Pra onde vai a esquerda?
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Sobre este e-book
O livro é uma valiosíssima contribuição para o debate sobre os rumos da esquerda brasileira.
Por meio de texto claro e objetivo, Boulos expõe as razões do crescimento
da extrema-direita, localiza a situação vivida atualmente no Brasil – com o cerco ao governo Lula –, esclarece a guerra cultural da extrema-direita e a razão pela qual eles ganharam hegemonia nas redes sociais, para, finalmente, apresentar os caminhos que defende para a esquerda retomar a
ofensiva nas ideias, nos territórios e nas redes.
Trata-se, nas palavras do autor, "de um chamado para a luta. Um chamado aos que acreditam no Brasil e na capacidade de reação do nosso povo".
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Pra onde vai a esquerda? - Guilherme Boulos
CAPÍTULO I
A OFENSIVA DA EXTREMA-DIREITA
Não faz muito tempo, era impensável um Presidente norte-americano ter, ao seu lado, pessoas que fazem saudação nazista em público. Ou um cidadão que defendesse a venda de órgãos humanos se tornar chefe de Estado em qualquer parte. Ou ainda, um partidário da tortura e extermínio de opositores chegar à presidência do Brasil. Definitivamente, o mundo mudou. E mudou rápido. Trump tem aliados próximos que defendem o nazismo e, ele próprio, repete frases sobre imigrantes¹ que poderiam ser de Hitler. Milei elegeu-se na Argentina defendendo a venda de órgãos como um mercado a mais
. E Bolsonaro, no Brasil, dizendo que quem não concordasse poderia escolher entre a cadeia, o exílio ou a ponta da praia
.²
E não são só palavras. Dois deles não reconheceram a derrota nas urnas em suas tentativas de reeleição e estimularam conspirações golpistas. Trump, mesmo após a invasão do Capitólio, foi reconduzido à presidência dos EUA quatro anos depois. Na Europa, a extrema-direita avança, com um partido neonazista obtendo votação histórica na Alemanha. Sim, na mesma Alemanha que viveu o horror hitlerista. Tudo isso revela um simples fato: eles vieram pra ficar. Não foi apenas um surto de irracionalidade e barbárie, como se estivéssemos todos num pesadelo e, depois, acordássemos para seguir a vida. A consolidação da extrema-direita é o acontecimento histórico mais relevante do último período, que cria uma inflexão no cenário mundial e deve marcar o conflito político nas próximas décadas.
As derrotas que eles sofreram no pós-pandemia fizeram com que alguns voltassem a sonhar com a hegemonia de uma direita civilizada. As águas voltariam ao curso natural da polarização amena entre esquerda e direita democrática, as famílias voltariam a se encontrar sem brigas no fim do ano e ninguém precisaria bloquear conhecidos em conversas de Zap. Os anos seguintes mostraram que devolver pitbulls para o cercado é bem mais difícil do que os soltar ao mundo.
Eles têm avançado sobre todos os Rubicões e quem não compreender isso seguirá desnorteado com os rumos da política. Já passou a hora de superarmos a fase da indignação impotente diante dos absurdos que falam e fazem. É momento de enfrentarmos com decisão e estratégia a maior ameaça à sociabilidade humana desde a segunda guerra mundial. Mas, para isso, precisamos entender como, em tão pouco tempo, eles chegaram tão longe.
1.1 Duas transformações estruturais
O cupim não destrói uma casa de um dia para o outro. Demora tempo sem ser percebido, embora estivesse sempre ali. Grandes acontecimentos políticos funcionam da mesma forma. Alguns dos fenômenos sociais que permitiram a ascensão da extrema-direita não são tão recentes assim. E, à primeira vista, podem parecer não ter qualquer relação com Trump, Bolsonaro e companhia. Mas têm.
Há duas grandes transformações estruturais, com origem na ascensão de neoliberalismo na década de 1970, que contribuíram para o ciclo de extrema-direita no século XXI.
A primeira foi a mudança de perfil da classe trabalhadora pela fragmentação das relações de trabalho. A revolução robótica/microeletrônica reduziu o contingente de trabalhadores concentrados na grande indústria e expandiu o setor de serviços. Ao mesmo tempo, a desregulamentação das relações trabalhistas levou à expansão de formas de trabalho por conta própria e ao aumento da rotatividade dos trabalhadores no emprego. Essas mudanças ajudaram a reverter um processo histórico provocado pela Revolução Industrial: a concentração dos trabalhadores, com formação de identidades coletivas e consciência de classe.
Quando o capitalismo criou a grande indústria, unificou trabalhadores que estavam dispersos no campo ou em pequenas oficinas, colocando-os sob as mesmas condições de vida e trabalho. Foi assim que criou a classe operária. Esses trabalhadores passaram a se organizar em sindicatos, a fazer greves e a pensar o mundo de forma comum. Nós devemos a maior parte das conquistas civilizatórias do século XX a essa organização da classe trabalhadora. Direitos trabalhistas, liberdades democráticas e um conjunto de políticas sociais só foram incorporados pelo capitalismo após grandes lutas lideradas pelo movimento operário.
