Henriqueta, a Aventureira: drama em 5 atos: Clássicos de Literatura Gay, #24
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Sobre este e-book
A vida "escandalosa" de Henriqueta não deu um filme, porque o cinema ainda não tinha sido inventado, mas deu um romance e uma peça de teatro, Henriqueta, a Aventureira. Henriqueta Emília da Conceição e Sousa, nascida no Porto em 1840, escandalizou o país na segunda metade do século XIX: era uma conhecida prostituta e quadrilheira do bas-fondportuense, que se apresentava em público vestida de homem, fumando charutos e exibindo audaciosamente a sua amante, Teresa Maria de Jesus (Etelvina, no romance), uma bela costureira de dezoito anos. A história de vida de Henriqueta, investigada pelo tipógrafo António Joaquim Duarte Júnior, daria origem ao romance Henriqueta, ou Uma Heroína do Século XIX (1877) e, pouco depois, à peça de teatro Henriqueta, A Aventureira (1879), de Augusto Garraio; já em 1997, Mário Cláudio publicaria também nova adaptação ao teatro, a que deu o nome da heroína, Henriqueta Emília da Conceição.
António Fernando Cascais refere que "a representação das lésbicas, para além do estereótipo da jovem ingénua, desviada pela perfídia viciosa da mulher mais velha, em regra uma grande dama aristocrática ou uma perversa precetora estrangeira, encontra-se frequentemente associada à prostituição, cumulando a imagem já de si negativa de degradação moral e sensitiva da prostituta, de que é exemplo notório O Livro de Alda (1898), de Abel Botelho. Também este estereótipo comporta a sua exceção, com o retrato romanceado e dramatizado do singular caso da figura real de Henriqueta Emília da Conceição e Sousa, célebre meretriz e chefe de uma quadrilha portuense, que guarda em casa a cabeça decapitada da amante falecida, a quem ergueu um monumento funerário."
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Henriqueta, a Aventureira - Augusto Garraio
Henriqueta
A Aventureira
Drama em 5 atos.
Augusto Garraio
Nova edição, revista e anotada,
com base na edição de João E. da Cruz Moutinho, Editor, Porto, 1879.
INDEX ebooks
2025
Ficha técnica
Título: Henriqueta, a Aventureira: drama em 5 atos.
Autor: Augusto Garraio.
Original: Henriqueta, A Aventureira: Drama em 5 Actos, por Augusto Garraio; Porto: João E. da Cruz Moutinho, Editor, 1879.
Ilustrações: Manuel Macedo com gravura de Caetano Alberto, em Henriqueta ou Uma Heroína do Século XIX: romance original, por A. J. Duarte Júnior; Porto: Tipografia de Coelho Ferreira; 1877
Capa: retrato de Henriqueta (detalhe da ilustração da página 8 da edição original ro romance de 1877).
Transcrição, revisão e anotações: João Máximo e Luís Chainho.
Data de publicação: 10 de fevereiro de 2025
Edição 1.00 de 10 de fevereiro de 2025
Copyright © João Máximo e Luís Chainho, 2025
Todos os direitos reservados.
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Lisboa, Portugal
ISBN: (ebook)
Henriqueta
A Aventureira
Nota do editor: as cenas I e II do Quadro final estão incompletas nesta edição, por o estarem no exemplar que utilizámos e por não nos ter sido possível localizar em tempo útil um exemplar com o texto em falta, o que lamentamos.
Personagens
D. ANTÓNIO.
D. FRANCISCO DE AZEVEDO.
ISIDRO, velho veterano, pai de Etelvina.
PORTA DE FERRO.
CORRIOLA.
GRILO REI.
PEVIDE.
JÚLIO, sobrinho de Isidro.
PADRE JOSÉ.
BALIZA.
JOÃO PEREIRA, brasileiro.
UM OFICIAL DE JUSTIÇA.
UM POLÍCIA.
UM GUARDA DO CEMITÉRIO.
HENRIQUETA.
ETELVINA.
EUFRÁSIA.
BERTA.
ATO I
A cena representa o passeio das Fontainhas em véspera de S. João. Árvores, bancos, fogueiras, etc., etc.
Cena I
José Corriola, Porta de Ferro e Pevide todos dançam e fazem roda a uma fogueira. Homens e mulheres do povo, e depois D. António e D. Francisco de Azevedo.
Corriola —
S. João faz hoje à noite
Milagres do coração!
Quem se quiser casar breve
Vá pedi‑lo a S. João.
Coro —
Palminhas, olaré, palminhas,
Palminhas nesta função!
Quem se quiser casar breve
Vá pedi‑lo a S. João!
