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Os Três Nomes de Ludka
Os Três Nomes de Ludka
Os Três Nomes de Ludka
E-book544 páginas7 horas

Os Três Nomes de Ludka

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Sobre este e-book

Em 1946, Ludka Nowak, uma criança de nove anos, chega a Barcelona acompanhada por uma centena de órfãos polacos. Muitos deles tinham sido raptados pelos nazis alemães e sujeitos a um intenso processo de germanização durante a Segunda Guerra Mundial.



A Cruz Vermelha Internacional e o Consulado Polaco permitem que as crianças sejam acolhidas na cidade, onde é fundada a primeira escola polaca. Enquanto as autoridades procuram as suas famílias, as crianças recuperam a língua e a cultura que lhes tinham sido roubadas.



Graças à amizade com Emma, uma menina da sua idade, Ludka, sujeita ao mais absoluto desenraizamento, conseguirá recordar episódios do seu passado e recuperar o seu verdadeiro nome.



Os Três Nomes de Ludka é uma história contada a três vozes: a de Ludka, a de Emma e a de Isabel, que se entrelaçam para nos levar a uma epopeia de sobreviventes forçados a viver numa época de tirania e opressão. Apesar disso, conseguem encontrar o seu lugar no mundo e aprender a viver e a lutar por aquilo que querem.
IdiomaPortuguês
EditoraCasa das Letras
Data de lançamento1 de jun. de 2023
ISBN9789896617196
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    Os Três Nomes de Ludka - Gisela Pou

    EMMA

    Recordar a Ludka é voltar a ser criança. Os seus olhos claros, cheios de perguntas, acusam-me. Chegou há pouco e ainda tem pesadelos. Vai para o jardim de madrugada; corre de um lado para o outro, como se alguém a perseguisse. No seu interior, o medo perdeu o controlo. Corre sem direção e esconde-se pelo matagal junto ao muro que separa o jardim da estrada. Encolhida, como um animal amedrontado. Imóvel, porque não quer que a encontrem. Treme, porque o mundo é um lugar inóspito. Sabe-se vulnerável porque ainda não lhe cresceu a carapaça que a vai proteger da vida. De longe, há sessenta e dois anos, ela observa-me com a expressão triste de uma criatura que perdeu tudo. 

    Numa das estantes do meu escritório há uma fotografia a preto e branco gasta pelo passar do tempo. Tem as margens roídas e uma mancha escura ao centro. 

    Uma palmeira. Um carrinho de mão de madeira. Duas meninas.

    Elas não olham para a câmara, nem sorriem, nem sequer sabem que alguém as observa. Lutam como duas pequenas feras. Puxam pelos cabelos, mordem, arranham, batem uma na outra. Caem ao chão. Gritam. O sangue mistura-se com o barro de uma noite de chuva. A palmeira verga-se ligeiramente para pedir-lhes que parem. Não lhe dão atenção. Lutam por causa de um carrinho de mão de madeira. Lutam, e os ciúmes desatam a língua, as palavras escapam-se, cravam-se e magoam.

    Uma professora aparece no pátio. Przestań! Przestań!¹, grita alarmada enquanto corre até elas. Não a ouvem.

    Duas raparigas.

    Ela, Ludka.

    Eu, Emma.


    ¹ Em polaco, «Já chega!».

    1

    BARCELONA, ABRIL DE 1946

    Ter nove anos significava ser-se adulto para muitas coisas; quer me apetecesse quer não, quisesse ou não, estivesse carrancuda ou com um sorriso de orelha a orelha, tinha de ajudar a fazer quarenta camas para as crianças que vinham do centro da Europa.

    – Quero ir à oficina do avô! – repliquei com vontade de debandar.

    – Tu vens comigo! – A minha mãe estava com voz de trovão e o olhar obscuro. Remexia na caixa de costura. Contrariada por ter discutido com a minha avó, contraiu os pulmões, as narinas incharam-se e a raiva escapava-lhe pelas pontas dos dedos.

    – Mas o avô está à minha espera – insisti.

    – A senhora Wanda precisa de ajudantes, e tu já estás crescida, Emma!

    Na caixa de costura, havia linha preta e linha branca. Apanhou as duas, bruscamente, e pô-las num saco que continha roupa.

    Quando ouvi falar de crianças órfãs pela primeira vez, a minha mãe estava a dar pontos nas bainhas do vestido cor de pedra da senhora Wanda e eu, ao seu lado, enfiava linhas nas agulhas. Vão chegar muitíssimas crianças, que não têm pai nem mãe, para passarem uns meses, aqui, em Barcelona. Coitados!, acrescentou e tirou-me da mão a agulha que eu segurava entre o polegar e o dedo índice, qual espada em miniatura. Não podia imaginar, então, que a chegada daquelas crianças, iria, primeiro, roubar-me a mãe e, depois, virar a minha vida do avesso.

