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Contos De Senzala
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E-book412 páginas5 horas

Contos De Senzala

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Sobre este e-book

Sentimentos, pensamentos, receios e sonhos de um povo que perdeu a liberdade e a vida durante a escravidão. Contos de Senzala oferece ao leitor dez histórias verídicas sobre a vida dos espíritos que lutaram bravamente para superar a triste provação e galgar degraus evolutivos. Em: O Negro Jeremias, o amparador mostra como a violência pode facilmente prejudicar o discernimento do espírito, que passa a temer tudo, inclusive as oportunidade de felicidade. Em: Gumercinda, a narração aponta a crueldade de uma sinhazinha que se regozija diante do sofrimento imposto aos mais fracos, e após o desencarne aprende a duras penas o valor da compaixão. Em: O Poço, Severino de Aruanda mostra as consequências da ambição e avareza, que facilmente podem lançar o espírito no poço de sofrimento. Em: Boneca de Trapo, o leitor poderá ver com clareza as manifestações da alma sempre insatisfeita e ingrata, que desde os primeiros anos de vida aponta a urgência de correção. Em: A Marquesa, o amparador espiritual relata o triste caso de duas escravas que, após conquistarem a liberdade, continuam sofrendo a discriminação imposta pelos brancos. Em: Iací, Severino de Aruanda explora um pouco o folclore brasileiro e mostra que, em muitos casos, as figuras que ocupam o imaginário popular não são meramente fantasias. Em: O Abolicionista, por meio de um escravocrata ambicioso, o leitor poderá ver com clareza a atuação das Leis de Causa e Efeito. Tudo que é roubado, um dia terá que ser ressarcido. Em: Eustáquio, de maneira singela e amorosa, Severino de Aruanda expõem as consequências dos abusos sexuais praticados durante o período de escravidão e os terríveis tormentos que sofrem as almas condenadas pelas próprias insanidades. Em: Carlos e Tobias, mais uma vez o amparador usa as figuras do folclore brasileiro para mostrar que em toda fantasia existe um viés de veracidade. Em: O Dedo, por meio de uma breve história, o amparador convida o leitor a refletir sobre o medo diante dos desafios existenciais. Será que podemos fugir dos dissabores que podem melhorar a nossa condição evolutiva? Permita-se aprender e evoluir por meio do Amor! São mais de cinquenta obras dedicadas ao crescimento espiritual e expansão da consciência. Leia a prévia, adquira o seu exemplar e não esqueça de avaliar o conteúdo. A sua opinião é muito importante. BOA LEITURA!! ATENÇÃO Como aviso esclarecemos que as histórias desse livro são baseadas em fatos reais e podem apresentar temas adultos, abusos de substâncias, mortes brutais, descrições perturbadoras, palavras ofensivas e violência contra animais. Tenha cuidado com menores de 16 anos.
IdiomaPortuguês
EditoraClube de Autores
Data de lançamento18 de out. de 2022
Contos De Senzala

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    Contos De Senzala - Lilian Campos

    Carta ao leitor

    Amado (a) irmão (a), é com muito amor e carinho que trago essa obra.

    Para preservar a identidade dos encarnados e desencarnados citados e envolvidos nessa obra, os nomes, locais e datas foram propositalmente modificados, isso não altera a essência do trabalho, que mantém a autenticidade dos ensinamentos e veracidade de todos os relatos.

    Todos os contos são relatos verídicos de irmãos que viveram durante a escravidão, amigos que tiveram a boa vontade para divulgar suas memórias siderais e assim exemplificar para os encarnados as consequências de suas escolhas. Expondo seus acertos, erros, vitórias e fracassos, eles mostram que através do plantio e da colheita sempre se chega à evolução espiritual, mesmo que aconteça por meio do sofrimento.

    Muitos relatos causarão espanto, tristeza, revolta, e raiva, nesses momentos observem seus sentimentos e o que acontece em vossos corações, estejam atentos a todas as emoções, sejam elas de alegria, ou tristeza, risos ou lágrimas, pois seus corpos emocionais reagem e sinalizam para o ponto que deve ser trabalhado e transformado.

    Leiam esses relatos, olhem para dentro, conectem-se com seus corações e percebam onde podem se melhorar, dessa maneira poderão evitar sofrimentos futuros. Olhar para fora e apontar para o outro, em nada contribui para evolução do espírito, apenas o distrai e mantém no atraso evolutivo.

