A sabedoria da natureza: Taoísmo, I Ching, Zen e os ensinamentos essênios
De Roberto Otsu
4/5
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Nature
Taoism
I Ching
Chinese Philosophy
Personal Growth
Nature as a Teacher
Ancient Wisdom
Coming of Age
Mentor
Mentorship
Journey
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Avaliações de A sabedoria da natureza
8 avaliações3 avaliações
- Nota: 5 de 5 estrelas5/5
Mar 8, 2023
Um dos melhores livros que li em toda minha vida. - Nota: 5 de 5 estrelas5/5
Oct 21, 2022
Excelente livro para quem busca autoconhecimento! vou reler c.om certeza - Nota: 5 de 5 estrelas5/5
Jun 11, 2021
Este livro apresenta de forma simples mas altamente lúcida, diversos dos mais profundos e relevantes ensinamentos da filosofia oriental, com base no estudo e interpretação dos fenómenos da natureza. É um excelente leitura.
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A sabedoria da natureza - Roberto Otsu
SIGNIFICADO DAS ESTAÇÕES
Nos países do hemisfério norte, as estações do ano são marcadas por grandes mudanças de temperatura, com transformações radicais na paisagem e no dia a dia dos animais e das pessoas. Na China, as estações são nítidas e distintas. As mudanças climáticas que ocorrem durante o ano influenciaram o modo de vida e a forma de pensar do povo chinês. As estações são a base da sabedoria oriental.
Primavera
Para os orientais, primavera significa início de novo ciclo. Começa em março-abril, quando a vida retoma suas atividades após a estagnação do inverno. A luminosidade do Sol sobre o hemisfério norte volta a aumentar, depois da grande diminuição que sempre ocorre no inverno. Na primavera, os períodos do dia e da noite são iguais. Surgem os primeiros ventos quentes, a neve e o gelo começam a derreter, os rios voltam a correr e ficam mais caudalosos. Nascem as primeiras folhas da grama do campo. Com o surgimento dos primeiros brotos das árvores, a paisagem que era branca e cinza ganha uma cor verde de tom claro e fresco. Tudo volta a pulsar. Os animais saem do estado de hibernação e o silêncio do inverno é quebrado pelo canto dos pássaros e pelos sons dos bichos estimulados pela temperatura cada vez mais agradável. É a época das flores, do acasalamento dos animais, e o momento de iniciar o plantio.
Verão
Em junho-julho, ocorre o solstício de verão na metade superior do planeta. Os chineses consideram o verão o auge, o momento da plenitude. É nessa fase do ano que o hemisfério norte recebe a iluminação máxima do Sol, as noites são mais curtas e os dias são mais longos. O calor é intenso. As plantas e a terra transpiram mais. As águas dos rios, lagos e mares evaporam num volume muito maior, e o céu fica carregado de nuvens. Chuvas torrenciais caem com frequência. Os brotos crescem rapidamente, as folhas verde-claras da primavera ganham cores intensas e, com a luminosidade e as chuvas, as árvores ficam frondosas. A vida entra em ebulição. Com a fartura de alimentos dessa época, os filhotes recém-nascidos ficam cada vez mais fortes. É o momento de aproveitar a abundância da Natureza.
Outono
Em setembro-outubro, depois do pico de calor e claridade, chega o outono na China. No Oriente, essa época representa o declínio. A luminosidade do Sol sobre o hemisfério norte diminui pouco a pouco, e o dia e a noite voltam a ter a mesma quantidade de horas. Com a queda da temperatura, os animais começam a se preparar para a época de estagnação. A Natureza agora produz os últimos frutos que os animais e os homens precisam ingerir e estocar para suportar o frio que se aproxima. As árvores viçosas do verão começam a poupar energia e interrompem o processo de fotossíntese. Com isso, as folhas das árvores mudam de cor e a Natureza se transforma. O verde da paisagem dá lugar aos amarelos, laranjas, ocres e vermelhos. Em pouco tempo, as folhas estarão no chão formando um tapete para receber o inverno.
Inverno
Dezembro-janeiro marca o solstício de inverno na China. Inverno é o momento de recolhimento, de introspecção. Nessa época, a luminosidade do Sol já não é capaz de aquecer a metade norte do planeta. Agora as noites são bem longas e os dias curtos. A vida se paralisa. Rios e lagos se congelam e as árvores perdem suas folhas. As cores quentes do outono desaparecem sob uma capa branca de gelo e neve. Em toda parte, a paisagem é só de frio e silêncio. Os animais hibernam em suas tocas, as pessoas permanecem em suas casas e se mantêm aquecidas com a lenha guardada no outono. Não é possível plantar nem caçar. A comida provém do que foi estocado antes da chegada da neve. Nessa fase do ano, nada mais resta a fazer senão se recolher e esperar a chegada dos primeiros ventos da primavera.