Porta de Ferro (enquanto a orquestra repete o coro) — Canta o Pevide agora, que já foi cantor da Sé.
Pevide — E julgas que não, voz de canastro? Lá vou eu, raparigas. (Canta).
S. João fez a promessa
De me casar se eu quiser,
Mas eu cá não caio nessa,
‘Stou muito bem sem mulher.
Coro —
Palminhas, olaré, palminhas,
Palminhas nesta função!
Se não casar esta alminha
Castiga‑a, meu S. João!
Coro — Ah! ah! ah!
Pevide — Pois sim. Regalório!¹ Vozes de burro não chegam ao céu.
Porta de Ferro — Também ninguém te queria, espantalho. Lá se importa S. João contigo!
Corriola (de braço dado com duas raparigas) — Eu cá, então, é às duas. Olhem para isto.
Pevide — É mal dobrado. Aguenta‑te com elas.
Corriola — É quase meia‑noite, raparigas. Vamos ao bochecho?²
Vozes — Vamos ao bochecho.
Corriola — E lá em baixo acendeu‑se uma barrica de alcatrão. Vamos a saltá‑la, Zé Pevide?
Pevide — Valeu. Lá nisso não me ganhas tu.
Vozes — Valeu! valeu! (Saem Corriola, Pevide, alguns rapazes e raparigas. No meio da multidão vêem‑se destacar D. António e D. Francisco; Braço Forte fica olhando com mistério para a D. B. e, apenas os outros saem, mete os dedos na boca, dando um assobio, o qual se ouve repetir ao longe).
Porta de Ferro (consigo) — Bem, a velha já chegou. É preciso fazê‑la chegar à fala. (Olhando de soslaio). Parecem‑me aqueles dois, porém os sinais não são os mesmos.
D. Francisco (a D. António) — Vês aquele rapaz?
D. António (baixo) — Vejo.
D. Francisco (idem) — É um dos tais de que te falei. O assobio que ouviste é certamente uma coisa combinada. Palpita‑me que a esta hora já Henriqueta sabe da tua presença aqui.
Porta de Ferro (consigo) — Mediram‑me dos pés à cabeça, os gajos devem ser aqueles.
D. António — Se assim é... tem então essa mulher uma quadrilha em toda a extensão da palavra. Não acho isso provável quando venho a uma terra onde a polícia tem fama.
D. Francisco — Ora... a polícia, a polícia! Digo‑te que a mulher que te prometi para a tua empresa é uma heroína, que a troco de uma boa remuneração te levará a água a bons moinhos. Contam‑se dela casos admiráveis.
D. António (duvidando) — Ah! Contam‑se?
D. Francisco — Contam‑se, e eu conheço muitos como verdadeiros. Enfim, faze o que quiseres, mas aconselho‑te que te aproveites dela.
D. António — Mandaste‑lhe recado? Quando hoje a procurámos, pareceu‑me que estava em casa e não quis falar‑nos.
D. Francisco — Não estava. Sei que não me recusaria a entrada. Mandei‑lhe recado. À meia‑noite deve Henriqueta aparecer‑nos como por encanto.
D. António — Foi ela que escolheu este ponto para a entrevista?
D. Francisco — Foi. Aquela mulher, astuta, altiva e forte, não se arreceia da multidão. (Porta de Ferro assobia). Ouves? Agora é que eu te digo que este rapaz já nos conhece.
D. António — Custa‑me a crer, mas, enfim... Esperarei. Faltam dez para a meia‑noite. É melhor passearmos enquanto não bate a hora.
D. Francisco — Vamos por este lado. (Saem passeando).
Porta de Ferro (que tem subido por disfarce) — Parece‑me que são estes. Ali anda modo de mistério e não pode ser senão o negócio em que Berta me falou. Eu cá estou para toscar³... (Ouve‑se um assobio). Ah! afinal chega a maldita da velha.
Cena II
Porta de Ferro e Berta.
Berta (entrando com uma grande capa e lenço deitado para os olhos) — Que há de novo?
Porta de Ferro — Ora o que há! Que vossemecê já devia ter aparecido há mais tempo. Andam por aí dois tipos que me parecem eles, mas os sinais não são os mesmos.
Berta — A mudança está no fato?
Porta de Ferro — É claro. Lá pelas caras jurava eu...
Berta — Então não faz ao caso. Quiseram talvez disfarçar‑se para os não conhecerem. Já viste a patroa?
Porta de Ferro — Vi‑a, seriam dez horas, apear‑se do cavalo no alto do Seminário.
Berta — Muito bem, é que nos anda na pista. O melhor, Porta de Ferro, é seguir esses homens e dizer‑lhes que