    A mãe contribuía para a economia familiar, costurando de casa em casa. Todas as tardes, uma casa diferente. Todas as tardes, uma família nova. Todas as tardes, durante três ou quatro horas, remendava meias, apertava saias, mudava golas às camisas, remendava lençóis, desfazia as bainhas das batas dos garotos. Todas as tardes, sentada ao canto da cozinha ou no quarto de passar a ferro, testemunhava brigas e segredos. Algumas das senhoras tratavam-na com distância e frieza, outras exigiam-lhe mais do que lhe pagavam; depois havia as que desprendiam um profundo fedor a solidão e lhe explicavam intimidades que ela ia costurando nos vestidos. Acima de todas elas, qual águia que pairava de asas abertas, estava a senhora Wanda.

    *

    Wanda Morbitzer Tozer enfrentava a vida com a convicção de que querer algo seria o primeiro passo para o conseguir. Há meses que trazer aqueles meninos para Barcelona se convertera numa prioridade. Chanceler do Consulado da Polónia em Barcelona e delegada da Cruz Vermelha Internacional, era a mão direita do cônsul Rodon e da sua esposa, Anna Maria Klemensiewicz; ambas trabalhavam para que os órfãos polacos, que viviam num campo de refugiados em Salzburgo, conseguissem vir para Barcelona. Graças ao Auxílio Social, uma organização benéfica adscrita ao regime, habilitara-se uma residência infantil num imóvel da rua Anglí, uma casa que durante a guerra fora checa, um centro de detenção que agora se tornaria o lar de umas criaturas que começavam a vida com as mãos vazias e um passado desvanecido.

    Ficarão por poucos meses, como umas férias, disse-me a mãe.

    Se tivesse sido valente, ter-me-ia plantado diante dela e gritado que, por muito órfãos que elas fossem, por muitas desgraças que tivessem sofrido, aquelas crianças tinham mãos e, portanto, podiam fazer as camas sem ajuda, pois eu tinha mais que fazer. Antes de ela conseguir dar resposta, já teria eu fugido a correr para a carpintaria, pois queria estar com o meu avô e brincar com um carrinho de mão de madeira sem dono. Mas eu não era valente. Fui atrás dela com ar zangado e o olhar cravado na ponta dos sapatos, jurando que jamais voltaria a dirigir-lhe palavra.

    O trajeto da nossa casa até à rua Anglí durava mais de três quartos de hora. Teria sido mais sensato apanhar o elétrico, mas a mãe disse-me que andar fazia bem às dores de cabeça e fortalecia as pernas; por outras palavras, em casa não havia dinheiro e ir de elétrico era um luxo a que não nos podíamos permitir. De vez em quando, virava-se para me perguntar se me sentia cansada; eu, teimosa como todos os Andreu, contrariada por não ter levado a minha avante, apertava os lábios e não respondia.

    Os pés queixavam-se, mas o que deveras me chateava era a língua, que se me tinha inchado de tanto mastigar perguntas que recusava exprimir em voz alta. Conhecia a mãe aquelas crianças? E por que diabos, tinha de ser eu quem, numa terça-feira à tarde, lhes faria a cama?

    Atravessámos o passeio da Bonanova e fomos subindo pela rua Anglí até ao número 49. A casa tinha um pequeno pátio no espaço compreendido entre a calçada e a fachada do edifício. O jardim permanecia fechado com um muro pequeno, pouco mais de um metro de altura, com uma vedação de ferro forjado que se estendia até à porta situada mesmo ao centro. A trepadeira enroscava-se pela vedação e espreitava para a rua, um tecido natural que escondia a pintura consumida pelo passar dos anos e a ferrugem crescente.

    A mãe parou, soltou um suspiro que escondia o alívio de ter chegado, e empurrou a porta, a qual respondeu com um gemido metálico. Subimos dois degraus e avançámos por uma pequena calçada que conduzia à entrada. A erva recém cortada cheirava a verão. Encurralado contra a parede, um loureiro estendia os seus ramos até alcançar a parte inferior da varanda; do outro lado, uma roseira carregada de rosas vermelhas com salpicos laranjas dava as boas-vindas aos visitantes. A porta, de madeira, estava fechada. A mãe chamou, mas ninguém respondeu. Insistiu, mas ninguém abriu.

    – A senhora Wanda disse-me que iam estar em casa todo o dia! – As suas palavras encontravam-se tingidas de dúvida e perplexidade.

    – Pois aqui não está ninguém! – exclamei, e quebrei a minha promessa de não abrir a boca durante semanas.

    A mãe deixou-me sozinha e foi perguntar aos vizinhos, e eu, apetecendo-me voltar para casa, atravessei a calçada e desci a rua até chegar ao passeio da Bonanova. Da esquina do prédio situado no número 46, um edifício de dois andares, cercado por um jardim, e janelas abertas de par em par, emanavam cantos com voz de mulher; diferentes toadas que se misturavam numa balbúrdia difícil de entender.

    Trocar um seis por um nove fizera-nos errar na morada.

