Uma história e uma história e uma história: conto dos contos da tradição oral
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Sobre este e-book
Procurando honrar as tradições, referências religiosas e culturais, mas também entendendo as histórias como metáforas itinerantes que ganham nova roupagem sempre que contadas, Ana Gibson e Juliana Franklin, pesquisadoras da arte da palavra encantada, lançam a coletânea "uma história e uma história e uma história" (Folio Digital) com contos tradicionais recontados por elas."
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Uma história e uma história e uma história - Ana Gibson
Ana Gibson
Juliana Franklin
uma
história
e
uma
história
e
uma
história
contos dos contos
da tradição oral
Dedicatória
Aos que trilharam e trilham o caminho dos contos comigo: meus avós maternos, que sempre me alimentaram de histórias de fada, de onça e de capivara; meus pais, que me deram asas para que minha imaginação voasse; meu companheiro, Francisco, que me ajudou a acordar a contadora adormecida; minha filha, Sofia, que me chama todos os dias e todas as noites para adentrar o reino do era uma vez; e aos meus cães e gatos, ouvintes incansáveis e sempre atentos.
Ana
Para minha mãe, Lygia, primeira contadora de histórias.
Para as mulheres narradoras.
Juliana
Agradecimentos
Este livro foi feito a muitas mãos.
Agradecemos a todos os contadores de histórias, escritores, compiladores, estudiosos e amantes dos contos que fizeram chegar até nós as histórias deste livro.
À Regina Machado, pela referência, olhares sobre o nosso caminho de pesquisa e belo prefácio com que nos presentou.
À Julia Grillo e Luiza Leite, pela leitura atenta e preciosos comentários.
À Leigh Melander, da Fundação Joseph Campbell, por ter nos lembrado da história A vendedora de peixes
.
Às contadoras e contadores de histórias que fazem parte da nossa trajetória, pelas histórias que contamos juntos.
A Nicia Grillo, Rute Casoy e Gislayne Avelar Matos, pela palavra iniciadora.
Às amigas e incentivadoras Fabiana Dantas Geraldi, Andrea Graupen e Andrea Samico.
Aos participantes dos nossos cursos, que nos deram as mãos para percorrermos, juntos, histórias.
A todas as amigas e todos os amigos que contribuíram para a realização deste livro, em especial à Laura Uplinger.
Aos familiares Francisco Maiolino, Felipe Messina, Lygia Fassina, Lygia Franklin, Marly e Arlindo Gibson e Sergio Seixas.
Prefácio
A linha e o ponto
Histórias para acordar
O mestre, o aprendiz e o fruto
O que acontece quando alguém realmente ouve uma história
O homem que não tinha história para contar
Como as histórias chegaram até aqui
Poyeshao e a Avó-pedra
Concha de histórias
A arte que congrega todas as bênção
A trama do aranha-gente
Histórias do contador de histórias
Para que serve um contador de história
Para ouvir de olhos fechados
Um grande contador de história
O que é que o contador tem?
E uma história te libertará
Contar feito um papagaio
A grandiosa Kubra
O conto dos contos
Histórias de peso
As paredes têm ouvidos
Carne de língua
Contraindicações:
por que faz mal não contar histórias
A sacola de histórias
Um conto e um canto
Quando quem ouve um conto passa do ponto
Se numa noite de inverno um viajante
Até que o último pássaro nos separe
As bênçãos da palavra
Como os segredos foram parar na ponta da língua de Orunmi
Uma história em busca de quem a escute
Para contar histórias, escuta
A mãe dos contos
Com quantas histórias se faz um rei
A tecelã das noites
A leoa distante e o sábio babuíno
Maskoutsa, a princesa misteriosa
Salvos pela memória
O mestre do bom nome
Antes e depois da palavra
A vendedora de peixes
A história das histórias
Prefácio
São muitas as metáforas nesta coletânea. Dispostas em diferentes direções, planos significativos, camadas de interpretação, afinal, redes. Para usar uma imagem recorrente das autoras, tramas. Ocorre-me que a palavra rede, além de sugerir o vaivém constante de linhas comunicativas para todos os lados, para cima e para baixo, evoca também a rede primordial em que nossos antepassados ameríndios embalavam seus sonhos. É precisamente esse movimento de embalo, lento, leve, como um convite à ousadia de imaginar, que fica para mim como emblema deste livro. Ousar imaginar sem pressa um título, dois, três, e assim por diante. Conceber como apresentar o livro, que contos vão estar dentro de cada título, como reescrever cada conto, como pesquisar fontes para referendá-los cada um a seu modo, como despedir-se dos leitores e leitoras.
