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Família e casal: pesquisa e intervenção clínica
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E-book398 páginas4 horas

Família e casal: pesquisa e intervenção clínica

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Sobre este e-book

Em Família e casal: pesquisa e intervenção clínica apresentamos trabalhos discutidos pelos membros do Grupo de Trabalho (GT) "Casal e Família: estudos psicossociais e psicoterapia", no XX Simpósio da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP), ocorrido no Centro de Convenções de Vitória e na Universidade Federal de Espírito Santo (UFES), em Vitória-ES, de 18 a 21 de setembro de 2024. O GT "Casal e Família: Estudos psicossociais e psicoterapia" vem construindo sua história há 36 anos, desde que foram criados os GTs da ANPEPP, no II Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico,m realizado em Gramado-RS, em 1989.
IdiomaPortuguês
EditoraEDUEL
Data de lançamento15 de jan. de 2026
ISBN9788578466442
Família e casal: pesquisa e intervenção clínica

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    Família e casal - Andrea Seixas Magalhães

    APRESENTAÇÃO

    Em Família e casal: pesquisa e intervenção clínica apresentamos trabalhos discutidos pelos membros do Grupo de Trabalho (GT) Casal e Família: estudos psicossociais e psicoterapia, no XX Simpósio da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP), ocorrido no Centro de Convenções de Vitória e na Universidade Federal de Espírito Santo (UFES), em Vitória-ES, de 18 a 21 de setembro de 2024.

    O GT Casal e Família: Estudos psicossociais e psicoterapia vem construindo sua história há 36 anos, desde que foram criados os GTs da ANPEPP, no II Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico, realizado em Gramado-RS, em 1989. Desde o início, a professora Terezinha Féres-Carneiro coordena o trabalho coletivo com grande entusiasmo e dedicação. Este é o décimo quinto livro publicado pelo grupo que conta, no momento, com 13 professores-pesquisadores, de nove instituições universitárias: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Universidade Estadual de Londrina (UEL), Universidade Federal de Goiás (UFG) e Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

    No XX Simpósio, discutimos diversas temáticas contemporâneas, de grande relevância social, relacionadas aos projetos de pesquisa dos membros do GT, dentre elas: intervenções grupais em casos de adoção; adoção e destituição do poder familiar; violência sexual infantojuvenil; exposição infantil à violência conjugal; tipos de violência familiar na clínica; filhos adolescentes com sintomas; famílias migrantes; qualidade conjugal e ciclo de vida; recursos mediadores na psicoterapia de casal e família; família e internet; jovens e famílias.

    Adotamos a seguinte metodologia de trabalho no GT: os textos completos foram disponibilizados por e-mail aos membros do grupo, com um mês de antecedência, para serem lidos antes do encontro no XX Simpósio. Para cada texto foi designada uma relatora que teve como função problematizar as questões a serem discutidas com o autor e os demais participantes do grupo. Muitos trabalhos apresentam casos clínicos, e é importante ressaltar que todos os nomes citados nesses textos são fictícios.

    O primeiro capítulo do livro, escrito por Isabel Cristina Gomes e Lidia Levy, tem como ponto de partida experiências das pesquisadoras ao longo de anos da realização de grupos reflexivos preparatórios e grupos pós-adoção. Esses grupos, com formato de roda de conversa, consistem em uma proposta interventiva com ênfase no acolhimento de angústias dos pais. Nesse capítulo, almejam refletir sobre as motivações que saem do padrão dos casais inférteis, desejosos de um bebê ou criança pequena, e focar nas adoções que ocorrem de forma minoritária, como as de crianças mais velhas e/ou grupos de irmãos.

    O capítulo seguinte, de autoria de Lidia Levy, Inês Alegria Rocumback e Isabel Cristina Gomes, busca discutir o significado do melhor interesse de crianças e adolescentes sob o vértice da adoção e da destituição do poder familiar, dentro de uma perspectiva interdisciplinar envolvendo o direito e a psicologia/psicanálise. A partir da análise de casos, as autoras abordam a pluralidade de interpretações sobre o espírito da lei no que diz respeito a possibilitar o início de um processo adotivo antes do poder familiar ser destituído, a variedade de situações que se apresentam nos tribunais e a complexidade envolvida na construção de laços filiativos.

