Sobre este e-book
Nas palavras de Isaque, que está levando sua mãe, Isabel, ao Centro de Transfusão, o efeito colateral – a morte da doadora – é um preço baixo a ser pago pelo benefício oferecido. Às vésperas de completar 79 anos, Isabel vive paralisada em uma cama, sob cuidados do filho. A Breve Vida dos Cães, de Elton Frederick, conta a história dessa entrega na perspectiva de Isaque, um tosador de pets; e de Cecília, a publicitária com quem teve um relacionamento condenado à longevidade em razão de um acidente. Ele, um devoto da obrigação, o homem que se diz encantado com o fato de "a cura da doença mais perversa que existe estar correndo nas veias das septuagenárias"; ela, uma mulher que lutou contra a "Solução 79" e agora se vê oprimida pela iminência de, um dia, ser sacrificada, como Isabel e como todas as outras mulheres que alcançarem os 79 anos.
Usando um cenário distópico que convida a refletir sobre a tentação dos totalitarismos que se apresentam como virtuosos, A Breve Vida dos Cães narra a história de uma vingança. Ou de várias vinganças que, por acaso ou não, são consumadas no corpo de uma mulher.
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A Vida Breve dos Cães - Elton Frederick
1.
Não sei. Acho que foi enquanto eu carregava seus trinta e nove quilos até a garagem. Assim ó, encaixada nas dobras dos braços, um amontoado de ossos pontudos cutucando a minha barriga. Não foi tão difícil, mesmo sozinho. Quer dizer, foi um pouco.
Apertei-a contra mim e enfiei a mão no bolso da calça para procurar a chave, me contorcendo para não derrubá-la. Não achei. Ela não caiu. Soltei uma maldição — acho que disse inferno em voz alta — depois de confirmar o vazio na outra perna. Ajeitei os corpos, o dela cada vez mais grudado no meu, e fiquei olhando nosso reflexo nos vidros fechados do carro: minha testa tomada por gotículas, visíveis mesmo naquela imagem deformada e escurecida de nós; ela, esparramada em meus braços, a cortina de cabelos brancos lambendo meu joelho. Parecia um quadro.
Uns passos para trás, varri o chão com o pé e a deitei, devagar. A dor não era uma possibilidade no estado em que estava, mas sob meus cuidados ela seria entregue íntegra. Sei das minhas responsabilidades.
Entrei mais uma vez em casa e vasculhei as superfícies até cruzar com o brilho do metal sobre a mesa. A procura durou poucos segundos, o que é raro: por lá as coisas costumam sumir em meio à bagunça e quase nunca reaparecem. Atravessei o corredor e voltei para a garagem, chave na mão, portas abertas.
Olhando de cima, antes de erguê-la de novo, tive a impressão de que estava numa posição diferente, como o ponteiro de um relógio que se mexe depois de uma distração. Não é hora para milagres, pensei, ignorando o sinal. Senti também que ela estava mais pesada, como se tivesse ganhado uns quilos durante o rápido intervalo entre o cimento e a chave, mas atribuí a diferença ao ângulo: abaixar para guinchá-la do chão era diferente de tirá-la da cama, como eu estava acostumado a fazer. Bobagem, pensei, e me concentrei na missão, deixando de lado essas coisas. Já não era tão cedo, precisávamos sair.
Há quem encontre alguma solenidade no momento. Eu não. No dia agendado para o encerramento de sua vida, preferi a frieza da obrigação e a licença para refletir sem culpa: algumas existências não fazem sentido. Ou fazem durante um tempo e depois deixam de fazer. Não fosse a obrigatoriedade de entregá-la, este seria o caso da minha mãe desde que a cama virou sua pátria; este é o caso de qualquer mulher que rasteja até completar 79 anos para que então seja depositada no Centro de Transfusão mais próximo, sadia ou enferma, lúcida ou caduca, feliz com a vida ou ansiando a morte. Com a atualização cadastral, um eventual atraso implica a visita de um agente público que, educadamente, pergunta se está tudo bem, se aconteceu alguma coisa, se a família precisa de ajuda para o transporte ou de apoio psicológico. Depois dessas gentilezas, levam sua avó, sua mãe, sua irmã, sua esposa. Não há negociação, suborno ou exceção. É assim e pronto. Estamos todos de acordo e satisfeitos com a troca. O momento de se indignar passou. E passou rápido depois do plebiscito.