    Não posso negar que as provas necessárias para evolução trazem dor e sofrimento, mas muitas pedras no caminho podem ser evitadas, observando por onde se anda pode-se evitar a queda, portanto, cuidem de sua caminhada espiritual e abandonem o hábito de cuidar e controlar os passos de vossos irmãos.

    Agradeço aos amigos espirituais que contribuíram na realização desse trabalho, que tem como único objetivo, ajudar aqueles que vivem suas provas no campo terreno.

    Com muito amor.

    Severino de Aruanda.

    Capítulo 1

    Negro Jeremias

    Barão Antônio parou na porta na capela, olhou para o escravo que lustrava os bancos e falou: 

    — Jeremias! Venha almoçar homem! Seus irmãos já estão á mesa! 

    — Sinhô, ainda não terminei meu trabaio! — E desde quando escravo come na mesa?

    — Aqui os escravos fazem suas refeições com dignidade, comem comida boa, nada de sobras! — Agora ande homem! Daqui a pouco não sobra nada para vosmecê! 

    — Sinhô, não posso comê antes de termina meu trabaio!

    — Eita negro teimoso! Se estou falando para ir comer então é para ir comer! — Por Deus! Depois vosmecê termina!

    — Primeiro tenho que limpá aqueles santinho do altar, lavá os vidro, varrê, e...

    — Já disse! Depois você termina!

    — Sinhô, não posso! O sinhozinho me tirou daquela fazenda, me deu esse trabaio bom, agora tenho que terminá, só posso comê quando essa capela tivé brilhando!

    — Negro! Ou vai comer por bem ou vou te arrastar!

    A frase ameaçadora assustou o escravo, ele estalou os olhos e sentiu o corpo estremecer.

    Parado no meio da pequena capela, começou a enrolar as mãos no pedaço de pano com que limpava os bancos, os movimentos melindrosos mostravam o grande temor que as inocentes palavras do Barão causaram no escravo.

    Notando o pavor do negro, Antônio sorriu com simpatia e apelou:

    — Negro, aqui os escravos são tratados com respeito, não estou ameaçando, apenas pedindo que venha almoçar, depois vosmecê continua sua labuta!

    — Sinhozinho, não quero comê antes de termina minha lida!

    Antônio franziu a testa, arqueou as sobrancelhas, bateu o pé esquerdo no chão e afirmou:

    — És um cabeça dura! Então continue! Vai ficar o resto da tarde sem comida e passará fome!

    Antônio deu-se por vencido e saiu.

    Enquanto o Barão se afastava, Jeremias olhava e sentia-se confuso, se perguntava que tipo de sinhozinho era aquele que dava comida boa para os escravos e ainda permitia que comessem na mesa. Com as mãos inquietas, continuava a enrolar o pedaço de pano velho.

    Quando o Barão sumiu, ele retornou ao trabalho, com extrema delicadeza tirava o pó de todas as imagens, lustrava os bancos e o altar de madeira até notar que estavam brilhando, cuidadoso e detalhista limpava todos os cantos até não restar a menor partícula de sujeira, o perfeccionismo ocupava um tempo muito maior do que o previsto pelo Barão, no entanto, ele não se incomodava e deixava o negro a vontade.

    No final da tarde, novamente Antônio chegou na pequena capela, parou na porta, encostou-se no umbral, com os braços cruzados observava o minucioso trabalho do negro.

    Quando percebeu o Barão, Jeremias deu um salto, os olhos amedrontados, mão inquietas e trêmulas começaram a amassar o pedaço de trapo com que limpava a capela.

    Antônio sorriu cordialmente, olhou de cima a baixo e comentou:

    — Vejo que fez um belo trabalho! Essa capela parece um brinco!

    Gaguejando, de cabeça baixa e com os músculos contraídos pelo medo, Jeremias argumentou:

    — Ainda não terminei o trabaio, sei que era pra tá pronto, mas ainda farta um poço! — Mas do minha palavra pro sinhozinho que não vo durmí antes de termina tudo!

    — Jeremias! Pare com isso homem! Vim te buscar para o jantar! Largue esse pano e vamos comer!

    — Sinhô, nego não póde comê se não termina a lida!

    — Isso é coisa da sua cabeça! — Por Deus homem! Pare de tremer! 

    — Descurpe sinhô!