Mas, nas últimas décadas do século XX, as mudanças nas relações de trabalho contribuíram para fragmentar novamente a classe trabalhadora. Agora, não mais em pequenas propriedades rurais e oficinas, mas no trabalho por conta própria, informal e precário, e, mais recentemente, em plataformas de serviços por aplicativo. O sindicalismo, no mundo todo, já enfraquecido pelo conjunto de legislações antitrabalhistas da era neoliberal, enfrentou grandes dificuldades para responder às transformações de sua base. E os cinturões operários
, que formavam o poder de massa da esquerda, foram desaparecendo.
Este processo criou as condições para uma mudança profunda da percepção dos trabalhadores como classe. A fragmentação das relações de trabalho foi o fator objetivo que potencializou uma luta ideológica deliberada contra a consciência coletiva dos trabalhadores, revelada na famosa frase de Thatcher: a economia é o método, o objetivo é mudar a alma
. Os trabalhadores deveriam comportar-se agora como um capital humano
, valorizando sua formação, desempenho individual e capacidade de iniciativa para buscar as melhores oportunidades de sucesso. As novas técnicas de gestão empresarial exigiram mais flexibilidade e polivalência de cada trabalhador – agora chamado de colaborador
– e estabeleceram o princípio da remuneração individual de acordo com o desempenho. Assim, o conflito não seria mais entre trabalhador e patrão, já que o sucesso da empresa é apresentado como condição ao sucesso do trabalhador, mas entre os próprios trabalhadores ou entre diferentes equipes da mesma empresa, buscando o bônus de melhor performance.
Na empresa ou no negócio por conta própria, a consciência do trabalhador foi moldada para que se perceba como um empreendedor de si mesmo, num ambiente de concorrência generalizada com seus antigos companheiros. As relações de solidariedade são substituídas pela concorrência sem regras de lealdade e a consciência de luta por um propósito comum pela busca da prosperidade individual. Essa estratégia já havia sido apresentada meio século antes por um dos pais da ideologia neoliberal, Ludwig Von Mises, guru dos atuais economistas da extrema-direita. Ele propunha que cada indivíduo deveria ser visto como um sujeito empreendedor e que a concorrência sem limites entre eles seria a fonte do progresso da sociedade. É a introjeção da lógica das empresas pelos trabalhadores, formando a racionalidade neoliberal
dos nossos tempos.³
Uma pesquisa recente do Instituto Locomotiva⁴ mostrou que, entre os trabalhadores brasileiros, 46% têm como perspectiva profissional ter um negócio próprio como empreendedor, enquanto apenas 7% almejam ter um emprego. Essa perda de atração do emprego formal se estende a uma diminuição do prestígio da educação formal. E não só por uma mudança de percepção dos trabalhadores: a vantagem salarial das pessoas que tem diploma universitário foi reduzida significativamente no último período. Em 2003, a diferença média era de R$5.194 e passou para R$3.117 em 2023. São transformações na realidade e na consciência.
Ao mesmo tempo em que produziu esse efeito nas relações de trabalho, o neoliberalismo impulsionou uma segunda mudança estrutural, com grandes consequências políticas em nosso tempo: o esvaziamento das democracias liberais.
A desregulamentação dos fluxos financeiros permitiu uma concentração de capital inédita nas mãos de grandes corporações e bancos, que passam a deter um poder maior que boa parte dos Estados Nacionais. Os mesmos Estados que impulsionaram a liberalização financeira, para financiar suas dívidas públicas, tornaram-se reféns do movimento global de capitais definido pelos agentes do mercado. Quando as decisões políticas de um governo contrariam seus interesses, batem na mesa e falam na linguagem que melhor sabem, a da chantagem.
A chantagem financeira mundial tem um mecanismo institucionalizado. Todos os países precisam emitir títulos para seguir financiando suas dívidas públicas. Quem compra esses títulos, em geral, são os grandes bancos e fundos de investimento, recebendo juros no momento da compensação. Se o governo de determinado país decide ampliar investimentos sociais para enfrentar as desigualdades, esses credores do Estado atacam, com o argumento de que não haverá dinheiro para o pagamento das dívidas e pressionam por ajustes fiscais. É isso que vemos no noticiário econômico todos os dias.
Se o governo insiste em suas políticas, respaldadas pela escolha democrática de seu povo, os mercados
– leiam-se, esses mesmos bancos, fundos e corporações – colocam em marcha um ataque especulativo. As agências de risco ameaçam rebaixar a nota de crédito do país, colocando em questão a capacidade de pagamento futuro.⁵ Produz-se uma crise de confiança
, que tende a reduzir a demanda pelos títulos públicos necessários para o governo refinanciar sua dívida, pressionando por aumento dos juros para torná-los