    No terceiro capítulo, Miriam Tachibana aborda o fenômeno da violência sexual infantojuvenil, focado na dinâmica materno-filial no contexto da não repetição da violência sexual entre gerações. A autora analisa o modo como mães e filhas buscam resilientemente não reproduzir, aos moldes de herança transgeracional, a violência sexual sofrida na geração precedente na geração vindoura. Discorre-se sobre um caso familiar acolhido na clínica-escola de psicologia de uma universidade do interior de Minas Gerais.

    O quarto capítulo, de autoria de Denise Falcke e Clarisse Pereira Mosmann, discute a perspectiva dos filhos sobre a exposição infantil à violência conjugal. São analisados três casos de filhos que foram expostos à violência na conjugalidade identificados em pesquisas desenvolvidas no Núcleo de Estudos de Família e Violência (NEFAV), na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Os casos investigados permitem reflexões sobre as repercussões da violência conjugal na vida dos filhos, indo na direção de atestar a hipótese de transbordamento da dinâmica conjugal na parentalidade e, consequentemente, no desenvolvimento dos filhos.

    No quinto capítulo, Andrea Seixas Magalhães, Mariana Gouvêa de Matos, Terezinha Féres-Carneiro e Rebeca Nonato Machado identificam e discutem tipos de violência familiar a partir da análise de prontuários de famílias que apresentam queixas de comportamentos violentos de um ou mais de seus membros. A partir de uma pesquisa clínico-qualitativa com prontuários de famílias atendidas no Serviço de Psicologia Aplicada da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (SPA-PUC-Rio), apresentam fragmentos extraídos de relatos de sessões clínicas preliminares para ilustrar a discussão sobre violência na clínica com famílias.

    O sexto capítulo, de autoria de Clarisse Pereira Mosmann e Denise Falcke, analisa percepções de mães sobre conflitos familiares e suas repercussões em problemas emocionais e de comportamento em filhos adolescentes com sintomas psicológicos. Este capítulo é produto de um recorte de uma pesquisa de campo mais ampla desenvolvida pelas autoras. Ressalta-se que as interações conflitivas relatadas pelas mães compõem um cenário que necessita de atenção e aponta indícios para os profissionais da área da saúde mental.

    No sétimo capítulo, Carolina de Campos Borges aborda famílias em movimento migratório, enfocando o modo como a inclusão linguística de migrantes toca a dimensão familiar. Aponta para a importância do idioma de origem para as famílias de migrantes e as influências que o aprendizado do idioma falado no país de acolhimento pode ter no desenvolvimento familiar em contextos em que a necessidade de adaptação em um novo país se impõe juntamente com a necessidade de preservar a coesão familiar.

    O oitavo capítulo, de autoria de Terezinha Féres-Carneiro, Andrea Seixas Magalhães, Rebeca Nonato Machado e Mariana Gouvêa de Matos, apresenta a discussão de resultados de uma das etapas de um amplo projeto de pesquisa cujo objetivo é caracterizar a qualidade conjugal e sua relação com a demanda de psicoterapia de casal. Da análise do discurso de entrevistas com participantes casados em diferentes fases do ciclo vital emergiram inúmeros temas. Neste capítulo, as autoras discutem o tema da concepção de casamento.

    No nono capítulo, Maíra Bonafé Sei e Danilo Mulari Paiva Antonio investigam o uso de recursos mediadores, com foco nos recursos artístico-expressivos, na clínica psicanalítica com casais e famílias a partir da visão de profissionais vinculados à prática em questão. A partir das particularidades e complexidades dessa clínica, questiona-se como os recursos mediadores podem contribuir para o atendimento realizado. Destaca-se a importância de pesquisas sobre o tema para ampliar as compreensões acerca das possibilidades de intervenção e o potencial advindo do uso de cada recurso no setting terapêutico.