    Antônio olhou para as costas desnudas do negro e percebeu pequenas gotículas de suor correndo pela coluna.

    — Jeremias! Está com frio?

    — Não sinhô!

    — Então por que está suando tanto? Tudo isso é medo?

    O negro abaixou a cabeça mostrando vergonha.

    Tentando acalmar o escravo, Antônio sentou-se em um dos bancos, esticou as pernas, cruzou os braços e falou:

    — Pois bem, vou descansar um pouco, enquanto vosmecê termina eu aguardo! Quero que vá jantar!

    Os grandes olhos do escravo cresceram para cima do Barão, com voz entrecortada resmungou amedrontado:

    — Vai espera inté eu termina?

    — Sim! Só saio daqui quando vosmecê for comer! — Seus irmãos estão jantando, fizeram um feijão que parece muito saboroso, daqui a pouco não tem mais, e vosmecê sabe como é, escravo não é de desperdício, passam o pão no fundo da panela que é para não perder nada!

    — Sinhozinho, se me permite fala, eu não posso comê se não termina, preciso respeitá o sinhô! Si mandô eu limpá a capela eu só posso saí quando tive tudo limpo!

    — Então termine, eu aguardo! Não se preocupe!

    O barão se esticou um pouco mais, espreguiçou-se, e fechou os olhos, a calma e tranquilidade das atitudes deixavam Jeremias ainda mais nervoso, ele nunca havia presenciado aquele tipo de atitude em um sinhozinho.

    Cauteloso ele retomou o trabalho, com a ponta do pano limpava os minúsculos detalhes das imagens que enfeitavam o altar.

    Alguns minutos se passaram, Antônio abriu os olhos, olhou ao redor e notou Jeremias esfregando as imagens, esticando os braços para cima, bocejando preguiçosamente ele falou:

    — Agora está bom! Vamos comer!

    Assustado, Jeremias olhou para a imagem de Santo Antônio que segurava nas mãos e apelou:

    — Sinhozinho, eu imploro, tenha piedade de eiu! Deixa eu terminá!

    O Barão levantou-se abruptamente, em passos firmes foi até Jeremias, segurou o braço do negro ordenou:

    — Seu cabeça dura! Teimoso! Você vai me obedecer e vai comer!

    Jeremias se encolheu e curvou o corpo, preparava-se para levar uma surra quando Antônio falou:

    — Não vou te bater! Por Deus! Não precisa se encolher de medo! Se estou tomando essa atitude drástica é porque quero seu bem! 

    Enquanto arrastava o negro pelo braço, Antônio explicava:

    — Vosmecê está desde cedo nessa capela! Não comeu o dia inteiro! Pois agora vai se alimentar e descansar, e isso é uma ordem! — Se sou obrigado a ordenar, então farei isso!

    Os dois atravessaram a propriedade e pouco tempo depois chegaram na pequena senzala.

    Antônio soltou o braço do negro, apontou uma grande mesa de madeira, balançou a cabeça e reclamou:

    — Olhe! Todos já comeram! A comida acabou e os negros já foram dormir! Te falei que a comida ia acabar!

    Jeremias correu os olhos pelo espaço vazio, em seguida mirou o Barão e falou assustado:

    — Sinhô! Cadê os nego? Fugiram?

    — Estão dormindo!

    — E eles dormí onde?

    — Em suas casas! Vosmecê não viu que no fundo da fazenda tem uns casebres? — Sente, vou até a cozinha pedir para prepararem um prato de comida, vosmecê vai comer nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida!

    O Barão saiu e Jeremias se sentou pensativo, não conseguia entender aquele homem que fez questão de lhe salvar das garras de sinhô Theodoro, depois lhe deu um trabalho fácil, se preocupava que ele estivesse alimentado e descansado e até dividia a comida da casa grande, eram muitas novidades para ele assimilar no primeiro dia na fazenda.

    Pouco tempo depois o Barão retornou com um prato farto, saborosos pedaços de aipim com guisado de porco.

    Sorrindo com alegria, gentilmente Antônio colocou o prato diante do negro e falou:

    — Agora coma, está muito gostoso, foi minha esposa quem fez!

    — E a sinhá faiz comida?

    — Sim, ela ajuda as negras na cozinha!

    — Sinhô, se me permite pergunta...Porque o sinhozinho é tão bão pra ieu?

