Explore mais de 1,5 milhão de audiolivros e e-books gratuitamente por dias

A partir de $11.99/mês após o período de teste gratuito. Cancele quando quiser.

Os Restantes Anos Da Minha Vida
Os Restantes Anos Da Minha Vida
Os Restantes Anos Da Minha Vida
E-book1.555 páginas19 horas

Os Restantes Anos Da Minha Vida

Nota: 0 de 5 estrelas

()

Ler a amostra

Sobre este e-book

Este livro não é uma biografia, mas “Memórias” de quem, na esfera jurídica, é conhecido como J. E. Carreira Alvim, advogado, desembargador federal aposentado, professor universitário aposentado e autor ativo de mais de uma centena de livros jurídicos, tendo proferido inúmeras palestras pelo País sobre os mais diversos temas jurídicos, como consta do seu Currículo Lattes. Mas, para chegar aos dias atuais, na longa trajetória percorrida, ao longo de mais de oitenta anos de vida, no exercício do magistério e da magistratura, faz-se necessário uma retroação no tempo, para retratar tudo o que a memória conseguiu registrar, se bem que nem sempre ela é fiel a si mesma, como deveria ser, pois memoriza fatos sem muita importância, e deixa de registrar outros de grande relevância na nossa vida, dos quais tomamos conhecimento através de terceiros, que nos contam o que a sua memória registrou, mas que, infelizmente, a nossa própria não conseguiu registrar. Nesta trajetória, busco relatar minhas memórias para que os descendentes da família Carreira Alvim (de Benevenuto de Faria Alvim e Thereza Carreira) conheçam a vida de um de seus filhos. Incluirei lembranças de meus nove irmãos, amigos e colegas da juventude, maturidade e velhice – fase que alcancei com memória preservada para contar minha história, ou ao menos a parte que recordo.
IdiomaPortuguês
EditoraClube de Autores
Data de lançamento19 de jun. de 2025
Os Restantes Anos Da Minha Vida

Relacionado a Os Restantes Anos Da Minha Vida

Ebooks relacionados

Arquitetura para você

Visualizar mais

Categorias relacionadas

Avaliações de Os Restantes Anos Da Minha Vida

Nota: 0 de 5 estrelas
0 notas

0 avaliação0 avaliação

O que você achou?

Toque para dar uma nota

A avaliação deve ter pelo menos 10 palavras

    Pré-visualização do livro

    Os Restantes Anos Da Minha Vida - J. E. Carreira Alvim

    J. E. CARREIRA ALVIM

    OS RESTANTES

    ANOS DA

    MINHA VIDA

    [MEMÓRIAS DE UM JUIZ]

    INFÂNCIA

    ADOLESCÊNCIA

    JUVENTUDE

    MATURIDADE

    VELHICE

    ÍNDICE

    APRESENTAÇÃO

    Capítulo 1 O QUE É A MEMÓRIA?

    Capítulo 2 COMEÇO DE UMA VIDA

    Capítulo 3 IMIGRAÇÃO DO AVÔ

    Capítulo 4 FINCANDO RAÍZES

    Capítulo 5 ADVOGADO EM AÇÃO

    Capítulo 6 RESPIRANDO POLÍTICA

    Capítulo 7 POLÍTICA NA EDUCAÇÃO

    Capítulo 8 ALVORECER DA VIDA

    Capítulo 9 FAMÍLIA DA MINHA AVÓ

    Capítulo 10 CORRETIVO FAMILIAR

    Capítulo 11 REFÚGIO SEGURO

    Capítulo 12 CURSO PRIMÁRIO

    Capítulo 13 MARCAS DA VIDA

    Capítulo 14 CONVIVÊNCIA COM A AVÓ

    Capítulo 15 CONVÍVIO FAMILIAR

    Capítulo 16 ROTINA PATERNA

    Capítulo 17 FUTEBOL E CARNAVAL

    Capítulo 18 RELIGIOSIDADE EM ALTA

    Capítulo 19 TRAVESSURAS DE IRMÃOS

    Capítulo 20 CEGONHA VERSUS SEXO

    Capítulo 21 TEMPO DE FOOTING

    Capítulo 22 GRAVIDEZ PRECOCE

    Capítulo 23 ANIVERSÁRIO SEM AVISO PRÉVIO

    Capítulo 24 CASOS INUSITADOS

    Capítulo 25 COSTUMES ORTODOXOS

    Capítulo 26 ALÔ, ALÔ UBÁ!