    A mãe apressou-se e apanhou-me. Ouviu a cantilena e esboçou um sorriso de alívio. Agora sim, tínhamos chegado.

    Um pequeno exército de mulheres limpara o pó, e varrera e esfregara. Baldes de água, de cima a baixo. Com todas as janelas abertas, aquela casa, que anos antes escutara os gritos de dor dos prisioneiros, preparava-se agora para receber um monte de catraios. Canções com cheiro a lixívia e a ar limpo. Umas mulheres limpavam as camas que haviam trazido de manhã, outras apressavam-se para deixar em condições os vidros das janelas, esfregando-os com papel de jornal para depois secarem com trapos de algodão, já gastos de tanto uso. Umas mulheres penduravam cortinas com a intenção de converter aquele lugar de tetos altos e passado tétrico num lugar acolhedor para criaturas a quem lhes fora defraudada a infância.

    A senhora Wanda veio receber-nos com uma expressão coberta de agradecimento; usava um pano de flores atado na cabeça e uma bata azul que quase lhe chegava aos tornozelos. Ainda que à primeira vista pudesse parecer uma senhora das limpezas, nos seus movimentos pausados, no seu pescoço comprido e expressão segura adivinhava-se uma mulher elegante. Uma mulher que sabia o que queria e que ninguém seria capaz de dissuadir.

    – Obrigada por ter vindo, Isabel. E tu também, Emma. – Afagou-me o cabelo com a mesma suavidade com que tudo fazia. – Felizmente, temos lençóis novos. As fronhas são muito grandes, portanto teremos de juntar tiras de tecido para que as almofadas não saiam.

    Eu e a mãe seguimo-la até um quarto onde nos aguardava uma pilha de lençóis brancos.

    *

    Alfinetes e agulhas de coser, linha preta e branca, dedais, tesouras e uns quantos metros de tecido. O meu trabalho consistia em cortar pedaços do mesmo tamanho, e até bati o meu próprio recorde, enfiando linhas em sessenta e três agulhas em pouco mais de uma hora. Depois enfiei as fronhas nas almofadas e, uma vez terminada a tarefa, ajudei a fazer as camas.

    Um regimento de mulheres enchia o ar de perguntas que rasavam o teto e aterravam a meus pés. Pouco a pouco, a raiva contra aquelas crianças que me tinham arruinado a tarde foi-se transformando numa centelha de compaixão, que cresceu à medida que falavam delas. Pobres criaturas! E nenhum familiar os vem reclamar?, perguntou uma. Claro que não!, achas que estariam num orfanato, se tivessem alguém que as quisesse?, respondeu outra. E tu, espertalhona, disse-me uma com olhos de coruja, imaginas-te sem mãe, nem pai, nem avós, nem tios? Que tristeza, não achas? Eu omiti que não tinha pai, que nunca tinha tido, que o tinham matado no final da guerra, e não sentia a sua falta, porque não se sente falta do que nunca se teve. Mas aquelas mulheres não se calavam. Tão pequenos e o que já sofreram!, disse uma senhora baixinha de cara redonda e com as pálpebras pintadas de um azul berrante. Ninguém pode dizer que o nosso caudilho não seja um homem de bom coração; acolher estes pobres miúdos é um grande ato de generosidade!, exclamou uma outra que trazia um vestido horrível. A senhora Wanda observou de relance aquela mulher e, embora não tivesse retorquido, franziu a testa e surgiram-lhe rugas entre as sobrancelhas.

    Já escurecia quando acabámos todo o trabalho. A senhora Wanda pagou-nos o bilhete do elétrico, que estava a abarrotar. Acompanhada pelo suave vai e vem do solavanco, não conseguia tirar da cabeça aquelas crianças que no dia seguinte dormiriam nas camas preparadas por mim. A chegada das criaturas atrasara-se devido à tensão que existia entre as autoridades franquistas e o Governo de Paris. A má relação entre ambos os países provocara o encerramento da fronteira a meados de fevereiro e fez com que fosse preciso encontrar uma rota alternativa. As crianças iam viajar de comboio de Salzburgo a Génova e, daí, chegariam a Barcelona por volta do meio-dia a bordo de um barco que fazia com regularidade o serviço entre as duas cidades.

    Quando abrimos a porta de casa, fomos recebidas pelo aroma da sopa de verduras. O avô, como sempre, estava sentado no cadeirão, a ler um exemplar do La Vanguardia Española que o dono do bar lhe dera. A avó lutava com o rádio, incapaz de sintonizar a emissora. A mesa estava posta e no centro havia uma jarra com três rosas. Tinha-as trazido o avô: uma para a minha avó, outra para a minha mãe e a outra, mais pequena, para mim.

    Enquanto a mãe e a avó se dirigiram para a cozinha, para terminar o jantar, o avô levantou-se do cadeirão, pousou o dedo indicador sobre os lábios e ordenou-me que o seguisse. Já na entrada, levantou a caixa de ferramentas pousada em cima de um banco. De debaixo da almofada, tirou um pacote embrulhado em papel pardo e com um laço de cordel. Pela forma e volume, era evidente que se tratava de um livro.