    — Ora Jeremias! Vosmecê é filho de Deus, meu irmão em Cristo, não posso maltratar um irmão!

    — Não entendo! Descurpa, é que nunca ví um sinhô assim! Por que me tirô da fazenda de sinhô Theodoro?

    — Jeremias, eu já tinha te visto antes naquela fazenda, não é de hoje que tentava te comprar, vosmecê não lembra das minhas visitas?

    — Lembro sim sinhô, lembro também do dia que eu tava naquele tronco e o sinhô pediu pro sinhozinho não me batê!

    — Sim, pedi, mas acredito que não adiantou muito, vejo que seus pés estão em carne viva, nunca entendi por que Theodoro sente tanto prazer em mandar chicoteá-los nas solas dos pés!

    — Ele fala que é pra nego aprendê a anda mais ligero! 

    — Reparei que vosmecê não tem marca nas costas, mas o peito parece bem castigado!

    — É que sinhô Theodoro prefere batê no peito! Ele sabe que dói mais! No peito péga as costelas e a dor é maió!

    — Nunca vou aceitar essa barbaridade! — Vamos aproveitar e deixar claro as regras da fazenda. — Jeremias, aqui os negros são bem tratados, nunca mandei um escravo para o tronco, todos tem horário para comer, descansar e folgar, se quiser podem ir embora da fazenda, mas aconselho que fique, pois não posso dar a carta de alforria, e se fugirem logo serão capturados e levados para outra fazenda, consegue entender?

    — Sim, entendo sim sinhô! — Mas não entendo por que o sinhô compro ieu!

    — Vou te explicar, mas antes preciso que entenda muito bem uma regra importante!

    Antônio deu uma breve passa, refletiu e explicou:

    — Jeremias! Nessa fazenda os escravos são livres, mas isso precisa ser um segredo muito bem guardado, se formos descobertos poderá haver punições sérias! — Vosmecê vai dividir uma casa com outros dois negros poderão sair e ir até a cidade, também pode fazer uma horta e plantar as coisas que gosta de comer, vou lhe dar algumas roupas e calçados, mas quando recebermos visitas preciso que vista esses trapos velhos que está usando agora, e se perguntarem algo sempre fale que os escravos vivem na senzala e recebem castigos se não trabalharem direito, vosmecê entendeu?

    — Sim, é pra mentí!

    — Não é bem uma mentira, uma omissão! E vosmecê também vai trabalhar!

    — Ieu vo fazê o que?

    — Vai manter a capela impecável! Uma vez por mês mando trazer o padre da cidade, ele faz a missa para todos da fazenda, os negros que querem podem participar

    — Meu trabaio é só isso?

    — Esse é seu trabalho principal, quando não tiver o que fazer na capela poderá ajudar na colheita de cana, no engenho, aqui fazemos o melhor açúcar e a melhor cachaça desse país! Temos porcos, algumas cabeças de gado, uma pequena plantação de café, tem várias tarefas para vosmecê fazer, mas sempre terá o domingo para descansar, nesses dias os escravos fazem belas reuniões festivas aqui na senzala! Jeremias, aqui vosmecê poderá ser feliz, basta aproveitar a chance e fazer as coisas certas!

    — Vo fazê tudo certinho! — Agora o sinhô me conta por que tiro ieu da fazenda de sinhozinho Theodoro?

    Enquanto Jeremias saboreava a refeição, Antônio iniciou a narrativa:

    — Theodoro é um dos meus compradores, certa vez fui pessoalmente levar açúcar e cachaça, nesse dia avistei vosmecê com um paninho na mão, parecia um maluco limpando o chão onde pisávamos. Fiquei intrigado e quando vosmecê saiu perguntei:

    — Theodoro, o que esse negro faz limpando todos os lugares em que pisamos?

    — Isso é coisa de Marieta, minha esposa tem mania de limpeza, quando era menina pegou uma doença, os pais e irmãos morreram por causa da maldita praga, e Marieta ficou louca! Vive o dia inteiro verificando se a casa está limpa, se avistar uma pegada é o fim do mundo!

    — Ela manda os escravos limparem nossas pegadas? É isso?

    — Sim, sim, esse negro que fica com o trapo na mão só faz isso, passa o dia limpando pegadas e toda sujeira! — Marieta me enlouquece! A mulher não encosta nas paredes porque tem medo de germes, só toma sopa porque ouviu em algum lugar que comida malcozida pode dar doença, a cada doze meses me obriga a trocar toda a louça do banheiro! Pode uma coisa assim?