Eu não precisava de nenhum estímulo ou consolo; entendia exatamente o que tinha de ser feito. Meu orgulho crescia na mesma proporção em que, a cada passo, o peso dela aumentava, até se tornar quase insustentável na hora de depositar o seu corpo no banco de trás do carro. Em algumas horas, a agulha perfuraria uma de suas veias e sugaria o seu sangue. Um afortunado receberia o líquido, ganhando uma nova chance de viver. Deus queira que o menino seja o escolhido, desejei comigo mesmo. Minha mãe, uma mulher que praticou o bem até ser calada e imobilizada numa cama sem que tivesse feito nada, sem que nada pudesse ser feito, encerraria sua participação neste mundo com um gesto de doação. Um desfecho justo, finalmente. Era o que queríamos.
O milagre está aí, acontecendo todos os dias, mas ainda me encanta que a cura da doença mais perversa que existe esteja correndo nas veias das mulheres. Desde sempre? Nunca saberemos. Mulheres de 79 anos, como a minha Isabel, como as outras um milhão duzentas e treze mil quatrocentas e vinte e duas que estarão prontas neste ano, segundo o gráfico que vi logo de manhã na Internet, depois de reler a mensagem em que Cecília oferecia companhia. Nada está mais mapeado neste planeta do que as Propiciadoras, nenhum constrangimento seria necessário a Dona Isabel ou a mim. O funcionário público poderia se dirigir à casa de outra velha; estivesse consciente, minha mãe teria vindo a pé se entregar. Não estando, sou a extensão da consciência que ela teve um dia, as pernas que ainda podem andar. Tínhamos apenas um ao outro e a continuidade do mutismo que nos acompanhou nestes últimos tempos. E o dever, tínhamos o dever.
Quando me sentei, vi que o rasgo no banco estava maior. Começou com um pequeno orifício da espessura de um dedo mínimo. Bituca de cigarro, uma marca deixada por Cecília. Mais uma. Aquilo me desconcentrou. Talvez porque me fez antecipar sua presença, antever sua boca; talvez porque aquele furo no banco do carro fosse idêntico ao que se formou no colchão da minha mãe e que vi crescer, dia após dia, quando a levava da cama para o banho, do banho para a cama. Enfiei meu dedo médio e alarguei ainda mais o buraco. Indo e vindo. Depois, juntei as pontas dos cinco dedos para formar um funil com a mão e comecei a enfiar, desse jeito, parecendo o bico de um pato. Atravessei o couro e escutei o som das fibras se rompendo, até começar a resistência silenciosa da espuma que dá forma ao assento. Sem muita força, penetrei meu braço até a altura do cotovelo, e toquei o assoalho. Espanei a poeira acumulada por meses e senti um gelado na ponta do dedo. Achei que fosse uma moeda. Era a tesoura, não sei como foi parar ali. Depois de anos usando o mesmo veículo, a gente encontra coisas que nem imaginava que ainda existiam. Pacotes de bolacha, fios de cabelo, restos de comida, insetos mortos, uma tesoura, a minha tesoura dourada.
Ajustei o retrovisor para observar o rosto dela. A boca aberta, os olhos arregalados mirando sabe-se lá o quê, o cabelo cortado. Isabel nunca se rendeu à vaidade, mas achei que ela gostaria de usar o vestido. E o sapato. Pensei em cobrir o rosto dela com um pano até chegar lá. Desisti. Em vez disso, saí mais uma vez do carro e beijei-a na testa, certificando-me de que ela estivesse confortável. Está pronta? Queria ter ouvido um sim, mas Isabel era apenas silêncio. Então vamos, mãe.
Enquanto tirava o carro da garagem, uns vizinhos se aproximaram e pararam a uma distância contemplativa. Alguns aplaudiram; outros esticaram o pescoço para vê-la mais uma vez. Um cachorro do outro lado da rua se protegia debaixo de um beiral. Parecia um pastor-maremano-abruzês, um pouco sujo, com uma marca na testa. Isso não vai te proteger da chuva que está por vir, amigão, melhor correr. E ele saiu em disparada, como se tivesse ouvido meu pensamento. Achei engraçado. Acompanhei a fuga até que minha visão já não o alcançasse, até ele desaparecer.
