Como pensar no discernimento vocacional e na formação humana do catequista
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Como pensar no discernimento vocacional e na formação humana do catequista - Jeciandro Pessoa
Dedico esta obra a todos os catequistas do Brasil. Principalmente às minhas catequistas: Marinalva, Maria do Amparo, Jakeline e Viviane, que muito contribuíram com meu crescimento da fé.
Não posso me esquecer também da minha comunidade de origem, lá no interior da cidade de Igarapé Grande, povoado Centro dos Barbosas, onde pude viver a fé cristã tal qual se vivia em Atos dos Apóstolos. Sem esse povo simples, eu não seria quem sou hoje.
Lista de siglas
AL Amoris Laetitia – Exortação Apostólica sobre o amor na família. Papa Francisco (2016)
AtM Antiquum Ministerium – Carta Apostólica sob forma de motu proprio
. Papa Francisco (2021)
ChV Christus Vivit – Exortação Apostólica para os jovens e para todo o povo de Deus. Papa Francisco (2019)
CIgC Catecismo da Igreja Católica (1992)
DAp Documento de Aparecida (2007)
DC Diretório para a Catequese (2020)
DF Documento Final da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (2018)
DGC Congregação para o Clero. Diretório Geral Catequético (1997)
DV Dei Verbum – Constituição Dogmática sobre a revelação divina. Papa Paulo VI (1965)
GeE Gaudet et Exsultate – Exortação Apostólica sobre a chamada à santidade no mundo atual. Papa Francisco (2018)
SHVS Sexualidade humana: verdade e significado (1995)
Apresentação
Na Carta Apostólica Antiquum Ministerium, o Papa Francisco diz que a função peculiar desempenhada pelo catequista especifica-se dentro de outros serviços presentes na comunidade cristã
(AtM, n. 6). Isso acontece porque ser catequista não é simplesmente prestar um serviço. É colocar-se na posição de mestre para guiar aqueles que ainda estão descobrindo ou amadurecendo a fé.
Não é tarefa simples, e muito menos rápida. Para ser mestre, é preciso ir muito além da relação professor-aluno
. A catequese não é aula, é proposta de vida. Um professor pode se limitar a transmitir conhecimento; um catequista, não: ele precisa propor uma nova maneira de viver e de olhar todas as coisas, convencer e instruir com as palavras, e também guiar com toda a vida.
Ser catequista não é uma tarefa ou um trabalho: é uma maneira de viver. É tipicamente o que a Igreja chama de vocação
. Não é para qualquer um.
Jeciandro Pessoa é catequista há quase duas décadas. Sabe muito bem como é viver esse chamado na prática e tem compartilhado essa experiência por meio dos seus livros, dos seus cursos e do perfil @pensarcatequese no Instagram. Agora, neste livro, traz uma visão muito bem sistematizada disso, sem deixar de lado a espiritualidade. Aborda a caminhada do catequista desde o seu chamado até a sua vida como mestre que guia os seus discípulos.
Essa caminhada é, na verdade, uma grande jornada de serviço ao Senhor, cheia de graças e de muito trabalho. O tamanho da responsabilidade abraçada por um catequista pode ser visto pela realidade que vemos na nossa sociedade: temos cada vez menos pessoas se declarando católicas e, abaixo dos trinta anos, o cenário é ainda pior: a maioria diz não ter fé! (World Values Survey, wave 7).
Em 2023, a CNBB contabilizou 800 mil catequistas no Brasil (Borga, 2024). Se cada um conseguir catequizar de modo eficaz dez pessoas ao longo de um ano, teríamos 8 milhões de novos católicos todos os anos. Onde está todo esse povo? O número impressiona, mas também preocupa muito. O que estamos fazendo de errado? O que há com os nossos catequistas?
Precisamos reagir. É necessário investimento de tempo e de energia com nossos agentes de formação. Os catequistas são a tropa de elite de qualquer paróquia. São aqueles capazes de transformar as pessoas, de torná-las dóceis à ação do Espírito Santo, e isso fará com que sejam o rosto de Cristo no mundo.
As próximas páginas o conduzirão pela jornada que forja um bom catequista. Dedique-se e aproveite a oportunidade!
Um povo e uma cidade ameaçados como nunca por uma cultura cada vez mais pagã, que se orgulha de sua amnésia e nos pretende impor um Deus suave, transcendente, mas dentro dos limites da imanência… sempre à nossa mão para ser usado como um instrumento do consumismo que nos devasta. Um povo e uma cidade que necessitam de você mais do que nunca (Papa Francisco, 2010).
Que a Virgem Maria e São José de Anchieta lhe inspirem e intercedam pela sua missão!
Viviane Varela e Diácono Alexandre Varela
Criadores do site O Catequista
Introdução
A vocação cristã comum de cada um tem como pano de fundo o chamado a viver como filhos de Deus, recebida no Batismo, e à vida do Ressuscitado, que se comunica mediante os sacramentos. A vocação à santidade
corresponde a uma resposta filial à via da verdade e da felicidade, que é Cristo (DC, nn. 83-84). No âmbito dos ministérios e serviços da missão evangelizadora da Igreja, o ministério da catequese
é indispensável para o crescimento da fé. Esse ministério introduz à fé e, juntamente com o ministério litúrgico, gera os filhos de Deus no seio da Igreja
(DC, n. 110).