    O décimo capítulo, de autoria de Isabela Machado da Silva, tem como objetivo discutir como a ordem de nascimento, o gênero e os papéis atribuídos na família de origem podem atravessar o desenvolvimento das filhas mais velhas, buscando-se compreender a síndrome da filha mais velha, um fenômeno da internet, a partir de um paradigma sistêmico-feminista. Nessa discussão, são abordados o paradigma sistêmico-feminista e os processos de parentalização, diferenciação, triangulação e projeção familiar.

    No último capítulo do livro, Edna Lúcia Tinoco Ponciano se propõe a analisar dados sociodemográficos de três pesquisas recentes, para elaborar reflexões, perguntas e hipóteses, a fim de indicar caminhos de investigação relacionados à promoção de saúde mental e de bem-estar para jovens e famílias. Famílias se transformam conforme ocorrem modificações socioeconômicas que podem se expressar em mudanças sociodemográficas. Perceber e compreender transformações e seus impactos no desenvolvimento psicológico, individual e familiar é uma tarefa que demanda a análise de dados sociodemográficos dos participantes das pesquisas, variando o que é coletado de acordo com a questão a ser investigada.

    Gostaríamos de destacar, ainda, que o XX Simpósio foi marcado por uma importante passagem de bastão: a coordenação do nosso GT foi transmitida da professora Terezinha Féres-Carneiro – que esteve na liderança do grupo por 35 anos – para a professora Andrea Seixas Magalhães, seguindo com a vice-coordenação da professora Denise Falcke. Para além de muitas horas de trabalho coletivo, compartilhamos e rememoramos afetos celebrados em cada encontro do GT, que se expande potencializando a experiência acadêmico-científica. Por meio da coordenação vibrante da professora Terezinha, uma consistente rede de pesquisa foi tecida ao longo de quase quatro décadas. Seguimos buscando fazer germinar as sementes plantadas!

    Andrea Seixas Magalhães

    Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

    Denise Falcke

    Universidade do Vale do Rio dos Sinos

    Maíra Bonafé Sei

    Universidade Estadual de Londrina

    UMA REFLEXÃO SOBRE AS INTERVENÇÕES GRUPAIS EM CASOS DE ADOÇÃO DE CRIANÇAS MAIS VELHAS

    Isabel Cristina Gomes

    Lidia Levy

    Introdução

    Ao longo da última década, temos nos dedicado à pesquisa e à clínica com pretendentes à adoção, principalmente por meio da realização de grupos reflexivos, objetivando a preparação de uma adoção mais consciente e mobilizadora das chamadas adoções necessárias ou adoções tardias. Elas são assim nomeadas por incluírem crianças e adolescentes destituídos do poder familiar com remotas chances de retorno à família de origem e que se enquadram nos perfis preteridos pelos pretendentes. Nesse grupo, incluímos as crianças mais velhas, grupos de irmãos, crianças/adolescentes com alguma deficiência física e de saúde e adoção inter-racial (Gomes; Beltrame; Rodrigues; Santos, 2020).

    Vamos abordar, neste capítulo, as experiências obtidas ao longo de anos da realização de grupos reflexivos preparatórios e grupos pós-adoção. Iniciamos com os grupos reflexivos com os pretendentes, de caráter obrigatório, que eram realizados presencialmente e serviam também como atividade de pesquisa e extensão para os graduandos de psicologia e para pós-graduandos, cuja temática de investigação estivesse ligada à adoção. Tendo como objetos mediadores vídeos e fotos, que remetem a várias situações e sentimentos ligados à adoção, buscamos, num curto espaço de tempo (dois encontros de até 3 horas de duração, com intervalo semanal), promover reflexões e conscientizações acerca dos desafios e dificuldades presentes no ato de adotar, objetivando com essas atividades reflexivas a diminuição do preconceito, da desinformação e da idealização que, muitas vezes, permeiam essa escolha filiativa (Carvalho et al. 2017; Nascimento et al., 2020).