    — Sopa nesse calor dos infernos? Realmente é espantoso! Mas e como faz para conseguir as louças para o banheiro? Sabemos que esses objetos não são encontrados facilmente!

    — Como bem sabes, os navios que chegam da Europa sempre trazem novidades, basta encontrar a pessoa certa para encomendar algo que acaba chegando escondido, o senhor me compreende não é mesmo?

    — Sim, sim, já ouvi falar que muitos navios trazem mercadorias escondidas nos porões, contudo...

    — Contudo esse tipo de transação deve ficar entre pessoas de confiança, afinal, não queremos problemas com a coroa! — Que tal mudarmos de assunto! Aceita mais um gole de cachaça?

    — É claro! — Theodoro, me diga uma coisa, quanto quer por esse negro?

    — Qual negro? Fala de Jeremias?

    — Sim, esse que fica com o pano na mão, quanto quer por ele?

    — Não está a venda, ele é indispensável, se vendo esse negro Marieta morre! — Esse miserável é escravo dela, passa dia e noite ajudando-a! Ela precisa dele para se limpar!

    — Se limpar? Como se limpar?

    — Meu amigo, meu amigo! Não sabes de nada! Já lhe disse, Marieta é louca! Ela precisa que alguém a ajude em seus asseios, teme que ao se limpar algum germe fique em suas mãos!

    — Desculpe Theodoro acho que não compreendi, sua esposa pede que o negro limpe a bun...

    Antes que Antônio terminasse a frase, Theodoro interrompeu aflito:

    — Sim, sim, sim, ela manda que os escravos façam a limpeza de suas partes intimas, é louca, louca, louca! Seja dia ou noite ela manda chamar esse negro, até para lavar as mãos ela precisa dele, pois não pode tocar na jarra de água, corre o risco de se infectar!

    — Desculpe a pergunta, mas como é que consegue tocar em sua esposa? Suponho que não consiga ter relações com ela!

    — Faz anos que não toco em Marieta, no começo do casamento ela tinha uma mania ou outra, mas foi piorando, dormimos em camas separadas, ela tem medo de infecções!

    — Então suponho que o senhor tenha outras mulheres? Por acaso se distrai com as negras?

    — Com as negras não! As vezes vou até a cidade, a modo de resolver alguns negócios, nessas ocasiões sempre passo em uma casa onde encontro o consolo para o corpo cansado, se é que me entendes?

    — Sim, entendo muito bem! — Pelo que vejo não fecharemos negócios hoje, não vai me vender o negro!

    — O negro não vendo, mas vou fazer uma encomenda para o próximo mês, quero mais algumas sacas de açúcar e um barril de cachaça! Vamos acertar o que lhe devo e por hoje nossas negociações estão encerradas!

    Enquanto Jeremias se deliciava com a refeição, o Barão relembrava o dia em que viu o negro pela primeira vez. 

    Notando o interesse do escravo, Antônio encheu um copo com água e ofereceu:

    — Tome um pouco de água, vamos prosear mais um pouco!

    Jeremias olhou intrigado para o copo de água e perguntou:

    — Isso é água limpa?

    — Sim, o que mais poderia ser?

    — Inté água limpa tem? Na fazenda de Theodoro nóis toma a água dos coxos dos boi!

    — Por Deus homem! Já te falei que aqui as coisas são diferentes! Acostume-se!

    — Sim sinhô! E como foi que convenceu sinhô Theodoro a mi vende?

    Antônio encostou na cadeira, cruzou os braços e continuou com os esclarecimentos:

    — No mês seguinte voltei até a fazenda de Theodoro, levei o negro Miguel para me ajudar, quando parei diante da propriedade, apressadamente ele veio me receber, aquele homem com voz autoritária, jeito arrogante e pomposo me irrita, mas preciso tratá-lo com respeito, afinal, sempre foi um bom comprador. — Quando ele viu Miguel andar em direção a casa, gritou com grosseria:

    — Preto dentro da minha casa não!

    Miguel parou, eu olhei para Theodoro e argumentei:

    — Mandei Miguel levar a cachaça para a cozinha! Não quer sua encomenda?