Gotas grossas e demoradas começaram a cair sobre o vidro. Lembrei da minha mãe me dizendo que a chuva são as lágrimas de Deus pela ruindade dos homens. O que eles fizeram dessa vez, mãe? Acenei, agradecendo aos vizinhos antes de seguirmos.
***
Peguei o celular e escrevi, apaguei, reescrevi usando palavras diferentes, até chegar numa versão que julguei suficientemente fria, na medida certa da indiferença. Mesmo que eu passasse a manhã inteira tentando, acho que não encontraria nada melhor do que a frase seca — se quiser, posso te acompanhar nisso
— que enviei sem um olá, um bom dia ou um como vai? introdutório. Isaque deve ter achado inusitado. Não nos falávamos desde o dia em que decidi ir embora, deixando a ele e Isabel na casa que era minha. Ou não. Talvez ele esperasse por isso, tanto que respondeu no mesmo instante, como se tivesse adivinhado. A última coisa que ele deveria esperar era um contato meu, ainda mais para acompanhá-lo na entrega de Isabel, em obediência cega à Solução 79.
Seria muito importante que você fosse
, respondeu ele imediatamente, como se o texto estivesse pronto desde sempre, sem o cuidado de escolher as palavras certas, como tentei fazer.
Não havia mais nenhum vínculo, nenhuma obrigação, nada. Mesmo assim me ofereci, um tanto estimulada pela sensação de também ter um prazo de validade. Um dia serei eu, vai chegar para todas, nenhuma mulher vai escapar. A alternativa é morrer antes do tempo; melhor ainda se a morte vier às vésperas. Imagina, ter um desses trecos que param o coração durante o sono, no décimo primeiro mês do meu septuagésimo oitavo ano, sem escândalo, sem dor, sem que ninguém tenha que me fazer dormir antes de me matar, frustrando a coleta, com um desses carniceiros oficiais lamentando — É, perdemos essa; foi por pouco, uma pena
— antes de enfiar meu corpo num saco preto. Teria alguma graça, mas não vai ser assim. A sensação é a de que ainda vou viver muito, castigada pela praga da longevidade; visualizar o octagésimo, sentir o formigar das dores que os oitenta inauguram e, então, ser abatida. É o que eles querem.
Pode ser que até lá eu esteja cega. Minha tia-avó teve um glaucoma severo, e essas coisas são hereditárias; às vezes pulam uma geração para ressurgir mais forte na seguinte, mas uma hora dão as caras, como uma maldição. Posso estar surda. Muitas mulheres da família perderam a audição na faixa dos sessenta, e os homens, que nunca se atreveram a falar alto, passaram a gritar. Pelo menos a surdez me pouparia de ouvir a ridícula celebração da generosidade que oferecem a alguém que não pôde escolher o egoísmo e da leitura de uma porcaria mal escrita, um texto chulé recitado ao pé da maca como agradecimento pelo ato, como se a mulher estivesse deitada ali por bondade, esperando feliz que lhe arranquem o sangue. Tem um monte de vídeo na Internet, publicado por familiares orgulhosos, uma gente imbecil.
E se eu estiver como Isabel, adormecida por um tipo de anestesia que torna desnecessário o coquetel de drogas, me desobrigando de qualquer resistência física? Será que eu tinha inveja da condição dela? Via na paralisia uma espécie de protesto silencioso? Não faz sentido, a passividade física não combina comigo. Pode não parecer, mas continuo resistindo.
Fui com ele porque quis. Por alguma razão, achei que precisava estar por perto. Isaque ia entregar a mãe semimorta para que ela fosse definitivamente assassinada sob o pretexto de salvar vidas. Ele sabia que era um abuso, uma violência? Às vezes penso que sim, e tudo o que fez ou disse foi para me impressionar. A mãe virou uma causa. Se quiser, posso te acompanhar nisso
, foi só isso que escrevi, talvez algumas palavras a mais, um erro proposital de digitação para sugerir algum desleixo. Ele quis, claro. E essa frase, curta e objetiva, nos ligou novamente.