    A partir de 2020, devido à pandemia de covid-19 em nosso país, passamos a realizar os grupos com os pretendentes de modo online, adaptando a metodologia já existente. Uma descrição com discussões mais pormenorizadas acerca da transposição dos grupos presenciais para o ambiente virtual encontra-se em Gomes et al. (2024). Com isso, ampliamos nossas parcerias, até então com varas da capital paulista, para uma vara de outro estado (Mato Grosso do Sul), no sentido de atender uma demanda para a realização de grupos pós-adoção, com famílias que tiveram encurtado o período de convivência com a criança e/ou adolescente em função da situação de quarentena, como inúmeros casos abordados em Levy e Gomes (2021). Passada a emergência sanitária que nos acometeu, observamos que manter os grupos de modo online trouxe vantagens e desvantagens, segundo o que apresentamos em Gomes et al. (2024). Vale a ressalva de que o modo remoto permite que possamos ofertar esse tipo de atividade, que acreditamos ser terapêutica e de conscientização, face a essa escolha filiativa, para um número maior de interessados.

    Acerca dos grupos de pós-adoção, que também eram realizados como atividades de pesquisa e extensão — incluindo alunos de graduação e pós-graduação —, tomamos como característica principal o formato de rodas de conversa, nas quais privilegia-se o diálogo entre os sujeitos, que se expressam e escutam seus pares e a si mesmos por meio do exercício reflexivo (Moura; Lima, 2014). Os grupos ocorreram na mesma duração e frequência dos reflexivos, com casais ou indivíduos (adoções monoparentais). A diferença é que nessa modalidade não se fez uso de nenhum objeto mediador ou de dinâmicas pré-estabelecidas, partindo-se apenas da troca de vivências relatadas entre os membros das novas famílias, o que suscitou diálogos, reflexões e acolhimentos. O surgimento dessa proposta interventiva teve como ênfase acolher as angústias dos pais e tentar trabalhá-las coletivamente, a fim de criar um espaço no qual houvesse um compartilhamento seguro dessas experiências, com o intuito de favorecer a construção e o fortalecimento dos vínculos entre pais e adotados, e assim evitar possíveis devoluções das crianças/adolescentes em estágio de convivência. Esses grupos contavam com uma demanda espontânea dos participantes, indicados, todavia, pela equipe de profissionais da comarca que os acompanhavam.

    De modo geral, realizamos 11 grupos reflexivos e sete de pós-adoção, considerando os últimos quatro anos, com um total de 123 participantes. Destes, a grande maioria era de casais heterossexuais inférteis, o que confirma os dados da literatura no sentido de enfatizar que, ainda hoje, a maior procura pela adoção é de casais que não conseguiram engravidar. A vinculação biológica continua sendo central quando se dimensiona a construção de uma família, inclusive pela busca da reprodução assistida que, na atualidade, divide os casais frente à escolha pela adoção. Um número inexpressivo somava casais homoafetivos (masculinos e/ou femininos), indivíduos sozinhos e casais já com filhos biológicos de relacionamentos anteriores, indicando que, nesse caso, a infertilidade era de apenas um dos cônjuges.

    Quando relacionamos a escolha do perfil dos adotados com o desejo de filho dos adotantes, tema também já suficientemente abordado por muitos pesquisadores da área, observamos que a infertilidade leva os casais a quererem crianças pequenas ou bebês, gerando uma defasagem na proporção entre as crianças/adolescentes institucionalizados e o perfil escolhido. Segundo Silva (2018),

    nas instituições de acolhimento, a maioria das crianças cadastradas para adoção tem idade acima de 7 anos e/ou fazem parte de grupo de irmãos que, por recomendação legal, não devem ser adotadas em separado. Portanto, para adoção de bebês e crianças até 7 anos, o pretendente deve esperar um tempo maior para realizar o seu sonho de se tornar pai ou mãe (p. 119).