    Capítulo 27 APRENDIZ DE CINEASTA

    Capítulo 28 REALIZAÇÃO PATERNA

    Capítulo 29 MINHAS MELHORES FÉRIAS

    Capítulo 30 BABÁ ENCANTADA

    Capítulo 31 ELDORADO PAULISTANO

    Capítulo 32 CURSO GINASIAL NO VERA CRUZ

    Capítulo 33 TEMPO COLEGIAL

    Capítulo 34 CURSO DE CIÊNCIAS CONTÁBEIS

    Capítulo 35 FAMÍLIA DOS AVÓS PATERNOS

    Capítulo 36 EXTRAINDO E DISTRAINDO

    Capítulo 37 CIRURGIA REGADA A PALAVRÕES

    Capítulo 38 RESGATE DE MÃE

    Capítulo 39 UMA TIA SURREAL

    Capítulo 40 SÍTIO DE BORORÓ

    Capítulo 41 FESTIVAL DE CASAMENTOS

    Capítulo 42 APELIDOS EM PROFUSÃO

    Capítulo 43 CANTINHO DO CÉU

    Capítulo 44 TEMPOS NUBLADOS

    Capítulo 45 INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

    Capítulo 46 COPAS DO MUNDO

    Capítulo 47 QUASE ME AFOGUEI

    Capítulo 48 TEATRO AMADOR

    Capítulo 49 TEMPO DE POESIA

    Capítulo 50 CAÇA AO TESOURO

    Capítulo 51 BABÁ DE IRMÃ

    Capítulo 52 TEMPOS DE FAROESTE

    Capítulo 53 NAMORO SOB TUTELA

    Capítulo 54 MISTÉRIOS DO OUTRO MUNDO

    Capítulo 55 REPROVAÇÃO NO AR

    Capítulo 56   RECREAÇÃO DANÇANTE

    Capítulo 57 TEMPO DE FÉRIAS

    Capítulo 58 CARNAVAL DAS MANGAS

    Capítulo 59 DEVOÇÃO AOS PETS

    Capítulo 60 IRMÃOS DE CÔR

    Capítulo 61 OPORTUNA ADVERTÊNCIA

    Capítulo 62 TREVO DE QUATRO FOLHAS

    Capítulo 63 RUSGAS PAROQUIAIS

    Capítulo 64 JORNAL O BRASINHA

    Capítulo 65 TEMPO DE GIBIS

    Capítulo 66 SANTIDADE E SANTIFICAÇÃO

    Capítulo 67 ACIDENTES, ATENTADOS E TRAGÉDIAS

    Capítulo 68 MORANDO FORA DE CASA

    Capítulo 69 AINDA O GINÁSIO VERA CRUZ

    Capítulo 70 CAVALEIROS DE OCASIÃO

    Capítulo 71 MARCAS DE JUIZ DE FORA

    Capítulo 72 GINÁSIOS NO ESPORTE

    Capítulo 73 TIRO DE GUERRA

    Capítulo 74 CORETO DO JARDIM

    Capítulo 75 UM POUCO DE HISTÓRIA

    Capítulo 76 EPOPÉIA DE BRASÍLIA

    Capítulo 77 INSTABILIDADE POLÍTICA

    Capítulo 78 RUMO AO FUTURO

    Capítulo 79 SENHA INADEQUADA

    Capítulo 80 VIVENDO EM PENSÃO

    Capítulo 81 SEGUNDO VESTIBULAR

    Capítulo 82 EM BUSCA DE EMPREGO

    Capítulo 83 PROFESSOR TEMPORÁRIO

    Capítulo 84 GOLPE DE ESTADO

    Capítulo 85 TROTE NA FACULDADE

    Capítulo 86 EDIFÍCIO SAN REMO

    Capítulo 87  EDIFÍCIO MARROCOS

    Capítulo 88  SEM TEMPO PRA RESPIRAR

    Capítulo 89 FACULDADE DE DIREITO

    Capítulo 90 TORNEI-ME UM SOLICITADOR

    Capítulo 91 COLEGAS, LANCHES E OUTROS NICHOS

    Capítulo 92 BUYILLING DOS PINICOS

    Capítulo 93 HOBBY DA AMIZADE

    Capítulo 94 CLUBE RECRETIVO FORENSE

    Capítulo 95 MORRO DO CHAPÉU

    Capítulo 96 SURGE A JUSTIÇA FEDERAL

    Capítulo 97 PROFESSOR DO ANO

    Capítulo 98 ANTIGA AMIZADE

    Capítulo 99 NASCE UM GRÊMIO

    Capítulo 100 RESTAURANTE DOS GATEANOS

    Capítulo 101 CURSO DE ADMISSÃO

    Capítulo 102 CURSO DE ORATÓRIA E CORAL

    Capítulo 103 SAUDOSOS JANTARES

    Capítulo 104 AMIGO INESQUECÍVEL

    Capítulo 105 REITOR PRÓ-DEMOCRACIA

    Capítulo 106 REFORMA UNIVERSITÁRIA

    Capítulo 107 CIDADÃO DEMOCRATA

    Capítulo 108 MORANDO NO SION

    Capítulo 109 ESTUDOS NA BIBLIOTECA

    Capítulo 110 MEMÓRIAS ACADÊMICAS

    Capítulo 111 DOPS ENTRA EM CENA

    Capítulo 112 CONGRESSO DE IBIÚNA

    Capítulo 113 ATIVIDADE SOCIAL DO CAAP

    Capítulo 114 MEMÓRIAS DO DCE

    Capítulo 115 TEMPO DE ESTÁGIO NO DAJ

    Capítulo 116 ESTÁGIO DE AMOR NO DAJ

    Capítulo 117 AMIZADE SINCERA

    Capítulo 118 FORMATURA EM DOIS TEMPOS

    Capítulo 119 TRIBUNAIS DO JÚRI

    Capítulo 120 CURSO DE DOUTORADO

    Capítulo 121 PROJETO RONDON

    Capítulo 122 PRÁTICA DO DIREITO

    Capítulo 123 CONTOS DO VIGÁRIO

    Capítulo 124 BOATE CANTO DO GALO

    Capítulo 125 PERDA INESPERADA DO PAI

    Capítulo 126 PERFIL DE UM ASSASSINO

    Capítulo 127 JULGAMENTO ABORTADO

    Capítulo 128 E A VIDA CONTINUA

    Capítulo 129 DESTINO MUDA O DESTINO

    Capítulo 130 ESTUDANDO PARA CONCURSO

    Capítulo 131 CONVITE FEITO E ACEITO

    Capítulo 132 RETRIBUINDO O CONVITE

    Capítulo 133 FAZENDO CONCURSO

    Capítulo 134 PROCURADOR POR ACASO

    Capítulo 135 EM BUSCA DA VOCAÇÃO

    Capítulo 136 QUASE ME TORNEI UM GAÚCHO

    Capítulo 137 HOSPEDADO POR AMIGOS

    Capítulo 138 DANDO TEMPO AO TEMPO

    Capítulo 139 CONSTRUINDO AMIZADES

    Capítulo 140 NOIVADO À DISTÂNCIA

    Capítulo 141 VIAGENS A GRANEL

    Capítulo 142 SUBINDO AO ALTAR

    Capítulo 143 LUA DE MEL CAPICHABA

    Capítulo 144 PARECERES MARCANTES

    Capítulo 145 RESIDINDO NA ASA NORTE

    Capítulo 146 BUSCANDO NOVA MORADA

    Capítulo 147 LOTE NO LAGO SUL

    Capítulo 148 MORANDO NA ASA SUL

    Capítulo 149 TEMPERAMENTO DIFÍCIL

    Capítulo 150 REALIZAÇÃO PESSOAL

    Capítulo 151 CLUBES SOCIAIS EM BRASÍLIA

    Capítulo 152 REQUISITADO PELA CODEBRAS

    Capítulo 153 SECRETARIA DE PLANEJAMENTO

    Capítulo 154 LEMBRANÇAS DO PLANEJAMENTO

    Capítulo 155 VISITAS DOS PARENTES

    Capítulo 156 JANTARES NA ASA SUL

    Capítulo 157 LECIONANDO NO CEUB

    Capítulo 158 RESIDINDO NA AVENIDA W-3 SUL

    Capítulo 159 CONSTRUÇÃO NO LAGO SUL

    Capítulo 160 CARDÁPIO DE CULTURA

    Capítulo 161 RETORNANDO À ASA SUL

    Capítulo 162 RENASCENDO PARA A VIDA

    Capítulo 163 SAINDO E VOLTANDO DE FÉRIAS

    Capítulo 164 QUESTÃO DE FÉ

    Capítulo 165 VIDA EM POLÍTICA

    Capítulo 166 VIREI UM JUIZ FEDERAL

    Capítulo 167 VIRANDO-ME NOS TRINTA

    Capítulo 168 EDIFÍCIO QUEEN ELIZABETH

    Capítulo 169 JANTARES NO QUEEN ELIZABETH

    Capítulo 170 SATISFAZENDO UM DESEJO

    Capítulo 171 TORNEI-ME UM ESCRITOR

    Capítulo 172 PROFESSOR DA PUC-RIO

    Capítulo 173 TORNEI-ME UM DESEMBARGADOR

    Capítulo 174 RODIZIO DE TURMAS

    Capítulo 175 FAZENDO JUSTIÇA JUSTA

    Capítulo 176 JANTARES E SURPRESAS

    Capítulo 177 EVENTOS INUSITADOS

    Capítulo 178 CONFRATERZINAÇÃO

    Capítulo 179 DIRETOR DA EMARF

    Capítulo 180 MORANDO NO ATLÂNTICO SUL

    Capítulo 181 JANTARES NO ATLÂNTICO SUL

    Capítulo 182 DETERMINAÇÃO NO SANGUE

    Capítulo 183 SÍNDICO NO ATLÂNTICO SUL

    Capítulo 184 REDE MACKENZIE

    Capítulo 185 CASAMENTO DE BIANCA

    Capítulo 186 CASAMENTO DE LUCIANA

    Capítulo 187 CHEGARAM OS NETOS

    Capítulo 188 NASCEM DUAS ESTRELAS

    Capítulo 189 ACADEMIA MINEIRA DE LETRAS JURÍDICAS

    Capítulo 190 MENSAGENS DE APOIO E AFETO

    Capítulo 191 TRATANDO DO ESTÔMAGO

    Capítulo 192 PALESTRANDO PELO PAÍS

    Capítulo 193 PALESTRAS NA REGIÃO NORTE

    Capítulo 194 PALESTRAS NA REGIÃO NORDESTE

    Capítulo 195 PALESTRAS NA REGIÃO CENTRO-OESTE

    Capítulo 196 PALESTRAS NA REGIÃO SUDESTE

    Capítulo 197 PALESTRAS NA REGIÃO SUL

    Capítulo 198 TRIBUNAL DE ESTRASBURGO

    Capítulo 199 TENTANDO SER MINISTRO

    Capítulo 200 CASINHA NO ALTOS DO CUIABÁ

    Capítulo 201 CONSTRUINDO NA SERRA

    Capítulo 202 NOSSO REFÚGIO NA SERRA

    Capítulo 203 VISITA DE AMIGOS NA SERRA

    Capítulo 204 TRAGÉDIA ANUNCIADA

    Capítulo 205 AMIZADE CANINA

    Capítulo 206 AVENTURA INESPERADA

    Capítulo 207 INSTITUTOS DE ENSINO

    Capítulo 208 INVASÃO POLICIAL

    Capítulo 209 ELEIÇÃO NO TRIBUNAL

    Capítulo 210 TRAIÇÃO CONCRETIZADA

    Capítulo 211 SUSPEITAS E DECEPÇÕES

    Capítulo 212 GUERREIRA EM AÇÃO

    Capítulo 213 FURACÃO NA UFRJ

    Capítulo 214 CPI DOS GRAMPOS

    Capítulo 215 PASSAGEM DE ANO

    Capítulo 216 MARIA EDUARDA DIZ CADA UMA

    Capítulo 217 MARQUÊS DE SAPUCAÍ

    Capítulo 218 CIDADÃO BENEMÉRITO

    Capítulo 219 SETENTA ANOS DO VERA CRUZ

    Capítulo 220 AMIZADE ETERNA

    Capítulo 221 CUIDANDO DA SAÚDE

    Capítulo 222 CRUZEIROS NO EXTERIOR

    Capítulo 223 PASSEANDO NA DISNEY WORLD

    Capítulo 224 ESTAGIANDO EM CAMBRIDGE

    Capítulo 225 FAZENDO CURSO EM PARIS

    Capítulo 226 PROFESSIA DE COIMBRA E MARROCOS

    Capítulo 227 PASSEANDO NOS STATES

    Capítulo 228 PRIMEIRA VEZ NA EUROPA

    Capítulo 229 REPETINDO UM ROTEIRO

    Capítulo 230 VISITANDO A EUROPA DE NOVO

    Capítulo 231 MEDALHA DO SENADO FRANCÊS

    Capítulo 232 PASSEANDO NO CHILE

    Capítulo 233 PASSEIO JURÍDICO

    Capítulo 234 PELA ALEMANHA E SUIÇA

    Capítulo 235 VISITANDO O URUGUAI

    Capítulo 236 RETORNO A BUENOS AIRES

    Capítulo 237 PASSEIO NA CALIFÓRNIA

    Capítulo 238 CURTOS PASSEIOS

    Capítulo 239 VARIADAS LEMBRANÇAS

    Capítulo 240 AVULSAS RECORDAÇÕES

    Capítulo 241 MEUS OITENTA ANOS

    www.carreiraalvim.com.br

    carreira.alvim@yahoo.com.br

    faleconosco@carreiraalvim.com.br

    ISBN:  978-65-01-51225-9

    Carreira Alvim Produções de Livros Jurídicos Ltda.