E com a primavera inicia-se um novo ciclo.
A MUTAÇÃO
Heráclito, filósofo grego do século IV a.C., dizia: Não há nada permanente a não ser a mudança
. Mais de mil anos antes de Heráclito, os sábios chineses também haviam aprendido com as estações do ano que tudo na Natureza se desenvolve por meio de mudanças constantes. Para os taoistas, nada permanece inalterado na vida, tudo é um processo de contínua transformação. Nas páginas do I Ching – O livro das mutações, lemos que: Tudo sofre mutação; a única coisa que nunca muda é a mutação
. Por essa frase, podemos perceber que mutação é um dos principais fundamentos do Taoismo.
Ideograma chinês de i
que significa mutação
. Esta é a grafia da palavra i
do título do livro I Ching – O livro das mutações.
O ser humano passa por um processo análogo ao das estações do ano. Nossa vida pode ser entendida como um ciclo completo de mudanças em que a primavera corresponde à infância, à fase inicial da vida; o verão se refere à juventude, ao auge da força e da virilidade; o outono representa a meia-idade, o declínio do vigor e das capacidades físicas; o inverno é a velhice, a estagnação das funções vitais e o recolhimento. O belo filme coreano Primavera, verão, outono, inverno... e primavera, do diretor Kim Ki Duk, retrata esse paralelo descrevendo quatro momentos da vida do personagem principal.
As estações do ano fazem que as plantas e os animais se adaptem às condições de cada momento para que possam sobreviver, crescer e se perpetuar. Os seres humanos também precisam acompanhar harmoniosamente as mudanças da vida. Por isso, um comportamento infantilizado é tão inadequado a um rapaz de 25 anos quanto o esforço desesperado de uma mulher de 50 anos em manter a aparência e a atitude de uma adolescente. Seria como se uma árvore fizesse brotar novas folhas no final do verão – o que seria tardio e inútil –, ou conservasse as folhas na época de neve – o que causaria um esgotamento da energia que deve ser poupada no período de frio.
Quando não mudamos de acordo com o momento e não vivenciamos o que é correspondente a cada fase da existência, deixamos de viver de forma plena. Existe uma frase que diz: Algumas pessoas nascem, crescem, morrem aos 25 e são enterradas aos 75 anos
. Não é sensato fazer as coisas antes da hora ou deixar de fazê-las no momento certo. Viver é mudar, adaptar-se, aproveitar cada etapa da vida e não ir contra as leis naturais.
As plantas e os animais não agem contra a Natureza. Eles se adaptam naturalmente às mudanças das estações do ano e das fases da vida. Não questionam nem resistem à realidade. Segundo os orientais, resistir às transformações é entrar em atrito com a principal lei da Natureza, a mutação, e as consequências desse atrevimento ou dessa teimosia podem ser danosas para nossa saúde física, mental e emocional.
Costuma-se dizer que a grande diferença e a grande vantagem do ser humano em relação às plantas e aos animais é o li-
vre-arbítrio. Pode ser verdade. Mas também é verdade que o livre-arbítrio faz que o ser humano tenha uma postura de rebeldia – e de arrogância – e tente resistir às mudanças naturais. Para os chineses, tentar colocar-se acima da Natureza é insensatez. Precisamos acolher as leis da Natureza com humildade e reverência. Só assim podemos manter nossa saúde e a nossa paz interior.
OS CICLOS
Mutações não significam términos definitivos. Ao acompanhar os movimentos da Natureza no curso de um ano, os chineses aprenderam que o mundo não se acaba quando chega a estagnação do inverno. Perceberam que há, sim, uma desaceleração dos impulsos de vida e um processo de recolhimento e interiorização. Mas, quando chega a primavera, a vida recomeça em toda sua exuberância. A Natureza se desenrola em contínuos retornos e não em movimentos lineares isolados e estanques. Nem em circuitos fechados. A vida é um fluxo constituído de ciclos assim como acontece com as estações do ano. Ciclo é outro conceito básico que os taoistas desenvolveram contemplando a Natureza.
As folhas da árvore caem no outono e só voltam a aparecer na primavera. A cada primavera a árvore se renova e os galhos ganham brotos que se transformam em novos galhos no decorrer do ano. Isso faz que a árvore sempre cresça um pouco mais ao término de cada ciclo. Ao longo do ano, o tronco também aumenta seu diâmetro e as raízes ficam mais profundas para poder retirar nutrientes de que a árvore precisa para crescer. É no recolhimento cíclico do inverno que a árvore acumula a força necessária para o surgimento de novos ramos.