    O tempo de espera, assunto recorrente nos grupos com nossos pretendentes, gera sentimentos de frustração e raiva diante da lentidão do trabalho do judiciário e, muitas vezes, provoca uma indisponibilidade do(s) participante(s) em refletir sobre o assunto, pois o que ele(s) tanto quer(em) é ter o filho desejado, e não discutir(em) acerca do que envolve essa escolha filiativa. Alguns, por não suportarem a espera, optam pela mudança de perfil, no sentido do aumento da idade do adotado. Concordamos com o ponto de vista de Silva (2018) acerca de que a mudança de perfil deve ser resultado de um trabalho de análise e reflexão, e não advir de motivadores externos, do que está disponível na instituição, pois reduziria a construção filiativa a uma lógica mercadológica. Entretanto, como resolver a equação relativa aos dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de 2017, no qual 92% das crianças aptas para adoção possuíam entre 7-17 anos? Atualizando esses dados para 2024, mesmo com a diminuição legal do tempo de destituição familiar, as crianças que permanecem mais tempo acolhidas são as maiores de quatro anos, que vão sendo preteridas a partir de 10 anos. Portanto, a defasagem continua na medida em que um número grande de adotantes permanece preferindo as crianças menores.

    Frente a esse cenário, uma das finalidades dos grupos reflexivos realizados por nós é mobilizar os pretendentes para as adoções necessárias, com o principal argumento de que não importa a idade, uma criança e/ou adolescente necessita da vivência em família e que o exercício da função parental não se encerra mudando apenas as características da maternagem de acordo com a faixa etária do adotado.

    Neste capítulo, pretendemos refletir sobre as motivações que saem do padrão dos casais inférteis, desejosos de um bebê ou criança pequena, e focar nas adoções que ocorrem de forma minoritária, como as de crianças mais velhas e/ou grupos de irmãos, segundo nossos dados. Compreender algumas dificuldades relatadas nos grupos pós-adoção pode promover importantes subsídios para ajudar no trabalho de mobilização frente a possíveis mudanças de perfil realizadas pelos requerentes, quando da habilitação. Com esse objetivo, tomaremos para análise recortes de três situações específicas que surgiram nesses grupos. A primeira diz respeito à busca pela adoção em recasamentos quando um dos cônjuges já possui filho(s) biológico(s) de relacionamento anterior. A segunda trata de uma adoção de grupo de irmãos quando a demanda era por apenas uma criança. E a última retrata a situação de casais de dupla carreira, sem infertilidade, que optam pela adoção de crianças maiores, afirmando não desejarem filhos biológicos.

    De modo complementar, vemos como necessária uma breve discussão sobre as experiências grupais aqui elencadas, no sentido de comprovar seus resultados frente à população atendida (adotantes e nova família) e sua relevância na formação clínica do estudante de psicologia. Os dados apresentados fazem parte de uma pesquisa maior, coordenada por uma das autoras, intitulada A filiação adotiva: da preparação à construção filiativa, ativa desde 2013.

    Quando o projeto de adoção passa a ser só de um

    Qualquer profissional envolvido com a adoção, seja da área do direito ou da psicologia/psicanálise, sabe que quando estamos nos referindo a essa escolha filiativa é importante que ela seja um projeto comum aos dois cônjuges, em se tratando da adoção por um casal. Embora essa premissa seja válida também para a concepção de um filho biológico, as condições da construção filiativa adotiva envolvem peculiaridades que tornam mais complexa sua efetivação. Segundo Lisondo (2018), na adoção, os mistérios, as incertezas, o desconhecido, a não vivência da gravidez carnal do filho e o não compartilhamento de uma história prévia do adotado se potencializam e podem configurar o sentimento de estranheza mencionado por Freud ([1919] 1980), dificultando o estabelecimento do vínculo pais e filhos.

    Desse modo, acreditamos ser função dos grupos — reflexivo e pós-adoção — aprofundar essa discussão, principalmente, quando se observa em alguns indivíduos uma postura mais passiva, distante, ou até mesmo a própria afirmação de que um(a) está ali apenas em função do desejo de filho do(a) outro(a). Em nossa experiência, geralmente são os homens, em se tratando de casais hétero, que mais assumem esse lugar, talvez ainda por influência do modelo tradicional patriarcal de família no qual o desejo de filhos era mais atribuído à mulher, bem como a maior dedicação frente às tarefas envolvendo o cuidado dos menores. Esses casos geralmente associam-se a recasamentos em que os homens trazem filhos biológicos de relacionamentos anteriores, mas são chamados a atender o desejo das novas esposas de também se tornarem mães e constituírem uma família.