Lembro de ter borrifado dois jatos de álcool na tela do celular, esfregando no vidro arranhado um pedaço de papel higiênico, como se houvesse algo de sujo naquela troca fria de mensagens. Nossa conversa — se é que podemos chamar isso de conversa — se tornaria o registro de uma cumplicidade que não tínhamos, que nunca tivemos. Eu não podia imaginar que o plano dele era outro, tudo premeditado a partir da intuição de que eu me ofereceria para acompanhar a entrega. Não fomos para o Centro de Transfusão. Quer dizer, eu não fui. Isaque me levou para a porta da igreja e me largou lá depois de matar a cachorra com a tesoura.
Era para ter sido eu, tenho certeza. A cachorra me salvou, a cachorra foi enviada para me salvar.
***
Alguns são escolhidos. Por serem grandes. Por serem pequenos. Porque são agitados. Porque são quietos. Por oferecer companhia. Por garantir proteção. Porque são bonitos, imponentes. Fofos. Porque são feios. Por serem exóticos, raros. Por serem exatamente iguais a outros. Por guiarem os cegos. Por encantarem os que enxergam. Porque mordem. Porque são incapazes de ferir. Porque comem pouco. Porque comem qualquer coisa. Por exigirem pouca dedicação. Por ocuparem dias vazios. Porque são obedientes. Porque são anárquicos. Porque são peludos. Por serem pelados. Pela inteligência. Pela força. Pela delicadeza. Pela braveza. Porque foram abandonados. Porque foram encontrados. Porque têm pouco tempo de vida. Porque têm uma longa vida pela frente. Porque custam caro. Porque não custam nada.
Não têm consciência de que foram escolhidos. Apenas estão ali. Pode ser numa casa feliz onde lhes dispensam infelicidades; ou numa casa triste onde a sua presença é a única alegria. Alguns vivem e morrem na rua. Dormem sobre o pó da terra. Outros desfrutam de cômodos amplos, emaranham-se em lençóis felpudos. Podem ser tratados como reis. Mas há os que vivenciam um sofrimento sobre-humano, uma vida de cão, como um homem lamentaria. Estão aqui sem saber se viverão na companhia dos bons ou dos maus. Nem sabem que isso existe, bondade e maldade. São cercados pelo Bem e pelo Mal, mas essas coisas são turvas demais e dizem que eles não reconhecem todas as cores. Podem lamber os maus e morder os bons. Fazem o inverso também. Ignoram se o chute recebido hoje é um evento único, a manifestação de uma ira pontual, ou se serão chutados todos os dias apenas por serem o que são. Não importa. Ignoram se o pisão na pata foi um acidente. Reagem. Pulam, guincham, às vezes cravam os dentes no distraído, seja quem for. A textura mastigável da bochecha da criança ou a canela dura de um homem mau: acionada pelo instinto, a mordida não faz as distinções que a prudência oferece — muitas vezes sem sucesso — à espécie que o domesticou. E esquecem, sempre dispostos a recomeçar. Rastejam. Pulam. Imploram carinho. Rosnam, latem, ameaçam. Fique de cócoras: quase sempre eles vêm ao nosso encontro, às vezes receosos, às vezes decididos. Há leis a protegê-los, mas eles não sabem disso. Não as reivindicam.
A mulher pegou um deles e levou para casa. Carregou junto o pano sobre o qual ele se espremia para disputar o leite com os irmãos. Enfiou na sacola o filhote e o cheiro da mãe. Ouviu dizer que isso ajuda na adaptação. Preferia o fedor do tecido ao choro. Teve os dois, eles sempre choram. Alguns, várias noites; este chorou apenas uma. A mulher sentiu raiva, mas não bateu, não naquela noite. Seria inútil. O menino ouvia o uivo que vinha de algum canto da casa, casa que também era novidade para ele, e se perguntava se também devia chorar. Tapou os ouvidos e adormeceu. Ao acordar, a mulher perguntou o que ele achou do presente.
— É seu.
— Meu?
Ficou de cócoras, e o presente lhe pulou no colo para em seguida cravar os dentinhos finos no dedo, convidando à brincadeira. Doeu, doeu um pouco. Mas gostou. Logo inventariam outras brincadeiras, logo se entenderiam, logo seriam separados.