    – Leva-o para o teu quarto e esconde-o onde ninguém o encontre; e esse ninguém inclui a tua mãe e a tua avó – disse-me em voz baixa. – Há livros que não se podem ter, Emma. Se to ofereço, é porque agora já estás crescida e já sabes guardar segredos.

    Uma hora mais tarde, sozinha no meu quarto, abri o embrulho.

    Na capa do livro havia um menino vestido com uma barretina e um macacão de pernas largas. Na mão tinha uma bandeira, e andava de braço erguido. O livro intitulava-se El més petit de tots².

    Foi o primeiro segredo que eu e o meu avô partilhámos. Os outros segredos, aqueles que ele escondia, descobri-os meses mais tarde.


    ² Em catalão, O mais pequeno de todos».

    2

    BARCELONA, ABRIL DE 1946

    Os gritos de Delfina propagavam-se pelo pátio de luzes. Os vizinhos fechavam as janelas para afugentar o desespero daquela mulher que deixara de viver no dia em que recebeu a notícia de que o filho mais novo, a única família que lhe sobrava, também não regressaria da guerra. Delfina, a maluquinha do terceiro A, vivia sozinha com os seus fantasmas. Os vizinhos, oferecendo o pouco que tinham, ajudavam-na a seguir em frente: um pouco de comida, um pouco de companhia e, sobretudo, aceitavam que ela já não fosse aquela mulher amável e generosa de antigamente, quando vivia com o marido e os dois filhos. Ao vir o bom tempo, os lamentos de Delfina entravam na vida alheia, e nós protegíamo-nos, fechando as janelas e aumentando o volume do rádio. Todos nós nos compadecíamos, sim, mas estávamos demasiado embrenhados na nossa própria dor para conseguirmos ainda suportar a dor alheia. Não oiças o que ela diz, Emma, dizia-me a minha avó. A morte dos filhos e do marido deterioraram-lhe os pensamentos! Mas eu podia ouvi-la, e os gritos daquela mulher de olhar perdido davam-me medo e pena ao mesmo tempo. Que a prendam!, vociferava o homem do terceiro B, quando já não podia mais aguentar tanta gritaria. Que a prendam! Também tenho direito de viver!, clamava pelo pátio de luzes. Os vizinhos calavam-se. A compaixão era mais forte do que a rejeição, porque muitos deles sabiam que também lhes podia ter cabido igual desgraça.

    Nessa noite, depois de jantar, com os gritos de Delfina como música de fundo, ajudei a levantar a mesa e fechei-me no quarto, com o argumento de que tinha de acabar um trabalho da escola. Uma mentira, a primeira de muitas que viriam. Calar, esconder, dissimular, mentir. Mentir, dissimular, esconder e voltar a calar. Os anos quarenta foram um tempo de silêncio, e aquele livro que o avô me ofereceu marcou um ponto de inflexão entre o antes e o depois, a dobradiça perfeita que me empurrou em direção ao mundo adulto. Compreender a razão dos gritos de Delfina, o conto de Lola Anglada que o avô me oferecera e a rapariga que iria conhecer pela primeira vez no dia seguinte fizeram-me entrar num mundo cheio de derrotas, que aprenderia a gerir à medida que ia crescendo.

    Antes de resgatar o livro que escondera entre o sommier e o colchão, coloquei a cadeira diante da porta, para evitar que me apanhassem submersa na sua leitura. Era demasiado pequena para perceber que o mundo em que vivia era hostil e imposto. Demasiado pequena para entender que, antes da guerra – da nossa guerra, e não a das crianças órfãs –, os meus avós e a minha mãe tiveram uma outra vida, mas que lhes foi proibido ser quem eram a partir do momento em que os outros começaram a governar o país.

    Muitos anos depois, ao lado de Ludka, descobriria o que significava perder as origens, apagar a língua, evitar a cultura, deixar de sermos quem somos e fingir que somos o que não queremos ser; mas, na época, eu era apenas uma criança de nove anos, cheia de alegria, que ficara entusiasmada por partilhar um segredo com o avô.

    Teria conseguido ler a primeira página, mas a conversa entre a mãe e a avó encheu a casa como uma bruma espessa que atravessou paredes e viajou de um quarto ao outro, deixando um rasto de discussão. Agucei o ouvido e, ainda que me tivesse custado entender o que diziam, pude discernir as palavras «criaturas» e «garotos». Incitada pela curiosidade, saí descalça do quarto. O frio dos ladrilhos subiu-me pelas pernas, gelou-me a barriga, trepou pelo meu peito e chegou-me até ao pescoço. Para suportar o frio, mordi os lábios e pus-me a dar palmadas nos braços. Através da fresta fina que havia entre a porta e a parede da cozinha, consegui ver o rosto inflamado da minha avó.