    Reiteramos que nos grupos reflexivos, quando em processo de habilitação, os homens na condição acima, em sua maioria, falam pouco e apenas para enfatizar a ideia de que pelo fato de já serem pais isto lhes concede certo preparo e conhecimento sobre o exercício da parentalidade. Em vez de explorarem como estão se sentindo a respeito do processo de adoção, colocam-se quase como cocoordenadores, informando aos demais participantes sobre as dificuldades, ali abordadas, serem algo esperado na criação dos filhos. Eles acabam se pautando na experiência prévia com os filhos biológicos e trazem muito pouco acerca do investimento psíquico e afetivo (sentimentos, medos e anseios) que possam estar fazendo em relação à adoção.

    Assim, quando o homem considera sua experiência anterior como pai biológico bem-sucedida, a certeza de ter encontrado o caminho correto para educar uma criança pode dificultar o movimento de reflexão diante da especificidade da filiação adotiva. Quando participa do grupo, acredita estar transmitindo a experiência ideal para o sucesso da parentalidade. É no encontro com o filho, principalmente uma criança mais velha ou um grupo de irmãos, que, ou ele se permitirá rever posições diante da singularidade daquela criança, ou manterá suas verdades, incapacitado de lidar com o não planejado. Neste último caso, verificamos que os desafios da parentalidade atingem seu narcisismo e questionam sua autoimagem, dentro de uma visão arrogante e professoral como defesa frente às dificuldades surgidas na vivência do novo e desconhecido.

    Nos grupos de pós-adoção, é possível perceber, segundo alguns relatos, que a proposição de dar um filho à esposa desperta nesses homens, por vezes, sentimentos ambivalentes e de frustração frente ao filho adotivo que não preenche as expectativas idealizadas. Por não estar totalmente envolvido com as dificuldades e percalços da adoção, dos testes realizados pelos adotados, do diferente e desconhecido que surge, como mencionado acima, o pai pode acabar expressando o desejo de romper com um vínculo que se torna paradoxal, ou seja, em vez de gerar a esperada felicidade acaba produzindo disputa e conflitos entre o casal e entre cada um dos cônjuges com o(s) adotado(s), em última instância, podendo chegar à devolução da criança e/ou adolescente.

    As dificuldades de lidar com o até então impensado emergem no grupo pós-adoção. Este espaço demonstra ter uma função de continente, na medida em que o conjunto de vozes ali presente oferece uma compreensão sobre o que está sendo expresso pela criança naquele momento e sobre o que está sendo vivenciado pelo(s) adulto(s). Acolhe as ansiedades e decepções relatadas pelos pais, de modo que possam compreender as ansiedades do(s) filho(s). Abaixo iremos apresentar dois recortes clínicos construídos a partir de várias situações abordadas nesses grupos, com casais que estavam em conflito e foram encaminhados pelas varas, porque estavam prestes a devolver o adotado, ainda no período de convivência.

    Pedro (60 anos) e Paula (56 anos)¹ namoraram na adolescência, mas anos depois Pedro se casa com outra mulher, tem duas filhas biológicas e se separa quando elas possuem entre 10 e 12 anos. Paula segue solteira e reencontra Pedro quando já tinha um projeto de ser mãe monoparental, pela via da adoção. De início, Pedro foi contra e só concordou com a adoção anos depois, quando percebeu que a esposa não abria mão desse projeto. Para ele, já formavam uma família considerando suas filhas. Paula rejeitava tal ideia fortemente, o que gerou um distanciamento entre ela e as enteadas e com o próprio marido, por quem sempre nutriu uma paixão. Inicialmente, o perfil escolhido era de uma menina até seis anos, pois Paula sempre teve o sonho de ter uma filha, e Pedro concordava, pois se sentia muito preparado para educar uma menina, a partir de suas experiências anteriores. Primeiramente, são chamados para conhecer uma menina de nove anos e acabam não prosseguindo em função das comparações que Pedro faz tendo como modelo suas filhas. Tempos depois, vão conhecer uma

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