2.
Lembro de ir andando devagar para o outro quarto assim que acordei. Bem devagar, com passos leves, como de quem quer surpreender alguém num flagrante, chegar sem ser visto, sair sem que percebam. Não foi hesitação nem disfarce, só uma forma de retardar, o máximo que pude, o vazio que encontraria ao atravessar a porta e não a encontrar mais lá. Ela não avisou nada, mas eu sabia; fui me deitar sabendo. As portas do guarda-roupa arreganhadas, como se me oferecessem um abraço consolador, confirmavam o recado que os zíperes compuseram ao longo da madrugada, o tira e põe de coisas, o andar decidido; sons amplificados pelo corredor estreito que conectava o quarto dela e o meu, que havia sido nosso. Quem parte em silêncio quer fugir; quem escancara a partida quer punir os que ficam. Isabel e eu ficamos, assim como as consequências largadas por lá, as únicas coisas que Cecília não pôde nem quis carregar.
Agora ela vive a quatro quilômetros e duzentos metros de mim, mas parece mais. Em sete minutos eu já estava com o carro parado quase em frente ao prédio dela. Teria sido mais rápido não fossem as duas voltas que dei no quarteirão de casa para tentar achar o cachorro. Fiquei encucado, queria confirmar se era mesmo um maremano, nunca tinha visto um solto assim na rua. Devia estar perdido, o dono desesperado, pensando em oferecer recompensa, produzindo cartazes, consolando um filho, prometendo que fariam de tudo para encontrá-lo. Podia ser um pastor húngaro, um kuvasz, são parecidos. A dúvida me incomodava, mas achei melhor desistir da busca. O Ministério da Saúde é rigoroso com prazos e horários, e eu não queria ter que explicar que me atrasei por causa de um cachorro. Irônico ser esta, agora, a explicação verdadeira, a única que tenho a dar. Tive de sacrificá-la, por isso demorei um pouquinho mais.
Eu poderia ter vindo sozinho, mas não nos falávamos havia tempo. Reli a mensagem várias vezes, mesmo dirigindo. Uma frase curta, objetiva, e um ponto final. Ela queria apenas me lembrar de que eu estava entregando uma mulher para ser, nas palavras dela, abatida? Talvez houvesse algo mais, coisas não escritas, não sei. O certo é que o contato despertou em mim a necessidade do encontro. Não fosse dessa forma, talvez nunca acontecesse. Cecília é a pessoa dos rompimentos definitivos. Isabel e eu somos prova disso. Estender a ela a possibilidade de participar da morte da minha mãe representava a despedida que não tivemos. E admito que ainda via graça e beleza naquele movimento de mãos durante seu discurso para me explicar como a medicina, ou o Estado?, não lembro bem, se apropriou do corpo das mulheres. Eu não entendia boa parte do conteúdo, mas me encantava a veemência, a firmeza com que me acusava de cumplicidade. Eu queria ter convicções assim, nunca tive.
Cheguei. Não demora
, escrevi recorrendo ao léxico glacial da indiferença fingida, assim que encostei o carro. Ela apareceu na portaria do prédio e cumprimentou alguém. O vigia, talvez. Naquele horário é o Uriel quem fica na guarita. Sei o nome de todos, apesar de ela nunca ter me apresentado nenhum deles.
Cecília viu o carro e não correu, apesar da chuva. O limpador do para-brisa trabalhava naquela intensidade em que descansa um tempo antes de subir e empurrar a água. Nunca é suficiente. A respiração quente embaça o vidro, uma lousa convidando o dedo indicador de quem espera. Pensei em escrever ou desenhar algo, mas preferi usar a mão para garantir a transparência. Não queria perder nenhum movimento. As palhetas empurraram a água, e vi a imagem dela crescendo, rápido, até se agigantar quando grudou a mão na maçaneta da porta. Travada. Uma mudança de semblante. Ela deu um tranco com força e eu me atrapalhei com os botões, deixando-a mais tempo do lado de fora e garantindo umas gotas a mais; a sobrancelha franzida, uma linha de água escorrendo bem no meio da testa.