A disposição cuidadosa desse conjunto de metáforas me parece ser antes de tudo um convite cheio de paixão para que outras pessoas possam aproveitar da riqueza incomensurável dos contos aqui reunidos. Entendi que a primeira intenção foi compartilhar o bem que essas narrativas finalmente escolhidas fazem às autoras, oferecendo-as como quem compõe um ramalhete de flores variadas, destinadas a alguém muito especial. Do mesmo modo como não escolhemos flores ao acaso para dar de presente, aqui também nesta coletânea não encontramos apenas uma lista de contos em sequência.
Existe um pensamento que organiza a unidade do livro, resultante da vida de estudos e dedicação das autoras à arte da palavra encantada, em que não faltam considerações, achados, perguntas, formulações e espantos. Mas não se trata de uma ordenação prescritiva que direciona rigidamente nossa leitura, levando-nos passo a passo a identificar o que as autoras querem nos dizer
, nem de uma interpretação fixa do material recolhido que resultaria, por exemplo, numa monótona e infecunda listagem de conteúdos de caráter didático.
Nada disso. As múltiplas relações entre títulos que emolduram grupos de contos e os contos propriamente ditos abrem possibilidades e incitam mesmo a muitas leituras diferentes. Cada título não é nunca uma explicação do que vem a seguir: sugere, dá pistas, desafia-nos a interrogar cada conto, a inventar nossa própria maneira de ler. A no mínimo perguntar que relações pressentimos entre os conteúdos possíveis de cada título e os contos ali alfinetados.
Por isso existe uma aberta pulsação sempre presente, nada linear, já que o primeiro título não leva logicamente ao segundo e assim por diante. Balanço de rede é devaneio, não é corrida de obstáculos para se ganhar o prêmio na chegada. O foco não é a chegada, é a alternância de cá pra lá e de lá pra cá, um vaivém entre as imagens do texto, as imagens internas do leitor e novamente as imagens do texto, numa conversa-pesquisa que pode tornar a leitura um caminho de busca de conhecimentos. Ficamos à mercê do nosso próprio percurso, graças a Deus, apenas instigados pelas pistas oferecidas ao longo do encadeamento do livro.
Em tempos de escuta limitada e sonhos esquecidos, quando tudo pode nos separar, contar histórias é apostar na sensibilidade como sentido e linguagem que une e aproxima, que lembra que estamos todos no mesmo barco, enredados numa mesma trama
.1
Quando se dirigem à nossa sensibilidade e desafiam nossa percepção, as autoras nos enredam em muitas tramas: as dos contos relatados, as dos títulos, cujos conteúdos encadeados revelam a viva reflexão que permeia sua pesquisa e ação narrativa, as das entrelinhas apenas adivinhadas nas respirações entre os conjuntos de palavras e, juntando tudo isso, as tramas das nossas próprias histórias pessoais, que se agitam em conversas frutíferas durante nossa leitura.
Desde que existiu pela primeira vez um grupo de pessoas reunido em volta do fogo numa primeva cultura humana, os contos vêm se multiplicando, se difundindo e se transformando pelos espaços e tempos da História. Do mesmo modo que existem mais de quatrocentas versões da Cinderela, incluindo a Maria Borralheira narrada em diversas regiões do Brasil, os contos desta coletânea já ganharam as vozes e as palavras de uma infinidade de narradores e narradoras, sempre foi assim.
Ana e Juliana, também no balanço de suas redes, ousaram sonhar novos nomes, lugares, acontecimentos e experiências, emprestando suas vozes de narradoras aos contos preciosos que aqui reuniram. Mesmo que muitas vezes suas escolhas estilísticas sejam bastante diferentes das que eu faria como narradora – o que não tem a mínima importância para outros leitores – acredito que vale a ousadia de experimentar uma escrita autoral, que nesse caso é acima de tudo apaixonada.