    Brasil – Estrada Ministro Salgado Filho, 3.147, Alameda dos Lírios, casa 5, Itaipava, Petrópolis, Rio de Janeiro- RJ

    Editor: José Eduardo Carreira Alvim

    Arte e capa: Antônio Carreira Alvim Macedo Soares

    Alvim, J. E. Carreira.

    OS RESTANTES ANOS DA MINHA VIDA

    [MEMÓRIAS DE UM JUIZ]

    Infância

    Juventude

    Adolescência

    Maturidade

    Velhice

    Rio de Janeiro – RJ

    Carreira Alvim Produções de Livros |Jurídicos Ltda.

    Ano 2025 - 1a edição

    Itaipava – Petrópolis-RJ

    Carreira Alvim Produções de livros Jurídicos Ltda.

    2025

    APRESENTAÇÃO

    Este livro não é uma biografia, mas Memórias de quem, na esfera jurídica, é conhecido como J. E. Carreira Alvim, advogado, desembargador federal aposentado, professor universitário aposentado e autor ativo de mais de uma centena de livros jurídicos, tendo proferido inúmeras palestras pelo País sobre os mais diversos temas jurídicos, como consta do seu Currículo Lattes.

    Mas, para chegar aos dias atuais, na longa trajetória percorrida, ao longo de mais de oitenta anos de vida, no exercício do magistério e da magistratura, faz-se necessário uma retroação no tempo, para retratar tudo o que a memória conseguiu registrar, se bem que nem sempre ela é fiel a si mesma, como deveria ser, pois memoriza fatos sem muita importância, e deixa de registrar outros de grande relevância na nossa vida, dos quais tomamos conhecimento através de terceiros, que nos contam o que a sua memória registrou, mas que, infelizmente, a nossa própria não conseguiu registrar. 

    Nessa trajetória, buscarei retratar o que se contém na minha memória, ou o que ela conseguiu armazenar para que eu pudesse contar, como agora estou contando, a fim de que os descendentes da família Carreira Alvim, derivada da união de Benevenuto de Faria Alvim e Thereza Carreira Alvim, tome conhecimento do que foi a vida de um dos seus filhos, e muito dos outros também, porque, nessa caminhada, por certo cruzarei com lembranças guardadas do meu relacionamento com meus nove irmãos, e com muitos dos meus amigos e colegas da juventude, da maturidade e da velhice, onde nunca imaginei que chegaria, mas cheguei, com memória ainda em condições de contar a minha história, ou, pelo menos, a parte que me lembro dela.

    Sempre pensei que um dia escreveria minhas Memórias, mas nunca me senti, até então, estimulado a fazê-lo, o que só veio a acontecer depois que completei a oitava década de vida, pelo que estou trazendo à tona tudo o que considero importante para retratar minha passagem pela vida. Envelhecer não depende da vontade de quem envelhece, pois a ela se chega sem ser convidado, trazido pelo tempo, mas administrar a velhice depende de muita força de vontade, inclusive por conta dos exercícios físicos, para não deixar o corpo esmorecer.

    Alguém disse [acho que a Rita Lee] que O melhor exercício físico para o velho é dormir, no que não deixa de ter razão, porque dormir é bom demais. Outro dia, perguntei a um jovem que frequenta a Academia de ginástica do Condomínio Park Atlântico Sul se ele gostava de fazer exercício físico, e a sua resposta foi um sonoro Não

    Certa feita, minha irmã Maria Helena, autora de várias obras de Direito Previdenciário, uma das mais competentes previdenciaristas deste País, pediu-me para fazer o Prefácio de uma dessas obras, o que fiz relatando uma passagem da sua vida, quando ainda éramos adolescentes e estudantes do finado Ginásio Vera Cruz de Teixeiras.

    Quando o livro foi publicado, minha irmã me revelou ter recebido de uma de suas leitoras a observação de que tinha gostado tanto da Apresentação que eu fizera, que ela sentiu o desejo de que eu contasse mais sobre a nossa família; desejo esse que agora vem a ser realizado.

    Nessa trajetória de vida, pedi aos meus irmãos ainda vivos --, éramos dez, mas perdemos dois --, que relatassem algum acontecimento de que tivessem lembrança sobre a nossa convivência em certos momentos das nossas vidas, na infância, na adolescência, na juventude, na maturidade e na velhice, para enriquecer as minhas Memórias, e os que me atenderam o fizeram com a maior sinceridade, pelo que lhes fico grato por sua colaboração.

    Em algumas passagens deste livro, coloquei entre colchetes [***], para preservar a intimidade dos personagens dos fatos, principalmente ministros do STJ, mas os que o lerem e os contemporâneos desses fatos saberão identifica-los.

    No curso da minha existência, plantei diversas árvores, escrevi inúmeros livros e dei vida a duas filhas maravilhosas, Luciana e Bianca, que me deram cinco maravilhosos netos: João Silvério, Maria Eduarda, Maria Luiza, João Pedro e Antônio, pelo que posso afirmar que sou um avô superfeliz.

    Muito do que acontece na nossa passagem pela vida pode ser contado, e muito do que nela aconteceu não deve, porque causaria desconforto ou constrangimento a muitos personagens que fizeram parte dela, e fatos há, também, que nem merecem ser lembrados, ainda que a memória insista em não os postar num arquivo.

    Nessas Memórias, entram minha infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice, sendo este o meu canto do Cisne na minha longa trajetória de escritor, retratando o filho, o irmão, o tio, o marido, o pai e o avô, o melhor que consegui ser; e, claro, também o melhor amigo dos meus amigos.

    Agradeço a todos os que, nessa trajetória, ajudaram-me a rememorar fatos que a minha memória sozinha não dava conta de lembrar, e que deixo de nomeá-los, para não ser injusto com aqueles dos quais não tiver me lembrado, que foram, todos, indistintamente, importantes, para tornar esta obra possível, que agora entrego aos que me derem a honra da leitura.

    Esclareço, nesta oportunidade, que a minha memória contém fatos incontáveis e, outros, que, apesar de contáveis, seus personagens são incontáveis, pelo que registrei o fato, mas colocando o personagem como [***]; certo de que aquele de quem estou falando será identificado pelo próprio, se vivo, e por muitos outros que o rodeiam.

    Para eventual contato: carreira.alvim@yahoo.com.br.

    O Autor

    Capítulo 1

    O QUE É A MEMÓRIA?

    Antes de descrever as minhas Memórias, devo esclarecer que não se trata de uma autobiografia, que retrata apenas a vida do autobiografo, porquanto as Memórias retratam todos os fatos que aconteceram ao seu redor, durante a sua passagem pela vida --, e continua acontecendo --, retratando-os da forma como ficaram armazenados no cérebro durante mais de oito décadas; como foi o meu caso, que as retrato desde que tinha cinco anos de idade. É sabido, porém, que o cérebro trabalha a memória, ao longo dos anos, e podem os fatos ter acontecido de uma forma, e a memória, no futuro, dar a quem busca por eles, uma versão diversa daquela que tiveram, originalmente, no momento em que aconteceram.

    A memória nada mais é do que a capacidade do cérebro de armazenar, reter e recuperar informações, experiências e conhecimentos adquiridos ao longo do tempo, permitindo-nos aprender com o passado, planejar o futuro e interagir com o presente; podendo ser vista como um processo complexo, que envolve várias etapas e sistemas cognitivos.

    As minhas memórias são do tipo Memórias de Longo Prazo, ou seja, aquela que retém os fatos e informações por longos períodos, desde horas até décadas. 

    A memória não é um processo passivo, compondo-se de uma codificação, que é o modo pelo qual as informações são transformadas numa fórmula que possa ser armazenada; o armazenamento que é referido à manutenção das informações codificadas no cérebro, dependendo da organização e das conexões feitas entre as informações; e, por fim, a recuperação que é a capacidade de acessar e trazer à consciência as informações armazenadas, podendo a falha em recuperar ser influenciada por interferências ou pelo tempo.

    Vários fatores podem influenciar a memória de uma pessoa, como a idade, pois, com o tempo, ela pode se tornar mais frágil, especialmente em idades mais avançadas, com a possibilidade de perda dela, pelo mal de Alzheimer. 

    O sono tem um papel crucial no processo de consolidação da memória, onde as informações são transferidas das memórias de curto prazo para as de longo prazo; enquanto o envelhecimento pode impactar a memória, causando dificuldades em lembrar de informações recentes ou novos conhecimentos, embora memórias de longa data geralmente se mantenham intactas.

    Todos têm lapsos de memória de tempos em tempos, como esquecer onde colocou algo ou uma informação específica, o que é considerado normal, especialmente quando o cérebro está sobrecarregado, além do que garantir um sono de qualidade é fundamental para a consolidação da memória.

    A memória é uma das funções cognitivas mais fascinantes e complexas do ser humano, sendo importante, não apenas para nossa sobrevivência, mas para a construção da nossa identidade e do nosso aprendizado ao longo da vida.