A inimiga do povo estava comigo, iríamos juntos entregar minha mãe, era esse o plano, só esse, sempre foi. A cachorra apareceu e retardou a obrigação.
***
Ele colocou o corpo dela no banco em que eu vinha sentada, parecia um pai levando a filha adormecida para o berço. Entrou no carro e ficou uns minutos lá dentro antes de seguir viagem sem mim. Eu só pensava no sangue se espalhando, na sujeira e no cheiro que a cadela levou para dentro do carro. Isabel sendo conduzida para o Centro de Transfusão no meio daquela imundície, o volante nas mãos de um filho maluco que, sem mais nem menos, havia acabado de dar uma tesourada numa cachorra.
Foi estranho ver o carro dele partindo, me deixando ali, como se eu já não tivesse nenhuma serventia. Eu queria ter ido até o fim e acompanhar a entrega de Isabel, deixando lá meu último protesto, uma pegada de indignação naquele lugar onde só a docilidade era bem-vinda. Ter me largado ali, viva, sem nenhuma tesourada no peito, era parte da retaliação por eu ter ido embora? Pode ser.
E como eu poderia ter continuado morando com ele? Eu passava o dia tentando alertar as pessoas sobre a violência da Solução 79 e, à noite, me deitava com um sujeito incapaz de entender a gravidade disso. Isaque é do tipo que não pode ver uma tirania sem rebolar para ela. É uma vocação, muitos são assim. A casa era minha, mas já não fazia sentido viver ali. Que ele ficasse com tudo, que os últimos anos de Isabel fossem vividos ali, eu não me importava.
Foi espantoso ver a frieza dele quando o resultado do plebiscito foi anunciado; a passividade daquele filho ao preencher o formulário, aceitando o tal Termo de Responsabilidade
sem questionar nada. Eu, espaço para o nome, estou ciente da necessidade de zelar pela saúde e pela integridade física de, espaço para o nome, espaço para a data em que a mulher deve ser entregue ao Centro de Transfusão, em unidade a ser definida e comunicada posteriormente, segundo as diretrizes da nova Lei. Assine aqui e diga ao mundo que você está orgulhoso por abaterem sua mãe. Isaque agiu como se estivesse entregando uma cômoda usada para o Exército da Salvação.
Na véspera da votação, ele viu o roxo na minha perna. Como todo mundo, deve ter acompanhado pela televisão que os policiais vieram em direção às mulheres para arregaçar. Isaque ligava a tevê quando Isabel dormia e desligava quando ela acordava. Não queria que a mãe assistisse ao noticiário. A exceção eram os programas que as pessoas chamam de femininos — estes que ensinam as mulheres a forrar o bucho de maridos, filhos e netos. Ele se justificava dizendo que Isabel sempre gostou dessa programação, que era um momento só dela. Tá bom. A mãe incapaz de mexer um dedo, e ele a submetendo à torturante sessão do aprenda a fazer uma deliciosa torta de frango
. Um quilo de farinha de trigo, quatro cebolas, meio peito de frango desfiado. Sem pele, para ficar mais gostoso. Aquilo me irritava. Sem falar nos anúncios. Cínicos como a política que incentivou essa solidariedade mórbida. Cogumelos do sol para a longevidade porque cuidar da vovó é fundamental
. A mulher de meia idade, loira e rica, que vende na tevê soluções para o prolongamento da vida é tão cúmplice quanto os médicos que assassinam aquelas que eu ainda me recuso a chamar de Propiciadoras.
O Isaque achava que o bem-estar da mãe vegetativa era aprender a temperar carne. Enquanto isso, eu, preocupada em passar hidratante nas dobras dela para evitar feridas; em besuntar seu corpo com óleo; em mudar a posição daquele corpo imóvel a cada três horas para evitar uma trombose; lençóis limpos todos os dias, lavados com amaciante antialérgico; trocas regulares de fraldas, a serviço da bipolaridade do sistema digestivo dela. Meu turno começava assim que chegava do trabalho. Deixava a bolsa na cadeira, lavava as mãos e assumia. Praticamente tudo por fazer. Catava as coisas espalhadas pelo chão, peças de roupas, embalagens de comida e medicamentos, um desleixo sempre justificado pela
