Os Juízes de Família e a Guarda Compartilhada: Uma Análise Psicojurídica
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Os Juízes de Família e a Guarda Compartilhada - Denise Pereira Alves de Sena
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Revisão: Taíne Barriviera
Capa: Matheus de Alexandro
Ilustração da Capa: Victor Teodoro Bastos
Diagramação: Marcio Arantes
Edição em Versão Impressa: 2018
Edição em Versão Digital: 2019
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Conselho Editorial
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Dedico este livro às minhas filhas Isabella Luísa e Fernanda Luísa, presentes que a vida me deu e às minhas enteadas Hana e Lara que me ensinaram outra possibilidade de amar. E ao amor e parceiro de vida, Marcelo Goedert.
Agradeço os meus pais, Lucília e Sena, pela vida e exemplos. Agradeço também à Clarinha pela especial amizade. Agradeço, ainda, aos meus pacientes que também são fontes de inspiração.
Denise Sena
Dedico este livro aos meus filhos Juliana, Ademir Guilherme e Marina, razão de tantas lutas travadas ao longo da vida.
Maria Aparecida Penso
Sumário
Folha de rosto
Dedicatória
Apresentação
Os Juízes são Justiceiros?
Prefácio
Introdução
1. O que já foi dito sobre o tema...
2. Um olhar histórico para as leis e os tipos de guardas unilateral e compartilhada
3. Entendendo a relação entre a dinâmica familiar e a guarda compartilhada
A Família segundo a abordagem estrutural sistêmica
Conjugalidade, parentalidade e guarda compartilhada
4. As informações que subsidiaram a pesquisa: passo a passo
Como as informações foram organizadas para análise: O software IRAMUTEQ R
A análise das informações a partir do banco de dados do IRAMUTEQ R
Criando as categorias
5. Os juízes e suas percepções...
Categoria 1: Família: a sua e a minha
Categoria 2: Guarda é poder
Categoria 3: Pai e guarda compartilhada
Categoria 4: os juízes que ouvem
Considerações finais
Referências
Página final
APRESENTAÇÃO
Os Juízes são Justiceiros?
O trabalho de Denise Sena, orientado pela professora Doutora Maria Aparecida Penso que deu origem a esse livro, é limpo, objetivo, e extremamente útil, pois desvenda aspecto das decisões judiciais, que não estão aparentes na sentença, mas que as inspiram: a subjetividade do Juiz que julga e exara uma sentença. Na verdade, esse foi o tema da dissertação da primeira autora. Tive a alegria de ver acatadas várias das minhas considerações tecidas durante a banca de qualificação, e a honra de integrar a Banca de Defesa final. Assim, pude, mais uma vez, compreender e reforçar minha percepção a respeito de como a subjetividade dos atores do judiciário influencia suas ações e decisões.
Muitas vezes, o Juiz toma uma decisão correndo o risco de se pautar por sua própria experiência de vida ou de sua interação familiar, especialmente os juízes de Vara de Família. No contexto do judiciário do Distrito Federal, essa constatação já havia sido feita em outros trabalhos: Costa, Penso Legnani e Sudbrack (2009); Santos e Costa (2007); Santos, Costa e Granjeiro (2009); Costa e Penso (2009), entre outros.
A partir de um contato mais próximo com os operadores do Direito que têm função julgadora, pode-se perceber que eles admitem que não tem experiência ou qualificação específica para lidar e/ou avaliar conflitos familiares. Então, há um risco de que as decisões sejam tomadas com base em sua identificação com esse ou aquele problema, ou com esse ou aquele sujeito (mãe ou pai). O agravante é que os conflitos familiares, as separações conjugais, são problemas complexos, questões plenas de ambiguidades e contradições. O perigo da identificação é o não reconhecimento desta complexidade e a visão dos problemas pelo viés da simplificação.
Outro aspecto que interfere na decisão do Juiz é que a qualidade da decisão depende da experiência prática do profissional, e isso requer tempo para que essa prática seja testada. Esta observação, realizada desde a década de 1990, levou os profissionais de Vara de Família do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) a incluírem conhecimento teórico e conteúdo referente a autores de Terapia de Família, como parte das observações e conclusões dos relatórios elaborados pelo setor psicossocial.
As decisões tomadas contêm, ainda, uma identificação de gênero. Como superar? Todos nós, profissionais, somos parte de uma classe social que é configurada nas experiências econômicas, comunitárias e culturais, e que carregam ideias preconcebidas advindas dos valores e regras de convivência aprendidas nessa classe social. Quais mecanismos ou recursos os juízes podem e devem se valer? Qualificação e compartilhamento de vivências, sem dúvida.