Mutação e ciclo são necessários para que aconteça a renovação da vida. Sob um aspecto, existe retorno a um ponto de referência, mas, por outro, nada permanece igual. Ao fim de cada ciclo, as árvores se desenvolvem, os animais ganham nova pelagem e todas as criaturas vivas se renovam com o nascimento de novos indivíduos da sua espécie.
O ditado chinês Sempre a primavera, nunca as mesmas flores
sintetiza com perfeição as ideias de mutação, ciclo e renovação. Todos os anos a primavera chega, sem falha, mas a cada primavera brotam novas flores. Apesar da repetição, a Natureza não se repete. Nem poderia. A repetição pura e simples significaria não só estagnação, mas um círculo vicioso em que não haveria possibilidade de desenvolvimento, de evolução. Num círculo fechado nada se renova nem se desenvolve. Círculo não é ciclo. A Natureza não caminha em círculos, mas em ciclos constantes em que cada retorno representa uma evolução, um passo a mais, um degrau acima da fase anterior. Evolução e renovação não acontecem em forma circular, mas de espiral. Num círculo, tudo volta ao mesmo ponto, mas numa espiral o retorno ao ponto de referência se dá em outro nível, num patamar acima.
Os ciclos podem ter características temporais e funcionais. Ciclos astronômicos têm duração de milhares ou milhões de anos. Já o ciclo das estações dura um ano, a lunação se completa ao cabo de 28 dias, e o dia é um ciclo de 24 horas. Todos esses ciclos se referem ao tempo.
Atividades biológicas como respiração, batimento cardíaco, digestão, caminhada, constituem ciclos funcionais de renovação. Qual é a função da respiração e do batimento cardíaco senão a da renovação dos elementos vitais ao organismo? Dilatação e contração do coração formam um ciclo. Inspiração e expiração, também. É pelo batimento cardíaco que o sangue leva oxigênio a cada uma das células do nosso corpo, do couro cabeludo até os dedos do pé. E é pela respiração que o oxigênio chega ao sangue e o gás carbônico é eliminado. Ingerir alimentos e excretar é outro exemplo de ciclo biológico.
Numa caminhada, a alternância dos passos direito e esquerdo também é um ciclo, um processo que permite o avanço. A repetição de passos com uma única perna não é ciclo. Ninguém se locomove por aí sobre uma perna só. Não, Saci não vale!
Pensando bem, até mesmo o Saci se desloca por ciclos. Para avançar, ele precisa se agachar (dobrar o joelho) e dar um salto. Agachar-se e saltar, no final, acaba sendo um ciclo de alternância. Já no caso do ser humano, quando não dispõe de uma das pernas, precisa de muleta para poder alternar os passos e caminhar.
A repetição sem alternar os fatores nos leva ao desgaste e à degeneração. Sem ciclo não há renovação. Se nos colocarem dentro de uma caixa fechada, poderemos morrer asfixiados porque não existe renovação de ar. Quando respiramos sempre o mesmo ar, a atmosfera fica viciada. Sem renovação, não há crescimento. Seria como um namorado ou uma namorada que vive repetindo e repetindo a mesma coisa, todos os dias, a toda hora. Uma relação como essa não vai para a frente! É necessário que haja variedade de assuntos, diversificação de interesses, amplitude de buscas. É preciso ir para ciclos novos, evoluir. Quando respeitamos os ciclos, a vida flui, se renova e permitimos nossa própria evolução.
A IMPERMANÊNCIA
Os conceitos de mutação e ciclo levam-nos a outro fundamento da sabedoria chinesa: a impermanência. Nem sempre temos consciência dessa realidade. O ser humano tem necessidade de coisas duradouras, constantes, permanentes. Isso nos dá segurança, tranquilidade, uma certeza de continuidade. É reconfortante saber que as coisas vão permanecer estáveis para sempre. As coisas boas, é claro! Porque as coisas ruins não queremos nem saber que existem... Quanto ao que é bom ou ruim, os taoistas têm uma visão interessante e diferente da nossa. Mais adiante, no quinto capítulo, veremos como os sábios encaram essa questão.
As estações do ano mostram que todas as coisas são mutáveis e nada é permanente. Ou, de outro modo, tudo é impermanente. Mas não há estresse na Natureza por causa disso. Nenhuma jaqueira grita para uma jaca algo como: Oh, jaquinha, não vá embora! Olha, a vida lá fora é cruel, todo mundo só pensa em devorar o outro e vão te comer inteirinha! Não se vá, minha jaquinha!
Não acontece nada disso. A jaca simplesmente cai da árvore e a vida continua.