E, sobretudo, vale essa original empreitada, trabalhosa, esmiuçada, respeitosa imersão nesse universo das narrativas tradicionais. Desse mergulho nasce uma obra que é como um clarão a iluminar possibilidades de beleza para esse nosso mundo sofrido, desgastado, seco de maravilha, envolto em papel de jornal com suas manchetes de lúgubre e insalubre desencanto cotidiano. No balanço da rede das palavras bem ditas e bem-vindas dos contos tradicionais aqui recontados, podemos ousar acreditar que a vida humana se narra maior e muito além de qualquer circunstância nefasta, de qualquer temporal tempestade. Viva os heróis e heroínas dessas histórias todas, incluindo as nossas, que nos revelam sermos melhores do que julgamos ser.
Regina Machado
A linha e o ponto
Uma história e uma história e uma história. Há anos, colecionamos histórias como quem junta contas em um fio para um colar ou linhas coloridas para um tapete. Fomos guardando cada uma, sabedoras de que chegaria o dia em que encontrariam seu lugar, umas ao lado das outras, quem sabe nas páginas de um livro.
Nosso caminho de pesquisa é longo, seguindo sempre a trilha da tradição oral dos mais diversos povos. O conto tradicional é repleto de poesia sobre a condição humana, além de trazer nas entrelinhas traços do seu berço de origem. Procuramos honrar as tradições, referências religiosas e culturais, mas também entendemos as histórias como metáforas itinerantes que ganham nova roupagem sempre que contadas. Neste livro, tivemos o cuidado de vestir as narrativas com nossas palavras e imagens, sem jamais mudar sua estrutura.
No garimpo desse rico material, vimos que tínhamos um considerável acervo de histórias que falam de histórias. Nada mais natural do que seguir o risco desse bordado e homenagear as histórias e os que têm amor por elas. Sabíamos que precisaríamos escolher o que entraria ou não no livro: decisão difícil que nos apontava, a todo momento, para aquilo que é realmente suficiente.
As histórias escolhidas poderiam ser agrupadas de muitas maneiras. Resolvemos reuni-las de modo que uma converse com a outra, criando pontos de contato – ou não – entre si. São fios de diversas espessuras e cores que, juntos, formam uma só tessitura. Este é só mais um critério, um modo que escolhemos para falar das histórias.
Convidamos o leitor a mergulhar nesse universo e agregar, a esses, muitos outros contos. Como já dizia Guimarães Rosa, o livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber
.
E, como quem conta um conto aumenta um ponto, acrescentamos não uma, mas duas pequenas narrativas:
Uma velha tece
um manto para o búfalo, animal sagrado. Esse manto é o próprio mundo. Ela tece, com paciência e habilidade, tendo como companhia um enorme cão preto, Shunka Sapa. De vez em quando, precisa parar de tecer para mexer o caldeirão onde estão as sementes da terra. Em uma dessas idas ao fogão, o cachorro puxa um fio solto do manto tecido... e lá se vai todo o trabalho! A velha, pacientemente, começa de novo. Ainda bem que o cão desmanchou todo o manto, pois se um dia for terminado, o mundo acaba, acreditam os Sioux2.
Vários monges reunidos
contam a história eterna, que sustenta o universo, a história sem a qual nada existe. Se pararem de contá-la, o mundo acaba. O diabo fez com que todos se calassem. Mas o fogo ainda crepita. A neve ainda cai. O vento ainda sopra. Nada muda. Um pássaro surge – sinal de que, em algum lugar do mundo, neste instante, alguém conta uma história. Que sustenta o universo. É por isso que estamos todos aqui3.
Novelos, urdiduras... Os fios das histórias vêm sendo tramados desde tempos imemoriais. A história nunca acaba de ser tecida, assim como o manto do búfalo. A história nunca é silenciada; quando se cala aqui, alguém retoma o fio da meada ali adiante e começa a contá-la com outras nuances, outros matizes.
Que a linha, da vida e dos contos, seja longa. Era, é, sempre será uma vez...
As autoras
Histórias
para
acordar
O