    — Meus escravos guardam, não quero preto estranho em minha casa! — E desde quando Miguel é nome de preto?

    — Ele é meu escravo e dou o nome que achar melhor! Gosto desse nome, e o nome verdadeiro dele é impronunciável!

    — Sim, certamente deve ter vindo daquelas tribos de macacos! Nunca vi dar nome de anjos para esses animais!

    — Entendo! Se não se importar vãos acertar nossos negócios, hoje estou com um pouco de pressa, preciso retornar a fazenda!

    — Aguarde, vou pegar seu pagamento!

    — Não se preocupe, volto outro dia para pegar!

    — Quando voltar me traga mais um barril de cachaça, acertamos tudo de uma vez!

    Me despedi de Theodoro, subi na carroça e vim para casa, me senti ofendido por Miguel, ele não é apenas um escravo, é meu amigo! Mal consegui me conter!

    Jeremias ouvia atentamente, aos poucos reconhecia a nobreza daquele homem ainda estranho.

    Antônio se levantou da cadeira, em passos rápidos foi até um canto da senzala, abriu um caixote de onde tirou uma garrafa de cachaça, voltou para a mesa sentou-se diante de Jeremias, serviu dois copos e ofereceu:

    — Beba, minha cachaça é espetacular!

    Jeremias parecia não acreditar, nunca havia se sentado diante de um sinhô, muito menos um que que olhava em seus olhos e ainda compartilhava da cachaça, constrangido segurou o copo e deu um pequeno trago, fechou os olhos e saboreou a bebida, com um leve e prazeroso sorriso no rosto, falou:

    — É bão mesmo! — Nunca na vida tomei cachaça tão boa!

    — É boa porque é feita com amor! Sempre dou algumas garrafas para os negros que trabalham na produção, eles ficam feliz e trabalham com alegria! 

    As horas passavam e os dois continuavam a conversa, até aquele momento Jeremias ainda não sabia por que aquele Barão resolveu comprá-lo, e nem como havia conseguido convencer Theodoro.

    O Barão continuou:

    — Jeremias, lembra-se daquele dia em que cheguei na fazenda e vosmecê estava preso naquele tronco?

    — Sim, lembro sim! Foi nesse dia que sinhô Theodoro bateu nos meu pé e deixou esses cortes! Mas era pra ser píó, se num fosse sua ajuda ele tinha me matado!

    — E o que vosmecê aprontou para merecer tal punição?

    — Deixei uma pegada de terra na escada da sinhazinha, fui descuidado e apanhei por isso! 

    — O que mais? Me conte tudo!

    — Toda veiz que sinhô Theodoro entrava em casa nois tinha que pedí pra ele limpá as bóta, ele ficava brabo, inté batia em nóis, mas eram ordens de sinhazinha! Naquele dia ele entró e eu não vi, antes que terminasse de limpá a sujeira sinhá Marieta desceu do quarto e viu a pegada na escada, começo a gritá e chorá, ela tem muito medo dos bichinho invisiver que dão doença, ela fico tão braba que mando sinhô me leva pro tronco, o nego Tunico tento me ajuda e foi pro tronco junto com ieu

    — Jeremias, essa mulher é como Theodoro fala? Ou é exagero dele?

    — Sinhazinha é assim mesmo, é inté pior, antes era minha mãe quem cuidava dela! Sinhá tinha pesadelo, acordava várias vezes a noite pra ir no banheiro, e chamava nóis de madrugada pra limpá ela, despois que minha mãe morreu eu fiquei com o trabaio de ajuda a sinhá! Quase não durmia, ficava acordado esperando ela chama!

    — Sua mãe morreu no tronco?

    — Morreu de doença, começo a tossi, e sinhá Marieta fico apavorada! Pensô que os bichinho invisiver estavam por todo lugar que minha mãe andava! Para se livrá mando ela pra senzala! Os escravo véio fizeram chá, mas era muito frio, úmido, não tinha coberta ou roupa, ela fico ainda mais doente e morreu!

    — Faz quando tempo que ela morreu?

    — Não sei não, eu era desse tamanho!

    Jeremias levantou a mão, e mostrou que media pouco mais de um metro e meio. Observando a estatura pequena do negro, Antônio supôs que deveria ser adolescente quando a mãe morreu.

    — Jeremias, vosmecê sabe quanto anos tem?

    — Não sei não sinhô!