    Existe uma diferença entre o fato e a memória, pois o fato é uma realidade objetiva, enquanto a memória é uma reconstrução subjetiva dessa realidade; podendo as memórias ser distorcidas, imprecisas ou influenciadas por uma série de fatores, enquanto os fatos permanecem os mesmos, independentemente de como os lembramos ou percebemos. Assim, ao discutir eventos e acontecimentos, é importante entender que as memórias são interpretações pessoais, enquanto os fatos são as verdades verificáveis e inalteráveis da realidade.

    Capítulo 2

    COMEÇO DE UMA VIDA

    Quem se dispõe a registrar as suas Memórias, por certo deve começar narrando, exatamente, como tudo começou, em que o encontro dos jovens Benevenuto e Thereza, deu origem à família Carreira Alvim, e quais os motivos que levaram o casal a escolher a cidade de Teixeiras, no interior de Minas Gerais, para exercer suas respectivas profissões, formar e criar uma família, que acabou sendo de dez filhos.

    Vou começar, portanto, pelos nossos principais protagonistas, que foram os nossos pais, pela forma como se formaram profissionalmente, como se conheceram, e como se apaixonaram e decidiram, a partir daí, continuar juntos a sua jornada de vida, até que a morte os separasse.

    Meu pai, Benevenuto, era filho de um fazendeiro do interior de Minas Gerais, também chamado Benevenuto ou Coronel Benevenuto, e teve o privilégio de estudar no Colégio São José de Ubá, e, mais tarde, de fazer o curso de Direito numa das mais importantes Faculdades de Direito do País, que era [e continua sendo] a Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, localizada na, então, Capital da República, o Rio de Janeiro, no Campo de Santana. 

    Infelizmente, não tive a curiosidade de, mesmo depois de adulto, perguntar ao meu pai a razão por que teria ele escolhido a profissão de advogado, que, nessa época, era possível em pouquíssimas Universidades do País.

    Por outro lado, sempre ouvi do meu pai Benevenuto as mais fantásticas aventuras que viveu na Faculdade de Direito, por conta do seu estilo de vestir elegante, que, ao que parece, já nascera com ele, embora fosse de uma família mineira do interior, em que apenas ele havia conseguido colar grau num curso superior.

    Meu pai tinha uma especial predileção por roupas brancas, tendo preferência por ternos de linho madrepérola, além de chapéu panamá e um guarda-chuva, em tempos de chuva, ou guarda-sol, em tempos de sol; pelo que me lembro que, quando criança, o avistava ao longe, nos nossos encontros pela cidade, sabia que era exatamente ele que vinha lá, justo pelo seu traje. 

    Sobre a sua passagem pela Faculdade de Direito, meu pai contava com orgulho a sua chegada a essa instituição, pois ali chegara depois de já ter havido o trote, que, já naquele tempo, era aplicado pelos veteranos [alunos do segundo ano] aos calouros [recém chegados à Faculdade].

    No dia em que chegou, com seu terno branco, seu chapéu panamá e seu guarda-sol --, mais do que guarda-chuva, porque no Rio de Janeiro, o calor é sempre beirando os quarenta graus --, um dos veteranos presente no local teria dito [e ele escutou], assim que ele se aproximou da escadaria que leva ao segundo andar do prédio: Está chegando mais um dos calouros!; ao que outro veterano intercedeu: Este aí não é um calouro, cara, mas do curso de Doutorado!. E, assim, ele passou incólume pelo trote, por ter, ainda no início do curso de Direito, sido identificado como doutorando.  

    Meu pai contava, também, com inegável orgulho, ter sido colega de sala de aula de Alzira Vargas, vulgo Alzirinha, filha de Getúlio Vargas, e que ele teria tido uma queda por ela, no que teria sido correspondido; o que jamais será comprovado, porque estes fatos se perderam nas dobras do tempo.

    Dizia, ainda, meu pai, pelo que me lembro, que, ainda estudante de Direito, ele teria treinado no time do América Football Club, no bairro da Tijuca, e frequentado os salões sociais desse Clube, onde teria conhecido grande parte da elite feminina da cidade do Rio de Janeiro, daquela época.

    Nem tudo, porém, foram flores na trajetória do meu pai para se tornar um advogado, pois, no último ano do curso de Direito, ele ficara devendo uma matéria, que deveria ser paga com uma prova a ser feita depois das festas de final de ano.

    No entanto, ele fora passar essas festas em Viçosa, onde morava sua irmã mais velha, Maria, apelidada de Zizica, casada com Octavio Pacheco, integrante de uma das mais tradicionais famílias educadoras da cidade, sendo o professor Alberto Pacheco, o maior expoente do clã.

    Terminados os festejos de final de ano, meu pai, que, até então, não contara a ninguém que, para se formar, deveria fazer uma prova da matéria que ficara devendo [não fiquei sabendo qual], esperou chegar a véspera do último dia do término do prazo para retornar ao Rio de Janeiro, quando se muniu de coragem e contou para sua irmã, Zizica, o que tinha acontecido.

    Sabedora desse fato, minha tia conseguiu que seu marido Octavio emprestasse dinheiro ao meu pai, para que ele retornasse de imediato ao Rio de Janeiro, tendo ele embarcado no último trem de ferro que passava por Viçosa com destino ao Rio de Janeiro [Estrada de Ferro Leopoldina], chegando a tempo de cumprir o compromisso de fazer a prova faltante, para ter o direito de colar grau de bacharel em Direito pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil.

    Talvez este fato seja ignorado pela maioria da família Carreira Alvim, mas foi um sufoco, que minha tia Zizica me contou, e minha memória cuidou de eternizar.

    Assim que terminou o curso de Direito, meu pai retornou a Minas Gerais, mas não sei se foi para a casa do meu avô Coronel Benevenuto, pai dele, que mantinha residência na cidade de Ubá, ou se foi para Viçosa, para a casa da minha tia Zizica e tio Octavio, de onde saíra embalado pela necessidade de concluir seu curso de bacharelado, o que acredito que tenha sido, porque, na sequência do tempo, ele foi visitar outra irmã, Selanira, vulgo Nena, casada com Geraldo Brandão, farmacêutico em Amparo do Serra, então distrito de Ponte Nova, em Minas Gerais, onde veio a conhecer a minha mãe, Thereza. 

    A trajetória de vida da minha mãe, pelo que me contaram e pelo que minha memória registrou, daria uma novela ou, no mínimo, uma minissérie, ambas de sucesso garantido em horário nobre, mas que o destino se encarregou de escrever a seu modo, fazendo dela uma mulher de inegáveis predicados, como professora, esposa, mãe e avó, mas, também, como mulher, cidadã e educadora, dedicando grande parte do seu tempo em ensinar e ajudar as pessoas.  

    Minha mãe nasceu numa família muito pobre, filha de Marcelina Monteiro e Antônio Malaquias Monteiro, ambos sem qualquer instrução, moradores de Amparo do Serra, onde Maria da Anunciação do Carmo Carreira, vulgo Maricas e Joaquim de Oliveira Carreira, vulgo Seu Carreira, eram proprietários de uma fazenda, chamada Fazenda da Vargem, que tinha como principal atividade a agropecuária, que era praticamente a mais presente no Estado de Minas Gerais.

    Certo dia, minha avó Marcelina foi à Fazenda da Vargem buscar farelo de milho, o que fazia com certa frequência, pois, a esse tempo, ao que parece, já era viúva e vivia da caridade alheia, tendo, nessa oportunidade, levado com ela a sua filha mais velha [seria Antônia ou Emília], e, lá chegando, encontrou-se com dona Maricas.

    Nesse dia, conversa vai, conversa vem, Maricas, que não tinha filhos, perguntou à Marcelina se esta lhe daria a filha que estava na sua companhia para criar, tendo ela respondido que não, pois era a sua ajudante, mas que tinha uma mais nova, que ela poderia dar, o que foi imediatamente aceito, e essa mais nova era justo a filha Thereza, minha mãe.

    Foi assim que a vida da minha mãe mudou da noite pro dia, pois, tendo nascido filha de uma família pobre, que, a esse tempo, vivia da caridade, com uma mãe viúva e mais filhos para cuidar [penso que mais três], passou à condição de filha da mais rica [ou uma das mais ricas], família de fazendeiros da região, sendo, então, considerada como verdadeira filha.

    A riqueza da família Carreira proveio, na verdade, da minha avó Maricas, porquanto a Fazenda da Vargem, com milhares de alqueires, fora herdada dos pais dela, dos quais era filha única, tendo o meu avô Joaquim de Oliveira Carreira, então, um caixeiro-viajante, que era a profissão comum na época, para quem não tinha curso superior, sabido administrar.

    Nunca soube se, ao ter minha mãe passado a viver com seus novos pais, Maricas e Carreira, teria ela mantido contato com seus pais biológicos, ou apenas com a sua mãe biológica Marcelina, provavelmente viúva nessa época, nem a curiosidade me impeliu a buscar esse fio da meada, de alguém que passou de uma família pobre para uma família rica, não tendo, no curso da minha vida, ouvido qualquer coisa sobre essa mudança de paternidade e sobre o que aconteceu depois dela.

    A minha avó biológica, Marcelina, passou a morar conosco, quando eu tinha uns dez anos, mais ou menos, já praticamente no final da sua vida, e onde veio a falecer, quando foi encontrada, certo dia, por minha mãe, sentada no meio-fio de uma calçada na cidade de Teixeiras.   