    – Se esse cabrãozão pensa que, por dar esmola a umas quantas criaturas, não vai ser culpado de assassinar gente a torto e a direito, está muito enganado!

    – Mãe, por favor, o que tem a ver uma coisa com a outra? – respondeu a minha mãe.

    – A única coisa que esse pedaço de merda quer é ficar bem visto ao lado dos que ganharam a guerra. E, claro está, por causa da sua grande simpatia pela Polónia católica e apostólica. Tem tudo muito bem calculado. Oferece-lhes uma estadia de umas quantas semanas para que os aliados comecem a fazer vista gorda e acabem por se esquecer que foi amigo do outro criminoso.

    – Seja por que motivo for, o importante é que essas crianças possam ter uma semana de alegria. – A mãe procurava esforçar-se por acabar com a discussão.

    A avó deixou o tacho acabado de lavar em cima do mármore, a água gotejava e a porta do armário enchia-se de escoadouros que deslizavam lentamente, quais caracóis correndo para o chão.

    – Que alegria se pode ter num país onde ninguém é livre de dizer o que pensa? – inquiriu a avó, sem esperar resposta. – Aqui, tudo está proibido, e se não está, então é pecado.

    A mãe acabou de secar um prato e guardou-o no armário.

    – Não podemos passar a vida a queixar-nos do que perdemos, mãe. Agora estamos onde estamos e temos de seguir em frente.

    – Não me faças falar, Isabel. – Franca e sincera, com as bochechas vermelhas, assinalou-a com o dedo como se apontasse uma pistola. – Não me faças falar ou sai-me de dentro todo o veneno que guardo!

    – Pois será melhor que o engula, mãe, porque cuspi-lo só serve para envenenar tudo e todos.

    Isabel, a minha mãe, agarrou numa panela e secou-a com a mesma energia que contia a sua impotência. Diante dela, a minha avó, Teresa, tirou bruscamente o avental e deu a conversa por terminada, enquanto eu corria para o quarto. Ainda não me tinha metido na cama quando o barulho da porta a abrir e a fechar anunciou o regresso do avô. Todos os dias, depois do jantar, ele saía para ir dar uma volta pelo bairro; esticar as pernas, dizia, ainda que nós soubéssemos que ia falar com os amigos e fumar o último cigarro do dia. Quando o meu avô não estava em casa, mãe e filha enredavam-se em discussões que a sua presença cortava sempre pela raiz.

    – Di-lo tu, Simó. Diz à tua filha porque é que o Franco aceita essas crianças! – exclamou a minha avó, enquanto ele tirava a boina e passava os dedos pelo cabelo como um pente.

    – Isso não é importante, Teresa. – Fez uma pausa e olhou para a esposa. – Ainda bem que as crianças vão ter um lar, nem que seja por pouco tempo.

    Naquela noite, o avô tinha os olhos mais apagados que de costume, mas conseguiu dissimular e nós não demos por isso.

    *

    A avó costumava cantar, estivesse contente ou triste. Porque cantas?, perguntava-lhe eu, e ela arranjava a mecha de cabelo que se lhe tinha escapado do rabo-de-cavalo, acariciava-me a bochecha com a sua ternura habitual e respondia-me: Cantar é voltar a casa, Emma.

    Nessa manhã, bem cedo, a minha avó cantava, assomada à janela que dava para o pátio dos vizinhos. Atrás de si, fumegava uma caneca de leite ao lado de uma torrada com doce de limão, feitas por ela. Sem a interromper, e tentando não fazer barulho, entrei na cozinha, sentei-me à mesa e comecei a tomar o pequeno-almoço. Quando se virou e me viu concentrada na caneca de leite, pousou a mão no meu ombro.

    – Hoje vamos comer só eu e tu, sem mais ninguém. O teu avô está na carpintaria e a tua mãe vai andar o dia todo a costurar noutras casas.

    – Eu hoje tenho de ir ajudar a Maria, porque lhe custa um pouco entender os exercícios de matemática. Pensei em levar alguma coisa para comer na escola.

    – É muito bom ajudar os outros, Emma, mas seria melhor se me tivesses avisado antes. Não temos nada no frigorífico e só me resta a ponta de um pão e um bocado de queijo.

    – Isso chega, avó.

    – Já me parecia – respondeu ela, que sempre se lamentava por eu comer tão pouco. – E se sobrar alguma coisa, não deites fora, já sabes.

    A minha avó pôs o queijo no pão, envolveu-o todo com um pano de algodão e ainda o enrolou depois com papel de jornal; não fosse o queijo deixar uma mancha nos livros ou no casaco, pois tinham de durar o máximo de tempo possível. Desci as escadas a correr para afastar-me daquela mentira que me ficara encalhada na garganta. Era verdade que a matemática e Maria eram incompatíveis, mas nem eu me oferecera para a ajudar, nem ela mo tinha pedido. Aquela rapariga, que não se desenrascava muito bem com as divisões, fora meramente uma desculpa perfeita para eu poder assistir à chegada do barco que ia trazer as crianças cujas camas preparara.