O que ocorre é que nós, seres humanos, somos apegados às pessoas, às coisas e às situações. É comum querer que as coisas sejam permanentes. Muitas vezes, preferimos a ilusão do duradouro à realidade da mutação e impermanência. Queremos que a vida seja do jeito que idealizamos e não do jeito que ela é. Lidar com a impermanência é um exercício de aceitação da realidade.
Desejar que um objeto, uma pessoa, uma situação, ou uma parte da vida nunca se altere é aleijar a existência. Como nada dentro da Natureza existe de forma isolada, tentar manter algo inalterado é impedir que ele continue seu processo de evolução. Pior: todas as coisas que estão interligadas com esse algo também serão prejudicadas.
Imaginemos uma criança dizendo: A carinha deste gatinho é tão bonitinha! Eu não quero que essa carinha cresça!
A criança pode desejar o que quiser, mas o fato é que o rosto do filhote vai crescer em harmonia com o corpo. Se o gatinho se desenvolver e a cabeça permanecer do mesmo tamanho, a desproporção trará problemas no seu desempenho ao se tornar adulto. No casamento acontece a mesma coisa. Se, num casal, apenas uma pessoa muda e se desenvolve, a relação fica desequilibrada.
A Natureza nos mostra a todo instante que a impermanência é um fato e uma necessidade. Pode ser uma realidade difícil de aceitar, mas é a realidade. A consciência da impermanência exige de nós o acolhimento da realidade e o exercício de desapegar das pessoas, dos objetos e das situações. Das ideias e ilusões também. É interessante notar como as ideias e as ilusões são coisas das mais difíceis de renunciar nesta vida. Mas ilusões são ilusões e não realidade.
Bhavya, proprietária de um hotel holístico, ouviu uma conversa que ilustra essa questão. Duas mulheres estavam no hall do hotel: uma senhora idosa e uma mulher mais jovem que havia acabado de se separar. Durante a conversa, a recém-divorciada fez queixas do casamento e do ex-marido e, em certo momento, quando foi tomada pelos ressentimentos, disse: Ah, ele acabou com todas as minhas ilusões!
Ao ouvir isso, a senhora idosa deu um sorriso e disse: Puxa, que bom, não?
A ÁGUA VAI PELO CAMINHO MAIS FÁCIL
Além das estações do ano, os orientais aprenderam muito com elementos específicos da Natureza. A água, por exemplo, é uma grande mestra para os chineses. Ao contemplar os movimentos da água, eles fizeram associações de ideias surpreendentes sobre o que seria um comportamento humano sábio.
Para os chineses, a água não é apenas água. É um exemplo vivo de como a Natureza age e de como as coisas acontecem. Eles a reverenciavam e meditavam a partir do que viam. Foi isso que permitiu aos mestres chegar a uma sabedoria ao mesmo tempo simples, profunda e poética.
Os mestres dizem: A água vai pelo caminho mais fácil
. Não é exatamente isso que nós, seres humanos supersábios e evoluídos, fazemos em todas as situações na nossa vida?
Quem dera...
Quando vemos um filete de água no quintal ou o curso do rio numa paisagem, é fácil entender
essa frase. Mas quantos de nós paramos para pensar sobre essa realidade antes de ter lido ou ouvido essas palavras? Que a água vai pelo caminho mais fácil é um fato tão natural e óbvio que não paramos para pensar sobre o que isso significa.
No dia a dia, pensamos e agimos de modo tão mecânico e somos tão pouco dados a reflexões que não percebemos que seríamos mais sábios se seguíssemos o exemplo da água. Não é o que acontece. Quando observamos nosso próprio comportamento, temos a impressão de que gostamos de complicar tudo. Quanto mais complicado, melhor
, parece ser o lema. Quem já não ouviu a frase: Para que simplificar se podemos complicar?
Infelizmente, por trás dessa frase divertida se esconde uma postura mais frequente do que imaginamos.
Vivemos numa sociedade que aprendeu a valorizar coisas complexas, teorias impenetráveis, palavras rebuscadas, pensamentos mirabolantes, rococós mentais, retóricas exageradas e caminhos complicados. Aprendemos a supervalorizar o trabalho árduo, a insistência, a dificuldade, o sofrimento para conquistar as coisas. Achamos que só é bom aquilo que for sofrido. Isso é masoquismo: Bate que eu gosto!
Sem dúvida alguma, o esforço é uma qualidade importante. O problema é a sua supervalorização e a crença que somente as coisas conseguidas com muito esforço e sofrimento é que têm valor. Para os sábios orientais, qualquer coisa que exija esforço demais não é natural. Ou as coisas acontecem naturalmente, sem desgastes, ou a pessoa está atrás de alguma coisa que não corresponde às possibilidades do momento. Se existe esforço excessivo, a pessoa pode estar tomada pelo desejo e pela obstinação. E, muitas