    Ao ingressar na família de Joaquim de Oliveira Carreira e dona Maricas, que era nativa da terra, a minha mãe foi registrada pelo casal como sua filha legítima, passando a ostentar o nome de Thereza do Carmo Carreira, sendo o do Carmo da mãe e o Carreira do pai, ambos adotivos.

    Ao que parece, ao ser dada ao casal Carreira e Maricas, minha mãe já era chamada de Teresa, mas o prenome Thereza, com Th, foi a forma como veio a ser registrada pelos novos pais.

    Nessa época, a filiação adotiva não era levada muito a sério, pelo que as crianças adotadas, sendo mulher, eram registradas como se fossem filhas legítimas, sendo isso que aconteceu com a minha mãe; e nenhuma autoridade tomava conhecimento disso.

    Não sei se, ao ingressar na família Carreira, minha mãe Thereza já havia concluído o curso primário, mas fato é que veio, no futuro, a ser matriculada no Colégio [na época, Escola Normal] Nossa Senhora do Carmo, na cidade de Viçosa, em Minas Gerais, para fazer o curso Normal, que era o permitido às mulheres a esse tempo, tornando-se uma normalista ou professora, que foi a atividade por ela exercida com brilho durante a vida toda.

    Nunca entendi por que minha mãe foi internada num Colégio em Viçosa, em vez de na Escola Normal de Ponte Nova, muito mais perto e de acesso mais fácil naquela época, e ambas muito bem conceituadas em matéria de ensino e educação.

    Terminando o seu curso Normal, e tornando-se uma normalista, minha mãe retornou para a casa dos seus pais, no distrito de Amparo do Serra, passando a residir com eles na Fazenda da Vargem.

    Minha mãe dizia que o desejo dela era fazer o curso de Química Industrial, para trabalhar numa grande cidade, como São Paulo, mas fato é que o pai de criação dela, padrim Carreira, nunca concordou com isso, dizendo que a profissão para uma mulher era realmente a de Professora, pelo que ela parou aí. Mas, se tivesse ela logrado realizar o seu intento, provavelmente teria ido trabalhar numa grande cidade e a família Carreira Alvim nunca teria existido.

    Como o meu pai, Benevenuto, tinha uma irmã, Selanira, apelidada de Nena, residente em Amparo do Serra, foi certo dia passear na casa dela, quando, em conversa com essa irmã, ela lhe disse que iria lhe apresentar uma normalista muito bonita, filha de ricos fazendeiros locais, amigos do casal; normalista que, no caso, era a minha mãe Thereza, e os ricos fazendeiros eram os pais dela, dona Maricas e Joaquim de Oliveira Carreira.  

    Eu nunca soube como se deu esse encontro de Thereza com Benevenuto, mas, ao serem apresentados, Cupido fez a sua parte, tendo eles começado a namorar, não sei por quanto tempo, até que ficassem noivos e se casassem.

    Eu poderia ter conversado a respeito desse namoro com a minha mãe --, meu pai não era muito receptivo a tais conversas --, mas nunca me ocorreu saber detalhes de como ter-se-ia dado o primeiro encontro e as sequencias que ele teve. 

    Minha mãe não chamava o velho Carreira de pai, mas de Meu padrinho, e nem Maricas de mãe, mas de Minha madrinha, pelo que todos os filhos aprenderam, igualmente, a chamá-los assim, embora Maricas fosse, também, chamada de Dindinha.

    Desse namoro e noivado, minha memória registrou apenas o que minha mãe, certo dia, me contou, dizendo que o padrim Carreira era muito rigoroso no relacionamento dela com Benevenuto, e não tinha papas na língua quando queria de alguém alguma atitude.

    Como Benevenuto chegava à Fazenda da Vargem dia alto e retornava ao distrito de Amparo do Serra à noite, certa vez, já passava das 22h, e, como ele não se mexia --, o namoro deveria estar muito bom, suponho --, o padrim Carreira chegou na sala e disse em alto e bom som: Benevenuto! Se você quiser dormir aqui, diga, que vou mandar arrumar sua cama; mas, se não quiser, está na hora de ir para casa. Meu pai não pestanejou, retirando-se após esse aviso-prévio, pegando o seu cavalo, e retornando a Amparo do Serra.

    Segundo o meu conhecimento, o casamento da mãe com o meu pai foi comemorado na própria Fazenda da Vargem, e teria durado três dias, a uma porque meus avós eram muito ricos e devidamente integrados na sociedade de Amparo do Serra, e, a outra, porque, naquela época, casar uma filha com um advogado era uma façanha, que merecia, realmente, uma grande comemoração.

    Não tive notícia, porém, onde os recém-casados teriam passado a sua lua-de-mel. 

    Capítulo 3

    IMIGRAÇÃO DO AVÔ

    Meu avô, Joaquim de Oliveira Carreira, filho de Manoel de Oliveira Carreira e Maria de Oliveira Neves, imigrou de Portugal para o Brasil, juntamente com seus quatro outros irmãos, tendo ele e o irmão João de Oliveira Carreira migrado para o distrito de Amparo do Serra, município de Ponte Nova, Minas Gerais; os irmãos, Antônio de Oliveira Carreira [mais tarde, Tarré] e Manoel de Oliveira Carreira, radicados no Rio de Janeiro; e o irmão José de Oliveira Carreira migrado para São Pedro do Sul, no Rio Grande do Sul.

    As irmãs do meu avô Joaquim, Maria, Rosa e Anna Joaquina permaneceram em Portugal e morreram solteiras.

    Por serem os irmãos oriundos de Oliveira de Azemeis, cidade que fica perto da cidade do Porto, ao Norte de Portugal, daí resultou o nome de família "Oliveira, ao qual foi acrescentado o segundo nome de família Carreira, herdado do pai, ficando Oliveira Carreira".

    Quando estive a passeio na cidade do Porto, Portugal, tentei localizar algum dos parentes do meu avô Joaquim, mas, na época, quando consultei a lista telefônica da cidade de Oliveira de Azemeis, um terço tinha praticamente o nome de família Carreira; como são os Silva no Brasil.

    Localizei, então, um dos habitantes mais antigos da cidade, falei com ele por telefone, mas ele não tinha a menor noção de quem teria sido meu avô Joaquim de Oliveira Carreira.

    O meu avô Joaquim era caixeiro-viajante, profissão muito prestigiada na época, exercida principalmente por imigrantes, e teria sido numa das suas andanças por Minas Gerais, vendendo tecidos, que conheceu minha avó, Maria da Anunciação do Carmo, chamada de Maricas, com a qual se casou, sendo os pais dela, e depois ela, proprietários da Fazenda da Vargem, em Amparo do Serra. 

    Depois de casado, meu avô Joaquim se tornou um grande fazendeiro da região, administrando bem o patrimônio que minha avó Maricas herdou dos pais, tendo inclusive um automóvel, que, na época, era um luxo, acessível apenas a pessoas muito ricas.

    O irmão do meu avô, que se instalou no Rio de Janeiro, chamava-se Antônio de Oliveira Carreira, mas, como era baixo e gordinho, como se fosse um corpo atarracado, tinha o apelido de Tarreco, pelo que resolveu trocar seu nome de família, de Carreira para Tarré, ficando Antônio de Oliveira Tarré. 

    O Antônio de Oliveira Tarré [Carreira] criou a Perfumaria Tarré, que foi um ícone da cidade do Rio de Janeiro, sendo bastante conhecida por sua elegância, produtos de alta qualidade e pela atmosfera refinada que oferecia aos seus clientes, e um lugar muito frequentado pela elite carioca, atraindo não apenas consumidores locais, mas, também, turistas e visitantes.

    A Loja da Perfumaria Tarré ficava em um dos pontos mais movimentados e tradicionais do Rio de Janeiro, na Rua Visconde do Rio Branco, no Centro, que, na época, era uma região da cidade repleta de lojas de luxo, teatros e outros estabelecimentos comerciais de prestígio, pelo que a sua proximidade de pontos turísticos e culturais fazia com que fosse um local de destaque para quem buscava produtos exclusivos.

    A fábrica de produtos da Perfumaria, porém, ficava na Rua da Estrela, no bairro de Rio Comprido, tendo Antônio Tarré comprado, mais tarde, o casarão da Rua Aristides Lobo, esquina de Rua Campos da Paz, também no Rio Comprido, aonde a família passou a residir; isso para ficar mais perto da fábrica dos produtos da perfumaria.

    Nessa época, foi lançada a Loção Phenomeno, cuja propaganda dizia ser O grande e antigo segredo que torna lindos os cabelos, e, também, a Loção Phenomeno Tarré, cuja propaganda dizia que Fortalece os cabelos e elimina a caspa.

    A loja do Perfumes Tarré, no Centro, ficava na parte de baixo de um sobrado de dois andares, em que a família Tarré morava na parte de cima.

    Minha mãe, Thereza, lembrava da loja Perfumes Tarré e de ter estado hospedada, em certa época, com a família Tarré, no casarão do Rio Comprido. 

