menino que até os seis anos só falava alemão e pensava em ser padre descobriu-se jornalista e, acima de tudo, um brasileiro. Sou um apaixonado por este país, diz. Ao final de cada encontro, Kotscho sempre nos convidava para uma cerveja gelada – e para alguns deliciosos momentos adicionais de prosa. É um conversador nato. Durante os bate-papos, com o gravador já desligado, continuava a contar histórias imperdíveis, obrigando o interlocutor a tomar notas mentais para ampliar a pauta das seções seguintes desta entrevista. Sou mesmo um contador de histórias, define-se.

    Aos 76 anos, continua na ativa, com seu texto límpido e lúcido agora na internet, escrevendo para o portal UOL a coluna Balaio do Kotscho, iniciada há 15 anos no extinto No Mínimo, site pioneiro da imprensa brasileira. Diz concordar com Gabriel García Márquez, que, certa vez, afirmou ser o jornalismo a melhor profissão do mundo. Dizem que é uma cachaça, que é um sacerdócio, comenta Kotscho. Não é nada disso, é apenas muito bom ter bastante história para contar.

    Há muitas versões sobre a origem do sobrenome Kotscho. [...] A família de meu pai era russa e, com a revolução comunista, foi expulsa de lá. Seguiram para a Bessarábia.

    Você costuma dizer que, para ser bem contada, uma história deve começar do começo. Pois bem, vamos nós: de onde vem o sobrenome Kotscho?

    Só isso daria um livro. A família de meu pai era russa e, com a revolução comunista, foi expulsa de lá. Seguiram para a Bessarábia, região que, hoje, seria entre a Romênia, a Moldávia e a Ucrânia. É difícil precisar, porque o mapa e o próprio nome daqueles países mudaram muito ao longo do tempo...

    Bessarábia foi a mesma região onde nasceu Samuel Wainer…

    Sim, eu comentava isso com o Wainer. A palavra Kotscho é transliteração alemã do russo, Kocho. Mas o sobrenome teria vindo de antes, de antepassados da região onde, hoje, fica a Itália. No original, seria Coccio, que, em italiano, significa barro queimado, tijolo queimado, terracota, algo assim. Na Alemanha, virou Kotscho. De fato, há muitas versões sobre a origem do sobrenome, mas esta é a que hoje mais me convence. Procurei documentos para esclarecer o assunto, mas os papéis desapareceram na época da Segunda Guerra, tanto os da Igreja quanto os do cartório.

    Você já conheceu alguma outra família com esse sobrenome?

    Há cerca de vinte anos, estava na praia, em São Sebastião, onde tenho uma casa, quando recebi pelo correio uma carta de Nova York. Sou sua tia, dizia a mensagem. Minha família fez contato com a remetente. De fato, éramos parentes. Nunca a encontrei pessoalmente, mas minhas filhas, que moram nos Estados Unidos, sim. Meu avô paterno, o russo Ivan, escapou de um campo de concentração e emigrou para os Estados Unidos depois da guerra, mas antes casou novamente, deixando minha avó, Nadezda, que só depois viria para o Brasil. Com a nova mulher, Alexandra, também russa, Ivan teve uma filha, Mirijana, esta que me escreveu a carta. Era meia-irmã de meu pai.

    Mas ela assinava a carta como Kotscho ou com alguma variação do mesmo sobrenome?

    Acho que usava Kocio ou algo parecido. Como cada um grafava a palavra de modo diferente, ficou a confusão. Mas é tudo a mesma família.

    Então seus avós eram russos?

    Sim. E como é comum em relação a todo avô, a família falava maravilhas a respeito do meu, garantindo que teria havido até uma rua com o nome dele em Moscou. São aquelas lendas familiares a respeito das quais não existem documentos escritos para comprovar. Mas, na família mais imediata, há uma história fantástica, que daria um filme. Meus pais tinham vindo para o Brasil em 1948, ano em que nasci. Em 1955, fizeram uma viagem para a Europa em um transatlântico enorme. Detalhe: meu pai nunca mais havia encontrado a mãe, perdeu contato com ela durante a guerra. Na viagem, ele e minha mãe foram a uma hospedaria de refugiados em Trieste, na divisa da Itália com a então Iugoslávia. Ele já tinha tentado encontrá-la em vários lugares e nada, mas daquela vez disse: Vamos lá dar uma olhada, não custa nada. Acabou encontrando a mãe no local. Deixou um bilhete na recepção que, não sei bem como, chegou às mãos dela. Quando voltou de lá, a trouxe para o Brasil.

    Você chegou a conhecer seus avós?

    Conheci as duas avós; mas avô, nenhum. O segundo marido da minha avó, Jacob Heinz, era jornalista. Morreu muito jovem. De acordo com o que contavam minha avó e minha mãe, teria sido um grande profissional, redator-chefe de um jornal no sul da Alemanha. Foi perseguido pelos nazistas durante a Segunda Guerra porque, católico, era casado com uma judia. Para a família não sofrer represálias, todos se converteram ao catolicismo, inclusive minha avó e minha mãe. Mesmo assim, foi rebaixado de posto no jornal, depois demitido. Por fim, ficou muito doente e acabou morrendo antes mesmo do final da guerra. Pelo que minha avó contava, morreu de tristeza, desempregado, sem poder trabalhar, com quatro filhas para criar. Quando eu era criança, a família falava muito sobre ele. Acho que, de tanto ouvir falar dessa história, pensei: Vou ver como é esse negócio de ser jornalista.

    Há notícias de outros familiares seus que também tenham sofrido algum tipo de perseguição por parte dos nazistas?

    A família inteira foi afetada. Todos os dias precisavam ir para o bunker, quando soavam os alarmes de bombardeios. Minha mãe e minha avó, ainda traumatizadas, não gostavam de falar sobre a guerra, evitavam o assunto. Não sofreram tortura física, mas contavam sobre a fome que passaram, quando minha mãe e suas irmãs ainda eram bem pequenas. Essas histórias marcaram minha infância. Eu tinha pavor de alarmes, qualquer alarme, porque talvez significasse que lá vinha bombardeio e, imaginava, era preciso correr para o bunker.

    Sabe como seus pais se conheceram?

    Meu pai se chamava Nicolaus Kotscho, nascido na Bessarábia e criado na Iugoslávia. Minha mãe, Elisabeth Rebholz, nascida em Pilsen, na Boêmia, mais tarde Tchecoslováquia, criada na Alemanha. Eles se conheceram durante a guerra, em Straubing, na Baviera. Minha mãe trabalhava como voluntária na Cruz Vermelha e meu pai estava em Montenegro, onde lutou ao lado do exército de Tito (Josip Broz Tito, líder da resistência ao nazismo e que, ao final da Segunda Guerra, tornaria-se primeiro-ministro e presidente da Iugoslávia). Ficou ferido e se apaixonou pela enfermeira. Tiveram três filhos, que morreram logo depois de nascer, pois

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