    Dizem que chegarão à uma e meia, mas tanto pode ser às duas como às duas e meia, ouvi a senhora Wanda comunicar à minha mãe, enquanto lhe entregava dinheiro para o elétrico.

    Nunca uma semana se fez tão longa. O relógio situado à direita do santo Cristo, mesmo por baixo da fotografia de Franco, recusava-se a avançar. As horas nunca tinham passado tão lentas nem os minutos custaram tanto a andar. A voz da irmã Conchita pairava como um corvo esfomeado à procura de caça, e eu tomava nota das palavras do ditado sem saber o que escrevi. Quando finalmente o sino anunciou a hora do almoço, saí disparada do colégio e desci a rua a correr, correndo sempre em direção ao mar. As ruas estavam mais largas e o céu pintara-se de um azul brilhante; a cidade inteira falava-me ao ouvido para me guiar até ao porto.

    *

    Cheguei mesmo a tempo de ver uma procissão de carros oficiais entrar no cais. Estava decidida a segui-los, mas um guarda fardado reteve-me. Apesar de a simpatia e o afeto de um pai de família se ocultarem sob uma expressão de autoridade, o medo de que tirasse a pistola e a apontasse diretamente à minha cara fez-me desatar a correr antes que ele abrisse a boca. Cansada, com o coração aos pulos, as pernas a fraquejar e os pés doridos dentro de uns sapatos que encolhiam dia após dia, parei para recuperar o fôlego. Era um momento decisivo: desistir ou continuar. Se desistisse, teria mentido para nada; se continuasse, alcançasse ou não o objetivo, pelo menos tinha tentado.

    Afastei-me do guarda cerca de meio quilómetro, mas o muro que me separava do cais tinha mais de dois metros de altura. Sem pensar duas vezes, comecei a trepar pela parede. Agarrei-me às pedras protuberantes e não olhei para baixo, de modo a evitar que o medo ultrapassasse a ousadia e uma onda de pânico me obrigasse a retroceder. Assim que cheguei ao topo, dei um salto e fui parar em cima de um monte de sacos que ampararam a minha queda. Como uma cobra que se esquiva entre rochas quentes, ágil e rápida, escondida atrás de um acervo de madeiras, sacos, bidons e vultos que continham carga à espera de ser recolhida, fiquei a ver a chegada do navio.

    O barco J. J. Sister da companhia Transmediterrânea aproximava-se lentamente, qual gigante guloso com a barriga cheia de órfãos. A chaminé cuspia fumo e, no cais, a procissão de carros, negros e reluzentes como escaravelhos colossais, parou. Em poucos segundos, um grupo de senhores de chapéu e gravata presa com alfinete de ouro, e senhoras aperaltadas dos pés à cabeça, saiu dos seus veículos. Não fazia ideia de quem eram; só passados alguns dias , é que encontrei uma lista de nomes num artigo do La Vanguardia Española que a mãe trouxe para casa. Uma lista de nomes sem rosto, encabeçada pela princesa Radziwill, à que se seguiam o barão de Terrades – vereador da cidade –, o senhor González-Aller, o coronel Chinchilla, a condessa de Lacambra e terminava com Gómez Leoned, a delegada do Governo que acolheria as crianças polacas. Naquele meio-dia soalheiro, a única coisa que vi foi um montão de gente aperaltada que permanecia especada no cais. Quando o J. J. Sister atracou, toda a gente entrou no barco para dar as boas-vindas às crianças que iriam causar uma reviravolta na minha vida.

    *

    Às senhoritas que acompanhavam a expedição, deram as boas-vindas com ramos de flores ostentando as bandeiras da Espanha e da Polónia. Às crianças, rebuçados, que rapidamente estas guardaram, esperando saboreá-los assim que tivessem um momento de paz. Iriam regozijar-se, durante uns minutos, com a doçura de cada lambidela, consolando-se do horror de serem náufragos de um destino que vinha em contramão.

    Esperei um bom bocado até aparecerem os miúdos. Saíram em fila indiana por uma pequena escada que descia do barco ao cais. Todos eles traziam uma pequena mala e, quais formigas incapazes de desfazer a corrente, caminharam até ao autocarro que os levaria para a residência da rua Anglí.

    A última da fila era uma menina de cabelos louros como fios de ouro, apanhados numa trança que lhe batia nas costas como se tivesse vida própria. Trazia um vestido verde-maçã com gola e punhos brancos e uma camisola também branca cingida na cintura. Agarrava na mala com ambas as mãos e avançava de cabeça erguida. Tinha um olhar triste e a expressão séria. De repente, parou. Plantada no meio das escadas, segurou a mala com uma mão e, com a outra, vasculhou os bolsos cheios de rebuçados. Olhou para o meu esconderijo e tive a certeza de que me tinha visto.