    Embora a descendência dos Carreira seja grande, vou me limitar a fazer o registro da primeira e segunda gerações, para que a leitura fique mais suave.

    O meu avô, Joaquim de Oliveira Carreira, casado com Maria da Anunciação do Carmo [Maricas] não teve filhos legítimos, tendo adotado minha mãe, Thereza, e criado como filha a Maria [Nina].

    Os descendentes de Thereza do Carmo Carreira são: José Roberto, Maria Regina, José Eduardo [eu], Maria Helena, Maria das Graças, Maria de Lourdes, José Bonifácio, Maria Tereza, Maria do Carmo e Maria da Conceição; e os de Maria [Nina] são: Maria Elvira, Antônio, Maria Antônia, Maria do Carmo, Maria Inês, Maria da Conceição, Maura, Vasco e Maria Angélica.     

    O José de Oliveira Carreira casou-se com Maria Antônia, tendo os filhos Dorvalina e Emílio; não tendo conseguido apurar se deixaram descendentes.

    O Antônio de Oliveira Tarré [Carreira] casou-se com Maria da Glória, tendo os filhos Raul, Julieta [Juju], Antônio [Tuta], Maria [Maricota], Nair [Zinha] e José [Juca]; além da filha adotiva Maria José.

    Os descendentes de Maria [Maricota] são: Mabel, Antônio Carlos [Pilastrinha], Euclides e César; os de Raul são: Flávio, Rogério, Antônio Cláudio, Raulzinho e Lígia; e os de Maria José são: Ana Julieta e Maria Beatriz; sendo que Julieta [Juju], Antônio [Tuta], Nair [Zinha] e José [Juca] não deixaram descendentes.

    O irmão João de Oliveira Carreira, casado com Josina, teve os filhos: João de Oliveira Carreira Júnior, Maria, José, Graziela, Antônio, Josina, Maria da Conceição, Manoel, Jorge, Analia, Alan Cardec, Zilda, Sebastião e Cacilda; sendo que, nessa família, quando morria um filho, eles geravam outro, e punham o mesmo nome, tendo havido dois Josés e três Joãos.  

    Os descendentes de João de Oliveira Carreira Júnior são: Maria Edith, Maria Wanda, Maria Aparecida, Ermy e João Antônio Carreira; os de Zilda são: Terezinha Maria, Nilton, Wilma Maria, Vera Maria, José Almir, João Gilberto, Rita Marilda, Josina Marília, Marlene Maria, Marilza Maria, Antônio Ivan, Luiz Ivanir, Luís Ivanildo e Maria Djanira [Ufa!]; os de Jorge são: Jorginho, João, Maninho, Terezinha, Cármen e Roseli; o de Sebastião [Tatão] é o Arnaldo; os de José são: Henrique, Darcy, Renato, Luciano e Arlete; os de Cacilda são: Edmar, Lúcia, Almir e Rogério; os de Graziela [Bibi] são: Aladim, Odilon, Miniro, Santinha e Luzia; não tendo eu conseguido localizar filhos de outros descendentes de João de Oliveira Carreira.    

    Não consegui localizar os descendentes de Manoel de Oliveira Carreira, que, suponho, não tenha tido filhos.

    Achei interessante que, conversando um dia com Maria José, filha do Seu Tarré, ela me disse que, se meu avô se chamava Joaquim, e o irmão dele [pai dela] Antônio, o outro irmão só poderia se chamar João; e não deu outra, porque ele se chamava João de Oliveira Carreira; e acabei descobrindo outros dois: Manoel e José.

    Capítulo 4

    FINCANDO RAÍZES

    O início da vida em comum dos meus pais, Thereza e Benevenuto, foi na cidade de Teixeiras, na Zona da Mata mineira, tendo ali criado e educado seus filhos e vivido até o final dos seus dias, tendo ambos partido para a Glória de forma trágica.

    O que me intrigava, desde que comecei a me entender por gente, era porque, tendo meu pai estudado e se formado em Direito na cidade do Rio de Janeiro, então capital da República, teria ido parar numa pequena localidade do interior de Minas Gerais, e que, naquela época, não deveria ter mais do que uns três mil habitantes, e que só veio a adquirir o status de município em 1938.

    Outra pulga atrás da orelha, sobre o motivo dessa escolha, é que Teixeiras não era ainda comarca, que só foi criada em 1955, pelo que, para exercer a advocacia, o então advogado Benevenuto teria de se valer das comarcas de Viçosa ou de Ponte Nova.

    Posteriormente, fiquei sabendo as razões dessa escolha pelo meu pai, pois, tendo ele uma irmã, tia Zizica, casada com tio Octávio, que morava em Viçosa, costumava passar férias com eles, pelo que, numa dessas ocasiões, ficou conhecendo o primeiro prefeito de Teixeiras, Dr. Cláudio José Mariano da Rocha, médico, amigo do meu tio, o qual, tomando conhecimento ser meu pai advogado, recém-formado, convidou-o para advogar para o seu Município, que precisava cobrar impostos dos contribuintes em débito com o Fisco municipal.

    Foi dessa forma que o meu pai, Benevenuto, começou sua atividade na advocacia, residindo em Teixeiras, mas valendo-se da comarca de Viçosa, para lá ajuizar as ações fiscais do Município contra seus devedores, porquanto Teixeiras era, então, jurisdicionada a essa Comarca.

    Não sei por quanto tempo ele atuou nessa função, porque, quando eu já me sentia gente, ele não mais advogava para o Município, tendo já constituído a sua própria clientela. 

    Meu pai fazia seus trajetos pelas comarcas de ônibus, porque nunca quis comprar um carro, por entender que seria um empate de capital [palavras dele], e ele gostava de ver o seu dinheiro circulando, inclusive com empréstimos que fazia a terceiros, mediante módicos juros legais.

    Alguém me contou, e minha memória registrou, que, quando meu pai aceitou o convite do Dr. Mariano para advogar em Teixeiras, o meu tio Octávio, marido da tia Zizica, teria feito a seguinte observação: 

    Benevenuto poderia ter escolhido morar e trabalhar em qualquer lugar, menos em Teixeiras.

    A observação feita pelo tio Octavio era porque, nessa época, Teixeiras era uma cidade muito violenta, com muitas mortes impunes, estando a família Floresta no epicentro desses crimes, porque, quase sempre, havia um deles envolvido nessas mortes.

    No que concerne ao meu pai e nossa família, sempre mantivemos um relacionamento cordial e amigável com a família Floresta, pelo que nunca nos fizeram nenhum mal, sendo que, muitas vezes, meu pai até advogou para alguns deles.

    Não sei se, ao se dispor a morar em Teixeiras, meu pai sabia dessa fama da cidade, mas, ainda que soubesse, fato é que isso não impediu que ele fosse exercer ali a sua advocacia e constituir a sua família, que desejava fosse grande, como, realmente foi, tendo ao todo dez filhos; e não teve mais porque foi morto antes. 

    Quando chegou a Teixeiras, o casal Benevenuto e Thereza foi morar numa casa na Praça da Matriz, mais tarde residência de Zico Fialho e família, e foi nessa casa que nasceram os dois primeiros filhos, José Roberto e Maria Regina, havendo no Álbum de família muitas fotos dessa época, inclusive da minha mãe com José Roberto, ainda bebê, no colo, ao lado de Benevenuto, dindinha Maricas e José Simão, que era um grande amigo da família. 

    Quando eu nasci, já morávamos na casa grande, situada na entrada do Patrimônio [Avenida Barão do Rio Branco], que também tem uma história interessante, que a minha memória cuidou de preservar, tendo sido nessa casa que nasceram os demais irmãos. 

    Nessa época, minha tia Orayde, irmã do meu pai, morava no final do Patrimônio, e, em alguns finais de semana, Benevenuto e Thereza iam visita-la, mas, em vez de irem andando pela avenida Barão do Rio Branco [nome oficial do Patrimônio], preferiam ir caminhando pela linha de ferro Leopoldina, e, quando passavam em frente à casa grande, vista lá da linha, meu dizia à minha mãe: Thereza, aquela casa ainda vai ser nossa

    Meu pai não era, propriamente, um visionário, e nem de frequentar muito igreja, ao contrário da minha mãe, que era uma católica de carteirinha, mas, fato é que, algum tempo depois, essa casa grande, tão desejada pelo meu pai, foi posta à venda pelo seu proprietário José Lourenço.

    Como meus pais estavam começando a vida, ainda sem nenhum recurso financeiro, o jeito foi pedir a ajuda de dindinha Maricas e padrim Carreira, para emprestar o dinheiro para a compra, que nunca fiquei sabendo quanto foi.

    Acontece que, em vez de emprestarem o dinheiro ao meu pai, os pais adotivos da minha mãe compraram a casa e a deu de presente para ela, e, consequentemente, para ele também, e foi assim que, inusitadamente, eles se tornaram proprietários da casa onde a família passou a viver.

    Antigamente, essa casa parecia muito distante do centro da cidade, principalmente porque nessa avenida não tinha calçamento, e, em tempo de chuva, era muito barro --, meu pai, então, não saía sem ser de galocha --, mas, com o progresso e a chegada do asfalto, ela está hoje situada, praticamente, no Centro de Teixeiras.