    Antônio olhava curioso, o negro aparentava pouco mais de vinte e cinco anos.

    — Jeremias, me conte sua história, como foram parar nas garras de Theodoro?

    — Nóis fugiu de um lugar pior, a fazenda que nóis tava antes matava os nego no tronco! Lá os nego só saiam do tronco quando tava morto!

    — Onde era essa fazenda? 

    — Não sei não sinhô! Mas era longe! Nois andamo muito tempo pelos deserto sem água, comia uns lagartinho do mato.

    O Barão compreendeu que Jeremias e a mãe provavelmente fugiram de alguma região do nordeste e passaram longo período escondidos nas caatingas.

    — Fugiram como?

    — Na fazenda onde eu nasci os escravo tinham hora pra termina o serviço, se no finar do dia não entregassem a quantia certa da colheita, ou não terminassem as tarefa, iam pro tronco, apanhavam inté morre! — Minha mãe fazia os serviço da casa grande e de tarde fazia os bordado que a sinhá pedia, ela tinha inté o começo da noite pra termina aquilo que sinhá mandava bordá! Um dia minha mãe erro o bordado, teve que desmancha tudo! Quando chegou a hora de entrega o bordado faltava fazê o bico do patinho, mas o fio acabou, minha mãe ficou desesperada! A sinhá dava a quantidade certinha de fío, se a negra erasse era castigada! Minha mãe começo a chorá, aproveitando que sinhazinha e sinhozinho tavam na cidade, ela me pego nos braço e saiu correndo pro meio do mato

    — Mas e os capatazes? Não foram atrás?

    — Os capatais ficavam de olho nos nego da roça, as mulheres não fugiam, não viram nóis entrá no mato! Não sei por que não foram atrás de nóis! — Começamos a andá, andá e a andança nunca que acabava, fazia um tempão que nóis caminhava sem rumo quando viemo pra essas banda!

    — Então foi por aqui que Theodoro encontrou vosmecê? 

    — Sim, eu era menino pequeno, nóis foi atravessa de um lado pro outro do mato quando a carroça de sinhô Theodoro apareceu, minha mãe continuo caminhado, tento disfarça, mas ele mando nóis pará, e pergunto:

    — De onde vocês estão vindo?

    Minha mãe apontou pra frente e disse:

    — De lá!

    — Da fazenda de Antônio?

    — Sim sinhô!

    — Então subam na carroça, vou levá-los para o Barão!

    Minha mãe não teve escolha, subiu na carroça e sinhô Theodoro começo a pergunta:

    — Como estão os bois do Barão? Ele tem uma belíssima fazenda de bois!

    — Os bois tão bem, sinhozinho cuida muito bem deles!

    Minha mãe não percebeu, sinhô Theodoro tava testando, e logo descobriu que nóis mentia, quando chegamos na fazenda ele aviso:

    — Pensam que sou idiota? Antônio não tem fazenda de bois! Vocês estão mentindo, são dois fujões! De hoje em diante são meus! E se Antônio for o verdadeiro dono, cedo ou tarde ficarei sabendo!

    Daquele dia em diante nóis fico com sinhô Theodoro, minha mãe foi pra cozinha, e eu comecei a trabaiá na porteira, tinha de recebe as visita do sinhô, despois comecei a ajuda nos cuidados com sinhá Marieta, quando minha mãe morreu ocupei o lugar dela.

    — Isso explica por que tem tanto medo de ser castigado caso não termine os trabalhos, nasceu em uma fazenda onde um atraso custava a vida! — Não entendo uma coisa, você fala errado como todos os outros negros, todavia, carrega modos refinados, notei que come com educação, tem gestos delicados, te ensinaram isso?

    — Sim, sinhazinha era exigente, queria que nóis comesse com talheres pra não pega os germes, não gostava de movimentos grosseiros, sempre falava que pra cuidá dela tinha que ser delicado!

    — Que absurdo! Essa mulher é louca mesmo! — Me diga Jeremias, é verdade que ela não limpa a própria bunda?

    Jeremias deu uma gargalhada, apesar do leve receio que ainda pairava sobre seus pensamentos, não conseguiu se conter:

    — Sim sinhô, ela não limpa não, antes era minha mãe que limpava, depois eu assumi a tarefa!

    Antônio sorriu e comentou:

    — A tarefa não é das piores! Afinal, ver as partes intimas de uma sinhá

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