    3

    BARCELONA, ABRIL – MAIO DE 1946

    – Muitas daquelas crianças polacas não falam polaco. – A minha mãe pendurou a bolsa nas costas da cadeira e ficou a olhar para nós; para o avô, para a avó e para mim. Despiu o casaco e apertou-o contra o estômago como se lhe quisesse transmitir o seu desconcerto. – Felizmente a senhora Wanda fala alemão, porque senão…

    – Como é que é possível?! Isto não tem pés nem cabeça, Isabel! – A minha avó, com as sobrancelhas alçadas, encarou a filha por cima dos óculos.

    O meu avô dobrou o jornal e, com a mesma calma de sempre, dirigiu-se à esposa.

    – Tereza, devias deixá-la falar – interrompeu-a. A mãe, de pé, no meio da sala de jantar, interrogou-se se era conveniente que eu escutasse a conversa; o avô adivinhou a dúvida e acrescentou – A Emma é suficientemente crescida para conhecer as andanças do mundo, Isabel.

    A mãe expôs o que sabia sobre o assunto. A história das crianças roubadas aterrou no meio da sala de jantar e provocou um terramoto que nos transtornou a todos.

    – São crianças polacas que foram sequestradas às suas famílias para depois serem convertidas em perfeitas crianças alemãs. – A minha mãe falava lentamente para nos conseguir explicar bem o que a senhora Wanda lhe contara. – Roubaram-lhes os nomes, a memória e a língua.

    – Virgem santa! Pobres criaturas! – exclamou a avó, sem dissimular o horror.

    Para mim, toda aquela história pareceu-me apenas um conto para meter medo, pouco relacionado com a realidade. Anos depois, quando me interessei por saber o que tinha sucedido durante a Segunda Guerra Mundial, época em que eu e Ludka líamos tudo o que nos aparecia à frente a seu respeito, soubemos que o partido nazi, para impor a supremacia da raça germânica, precisava de fazer crescer a população ariana. Foi Heinrich Himmler, um dos homens mais próximos de Hitler, o impulsionador da organização Lebensborn destinada a desenvolver e aumentar o número de indivíduos de raça ariana. Inicialmente, tinha por missão evitar que as mulheres solteiras, após superarem os estritos controlos raciais, abortassem. A seguir, entregava os recém-nascidos à organização, que os adotava e educava. Lebensborn abriu cerca de quinze centros na Alemanha, Bélgica, França e Noruega – territórios ocupados –, os quais receberam milhares de crianças. O projeto apresentava-se como uma rede de centros de acolhimento de crianças alemãs ilegítimas, embora todas destinadas a participar na construção da futura Alemanha que dominaria o mundo. Eram uma espécie de fazendas, constituídas por criaturas perfeitas e preparadas para dominarem o planeta. Assim que Heinrich Himmler compreendeu que o programa não estava a alcançar as expectativas previstas, ordenou que, quer os oficiais quer também todos os soldados da SS e da polícia, tivessem o maior número possível de filhos, tanto dentro como fora de matrimónio. Como se não bastasse, ordenou que, a todo o custo, encontrassem crianças arianas, sequestrando criaturas racialmente perfeitas dos territórios ocupados. Muitas das crianças que chegaram a Barcelona em abril de 1946 eram oriundas da Silésia, uma região fronteiriça entre a Polónia e a Alemanha que estava ocupada desde o início da guerra. Sequestraram crianças, falsificaram documentos para torná-las órfãs, atribuíram-lhes nomes alemães e submeteram-nas a um estrito programa de germanização. Assim que o projeto ficasse concluído, as crianças sentir-se-iam alemãs; pertencer à raça ariana não era só sinónimo de superioridade, era também sinónimo de felicidade.

    A mãe discorreu durante algum tempo, e ouvimo-la, sem a interromper, sustendo a respiração.

    – Não se sabe ao certo quantas crianças foram sequestradas, mas fala-se em dezenas de milhares de criaturas aguardando por serem reclamadas. Agora, têm de conseguir recuperar a identidade que os nazis alemães lhes arrebataram – concluiu a mãe.

    O avô olhava para a minha mãe, a avó para o meu avô e eu olhava para os três sem entender o que se passava. O meu avô pegou no cigarro que já tinha preparado há um bom bocado, e acendeu-o com aquela parcimónia do costume.

    – O que é a identidade? – perguntei.

    – A identidade é sermos nós próprios – respondeu a avó.

    – Alguém vai ter de ajudá-los a recordarem quem foram – acrescentou o avô. O sol cintilava nos vidros dos seus óculos. Fez estalar a língua como que num gesto de impotência e acrescentou com uma ponta de tristeza -: A nós também nos roubaram tudo.

    Daquilo que o meu avô tinha sido não sobravam sequer migalhas; de vez em quando, erguia-se aquele mal-estar, podre até ao tutano. A mãe cruzou o olhar com o da minha avó e, em silêncio, viajou de um lado ao outro. E eu, naquele instante, vi a menina de trança comprida que descera do barco com os bolsos cheios de rebuçados, a menina que não tinha nome, nem pais e que muito menos sabia quem era.