    Capítulo 5

    ADVOGADO EM AÇÃO

    O escritório de advocacia do meu pai era na nossa própria casa, pois lá recebia os seus clientes, instruindo-os quanto aos seus eventuais direitos, e, se necessário, acertando com eles a prestação dos seus serviços jurídicos.

    Lembro-me de muitos desses clientes, tocando a campainha, pedindo para falar com o Dr. Benevenuto, o que eu fazia com a maior presteza.

    Meu pai advogava em todas as áreas do direito, como civil, penal e trabalhista, dentre outras, revelando-se um invejável orador, no Tribunal do Júri, quando atuava na esfera penal, na defesa de réus, seus clientes, no processo penal, tendo eu tido a oportunidade de ouvi-lo, em mais de uma oportunidade, mas, sempre, do lado de fora do Fórum, colado na porta de entrada, porque, em função da minha idade, não podia adentrar no recinto, onde ocorria o julgamento.

    Era muito emocionante ver o meu pai, Benevenuto, atuando, no Tribunal do Júri, na comarca de Teixeiras, contra outro fantástico advogado criminalista, Dr. Januário de Andrade Fontes, de Viçosa, pois os debates chegavam a pegar fogo, forçando o juiz, presidente do Júri, a advertir a plateia, a toda hora, de que ela não poderia se manifestar, e que os aplausos estavam proibidos.

    Recordo-me que, certa feita, meu pai fora constituído advogado por dois irmãos, acusados de matar uma pessoa, e, por se tratar de crime doloso --, com a intenção de matar --, foram levados a Júri popular, tendo, porém, o julgamento sido desmembrado, não sei por que razão, o que determinou que cada um fosse julgado em sessões diferentes, por Conselhos de Sentença distintos.

    Tive a oportunidade de assistir à sessão do primeiro Júri, tendo meu pai, advogado de um desses irmãos que estava sendo julgado, convencido os jurados de que o responsável pela morte da vítima tinha sido o outro réu, que ainda seria julgado, e com esses argumentos, obteve a absolvição do seu cliente.

    Não sei também por que razão, o outro dos irmãos-réus, não veio a ser defendido pelo meu pai, mas por outro advogado da cidade, chamado João Baião dos Reis, cujo resultado do julgamento a minha memória não registrou.

    Em face disso, ainda adolescente, perguntei ao meu pai:

    Pai, o senhor convenceu o Júri no julgamento do primeiro desses irmãos, que o culpado era o segundo, que seria julgado depois. Como o senhor era o advogado desse segundo irmão também, e iria defendê-lo, o que diria ao Júri, se já tinha, no primeiro julgamento, convencido os jurados de que o culpado da morte era este que estava sendo julgado agora?

    A resposta do meu pai à minha indagação me deixou surpreso, revelando que ele era, realmente, um vocacionado para atuar no Tribunal do Júri:

    Nesse segundo julgamento, diria aos jurados que eu estava com a minha consciência muito pesada, porque, examinando melhor os autos do processo, convenci-me de que o culpado era o primeiro réu, antes absolvido, e que este que estava sendo julgado, agora, era, na verdade, o inocente.

    Se isso tivesse acontecido --, mas não aconteceu, porque meu pai não atuou nesse segundo julgamento --, por certo, teria absolvido também o segundo réu.

    Eu tinha uns doze anos mais ou menos, quando meu pai me chamou para ir com ele a uma fazenda, sem que eu soubesse o que ele iria fazer la, tendo nós dois e um outro senhor [por certo, o escrivão] ido todos a cavalo.

    Quando lá chegamos, havia uma varanda grande na frente da casa, onde estavam, no chão, muitos objetos, inclusive de cozinha, como panelas, pratos, xícaras, cafeteira, talheres etc., tendo o escrivão da Justiça dado a palavra a cada um dos herdeiros para escolher o que desejava do que havia pertencido aos pais deles, e, chamando um, ele escolhia alguma coisa, chamando outro, escolhia outra coisa, e foi assim até que foi tudo partilhado, literalmente entre os herdeiros.

    Nas suas andanças como advogado, em prol das causas dos que o contratavam, certa vez, meu pai, Benevenuto, foi advogar em Angra dos Reis, no litoral do Estado do Rio de Janeiro, e voltou de lá entusiasmado com a cidade, dizendo à minha mãe que estava pensando em vender nossa casa em Teixeiras, e mudar-se para lá, e nós, claro, ficamos ouriçados com essa notícia, porque na cidade tinha mar; mas ficou apenas na notícia mesmo, porque na prática não aconteceu nada.

    Capítulo 6

    RESPIRANDO POLÍTICA

    Nunca soube se meu pai, Benevenuto, durante todo o seu tempo de estudante na Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, havia participado de movimento político em diretórios estudantis ou mesmo em partidos políticos, embora, a esse tempo, o clima político-partidário no País não fosse dos melhores, com tentativas de golpe a torto e a direito.

    Na cidade de Teixeiras, dois partidos políticos dominavam a política local, sendo um o Partido Republicano Mineiro (PRM) ou, simplesmente, Partido Republicano (PR), como era mais conhecido, que tinha em Arthur Bernardes, filho de Viçosa, seu principal expoente, tendo, inclusive, sido presidente da República [de 1922 a 1926]  e, outro, a União Democrática Nacional (UDN), cujos caciques na época eram Magalhães Pinto e Oscar Dias Corrêa, embora houvesse outros partidos, como o Partido Social Democrático (PSD), de Juscelino Kubitschek, sob o comando municipal do Dr. Mariano da Rocha, e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de João Goulart, sob o comando não sei de quem. 

    Quem viveu a política que eu vivi em Teixeiras, com os conservadores (PR) disputando a preferência eleitoral com outros conservadores (UDN), jamais poderia imaginar que o Partido Comunista do Brasil (PC do B), que era o pavor de todos os partidos políticos da época, viria um dia a governar o Município, inclusive com seu candidato [Nivaldo Rita, vulgo Nivaldo de Botafogo] se reelegendo com 67,43% dos votos válidos.

    Por certo, os antigos políticos, todos conservadores, como Dr. Milton Faria, Omar de Barros e Dr.  Benevenuto, meu pai, devem estar dando pirueta no túmulo, por estar o governo do município de Teixeiras sob o comando de um integrante do Partido Comunista. 

    Eu próprio jamais imaginei que isso pudesse acontecer; mas fato é que aconteceu e o povo está muito satisfeito com o prefeito; dizendo que na prática ele não é comunista coisa nenhuma.

    Meu pai Benevenuto era também um superconservador, integrante da antiga UDN, de Magalhães Pinto e Oscar Dias Corrêa, que rivalizava com o PR, comandado na cidade pelo Dr. Milton Faria e Omar de Barros, mas, politicamente o PR sempre levou a melhor sobre a UDN, na eleição para prefeito [Executivo] e para a Câmara de Vereadores [Legislativo].

    Certa feita, houve uma convenção da UDN em Ponte Nova, acho que para a renovação do Diretório local do partido, à qual compareceu o então governador Magalhães Pinto, tendo meu pai contado, com indisfarçável vaidade, que, no dia em que o governador chegou no Hotel Central, em Ponte Nova, onde iria hospedar-se, todos os políticos da região queriam cumprimenta-lo, mas ele disse ao seu assessor especial, que, naquele dia, só receberia o Dr. Benevenuto, tendo todos os demais ficado para dia seguinte.

    Quando Magalhães Pinto tomou posse no governo de Minas Gerais, em 31 de janeiro de 1956, meu pai levou Maria Helena a Belo Horizonte com ele para as solenidades, quando ela contava apenas dez anos de idade.

    Nessa época, ela voltou tão encantada com a cidade, que decidira que iria fazer o curso de Direito na capital mineira.

    Aliás, Maria Helena sabia, desde os tempos de ginásio, que iria ser advogada, como meu pai, e, para tanto o caminho era através de uma Faculdade de Direito.

    Lembro-me de dona Emilce Fialho, nossa professora, perguntar a ela que curso ela iria fazer quando crescesse e ela respondia que era Direito; e, quando me perguntava que curso eu iria fazer, eu respondia, gaiatamente, que era o Torto; evidentemente, coisa de criança. 

    Eu não me recordo quem, mas um dos políticos correligionários do meu pai, detentor de um cargo importante no Governo de Magalhães Pinto, convidou-o para ser seu Chefe de Gabinete, no Palácio da Liberdade, mas ele, infelizmente, não aceitou, dizendo que aceitava o convite, mas para seu filho José Roberto, que nessa época, deveria contar mais de vinte e um anos de idade.

    Essa foi a grande oportunidade que meu pai teve para mudarmos de Teixeiras, criando as condições ideais para que os filhos fizessem curso superior na capital, juntamente com a família; pelo que, se ele tivesse aceito esse convite, por certo não teria perdido a vida como perdeu.

    Voltando ao assunto de Teixeiras, não sei por que razão, o Dr. Milton Faria e Omar de Barros resolveram abandonar o PR e se debandarem para a UDN, que era, até então, o partido do meu pai, Benevenuto, tendo para esse fim convocado uma convenção do partido udenista, que acabou por entregar a condução da UDN para os antigos comandantes do PR.