A análise das conversações, foco das principais contribuições da dissertação, ressaltou as dificuldades para o juízo das questões da parentalidade na situação de separação conjugal. Ou bem se desvalorizou a ausência paterna, ou bem se supervalorizou a ausência materna. E causou surpresa que, no mesmo foro de decisões, apareça uma ausência de questionamento sobre o papel da mãe nas várias e muitas responsabilidades que ainda recaem sobre ela, embora haja uma lei sobre alienação parental, que estabelece punições à mãe que acaba por assumir mais responsabilidade, ficando com a guarda (Brasil, 2010).
Parece que os juízes, mais do que julgar ou decidir, se sentem justiceiros, responsáveis por restaurar o bem e afastar o mal. O risco é grande na medida que se busca um protagonista para a encarnação do bem e do mal. Será o Juiz do sexo masculino o justiceiro do pai? E a juíza do sexo feminino a justiceira da mãe? Muitas vezes, o texto da dissertação vai além e mostra que eles se colocam em uma postura terapêutica, mesmo que sem formação para tal. No entanto, há que se resgatar que Stefano Cirillo (1994) indica que determinados contextos, por sua própria natureza de complexidade e conjunto de características, podem funcionar como contextos com possibilidade terapêutica. O contexto jurídico é um desses exemplos.
Enfim, desejo ótima leitura a todos! E tenho certeza de que assim será, pois o conhecimento advindo deste trabalho é muito interessante e útil, tanto para os profissionais das Varas de Família, quanto para a melhor compreensão de outras instâncias decisórias, mormente em um tempo no qual os juízes, desembargadores e ministros adquiriram um protagonismo tão relevante e questionador.
Liana Fortunato Costa¹
Nota
1. Psicóloga, doutora em Psicologia Clínica, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura.
PREFÁCIO
Em 1998, ou seja, há exatos 20 anos, adquiri um livro chamado Direito de Família e Ciências Humanas – Caderno de Estudos n. 01, coletânea de autores reunidos sob o manto do Instituto Brasileiro de Estudos Interdisciplinares de Direito de Família (coordenação de Eliana Riberti Nazareth – Editora Jurídica Brasileira, São Paulo, 1997).
Na época, formado há pouco mais de quatro anos, não percebia o quanto já havia sido cooptado pelo Direito de Família, ramo do Direito do qual me ocuparia mais e mais nos anos vindouros e até os dias atuais.
O fato de a maioria dos livros que vinha adquirindo serem desta área, de estar sendo cada vez mais contratado para ações de família, de trabalhar com mais afinco exatamente nestas causas, de possuir interesse crescente (ainda que prematuro) em áreas afins, tais como a Biologia e a Psicologia, por exemplo, pareciam ao jovem advogado apenas uma coincidência. A clínica geral
do Direito enevoava de certo modo uma tendência profissional que, vista hoje com afastamento histórico e amadurecimento, não podia ser ignorada.
No aludido livro, pela primeira vez, com mais alegria do que espanto, deparei-me com artigos escritos por profissionais das mais variadas áreas afins ao Direito, tendo sido ensinada a lição pelo – à época – Desembargador Antônio Cezar Peluso que, era preciso que os operadores do Direito de Família de então se abrissem e se
rendessem às conquistas científicas das áreas afins e às contribuições doutros profissionais, que os ajudassem a captar, na gênese do caso concreto implicado em toda questão jurídica, as circunstâncias de ordem biológica, psicológica, sociológica, etc., quase sempre inacessíveis à investigação não especializada, mas sem cuja percepção não há resposta, não diria justa nem jurídica, mas simplesmente humana, aos conflitos de família (op. cit. p. 7-8).
Além disso, li com ineditismo um artigo a respeito de considerações psicanalíticas a respeito de uma tal Guarda Compartilhada
, escrito pela coordenadora da obra, em que esta advertia que os conflitos na conjugalidade poderiam
estimular a prática deficiente da parentalidade e tutelaridade. Todavia, quando mesmo em sua dor e frustração os pais conseguem enxergar que os filhos também estão desapontados e sofrendo, repartir a guarda pode engendrar elementos importantes para a restauração e reparação de aspectos internos conscientes e inconscientes de todos os atingidos, no que concerne a vivências de cuidar e de receber cuidados, e à capacidade de reorganização da vida afetiva e de estabelecer vínculos gratificantes apesar dos pesares
. (op. cit. p. 80-81)
Estes textos (para não dizer: mudaram minha vida
) chamaram-me a atenção para a necessidade de construção