    A mãe arregaçou as mangas da camisola e dirigiu-se à minha avó.

    – A senhora Wanda propôs-me trabalhar na residência, com os miúdos.

    – Mas essas criaturas só cá vão estar uns meses; se deixares as casas onde estás a costurar, quando elas se forem embora, ficarás sem nada.

    – Apenas dedicarei as manhãs. À tarde, vou novamente trabalhar nessas casas.

    – Ainda assim, Isabel. Deves ponderar bem.

    – Já está pensado. E disse-lhe que sim – sentenciou, e saiu rapidamente da sala de jantar, para se afastar do olhar de reprovação da avó Teresa.

    Fechou-se na cozinha, onde a comida, fria, em cima da mesa de mármore, a esperava.

    *

    A partir daquele dia, à hora do pequeno-almoço, a mãe começou a ir de elétrico para a residência da rua Anglí. Não só se ocupava da roupa das crianças e da casa, como também ajudava a pôr e a levantar a mesa, e dava ainda uma vista de olhos ao trabalho da cozinheira, Florinda.

    Após dois dias à frente de fogões, foi evidente que Florinda Aymerich tinha um carácter demasiado atribulado para controlar quatro tachos ao lume, mas demasiado orgulho para admitir que precisava de ajuda. Florinda era excessiva em tudo, excessivamente charlatã, gorda, nervosa e orgulhosa. Perante a possibilidade de que a comida resultasse num desastre, a senhora Wanda, com a sua maestria habitual, pediu à minha mãe que se mantivesse atenta a tudo o que acontecia na cozinha, sem a cozinheira dar conta. Desse modo, Isabel Andreu Mora, a minha mãe, converteu-se no anjo da guarda daquela mulher que, sob o incansável «Isso já eu sabia» que repetia sem parar, escondia um coração repleto de bondade. Ninguém punha em questão que fosse uma cozinheira de categoria, mas a vontade de fazer demasiadas coisas ao mesmo tempo podia acabar em catástrofe. O leite aquecia mais do que devia e transbordava sobre o fogão a lenha enquanto ela, concentrada em cortar maçãs para a compota da szarlotka³, pensava em quantos quilos de farinha necessitaria para fazer madalenas no dia seguinte e, portanto, esquecia-se de que deixara uma travessa de batata-doce no forno.

    Todas as tardes, a mãe seguia para as casas da vizinhança, onde ia mantendo a costura. Tinha mudado de horários e, à exceção da senhora Wanda, não perdera nenhum cliente. Se fazia uma jornada tripla, não era por medo de ficar sem trabalho quando as crianças partissem, mas para se esquivar das reprovações da minha avó. Aquele excesso de horas no trabalho fez com que eu a ficasse sem ver, dias a fio. Quando me levantava, já ela tinha saído, e quando regressava, já eu adormecera. A casa cobriu-se da sua ausência e eu não podia evitar imaginá-la rodeada de crianças.

    Eu andava chateada.

    Chateada com a mãe e com essas crianças que me tinham roubado todo o tempo que passava com ela. Chateada com a mãe e com a senhora Wanda, a quem elas chamavam pani⁴ Wanda; com a mãe e com a menina loira de trança comprida que olhara para mim sem me ver. Chateada com a mãe e com os avós, que tentavam remediar. Não queres esperar acordada pela tua mãe?, perguntava-me o avô, e eu dizia-lhe que não, que tinha sono, que era muito tarde, que me ia deitar. Queres que lhe digamos alguma coisa?, acrescentava a avó, e eu negava com a cabeça e desaparecia no meu quarto, e eles ficavam na sala de jantar, a conversar em voz baixa.

    Todas as noites, quando ela chegava, antes de ir à cozinha, antes de dizer alguma coisa aos avós, antes de se livrar do casaco e com a bolsa ainda pendurada no ombro, a mãe abria a porta do meu quarto e dava-me as boas-noites com uma voz ténue, mas eu não respondia. Os ciúmes, como um vírus que se multiplica a toda a velocidade, carcomiam-me por dentro e perfuravam-me; cresceram até que, no dia três de maio, ela entrou no meu quatro antes das sete da manhã, correu as cortinas e sentou-se aos pés da cama enquanto eu despertava. Assim que abri os olhos, a mãe, com aquele sorriso que lhe iluminava o rosto, disse-me que nessa tarde eu podia acompanhá-la para conhecer as crianças órfãs. Com uma voz suave, explicou-me que era o dia da Festa Nacional da Polónia e que, portanto, haveria uma celebração especial.

    – Depois do almoço, teremos um festival, e será muito bonito, vais ver. – Ajeitou bem a dobra do lençol e esfregou o polegar com o indicador enquanto esperava a minha resposta.

    Eu queria muito ir, mas o meu amor próprio transformara-se num muro intransponível.

    – Esta tarde, tenho lavores com a senhorita Gloria. – Lancei-lhe

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