    Lembro-me que, para justificar a derrota, os udenistas de carteirinha, companheiros do meu pai Benevenuto, diziam que tinha havido fraude, pois eleitores, que não eram de Teixeiras, haviam participado da convenção, quando não poderiam fazê-lo.

    Como se vê, essas narrativas dos conservadores dessa época são antigas, e não criação do bolsonarismo de agora, que apenas as herdou dos seus antepassados.

    No dia dessa convenção da UDN, minha tia Zizica estava lá em casa, e, como meu pai comentava sobre tudo o que, para ele, estava errado, mas estava acontecendo, ela recitava um ditado que era a sua predileção, dizendo a Benevenuto, meu pai e seu irmão:

    Calma mano! Deixa o tacho que a fervura vem de baixo!

    Com a minha cabeça de criança, eu supunha que isso significava que os convencionais de ocasião, estavam preparando a comemoração da sua vitória, mas que, no final, quem iria comemorar seriam os udenistas ortodoxos, correligionários do meu pai Benevenuto; mas o que aconteceu foi que a fervura que veio de baixo acabou cozinhando os antigos integrantes da UDN, cuja sigla passou para o poder de Dr. Milton Faria e Omar de Barros, que antes eram do PR.

    O que aconteceu depois dessa tempestade não é difícil de imaginar, ou seja, os antigos udenistas migraram para o PR, na medida em que os antigos perristas se apoderaram da UDN, e, quando chegaram as eleições, o PR que sempre elegia o prefeito de Teixeiras, e fazia a maioria dos vereadores, cedeu sua posição para a UDN, que acabou por abocanhar não só o comando do Executivo [Prefeito] como o Legislativo [Câmara de Vereadores].

    Moral da história: Meu pai, Benevenuto, que sempre militara na UDN e perdia sempre a eleição para o PR, agora, militando no PR, continuou perdendo-a, desta feita para a UDN.

    Como essa mudança de partido pelo meu pai não lhe garantia a vitória nas eleições municipais, minha mãe, que não era nada irônica, mas desta vez foi, fez a ele uma observação, que a minha memória registrou:

    "Benevenuto! Você está que nem Jesus Cristo! Quando você está na beirada, apanha, e, quando passa para o canto, apanha do mesmo jeito!" 

    Ela queria dizer ao meu pai que, enquanto ele estava na UDN, o partido apanhava nas urnas, pois ganhava o PR, e quando ele passou para o PR, esse partido continuou apanhando, pois a UDN passara a ganhar as eleições.

    Para quem não conhece a história de Jesus Cristo, que apanhava quando estava na beirada da cama e continuou apanhando quando passou para o canto, vou contar:

    Nas suas andanças pela Palestina, Jesus Cristo, certa feita, sem se identificar, pediu pousada na casa de um jogador, que estava jogando carteado com outros amigos, no que foi acolhido, indo deitar-se numa cama, onde já dormia outro mendigo, tendo ele, então, deitado na beirada. Contudo, a partir daquele momento, o jogador, dono da casa, começou a perder no jogo, pelo que chamou o criado e disse: ‘Eu comecei a perder depois que aquele segundo mendigo chegou aqui! Vá lá, e dê uma surra nele!’ O criado obedeceu à ordem e deu uma surra em Jesus Cristo. Mas, como o dono da casa, continuou perdendo no carteado, chamou o criado e disse a ele: ‘Uma surra só não adiantou! Vá lá e dê nova surra naquele mendigo!’ O criado obedeceu de novo à risca e Jesus Cristo apanhou outra vez. Como Jesus Cristo já havia levado duas surras, o mendigo que estava no canto, apiedou-se dele e se ofereceu para trocar de lugar com ele, o que foi aceito de plano. Mas, como o jogador, dono da casa, continuou perdendo, chamou o criado e disse: ‘Como o mendigo da beirada já levou duas surras, vá lá e dê uma surra, agora, no que está deitado no canto!’ O criado obedeceu de pronto, foi lá e deu uma terceira surra em Jesus Cristo. Moral da história: Estando Jesus Cristo deitado na beirada da cama, apanhou; e, quando passou para o canto da cama, apanhou do mesmo jeito.

    O clima político em Teixeiras era, realmente, muito pesado, por conta das paixões partidárias da época, embora meu pai e os caciques dos partidos adversários não fossem inimigos, mas apenas adversários, pois, não foram poucas as vezes que vi meu pai conversando na praça com Dr. Milton Faria ou mesmo com Omar de Barros, então perristas de carteirinha, quando ele próprio, Dr. Benevenuto, era um udenista apaixonado.

    A memória não deixou de registrar que meu pai, sempre que saía de casa, à noite, cuidava de colocar um revólver calibre 38 na cintura, e, quando ia viajar, também à noite, juntamente com outros udenistas, todos saiam devidamente armados, como se fossem para uma guerra.

    Acontece que nunca vi meu pai limpando o seu revólver, pelo que, quando ele estava vivo, um dia, eu, que nunca havia atirado, tentei dar um tiro com ele, mas engasgou e não consegui. 

    Nossa casa foi também palco de eventos políticos, para turbinar a UDN teixeirense, com meu pai no comando da sigla, mas nenhum deles, pelo que me lembro, produziu os resultados desejados, porque os udenistas, eleitoralmente, continuaram minoria, com o PR vitorioso em todas as disputas para a Prefeitura da cidade e para a Câmara Municipal.

    A política era tão poderosa em Teixeiras, que os mandatários locais procuravam influir até no Poder Judiciário, na nomeação de promotores de Justiça e de juízes de direito, quando a cidade passou a comarca.

    Certa feita, quem foi o centro dos acontecimentos políticos em Teixeiras foi o professor Colombo, como representante da Secretaria da Educação de Minas Gerais, que foi à cidade, se não me falha a memória, para a inauguração do Ginásio Vera Cruz, tendo minha mãe, nesse dia, oferecido, a um grupo de seletos convidados, um almoço na nossa casa, o que, para nós, os seus filhos, foi por si só uma festa.

    De outra feita, quem esteve num acontecimento político em Teixeiras foi o deputado federal, José Bonifácio Lafayette de Andrada, vulgo Zezinho, também integrante da UDN mineira, correligionário do meu pai, Benevenuto, que lá esteve para um evento muito especial, que, apesar de privado, não deixou de ter conotação política, que foi o batizado do meu irmão José Bonifácio, tendo recebido esse nome em homenagem ao deputado, que, por isso mesmo, foi também escolhido como o padrinho de batismo, sendo a madrinha sua esposa, Vera Tamm de Andrade.

    Recordo-me de duas curiosas passagens desse acontecimento, tendo a primeira ocorrido por ocasião da celebração do ato batismal do meu irmão José Bonifácio, realizado na Capela que meu pai mandara construir na varanda da casa especialmente para essa finalidade, quando meu irmão --, já com mais de dois anos de idade e cabelinho encaracolado [parecia um anjinho barroco], que não cortava deste o nascimento --, o qual chegou no colo de Militina, nossa empregada, a quem se afeiçoara desde muito novo, e não quis passar para o colo da madrinha de batismo, dona Vera, a mulher do deputado, de jeito nenhum, armando um espetacular berreiro, pelo que a celebração foi realizada com ele no colo de Militina, posicionada ao lado da madrinha de batismo oficial, dona Vera, que, nessa ocasião, ficou apenas segurando, literalmente, a vela.

    Em razão disso, Militina acabou assumindo a função de madrinha de consagração do meu irmão, que é aquela que auxilia na educação religiosa e na proteção do consagrado.

    Vou abrir aqui um parêntese: Quem levou José Bonifácio para cortar o cabelo pela primeira vez fui eu, na barbearia de José Rust, onde a gente cortava e deixava a conta pro nosso pai pagar; e, quando o barbeiro, eliminou todos aqueles cachinhos, deixando apenas uma franjinha, eu tive um ataque de riso; mas, enquanto eu ria, ele chorava por eu estar rindo dele. Fecho o parêntese.

    A segunda passagem que resultou do batismo de José Bonifácio, e minha memória registrou, é que minha mãe ofereceu um jantar ao casal de padrinhos do meu irmão, na sala principal da nossa casa, em que era permitida a participação, para jantar à mesa, apenas os adultos, mas minha irmã, Maria Helena, que, nessa época, era uma criança --, verdadeira medida provisória de adulta --, não se conformou em ficar de fora dessa mesa, tendo armado um berreiro para jantar juntamente com os adultos.

    Para não criar constrangimento, minha mãe, sem ter demovido minha irmã desse propósito, acabou satisfazendo a vontade dela, tendo sido ela a única criança presente na mesa principal do jantar oferecido ao casal Lafayette de Andrada e demais convidados. 

    Foi pena que, nessa época, não houvesse fotógrafo disponível para registrar tais eventos, porque, uma foto desse jantar, por certo teria flagrado Maria Helena toda fagueira e risonha, no meio de tantos adultos, alguns dos quais, como o deputado federal Lafayette de Andrada, integrante da ala política mais importante da política das Minas Gerais.

    Todos nós, os demais

    Está gostando da amostra?
    Página 1 de 1