A vocação específica de ser catequista tem sua raiz na vocação comum do povo de Deus, chamado a servir o desígnio salvífico de Deus em favor da humanidade
(DC, n. 110). Além disso, a vocação de catequista nasce do anúncio do Evangelho e cresce na comunidade, lugar por excelência da formação
(DC, n. 133), do testemunho do amor de Deus, e que, só por Ele, todos se colocam a serviço do Reino. A missão do catequista é, portanto, tornar visível e operativo o ministério eclesial da catequese.
O Papa Francisco, em 2021, ao publicar a Carta Apostólica sob forma de motu proprio
Antiquum Ministerium, pela qual se institui o Ministério de Catequista, a inicia apresentando a historicidade desse dom para a vida da Igreja. Não se trata de algo novo, estranho para a Igreja, mas sim um carisma que se desenvolveu ainda na era Apostólica, com formas próprias no seio da comunidade. Ministério antigo é o de catequista na Igreja. Os teólogos pensam, comumente, que se encontram os primeiros exemplos já nos escritos do Novo Testamento
, disse o papa.
A vocação de catequista é um carisma singular na vida da Igreja; o serviço é a forma de viver esse carisma. A tríplice dimensão da missão (instrução, exortação, testemunho) se faz importante atualmente. O catequista é chamado a instruir aquela porção do povo de Deus confiada a si, com conhecimento e testemunho de vida. Isso só é possível quando não se deixa perder de vista o nosso ponto de partida
, aquele encontro pessoal com Cristo que preenche a vida de sentido (EG, n. 1).
A Conferência Nacional dos Bispos no Brasil já reflete há muito tempo sobre a necessidade de um discernimento vocacional, em vista do ministério de catequista, de modo que esse ministério vem sendo assumido como um carisma em forma de serviço reconhecido pela Igreja. O ‘carisma’ do Espírito é o elemento invisível, sobrenatural, espiritual, místico
(CNBB, 2021, p. 19).
Em 2020, ao ser publicado o novo Diretório para a Catequese, a Igreja nos convida a refletirmos sobre os quatro pilares da formação de catequista: saber ser, saber ser com, saber e saber fazer (DC, n. 136). Iremos nos aventurar em duas dimensões: dimensão vocacional (saber ser) e dimensão da formação humana (saber ser com), fazendo sempre um paralelo entre as duas para assim correspondermos, pouco a pouco, àquilo que a santa Mãe Igreja nos convida a aprofundar, ou seja, a vocação e a missão de catequista.
Em virtude dos fatos mencionados, faremos uso de duas áreas do conhecimento: a teologia da vocação e a logoterapia. Na primeira delas, abordaremos mais profundamente o sentido da vocação cristã à luz da fé; para isso, recorreremos a grandes homens e mulheres da fé que compreenderam perfeitamente o sentido primordial da vocação. Por conseguinte, faremos uso da logoterapia. E o que é logoterapia? A logoterapia pode ser entendida como sentido da vida
ou psicoterapia para o sentido
. Na obra Em busca de sentido, Frankl descreve o seguinte: A logoterapia considera sua tarefa ajudar o paciente a encontrar sentido em sua vida. Na medida em que a logoterapia o conscientiza do logos oculto de sua existência, trata-se de um processo analítico
(Frankl, 1991, p. 128).
Capítulo 1
A essência de toda vocação
Catequista, não perca de vista o seu ponto de partida!
Quando falamos de vocação de catequista, precisamos, por alguns instantes, rememorar a nossa própria história: família, batismo, catequese, a primeira vez que recebemos a Eucaristia, as primeiras formas de atuação na comunidade eclesial, o início da vocação de ser catequista, ou seja, fazer memória e tornar presente todos os acontecimentos.
Todas essas boas lembranças farão sentido no percurso do ministério de catequista. Do contrário, perdendo nosso ponto de partida, desperdiçamos também o sentido da caminhada vocacional e acabaremos por sucumbir aos desafios da missão. Por isso, catequista, convido você a fazer memória da sua vida, da sua história.
1. A essência de toda vocação
A palavra vocação
vem do latim vocare e significa o ato de chamar ou ser chamado por alguém. Para muitos católicos, ao tratar do assunto vocação, imediatamente, vem à sua cabeça sobre ser padre ou freira. Alguns dão um segundo passo e pensam também sobre matrimônio. Porém, mesmo sabendo que os ministérios ordenados ou a vida consagrada sejam verdadeiramente vocações específicas da Igreja, são também formas aplicadas de viver a vocação fundamental a que todos são chamados.
A Igreja no Brasil tem abordado o tema da vocação de forma ainda mais ampla. É importante entendermos que a vocação fundamental a que todo ser humano é chamado é a vocação à santidade. Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo
(cf. Lv 19,1). A santidade consiste na
